A NOÇÃO DE TENDÊNCIA ATUALIZANTE COMO PULSÃO ESTÉTICA

Paulo Joaquim Leão Porto

Introdução

A intenção deste texto é explorar as possibilidades de se pensar o conceito de pulsão no contexto de uma psicologia e uma psicoterapia fenomenológica e existencial, notadamente a Abordagem Centrada na Pessoa e a Gestalterapia. Entendemos estas abordagens como desenvolvimentos que se deram dentro do movimento mais amplo da psicologia humanista e que tinham no conceito de Tendência Atualizante o seu conceito fundamental. O que pretendemos é propor a possibilidade de pensarmos esta tendência como uma pulsão como, aliás, era a pretensão de Kurt Goldenstein quando a formulou pela primeira vez. Para isto faremos um percurso pela história do desenvolvimento do conceito de pulsão, nos detendo um pouco em sua apropriação psicanalítica para daí então desenvolvermos uma apropriação diferenciada desta e mais adequada ao modo de pensar e trabalhar com a natureza humana no âmbito das psicoterapias fenomenológico-existenciais. No âmbito destas psicoterapias acreditamos que o conceito de pulsão não pode ser pensado de outra forma a não ser como força plástica e indeterminada. Isto encaminha a natureza humana e a própria relação terapêutica no sentido da estética o que implica portanto também em uma ética específica.

As origens do conceito de pulsão

É importado da filosofia que a pulsão chega à psicologia. A bem da verdade a coisa é um pouco mais complicada do que uma simples transferência ou empréstimo de um domínio para outro, pois a própria psicologia era compreendida como uma subseção da filosofia[1] . Portanto, a história da pulsão se confunde com a própria história da psicologia, principalmente nos momentos cruciais de sua necessidade de emergência como ciência humana e autônoma em relação à filosofia. Parece-nos importante, no sentido de ser bastante enriquecedor, nos determos um pouco na história deste conceito, sem perdermos de vista que a história de um conceito nunca se dá de forma linear, mas sempre através de recortes e de agenciamentos com outros conceitos e com outros domínios de conhecimento além daquele específico com o qual estamos lidando no momento, uma história em ziguezague.[2]

O termo pulsão é creditado à época do romantismo alemão. Para ser mais específico, ao movimento que preparou o advento do romantismo alemão e que ficou conhecido como Sturm und Drang (tempestade e ímpeto)[3] . O que caracterizava este movimento de ordem literária era o profundo desrespeito pela vertente empirista do Iluminismo, ou seja a vertente que entendia que o que é real é apenas o que pode ser apreendido pela experiência. Contra esta perspectiva eles propunham não só a possibilidade da existência de algo mais além da realidade empírica, como postulavam também a existência de um lado irracional no ser humano. Para estes românticos, portanto, também não interessavam as abstrações, as conceituações universais, a objetividade racional, nem as leis gerais racionalmente constituídas. O que para eles importava eram as forças criativas da subjetividade humana, as paixões como verdadeiros acontecimentos cósmicos. O pensamento romântico, portanto, opunha a imaginação e o sentimento ao racionalismo e ao empirismo.[4]

O protótipo do filósofo romântico é o do filósofo da natureza, o filósofo que visa o conhecimento da totalidade de tudo o que existe. Por isto se esforçam para se desenvolver não só no âmbito da filosofia, mas também nas artes e na medicina. Esta medicina romântica, nos é particularmente interessante quanto ao que diz respeito ao desenvolvimento da noção de pulsão. É que até então a medicina se fundava no animismo[5] de Paracelso e Van Helmont, compreendendo a alma como o princípio da vida orgânica e do pensamento. O animismo portanto, comportava uma visão mecanicista do ser humano, pois entendia o corpo como mero efeito da alma. Contrapondo-se a esta versão, Friederich Hoffmann e Ernest Stahl proporam a corrente organicista e vitalista, que postulava a existência em cada ser vivo de uma força ou princípio que não se reduz nem à alma ou à mente, nem ao corpo físico, mas que gera a vida através de uma energia própria[6] , com isto lançando as bases da corrente romântica da medicina.

Para a medicina romântica portanto, existe uma teleologia interna[7] aos seres vivos, ou seja uma energia ou força inerente à matéria viva que origina seu comportamento. Neste sentido então, para a medicina romântica ou para o vitalismo, a alma ou espírito não existe acima da matéria, mas pelo contrário, ela existe como uma inteligência inerente à matéria. Mas esta inteligência, embora seja material, não é consciente ou visível, constatamos apenas os seus efeitos na manifestação da vida. Segundo este princípio, a natureza deve ser o espírito visível e o espírito a natureza invisível, vale dizer, espírito e natureza são idênticos. (Cf. ANDRADE, R. A teoria das Pulsões no Romantismo Alemão in As Pulsões, pp 22 e 23). O que vai permitir esta identidade entre a natureza e o espírito é a noção de organismo na qual nos deteremos mais à frente.

A idéia de pulsão se desenvolve nesta época como um dos conceitos produzidos no esforço de melhor compreender estas forças vitais e orgânicas. Outros termos eram também bastante utilizados, como, instinto, impulso, afeto, inclinação e tendência. Todo um arsenal metafórico que tinha por objetivo o esforço de tentar descrever os estados de afecção do corpo que extrapolavam o âmbito da racionalidade e da consciência. Torna-se cada vez mais evidente, após o romantismo alemão, a existência de estados psíquicos inconscientes.

Shopenhauer e a pulsão de morte

No rastro destes esforços, encontramos Shopenhauer para quem a essência do mundo era a vontade. Ou seja, a vontade para Shopenhauer, ocupava o lugar da coisa-em-si kantiana, a realidade absoluta e última que se encontra no substrato de toda e qualquer representação. Este querer fundamental do qual o mundo fenomênico é subsidiário é a pulsão para este filósofo alemão. Portanto, para Shopenhauer a pulsão é uma unidade substancial. Na verdade, todo o desenvolvimento conceitual da pulsão, desde os românticos até Shopenhauer, a pensou como uma substancia. A partir de Nietzsche as coisas mudam.

Nietzsche e a pulsão como força plástica

Muito influenciado pelo romantismo alemão e principalmente por Shopenhauer, desde os primórdios de sua obra, Nietzsche logo cedo também abandona ambas as perspectivas. É que para este filósofo, também alemão, a pulsão não pode ser entendida como una, substancial ou coisa-em-si. Na verdade, a pulsão não pode nem mesmo ser compreendida de forma isolada, como a pulsão. A pulsão só pode ser compreendida como multiplicidade de forças em relação de tensão, donde temos portanto que ter no mínimo duas. Daí extraímos uma primeira característica da pulsão: 1) ela é sempre força em relação de tensão. Quando Nietzsche a ela se refere é sempre em termos de Triebkräfte.

Nietzsche também 2) não faz distinção entre pulsão e instinto, como seria posteriormente feito pela zoologia e pela psicanálise freudiana, onde pulsão é uma carga energética motriz enquanto o instinto é um termo reservado para o comportamento fixado, geneticamente determinado.

Para o filósofo alemão as pulsões também possuem um 3) potencial lingüístico ou simbólico, ou seja, as pulsões são potencialmente capacitadas para se converterem em símbolos ou em linguagem.

Estas três características reúnem-se em uma característica mais geral da pulsão que é a de 4) compreende-la como força plástica.

Dentre os desenvolvimentos da noção de pulsão ao que parece é que foi Nietzsche quem a compreendeu melhor, pois não se preocupa em aferir-lhe nenhum estatuto de coisa fundante. Como vimos, a pulsão origina-se da filosofia, mas é um conceito que se desenvolve também na literatura e na poesia do Sturm und Drung e do movimento romântico alemão. Por outro lado, a pulsão também tem suas representações na medicina e na fisiologia, quando os médicos românticos tentam inseri-la na compreensão do vitalismo, o que lhe afere um estatuto fisiológico e mecânico de força. Sendo força, a pulsão insere-se também nas teorias energéticas das ciências exatas da época, como a Física e a Química. Portanto, temos na pulsão, um conceito que se desenvolve no transito entre vários campos: fisiologia, medicina, filosofia, física, química, literatura e poesia. Uma história que, como diriam Deleuze e Guatarri, caminha em ziguezague. Portanto, o seu estatuto não pode ser de o de coisa fundante, mas antes o de metáfora.

A pulsão é uma metáfora que empregamos na tentativa de nos aproximarmos da descrição de estados internos que nos afetam e dos quais não podemos constatar a existência empírica. O que sabemos é que existem quantidades força que nos impulsionam e também à natureza em direções as mais variadas, forças que se encontram portanto em relação de tensão, mas jamais “vemos” uma força. Nietzsche percebeu bem isto e por isto mesmo é que lhe atribuiu um estatuto metafórico. Para o filósofo-psicólogo, a pulsão é uma quantidade de força indeterminada e plástica que constitui as formas da natureza, inclusive a forma humana, em sua relação de tensão com outras quantidades de força também indeterminadas e plásticas. A psicologia para Nietzsche é o estudo destas forças, ou seja, o estudo das pulsões. Dito de outra forma: a psicologia é o estudo da morfologia e do desenvolvimento destas forças.[8]

Após Nietzsche, o momento seguinte no desenvolvimento da história da pulsão é o da psicanálise. Mas Freud apropriou-se deste conceito priorizando a concepção energética, considerando a pulsão como uma força de natureza sexual, cuja forma se desenvolveria a partir das relações travadas no eixo edipiano. Com isto encapsulou a pulsão nos limites de uma teoria energético-explicativa, entendendo-a como um conceito fundante que explicaria toda a ordem da vida psíquica.

Portanto, argumentamos que, para pensarmos em termos do desenvolvimento da noção de pulsão no contexto de uma teoria da psicologia e da psicoterapia fenomenológico existencial, precisamos retornar a Nietzsche e melhor nos apropriarmos de suas concepções pulsionais. Nietzsche ao que parece, é a ponta de terra onde as águas da psicologia se dividem. Por um afluente foi a psicanálise, o Círculo de Viena e as dissidências; por outro caminho foi K.Goldenstein e a psicologia humanista, hoje desenvolvendo-se como psicologia fenomenológico-existencial. Por um lado a pulsão como libido, força sexualmente determinada pelo contexto das relações do complexo de Édipo; por outro a pulsão como tendência atualizante, força plástica e indeterminada. Por um lado, fundamento; por outro abertura.

Pulsão e sujeito: rumo a uma estética da existência

Ao compreender a pulsão como força plástica, a conseqüência mais imediata que extraímos é a de descentramento do ser. Ou seja, como a pulsão não é mais uma unidade substancial, mas força em relação de tensão que a todo momento esta constituindo e desconstituindo formações complexas, então a unidade do ser perde sua consistência, vale dizer, torna-se descentrada ou fluida.

Psicoterapia e estética da existência: rumo a uma ética da diferença na relação terapêutica

A psicoterapia se desenvolve, não no sentido da cura de sintomas, mas no da produção de um estilo para a existência. Dito de outra forma: a psicoterapia não é da ordem da cura, mas da ordem da criação de formas de ser. Afirmar que o objetivo da psicoterapia é a criação de um estilo de ser não significa aqui que estamos entendendo estilo como superfície, forma de ser, conseqüente da cura, esta sim o objetivo primeiro. Não! Estamos dizendo que a cura é secundária em relação à criação do estilo, ou no máximo que a cura é que é a conseqüência disto. Com isto desfocamos o procedimento terapêutico do sintoma e nos abrimos para a totalidade do humano ao qual nos deparamos.

Mas, com isto, fazemos também muito mais, pois, ao descartar a cura dos sintomas como objetivo saimos da ordem da terapêutica, deslocando também a psicoterapia do âmbito discursivo da causalidade e da ciência, notadamente da medicina, e nos embrenhamos em um caminho em que a própria noção de terapia ou de psico-terapia e outras mais como clínica e consultório fica posta em cheque. Sendo da ordem da criação de estilo de vida ou de modos de ser, talvez seja mais adequado pensarmos esta curiosa forma de relacionamento humano como sendo da ordem da produção cultural, o que nos insere diretamente nos campos discursivos da ética e da estética.

Com efeito, a categoria do estilo é originária da literatura e das artes, não tendo nada a ver com a ciência. Podemos até dizer a partir da literatura que a ciência desenvolve um determinado estilo de escrita ou a partir da estética dizer que a ciência produz uma determinada forma de conhecimento, mas definitivamente a ciência não se ocupa com o estudo das questões de estilo. Estas são do âmbito da estética.

Deleuze e Guatarri, tratando destas questões de estilo e ciência, apontam como na tradição ocidental a ciência sempre discursou em função da busca de conceitos universais. Ou seja, o discurso científico não se interessa pelo que é específico ou singular, o que interessa à ciência é a criação de grandes guarda-chuvas teóricos onde as diferenças sejam englobadas e reduzidas à unidade. Além disto, o discurso científico, por se propor universal precisa ser neutro em sua criação, vale dizer, a perspectiva particular e pessoal do criador da teoria científica precisa ser silenciada. Aí eles apontam para a grande diferença em relação ao discurso da literatura e das artes em que, ao contrário do discurso da ciência, o autor é inteiramente exposto pois em suas obras expõem-se suas marcas singulares. A partir disto, argumentam como, mesmo em se tratando de ciência ou de filosofia, não temos como escapar da marca da autoria. (Cf. DELEUZE, G. e GUATARRI, F. O que é a filosofia.)

No entanto, o fato é que, a singularidade dos sujeitos tomada como valor é algo que no discurso da cultura ocidental não pertence ao âmbito da ciência, mas sim da literatura e das artes, por serem estes os campos onde o estilo é privilegiado. Dito de outra forma: a questão do estilo encaminha a questão da singularidade. É por questão de estilo que diferenciamos escolas de literatura, ou autores, mesmo de uma mesma escola. O mesmo se dá em relação às demais formas de expressão artística, o que caracteriza um estilo é sempre o seu confronto diante de outros estilos. É este encontro com o estilo de um autor com outro que os diferencia e desenvolve suas respectivas singularidades. Como vemos, estilo e singularidade, encaminham a questão da diferença. Se os sujeitos são diferentes, diga-se: singulares, é porque seus estilos são diferentes.

Portanto, se a questão do estilo é fundamental para a compreensão da psicoterapia, então os seus eixos são o da ordem estética e o da ordem ética.

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notas de rodapé, conmvertidas em notas de fim de texto

1. No século XVII a psicologia havia sido sistematizada por C.Wolff como parte da metafísica, juntamente com a teologia e a lógica.
2. Deleuze e Guatarri nos lembram que qualquer conceito “…sempre tem uma história, embora a história se desdobre em ziguezague, embora cruze talvez outros problemas ou outros planos diferentes. Num conceito há, no mais das vezes, pedaços ou componentes vindos de outros conceitos, que respondiam a outros problemas e supunham outros planos. Não pode ser diferente, já que cada conceito opera um novo corte, assume novos contornos, deve ser reativado ou retalhado. (O que é a filosofia, pp 29-30).

3. O Sturm um Drung teve origem no drama homônimo de Maxmillian von Klinger (1752-1831), publicado em 1776 na Alemanha.

4. A revolução francesa inspirou muitos intelectuais alemães que logo abraçaram seus ideais humanitários e racionalistas dos iluministas, constituindo todo uma intelligentsia da época. Porém, com o desfecho da revolução, o regime de terror que se seguiu e a ameaça da invasão napoleônica, os alemães voltaram-se para si mesmos passando a buscar outros fundamentos diferentes do racionalismo, para fundamentar seu pensamento e sua cultura. Na verdade o Sturm und Drung não foi propriamente um movimento, mas um momento em que se expressou o mal-estar diante deste estado de coisas.

5. O vitalismo é uma oncepção que consiste em atribuir uma alma às coisas. Em outras palavras, crença segundo a qual a natureza é regida por almas ou espíritos análogos à vontade humana. Em seu sentido estrito, o animismo é uma teoria antropológica que tem por objetivo explicar as crenças religiosas dos povos primitivos através de uma personificação dos fenômenos naturais, sob a forma de vontades múltiplas e contraditórias. Contudo, o animismo foi utilizado também para explicar fenômenos do “mundo civilizado”, como as doenças mentais (JAPIASSU, H. e MARCONDES, D. Dicionário Básico de Filosofia).

6. N aepistemologia contemporânea, o vitalismo defende a especificidade dos fenômenos vitais argumentando contra o materialismo e o mecanicismo que a ordem físico-química dos seres vivos não não é suficiente para explicar a complexidade de sua organização (JAPIASSU, H.e MARCONDES, H. Dicionário de Filosofia).

7. Shelling foi muito importante para o desenvolvimento da medicina romântica, particularmente quanto à esta noção de teleologia interna. Através do seu princípio de identidade, Shelling postulou uma teleologia da natureza, opondo-se a seu mestre Kant, que não via na idéia de uma finalidade natural senão um produto do nosso próprio julgamento.

8. Diria Nietzsche, psicologia é a “morfologia e teoria da evolução da vontade de poder” (NIETZSCHE,F. Além do Bem e do Mal, af. 23).

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002