A identidade feminina da ACP

Luiz Henrique de Sá

Sem dúvida, meio Século de existência no que diz respeito a assimilação, aceitação e reconhecimento de mudanças, no desenvolvimento do conhecimento de determinada área, representa um tempo muito curto, em virtude da postura dogmática e apegada que acompanha, quase sempre aqueles que acreditam ter a posse do saber.

A ACP já possui pesquisa e dados confirmados que lhe permitem até uma certa tradição; por outro lado o seu anti-dogmatismo a caracteriza como eternamente jovem, sempre disposta ao questionamento, autocrítica e reformulação.

Essa é uma das características da ACP que mais a aproxima de uma Identidade sexual feminina Nós podemos, sem dúvida, constatar como as mulheres têm nas últimas décadas se questionado, se transformado, vendo e revendo seu papel na sociedade, coisa que só há multo pouco tempo, na esteira das mulheres, os homens começaram a fazer. O não questionar e tornar-se inflexível e impenetrável às mudanças, como forma de manutenção de poder e identidade, pode ser visto e considerado próprio do papel social masculino. Mesmo com o advento da contra-cultura ainda é extremamente difícil para a maior parte dos homens aceitar mudanças no modelo masculino.

A filosofia ocidental baniu o lado Dionisíaco e fundou sua tradição como Apolíneo, como bem o demonstrou Nietzsche, com isso supervalorizou a razões o intelecto. Daí as teorias de conhecimento, a ciência e o próprio saber acabaram por adotar um procedimento altamente dominador em relação à natureza e dentro de seus próprios cânones. A história da civilização como tendo suas origens em sociedades masculinas brutalmente dominadoras e altamente guerreiras é só meia verdade. A arqueologia, através das escavações mais recentes demonstra que outros tipos de civilizações existiram e que aí, homens e mulheres puderam ser parceiro sem necessidade de dominação. Da mesma maneira que a dominação masculina significou uma mudança drástica naqueles tempos remotos, hoje estamos no limiar de uma outra, tão importante quanto aquela, ou seja, nessa era de alta tecnologia de procedimento masculino, precisamos realizar a mudança para um modelo diferente de organização social ou teremos de encarar a possibilidade da extinção. Não uma mudança em direção à sociedade ideal, mas onde valores femininos como dedicação, compaixão e não-violência não sejam desvalorizados. O que nós temos então hoje é um tipo de modelo dominador, herdeiro dos valores tradicionais masculinos tais como coragem, força, resistência, dominação, etc. Dentro desse contexto, a mulher tem tido um trabalho grandioso para tentar mudanças onde outros valores possam ser reconhecidos. A dificuldade é imensa e muitas vezes, ao tentar, algumas mulheres se deixam contaminar e acabam por galgar degraus, utilizando e se convertendo ao modelo que pensavam em modificar.

Algumas propostas, tanto teóricas como práticas, têm surgido e vêm marcadas pelos valores femininos, dentre elas consideramos que a ACP é de suas representantes.

Através dos trabalhos de Rogers e colaboradores, podemos detectar as qualidades femininas que caracterizam a ACP. A valorização do silêncio, da paciência, da forma de fazer através da ação pela entrega, pelo “deixar acontecer”, tão presente nos grupos, a cooperação, tudo Isso nos remete a uma postura feminina que se contrapõe a ativismos, agressividade e intelectualização.

Uma das atitudes básicas e fundamentalmente feminina – a aceitação do outro nos permite, trazer um caráter afetivo às relações interpessoais, diferentemente de uma postura “masculina”, que simplesmente julga o outro sem tentar compreendê-lo.

Outras características femininas estão também presentes, tais como a intuição, a receptividade e a compreensão. A ACP tem demonstrado que uma postura feminina de atuação, longe de ser fraca, é altamente transformadora e que a sua idade, por exemplo, possui grande força intrínseca, que o “pensamento” que vem do coração possui sua própria lógica e que a capacidade de entrega é uma escolha ativa e não um mero abandonar-se passivo.

Tudo isso localiza a ACP no mundo atual de forma marginal, ela não é vista como representante das forças dominadoras na área “psi”, onde a maior parte das propostas ainda traz a marca da “ciência masculina”. Quando estamos a pensar nossa Identidade, assustamo-nos ao ouvir propostas de nos tomarmos mais parecidos com essa ou aquela corrente que tem tido mais reconhecimento, etc.; acreditamos ser nos ater a nossa maneira de fazer as coisas, ao nosso “jeito de ser” e assim, conseguir o tão buscado reconhecimento público necessário perceber que minorias que copiam um modelo dominante, acabam por se violentar e ridicularizar. Da mesma forma que temos visto o velho mundo vir buscar na diversidade cultural nos povos do 3º. mundo; profissionais de outras correntes têm utilizados vários conceitos centrados, modificando a sua prática, porem sem explicitar a origem desses conceitos. O que é necessário, é exatamente a explicitação dessa origem essa divulgação junto ao público. Não só de conceitos, mas de: propostas e maneiras de atuar.

Apesar da “tradição masculina” que domina o planeta, muitos homens têm se dedicado repensar seu papel social e mesmo criar um novo modelo masculino, onde é característica a vontade de compartilhar os sentimentos mais íntimos, de se abrir com outros homens, mulheres e filhos.

Um novo papel onde atividades consideradas exclusivamente como femininas são compartilhadas. Esse novo modelo pode ser facilitado a se configurar se utilizarmos uma “metodologia feminina”, como a que é proposta pela ACP. Isso fica mais evidente nos grandes grupos, onde o indivíduo pode apreender e aprender auto-governo, solução criativa de problemas e transformação da cultura, no sentido de atender às necessidades dos participantes. Um clima centrado proporciona aos homens a possibilidade de entrarem contato e integrar o seu lado feminino, a anima junguiana. Nesse clima, nos grandes grupos, pode-se perceber e constatar a força de uma abordagem que reconhece e valoriza valores e posturas femininas.

Adaptação livre do trabalho: A Identidade da ACP e a América Latina, apresentado no VII Encontro Latino Americano da ACP. Luiz Henrique de Sá é psicoterapeuta e facilitador de grupos. Publicado no Jornal da Abordagem Centrada na Pessoa, Associação Rogeriana de Psicologia, Rio de Janeiro, junho-1998. p. 7