A ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA NA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR

Antonio A. F. COPPE

PRECISO FAZER ALGUMA COISA

PARA AJUDAR O HOMEM (…)

É PRECISO AJUDAR.

PORÉM PRIMEIRO,

PARA PODER FAZER O NECESSÁRIO,

É PRECISO AJUDAR-ME, AGORA MESMO

A SER CAPAZ DE AMOR, DE SER UM HOMEM.

EU QUE TAMBÉM ME SEI FERIDO E SÓ,

MAS QUE CONHEÇO ESTE ANIMAL SONORO

QUE PROFUNDO E FEROZ REINA EM MEU PEITO”.

THIAGO DE MELLO

Este artigo é fruto do trabalho realizado, desde 1991, como professor-supervisor (enfoque humanista—existencial) no Hospital de Pronto-Socorro João XIII em Belo Horizonte, MG. É um relato da aplicabilidade da Abordagem Centrada na Pessoa (A.C.P.) em uma instituição hospitalar.

Inicialmente, gostaria de tecer algumas considerações sobre a pessoa do paciente, uma vez que ele é o motivo da nossa ação. O paciente hospitalar, geralmente vivencia uma experiêcia de despersonalização quando, ao ser internado, se vê transformado em número ou reduzido a um sintoma.

O paciente ao se submeter a determinado tratamento, não deixa na portaria do hospital a sua essência humana e a sua identidade pessoal; ele traz consigo tudo aquilo que ele é: seus sentimentos, suas percepções, sua educação, seu modo de simbolizar o mundo e toda a sua experiência de vida.

Portanto não justifica se referir a ele como o ‘TRM do 801 ou TCE do 802”, pois isto significaria a valorização da doença em detrimento da pessoa e também, demonstraria o desinteresse em conhecer a pessoa do paciente.

Um outro aspecto da despersonalização do paciente, é o fato de, às vezes, a equipe médica discutir o seu caso na sua presença como se ele não estivesse ali. A justificativa dada para tal procedimento é o do paciente não entender a linguagem técnica ou o do trabalho que tem que andar rápido. Esta postura implica em julgar os pacientes infantis e incapazes de participar de uma conversa adulta.

Com relação aos sentimentos do paciente, o que pode ocorrer é uma desconsideração, como se estes sentimentos não existissem ou não se justificassem.

Ficaríamos surpresos, também, ao descobrir que os pacientes geralmente temem a equipe hospitalar. Eles, muitas vezes não se queixam do que lhes sucedem no hospital, temendo serem mal tratados. Alguns acreditam que se solicitarem muito ao pessoal do hospital, ninguém os atendera quando estiverem em sérias dificuldades e precisarem de socorro imediato. Essa situação mostra que os pacientes não são livres enquanto permanecem no hospital.

Encerrando estas descaracterizações, devemos atentar para mais dois aspectos existentes na relação da equipe médica com o paciente:

l.) Honestidade e Profissionalismo: onde não se diz a verdade por julgar que a equipe sabe o que é melhor para o paciente; e

2.) Emoções e Profissionalismo: como se as emoções pudessem atrapalhar o tratamento. Chorar com o sofredor é uma atitude humana e quando negamos e reprimimos os nossos sentimentos estamos negando a nossa humanidade. E, é óbvio, que nossa eficiência profissional aumentara quando deixarmos de negar o que sentimos, quando tratarmos de pessoas ou invés de doenças e quando incluirmos os pacientes como membros da equipe de tratamento.

Diante do exposto, veremos agora algumas considerações sobre o atendimento psicológico-hospitalar: sabemos que a doença é uma fase de crise na vida de qualquer pessoa: ela causa uma ruptura no cotidiano e com isso, afeta a pessoa globalmente. atingindo seu nível afetivo-emocional, ir e social. Além disso, a doença e o sofrimento são manifestações ameaçadoras que geram medos, ansiedade e insegurança.

Em função da separação do paciente com o seu meio-ambiente provocado pela hospitalização, veremos que do ponto de vista psicológico, a agressão e o comprometimento físico dos limites do seu EU corporal devem ter intensa repercussão no seu auto-conceito, na imagem de si mesmo, ameaçando o reconhecimento de sua própria identidade e de outros aspectos já citados. Além disto, ao deixar o hospital, esses pacientes deverão adaptar-se a sua nova realidade enfrentar suas limitações e elaborar novos modos de interagir com o mundo.

Estas colocações apontam, claramente, para a necessidade e a relevância do atendimento psicológico ao paciente hospitalar. Porém como implementar este trabalho?

A implementação deste trabalho deve considerar três vertentes:

I – o hospital

II – o psicólogo

III – o paciente

Em primeiro lugar, a instituição hospitalar (geralmente os médicos) deve reconhecer a necessidade e a importância da presença do psicólogo na equipe, aceitando-o; pois, historicamente, o hospital é do médico, e neste contexto é fundamental saber o que a instituição espera do psicólogo.

Com relação ao psicólogo, é importante que ele se pergunte. continuamente, qual o seu papel no hospital e com o paciente uma vez que ele não é um auxiliar do médico e nem visita para o paciente.

O psicólogo deve ter em mente, também, que a transposição do modelo clínico para o hospital é inefetivo. O atendimento psicológico hospitalar quebra os modelos clínicos. pois o contexto é outro, ou seja, o paciente não foi ali à procura de um psicólogo, ou melhor, de uma psicoterapia. Além disto, a psicoterapia não cabe no hospital devido à exigüidade do tempo e à rotatividade dos pacientes. Então cada sessão de atendimento deve ser vista como a última sessão. E isto é motivo de muita angústia para o psicólogo iniciante; ele sempre deparará com a questão da sua efetividade profissional: o que faço, ajuda?

Focalizando e terceira vertente, que é o paciente, veremos que, geralmente, ele apresenta três tipos de problemas:

1 — Subjetivos: PRESENTE X PASSADO

Aceitação da realidade e possibilidade de reorganização

AFETIVIDADE, CULPA E DEFRESSÃO

CONTATO COM O CORPO AUMENTA (imagem corporal)

II — Com a Equipe: FANTASIAS E MEDOS SOBRE O TRATAMENTO

Necessidade de integrar-se com a enfermagem e com os médicos

III — Com a Família: REDISTRIBUIÇÃO DE PAPÉIS

Para que o psicólogo possa trabalhar estes problemas, duas coisas são essenciais:

l.) Que o paciente reconheça a necessidade do atendimento e consinta em dele participar; e

2.) Que o psicólogo, através da sua condição pessoal, possa oferecer ao paciente uma escuta empaticamente compreensiva, ajudando—o a transcender este momento tão crucial para ele.

E é aqui, que o principio fundamental da ACP, crença na capacidade do individuo, deve estar arraigado na pessoa do psicólogo. Pois, de posse deste principio. operacionalizado conceitualmente na tendência à atualização, o psicólogo pode oferecer condições facilitadoras para que o paciente se resgate como pessoa e se reorganize diante da sua nova realidade.

Neste momento, o psicólogo se coloca como uma oportunidade (liberdade experiencial) para que o paciente, a partir de suas percepções e referências, entenda e aceite a sua nova condição de ser no mundo.

Encerrando, gostaria de enfatizar que, o que a ACP na instituição hospitalar tem a oferecer, é um ouvir sensível através do qual o paciente será reintroduzido na sua existência.

(1) Este trabalho, relato de experiência do autor, foi apresentado no VII Encontro Latino-Americano da Abordagem Centrada na Pessoa, de 09 a 16 de outubro de 1994. em Maragogi/AL

(2) Psicólogo, psicoterapeuta, membro fundador do Grupo Mineiro de Psicologia Humanista (SFUMPSIH) e professor do Departamento de psicologia de PUC em Belo Horizonte.

Apresentado no VII Encontro Latino Americano da ACP

09 a 16 de outubro de 1994 – Maragogi- AL – Brasil