A evolução das atitudes Terapêuticas no desenvolvimento da Abordagem Centrada na Pessoa

Laudicélia Gomes P.Mendes

Recife, 1994

“Entre as minhas atitudes e concepções, existe uma que deve se levar em conta de modo particular na avaliação de minhas teorias. É minha fé inquebrável na primazia da ordem subjetiva. O homem vive, essencialmente, num mundo subjetivo e pessoal. Suas atividades, mesmo as mais objetivas representam a expressão de fins subjetivos e de escolhas subjetivas”. Carl Rogers (Psicoterapia e Relações Humanas Vol. 1 p. 152)

INTRODUÇÃO

A Terapia Centrada no cliente passou por considerável mudança durante três décadas, e a compreensão de idéias e técnicas de Terapia Centrada no Cliente fica facilmente entendida quando dividimos o período de 1940 à 1970 em três períodos distintos: O período de terapia não diretiva que vai de 1940 à 1950; o período de terapia reflexiva compreendido em 1950 à 1957; e o período de terapia experiencial que vai de 1957 à 1970.

O desenvolvimento de abordagem centrada na pessoa durante esses três períodos pretende mostrar as mudanças decorrentes do comportamento e atitudes do terapeuta para facilitar o crescimento do cliente, e que mudança básica ocorre no cliente durante uma psicoterapia bem sucedida.

Cada década está vinculada à um livro do principal fundador dessa abordagem Carl Rogers, enfatizando as idéias e práticas que surgiram em cada período.

Neste trabalho pretendo mostrar a evolução das atitudes terapêuticas durante o desenvolvimento da Abordagem Centrada na Pessoa nos três períodos ou fase que a caracteriza.

PRIMEIRO PERÍODO – FASE DA NÃO DIRETIVIDADE OU A PSICOTERAPIA NÃO DIRETIVA

Essa terapia coloca sua maior importância no insight do cliente sobre si mesmo e de sua situação.

O terapeuta procura facilitar essa compreensão (insight) criando um ambiente permissivo, não autoritário, no qual o cliente era livre para prosseguir no seu próprio ritmo e em suas próprias direções.

O terapeuta tentava assim, sem intervir, livrar o cliente da necessidade de refrear e esconder a capacidade de defesa. A função do terapeuta consistia em ajudar o cliente a esclarecer seus sentimentos e percepções. Assim, uma terapia consistia em uma relação permissiva, estruturada, que permite ao cliente ganhar uma compreensão dele mesmo e um grau que o capacite a dar passos positivos à luz dessa nova orientação.

Nesta fase inicial da abordagem centrada, Rogers, mostrou a característica que distintamente definia sua posição entre outras abordagens terapêuticas.

O empirismo continuou como parte integrante da orientação centrada no cliente e é em grande parte responsável pela natureza evolutiva dessa abordagem, teorias e construções que não levam a hipóteses prováveis e gerais foram descartadas em favor daqueles que levavam. Rogers se empenhou em fazer análise científica, recolheu o material bruto de psicoterapia e o tomou avaliável para análise científica, com o objetivo de lhe facilitar a constatação da técnica terapêutica. No livro Rogers ‘Counseling and psychoterapy”, publicado em 1942 continha uma tradução completa de um caso de terapia gravada fonograficamente.

Este livro vendeu bem e vende ainda hoje. Os psicólogas clínicos e conselheiros americanos achavam que a psicanálise não era completamente adequada às necessidades deles. Além disso, os psicanalistas nos EUA formavam uma associação médica que excluía os não médicos. Um terapeuta poderia praticar a terapia psicanalítica, mas não seria um analista. A psicoterapia diretiva e outra importante alternativa aberta aos terapeutas eram igualmente desinteressante aos americanos. E assim, os psicólogos americanos estavam prontos par reagir favoravelmente à uma psicoterapia que rejeitava tanto ao modelo médico da análise, quanto ao modelo vocacional dos terapeutas diretivos.

Durante essa fase, as intervenções dos terapeutas tais como conselhos, expressões, opiniões de sentimentos, interpretações, oferecimento de planos a outras atividades interventivas foram evitadas.

Foi dado ênfase a utilizar o impulso auto-iniciado de cada um, no sentido de crescimento, de saúde, de ajustamento.

Hart (1970) afirma que embora predominem referências a operações e conseqüências no cliente, com a atitude do terapeuta sendo vista como essencialmente neutra e passiva, há uma participação subjetiva intensa ocorrendo no terapeuta, mas este se abstém de expô-la ao cliente, ou tomá-la parte da interação terapêutica.

Rogers (1951) permanece nessa fase fiel a uma visão mais clássica de psicoterapia como uma atividade objetivamente desempenhada pelo psicoterapeuta mediante seus conhecimentos teóricos e técnicos. Chega a reconhecer a importância das experiências vividas no encontro com o cliente para sua própria vida pessoal e profissional.

Nesta fase, comparado ao Behaviorismo, o poder vai da mão do terapeuta para a mão do cliente. Este é o agente do seu próprio processo. A ênfase central foi colocada no fato fenomenológico, o “insight”. Em termos científicos aqui se prevalece a objetividade, o terapeuta fica mais centrado na técnica-clarificação verbal para evoluir um segundo momento para a elucidação lógica.

Como fase do processo terapêutico no cliente temos:

1) – A catarse, onde o cliente expressa seus sentimentos.

2) – O Insight – que é o movimento mais profundo de si mesmo. E o

3) – Ações positivas resultante do insight.

SEGUNDO PERÍODO – PERÍODO DE REFLEXÃO OU PSICOTERAPIA REFLEXIVA

Neste período o papel do terapeuta foi reformulado e elaborado com nova ênfase na sua responsabilidade sensível aos sentimentos do cliente. A reflexão de sentimentos substituiu a clarificação e as formas cognitivas de interação foram re-enfatizadas. A função do terapeuta era remover as fontes de ameaça da relação e espelhar em si o mundo fenomenológico do cliente. Para implementar a reorganização do cliente e a reintegração do seu auto-conceito, a técnica para realizá-la era a reflexão dos sentimentos. A participação do terapeuta torna-se mais ativa, tenta penetrar e viver as atitudes expressas em vez de observá-las, captar cada nuance de sua natureza variável, em resumo absorver-se completamente nas atitudes do cliente, onde a compreensão do processo é adquirida através da mais intensa, contínua e ativa atenção aos sentimentos do outro.

Segundo SHLIEN e ZIMRING (1970), o desvio da noção de “não direção” para a centrada ‘do cliente, não é apenas uma revisão de nomenclatura. Significa uma clarificação da perspectiva: a terapia não diretiva ainda permanece fora do cliente; almeja usar a permissividade como um catalisador para o desenvolvimento de “insight”. “Centrar-se” no cliente sugere além de um papel mais ativo por parte do terapeuta, que ele tome o cliente o foco de sua atenção. Se anteriormente ele no papel de terapeuta ficava fora da relação terapêutica, agora ele é levado a comprometer-se numa busca por compreensão empática do sistema de referência da outra pessoa. Prevalece aqui a subjetividade, mas a objetividade continua ainda sendo valorizada. Descobre aqui o cliente, mas a relação ainda é dialógica. Valoriza mais a subjetividade do cliente. A filosofia básica é que o homem tem tendência inata para o desenvolvimento de suas capacidades, mas a atitude do terapeuta agora é condição “sine qua non” para por em prática e desenvolver uma relação de ajuda terapêutica de forma mais completa com a totalidade de seu self.

TERCEIRO PERÍODO – PERÍODO DE EXPERIENCIAÇÃO ou PSICOTERAPIA EXPERIENCIAIL

A psicoterapia experiencial é uma psicoterapia mais difícil de ser caracterizada por ainda estar em desenvolvimento. É mais ampla e mais genérica na prática e na teoria, produto dos períodos que a antecedem.

A grande responsável pela evolução da psicoterapia reflexiva para a psicoterapia experiencial foi a tentativa de um grupo de terapeutas da Terapia Centrada no Cliente que preocupados com o fato de que o trabalho clínico até então efetivado estava assentado exclusivamente na prática da terapia com pacientes neuróticos, resolveram comprovar a validade da teoria quando aplicada a indivíduos psicóticos e aos normais. Graças a essa inquietude a T.C.C. foi então aplicada a pacientes esquizofrênicos através de uma pesquisa efetivada num hospital psiquiátrico.

A tentativa de praticar as atitudes facilitadoras e o reflexo de sentimento aquela nova população de pacientes crônicos hospitalizados produziu nos profissionais envolvidos grandes transformações.

A ênfase desse grupo começou a mudança das técnicas terapêuticas específicas tais como reflexão de sentimentos para um foco nas possibilidades e atitudes gerais do terapeuta que poderia ser comunicado através de uma gama de comportamentos terapêuticos.

Em 1957 Rogers introduziu a idéia de que dadas certas condições básicas da terapia, entre elas, as atitudes terapêuticas de consideração positiva incondicional, compreensão empática e genuinidade, poderia ocorrer uma mudança positiva da personalidade.

É na condição de genuinidade ou autenticidade que o terapeuta se encontra mais expressivo e ativo, considerando suas próprias preocupações e sentimentos aos seus clientes.

Essa maior expressividade e extroversão foi considerada mais tarde como essencial para o trabalho com clientes regressos e esquafrêhicos (GENDLIN, 1966 in HART 1970).

O conceito de experienciação aqui utilizado originou-se com Gendlin e Zimririg (1955). Refere-se tanto à teoria de experiência como ao fenômeno de experienciação.

Experienciação é um processo subjetivo de referência interna, e acontece sempre quando tentamos explicar alguma coisa para outra pessoa e não conseguimos expressar o que queremos dizer.

Os fenômenos da experienciação não são iguais aos da conscientização ou experiência subjetiva. A experienciação se refere ao processo demoradamente subjetivo, que é conhecido, mas nem sempre consciente, no sentido de que possa ser posto em palavras.

A teoria da experienciação fornece uma estrutura teórica dentro da qual os construtos e atividades centradas no cliente são elaborados.

Uma resposta de reflexão de sentimento é efetiva quando focaliza a experiência interna do cliente. A mera repetição das verbalizações do cliente é inadequada e não-terapêutica.

Uma interpretação para ser considerada uma resposta útil, precisa ser uma verbalização pelo terapeuta da experienciação do cliente que ainda não alcançou um nível verbal.

Uma interpretação que não seja dirigida para a experienciação do cliente provoca comportamento defensivo.

Respondendo ao que o paciente está experienciando o terapeuta reconhece e transmite sua responsabilidade para o que há de essencialmente humano no cliente. Quando um terapeuta responde ao cliente transmitindo abertamente sua experienciação momento a momento, ele responde a pessoa como uma pessoa.

O cliente é livre para aceitar ou rejeitar as comunicações do terapeuta, mas ele pode eventualmente ser tocado e modificado por elas.

No seu artigo “Condições necessárias e suficientes…” Rogers, 1957, descreve as atitudes que o terapeuta precisa utilizar antes que ele possa estabelecer um relacionamento e responder ao cliente de modo terapêutico. São as atitudes facilitadoras do processo:

1) Consideração positiva incondicional – ser sincero e expansivamente positivo em relação ao cliente.

2) Compreensão empática – esteja honestamente tentando compartilhar o mundo interno do cliente e comunicar sua compreensão adequada.

3) Congruência ou autenticidade – seja capaz de revelar seus próprios sentimentos internos.

Embora a psicoterapia experiencial centralize o material básico com o qual o terapeuta lida – sua própria experienciação – vê o cliente como uma pessoa integrada e biossocial. A filosofia neste período é existencial.

Cientificamente falando, valoriza-se a subjetividade do cliente, mas apresenta ranso de objetividade. O terapeuta passa a dar maior valor ao movimento interno com ênfase na relação EU/TU. Terapeuta-Cliente.

Em “Tornar-se Pessoa”, Rogers refere-se a psicoterapia como um processo de mudança, no qual ele se refere às fases ou níveis do processo experiencial do cliente como se constituindo num continum, partindo de um ponto rígido, estático, pouco diferenciado e impessoal para estágios mais elevados desta escala de sete fases que se caracteriza por uma maior fluidez, diferenciação de sentimentos e reações pessoais à experiência imediata.

Resumidamente, cada uma destas fases é caracterizada por Rogers da seguinte maneira:

Primeira Fase: O Indivíduo encontra-se em um estado de rigidez psicológica opondo-se a qualquer fluxo ou mudança. A comunicação interna entre o ego e a experiência imediata está seriamente bloqueada e ele tem pouco ou nenhum reconhecimento do fluxo de sua vida afetiva. As relações íntimas com outras pessoas são consideradas perigosas e o indivíduo é capaz de comunicar-se apenas através de referências e assuntos exteriores.

Segunda Fase: A expressão começa a ser mais fluente em relação a tópicos não pessoais. Os problemas são captados como exteriores ao próprio indivíduo. Os sentimentos podem ser exteriorizados, mas não são reconhecidos como pertencendo ao próprio indivíduo ou são descritas como objetos passados.

Terceira Fase: A experiência é descrita no passado ou como afastada do ego e a aceitação dos sentimentos é muito reduzida. As construções pessoais continuam rígidas, mas já podem ser reconhecidas como construções e não como fatos exteriores.

Quarta Fase: O indivíduo descreve com maior intensidade os sentimentos passados e é capaz de referir-se a eles também no presente, embora ainda os considere como objetos. O indivíduo já é capaz de apreender as contradições entre a experiência e o ego e toma consciência de sua responsabilidade perante seus próprios problemas.

Quinta Fase: Os sentimentos são expressos livremente como se fossem experienciados no presente e o indivíduo desenvolve uma tendência para perceber que a experiência de um sentimento envolve uma referência direta. O rigor na diferenciação dos sentimentos e dos significados pessoais se intensifica e o indivíduo aceita cada vez mais as suas próprias contradições e incongruências. Como decorrência assume mais facilmente a responsabilidade pela resolução de seus problemas.

Sexta Fase: Os sentimentos são experienciados no presente imediato. Este caráter imediato da experiência é aceito, bem como o sentimento que constitui o seu conteúdo.

Sétima fase: Sentimentos novos são experienciados de forma imediata e com riqueza de pormenores, tanto na relação terapêutica como fora dela. A experiência imediata perde seu caráter esquemático e toma-se a experiência de um processo. As opções do indivíduo se ampliam na resolução dos problemas e na maneira de conduzir-se.

Esta visão da terapia como processo experiencial levou Rogers a descrever também os fenômenos vivenciados pelos terapeutas. Neste sentido, ambos, terapeuta e cliente, afetam-se mutuamente, embora estejam em níveis diferentes na escala de experienciação. A única diferença entre terapeuta e cliente é que o primeiro apresenta-se em condição para fluir de acordo com as experiências diretamente sentidas durante a interação num grau mais profundo que o do cliente.

“O aspecto mais significativo no que se refere às percepções interiores do terapeuta neste período é o fato das atitudes de autenticidade terem sido redimensionadas. A relação terapêutica deixa de ser centrada no cliente para tomar-se bi-centrada ou bi-polar (SPIEGELBERG, 1972), consistindo num esforço de exploração de dois mundos que interagem em benefício do cliente”. (CURY, 1987. p.22).

Pesquisa e construção da teoria na terapia experiencial tenta identificar e inter-relacionar os eventos fisiológicos, comportamentais, sociais e fenomenológicos da Psicoterapia.

São enfatizados a continuidade dos fenômenos de terapia e outros eventos inter-e-intra pessoais.

“Ainda que eu me dê conta da possibilidade da existência de uma verdade objetiva, dou-me conta igualmente, de que não poderei jamais conhecê-la plenamente. Disto se conclui, que o que se considera como “conhecimento científico” não existe. Há, apenas, percepções individuais daquilo que parece, a cada um de nós representar esta espécie de conhecimento”. Carl Rogers (Psicoterapia e Relações Humanas Vol.1 p. 153).

CONCLUSÃO

Com atitudes de respeito básico pelo cliente individual e uma confiança de suas potencialidades para se auto-dirigir. Os terapeutas da Abordagem Centrada na Pessoa evoluíram e empregaram com sucesso a técnica da terapia centrada, que evoluiu de uma postura não diretiva para um papel mais ativo, participante, comprometendo-se na busca e compreensão do seu self (Cliente). Os terapeutas dessa abordagem procuram dar novas formas de expressão e preenchimento de seus objetivos terapêuticos, dentro de um contexto experiencial, onde terapeuta e cliente afetam-se mutuamente durante o processo e interagem num esforço de exploração desses dois mundos em beneficio do cliente.

BIBLIOGRAF1A

CURY, V.E. – Psicoterapia Centrada na Pessoa: Evolução das formulações sobre reação terapeuta-Clientes. São Paulo. IPUS-SV. 1987. (Tese de Mestrado).

HART J.T. e TOMLINSON, T.M. – New Directions In Client a (entered Trehapy. Boston: Monjton Mifflin Co. 1970.

ROGERS, C.R. (1951). Terapia Centrada no Cliente. Santos. Martins Fontes. 1974.

ROGERS, C.R. The necessary and sufficient Conditions of therapeutil Personality Change. Journal of Consulting Psychology. 21, 25-1O… 1957.

ROGERS, C.R. (1961). Tornar-se Pessoa. São Paulo. Martins Fontes, 1961, 4 edição.

ROGERS, C.R. e KINGET, G. MARIAM – Psicoterapia e relações humanas. Belo Horizonte. Interlivros, 1977, 1 vol. 2 edição.

Trabalho apresentado ao VII Encontro Latino Americano da Abordagem Centrada na Pessoa, realizado de 9 a 16 de outubro de 1994, em Maragogi – AL — Brasil.