A ideia da literatura infantil para a ludoterapia da abordagem centrada na pessoa

Taciane Marques Castelo Branco

“Essa volúpia de ler, essa sensação única e totalizante que só a história provoca (em mim, pelo menos…), esse ir mexendo em tudo e formando meus critérios, meus gostos, meus autores de cabeceira, relendo os que me marcaram ou mexeram comigo dum jeito ou de outro… esse perceber que o ler é um ato fluido, ininterrupto (…), de encantamento e de necessidade vital, é algo que trago comigo desde muito, muito pequenina… e foi o que me tornou essa viciada total em ler que sou até hoje.” (Fanny Abramovich,1997,13)

“Todo mundo tem, vive ou é uma história” (Prebianchi,2000,33).

Sabe-se que a infância se constitui em uma fase muito importante na formação do indivíduo, e todas as potencialidades da criança devem ser cultivadas com seriedade. Spinillo (1993) diz que, de um ponto de vista psicológico a Literatura Infantil, mais especificamente a história infantil, “é um recurso que abre as portas da inteligência e da sensibilidade da criança, para seu desenvolvimento e sua formação integral” (p.67). É ao mesmo tempo, recreação e psicoterapia, suporte de cultura e um importante elemento de comunicação; mas sobretudo, um instrumento de diálogo entre a criança e o adulto.

Juliano (1999) afirma que ao longo do processo psicoterápico, além de ouvir histórias, o terapeuta poderá também, ser um contador de histórias, sempre visando ao diálogo com seu cliente: “ele poderá fazer uso de metáforas, lendas, contos de fadas, histórias pessoais, histórias infantis e mitos como estratégia de comunicação com camadas mais inacessíveis do cliente” (p.66).

Ouaknin (1996), ao acreditar na virtude terapêutica do livro e da narrativa, afirma que o diálogo “é o fundamento da biblioterapia” (p.147). Biblioterapia é o termo criado pelo autor para definir “a terapia por meio de livros” (p.11), em que “o uso de materiais de leitura são selecionados como auxiliares terapêuticos em psiquiatria” (p.12). Para o autor (1996) a biblioterapia pode ser considerada como uma terapia do diálogo, mediada pelo livro. Ele diz que “a particularidade do diálogo biblioterapêutico é a presença, entre os parceiros do diálogo, de um texto, de um livro, a ser comentado e interpretado” (p.152).

Num dos trabalhos nacionais sobre a atividade de contar histórias, Coelho (1990) afirma que a força da história é tamanha que narrador e ouvintes caminham juntos na trilha do enredo e “ocorre uma vibração recíproca de sensibilidades, a ponto de diluir-se o ambiente real ante a magia da palavra que comove e enleva” (p.11). A ação se desenvolve e terapeuta e cliente ficam magicamente envolvidos com os personagens.

A mesma autora (1990), reconhece que a despeito de as histórias agradarem a maioria das crianças, os tipos de enredo que despertam o seu interesse variam em função da etapa do desenvolvimento na qual se encontram. A partir dos sete anos de idade, por exemplo, as crianças preferem histórias com um enredo reduzido envolvendo aventuras no ambiente próprio: família, comunidade e histórias de fadas. Com oito anos, a preferência é por histórias vinculadas à realidade. Aos nove anos, a criança preferirá as histórias de fadas com enredo mais elaborado. E a partir dos dez anos, escolherá as fábulas, os mitos e as lendas (Coelho,1990,15).

Entre os psicólogos, Jean Piaget (1970 e 1978) afirma que é de sete a doze anos a época em que há a construção dos significados e do real e a formação do simbolismo na criança. Piaget (1970) diz que é, nesta fase, onde “a construção da idéia de história acontece” (p.323). Spinillo (1993), nesta perspectiva de desenvolvimento infantil, chama a atenção para o fato de que crianças de oito anos, em especial, possuem “um domínio efetivo do enredo da história contada” (p.74), e Carlson & Arthur (1999), psicólogas da educação e especialistas no uso criativo de histórias no trabalho com crianças, sugerem que:

“a ludoterapia é mais eficaz com crianças entre três e seis anos de idade. No entanto, com o uso de jogos e histórias, pode-se atender crianças de sete a doze anos, e até jovens adolescentes.” (Carlson & Arthur,1999,215)

Pearce (1987) e Brenelli (1996), professores da área de Ciências Humanas, afirmam que o pensamento mágico implica a existência de alguma conexão entre pensamento e realidade, onde o pensamento penetra e pode exercer uma influência sobre o mundo real. Para Pearce (1987), “o pensamento infantil baseia-se nesta atitude, de sete a doze anos de idade” (p.14).

A maior parte das crianças aprende, primeiramente, por intermédio de seus pais. Uma cultura que possui como um dos requisitos para sua existência a capacidade dos membros do grupo de aprender uns com os outros. Entre as práticas de uma cultura encontram-se certas verbalizações tradicionais: provérbios, histórias e mitos. Nos países orientais, há muito tempo, as histórias têm sido usadas para ensinar as lições de vida. Essa função tem combinado o prazer e o passatempo. Na maioria das vezes, eram os contadores de histórias e os dervixes que as levavam ao povo, ajudando dessa forma a preencher a grande necessidade de informação, identificação e ajuda para lidar com os problemas da vida (Peseschkian,1993). E ainda, como relata Estés, em 1996, (apud Prebianchi,2000):

“as tradições hispano-mexicana e húngara vêem o relato de uma história como uma prática espiritual básica. Histórias, fábulas, mitos e folclore são aprendidos, numerados e conservados da mesma forma que se mantém uma farmacopéia… Essas histórias medicinais são usadas para ensinar, corrigir erros, auxiliar a transformação, curar ferimentos, recriar memória.” (Prebianchi,2000,27)

Os adolescentes soviéticos usam criar histórias como metáforas para suas dificuldades com os pais, com a sociedade e consigo mesmos. Estas histórias lhes permitem obter poder psicológico sobre a situação enquanto recebem apoio do grupo para os seus dilemas (Mazurova,1991). Para Peseschkian (1993) e Pinheiro (1995), num estudo de orientação junguiana, os conteúdos dos contos de fadas, fábulas e parábolas sugerem soluções, aceitas dentro da cultura, para situações familiares. Baptista & Pentagna (1995), Reis (1997), Bernhard (1998) e Calazans (2001), concordam que os contos falam dos grandes problemas da existência e de como a sabedoria popular resolve estes conflitos. E, em relação ao processo de desenvolvimento infantil, ajuda à criança a tornar sua existência significativa. Calazans (2001), diz ainda que, assim como os contos as histórias infantis também retratam a vida cotidiana ajudando na resignificação dos sentimentos não só das crianças, mas também das pessoas idosas. J. Sommerville (1982) afirma, em seu livro sobre a infância, que os contos de fadas possuem funções socialmente úteis ao ensinarem, indiretamente, lições de vida. Violet Oaklander (1980), da Psicologia da Gestalt, afirma que:

“muito significado psicológico tem sido atribuído aos contos de fadas. Independentemente de se concordar ou não com estas interpretações, os contos de fadas exercem grande atração e possuem muito valor para as crianças. Os contos de fadas e os contos populares, assim como as canções populares, emergem das profundezas da humanidade e envolvem todas as lutas, conflitos, tristezas e alegrias que as pessoas encontraram através dos tempos.” (Oaklander,1980,112)

Bettelheim (1978) considera que “os contos de fadas são únicos, não só como forma de literatura, mas como obras de arte totalmente compreensíveis para a criança, como nenhuma outra forma de arte é” (p.12). Como toda arte significativa, o sentido mais profundo dos contos de fadas será diferente para cada pessoa, e diferente para a mesma pessoa em momentos diversos de sua vida. A criança extrairá um sentido diferente do mesmo conto de fadas ou da mesma história infantil, dependendo dos seus interesses e necessidades do momento. Sendo-lhe dada a oportunidade, ela voltará ao mesmo conto ou história quando estiver pronta a ampliar significados ou substituí-los por novos. Benjamin (1994), concorda e diz que “a criança é livre para compreender a história como bem quiser, e com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação” (p.203). No mesmo caminho, Abramovich (1997), considera que quando uma criança escuta, “a história que se lhe conta penetra nela simplesmente, como história. Mas existe uma orelha detrás da orelha que conserva a significação do conto e o revela muito mais tarde” (p.24). Benjamin (1994), afirma que “quem escuta uma história está em companhia do narrador” (p.196).

Carlson & Arthur (1999), discorrendo sobre o relato de histórias infantis na ludoterapia, afirmam que:

“a história infantil é um recurso que facilita o processo ludoterápico. As histórias podem comunicar à criança uma aceitação de si próprias, proporcionar a expressão de emoções importantes e contribuir para o desenvolvimento de uma relação terapêutica.” (Carlson & Arthur,1999,215)

Para os autores citados (1999), este recurso possibilitará uma facilitação no processo terapêutico da criança. Poderá ser usado tanto com crianças que estão traumatizadas como com aquelas que estão experimentando algum tipo de dificuldade emocional. Em seguida, eles afirmam que “o relato de histórias pode ajudar nos problemas interpessoais e promover saúde mental nas crianças com falta de auto-estima, através da expressão de seus sentimentos” (Carlson & Arthur,1999,216). Davis (1989) salienta que é uma forma particularmente valiosa de terapia infantil porque as histórias já são uma “…parte saudável e interessante da vida de uma criança” (p.18).

Para que as histórias possam vir a ser facilitadoras no processo da criança é necessário, no mínimo, que existam várias opções de títulos na sala de ludoterapia, para que as crianças que serão atendidas possam vir a escolher algum dos livrinhos de acordo com a sua própria vontade. Isto envolve descobrir aquelas histórias que tragam temáticas que possam ajudá-las a refletir sobre sua identidade, e que tragam situações problemáticas com as quais a criança possa se identificar e que, estas mesmas situações, terminem com soluções positivas e perfeitamente realizáveis (Pardeck,1990a). A criança poderá, assim, experienciar uma grande amplitude de emoções, descobrir suas próprias forças a partir da apreciação das forças dos personagens da história e criar um modo de lidar com suas questões internas com satisfação. Bauer & Balius (1995) enfatizam que a finalidade é ajudar a criança a criar novos meios e maneiras de ver seu mundo interno a partir daqueles usados pelos protagonistas das histórias apresentadas.

Nancy Davis (1989) afirma que:

“vários temas são evidentes na leitura inicial da história. Eles demonstram as percepções dos ‘clientes’ sobre o seu relacionamento com coisas importantes de sua vida, tais como sua família ou seus amigos, e em seu ambiente tais como lar e escola” (Davis,1989,20).

De acordo com os teóricos da aprendizagem, “os seres humanos aprendem por mediação a partir de alguma coisa que lhes chame atenção” (Pardeck,1990a, 231). Os personagens fictícios nos livros são oferecidos terapeuticamente como tipos de pessoas comuns, com questões existenciais “já superadas” semelhantes às das pessoas reais, com os quais a criança poderá se identificar. Isto é especialmente importante para crianças com falta de figuras positivas na família, pois quando lhes é permitido ler sobre outros que superaram questões ou problemas similares aos seus começará a perceber outras possibilidades para sua vida, criando condições de ajustamento a partir da história positiva do personagem que tenha lhe chamado atenção. Isto proporciona às crianças a lembrança de acontecimentos de sua vida através do personagem, lhes dando oportunidades de aplicar o que elas aprenderam das histórias em suas próprias situações de vida-real (Bauer & Balius,1995). Segundo Machado (1999), contadora de histórias infantis, os personagens são possibilidades de percursos humanos.

Pardeck (1990a) teoriza que há três componentes para o processo terapêutico, o primeiro é a fase da identificação. Neste ponto, similaridades entre a criança e o principal personagem do livro são evidentes. A criança se identifica com necessidades, vontades, e sentimentos daquele personagem. A próxima fase é onde a criança experiencia uma libertação emocional de sentimentos que podem ser expressos verbal ou não-verbalmente. Porque a criança identificou seus próprios sentimentos no personagem principal da história, quando o personagem experimenta a libertação emocional de seus sentimentos na história, os sentimentos da criança são libertados também. A fase final é quando há a auto-aceitação, a criança olha para si própria e olha os outros aspectos significativos nos personagens da história comparando agora, diretamente, aos dela mesma, e ganhando auto-conhecimento através dessas similaridades percebidas. Davis (1990) afirma que:

“os recursos de identificação são utilizados porque eles facilitam o surgimento do sentimento da criança. Se livrinhos de história no processo terapêutico forem usados para falar o sentimento da criança e ajudar o terapeuta a compreender melhor as atitudes que esta criança tem frente à brincadeira … então, poderão servir como agentes muito poderosos na mudança terapêutica.” (Davis,1990,9).

A compreensão do terapeuta sobre as identificações da criança com a história e os temas importantes observados em sua brincadeira ocorre, geralmente, através de um processo de troca com outros terapeutas supervisores (Davis,1989). Cabe ao terapeuta ouvir as histórias que contam os clientes, compreendê-las e auxiliar na alteração do seu curso, seu enredo atual, sempre almejando um final feliz (o bem-estar dos clientes).

Então, o uso de história infantil na terapia permite às crianças lerem ou ouvirem sobre outras que superaram problemas similares aos seus, dando-lhes oportunidade de aplicar o que elas aprenderam nas histórias às suas próprias situações na vida-real (Pardeck,1990b). “Lendo sobre outras histórias similares às suas, as crianças que têm problemas podem não se sentir tão sós ou diferentes” (p.1043). É eficaz com crianças porque lhes permite “…solucionar seus problemas sem a obrigação de verbalização em profundidade na exposição de seu mundo interno” (p.1044), evitando, também, os problemas que muitas crianças tem com terapia tradicional baseada em entrevistas.

Na ludoterapia centrada na criança, Axline (1972) afirma que quando a criança está em atendimento terapêutico, é essencial olhar o mundo como esta criança o vê. As crianças são inerentemente ativas e como já falado, sua linguagem natural é brincar. Portanto, é necessário permitir a elas um ambiente onde possam se expressar através do meio com o qual elas se sentem mais à vontade. Pensando assim, Carlson & Arthur (1999) dizem que:

“tanto o jogo como a história pode ser usado eficazmente pelos terapeutas para criar um ambiente para as crianças com problemas ou dificuldades emocionais, que seja facilitador no seu processo de auto-conhecimento, auto-aceitação, auto-estima, crescimento e ajustamento construtivo à difícil realidade na qual vivem.” (Carlson & Arthur,1999,224)

No mesmo artigo, acrescenta: “contudo, porque o relato das histórias em terapia jamais é feito isoladamente, sem o brinquedo, é difícil especificar as atitudes que indicam seu uso com êxito” (Carlson & Arthur,1999,225). Davis (1990) aconselha o uso de outros instrumentos no processo terapêutico com crianças, como por exemplo, os testes projetivos, a fim de desenhar o progresso geral da criança relativo à sua saúde emocional.

Nancy Davis (1989) enfatiza a visão de que:

“…a criança não precisa entender uma história como sendo uma história terapêutica, pois lhe basta entender a mensagem trazida como algo que tivesse sido escrito para ela, que traz aspectos de sua própria história real.” (Davis,1989,22)

Davis (1990) também salientou que histórias usadas em terapia tendem a fazer surgir novas idéias ou temas que lhe sejam significativos. Histórias publicadas com mensagens terapêuticas podem ser usadas, ou os terapeutas podem criar suas próprias histórias individualizadas, ou podem encontrar outros meios e tipos que acreditarem ser mais eficaz.

Para saber se o relato da história infantil foi bem sucedido em um momento terapêutico partimos de uma observação: se a criança fez uma conexão com a história lida ou ouvida com a sua história de vida. Davis (1990) dá como exemplo de evidência de que uma conexão aconteceu, quando a criança pergunta por uma certa história repetidamente ou responde a uma história que a ajuda particularmente com um comentário similar a, “eu amo esta história”. Ela salienta que se a história não se aplica diretamente à criança ou não a ajuda, a criança parecerá desinteressada e não pedirá para ouvir a história novamente. Se a ajuda, Coelho (1990) comenta que “a história não acaba quando chega ao fim. Ela permanece na mente da criança, que a incorpora como um alimento de sua imaginação criadora” (p.59).

A avaliação das questões do cliente na ludoterapia pode também ser realizada através de uma observação informal do jogo da criança e vendo o jogo como uma metáfora para o que a criança está experienciando em sua vida real. Landreth (1993) afirma que “é necessário observar temas que ocorrem periodicamente na brincadeira da criança antes que seja possível supor exatamente sobre os seus significados evidentes” (p.23). Observações das atitudes da criança na terapia giram em torno de temas significantes que forem vistos e tidos assim por ocorrerem periodicamente.

Parece existir uma relação entre sucesso e relato de histórias no processo de ludoterapia. Dentro da metáfora e do mundo criativo do jogo e das histórias as crianças são capazes de se distanciar de questões problemáticas com as quais elas lutam, e ainda são capazes de compreender eficazmente suas experiências e os acontecimentos que lhe causaram sofrimento emocional (Carlson & Arthur,1999).

Porque elas ainda não desenvolveram as habilidades necessárias da linguagem expressiva para terapia verbal, as crianças, às vezes, indiretamente, comunicam seus medos, esperanças, e lutas na forma de metáforas (Brooks,1985). Santostefano (1984) define uma metáfora como “um modelo de imagens, símbolos, palavras, emoções e ações que sintetiza, conserva e representa experiências. Uma metáfora não somente representa experiências, mas também prescreve ações e emoções particulares” (p.79). A falta de simbolização adequada, ou seja, que se dê como uma extensão natural do vivido, gera uma necessidade de que esta simbolização se dê. Em relação a este pensamento metafórico, Peseschkian (1992) comenta que:

“com as histórias abre-se a porta para a fantasia e para o pensamento metafórico (…). De certo modo, elas transmitem a criatividade (…). Dessa forma, as histórias constroem uma ponte para os desejos pessoais e as metas do futuro próximo e distante. As histórias abrem o caminho para as alternativas à realidade.” (Peseschkian,1992,51)

Neste mesmo caminho, Prieto (1999) diz que “contar uma história é resgatar o próprio destino: descobrir a que sonho pertencemos e encontrar caminhos para a própria vida” (p.09). O diálogo com uma história pode mobilizar o ouvinte ao encontro consigo mesmo e seu mundo; um mundo que é único, singular e pleno de significações. É, nas palavras de Benjamin (1994), “o encontro do justo consigo mesmo” (p.221), o encontro com o si mesmo.

Um método instrumental de comunicar-se metaforicamente com crianças é através do relato da história infantil. Peseschkian (1992) afirma que as histórias são “entretenimentos que fazem mais do que somente entreter; são orientações que cada pessoa pode aceitar de acordo com suas necessidades” (p.56). As histórias são leituras e as leituras, por si só, parecem já possuir força terapêutica. Ouaknin (1996) comenta que a terapia por meio de livros “nasce do encontro entre a força da língua e o local de expressão primordial e primeiro dessa força: o livro” (p.16).

Concluímos que sua utilização como recurso psicoterapêutico é particularmente útil na prática psicoterápica infantil, dado que, a despeito de todos os avanços tecnológicos as histórias (lidas ou narradas) ainda se constituem em elementos atrativos para o mundo das crianças.

Carlson & Arthur (1999) afirmam que tanto o brinquedo quanto a história infantil usados como recursos facilitadores do processo terapêutico permitem às crianças se “distanciar” de temas dolorosos de sua vida e lidar com eles através das histórias dos personagens do livro. Uma afirmação que poderá ser aplicada em qualquer que seja a área Clínica da Psicologia Infantil.

Portanto, a inserção de livros de histórias infantis na relação terapêutica constitui um campo de investigação que nos levaria a saber como eles servem de recurso facilitador na ludoterapia centrada na criança.

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Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002