A percepção de clientes sobre autonomia na Terapia Centrada no Cliente

Adriano Pereira Jardim

Orientador de pesquisa: Adriano Pereira Jardim (UFRGS), Camile Moraes Gross, Guilherme Zavaschi, Larissa Comassetto Sperb, Lisandra Antunes de Oliveira, Verena Augustin Hoch, Viviane Berton de Fraga.

Desde o seu início, a Terapia Centrada no Cliente tem se caracterizado como uma terapia focada na promoção da autonomia. Segundo Gobbi e Missel (1998), Rogers define autonomia como um “funcionamento do indivíduo que ocorre de forma independente, auto governável e auto determinável, ou seja, de acordo com a capacidade de reger-se a partir dos valores por ele estabelecidos. Portanto, um indivíduo é tanto mais autônomo quanto mais estiver regido por um centro de avaliação organísmica.” (p. 32). Entende-se, dessa forma, que uma pessoa autônoma constrói progressivamente um referencial próprio, segundo o qual irá orientar seus auto conceitos e seus comportamentos e sentimentos. A partir dessa compreensão, o atual trabalho se perguntou: os clientes da terapia centrada na pessoa, como realizada atualmente em um local de atendimento e formação humanista (Humanitas Instituto de Psicologia), percebem-se desenvolvendo autonomia através da terapia? Como os clientes percebem o seu processo psicoterápico? Quais as expectativas e objetivos com o tratamento? Quais os efeitos percebidos no tratamento? Como percebem o seu terapeuta e suas atitudes na terapia? A terapia tem alguma influência nas suas decisões? Como essas influências são entendidas no tratamento e na sua vida em geral? E, finalmente, como percebem a possibilidade de finalização do processo, imaginando-se sem a terapia? As respostas para tais questões foram buscadas através de uma investigação qualitativa fenomenológica (Gomes, 1998; Lanigan, 1988; Patton, 1990), na qual utilizaram-se entrevistas semi-estruturadas (Patton, 1990) com oito clientes de terapia centrada na pessoa, que estão em tratamento há um tempo entre seis meses e cinco anos. Tal critério foi utilizado com o objetivo de ilustrar terapias de breve e de longa duração, tanto no início quanto em meio ao processo. Os dados foram analisados seguindo os três passos qualitativos fenomenológicos: análise descritiva, análise indutiva e interpretação, conforme Gomes (1998) e Lanigan (1988) os descrevem. O objetivo é explicitar os elos entre as experiências relatadas nas entrevistas e a importância destes elos na compreensão do problema em foco. Os resultados da análise indicaram que os clientes descreveram os seguintes motivos de busca de atendimento: medo e angústia, crise geral de vida, falta de confiança em si, dificuldades de lidar com os sentimentos, insatisfação com o trabalho, problemas com timidez, dificuldades com mudanças em geral e depressão. A freqüência mais relatada foi de uma vez por semana, podendo ser também duas vezes por semana em casos especiais. Sobre a experiência de estar em terapia, os participantes descreveram o tratamento como um processo com “idas e vindas”, ou seja, em etapas com objetivos específicos. Mas também disseram que, quando percebem melhora, podem interromper a terapia para voltarem em outro momento “Quando eu estou conseguindo ficar bem, superar as coisas que eu tenho que conseguir superar, aí eu fujo” (C1). A experiência foi descrita como ótima, como uma necessidade, um desabafo, com efeito libertador, “pensando, olhando as coisas de uma maneira diferente” (C3), e um pensar sem medo do que os outros vão dizer. Além disso, a terapia foi identificada como algo diferente de falar com os amigos, pois envolve uma escuta distinta, sem bajulação nem opiniões sobre o que fazer. A experiência também foi ligada ao aprendizado sobre auto direcionamento, auto aceitação, maior força e confiança e como um processo evolutivo. Quanto aos procedimentos do terapeuta, foi dito que este ouve e entende, não critica, faz pensar, não julga, não dá conselhos, não diz o certo e o errado, dá apoio, confiança e sigilo. Ele ajuda a dar condições para a pessoa decidir o que é melhor para si, questiona, faz refletir e pensar, escuta e ajuda a organizar e clarear sentimentos. Em acréscimo, foi dito que não se percebe o que o terapeuta faz, mas o que ele faz, ajuda a promover mudanças. Os objetivos no início da terapia foram: auto esclarecimento, organização de idéias, de sentimentos, reconhecimento de sentimentos, descoberta do que incomoda, ajuda para viver, busca de fluidez, manutenção de um centro, superação de medos, fortalecimento, segurança, aceitação de mudanças, recuperação de auto confiança, diminuição da depressão, tomada de decisões, sentimento de melhora e resolução de problemas de convivência. O término da terapia foi associado a vários pequenos términos e reinícios. Foi dito que a terapia não deve ter um fim, pois sempre há coisas para tratar. Mas também foi dito que não se sabe quando terminar, sendo incerto o final do tratamento. Os clientes disseram, em acréscimo, que sentem-se bem sem a terapia, associando a finalização a uma maior tranquilidade, maior segurança, enfrentamento dos problemas, confiança para andar sozinho, reconhecimento dos sentimentos, preparação para a vida, e maturidade. O término é percebido quando não há mais nada a falar, sendo diferente para cada pessoa, podendo ser em etapas e incluindo mudanças. Foi destacado que o término pode incluir medo de retroceder, temor de ficar dependente “não da pessoa do terapeuta, mas do trabalho todo” (C8), ou acomodado. Ou ainda, que não há vontade de parar, pois ainda acha que precisa para conhecer-se mais. Além disso, clientes descreveram experiências anteriores com outras terapias e as compararam com o atendimento atual. Havia uma expectativa inicial de que a terapia fosse terminar em pouco tempo “foi aos poucos pra mim e foi bem difícil, as vezes eu tinha vontade de terminar aquilo alí, mas ao mesmo tempo eu queria continuar pra mudar e mudou bastante coisas” (C2). Sobre os resultados, os clientes citaram: capacidade de enfrentar angústia, clareza de raciocínio, diminuição de culpa por ter opiniões diferentes, menor ansiedade, manutenção de um centro, auto conhecimento, maior auto confiança, lidar melhor com mudanças, tomar decisões próprias, independência emocional, maior percepção de si, maior autonomia, maior liberdade, discernimento, calma, maturidade e diminuição da depressão. As influências da terapia foram descritas como indiretas, pois o terapeuta não diz o que é certo ou errado, não julga “eu não me sinto julgada por ela” (C5), não influencia no jeito de ser de modo geral “eu não tenho a mínima idéia do que meu terapeuta acha” (C6), e não influencia diretamente. Porém também foi referido que a terapia influencia “Não tem como tu fazer terapia, ir lá e mexer e achar que aquilo não vai dar em nada, é óbvio que influencia sim” (C6). As influências citadas foram: maior abertura a novas experiências, sentimento de encorajamento, encontrar o melhor para si, passar uma visão, uma recomendação de possibilidade, como outros caminhos, maior tranqüilidade, conseguir fazer o que deve ser feito e ver situações mais de fora, além de condições de caminhar só. Sobre as especificidades da Terapia Centrada no Cliente, esta foi comparada com outras linhas, descritas como mais diretivas, nas quais o terapeuta diz o que fazer. Na TCC, há mais chances de exploração, não há respostas prontas, não se sabe o que o terapeuta pensa, não há julgamento, “não há perguntas de cunho moral” (C5), sendo mais humana, focada nos sentimentos e menos nos problemas, “Por mais que eu trouxesse coisas banais ela tenta trazer a tona o que eu estou sentindo em relação àquelas coisas, isto pra mim é fundamental” (C5). Por isso, funciona, disseram os clientes, por sentirem-se compreendidos.

Tais resultados demonstram que os clientes da TCC percebem a autonomia no processo psicoterápico. Eles percebem-se desenvolvendo autonomia, enquanto descoberta e exercício de uma referência pessoal e interior, destacando esse como o principal foco e resultado da terapia centrada no cliente. Nesse sentido, a TCC foi caracterizada como uma terapia que proporciona condições para um processo de auto exploração. Outro resultado refere-se à autonomia, enquanto auto referência, ter sido descrita como um processo em níveis. Aqueles clientes mais autônomos mostraram-se mais auto referenciados e mais seguros quanto ao término do seu tratamento. Eles revelaram uma capacidade de gerenciamento do processo, inclusive interrompendo-o e reiniciando-o conforme objetivos próprios. Por outro lado, aqueles clientes que mostraram mais dificuldades quanto ao desenvolvimento de referências pessoais, mostraram-se também menos propensos à autonomia, ao gerenciamento da própria terapia e, consequentemente, mais indefinidos quanto aos objetivos e ao término do tratamento. Recomenda-se maiores pesquisas que confirmem tais dados e reflexões sobre as semelhanças e diferenças da TCC com outras linhas de atendimento psicoterápico. Além de discussões dos dados obtidos sobre a efetividade da psicoterapia (TCC e em geral).

Referências

Gobbi, S.L e Missel, S.T (1998). Abordagem Centrada na Pessoa: vocabulário e noções básicas. Tubarão: Editora Universitária.

Gomes, W. B. (1998). A entrevista fenomenológica e o estudo da experiência consciente. Fenomenologia e Pesquisa em Psicologia. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Lanigan, R. L. (1988). Phenomenology of communication: Merleau-Ponty’s thematics in communicology and semiology. Pittsburgh: Duquesne University Press.

Patton, M. Q. (1990). Qualitative evaluation methods. Beverly Hills, CA: Sage.

Apresentado no VI Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa – Canela RS – 9 a 15/10/2005