A COMUNIDADE COMO AGENTE DE SAÚDE MENTAL – RELATO DE EXPERIÊNCIA

Eva Lúcia da Costa Oliveira

Pretendo falar aqui do trabalho que tenho desenvolvido em saúde mental coletiva no âmbito da atenção básica do SUS, tendo como referencial teórico a Abordagem Centrada na Pessoa, os pressupostos defendidos pela Reforma Psiquiátrica e pelo Movimento da Luta Antimanicomial, bem como considerando de modo especial, as necessidades particulares do município no que se refere a atenção às pessoas portadoras de sofrimento psíquico.

Este artigo traz em si, as contradições que vivo no cotidiano, permeadas pelo meu jeito de ser, pela relação estabelecida com os usuários e com os gestores e pelas condições de vida que encontramos e que sofremos num município recém nascido, marcado pelas desigualdades sócio-econômicas e pelo desemprego. Assim, uma tarefa a priori fácil e simples – escrever o que vivencio nesta realidade, no desenvolvimento desta proposta em saúde mental na atenção básica – torna-se difícil, porque estou inserida nela e ao escrevê-la, re-escrevo minha prática em psicologia, meu papel e minha existência como pessoa. É assim que tenho me sentido desde que comecei a trabalhar em Fazenda Vilanova – desde dentro desta comunidade, disponível para recebê-la e trabalhar com o que dela ressoa em mim, como diz Rud(2004), p. 18, com o “entre” nesta relação.

A criação dos serviços substitutivos no processo de desinstitucionalização psiquiátrica, têm sido marcadas, em sua maioria, por velhas fórmulas, muitas vezes calcadas em referenciais teóricos descontextualizados e nem sempre facilitadores. Os currículos são revisados freqüentemente, mas a formação do psicólogo permanece sem muita alteração na última década. Saldanha, em sua recente pesquisa sobre o trabalho do psicólogo nos serviços públicos, refere que ”ainda hoje os psicólogos buscam um modelo de “fazer psicologia” nos serviços de saúde”(p.23).

Pretendo com este artigo, apontar e refletir sobre novas possibilidades de desenvolvimento do potencial da comunidade na desmistificação da loucura e na produção de maior qualidade na vida das pessoas usuárias do SUS, ressaltando que nosso papel aqui é como facilitador do processo de reflexão coletiva e não como detentores do saber “psi”. Parece possível transpor aqui o que Rogers propõe quando se

refere a confiança que podemos ter nas pessoas, para a comunidade. Ela sabe o que é melhor para ela, conhece suas necessidades e têm suas respostas. Precisa da nossa disponibilidade para facilitar os processos dela emergentes mas exige que sejamos capazes de ouvi-la em sua amplitude e complexidade.

A experiência aqui relatada, é desenvolvida pela equipe de saúde de Fazenda Vilanova, um município de cerca de 3.500 habitantes, com uma única UBS(unidade básica de saúde) onde a saúde é garantida através do PSF(Programa de saúde da família), que atende 100% da população. Este projeto – Atenção Básica em Saúde Mental – vem sendo desenvolvido desde abril de 2002 e está inserido na proposta do PSF, tendo como base os princípios e diretrizes do SUS.

É um projeto que tem sido construído por muitas mãos – equipe de saúde (enfermeiras e técnicas de enfermagem, agentes comunitárias de saúde, médicos, psicólogos e assistente social,), usuários, familiares e comunidade – todas igualmente importantes; e a partir de muitas falas e compartilhamentos que avaliam, ampliam e melhoram continuamente o trabalho. Todos de alguma forma autores deste projeto, escrevendo a história da Saúde Mental neste município e inscrevendo-nos na luta por respeito, dignidade e cidadania para o portador de sofrimento psíquico.

1. Abrindo caminhos – a vida pulsa nas descobertas…

Correndo o risco de me estender mais do que gostaria, estou impelida, neste momento, a dizer da inserção e da relação que tenho com esta comunidade e com o trabalho em saúde mental coletiva. E para isso vou fazer uso das primeiras impressões registradas em 2002, depois de 4 meses de trabalho.

1.1 – Botando o pé na estrada…

Aquele não era um convite qualquer, era um convite da “minha terra”, “do meu interior” para que eu voltasse (quase 30 anos depois) e desenvolvesse um dos projetos que mais me apaixonei durante a formação em psicologia (12 anos atrás) – os estágios de psicopatologia e psicologia clínica realizados durante a implantação do Serviço de Saúde Mental de Novo Hamburgo, cidade onde moro e que é hoje um dos pólos de referência em Saúde Mental do Estado do RS. Entre medos e inquietações, botei o pé na estrada desbravando algo que rasgava minhas entranhas. Não sabia ao certo o que encontraria no km 368 da BR 386, se era apenas um lugar, se era a possibilidade de um trabalho novo e apaixonante ou se o resgate de mim mesma… Ou será tudo isso? Eu que tantos vôos tinha alçado nos últimos tempos, era agora jogada de volta para as minhas raízes. Qual era o sentido disto para a minha vida? Eu não sabia, mas parecia que meu corpo se enchia de luz…

1.2 – Desejos e necessidades…

Para minha surpresa, encontrei duas pessoas(gestoras) mobilizadas pela recente internação psiquiátrica de dois alcoolistas e de uma mulher com cerca de 30 anos que “surtara” e não saía da porta da casa da secretária de saúde, como que pedindo socorro para um sofrimento que extrapolava o que ela podia suportar – tirava a roupa, falava alto, gesticulava, chorava – como que usando todas as linguagens do seu corpo para comunicar o que parecia ser incompreensível pelos outros. Mobilizadas também com o que viram e sentiram olhando o filme O Bicho de Sete Cabeças, que a 16ª Coordenadoria Regional de Saúde havia oportunizado para os gestores em saúde da região.

Negociações, contratos, combinações e o primeiro dia de trabalho. Era dia de reunião geral da equipe e combinamos que neste primeiro encontro eu seria apresentada e faríamos uma reflexão sobre o tema Saúde Mental. No meio da reunião, entre questionamentos e revelações sobre cada um, sobre a equipe e sobre a comunidade, uma surpresa: entra pela porta a mesma mulher, chegando depois de 30 dias internação. Parecia estar “de volta pro seu aconchego, trazendo na mala bastante saudade…”(música: De volta para o aconchego, cantada por Elba Ramalho). Gestos ainda contidos pela sedação psiquiátrica, mas um largo sorriso no rosto e olhos que brilhavam de alegria ao reconhecer seu lugar, sua gente. Era como se ela se reencontrasse nas pessoas conhecidas. Beijava cada face, tocava cada corpo e confirmava os nomes de cada pessoa da equipe. “E tu Fulana?”, como que querendo ter certeza de que estava ali, perto de casa e de que o que estava vi-vendo não era mais uma alucinação. Doloridas mas felizes coincidências. Foi nesse clima que eu também fui recebida e acolhida em Fazenda Vilanova e pude receber e acolher M.J. no seu retorno do hospital psiquiátrico.

Perdas, fragmentações, faltas, sentimento de impotência diante de algumas situações, permeavam a equipe de saúde que também queria ajuda. Não sabiam bem como, mas pediam alguém que “cuidasse dos cuidadores”.

Observações empíricas do atendimento cotidiano apontavam para um alto índice de uso de medicações controladas pela população, alto índice de gestação na adolescência, alto índice de internação psiquiátrica(7%), portadores de sofrimento psíquico severo sem atendimento psicológico, familiares e entorno dos usuários egressos de internações sem acompanhamento. Alto índice de dependência química, obesidade, hipertensão e diabetes. Vidas sofridas, corpos com muitas dores.

Estes são alguns dos desejos e necessidades que marcaram o início deste trabalho, que foi construído a partir de muitas trocas, múltiplos saberes e emoções – se achando, se perdendo e se reencontrando para novas perdas e reencontros…

1.3 – A gestação do projeto…

O primeiro sentimento que tive ao chegar(início de abril/2002) e conhecer a comunidade foi o de ser uma “Terra de Ninguém”, como se as pessoas ainda não se sentissem donas do seu lugar, do seu município. A zona urbana é composta por muitas pessoas vindas de outras cidades. Para orgulho dos gestores, é um lugar de fácil acesso, que têm crescido bastante por ser cortada pela rodovia do progresso ou “estrada da produção” como é apelidada. Para nós, trabalhadores em saúde mental, um crescimento produzido precocemente às custas de um paternalismo público paralisante, que parecia estimular a pobreza e a falta de iniciativa das pessoas. Um paternalismo que dá “coisas” em vez de estimular a criação de novos empregos, melhores condições de trabalho ou o desenvolvimento cultural. Um paternalismo eleitoreiro que não investe na educação, que não ajuda a pensar e implicar-se em acões coletivas que produzam vida e autonomia, ao invés de acomodação.

Um município rasgado pela BR 386, que traz o progresso, mas também sofrimento(em média, uma morte por mês), uma BR que em sua essência e origem, divide – “o lado de cá” e o “lado de lá”. Fragmentação que emerge a qualquer momento em quase todos os segmentos: políticos, institucionais e comunitários e enfraquece o que poderia ser fortalecido pela união, compartilhamento e mais solidariedade. Parece haver um sentimento cristalizado de menos valia e baixa auto estima na população. Impotência? Fragilidade? Falta de perspectiva de crescimento – pessoal, profissional e cultural? Falta de investimento na educação? Falta de cuidado e respeito consigo mesmo e com o outro? Muitas perguntas, poucas respostas…

Tudo é principiante em Fazenda Vilanova. Um município que completa em 22 de outubro de 2005, 10 anos de idade. Uma cidade que nasceu, não com uma igreja e uma praça como a maioria, que pelo menos supostamente agregam, mas com uma BR, um prostíbulo e um posto de gasolina que presumivelmente segregam. Uma cidade que nasce polarizada. Mas que estas polaridades se misturam e se afetam, porque todos conhecem todos e todos sabem de todos e todos comentam sobre todos. Parece que tudo é público, inclusive a vida dos profissionais. Esta “proximidade” que a priori poderia ser positiva, olhada de perto pode ser percebida como ausência de privacidade e machuca, porque os limites são, muitas vezes, ultrapassados. É paradoxal – uma proximidade que invade e afasta – dando uma conotação tão superficial para as relações quanto os distanciamentos das grandes metrópoles. É paradoxal porque a invasibilidade coexiste com o desejo de privacidade.

É neste contexto econômico-sócio-cultural, que se gesta e nasce o Projeto de Atenção Básica em Saúde Mental do Município de Fazenda Vilanova.

Desde o começo, buscamos desenvolver uma proposta em Saúde Mental, onde privilegiamos a atenção integral aos portadores de sofrimento psíquico severo, mas buscamos também promover a qualidade de vida da população em geral, através de ações terapêuticas, educativas e reflexivas envolvendo os diversos recursos (pessoas, serviços, instituições) existentes na comunidade, como multiplicadores de ações preventivas.

Para isso, buscamos inicialmente :

– compreender as necessidades existentes em saúde mental;

– eleger prioridades;

– definir ações que atendessem estas necessidades;

– levantar as potencialidades da comunidade em termos dos recursos(intersetorialidade);

– desenvolver em parceria com os demais trabalhadores em saúde, ações de prevenção, promoção, recuperação e capacitação em saúde mental(interdisciplinaridade);

– envolver a comunidade – através de grupos de reflexão, oficinas e outras atividades que surgem como alternativas no processo de implantação deste projeto.

Vale dizer, que na proposta que acredito e defendo, entendo saúde mental como um conceito mais amplo, que envolve múltiplos saberes inseridos num contexto sócio-econômico marcado historicamente pela cultura. Assim, só posso pensar em facilitar o desenvolvimento de maior qualidade de vida e a diminuição do sofrimento psíquico da população desta comunidade, a partir dela mesma – com suas necessidades, limitações e potencialidades, respeitando o movimento e ritmo de cada um e da comunidade como um todo. Assim, o que realmente facilita esse processo é a relação estabelecida com as pessoas, que na minha compreensão, passa por uma visão positiva do ser humano, por acreditar na potencialidade das pessoas, por respeitá-las e aceitá-las nas suas singularidades e diferenças, por buscar a congruência enquanto totalidade existencial e por buscar compreender as pessoas desde suas realidades. Estas atitudes e valores embasam esta construção que se deu na soma dos desejos e disponibilidade da equipe, no surgimento das necessidades da comunidade, no fazer cotidiano, nas idéias compartilhadas, entre erros e acertos, nos riscos e descobertas. E na vida, que pulsou forte nesta gestação…

2 – O nascimento do projeto…

A proposta de trabalho tem como principais objetivos:

– Proporcionar atendimento interdisciplinar dentro da rede de atenção básica às pessoas em sofrimento psíquico, visando a melhoria da qualidade de vida da população;

– Evitar a hospitalização psiquiátrica do usuário(a), restringindo-se aos casos em que não seja possível a continência ambulatorial e familiar;

– Acolher os(as) usuários(as) egressos(as) de hospitais e clínicas psiquiátricas e

– Esclarecer o usuário(a), bem como sua família e pessoas de seu convívio a respeito das características da doença mental, orientando-os como lidar com as dificuldades decorrentes desta.

O que se propõe é que doravante o portador de sofrimento psíquico e seus familiares serão atendidos, prioritariamente, em seu contexto. Nesta perspectiva, a primeira ação foi com a própria equipe e, posteriormente estendendo-se para a comunidade, na conscientização de que estamos todos implicados na construção desta mudança, nos tornando multiplicadores de ações de prevenção terciária.

Esta “breve” apresentação do trabalho ajuda a contextualizar a reflexão que segue, sobre a importância da construção de redes sociais na promoção e prevenção em saúde mental coletiva.

A preocupação desde o início da construção e desenvolvimento desta proposta foi descentralizar da figura do psicólogo a tarefa de “produzir” saúde mental, por entender que promover saúde mental é melhorar a qualidade de vida das pessoas e que este propósito pode e deve ser desenvolvido de múltiplas formas e por qualquer pessoa da comunidade, sejam estas profissionais da saúde ou não. Acredito e investi desde o começo na interdisciplinaridade entre a equipe de saúde, discutindo as situações que se apresentavam no cotidiano, construindo coletivamente as intervenções necessárias e no resgate das redes sociais já existentes na comunidade, mas que funcionavam fragmentadamente e sem reconhecer, na maioria das vezes, seu papel preventivo nesta área.

Para operacionalizar esta proposta, criamos um “espaço de compartilhamento” semanal com a equipe de saúde e assistência social e mensal com outras instituições (secretaria de educação, segurança pública, obras e saneamento, conselho tutelar, etc.), visando intervenções conjuntas intersetoriais, na promoção de maior qualidade de vida e um “espaço de reflexão” com a comunidade que acontece duas vezes por ano – por ocasião do dia 18 de maio e 18 de outubro, datas da comemoração do dia Nacional e Internacional da Luta Antimanicomial, respectivamente.

Integrar as diversas áreas constituintes de uma equipe de saúde parece o básico e o mínimo na formação de redes de atenção e cuidados ao portador de sofrimento psíquico, contudo, não existe garantia nenhuma de que seja esta uma tarefa fácil.

Vivemos numa sociedade capitalista, onde a competitividade impera e o culto aos cartéis, à especialidade, ao individualismo, à fragmentação, à impermanência e à volatilidade são características bastante presentes, dificultando a visualização do todo e o trabalho conjunto. A cultura do “salve-se quem puder” ou do “cada um por si” prolifera, dificultando tanto a interdisciplinaridade quanto a solidariedade. Sobre isso Rizvi comenta: “Em termos sociais, estamos vivendo num mundo excludente das maiorias, em que as decisões são tomadas em benefício dos grupos de maior poder de influência econômica, onde as decisões privilegiam o individual e o privado em detrimento do público e comunitário. Uma sociedade do descarte(…), capaz de jogar fora valores, relacionamentos, apegos a lugares, pessoas, hábitos e jeitos de ser”.

Estes atravessamentos interferem e influenciam nas interações sociais, dificultando algo que poderia dar-se naturalmente, fazendo com que tenhamos que desenvolver constantemente estratégias de resgate das possibilidades de construções coletivas. Seja através da dura luta pela manutenção de uma reunião de equipe semanal ou na eterna busca de aliados na comunidade, que acabam sendo as pessoas que realmente permanecem no território, podendo criar uma nova cultura e passar adiante novos hábitos e valores devido à possibilidade do vínculo; colaborando assim, com a desmistificação e diminuição dos preconceitos, com o desenvolvimento do respeito e inclusão social e no resgate da cidadania do portador de sofrimento psíquico.) O espaço comunitário é o foco neste trabalho e a formação de multiplicadores de ações preventivas na comunidade essencial neste projeto.

3 – A comunidade como agente de Saúde Mental.

É possível que o que esteja garantindo os resultados deste trabalho seja o fato de estarmos podendo juntar múltiplos conhecimentos provenientes da teoria e da prática em psicologia, especialmente os pressupostos básicos da Abordagem Centrada na Pessoa e o resgate do “saber comunitário”, buscando promover a saúde mental desde o coletivo e público e não do individual e privado.

Carl Rogers, em toda sua obra, enfatiza a importância de algumas condições para que uma relação seja facilitadora, quais sejam: aceitação incondicional, congruência do terapeuta e compreensão empática. E parte, na construção deste referencial teórico, de uma visão otimista e construtiva do Homem, enfatizando o respeito e confiança na capacidade humana.

Este projeto está permeado por essas atitudes que, ao meu ver, fazem a diferença e agregadas a elas estão os princípios orientadores do SUS: saúde como um direito, universalidade, eqüidade, integralidade da atenção e participação da comunidade; as diretrizes da Secretaria do Estado do Rio Grande do Sul: descentralização na aplicação dos recursos, com autonomia de gestão para os municípios; fortalecimento das instâncias de controle social através das ações dos conselhos municipal e estadual de saúde e estimulo à formação e capacitação dos trabalhadores; e as diretrizes da Política de Atenção Integral à Saúde Mental, que inclui:

– a criação de serviços com capacidade de desenvolver ações inclusivas;

– a “humanização da relação com o/a usuário/a, na sua singularidade, reconhecendo em cada um/a a capacidade crítica de escolha da modalidade de atendimento que melhor se adequa às suas necessidades”.

– a responsabilidade do Estado pela atenção integral às pessoas, combinando cuidado a um olhar para a totalidade e multiplicidade humana(Guia de Saúde Mental).

Políticas que, se na prática ainda não alcançaram os resultados desejados, mas como propostas, parecem buscar a valorização do usuário, a inclusão social e o resgate da importância do conhecimento e do papel da comunidade na defesa dos seus direitos e cidadania.

O Projeto de Atenção Básica em Saúde mental, desenvolvido no Município de Fazenda Vilanova-RS, está permeado, tanto por este referencial teórico, como pelo desejo de que as pessoas em situação de sofrimento psíquico, resgatem suas possibilidades de crescimento, por vezes esquecidas, a potência e o sentido da vida.

O trabalho de formação de redes multiplicadoras de ações preventivas foi, inicialmente, um espaço de reflexão oferecido para “pessoas que trabalham com outras pessoas” na comunidade. Nas duas primeiras edições foram convidados representantes de órgãos públicos(secretarias municipais da saúde, educação, obras, administração e finanças, agricultura, câmara de vereadores, brigada militar, conselho tutelar, conselho municipal de saúde, de assistência social, da agricultura, da merenda escolar, COMDICA, FUNDEF, EMATER, FAZENTUR e as agentes comunitárias de saúde), representantes de instituições religiosas, de clubes de mães, das oases, clubes esportivos, sindicatos, associações, meios de comunicação locais, cooperativas, empresas privadas e pessoas da comunidade que ouviram falar e quiseram participar. Destes convites, muitas instituições se fizeram representadas, outras justificaram sua ausência e outros nem tomaram conhecimento. Mas, a presença de 26 pessoas no primeiro encontro pareceu-nos um número bastante representativo considerando a população deste município.

Tínhamos uma proposta de 4 encontros ou módulos, dos quais semi-estruturávamos o primeiro. Nosso principal papel era criar as condições para que pudéssemos nos encontrar – providenciar um espaço físico, convidar as pessoas – e facilitar uma reflexão sobre o tema saúde mental a partir de um breve histórico sobre o movimento de reforma psiquiátrica e apresentação do projeto de atenção básica que estava sendo desenvolvido no município.

A partir daí iam surgindo necessidades do grupo em andamento, com propostas para que discutíssemos assuntos como: a diferença entre doença mental e deficiência mental, os limites entre a normalidade e a anormalidade, causas da depressão, esquizofrenia, e talvez o mais significativo, os relatos da experiência de cada um. Como cada participante vivenciava em seu cotidiano o tema saúde mental e a ausência dela, buscando compreender o funcionamento, sobretudo, de pessoas portadoras de sofrimento psíquico severo moradoras da comunidade. Inseríamos nesta troca, à medida que a discussão avançava, temas como sigilo, ética e solidariedade. Na segunda edição incluímos a apresentação e discussão do filme: O bicho de 7 cabeças. Estavam presentes cerca de 250 pessoas.

Não tinha nenhuma certeza de como desenvolver esse trabalho, seguia meus conhecimentos em psicologia, a intuição e a indicação do poeta Antônio Machado(do livro Proverbios Y cantares):

“Caminante, son tus huellas

el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar”.

Parece que este se tornou um espaço de desmistificação de tabus e conceitos pré-estabelecidos, buscando a conscientização sobre a implicação da sociedade neste processo, a responsabilidade de cada um com todos e de todos com cada um e o (re)conhecimento dos sinais de sofrimento psíquico e da rede de atenção básica que a comunidade já dispunha, tornando-a multiplicadora no cuidado, no respeito e no resgate da cidadania do portador de sofrimento psíquico.

Nestas duas primeiras edições trabalhamos com um grupo aberto, ou seja, as pessoas eram livres para não retornar, para simplesmente voltar ou voltar trazendo outras pessoas para o próximo encontro. Todas as possibilidades aconteciam e estes encontros eram facilitados por profissionais da psicologia e do serviço social.

Mas, como disse anteriormente, nossa prática passa por constantes reflexões, revisões e modificações. E neste processo, o poeta Antônio Machado continua inspirando:

“Al andar se hace camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se há de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

sino estelas en el mar”

Ao refletirmos sobre a terceira edição, nos damos conta que estávamos esquecendo um potente segmento da população – as crianças e os jovens, tão acostumados a somar e multiplicar na escola. E nossos convidados foram então, todos os alunos do ensino fundamental.

Integramos ao dia 15 de maio que é o dia da solidariedade e que a escola já estaria trabalhando este tema com os alunos, o dia 18 de maio, que é o dia nacional da luta antimanicomial (e agora é também, instituído por Lei Municipal, o período em que ocorre anualmente a Semana Municipal de Saúde Mental), sendo este espaço de reflexão, uma das atividades deste evento. Convidamos cada criança e jovem para ser um multiplicador de respeito e cuidado com todas as pessoas da comunidade, incluindo aí, todas as diferenças. Ampliamos a facilitação para outros membros da equipe de saúde e com a ajuda do professor, passamos em cada sala de aula, da primeira a oitava série, onde cada profissional, respeitando o seu jeito de ser e o seu conhecimento sobre o assunto, constrói com os alunos o conceito de saúde mental. O que eles sabem sobre isso, se conhecem pessoas que padecem deste sofrimento, que tipo de relação devemos estabelecer com as pessoas para que haja menos sofrimento, como cada um pode melhorar sua vida e das pessoas ao seu redor, e o que mais pudesse surgir em cada turma. E vale dizer, cada grupo se tornou único…

Ainda não temos nenhuma certeza sobre a melhor maneira de desenvolver este trabalho na ampliação das redes sociais, tampouco onde chegaremos seguindo por este caminho, mas desde então, temos percebido mudanças significativas na desmistificação da loucura, na visão das pessoas sobre o papel do psicólogo e, sobretudo, no acolhimento ao portador de sofrimento psíquico, tendo sido evitado inclusive, internações psiquiátricas por intervenções da comunidade junto à família.

Parece estar se desenvolvendo uma consciência que vai além da consciência de um, ou de um mais um. Presença de uma consciência coletiva? Ainda não sabemos definir, mas os fatos e as falas apontam para uma desacomodação. Já no final da primeira edição do curso fizemos uma avaliação e houveram momentos profundamente reflexivos, marcados por silêncios, suspiros e olhares cortados, posteriormente, pela fala de um participante: “o que fazer com tudo isso que sabemos agora?”.

Parece-me algo muito simples o que estamos propondo, mas que produz um movimento, deslocando a comunidade de um lugar de descomprometimento em relação ao sofrimento psíquico severo e a institucionalização do mesmo, dando margem a outras conscientizações reveladas pelos grupos como: “o que não é visto não é lembrado” diz um participante, referindo-se à forma de exclusão do modelo tradicional, e “o que não é sabido não incomoda…” respondendo a inquietação do colega, ou “era mais fácil recolhe-lo ao manicômio, né?”. O fato é que ao final do quarto encontro ou módulo do primeiro curso as pessoas se davam conta de que havia um mundo, além do que o que elas conheciam sobre sofrimento psíquico e internações psiquiátricas. Era como se tivessem juntado não todas, mas várias peças de um quebra-cabeças e começavam a visualizar uma realidade sobre a qual não haviam parado para refletir até o momento. Era como se pudessem valorizar essas pequenas “peças” de conhecimento que cada um tinha “Fulano foi muito trabalhador antes de adoecer” ou então, “ ele era laçado nos potreiros que nem bicho e levado para o São Pedro”. “Eu mesmo fui chamado uma vez para levar ele para Porto Alegre porque eu tinha carro, disse um participante. Aí a família deixava lá e vinha embora”. “Mas ele era inteligente, uma vez ele fugiu do hospital, foi para a rodoviária e chegou aqui de ônibus…”, “e sem um tostão no bolso” completou outra pessoa que também conhecia a história de M., nosso morador da parada de ônibus. À medida que falavam de suas experiências e/ou ouviam as de outras pessoas, parece que davam-se conta do sofrimento e da exclusão vivida pelo “louco”.

Meses depois algumas pessoas, de diferentes formas, se mobilizaram e se posicionaram quando um familiar quis providenciar uma internação compulsória para M., à revelia da posição contrária de toda a equipe de saúde, alegando que ela estava agressivo, pois tinha quebrado os vidros de um carro. “Ele só agride quando é agredido”, “ele precisa é de carinho das pessoas”, “como é que a senhora acha que ele se sente quando chega nas casas para pedir um cafezinho ou uma moeda para comprar cigarro e lhe jogam um balde d’água em cima, ou as crianças gozando dele na rua,…” argumentavam duas participantes do grupo, na tentativa de dissuadir a familiar desta idéia.

Ou então, quando há poucos dias uma pessoa que freqüentou a segunda edição do curso, trouxe para o grupo de portadores de sofrimento psíquico severo um vizinho seu que precisava de ajuda mas nós ainda não tínhamos conseguido tempo para uma visita domiciliar e a agente de saúde não tinha conseguido mobilizar a família para trazê-lo. Ou ainda quando um usuário de um grupo de dependência química refere que “há um tempo atrás eu pensava e até gritei com a enfermeira que psicólogo era para louco, minha mulher que viesse, e agora…, eu é que estou precisando,…”

Trabalhamos com a saúde e não com a doença mental. Quando vamos a escola e construímos com as crianças ou jovens o conceito de saúde mental e refletimos sobre qualidade de vida, qualidade das relações, vão surgindo, no decorrer do processo, (pré)conceitos sobre “loucos”, “débeis”, “deficientes” e todos os sinônimos possíveis e então questionamos: não seriam estas pessoas portadoras de sofrimento psíquico? E nós, deste grupo, nunca tivemos um “sofrimento psíquico”? E ao responderem, já se sentem incluídos na “loucura” ou incluindo a “normalidade” na imagem muitas vezes cristalizada que possuem, ressignificando assim, suas vivências e diminuindo as distâncias no que diz respeito ao portador de sofrimento psíquico.

Outro aspecto importante é que não nos pré-ocupamos com o diagnóstico, mas nos disponibilizamos para ouvir e acolher o sofrimento emocional da pessoa que chega ao serviço. Entendemos que não é o diagnóstico que nos ajuda a ajudar alguém a diminuir seu sofrimento. Mas a relação que estabelecemos, a partir da nossa congruência, como profissionais, da aceitação incondicional, onde cada pessoa pode ser o que ela é, do respeito que temos pelas diferenças, e da nossa “intervenção” a partir de um modelo compreensivo e não analítico. Estas atitudes parecem facilitar a proximidade da pessoa consigo mesma e um olhar menos crítico, possibilitando a sua inclusão num mundo de possibilidades. Assim, temos buscado a inclusão em relação a si mesma, de si em relação ao mundo(incluir-se) e do mundo em relação a pessoa em sofrimento psíquico(ser incluído). O diagnóstico, que não é desconsiderado mas nunca foi prioridade, torna-se importante à medida que a pessoa precisa de ajuda medicamentosa. Contudo, temos tido a preocupação de que nem ele, nem a medicação se tornem aprisionantes. Neste sentido, buscamos reforço nas palavras de Virginia Moreira, para quem o “diagnostico no trataria de la rotulacion del individuo para insertarlo en una determinada categoria de patologia mental, sino que identificaria en que punto de su existencia la persona se encuentra y que significados atribuye a su mundo. En este caso, el diagnostico sera elaborado a partir de una actitud fenomenologica del psicoterapeuta en su relacion com el paciente”(Mas alla de la persona, p. 111).

Fazer saúde pública, o próprio nome já diz, tem que passar necessariamente pelo coletivo, pela valorização da multiplicidade, pela formação de redes. E, nos parece impossível, facilitar a formação de redes centrando o trabalho na pessoa ou na função do psicólogo ou outros profissionais da saúde, tampouco na doença e sua cura. Temos que nos desprender da nossa formação acadêmica ainda centralizadora e limitadora. A maioria de nós questiona, mas na prática ainda se posiciona num lugar diferenciado, de poder sobre o outro ou em relação à comunidade que trabalhamos. E deste lugar, nos tornamos mais reprodutores das diferenças e exclusões do que facilitadores de processos de vida.

E se diminuíssemos as distâncias entre os “cuidadores” e os “cuidados” como propõe De Nicola? “Si de alguna manera desaparecesse de nosostros este habito de crear e creernos ayudadores e ayudados, y si genera una outra perspectiva y atitud, podrian despender-se de ello consequencias interesantes para la vida y los ejercicios profesionales. Si no hay identidades privilegiadas y sus roles consequentes pudiera desaparecer la creencia de alguien representa a otros”(p. 4). Deixar de representar o outro, deixar de dizer o que ele tem que fazer e como fazer, deixar de responsabilizar-se pelo outro, deixar dizer-se em vez de dizermos dele e por ele, não será um caminho para a diminuição do sofrimento mental e para o resgate da autonomia e do desejo de vida na comunidade?

Transcender o modelo apreendido na academia, sobretudo nos serviços de saúde pública e na desinstitucionalização psiquiátrica é nossa meta. E não cairmos numa institucionalização semelhante dos modelos substitutivos um desafio constante, um processo lento e inquietante porque “se hace camino al andar”. Temos ainda poucas referências criativas e realmente inclusivas. Exige de nós um olhar crítico constante, que sem dúvida passa pelo nosso “fazer em psicologia”, por uma persistência sobre-humana em alguns momentos na busca do que acreditamos que possa tornar o movimento (da luta antimanincomial) uma realidade e que ao nosso ver deve incluir todas as formas possíveis de construção coletiva e coragem para corrermos os riscos necessários nesta luta por acesso, humanização e inclusão das diferenças. Mas pequenos grandes acontecimentos como os que temos vivido aqui neste município, levando a psicologia à comunidade como uma aliada na produção de maior qualidade nas relações, mais acolhimento, mais respeito e autonomia na busca e/ou resgate de si mesmo e da coletividade possível, nos fazem seguir em frente e acreditar que vale a pena buscar “estelas em el mar”.

* Psicóloga, Especialista na Abordagem Centrada na Pessoa, Coordenadora da Atenção Básica em Saúde Mental no município de Fazenda Vilanova

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DE NICOLA, Luis M. Y si transpasamos las fronteras y nos hacemos camino? Trabalho apresentado no VI Encuentro Latinoamericano del Enfoque Centrado en la Persona – Bolivia – 1992.

SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE/RS. Guia de Saúde Mental.

MOREIRA, Virgínia. Más allá de la persona – Hacia una psicoterapia fenomenológica mundana. Editorial Universidad de Santiago, 2001. Santiago de Chile.

ROGERS, Carl R. Sobre o Poder Pessoal.

ROGERS, Carl R. e Stevens, Barry. De pessoa para pessoa. Ed. Pioneira. 1987. São Paulo.

RIZVI, Ivana C. B. Palestra: Conversa com profissionais da ACP – Porto Alegre/RS.

RUD, Cláudio A. Entre Metáforas y Caos – De la intervención pasiva a la contemplación activa en psicoterapia. Editorial Nueva Generación, 2004. Buenos Aires.

SALDANHA, Olinda. Dissertação de Mestrado – UFRGS.

Apresentado no VI Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa – Canela RS – 9 a 15/10/2005