A ACP como um assessoramento na escolha de um projeto de vida em momentos críticos

Maria do Céu Lamarão Battaglia

Histórico

O início de minha atuação nesta área se deu através de um trabalho específico em Orientação Vocacional (OV). Em paralelo ao curso de formação na ACP comecei a atender clientes em OV no enfoque clínico, com os quais eu não utilizava testes, ao menos na maneira tradicional, onde ao final de oito sessões individuais o cliente se definia profissionalmente.

A medida em que este trabalho foi se desenvolvendo e que fui atuando em outras áreas como psicóloga, pude começar a fazer uma ponte entre a escolha profissional e as demais escolhas de vida. A partir daí, ficou muito claro que este mesmo trabalho, inicialmente realizado apenas a nível de OV, poderia ser transferido para qualquer situação onde o indivíduo necessitasse de uma redefinição de papel ou de atribuição de vida. Não seriam então estes casos semelhantes ao cliente adolescente, universitário profissional que vem até mim em busca de uma Orientação Vocacional? O que estariam, em última instância, buscando estas pessoas? Ao responder estas perguntas pude então descobrir que a busca destes diferentes “grupos” era uma só. Tanto os que procuravam OV, quanto os aposentados, os pacientes terminais, pessoas como as donas de casa com a “síndrome do ninho vazio”, enfim quaisquer pessoas que por necessidades externas fossem compelidas a reformular a maneira como viviam até aquele momento, buscavam em última análise: realização pessoal; o que e quem poderiam chegar a ser; iniciar um movimento na direção de uma autonomia de vida; que atividade desenvolver, como, quando, onde e para que; definir e escolher seu futuro status social e econômico. Buscavam a felicidade.

A partir destas necessidades do cliente, comecei então a trabalhar suas escolhas pessoais independente do “grupo a que pertencesse”, desde que no contrato este tivesse sido o objetivo do trabalho. Uma determinada escolha, a partir de uma decisão pessoal e responsável do próprio indivíduo. Desta maneira, o cliente é considerado como a pessoa que escolhe. Como uma pessoa que pode chegar a uma decisão, desde que consiga superar alguns conflitos e barreiras que o estão impedindo no momento.

Visto isto, fica evidente que não é qualquer pessoa que, realizando este trabalho, se definirá ao final do processo. Sendo assim, se faz necessária uma entrevista anterior para avaliar o nível de comprometimento emocional, de conflito interno e de motivação que o indivíduo apresenta, para só então iniciar o processo. Sendo este trabalho um assessoramento ao auto conhecimento, a escolha responsável prospectiva, autônoma e independente não poderia icontecer de maneira diversa.

Como durante o processo muitos aspectos da personalidade do cliente afloram e são mostrados, mas não trabalhados, é extremamente enriquecedor quando este se dá em paralelo a um processo psicoterapêutico. Em diversos casos, recebi excelente feedback de terapêutas de clientes que atendi dentro desta proposta.

Um outro fator que me leva a fazer uma revisão de meu trabalho psicoterápico é a nossa realidade atual no que diz respeito a tempo. Tenho questionado muito o tempo dispensado hoje ao processo terapêutico tradicional. Ainda não tenho a resposta, mas sinto que cada vez mais se toma incompatível com a realidade despender-se alguns anos de nossas vidas para tentar superar um conflito ou resolver um problema.

Hoje podemos praticamente dividir o mundo em dois momentos: antes e depois do computador. A partir de um conhecimento mínimo das possibilidades de um computador, podemos nos deparar com a nova dimensão de tempo que este instrumento nos obriga a absorver. Partindo desta realidade, fica evidente que não podemos mais levar um tempo longo para resolver qualquer situação em nossas vidas. Não temos também tempo disponível para irmos durante um período longo, duas a três vezes por semana, a um consultório de psicoterapia. Isto sem falar no fator econômico que nos obriga a uma sobrecarga de atribuições e nos impede de diversos gastos.

Em termos da psicoterapia propriamente dita, não sei ainda que rumo poderemos tomar dentro de uma visão humanista-existencial. Mas, partindo dos fatos citados anteriormente, acredito e insisto no tipo de trabalho que proponho, já que ele se destina à profilaxia e pode, desta maneira, ser facilmente realizado em breve espaço de tempo, atendendo assim as necessidades da realidade atual.

O Teste Vocacional e o Aconselhamento

A idéia do Teste Vocacional partiu de Frank Parsons nos EUA, em Boston, onde foi criado o primeiro serviço de orientação. Este serviço entretanto era específico à orientação profissional, totalmente voltado à análise de profissões e meios para diagnóstico das aptidões individuais. Estas idéias, baseadas em medidas psicométricas e com preocupações pedagógicas, se estenderam rapidamente ao setor escolar propriamente dito. Surgiu então, em 1912, a expressão “Orientação Educacional’ usada pela primeira vez por Kelley.

A orientação educacional no Brasil surgiu também no terreno restrito da orientação profissional. Os primeiros trabalhos foram iniciados em 1924 no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo pelo professor Roberto Mange. Visava selecionar e orientar alunos matriculados no curso de mecânica.

A partir daí, em diversas escolas do país foram surgindo projetos de orientação profissional e educacional. Em 1947, ocorreram as primeiras nomeações de orientadores educacionais em escolas de São Paulo. Também em 1947 foi criado no Rio de Janeiro, como órgão da Fundação Getúlio Vargas, o Instituto de Seleção e Orientação Profissional-ISOP, sob coordenação de Emílio Mira y López. De renome internacional, o ISOP contribuiu enormemente para a difusão e o aperfeiçoamento das técnicas de orientação, tanto no Brasil como nos países latino-americanos.