A ACP, a criança e o brincar

Adriana Maria Farias de Melo

RESUMO

Este artigo tem o intuito de identificar pressupostos da Abordagem Centrada na Pessoa no brincar vivido pela criança. Além disso, fica aqui registrado a admiração que tenho pelo modo espontâneo e autêntico que a criança possui de viver.

Fazendo uma explanação no brincar, e na importância que este assume no desenvolvimento infantil, surgem as características da Abordagem Centrada na Pessoa que serão enfatizadas no corpo do trabalho.

Pode-se dizer de antemão que a brincadeira aqui sugerida, sendo vista como retrato de uma infância, é Centrada na Pessoa – A Criança!

“Hoje a experiência e a ciência confirmam que brincar não significa somente uma diversão. A brincadeira é uma preparação para a vida e, no presente, é a própria vida das crianças, que devemos respeitar.” [ Benites, 1993: p. 11.]
Ao me preparar para elaborar minha monografia, que se refere a Importância do Brincar para o Desenvolvimento Infantil, me deparei com o mundo mágico das crianças. Aos poucos fui me apaixonando cada vez mais pelo seu modo de viver; sua espontaneidade e sua autenticidade estão sempre presente nas suas experiências, principalmente nas brincadeiras.

É através da brincadeira que a criança vivencia experiências importantes para a sua formação pessoal. Ao brincar ela conscientiza-se do mundo que lhe rodeia, e passa a perceber-se como Ser-No-Mundo.

Pode-se considerar que a ludicidade é a primeira forma de comunicação da criança, afinal, antes mesmo de comunicar-se, através de sons e balbucios, a criança brinca com as pessoas que estão perto se si. Entregando-se aos momentos lúdicos, as crianças vivenciam os conceitos adquiridos do/e sobre o mundo, e estando livre nas suas brincadeiras, caberá a ela reafirmá-los ou reconstituí-los.

A entrega da criança permite que ela viva a sua personalidade, assim o momento da brincadeira pode ser visto como um encontro consigo, onde o turbilhão de experiências vividas podem se organizar, passando a compor o seu modo de ver o mundo e a constituir o seu EU.

Em meio a brincadeira das crianças consigo perceber a Abordagem Centrada na Pessoa, afinal, durante o brincar a criança vive sua autenticidade, onde a aceitação e a compreensão das pessoas que a cercam são fatores importantes para um desenvolvimento saudável.

“ Importante é que os pais compreendam a imaginação do filho e sua razão, e não se preocupem em provar que se trata de uma mentira, apesar de não aceitarem que é uma realidade.” [Lerner, 1980: p. 109.]
Outro aspecto presente na Abordagem Centrada na Pessoa, que se faz presente no brincar é a valorização da liberdade, nas brincadeiras é importante que a criança tenha autonomia, cabendo a ela escolher a sua brincadeira, delimitar suas regras, brincar livremente.

“ A liberdade que se trata aqui é de outra ordem. Relaciona-se essencialmente: com a experiência, isto é, com os fenômenos internos. Consiste no fato de que o indivíduo se sente livre para reconhecer e elaborar suas experiências e sentimentos pessoais como ele o entende.” [Rogers & Kinget, 1977: 46]
Ao brincar as crianças expõem-se verdadeiramente, para elas esses são momentos seus, onde não precisam esconder-se, pois aos olhos externos elas estão apenas brincando, porém, para si elas estão vivenciando experiências muito importantes, onde o brinquedo torna-se o seu “instrumento de trabalho”, e neste brincar tudo é permitido (com limites). A liberdade faz com que a criança vivencie sem medo o seu verdadeiro modo de ser, e assim seus sentimentos afloram e são vividos com toda intensidade.

Diante de sua liberdade, e sentindo-se aceita, a criança conversa com seus brinquedos – incluem-se como brinquedo os amigos imaginários -, onde a imaginação ganha asas e pode voar. Durante esta experiência tão rica para a criança, ela vivencia seus conflitos, tensões, tristezas, realizações, frustrações, alegrias …, assim pode-se dizer que as emoções encontram-se presentes nas brincadeiras, e que através delas as crianças podem expressar seus sentimentos mais verdadeiros.

Brincando a criança busca sua realização pessoal, e neste momento ela experiencia conquistas e derrotas. É na brincadeira que ela se depara com a realidade de não estar sozinha no mundo, a partir de então, passa a construir suas relações afetivas e sociais.

Utilizando-se do brincar, a criança busca a sua auto–superação, o que me faz lembrar da Tendência Atualizante citada por Rogers, afinal o momento “mágico” do brincar proporciona a criança um ambiente facilitador e positivo para o seu crescimento pessoal.

“A tendência à atualização é a mais fundamental do organismo em sua totalidade. Preside o exercício de todas as funções, tanto físicas quanto experiênciais. E visa constantemente desenvolver as potencialidades do indivíduo para assegurar sua conservação e seu enriquecimento, levando em conta as possibilidades e os limites do meio.

(…) O que a tendência atualizante procura atingir é aquilo que o sujeito percebe como valorizador ou enriquecedor – não necessariamente o que é objetiva ou intrinsecamente enriquecedor.” [Rogers & Kinget, 1977: p. 41.]
As crianças ligam-se afetivamente (comumente) com as pessoas que estão próximas a elas, principalmente com aquelas que lhe dedicam atenção facilitando-lhe realizações pessoais através do respeito pelo seu modo de ver o mundo, e de agir nele, ou seja, as crianças criam mais facilmente laços afetivos com aquelas pessoas que respeitam a sua individualidade e aceitam o seu jeito de ser.

Aqui posso identificar na infância mais um ponto fundamental para a Abordagem Centrada na Pessoa, me refiro agora a Aceitação Positiva Incondicional,

“A Aceitação Incondicional consiste numa postura ou atitude de consideração irrestrita; numa atitude de abstenção de julgamentos, o que implica que o terapeuta não aprova ou desaprova, ou mesmo se opõe a qualquer elemento expresso, verbal ou não verbal, direta ou indiretamente, pela pessoa do cliente.” [Gobbi, 1998: p. 14.]
Deste modo, torna-se fácil ver que a Aceitação Incondicional deve estar presente no brincar, afinal as brincadeiras são as experiências mais presentes da infância, onde a criança passa a perceber-se, e a aceitar-se como pessoa. A aceitação das pessoas torna-se importante para que o infante seja autêntico, e para que o seu jeito de ser seja congruente com as suas verdades, o seu jeito de ver o mundo.

É através da brincadeira que o infante passa a perceber-se, assim ele começa a internalizar seus valores. Brincando a criança vivencia o que ela considera certo e errado, aprovando ou reprovando o que extraiu de suas experiências anteriores, neste momento a criança vivencia o seu EU, e os valores sociais que a influenciam direta ou indiretamente na construção de seus conceitos.

“A infância é, também, a idade do possível. Pode-se projetar sobre ela a esperança de mudança, de transformação social e renovação moral.” [Kishimoto – Santos, 1997: p. 24. ]
O convívio social é experienciado pelas crianças durante as brincadeiras coletivas. Esses são momentos muito importantes para o desenvolvimento de sua personalidade. Ao brincar em grupos, as crianças vivenciam o respeito mútuo, ao mesmo tempo que sentem-se respeitadas; e assim apreendem a importância do respeito pelo indivíduo como pessoa, como Ser-No-Mundo.

“ Este respeito se justifica, de um lado, pelo fato de que esta estrutura existe num ser capaz de escolher – capaz, não de modelar seu destino de acordo com sua vontade, mas de influir em seu curso de uma maneira apreciável.” [Rogers & Kinget, 1977: p. 135.]
Nas brincadeiras coletivas, torna-se evidente a necessidade que as crianças têm de ser compreendidas, ao mesmo tempo em que passam a desenvolver o seu senso de compreensão, deste modo mais um pressuposto da Abordagem Centrada na Pessoa surge – a empatia -, durante o desenvolvimento do brincar espontâneo.

“Conceitualmente é a capacidade de se colocar no lugar do outro e perceber do ponto de vista dele, ‘com nuances subjetivos e os valores pessoais inerentes’. Consiste na imersão do mundo provado do outro, ‘como se fosse’ este outro. É a tentativa de compreender o significado pessoal do outro.” [ Gobbi, 1998: p. 59.]
A brincadeira possui múltiplas características que justificam o seu valor para o desenvolvimento infantil, principalmente no que diz respeito a formação de um adulto equilibrado e consciente. Conhecer a criança e seus momento, é fazer-se presente na sua brincadeira, pois o contato com os seus momentos mágicos oferece-nos a oportunidade de melhor compreendê-la, e a nós mesmos. Participar da brincadeira da criança, é valorizar o seu vivido, como faz um terapeuta centrado que prioriza o vivido do seu cliente no momento terapêutico.

Ao brincar a criança descobre-se através de suas possibilidades e limitações, portanto torna-se importante um ambiente facilitador para o brincar,

“O meio ambiente facilitador e propício é aquele que permite a criança ser criança, usando seu corpo, seus movimentos, seus cinco sentidos e sua intuição para usufruir a liberdade de escolha para brincar.” [ Machado, 1995: p. 22.]
Através da brincadeira a criança consegue encontrar significados e sentidos para a sua vida, ao mesmo tempo que desenvolve a sua personalidade. O brincar é capaz de promover vivências que mais adiante servirão de suporte para aliviar as tensões, pois a experiência vivida dará a ela uma prepaparação para superar (melhor) momentos difíceis ao longo de sua vida.

As experiências vividas nas brincadeiras são processos evolutivos que constróem a auto-confiança da criança, pois ao passo que ela conscientiza-se de que é capaz de realizar uma tarefa, ela tende a buscar sua evolução para conquistar outras capacidades.

Porém, é importante que a criança sinta-se segura e livre, ao mesmo tempo que é motivada. A presença de alguém para apoiá-la, compreendê-la e dar-lhe a atenção necessária é imprescindível, contanto que este suporte não manipule o seu brincar.

“ Para progredir, a criança precisa ser respeitada e sentir-se ouvida … mas sem ser atropelada! Presença e disponibilidade por parte do adulto constróem um lado afetivo, mas é preciso ter claro que cada brincadeira é uma busca; uma interferência direta pode impedir que a criança faça suas descobertas e domine dificuldades.” [ Machado, 1995: p. 25.]
A liberdade para brincar e para manipulara brincadeira, significa respeitar a criança, afinal ela é um ser único que está em desenvolvimento, processo que deve ocorrer do seu modo e no seu ritmo. A exploração, a descoberta e a apreensão da realidade são experiências vividas durante a brincadeira. Quando brinca a criança traz para dentro de si o que está ocorrendo no mundo a sua volta, o “faz-de-conta” e a exacerbação do imaginário não passam de uma formulação interna da criança sobre o externo.

Outro aspecto importante do brincar, encontra-se na expressão verdadeira dos sentimentos, idéias e fantasias das crianças. Esta é a maneira da criança se relacionar com o real e o imaginário, assim como, com a cultura na qual está inserida.

A brincadeira não é apenas um momento de lazer, ela é a descoberta, a persistência, a perseverança, o desenvolvimento do raciocínio, a potencialização das capacidades da criança; enfim é o crescimento.

O brincar permite que a criança perceba o valor da verdadeira conquista adquirida através do esforço pessoal. O momento lúdico é mágico para a criança, afinal ela utiliza-se habitualmente de sua criatividade dando “vida” ao brinquedo, mobilizando-o, transformando-o, reinventando-o. Desta maneira a criança tem a oportunidade de ampliar seus horizontes durante o brincar.

Crescendo em um ambiente flexível, a criança terá a oportunidade de vivenciar seus conceitos, suas opiniões e assim adquirir auto-confiança ao passo que atinge uma criatividade aguçada. O brincar é uma atitude constante de aprendizado, é uma experiência na vida da criança.

“ Ao brincar a criança pensa, reflete e organiza-se internamente para aprender aquilo que ela quer, precisa, necessita, …” [ Machado, 1995: p. 37.]
Brincar é arriscar-se sem medos, é a expressão dos sonhos e das expectativas. É necessário que a criança possua o espaço para libertar-se, para encontrar-se consigo, para expressar seus sentimentos, suas angústias seus temores.

A vivência dessas emoções é a chave para um crescimento saudável; através dela a criança descobre-se como um ser total capaz de enfrentar dificuldades e vivenciá-las de modo construtivo. As experiências são momentos vividos, ao mesmo tempo que é a “preparação” para momentos futuros.

“ O brincar é. Encontrar-se no espaço do sonho. Uma criança livre, feliz, brinca quando come, quando sonha, quando faz seus pequenos discursos poéticos.” [ Machado, 1998: p. 19.]
A expressividade do brincar permite que a criança apreenda o seu mundo, compreendendo-o ao seu modo, de acordo com sua percepção. A sua visão do mundo é capaz de transformá-lo, afinal ela irá construí-lo como ela o vê.

Diante de tais colocações, torna-se difícil dissociar o brincar da visão Centrada na Pessoa, afinal, é inegável que crianças são pessoas, e que seu modo de vivenciar o mundo é Centrado na Pessoa.

Partindo da autenticidade das crianças, e da sua força interior que sempre a impulsiona para uma caminho de auto-superação, cada vez mais admiro o seu jeito de ser, assim como, acredito que dentro de cada adulto existe uma criança pedindo para vir à tona, basta deixá-la sair e experienciar mais uma vez a alegria de ser criança!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENITES, Marcello. Vivendo e Aprendendo … a Brincar. Cidade Nova, ano XXXV, n.3, p. 10-11, março, 1993.

GOBBI, S. L. & MISSEL, S. T. Abordagem Centrada na Pessoa: Vocabulário e Noções Básicas. Tubarão: Ed. Universitária UNISUL, 1998.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Brinquedo e Brincadeira: Usos e Significações Dentro de Contextos Culturais. In: Brinquedoteca: o espaço lúdico em diferentes contextos. Organizado por Santa Marli Pires dos Santos. Petrópoles: vozes, 1997.

LERNER, Léa. Criança Também é Gente. Rio de Janeiro: Bloch, 1980.

MACHADO, Marina Marcondes. A Poética do Brincar. São Paulo: Loyola, 1998.

__________. O Brinquedo-Sucata e a Criança: A Importância do Brincar – Atividades e Materiais. 2ª Edição. São Paulo: Loyola, 1995.

ROGERS, C. R. & KINGET, G. M. Psicoterapia & Relações Humanas. 2ª Edição. Vol. 1. Belo Horizonte: Interlivros, 1977.
Apresentado no III Fórum Brasileiro – Ouro Preto – outubro 1999