A PERCEPÇÃO DE CASAIS JOVENS, A RESPEITO DA DURABILIDADE DE SEUS RELACIONAMENTOS

DULCE MARIA BEDIN

REGINA VERÍSSIMO DUNCAN GOULARTE

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Faculdade de Psicologia

Porto Alegre

2002

Trabalho de Conclusão de Curso

Apresentado à Faculdade de Psicologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para a obtenção do Título de Psicólogo.

Orientadora

Prof. Me. MOEMA FULGÊNCIO

Porto Alegre, 2002

Dedicamos este estudo a todos aqueles que, no momento, se dedicam à difícil tarefa de conviver a dois, investindo em seus relacionamentos e lutando para que sejam gratificantes e intermináveis…

O mundo anda tão complicado

Gosto de ver você dormir

Que nem criança com a boca aberta

O telefone chega sexta-feira

Aperta o passo por causa da garoa

Me empresta um par de meias

A gente chega na sessão das dez

Hoje eu acordo ao meio-dia

Amanhã é a sua vez.

Vem cá meu bem, que é bom lhe ver

O mundo anda tão complicado

Que hoje eu quero fazer tudo por você.

Temos que consertar o despertador

E separar todas as ferramentas

A mudança grande chegou

Com o fogão e a geladeira e a televisão

Não precisamos dormir no chão

Até que é bom, mas a cama chegou na terça

E na quinta chegou o som.

Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo

E até que é fácil acostumar-se com meu jeito

Agora que temos nossa casa

É a chave o que sempre esqueço.

Vamos chamar nossos amigos

A gente faz uma feijoada

Esquece um pouco do trabalho

E fica de bate-papo.

Temos a semana inteira pela frente

Você me conta como foi o seu dia

E a gente diz um p’ro outro:

– Estou com sono, vamos dormir!

Vem cá, meu bem que é bom lhe ver

O mundo anda tão complicado

Que hoje eu quero fazer tudo por você.

Quero ouvir uma canção de amor

Que fale da minha situação

De quem deixou a segurança do seu mundo

Por amor

Por amor.

Renato Russo

AGRADECIMENTOS

Às nossas famílias, pela compreensão, apoio e incentivo, e também pela disponibilização de meios que tornaram viável a realização da pesquisa;

A todos os nossos amigos que nos deram apoio e auxílio no desenvolvimento do trabalho, em especial Tiane Corso Graziottin e Lívia Maria Bedin;

À nossa orientadora, Moema Fulgêncio, que foi nossa norteadora durante o desenvolvimento e conclusão desta pesquisa;

Aos seis participantes da pesquisa, que se disponibilizaram a abrir suas vidas, dividindo conosco momentos íntimos, nos auxiliando no desenvolvimento enquanto pesquisadoras e principalmente, enquanto pessoas;

Aos nossos namorados, em especial, por nos proporcionarem a experiência de viver a dois, com as dificuldades, com as alegrias, com as tristezas e com as maravilhas, mas principalmente, pelo crescimento, realização e amor, tendo este último um significado especial para cada um.

SUMÁRIO

RESUMO……………………………………………………………………………………………………. VI

INTRODUÇÃO……………………………………………………………………………………………. 07

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA…………………………………………………………………… 09

2 MÉTODO…………………………………………………………………………………………………. 16

2.1 A opção pela fenomenologia………………………………………………………………. 16

2.2 Participantes……………………………………………………………………………………. 18

2.3 Procedimentos para a coleta de dados………………………………………………… 19

2.4 Procedimentos para a análise das entrevistas……………………………………… 20

3 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS……………………………….. 23

3.1 As essências fenomenológicas e suas dimensões……………………………….. 24

CONSIDERAÇÕES FINAIS………………………………………………………………………….. 55

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS……………………………………………………………….. 57

APÊNDICE…………………………………………………………………………………………………. 59

RESUMO

Através do presente estudo, pretende-se compreender a percepção de casais, seus sentimentos, em relação à durabilidade de seus relacionamentos, e os aspectos atribuídos a manterem-se juntos.

Para a realização de tal objetivo, utilizamos o método qualitativo com base fenomenológica, visando compreender a essência dos resultados tal como se mostravam. Fizemos uma entrevista semi-dirigida, com três casais, fazendo-lhes a pergunta de fim aberto: Na experiência de vocês, quais aspectos vocês sentem que estão fazendo durar esse relacionamento?

Com isso, chegamos à experiência dos participantes, da qual surgiram muitas palavras para descrever o que sentiam com relação aos motivos que tinham para estar juntos.

Assim, chegamos a três grandes essências que melhor descrevem esses sentimentos. As essências, as quais colocam em evidência o fenômeno em estudo, são: Caminhando na mesma direção, expressando a existência de uma estrutura compatível, na qual tenham como base objetivos em comum; O conhecer como pano de fundo para o relacionamento, ressaltando a importância de conhecer o outro como ele realmente é; e, por fim, É necessário ceder, indicando a relevância de saber ceder um ao outro.

INTRODUÇÃO

A escolha do tema se deu devido ao interesse das autoras em conhecer como estão os relacionamentos conjugais na atualidade, mais especificamente os fatores que são considerados relevantes pelas pessoas, para que as uniões sejam duradouras e gratificantes.

Na atualidade, o tema mais lido e estudado tem sido a separação, o divórcio e as dificuldades em relacionamentos amorosos. É evidente que o número de separações por ano é alarmante, e, neste contexto, como alguns casais têm conseguido manter-se de maneira prazerosa?

Esta pesquisa visa compreender como está sendo vivenciada fenomenologicamente a união de casais. Ou seja, quais são os aspectos significativos para a durabilidade do relacionamento de casais?

A bibliografia encontrada dá uma visão ampliada sobre os diversos fatores que circundam esse tema. No entanto, a maior parte das publicações se parece com manuais de “como se relacionar bem”, o que não vai ao encontro de nossa questão, que tem a finalidade de ver como estão e não como deveriam estar os relacionamentos nos dias de hoje. Porém, encontramos em Rogers (1987) a alusão

a diversos aspectos que servem de base para um relacionamento construtivo e duradouro, sendo estes encontrados através de experiências vividas, e que levam a aprendizados e questionamentos sobre a dedicação dos cônjuges, a comunicação, a dissolução dos papéis e o reconhecimento da personalidade de cada um.

Portanto, esta pesquisa tem como objetivo verificar quais os aspectos apontados por casais que são significativos para a durabilidade de seus relacionamentos, bem como para o crescimento e enriquecimento de ambos os parceiros.

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Primeiramente buscamos, na história do casamento, os motivos que levavam à união em tempos mais antigos para então chegarmos aos motivos da atualidade. Para isso, faremos um breve apanhado sem nos aprofundarmos demasiadamente neste ponto. Já na bíblia, Blaquière (1996) coloca que Deus cria a mulher para que Adão pudesse libertar sua voz, para que tivesse com quem conversar, visto que antes dela ele só tinha Deus para se comunicar e essa comunicação não era verbal. Depois disso, eles passaram a viver todos os dias aprendendo a se descobrir, se amando simplesmente, até comerem o fruto proibido.

Schames (2000), coloca que Adão e Eva, ao serem expulsos do paraíso foram condenados a viverem como mortais, com todas as dificuldades inerentes a essa condição. Com isso, simbolicamente, a união do casamento representa a busca do paraíso perdido.

A mesma autora aponta que nas sociedades primitivas o que levava os homens e mulheres a unirem-se era o fator econômico, as posses. Essa maneira de instituírem-se os casamentos durou por um longo tempo e, apenas a partir do século XIX surgiu o conceito de amor romântico como valor cultural e como base ideal para o casamento. No entanto, foi só no momento em que as mulheres alcançaram sua independência econômica que de fato os relacionamentos se tornaram igualitários e as escolhas dos parceiros passaram a ser devido à busca da felicidade e do amor.

Rogers (1989) fala sobre a revolução no casamento e no companheirismo, tratando principalmente sobre o movimento de libertação das mulheres. Ele discorre sobre aspectos que influenciaram profundamente esta mudança tais como: a disponibilidade de métodos anticoncepcionais mais eficazes, o que tornou as mulheres livres fisicamente e libertas de seu papel de subjugada, deixando de viver quase que exclusivamente para a criação de filhos e passando a ter a oportunidade de escolher entre família e carreira, ou tentar um equilíbrio entre ambas; a maior aceitação social do divórcio, aumentando o poder de decisão dos cônjuges sobre manter ou não o casamento, o que leva a uma mudança na qualidade do relacionamento interpessoal; o aumento da independência econômica das mulheres que passam a trabalhar, podendo aumentar as tensões no relacionamento conjugal, uma vez que agora elas entram em contato com outros homens e, por fim, a crescente liberdade sexual, que mexe intimamente nos padrões matrimoniais.

Para Rogers (1989), todos esses aspectos “possibilitam ainda mais o casamento ou companheirismo centrado-na-pessoa. Mas eles também tornam o casamento mais arriscado, mais aberto a tensões, com menos probabilidades de durar” (p. 58). Com relação ao companheirismo sexual, Rogers encontra um dilema: quanto mais ele se torna centrado-na-pessoa, mais ele se torna vulnerável à ruptura, mas ao mesmo tempo, mais se torna aberto à realização e enriquecimento de cada um dos parceiros. No entanto, coloca que quando a comunicação entre o casal pode tornar-se mais aberta, mais real, com atenção mútua, eles acabam por reconhecer o valor da individualidade e, explorando e compartilhando seus diferentes objetivos e interesses eles tendem a manter-se mais unidos e com uma confiança mútua. Além disso, outro fator que facilita o contato dos cônjuges é o abandono dos papéis e das expectativas de papéis por uma escolha de seus próprios estilos de comportamentos. Rogers ainda coloca que:

companheiros comprometidos com um processo de relacionamento, companheiros que assumem o risco de uma comunicação de sentimentos aberta, que tentam construir um relacionamento, ao invés de garantir o futuro, irão achar que a vida é enriquecedora e recompensadora, embora certamente nem sempre suave (p.68).

Costa (1997), refere alguns pontos que podem ser desenvolvidos pelos casais para que estes venham a ter um casamento feliz. Estes são: consolidar a separação da família de origem e estabelecer uma nova ligação afetiva, na qual os cônjuges sejam capazes de estabelecer limites entre as famílias de origem e a sua própria família; construir uma identidade marital que harmonize união e autonomia, de forma que ambos consigam preservar sua individualidade “onde um possa ser o complemento do outro e não uma extensão do outro” (p.34); estabelecer a vida sexual do casal, sendo esta considerada pelo autor como sendo a parte mais vulnerável da relação; definir o casamento como área de segurança e abastecimento afetivo, ou seja, permitir que nele se crie um espaço no qual os parceiros possam expressar seus sentimentos e desejos livremente; expandir a relação marital a fim de criar um espaço psicológico para os filhos, salvaguardando a área privada do casal, assim, o casal deve ser maduro o suficiente para propiciar um espaço para os filhos sem que esses interfiram na sua intimidade; desenvolver uma relação que seja divertida e interessante, isso é, saber mediar as responsabilidades inerentes à etapa em que se encontram, sem perder o lado descontraído e divertido da vida e por último, manter uma visão do outro que combine a idealização inicial com uma firme compreensão da realidade atual, mantendo a paixão e o desejo pelo companheiro real.

O mesmo autor Costa (2000), retoma as bases de um relacionamento feliz, comentando algumas a mais. Coloca que estas dependem de capacidades pessoais dos cônjuges, adquiridas antes do casamento ou consolidadas nos primeiros anos do relacionamento conjugal. O seu conhecimento permite ao indivíduo constatar os pontos em que sua relação encontra-se vulnerável e, dentro do possível, empenhar-se para reforçá-los, o que, muitas vezes, depende de uma ajuda terapêutica.

As bases acrescidas por Costa (2000), envolvem: o conhecimento de que conflitos são inevitáveis, podendo até mesmo determinar a separação do casal. Somente quando existe este reconhecimento é que a pessoa pode ter um certo distanciamento que lhe possibilite tornar-se além de participante, também um observador do seu próprio casamento e procurar corrigir as dificuldades que surgem do próprio relacionamento.

Outra base reside no predomínio do uso da palavra como forma de expressão de expectativas e insatisfações. O autor coloca a existência de uma comunicação inconsciente entre os cônjuges e de que ela é um fator decisivo no casamento. Em muitos casamentos, tanto o homem quanto a mulher não chegam e expor em palavras seus sentimentos em relação ao outro, mas esperam ser compreendidos, zangando-se quando isto não ocorre.

Costa (2000) conclui apontando uma última base que diz respeito à possibilidade de criar um espaço psicológico que possibilite a interação dos cônjuges no entorno social, do qual devem participar as amizades anteriores ao casamento e aquelas adquiridas posteriormente. Os amigos, além de funcionarem como parâmetros do processo de avaliação do casamento, eles participam da área de distribuição de afetos, contribuindo para o equilíbrio da relação conjugal.

McMillan (2001) fala sobre condições essenciais para o desenvolvimento de uma relação de amor, sendo estas: dizer a verdade, ouvir com empatia, estabelecer limites e se sentir pertencendo um ao outro. No que se refere a dizer a verdade, isso não quer dizer que se deva falar de todos os fatos ocorridos, mas sim, nos sentimentos que eles despertam, pois os fatos podem ser colocados à prova, mas os sentimentos pertencem somente a quem os tem. Para que o casal se sinta seguro para falar a verdade, é necessário que exista um clima de segurança, no qual os parceiros se sintam capazes de ouvir um ao outro com empatia e aceitação. Assim como coloca Costa (1997), a questão dos limites bem estabelecidos pelo casal é vista como sendo fundamental, já que a privacidade da vida íntima do casal deve ser respeitada. A última condição necessária para fomentar o espírito do amor é a sensação de sentir que tem um lugar junto do outro, sentir uma receptividade mútua na qual se forma um ambiente de calor e energia.

Na mesma linha de pensamento de McMillan (2001), Rogers (1987) propõe indícios de permanência e de enriquecimento em relações, partindo de pontos identificados em determinados relacionamentos. O autor identificou quatro elementos relacionados ao desenvolvimento de relações significativas para ambas as partes com tendências a continuar.

O primeiro deles, “dedicação? compromisso?”, é percebido como o fator no qual os cônjuges comprometem-se a trabalhar pelo processo de seus relacionamentos, que tem profunda importância para ambos. Esse trabalho significa buscar tanto a satisfação pessoal como a satisfação mútua. Rogers (1987) coloca: “Nós dois nos comprometeremos a cultivar juntos o processo mudável de nosso atual relacionamento, porque esse relacionamento está enriquecendo o nosso amor e nossa vida e nós queremos que ele cresça” (p. 200).

Outro fator é a comunicação, na qual a grande importância é dada a expressão dos sentimentos, numa tentativa de contar aquilo que se sente e se responsabilizar por isso. Rogers (1987) coloca:

Arriscar-me-ei tentando comunicar qualquer sentimento persistente, …ao meu companheiro…como uma parte presente e viva em mim. Em seguida arriscar-me-ei ainda mais tentando compreender, com toda a empatia que eu for capaz, a sua resposta…(p. 203)

A dissolução dos papéis assumidos pelo casal é um fator também importante, na medida em que é quando tomamos decisões devido a nossas escolhas, e não por expectativas de outras pessoas ou da sociedade, é que encontramos a riqueza da vida em conjunto.

O último elemento encontrado refere-se à percepção de cada um como uma personalidade separada, em que cada um começa a descobrir a si mesmo e aceitar-se, abrindo-se para novas experiências e tornando o processo de crescimento mais fácil para ambos. O autor ainda faz menção a satisfação no relacionamento sexual, mas, diferente de outros autores, ele acredita que este fator é naturalmente alcançado na medida em que os outros fatores estiverem presentes.

Outro aspecto bastante considerado como fator que une os casais é o amor. Ele é uma parte integrante das relações conjugais e sobre isso Costa (2000) coloca:

A importância do amor no relacionamento conjugal durante a Idade Média era extremamente reduzida: a validade do sacramento do matrimônio residia na fidelidade e em filhos em comum. O amor entre os cônjuges era considerado mais como resultado de uma vida em comum do que como base de um relacionamento conjugal, ou seja, a regra era ‘primeiro casa e depois ama’, o oposto que começa a predominar no limiar do ano 2000: ‘primeiro ama e depois casa’ (p. 83).

O amor humano, segundo Johnson (1987), é algo inerente ao ser humano, é da sua natureza. É uma força que está dentro do ser e que lhe possibilita enxergar as coisas que estão fora do seu eu. Esse amor não é algo fácil de se encontrar, pois é facilmente distorcido pelos excessos do romance, no qual vamos a busca de nossas próprias ilusões independente daquilo que realmente encontramos. Na busca pelo amor romântico dificilmente as pessoas encontram o amor humano, que é “o poder que dentro de nós aceita e valoriza o outro ser humano tal como ele é, que aceita a pessoa que ali está verdadeiramente, e não a transforma no ser idealizado pela nossa projeção”. A essência do amor humano é “uma apreciação, um reconhecimento do valor do outro” (p.165).

Ainda falando sobre o amor, Lillibridge (1995) também faz uma distinção entre amor romântico e amor maduro, trazendo uma idéia que se assemelha à do autor supracitado. O primeiro é entendido como sendo um sentimento mais eufórico, no qual só se percebem os pontos positivos no outro, idealizados; e o segundo como sendo um sentimento percebido mais realisticamente, no qual são percebidos tanto os pontos positivos como os negativos presentes na outra pessoa.

2 MÉTODO

2.1 A OPÇÃO PELA FENOMENOLOGIA

Antes de descrever o método qualitativo e a base fenomenológica, achamos importante definir o conceito método. De acordo com Hegenberg (apud MARCONI e LAKATOS, 2000), método é “o caminho pelo qual se chega a determinado resultado, ainda que esse caminho não tenha sido fixado de antemão de modo refletido e deliberado” (p. 44). Para Trujillo (apud MARCONI e LAKATOS 2000) “é a forma de proceder ao longo de um caminho. Na ciência os métodos constituem os instrumentos básicos que ordenam de início o pensamento em sistemas, traçam de modo ordenado a forma de proceder do cientista… para alcançar um objetivo” (p. 44). Com isso queremos dizer que mesmo que o método não esteja prefixado, ele pode facilitar na detecção de erros, servindo de referência para futuras pesquisas.

A escolha por um método de pesquisa qualitativa com base fenomenológica se deu devido às características da forma como pretendemos alcançar nossos objetivos. Segundo Alves Mazzotti e Gewandesznajder (2000), as investigações qualitativas se caracterizam “por sua diversidade e flexibilidade, não admitem regras

precisas, aplicáveis a uma ampla gama de casos” (p.145).

Como refere Capalbo (1979) a atitude do entrevistador deve ser “de acolhimento do outro em suas opiniões, idéias e sentimento e procurando colocar-se na perspectiva do outro para compreender e ver como o outro se sente ou pensa” (p.35). Fomos em busca do fenômeno através de suas essências.

Como pretendemos entrevistar três casais, e verificar em cada entrevista, os fatores considerados como sendo significativos de durabilidade em seus relacionamentos, em seu aspecto fenomenológico, nos interessa a compreensão das qualidades apontadas nas entrevistas, e não a quantidade de elementos encontrados. Como coloca Patton (apud ALVES-MAZZOTTI e GEWANDESZNAJDER, 2000) “a principal característica das pesquisas qualitativas é o fato de que estas seguem a tradição ‘compreensiva’ ou interpretativa” (p. 131).

Com fenomenológico queremos dizer que “o investigador está interessado em compreender o significado atribuído pelos sujeitos a eventos, situações, processos ou personagens que fazem parte da sua vida” (ALVES-MAZZOTTI e GEWANDESZNAJDER, 2000, p. 168). Dessa forma, nos empenhamos em buscar o significado das experiências vividas pelos participantes em seus relacionamentos conjugais, experiências estas, que levaram esses casais a refletir sobre os aspectos que consideram significativos para que continuem juntos.

Como coloca Moraes (1993) a fenomenologia é uma filosofia e um método de chegar à compreensão dos fenômenos. Em nossa investigação tentamos nos voltar para “as coisas mesmas” (MORAES, 1993, p. 15), ou seja, tentamos ir à experiência original dos casais, tentando sentí-las como elas se mostravam, sem distorções. Para Kern (1996), esse método permite que o fenômeno se mostre como ele é.

Alcançar o sentido dessa experiência, de acordo com Forghieri (2001), só é possível através de informações da própria pessoa, sendo assim o método fenomenológico um recurso apropriado. Para autora, como para Moraes (1993) “a redução fenomenológica consiste em retornar ao mundo da vida, tal qual aparece antes de qualquer alteração produzida por sistemas filosóficos, teorias científicas ou preconceitos dos sujeitos…” (p. 59).

Conforme Giorgi (2001) o método fenomenológico, por ser um método descritivo, utilizar a redução fenomenológica, procurar a essência do fenômeno e presumir uma relação intencional entre o sujeito e o objeto de sua experiência, preenche os critérios fenomenológicos. Preenche também aos “requisitos científicos porque produz conhecimento metódico, sistemático, crítico e potencialmente intersubjetivo” (p. 134).

Ainda, Forghieri (2001) ressalta a importância de que o pesquisador deixe de fora suas experiências e conhecimentos anteriores relativos ao que está pesquisando. Buscando na redução fenomenológica primeiramente um envolvimento existencial e depois um distanciamento reflexivo.

2.2 PARTICIPANTES

Foram escolhidos, por conveniência, três casais que coabitam no mínimo há três anos e no máximo há nove anos, que não possuem filhos e com a idade entre 25 e 35 anos.

Inicialmente pensávamos em quatro, no entanto, o número de participantes ficou em três casais já que, mesmo que para cada casal a experiência seja única, este número pareceu suficiente para alcançarmos nossos objetivos de pesquisa. De

acordo com Rey (1999) o número de participantes na pesquisa qualitativa não pode ser definido a priori e sim no transcorrer da investigação.

Pensamos no mínimo de três anos morando juntos, pois, para que pudéssemos compreender melhor os aspectos que os casais percebem como significativos de durabilidade do relacionamento, seria necessário que os participantes falassem de experiências que construíram juntos. O máximo de nove anos se deve ao objetivo de pesquisar relações atuais. Além disso, não terem filhos mostrou-se também importante, já que não tínhamos como objetivo, verificar a importância de filhos para a união do casal.

Não era critério que os participantes estivessem casados, bastava que coabitassem, pois não nos interessava o estado civil ou religioso e sim a convivência que realizavam, mesmo assim, todos eram casados. Definimos as idades segundo critérios de Mosqueira e Stobatus (1984) que denominam esta etapa como adultez jovem plena e encontrando-se na segunda subfase da vida adulta. Essas idades vão ao encontro à nossa proposta que tem o enfoque em casais jovens, entre eles Aurora (32) e Felipe (31), Wilma (25) e Fred (30) e Bela (28) e Fera (30). Estes nomes foram escolhidos, visto que têm origem em pares de desenhos animados infantis, além de resguardar quaisquer dados que viessem a identificá-los. Aurora e Felipe referem-se ao par romântico do desenho A Bela Adormecida, Wilma e Fred, por sua vez, correspondem a um dos divertidos casais dos Flingstones. Bela e Fera fazem alusão ao clássico A Bela e a Fera.

2.3 PROCEDIMENTOS PARA COLETA DE DADOS

Entramos em contato com os participantes, que nos haviam sido indicados por conhecidos, por telefone, marcando assim a entrevista num local que ficasse de maior facilidade para eles. Dois casais foram entrevistados em suas casas, e um num consultório de psicologia.

Primeiramente nos apresentávamos, pedíamos o consentimento dos participantes para a realização da entrevista, bem como para a gravação e então realizávamos a pergunta de fim aberto: Na experiência de vocês, quais aspectos vocês sentem que estão fazendo durar esse relacionamento? Em seguida fazíamos intervenções buscando clarear os sentimentos que eles traziam além de proporcionar que abordassem o tema da maneira mais profunda possível. (Ver anexo).

A escolha do instrumento se deu devido ao caráter interativo da entrevista semi-dirigida, que também é “muito pouco estruturada, sem um fraseamento e uma ordem rigidamente estabelecidas para as perguntas, assemelhando-se muito a uma conversa” (ALVES-MAZZOTTI e GEWANDESZNAJDER, 2000, p. 168). Consideramos esta a melhor forma de entrar nas experiências vividas pelos casais.

Depois de gravadas as entrevistas, com o consentimento dos participantes, transcrevemos literalmente as falas, mudando posteriormente os nomes dos participantes para nomes de personagens, preservando assim o anonimato dos participantes.

2.4 PROCEDIMENTOS PARA ANÁLISE DOS DADOS

Para analisar as transcrições das entrevistas, buscando da melhor forma possível alcançar uma compreensão do fenômeno contido nelas, já que, como aponta Rezende (1990, p. 77), a fenomenologia : “não é só um estilo de pensar, mas de viver”, seguimos os quatro passos propostos por Giorgi (2001), acrescidos de um quinto, sugerido por Comiotto em sua tese de doutorado (1992):

• PRIMEIRO PASSO: Leitura do Material. O pesquisador lê a entrevista completa, gravada e transcrita literalmente, a fim de obter um sentido da experiência total. Transcrevemos as fitas, integralmente, e com toda fidelidade, e então procuramos reler as transcrições, para que pudéssemos ir entrando no mundo vivido pelos participantes, visando assim, captar o sentido do todo.

• SEGUNDO PASSO: Divisão do material em partes. Como propõem Giorgi (2001) buscamos dividir as entrevistas em unidades de significados dentro de uma perspectiva psicológica e com enfoque no fenômeno pesquisado. Procuramos dividir o texto, depois de detectar as mudanças de significado.

Silva (apud FULGÊNCIO, 1997) acrescenta sobre as unidades de significado, que são constituintes dos elementos da experiência, sendo assim, determinadas no contexto e pelo complexo em que se fazem ver, valendo para o todo.

• TERCEIRO PASSO: Modo disciplinado ou profissional de obter sentido das partes. Nesta etapa o pesquisador precisa descrever as intenções psicológicas que estão contidas dentro de cada unidade de significado. Neste momento a linguagem do participante é modificada para uma linguagem científica, respeitando sempre o discurso original. A tarefa do pesquisador é intuir e descrever essencialmente os significados psicológicos que trazem as descrições.

• QUARTO PASSO: Reintegração das partes. Esta última etapa proposta por Giorgi (2001), envolve uma síntese das unidades de significado transformadas, levando a uma estrutura que expresse a rede essencial das relações entre as partes, de modo que o significado psicológico total possa sobressair. Essas essências correspondem à própria experiência vivida pela pessoa, evidenciando o fenômeno como objetivo de análise. O autor coloca ainda que, nem todas as unidades de significado têm o mesmo valor, e muitas são implicitamente incluídas. Ao realizarmos essa reintegração das partes, percebemos que facilitaria se utilizássemos todas as unidades de significado, adotando assim, um último passo.

• QUINTO PASSO: Dimensões fenomenológicas. Depois de emergir as essências, que caracterizam o fenômeno em estudo, procuramos através de novas leituras deixar surgir as características do fenômeno que evidenciam sua essencialidade, mapeando suas dimensões com os aspectos significativos colocados pelos sujeitos, que emergiram das sínteses (FULGÊNCIO, 1997).

3 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Ao iniciarmos a discussão dos resultados, preferimos antes, colocar um pouco de nossos sentimentos com relação ao contato com os participantes no momento das entrevistas. Por ser nossa primeira experiência com pesquisa de base fenomenológica, fomos para a primeira entrevista sem saber muito bem como proceder, e esta pareceu durar pouco tempo. No entanto, sabíamos que o objetivo era compreender aquilo que os participantes nos traziam.

Sentimos, nesta primeira entrevista, que Fred e Wilma buscaram relatar alguns pontos para eles significativos de durabilidade, porém sem aprofundar muito nos sentimentos que tais aspectos envolviam. Nos questionamos após a entrevista se não havíamos feito um bom rapport, inibindo o casal de mergulhar em suas experiências e vivências enquanto casal.

Nos preparamos então, para a segunda entrevista, tendo em mente fazer com que os participantes aprofundassem na descrição de suas experiências, lembrando sempre de nosso objetivo. No decorrer da entrevista fomos nos dando conta que estávamos voltadas para as nossas questões, afastando-nos da experiência imediata

que os participantes viviam. Tentamos, assim que pudemos, retornar àquilo que eles estavam nos trazendo, conseguindo assim, compreender mais de perto o que eles diziam.

Sentimos de Aurora e Felipe muita empolgação ao falarem de seu relacionamento, que por vezes, vinha carregada de aprendizagens, resultantes tanto de alegrias como de sofrimentos. Percebemos também, que o casal havia realizado uma série de descobertas ao vivenciarem este relacionamento, distantes de suas famílias, o que acarretou um amadurecimento para ambos.

Antes de irmos para a terceira entrevista, refletimos o que havia se passado nas duas últimas, chegando a conclusão de que, como já muito descrito na bibliografia, de nada adianta irmos ao encontro dos participantes com pensamentos pré-determinados. Mais vale tentar se desprender, e ir com eles onde quer que eles vão. Acreditamos ter conseguido isso na última entrevista, proporcionando aos participantes um espaço de reflexão, no qual puderam repensar as formas como estão construindo suas vidas.

Nesta última entrevista, sentimos com Fera e Bela que o espaço do encontro se prestou para uma profunda reflexão da forma como cada um percebia o relacionamento, dando a oportunidade para que ambos explorassem os diversos pontos que envolvem a vida do casal.

4.1 As essências fenomenológicas e suas dimensões

Ao fim da análise das entrevistas emergiram, do mundo vivido pelos participantes, algumas essências, as quais descreveremos a seguir, juntamente com as dimensões que tornam mais fácil a compreensão de seus significados. Acreditamos serem essas essências representantes do fenômeno pesquisado, o qual se mostrou no todo, sem desconsiderarmos a experiência única de cada participante.

Todas as essências trazem significados que emergiram dos participantes, e foram divididas em três, com o objetivo de que ficasse mais clara, para o leitor, a compreensão do fenômeno. Contudo, como podem ser observadas, as essências trazem conteúdos que se entrelaçam não sendo possível uma divisão rigorosa. São elas as essências e respectivamente suas dimensões:

1 –Caminhando na mesma direção

• Objetivos em comum

• Valores em comum

• Estar em companhia um do outro

2 – O conhecer como pano de fundo para o relacionamento

• Se conhecer através da formação de um novo núcleo familiar

• Se conhecerem através das diferenças

• Conhecer a si próprio facilita com que conheçam melhor seu parceiro

3 – É necessário ceder

• Amadurecimento

• Compreensão / Empatia

1 –Caminhando na mesma direção:

Conforme encontramos na análise das entrevistas, ficou evidente o grande significado atribuído pelos participantes, cada um com suas particularidades e expressando-se de forma única, com relação à busca de objetivos em comum, bem como de experienciarem vivências na companhia um do outro. Além disso, os casais expressaram a necessidade de que suas famílias tivessem uma estrutura de valores semelhantes a fim de que tivessem maiores chances de encontrar nos parceiros valores compatíveis.

Dentro dessa essência, detectamos algumas dimensões que caracterizam ou que melhor descrevem o significado dessa, as quais apresentamos a seguir:

• Objetivos em comum: a necessidade de existirem interesses em comum mostrou-se fundamental para todos os casais, especialmente com relação à busca de desenvolvimento pessoal e enquanto casal nos mais diversos sentidos. Com relação ao crescimento para ambos, Rogers (1987) coloca “é gostoso crescer juntos, duas vidas únicas e entrelaçadas” (p. 207). No entanto, ficou evidente para todos os casais a dificuldade em pesar o quanto se dedicar para cada aspecto em que buscam se desenvolver, e, com relação a isso, emergiu outra essência, mais adiante descrita, de grande magnitude, que diz respeito ao exercício de saber ceder.

Mencionando desenvolver-se em todos os sentidos e tendo em vista objetivos amplos em comum, Aurora coloca:

Aurora: Outra coisa importante é os objetivos que a gente têm em comum. Então eu acho que desde a faculdade, quando a gente começou a namorar, nós já começamos a ver que nós tínhamos primeiro, mais ou menos os mesmos, mesmos objetivos mesmo assim. Não só um objetivo, assim…uma coisa… material, mas também objetivos de vida, de maneira de viver…

[…]

Aurora: mais importante do que a profissão é, justamente, o que tu quer alcançar com aquilo. E se os dois querem alcançar e chegar no mesmo patamar, eu acho que isso é uma coisa que mantém o casal junto. E faz com que um vá ajudando o outro. Quando um não ta conseguindo deslanchar direito em determinada coisa o outro vai lá e dá um empurrãozinho.

[…]

Felipe: É, ter os mesmo objetivos, a mesma maneira de pensar, tu acreditar na pessoa que tu ta…enfim, respeitar

[…]

Felipe: E tu cresce como um grupo, né.

Aurora: Claro, justamente.

Felipe: Tu não cresce sozinho.

Aurora: Então tu leva o outro junto contigo, né. E o outro vai te dar o suporte também pra tu poder continuar crescendo do jeito que tu quer. Então eu acho que isso é importante.

[…]

Aurora: (…) Porque a coisa que eu mais queria era crescer, era poder ver até onde eu ia poder chegar, poder ver o que eu ia conseguir construir. E aí quando tu encontra alguém que também tem esse, né, que quer construir coisas, que tem essa coisa de querer ir cada vez mais e mais e mais e mais. Eu acho que aí é que faz com que tu realmente te dê conta e diga: não, acho que realmente essa pessoa é a pessoa pra passar o resto da vida.

Nessa fala, Felipe e Aurora colocam seu entendimento de casal enquanto grupo, ou seja, pessoas que vão a busca de ideais em comum. Fred e Wilma também se referem a um desenvolvimento global:

Wilma: Tem que procurar um equilíbrio, em tudo assim…

[…]

Fred: O teu trabalho, o estudo… Enfim, tudo isso acaba… A gente sempre acaba deixando alguma coisinha de lado… Só que às vezes a gente tem que pegar e tomar as rédeas de novo… Por que senão…

Aqui eles se referem ao cuidado, que descobriram ser necessário, para que se preservem em desenvolvimento nas diversas áreas de interesse de cada um e dos dois enquanto casal.

No aspecto social, como coloca Costa (2000), aparece a importância de que o casal mantenha um vínculo com seu círculo de amizades anteriores e posteriores ao casamento. Sobre isso, Bela expressa o esforço que realiza para manter uma vida social, para não deixar que o casamento os afaste de seus contatos externos:

Bela: Mas é que eu to sempre puxando também, porque isso é uma coisa que… Não só a nossa vida, eu e ele, mas a nossa vida social, a nossa vida com os amigos, com outras coisas que a gente…Eu primo muito por isso… Por exemplo, eu gosto de estar num barzinho com os amigos, eu gosto de música, de lugar que tem música…

No aspecto profissional foram expressos sentimentos ambivalentes, já que por um lado o bom desempenho profissional é valorizado, e de certa forma é prático se dedicar a isso, mas por outro, isso acaba tomando muito do tempo que seria dedicado ao relacionamento afetivo do casal. Assim falam Bela e Fera:

Bela: Porque a gente se dá conta…No decorrer da vida tu te dá por conta que tu tem que crescer em todos os sentidos, porque se não… tu tem que crescer no teu lado profissional ponto. Mas tu tem que crescer no teu lado… emocional, no teu lado social, em todos os lados, e quando um se sobressaí, né… e geralmente é o lado profissional, que é assim, não sei porque…

Fera: O profissional é o mais fácil de tu… ver ele, e saber que tem que dar certo, que é uma cobrança quase que…diária

Bela: É, é uma coisa que se estabeleceu dessa forma.

Fera: Então isso é o óbvio…

Bela: Mas isso é a coisa mais difícil de conciliar… pra tu conseguir ser vitorioso, vamos dizer assim, êxitoso em todos esses sentidos. Não adianta se tu é só num… falta, com certeza falta…Tu não te sente completo…

[…]

Fera: … o que cada um pensa sobre o futuro, eu acho que mais ou menos que coincide também, tem que ter isso de.. .o trabalho tem que ser valorizado, mas não dá pra deixar de lado o nosso relacionamento.

Aqui aparece uma questão muito forte que diz respeito à dificuldade de conseguir separar o lado profissional, sobre tudo do esforço do casal para superar essa barreira.

Fred também fala da importância e da dificuldade com relação à dedicação profissional e familiar:

Fred: (…) A gente tem que dedicar um pouco também para a família. Porque se não, passa mais tempo no trabalho que em casa…

Pudemos sentir em Fred, que ele teve de ir aprendendo a pesar a quantidade de dedicação às coisas para ele importantes.

Muitos outros objetivos em comum apareceram, no entanto, passaremos a examiná-los com mais precisão no decorrer da discussão, visto que são objetivos que descrevem melhor em outras essências.

• Valores em comum: nesta dimensão encontram-se algumas considerações bastante salientadas, principalmente por Bela e Fera e por Aurora e Felipe. Nesse sentido, falam tanto de valores pessoais, como crenças e jeito de cada um de lidar com as coisas, assim como da importância de que haja valores familiares semelhantes. Costa (2000) fundamenta esse critério colocando que as origens são o maior patrimônio do indivíduo, e que, portanto se torna fundamental um verdadeiro respeito pela família do outro. Os casais ressaltam que deve existir uma base bem estruturada além de objetivos em comum, algo que facilite com que os parceiros concordem em suas atitudes, e muito disso, se refere aos valores que cada um traz consigo.

Aurora: (…) então apesar de as nossas famílias serem diferentes em vários aspectos, elas são semelhantes em vários outros. E isso fazia com que a gente tivesse os mesmos objetivos de vida, mesmo, de maneira… do que que a gente acha importante, o que que a gente não acha importante…

[…]

Felipe: (…) se tu casa com uma pessoa às vezes tu não, e isso de qualquer lado, homem mulher, e tal, mas de repente, não são de um mesmo, não tem a mesma estrutura familiar. A coisa já começa encrencada. A coisa já não vai para frente. É um casamento que vai… vai parar no meio do caminho, com certeza.

Demonstram em suas falas, o quanto consideram importante a origem de cada um, a qual, para eles, é indicativa de maior ou menor chance de compatibilidade dos parceiros. É como se estivessem dizendo que devem haver valores plantados anteriormente, os quais devem ser semelhantes, para que os casais venham a se entender e a buscar objetivos em comum.

Bela e Fera tentam descrever o que entendem por valores compatíveis, que levam a uma base bem estruturada:

Bela: é uma compatibilidade, vamos dizer assim, de caráter das pessoas, eu acho assim, uma coisa interessante. Não só de objetivos de vida, mas assim, ãhn…

Fera: De valores mesmo…

Bela: De valores, é. De valores assim…

Fera: Do mais bruto da palavra, o que tu carrega contigo…

Bela: Exatamente, quando tu conhece, quando tu encontra o que aquela pessoa tem, coisas parecidas contigo nesse sentido assim, não só de objetivos de vida, porque isso é quase óbvio… pessoas que se unem para seguir um caminho tem que ter objetivos em comum, mas isso (valores) é importante…

[…]

Fera: (…) as questões mais, importantes do caráter, valor e tudo mais identifica essa afinidade que a gente tem, então, uma vez que isso ta bem encaixado…

Bela: É como se fosse uma base bem preparada…

Fera: É, perfeitamente. O resto, todos os problemas que vão acontecendo, parecem pequenos, pequenos no ponto de vista de poder causar algum problema sério no relacionamento, na estrutura do relacionamento, então se a base ta bem, não é nem construída, acho que a coisa não começa construída, ela é… existe afinidade ou não…

Bela: Quando a coisa se encaixou…

Fera: É. É, se encaixa bem ou não se encaixa.

Bela: Se encaixou ou não se encaixou…

Fera: Se encaixou bem, a partir de tudo vai ser construído em cima disso. Então não é uma coisa que a gente constrói essa base, ela se forma instantaneamente e a partir disso se forma a estrutura sólida e a vida vai construindo todo o resto…

[…]

Fera: (…) a questão de valores morais, mesmo, do que cada uma interpreta como certo e errado, principalmente diante das outras pessoas. Como tu vai te… Respeitar as outras pessoas, as coisas que tu vai usar para estabelecer isso, o respeito… com as outras pessoas de fora do relacionamento, acho que começa por aí… Então, nesses aspectos, como ela já disse, a gente se identificou bastante… a maneira como a gente lida com as outras pessoas, é… para poder acreditar também de que… ela no caso vai respeitar também… Acho que começa por aí…

[…]

Bela: …a gente se encontrou e…todas essas afinidades deram certo, e a gente viu isso…

Nesse trecho, Bela e Fera parecem dizer que cada um tem alguns valores que manterão sempre, que não mudariam para ajustarem-se a um companheiro. Por isso, acham fundamental que estes sejam semelhantes, que acordem nestes aspectos.

• Estar em companhia um do outro: Nesta última dimensão, que auxilia a descrever a essência em questão, colocamos os diversos aspectos que traduzem os sentimentos dos casais relativos à sensação de estarem realmente juntos um com o outro em suas caminhadas, compartilhando momentos bons e ruins, e, como coloca Costa (2000), experimentando a cumplicidade conjugal, na qual o casamento se torna um lugar seguro, de abastecimento afetivo, onde possa caber amor, ódio, conflito, brincar, fracassar, ter sucessos, alegrias, tristezas, enfim, onde os parceiros possam expressar seus sentimentos livremente. McMillan (2001), acrescenta que uma condição necessária para fomentar o espírito do amor é a sensação de sentir que tem um lugar junto do outro, sentir uma receptividade mútua na qual se forma um ambiente de calor e energia.

Entre tantos sentimentos, traremos alguns, que foram mostrados pelos participantes como elementos de grande significado:

Aurora: Eu acho que uma das coisas principais, claro que é o amor. Isso é a coisa mais importante, eu acho.

[…]

Felipe: Até porque é aquela coisa, a paixão ela acaba, ela é fugaz, ela passa… depende é claro, da quantidade de tempo que tu namoraste a pessoa, no nosso caso que a gente namorou seis anos…

[…]

Felipe: Então a gente se conhece mais do que muita gente juntos, que fazem 20 anos que tão juntos, e às vezes nem se conhecem tanto.

Aurora: É, é verdade.

Felipe: Então na verdade tu acaba gostando da outra pessoa, tendo admiração pela outra pessoa, e não… apaixonado, a paixão passa rápido. Mas tu gosta da outra pessoa…Tu te sente bem…

Aurora: Paixão tem momentos, né.

Felipe: Claro.

Aurora e Felipe expressam o quanto valorizam o sentimento que tem, o quanto percebem como importante, o se conhecer, a cumplicidade que vivenciam.

Lillibridge (1995) distingue o amor em amor romântico e amor maduro, sendo respectivamente um sentimento mais eufórico, no qual só se percebem os pontos positivos no outro, idealizados; e o segundo como sendo um sentimento percebido mais realisticamente, no qual são percebidos tanto os pontos positivos como os negativos presentes na outra pessoa.

Assim Aurora coloca sobre ver o parceiro como ele é:

Aurora: (…) Agente não pode casar esperando que a pessoa vá mudar aquelas coisas. Não, ela pode evoluir, como ela pode se manter a mesma, como pode piorar. Então tu não pode nunca é esperar que a pessoa vá só, né, vá melhorar. Não, isso… depois que agente casar vai ficar bom. Não, isso… depois que a gente casar a gente resolve. Não, nada se resolve depois que casar. Depois que casar vai ser a mesma coisa do que tava namorando só que vai tá dividindo o mesmo teto, né. Então vai ser 24 horas por dia, digamos. Aquela coisa, da maneira como tu tava antes.

[…]

Aurora: (…) Eu nunca, quando casei, imaginei que ele precisava ser da minha maneira, ou que ele tinha que mudar a maneira dele porque não tava bom. E nem ele a minha. A gente vai crescendo junto. Claro que tem coisas que como passar dos anos a gente vai evoluindo. (…) A gente vai junto, evoluindo, né?

Felipe: É.

Aqui, Aurora demonstra o que aprendeu, que busca aceitar Felipe como ele é, sem querer mudá-lo, e como aprenderam juntos a evoluir e crescer no perceber o parceiro como ele realmente é.

Fera fala do apoio como uma das coisas que acha mais importante em ter uma companhia:

Fera: E mesmo quem tá bem no seu trabalho passa por momentos de dificuldade, faz parte. E nessas horas que a gente sente falta, é óbvio, se não existir, de um relacionamento… não falo nem em relacionamento, uma pessoa em quem tu possa te encostar, e te reconfortar…

[…]

Fera: Eu usei o trabalho como o exemplo, mas os problemas da vida acontecem em todos os campos possíveis, então, se tu tem, um núcleo formado, ele serve como suporte. É fundamental um suporte, porque já tive algumas crises que não tinha essa base… Existe a crise, e se dar conta que não há uma estrutura que suporte, ao mesmo tempo, já é um outro motivo de preocupação, e acaba piorando mais ainda essa sensação de que a coisa tá ruim, e que é difícil de resolver… Então se tem essa estrutura por trás de ti, desse relacionamento, isso te dá mais autoconfiança, te dá mais tranqüilidade pra chegar ao que tem que ser feito, resolver as coisas, e rapidamente voltar a ficar bem consigo mesmo, então um bom relacionamento ajuda nisso.

Fera coloca, neste trecho, o quanto valoriza o seu relacionamento e a companhia de Bela, ressaltando que o apoio que ele encontra é um ponto de grande importância para o seu relacionamento.

Por sua vez, Wilma e Fred, refletem sobre os motivos para eles mais importantes da união.

Wilma: Olha, eu acho que a amizade… Em primeiro lugar a união, a confiança que se bota, que um deposita no outro…

[…]

Fred: Olha, respeito. Eu acho que tem que ter respeito. Que nem a Wilma falou, amizade, eu ia dizer um companheirismo, aquela cumplicidade… Ser parceiro, estar junto, topar fazer as coisas… Confiança…

[…]

Wilma: Poder dividir as situações, dividir problemas, dividir angustia… então, tudo isso…

Para Fred e Wilma, destacam-se sentimentos de companheirismo, cumplicidade, como relevantes fatores de durabilidade do seu casamento.

Ainda nesta dimensão, destacou-se o sentimento de comprometimento mútuo com o relacionamento, e também a necessidade de investimento constante na relação. Ao encontro dessa idéia, Rogers (1987), coloca que os cônjuges comprometem-se a trabalhar pelo processo de seus relacionamentos, quando este tem profunda importância para ambos. O autor coloca que esse trabalho significa buscar tanto a satisfação pessoal como a satisfação mútua: “Nós dois nos comprometeremos a cultivar juntos o processo mudável de nosso atual relacionamento, porque esse relacionamento está enriquecendo o nosso amor e nossa vida e nós queremos que ele cresça” (p. 200).

Bela: É, e outra coisa é que a gente tem assim um… saber, por exemplo, que esse encaixe é uma coisa mais ou menos rara de acontecer… E saber que isso deu certo e valorizar isso, valorizar isso que a gente tem, não que a gente construiu, mas que a gente se encontrou, e todas essas afinidades deram certo e a gente viu isso, e valorizar isso. Então isso é uma outra coisa que me deixa… as partes negativas, discussões, cada vez que isso acontece a gente: tá, mas o que que a gente vai fazer? A gente vai destruir isso que a gente tem que é importante, que nos complementa, que nos dá apoio nas dificuldades da vida? Sei lá, quando a gente se encontra e se complementa, e é bonito isso, então eu acho que nós temos consciência da importância disso, é como se fosse uma opção que tu faz, porque tu tem que continuar… como se fosse regar a planta…

[…]

Bela: Cultivar a planta, cultivar isso que a gente tem. Eu acho que isso é um ponto positivo que a gente conhece o que a gente tem e a gente valoriza isso, é como se fosse uma opção que a gente tomou, a gente resolveu cuidar disso. No momento que isso não existir mais eu acho que o relacionamento não existe mais…

Bela e Fera, parecem expressar aqui que valorizam o encaixe que sentem que surgiu entre eles, a este dão grande importância, sentindo nele um lugar seguro e maravilhoso, que deve ser cuidado com muito carinho.

Sobre o investimento na relação, costa (2000) fala sobre o estabelecimento de condições que tornem o casamento uma relação alegre e divertida. Embora o casamento envolva compromissos, privações e renúncias, ele deve representar uma fonte de prazer e felicidade.

Felipe: eu acho que o casamento é um troço bacana, só que tem que saber lidar, porque eu acho que no final, quando a gente pára pra ver, vão ter… pontos positivos e negativos, tem mais pontos positivos do que negativos. Mas tem vários pontos negativos…

Na mesma linha de reflexão de Felipe, Fred e Wilma também se colocam:

Fred: (…) Eu acho que a gente tem que estar sempre renovando também, tentando fazer coisas diferentes, né…Que as vezes acaba tendo aquela monotonia…

[…]

Wilma: (…) de repente tu ta tão segura de que aquela pessoa nunca vai olhar para o lado, que aquela pessoa nunca vai fazer nada, que tu pára de se cuidar, que tu pára de cuidar do relacionamento, de… Investir em coisas novas…

Aqui, parecem expressar a importância do cuidado com o relacionamento, chamando a atenção para os investimentos constantes que devem ter, bem como valorizar esta união, que possuí muitos pontos positivos.

Costa (2000) pontua que; nas relações duradouras e felizes, observa-se a permanência do desejo e do enamoramento mesmo em idade avançada, o que pode ser observado nos relatos dos casais que colocam que é importante sim que continue existindo o desejo e a admiração pelo outro. No entanto, salientam que a atração física não é o principal ingrediente da união, o que vai ao encontro do que coloca Rogers (1987) sobre a satisfação no relacionamento sexual, que considera importante mas, diferente de outros autores, acredita ser este fator naturalmente alcançado na medida em que os outros fatores estiverem presentes.

Aurora e Felipe falam sobre a admiração que deve existir pelo companheiro e também a atração e o desejo:

Felipe: E tu tem que admirar alguma coisa. Tem alguma coisa sempre que tu admira a outra pessoa…

Aurora: É. Isso eu também acho…

Felipe: E não é o aspecto físico… o aspecto físico, claro que é uma parte importante…

Aurora: Eu acho que também é importante.

Felipe: Sem dúvida nenhuma, se tu não tem atração física pelo outro, alguma coisa tá errada, né.

Aurora: É, justamente.

Felipe: E é claro que tem momentos de estresse às vezes na tua vida que tu diz: bá, hoje não dá…

Aurora: É, que tu não tem a mínima, né. E isso é uma coisa que a gente nota bastante com o casamento, né. E que antes, de casar tu não dá tanta bola, né.

Felipe: É, tu não dá.

Aurora: Mas depois, tu chega num ponto, em que às vezes tu diz assim: pôxa, como isso não, como a aparência física e tal, não é tão importante. Porque é tão mais importante tu ter uma pessoa ali que vá te ajudar, que vá junto contigo nas coisas, do que qualquer outra coisa, sabe. E aí como Felipe falou, também é importante, mas cai para um segundo plano, sabe. Acho que não tem como tu manter um casamento, sustentar um casamento, em cima de aparência física, em cima de atração física, essas coisas assim.

Felipe e Aurora parecem demonstrar o aprendizado no qual a aparência e a atração física, são elementos importantes para o bom andamento do relacionamento, porém não são fundamentais.

Fred e Wilma relatam que o excesso de trabalho atrapalha o relacionamento afetivo do casal, e também os momentos de contato físico, podendo fazer com que venham a se afastar:

Wilma: (…) eu acho que a partir do momento em que uma pessoa do casal começa a se envolver de mais nisso (se referindo ao trabalho)…

[…]

Wilma: (…) o relacionamento acaba perdendo aquela coisa de casal. Acaba se tornando às vezes uma coisa mais fraternal, mais… Mas não dum casal, de marido e mulher…

[…]

Wilma: Né, até porque, as pessoas vão se distanciando, vai quebrando um pouco aquela coisa de… do lado do casal mesmo…

Fred: É, tinha épocas que eu chegava em casa, tarde, cansado… Ai tomava um banho… e dormia.

Wilma: É, não só o relacionamento sexual, mas todo o cotidiano do casal…

Fred: Conversa, daí tudo isso acaba sendo prejudicado, né…

Fred e Wilma, aqui, colocam a importância de não deixar de investir no relacionamento, fato que pode acarretar um distanciamento, e eventualmente um desinteresse sexual, o que pode ser um risco para o bom andamento do casamento.

2 – O conhecer como pano de fundo para o relacionamento:

Todos os participantes evidenciaram a importância que para eles têm conhecer o parceiro com o qual se propõem a conviver, isto é, descobriram em suas experiências que só poderiam ter relações verdadeiras a partir do momento em que realmente conhecessem um ao outro, fosse através de dificuldades ou pelas atitudes corriqueiras, e também pelo fato de constituírem uma nova família.

Conhecerem-se aparece como muito importante, sendo comentado, tanto por Aurora e Felipe como por Bela e Fera, como um dos primeiros aspectos fundamentais para um relacionamento duradouro:

Felipe: É. Eu acho que o fundamental é, como tu disseste (se referindo a Aurora), conhecer a pessoa que tu ta casada.

Bela também inicia citando a importância de conhecer o outro:

Bela: Acho que em primeiro momento, uma coisa importante é conhecer bem a pessoa com quem tu convive…

Com isso expressam a grande importância que sentem em conhecer seus parceiros como realmente são, para a partir disso, se sentirem pertencentes a uma relação real.

Além disso, estes mesmos casais referem como algo positivo ter se conhecido antes de se envolver:

Bela: (…) talvez uma coisa boa que… como nosso relacionamento começou, nós não nos conhecemos na noite. Nós éramos colegas, e tal, mais ou menos. Não éramos da mesma panelinha, mas a gente… Alguma coisa desses valores, assim, a gente…

Fera: Podia perceber pela convivência social que a gente tinha…

[…]

Fera: Antes do relacionamento se estabelecer de verdade.

Bela: Isso é uma coisa importante…

[…]

Fera: O envolvimento não foi tão aleatório assim…

Aurora também comenta:

Aurora: (…) quando a gente se conheceu, né Felipe, no início não era assim, não foi uma coisa de dizer: Aiii, foi amor a primeira vista. Nós nos vimos e pronto, já…Não, nós fizemos plantão junto, um certo tempo, como amigos, e tal. Até que um determinado dia numa festa a gente ficou junto. Aí ficou ficando um tempinho, não era namorado ainda (…) Mas realmente, a gente vai conhecendo, e aí eu acho que é também uma fase importante, a medida em que tu vai conhecendo tu vai pensando: pôxa, mas eu tenho essa e essa idéia, e aí ele também tem mais ou menos aquela idéia.

Parece que ambos os casais referem que o conhecimento prévio possibilita um conhecimento mais amplo dos parceiros, o que faz com que possam perceber características destes que lhes preenchem.

Para descrever a forma como os parceiros colocam ter se conhecido, criamos três dimensões, as quais seguem:

• Se conhecer através da formação de um novo núcleo familiar: Os casais atribuíram o fato de terem afastado-se de suas famílias como fator que possibilitou com que se conhecessem mais íntima e profundamente. Costa (1997) comenta a importância de que o casal faça uma separação da família de origem e estabeleça uma nova ligação afetiva, na qual os cônjuges sejam capazes de estabelecer limites entre suas famílias de origem e a sua nova família. Na mesma linha, McMillan (2001) aborda a importância de que o casal saiba delimitar bem as fronteiras com suas famílias de origem, já que a privacidade da vida íntima fica assim respeitada.

Assim colocam Felipe e Aurora sobre muitas descobertas que se deram a partir do momento em que puderam experimentar o casamento como algo novo, separados e distantes de suas famílias de origem:

Felipe: (…) ainda mais nós, que trabalhamos no mesmo lugar, convivemos mais que a maioria das pessoas juntas. A gente se conhece mais que…

Aurora: É, justamente…

Felipe: Do que muita gente se conhece em 20 anos de casamento… Quando um pisca o olho, o outro já sabe o que está acontecendo. Por que? Porque a gente morou fora juntos, era só nós, né…

Aurora: É isso mesmo…

[…]

Aurora: eu acho que chega uma hora no casal que tu ou casa ou não dá mais também, porque fica cada um num canto, tu tem os mesmos objetivos, tu ta precisando construir coisas junto, então tu precisa a tua individualidade como casal. Então acho que esse é que é o momento em que tu resolve casar mesmo. Porque aí, tu pára, tu deixa de ter aquela coisa de família antiga, da tua própria família, tu vai construir aquela família ali e vai manter, claro, sempre, o resto da tua família, mas tu vai construir aquela nova família aí. Daí sim tu pode começar a traçar planos junto. (…) Então eu acho que isso aí. Uma coisa, que é ali que tu começa mesmo. Tu tem uma idéia uma pessoa da outra, mas ali que tu vai começar a traçar um plano junto. Porque aí aonde um vai o outro, teoricamente vai, e vai tentar fazer o melhor possível aonde for.

Neste trecho, eles falam da dura experiência que parecem ter experimentado ao se depararem unicamente numa situação na qual só poderiam contar um com o outro. Costa (2000) destaca que no casamento acontece uma mudança na vida dos integrantes, pois o indivíduo passa a estabelecer uma nova ligação afetiva com uma pessoa estranha ao seu grupo de origem para formar com ela o núcleo de uma nova família.

Fred e Wilma também colocam a necessidade de formar uma unidade de casal:

Fred: Foram cinco anos de namoro à distância. Eu aqui (cidade na qual foi realizada a entrevista) e ela lá (cidade distante). Uma distância grande… E daí altos e baixos

Aqui, Fred parece se referir à dificuldade de manter um relacionamento a distância, e aos problemas que isso acarretou para eles, impulsionando-os a buscarem uma união formal.

Fera coloca que a formação de um núcleo pelo casal traz segurança e autoconfiança:

Fera: (…) se tem essa estrutura por trás do relacionamento, isto te dá mais auto-confiança, te dá mais tranqüilidade pra chegar ao que tem que ser feito, resolver as coisas…

Com isso, Fera expressa que não só é importante ter um núcleo familiar, como também é importante saber e confiar que o outro também dá a mesma importância para a construção dessa estrutura, sentindo-se assim, seguro e apoiado, bem como já colocado anteriormente sobre o comprometimento mútuo com o relacionamento.

Assim, percebe-se que é importante conhecer os objetivos dos parceiros com relação à união, podendo dessa forma haver confiança suficiente na qual um possa contar com o outro. Sobre isso, Aurora coloca:

Aurora: (…) Mas é importante o companheirismo, ter aquela pessoa que na hora em que tu precisa vai te ajudar. E que a pessoa sabe que pode sempre contar contigo, naquilo que ela precisar, sabe.

[…]

Aurora: (…)naquelas dificuldades ser o momento que tu mais precisa da outra pessoa, né. É a hora que a pessoa tem que estar ali do teu lado. E tu tem que saber que pode contar com ela, que tu não vai chegar lá, e ela vai ainda piorar mais a situação, vai fazer o troço ficar pior ainda do que já ta, né. Eu acho que isso aí é super importante também né.

Aurora demonstra aqui, um profundo sentimento de se sentir acompanhada numa relação, conhecendo suficientemente seu parceiro para saber que ele não irá abandoná-la em circunstância alguma.

• Se conhecer através das diferenças: essa dimensão envolve duas características distintas, uma que se refere ao fato de que os participantes passaram a conhecer mais os seus parceiros após desentendimentos e desacordos e outra que se refere às diferenças como algo que acrescenta e enriquece o relacionamento.

Costa (2000), fala que as bases de um relacionamento feliz dependem de capacidades pessoais dos cônjuges, adquiridas antes do casamento ou consolidadas nos primeiros anos do relacionamento conjugal. O seu conhecimento permite ao indivíduo constatar os pontos em que sua relação encontra-se vulnerável e, dentro do possível, empenhar-se para reforçá-los.

Johnson (1987) falando sobre o amor humano diz que é preciso aceitar e valorizar o outro como ele é, e não como gostaríamos que fosse, para ele, a essência do amor humano é “uma apreciação, um reconhecimento do valor do outro” (p. 165).

Sobre conhecer o parceiro em suas dificuldades, Bela e Fera colocam:

Bela: Acho que em primeiro momento, uma coisa importante é conhecer bem a pessoa com quem tu convive. Porque o casamento não deixa de ser uma relação de convivência, de rotina. E uma coisa importante é tu saber exatamente (…) o lado negativo da pessoa, e saber se tu sabe conviver com aquilo, os defeitos daquela pessoa, se tu consegue manejar com aquilo, se aquilo não te agride, porque a pior coisa, na minha opinião, eu não consigo conviver é com uma coisa que me agride, que me violenta. Eu acho que essa é uma coisa, conhecer os defeitos e saber se eu sou capaz de suportar, de manejar, porque a gente sabe que uma coisa difícil é mudar certos vícios da pessoa, certas manias. Então…esse eu acho que é um ponto fundamental, um deles…

[…]

Fera: Tem que saber tolerar algumas das coisas ruins que vão surgindo ao longo do relacionamento. Por isso a importância do que a Bela falou, da questão de conhecer, ou pelo menos ter uma boa idéia dos defeitos que essa pessoa, com quem tu ta te propondo a passar o resto da tua vida, tem, e se tu é capaz de lidar bem com isso, pra então poder tolerar, toda vez que acontecer uma situação dessas durante o relacionamento. Poder tolerar e conseguir conviver bem, apesar das diferenças individuais…

Com isso, parecem querer dizer que é muito importante que cada um conheça o outro, para dessa forma, poder compreender o outro e sentir até onde vão os próprios limites.

Felipe e Aurora colocam que é preciso que um goste do outro, principalmente sabendo como é cada um, seus problemas, o que vai ao encontro das conclusões de Lillibridge (1995) nas quais salienta que cada um deve buscar ter uma percepção real do parceiro, que tem coisas boas e também ruins:

Felipe: É. Eu acho que o fundamental é, como tu disseste (se referindo à Aurora), conhecer a pessoa que tu ta casada. Confiança na pessoa e… saber que tem um mesmo objetivo de vida (…). Porque no casamento, é… e isso a gente sempre fala… porque não adianta tu casar pensando que a outra pessoa vai mudar. Ela vai mudar para pior. Ela não vai mudar pra melhor.

Aurora: É isso aí, a tendência é só acentuar os problemas…

Nisso Felipe e Aurora salientam que conhecer o jeito do outro é fundamental para que possam saber se é possível permanecerem juntos com as diferenças.

Quanto às diferenças que acrescentam positivamente, Aurora destaca:

Aurora: (…) Nós não somos nem parecidos, na maneira de ser. Nós somos totalmente diferentes. (…) É super importante também, que as pessoas não tem que ser iguais, elas não tem que agir da mesma maneira para se dar bem. Pelo contrário, acho que é até bom essa coisa de cada um ter a sua maneira de agir.

Da mesma forma, Bela e Fera acrescentam:

Fera: (…) essas nossas diferenças, no final,a gente acaba juntando elas e chegando…

[…]

Fera: Num meio termo melhor do que cada um conseguiria sozinho…Os dois acabam crescendo bastante com as diferenças…

Bela: É, essas diferenças que se complementam.

Complementar-se pelas diferentes formas de agir foram marcantes nas experiências tanto de Aurora e Felipe, como de Bela e Fera.

• Conhecer a si próprio facilita com que conheçam melhor seu parceiro: O último elemento encontrado refere-se à percepção de cada um como uma personalidade separada, em que cada um começa a descobrir a si mesmo e aceitar-se, abrindo-se para novas experiências e tornando o processo de crescimento mais fácil para ambos, bem como coloca Rogers (1987). A essência se conhecerem realmente também quer dizer que quanto mais cada um conhece a si próprio, maior a possibilidade de saber das necessidades do outro.

Costa (2000) lembra que os cônjuges devem compartilhar atividades e interesses comuns, mas devem ser capazes de manter outros afazeres que lhes são próprios. Portanto, a individualidade é indispensável para uma boa estruturação do casamento.

Com relação a isso Wilma coloca:

Wilma: (…) Outra coisa que pra mim (…) é beeem importante é procurar manter, apesar de a gente estar sempre juntos, manter a sua individualidade… Cada um tem as suas coisas. (…) Eu preciso de alguns momentos só pra mim…

Assim Wilma expressa sua necessidade de ter um espaço só seu, de manter sua individualidade, até para poder se posicionar melhor no relacionamento, enquanto pessoa única.

Roges (1989) fala da comunicação entre o casal como um dos fatores fundamentais para a união. Coloca que a vida no relacionamento se torna enriquecedora e recompensadora, à medida que os companheiros assumem o risco de comunicar abertamente seus sentimentos: “Arriscar-me-ei tentando comunicar qualquer sentimento persistente… ao meu companheiro… tentando compreender, com toda a empatia que eu for capaz, a sua resposta…” (p. 203).

Alguns participantes apontaram a necessidade de abertura, honestidade, transparência, autenticidade na relação com o parceiro. Rogers (1987) coloca que quando a comunicação entre o casal pode tornar-se mais aberta, mais real, com atenção mútua, eles acabam por reconhecer o valor da individualidade e, explorando e compartilhando seus diferentes objetivos e interesses eles tendem a manter-se mais unidos e com uma confiança mútua.

Nesse sentido Aurora coloca:

Aurora: outra coisa importante também, que faz com que o casamento dure, é não tentar esconder as dificuldades do outro. Porque às vezes a pessoa casa e diz assim: Ah, mas eu tenho essa coisa. Eu já sei que é um defeito meu e tal, então eu não quero que o outro fique sabendo porque ele vai deixar de gostar de mim ou vai achar que… né. Então isso não dá. Eu acho que isso é uma outra coisa que faz o casamento durar. E os dois terem uma abertura total…

Aqui, Aurora fala da importância de se reconhecer e se mostrar para o parceiro como realmente é. Dessa forma, com abertura e autenticidade, percebe uma maior facilidade na durabilidade da relação.

Se conhecer decorre também da contribuição de relacionamentos passados para que saibam o que buscam e o que esperam de seus relacionamentos atuais.

Aurora: (…)na medida em que eu ia conhecendo as pessoas, é que eu ia formando mais ou menos o que eu achava que pra minha vida ia ser legal ou não ia ser. Tanto que quando a gente se conheceu, né Felipe, no início não era assim, não foi uma coisa de dizer ai, foi amor à primeira vista. Nós nos vimos e pronto já… Não, nós fizemos plantão junto, um certo tempo, como amigos e tal. Até que um determinado dia numa festa a gente ficou junto. Aí ficou ficando um tempinho, não era namorado ainda. Então assim não é a questão de dizer aah! Não, nem eu era a mulher da vida dele, nem ele era o homem da minha vida, de dizer que era perfeito, era tudo que eu sempre imaginei. Mas realmente, a gente vai conhecendo, e aí que eu acho que é também uma fase importante, de tu ir traçando as tuas… a medida em que tu vai conhecendo tu vai pensando, pôxa, mas eu tenho essa e essa idéia, e aí ele também tem mais ou menos aquela idéia, né.

Neste trecho, Aurora expressa o quanto é importante a vivência de relações anteriores, no sentido de que é no decorrer da vida que as pessoas vão aprendendo o que querem, e o que esperam de um relacionamento. Algo que não é inerente e sim aprendido com as experiências.

Aurora e Felipe colocam que terem a mesma profissão facilita com que se conheçam mais

Aurora: (…) eu tenho a idéia geral, eu tenho certeza, eu sei como é que tu vai agir quando tu tiver numa cirurgia estressado ou quando tu tiver numa cirurgia calmo, ou se tu tiver… entendeu. E tu a mesma coisa comigo. Tu sabe muito bem como é que eu me comporto no trabalho e em casa. A gente acaba tendo uma visão geral da pessoa. Sabendo… acho que ajuda bastante a pessoa a conhecer a outra, isso sim…

Aqui, a participante expressa o quanto a profissão, e a convivência faz com que se conheçam, e em alguns momentos, pressintam como o companheiro vai agir, percebendo que isso, se deve, também, pelo fato de terem uma profissão semelhante, trabalhando no mesmo local.

3 – É necessário ceder:

A última essência à qual chegamos, refere-se à descoberta dos casais com relação às dificuldades encontradas no convívio diário. Todos expressaram um sentimento de crescimento através dos desacordos, no modo de fazer e pensar de cada um. É como se percebessem que para o relacionamento durar, fosse necessário o esforço e a tolerância de ambas as partes, na tentativa de compreender o que se passa com o outro e, acima de tudo, saber se cada um é capaz de lidar com as diferenças existentes.

Além disso, os participantes falaram sobre a necessidade de que cada um saiba até onde ceder em relação ao outro, não perdendo, assim, a própria individualidade, a fim de manter o respeito pelo companheiro.

Logo, tentamos chegar a uma compreensão mais detalhada desta essência, através de duas dimensões que pretendem englobar tais características.

• Amadurecimento: Encontram-se, nesta dimensão, elementos importantes, salientados pelos casais, principalmente por Aurora e Felipe. Consiste em aprender a conviver com as diferenças, e saber como lidar com elas, bem como de se fazer pequenas recombinações através de breves discussões. Esta Idéia vem ao encontro do que expõe Costa (2000), quando reconhece que os conflitos são inevitáveis, salientando que a conscientização por parte dos parceiros se torna fundamental para o relacionamento continuar existindo. Também ressalta a importância da necessidade de haver uma “correção” das dificuldades surgidas no curso do relacionamento. Importante destacar que “suportar” os “defeitos” do companheiro representa outra necessidade apontada pelos casais para facilitar a convivência diária.

Sobre as recombinações e a necessidade de flexibilidade, Aurora e Felipe comentaram:

Aurora: (…) Porque a gente acaba brigando várias vezes por dia, mas não é briga, é discussão pra chegar a um ponto comum, aonde os dois vão concordar e vão dizer, então é isso, então ta, então a partir de agora a gente vai fazer assim, que não dá discussão. Mas a gente tem várias discussões por dia pra chegar nesses acordos. E acho que isso é super importante…

Felipe: É que se assim, a gente tem que ver essa pessoa no ponto de estresse dessa pessoa. Então o que acontece? Naquele ponto de estresse tu sabe, ali que tu tem que ceder.

Aqui o casal parece estar falando de um aprendizado, adquirido com e decorrer do tempo, no qual tiveram de ir se adaptando um ao outro, conhecendo um ao outro, para assim poderem pensar em alternativas nos momentos de discordância. Demonstram também um sentimento de tolerância e resistência, para suportar todos os momentos “ruins”, o que evidencia por trás um verdadeiro interesse em manter a relação que é gratificante.

Com relação à convivência com as dificuldades dos parceiros, Felipe e Aurora referem:

Felipe […] a gente sempre fala, porque não adianta tu casar pensando que a outra pessoa vai mudar. Ela vai mudar para pior. Ela não vai mudar pra melhor.

Aurora: É isso aí, a tendência é só acentuar os problemas…

Felipe: É só acentuar, é só acentuar. Se tu disser, não, vai melhorar isso…Não vai melhorar porcaria nenhuma, só vai piorar. E isso é verdade, né.

Aurora: É…

Felipe: Só que cabe a ti saber disso e com o tempo do casamento tu vai ver que é isso que acontece, não tem outra escolha. As, as qualidades vão ficar as mesmas, mas, as qualidades negativas essas vão piorar, e não vão mudar de jeito nenhum, e tu tem que ceder. No casamento um tem que ceder pro outro, a todo instante… porque se por um acaso tu começar a ficar muito restrito ao jeito que tu pensa, não dá certo de jeito nenhum…São duas pessoas diferentes […]

Aurora: É, justamente…

Ainda expressando os sentimentos supracitados, Felipe e Aurora trazem também a questão de ter uma certa abertura e flexibilidade com ralação a novas idéias e novos fazeres.

Já Bela e Fera comentam o que pensam a respeito de conviver com os defeitos:

Bela: (…) Conhecer os defeitos e saber se eu sou capaz de suportar, de manejar, porque a gente sabe que uma coisa difícil é mudar certos vícios da pessoa, certas manias. Então eu acho que é um ponto fundamental.

[…]

Fera: No final das contas eu acho que é a capacidade de viver junto e… Ter uma relação duradoura, parte também da tolerância, isso já é meio chavão mas é verdade…

Bela: Mas é verdade…

Fera: Tem que saber tolerar algumas das coisas ruins que vão surgindo ao longo do relacionamento.

Aqui bela e fera falam que estar em um relacionamento exige esforço da parte de ambos para que possam empenhar-se em conviver com as diferenças.

• Compreensão/empatia: nesta última dimensão, destaca-se a importância e a necessidade do exercício da compreensão e da empatia no relacionamento. Compreender real e profundamente o cônjuge em suas necessidades. McMillan (2001) coloca que para o casal se sentir seguro, demonstrando seus sentimentos, se faz necessária a existência de um clima de aparente segurança, no qual ambos os indivíduos se sintam capazes de ouvir com empatia e aceitação.

Falando sobre compreender o parceiro e saber lidar com isso, Fred e Wilma colocam:

Wilma: Poder dividir as situações, dividir problemas, dividir angustias… então, tudo isso…

Fred: É, não só nos bons momentos… Tem que dividir também a… Que às vezes até tem que compreender também, às vezes a gente tá, sei lá, tá meio chateado, algum problema, alguma coisa… Acontece, né… (…) Aí tem que ter…Tem que ser paciente, também, mas tem que superar, né…dificuldade sempre tem…A gente já passou, também por, por algumas né…então…Mas sempre superamos.

Fred fala aqui da importância de que cada um possa compreender o outro quando este não está bem, tolerando suas atitudes ao invés de condená-las.

É também importante frisar que as práticas da tolerância, da paciência, do respeito e da aceitação do outro como ele é representam um ponto fundamental para a preservação e para o bom convívio da comunhão.

Felipe fala que é fundamental o respeito:

Felipe: (…) Enfim, respeitar, eu acho que o respeito é um troço fundamental pro casamento…

Aurora: É.

Felipe: Se tu olha pra pessoa e olha com desrespeito, báh, isso aí não vale nada…

Aurora: É, ou se tu acha que tu é melhor…

Felipe: ou tu acha que tu é melhor que a outra pessoa…

Aurora: por causa disso, ou por causa daquilo…

Felipe: Aí acabou.

[…]

Felipe: (…) às vezes tu tem coisas que tu não gosta dela, mas tu tem que respeitar.

Aurora: É, respeitar a maneira.

Com isso expressam que é preciso gostar da outra pessoa do jeito que ela é, além de compreendê-la e respeitá-la naquelas características que não agradam o parceiro.

Aparece muito entre os casais dificuldades com relação à saber medir a quantidade de tempo a ser dedicada ao trabalho, e ao mesmo tempo corresponder às necessidades de permanência real junto ao parceiro. Quanto à isso os casais referem:

Fred: (…) trazer trabalho pra casa… é uma coisa que eu já tô começando a separar agora, que antes tocava direto, final de semana… agora eu já to começando a me policiar um pouquinho mais… tentar… até trago as coisas, mas não faço.

[…]

Wilma: (…) porque eu acho que a partir do momento em que uma, vamos supor uma pessoa do casal começa a se envolver de mais nisso…

[…]

Wilma: Acaba o relacionamento perdendo aquela coisa de casal. Acaba se tornando às vezes uma coisa mais fraternal… Mas não dum casal, de marido e mulher…

[…]

Wilma: É mais ou menos isso, porque… Porque tu acaba tendo uma pessoa junto, que ao mesmo não ta junto, que ta ali fisicamente, mas que não é aquele companheiro, não tem muito… Acaba não tendo nem o que conversar às vezes…

Da mesma forma Bela e Fera falam de suas dificuldades com relação à isto:

Bela: Poder ter um relacionamento, porque às vezes parece que a gente nem tinha um relacionamento, né…E isso era uma coisa que…que me atrapalhava assim, vai dizer, é a mesma coisa que nada né, porque só não…porque não dava entende? Era uma coisa difícil de manejar isso, na vida, assim, moderna o trabalho. Às vezes dá vontade eu dizia assim pra ele: eu quero só ser mulher de médico (rindo), eu dizia assim pra ele… Não quero mais saber disso… Porque claro, que obviamente eu também não ia conseguir ficar só em casa, muitas vezes do equilíbrio assim, a gente sente falta…

Fera: Então essa questão de saber colocar o trabalho no seu devido lugar, é fundamental para o relacionamento poder se desenvolver bem…

Ambos os casais revelam sentir suas relações ameaçadas de se desintegrar pelo excesso de investimento no trabalho de um ou de ambos. Essa experiência fez com que sentissem que deveriam repensar a forma de levar suas vidas.

Aurora lembra o cuidado de, enquanto casal, saber levar em consideração o lado do outro, não buscando por exemplo desenvolver-se sozinho:

Aurora: (…) Mas… Agora tem uma coisa que eu acho importante. Por exemplo, claro, eu sempre fui… Realmente, quando o Felipe disse: Ah, vamos pra não sei aonde? Vamos. Mas uma coisa que eu sempre acho importante é o seguinte, é que sempre que ele foi atrás das coisas, ele sempre foi atrás de alguma coisa pra que eu fosse também. Ele nunca pediu que eu fosse simplesmente pra ser a mulher dele lá entendeu. Ele sempre: não, então vamos ver, então vamos. Então ele foi atrás lá, por exemplo quando ele foi pra outro país, para o negócio da área dele. Ele foi no departamento da minha área pra ver se tinha alguma coisa que eu pudesse fazer lá. Um estágio, alguma coisa que eu pudesse me envolver e tudo mais. Então, isso é importante eu acho. Porque seria muito diferente ele simplesmente chegar pra mim, e dizer: Ah, vamos pra lá, tu vai ficar lá em casa, e… pôxa, eu tenho, tu tem a tua profissão, e isso eu acho que mostra o respeito que a pessoa tem pelo outro, de não achar que simplesmente: ah não, eu to conseguindo isso, então eu vou fazer e ponto final.

Aurora coloca assim que considera extremamente importante que, numa união comprometida, os cônjuges não sejam individualistas, pensando sempre no crescimento dos dois.

Ainda com relação a necessidade ceder, Fred e Wilma se posicionam colocando que com o tempo aprendem a ser mais tolerantes e maduros:

Fred: (…) Liberdade também… se eu quero sair com os meus amigos, se bem que eu nunca fui muito de sair, mas se a Wilma quer sair, ela vai, sai, se diverte. A gente sabe, tem confiança, respeito, tudo. Então não tem porquê proibir ou fazer cara feia e dizer: Ah, tudo bem, vai… mas sabe, aquele vai dizendo fica. Eu acho que isso atrapalha mais que ajuda… No começo era assim, quando a gente tava namorando. Mas daí a gente vai amadurecendo com o tempo…

Expressam um sentido de ter e dar liberdade ao outro, compreendendo suas necessidades e respeitando-as. Fred fala que está aprendendo a aceitar que Wilma tenha a fazeres só dela, e que eles não precisam necessariamente fazer tudo juntos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo em vista nosso desejo inicial de verificar a forma como vêm se estruturando os relacionamentos entre casais, na atualidade, acreditamos termos alcançado nossos objetivos, na medida em que encontramos com este trabalho alguns resultados que tornaram mais clara a compreensão dos motivos que levam casais a continuarem unidos.

Encontramo-nos, atualmente, em um momento no qual os relacionamentos tornam-se instáveis e fugazes, devido a um contexto maior em que se busca, cada vez mais, o prazer imediato e a evitação de conflitos. Sendo assim, nos questionamos sobre o que ainda permanece importante nos dia de hoje, para que uma união dure.

Descobrirmos, através das vivências compartilhadas pelos participantes, o que significavam muitas das informações bibliográficas que havíamos pesquisado, tais como: a necessidade de objetivos em comum, ter que investir no relacionamento, construir uma nova família e, entre outros, saber preservar a individualidade de cada um.

Por fim, nos parece que, o que de mais importante alcançamos com esta pesquisa foi a noção de que cada experiência é única, e que de nada vale tentarmos

fazer mais um “manual” com dicas de “o que fazer para que o relacionamento dê certo”. Encontramos sim alguns elementos que, quando presentes em uma relação, parecem aumentar a probabilidade de que o casal queira continuar unido. No entanto, estes são elementos que devem ser construídos e descobertos em cada caso e a cada nova situação.

Assim, o que apareceu de mais significativo para os casais entrevistados, com relação aos motivos de permanência na relação, foram a descoberta de que para se conviver com alguém é preciso realmente conhecer essa pessoa, seu jeito de ser, sua origem familiar, suas características desagradáveis e depois disso, saber de si o quanto vale a pena tolerar as diferenças e por vezes ter que modificar alguns conceitos, para estar em companhia desse alguém.

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APÊNDICE

Roteiro da Entrevista

Ao realizar as entrevistas, inicialmente nos apresentávamos, colocando nossos objetivos com a pesquisa. Falávamos sobre o sigilo e sobre a possibilidade de terem acesso aos resultados do trabalho. Em seguida pedíamos autorização para gravar e após o consentimento, fazíamos a pergunta com fim aberto:

• Na experiência de vocês, quais aspectos vocês sentem que estão fazendo durar esse relacionamento?

Apresentado no VI Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa – Canela RS – 9 a 15/10/2005