A PERCEPÇÃO DO CLIENTE SOBRE A VIVÊNCIA DA RELAÇÃO TERAPÊUTICA NA TERAPIA CENTRADA NO CLIENTE

VERENA AUGUSTIN HOCH

Resumo da Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em Psicologia Clínica.

SUMÁRIO

RESUMO………………………………………………………………………………………………………………………… III

ABSTRACT……………………………………………………………………………………………………………………… IV

INTRODUÇÃO………………………………………………………………………………………………………………… 5

1 A RELAÇÃO TERAPÊUTICA NA TERAPIA CENTRADA NO CLIENTE……………………………….. 7

1.1 Os pressupostos básicos……………………………………………………………………………………. 7

1.2 Uma relação não diretiva…………………………………………………………………………………….. 7

1.3 Atitudes e não técnicas: a relação………………………………………………………………………… 9

1.4 As atitudes facilitadoras………………………………………………………………………………………. 9

1.5 A segurança………………………………………………………………………………………………………. 11

1.6 A mudança…………………………………………………………………………………………………………. 11

1.7 As condições necessárias e suficientes…………………………………………………………………. 12

2 MÉTODO……………………………………………………………………………………………………………………… 14

2.1 A opção pelo Método Fenomenológico………………………………………………………………… 14

2.2 Participantes e coleta de dados…………………………………………………………………………… 16

2.3 A análise das entrevistas…………………………………………………………………………………….. 17

3 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS……………………………………………………. 18

3.1 O encontro com as participantes…………………………………………………………………………… 18

3.2 Síntese das entrevistas………………………………………………………………………………………. 20

3.2.1 Síntese da entrevista com Lígia……………………………………………………………….. 20

3.2.2 Síntese da entrevista com Sílvia………………………………………………………………. 20

3.2.3 Síntese da entrevista com Débora……………………………………………………………. 21

3.2.4 Síntese da entrevista com Elisa……………………………………………………………….. 21

3.3 As essências fenomenológicas……………………………………………………………………………. 22

CONSIDERAÇÕES FINAIS……………………………………………………………………………………………….. 35

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS……………………………………………………………………………………. 37

RESUMO

O objetivo desta dissertação é compreender como o cliente percebe a relação terapêutica na Terapia Centrada no Cliente, e, se na expressão de seus sentimentos, menciona de forma implícita ou explícita as três atitudes facilitadoras – congruência, compreensão empática e aceitação positiva incondicional, que são pressupostos básicos nesta abordagem. Metodologicamente, foi utilizada a pesquisa qualitativa de base fenomenológica, tendo como instrumento para a coleta de dados uma entrevista composta por uma pergunta de fim aberto. Com o consentimento dos participantes, a entrevista foi gravada e transcrita literalmente. Os participantes da pesquisa foram quatro clientes que estiveram em psicoterapia por mais de seis meses, com idades entre vinte e cinco e trinta e cinco anos, atendidos em uma clínica de psicologia de Porto Alegre, que embasa seus trabalhos na teoria de Carl Rogers. Os resultados apontam que, além de o cliente perceber e mencionar as três atitudes facilitadoras, traz como aspectos importantes a não-diretividade, a segurança, a relação terapêutica e as mudanças em suas vidas.

ABSTRACT

The following dissertation aims at verifying how the client perceives the therapeutic relationship in the Client Centered Therapy and if expressing their feelings, they mention, in an implicit or explicit way, the three facilitative attitudes – congruence, empathetic understanding and unconditional positive regard; the central hypothesis of this approach. The methodology used was the qualitative research of phenomenological basis. The instrument was composed by an interview with an open question. The interviews were taped and literally transcribed under the permission of the clients. The participants of the research were four clients with ages between twenty and thirty five years old. They had all been under a psychotherapy process for more than six months in a psychological in Porto Alegre works with the Carl Rogers’ theory. The results point out that the clients perceive and mention yhe three facilitative attitudes and also mention the non-directivity, the warmth, the relationship between client and therapist and the changes in life as important aspects of the psychotherapy process.

INTRODUÇÃO

Na minha experiência clínica como terapeuta identificada com os pressupostos da Terapia Centrada no Cliente, desenvolvida por Carl Rogers, tenho observado que os clientes, com freqüência, ao fazer uma análise do processo terapêutico, referem-se à forma como experienciam a relação terapêutica como essencial para seus processos de mudança. A relação terapêutica realmente sentida e experienciada pelo cliente, assim como a vivência das atitudes do terapeuta implícitas na relação, parece ter profundo significado para o cliente.

As três atitudes facilitadoras próprias do terapeuta – congruência, compreensão empática e aceitação positiva incondicional, foram amplamente discutidas ao longo da obra de Rogers. O autor, no entanto, chama a atenção sobre a necessidade de que estas atitudes sejam percebidas pelo cliente, pelo menos em um grau mínimo .

Rogers (1992) afirma que a probabilidade de uma relação ser terapêutica num caso específico, depende principalmente, não da personalidade do orientador, nem de suas técnicas, nem mesmo de suas atitudes, mas da maneira como o cliente percebe a relação. Afirma ainda que a maneira como o cliente percebe ou experiencia a relação é um campo novo de investigação, no qual os dados são muito limitados.

Embora inúmeras pesquisas tenham sido desenvolvidas nas últimas décadas, a afirmação de Rogers sobre a necessidade de pesquisar a maneira como o cliente experiencia a relação, parece ainda ser válida. O instrumento mais utilizado nas pesquisas sobre a relação terapêutica e as condições facilitadoras foi o Relationship Inventory desenvolvido por Barret-Lenard (1986-1998): é um instrumento em forma de questionário que permite avaliar as percepções dos clientes sobre a relação e as atitudes facilitadoras. Além deste questionário, outros estudos foram realizados, no entanto, permanecem centrados na análise das intervenções dos terapeutas durante as sessões. Um exemplo deste tipo encontra-se no livro “Terapia Centrada no Cliente” , de Carl Rogers (1992).

Proponho-me, neste estudo, a examinar a percepção do cliente sobre a relação terapêutica de uma forma diferente. Meu propósito é, partindo de uma pergunta aberta, analisar se o cliente, ao expressar seus sentimentos sobre a relação com seu terapeuta, menciona, de forma implícita ou explícita, as atitudes facilitadoras – congruência, compreensão empática e aceitação positiva incondicional. Se esta questão for observada através deste estudo, a experiência da relação vivida pelos participantes foi terapêutica no sentido entendido por Rogers (1995): uma relação é terapêutica quando o cliente percebe, pelo menos em grau mínimo, as atitudes facilitadoras do terapeuta.

Na Terapia Centrada no Cliente, a ênfase está na relação. Assim, as atitudes do terapeuta não podem ser utilizadas como técnicas, isto é, não basta o terapeuta agir “como se” aceitasse ou compreendesse o cliente. Muito pelo contrário, o cliente deve perceber e sentir o que é ser aceito e compreendido por uma pessoa que esteja congruente e com ele nesta relação.

Para alcançar estes objetivos, fiz inicialmente uma revisão teórica da Terapia Centrada no Cliente, proposta por Carl Rogers. No segundo momento, dedico-me ao estudo do método fenomenológico para a coleta e análise dos dados. No terceiro, faço uma apresentação dos dados tentando integrar a revisão teórica, as essências fenomenológicas encontradas a partir da análise dos dados, com reflexões críticas.

1 A RELAÇÃO TERAPÊUTICA NA TERAPIA CENTRADA NO CLIENTE

1.1 Os pressupostos básicos

A relação terapêutica na terapia centrada no cliente parte da convicção de que o ser humano possui um potencial próprio que o leva ao crescimento e desenvolvimento. A relação nesta teoria é distintamente diferente das relações que se estabelecem ao longo de nossas vidas. Para ser terapêutica, deve embasar-se na confiança e na certeza de que o cliente possui o poder e a capacidade para encontrar sua própria direção e desenvolver-se no seu próprio ritmo (Rogers, 1995). Em cada indivíduo há um fluxo de movimento que o leva a realizar suas possibilidades, recursos suficientes para compreender-se e modificar auto-conceitos, atitudes e comportamentos. Este potencial é denominado por Rogers como “tendência atualizante” (Rogers, 1983a, 1995).

O termo organismo, na concepção de Rogers, é a totalidade do indivíduo: o conjunto psico-físico-social (Justo, 2000). A tendência do indivíduo é manter-se, atualizar-se e desenvolver-se. A tendência atualizante é o alicerce da Terapia Centrada no Cliente, este postulado supõe de um lado, a tendência de auto-realização do organismo; de outro, a regulação do organismo por si mesmo ou pela avaliação das experiências.

A partir da descoberta de que no interior do cliente residem forças construtivas e que o terapeuta irá propiciar condições que facilitem o crescimento, estabelece-se a base da relação, uma relação que devolve o poder à pessoa (Rogers, 1989). A confiança do terapeuta nestas forças internas do cliente justifica o papel do terapeuta como um catalisador. Para Rogers (1995), o poder, neste sentido, sai das mãos do terapeuta e vai para o cliente.

1.2 Uma relação não-diretiva

A noção de não-direção na terapia centrada no cliente está construída a partir de uma base de confiança no organismo e na convicção de que o cliente tem a capacidade de dirigir o seu processo. Rogers (1995) constata que o cliente sabe quais são as áreas de preocupação que está pronto a explorar. Ele é o melhor juiz para saber qual a freqüência mais desejável para as entrevistas. Assim, o mesmo pode dirigir o percurso mais eficientemente que o terapeuta para os problemas mais profundos.

A não-diretividade, no entanto, não pode ser confundida com inatividade ou indiferença, ressaltam Rogers e Kinget (1977). A não-direção, nesta concepção, está inspirada numa atitude incondicionalmente positiva. Seu significado não é a ausência de atividade, mas ausência de atividade intervencionista. O terapeuta centrado no cliente está intensamente empenhado no processo da terapia. Procura, com cuidado, não perturbar-lhe o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, esforça-se em facilitá-lo.

Para Rogers, a não-diretividade refere-se, essencialmente, à abstenção de juízos de valor. A maior parte dos clientes solicita o julgamento do terapeuta, sua opinião, sua aprovação, até mesmo, suas críticas e, freqüentemente, mostra-se contrariado quando o terapeuta não cede às suas exigências. Estes fatos indicam a insegurança e imaturidade que impede o cliente de funcionar adequadamente. A psicoterapia tem o objetivo de liberar as forças de crescimento do cliente. Ao abster-se em dar uma direção, o terapeuta facilita a liberação destas forças (Rogers e Kinget, 1977).

A função do terapeuta se limita à criação de condições favoráveis para que o cliente possa completar o seu papel. Ao se abster de qualquer atividade intervencionista, como a de explorar a experiência do cliente, de interpretá-lo ou de guiá-lo nas suas explorações ou interpretações, o fim será perseguido: a autonomia do cliente como pessoa.

A relação terapêutica caracterizada por Rogers (1987) deve estar livre de qualquer tipo de pressão ou coerção. Isso significa que aconselhar, sugerir, fazer pressão para algum tipo de ação e não outra, é atitude que não faz parte de uma relação terapêutica. Estas atitudes são diretivas, afirmam Rogers e Kinget (1977), distintas da noção de direção que envolve uma estrutura e um objetivo implícito, parte da teoria da terapia centrada no cliente.

Nesta abordagem, diz Rogers (1995), as habilidades do terapeuta são focalizadas na criação de atmosfera na qual o cliente possa trabalhar. Se o terapeuta estabelecer relação calorosa, caracterizada por compreensão e segurança, livre de ameaças e de aceitação básica da pessoa como ela é, então o cliente abandonará as defesas naturais e buscará o auto-conhecimento.

A não-diretividade faz parte inseparável da teoria da terapia centrada no cliente: o resultado das atitudes de aceitação positiva incondicional, compreensão empática e congruência. Bozarth (2000) afirma que o terapeuta que tem a certeza de que as condições básicas são necessárias e suficientes é eminentemente não-diretivo.

Rogers destaca a importância da convicção do terapeuta não-diretivo no potencial do cliente, para que este possa desenvolver-se de forma livre. Quando o terapeuta percebe e aceita o cliente tal como é; quando não avalia, apenas compreende o cliente a partir de seu referencial, deixando-o livre para explorar sua vida e sua experiência de uma nova maneira; só quando o terapeuta está disposto a admitir qualquer resultado, qualquer direção, só então poderá perceber a capacidade e potencialidade da pessoa para uma ação construtiva: “É quando admitimos que a morte possa ser a escolha, que a vida é escolhida; quando admitimos que a neurose possa ser a escolha é que uma normalidade saudável é escolhida” (Rogers, 1992, p.61).

1.3 Atitudes e não técnicas: a relação

Durante o desenvolvimento de suas pesquisas, Rogers e colaboradores verificaram que alguns terapeutas, que praticavam a psicoterapia de forma muito parecida com a terapia não-diretiva, não obtinham os mesmos resultados em relação ao cliente. Ao contrário, ao invés de ajudar, chegavam a indispor o cliente ou a afastá-lo. Como as entrevistas eram gravadas, foram estudadas e discutidas pelo grupo, buscando a compreensão do que acontecia. Ficou evidente, a partir da análise das entrevistas, que os terapeutas fracassados nos seus esforços de terapeutas não-diretivos, simplesmente aplicavam o método sem nenhum envolvimento pessoal. Para estes terapeutas, o comportamento não-diretivo era como desempenhar um papel, sem refletir sobre as atitudes e convicções que estavam na base desta concepção.

Estes estudos levaram Rogers a afirmar que o essencial na Terapia Centrada no Cliente não é a ausência de diretivas, mas a presença de certas atitudes do terapeuta na relação com o cliente. Para a facilitação de mudanças construtivas no cliente, o comportamento do terapeuta deve ser a expressão de certas atitudes e convicções profundamente enraizadas em sua personalidade (Rogers e Kinget, 1977). A ênfase, desta forma, não está na técnica, como um papel a ser desempenhado pelo terapeuta. Está, isto sim, na própria relação terapeuta-cliente (Rogers, 1992).

1.4 As atitudes facilitadoras

A relação terapeuta-cliente é o fator essencial que promoverá o crescimento. É através das atitudes do terapeuta que o clima facilitador será oferecido, para que o potencial da pessoa possa ser liberado. Há três atitudes básicas e imprescindíveis para a facilitação do cliente: congruência, consideração positiva incondicional e compreensão empática.

O terapeuta será congruente na medida em que for ele mesmo na relação com o cliente. Quanto mais puder desprover-se de barreiras profissionais ou pessoais, maior a probabilidade de que o cliente mude e cresça de modo construtivo, afirma Rogers (1983a). O cliente pode perceber o que o terapeuta é na relação. Deste modo, o mesmo experiencia a congruência do terapeuta, e passa a ser congruente consigo nesta relação. Na concepção de Rogers, a congruência é a correspondência entre o que está sendo vivido em nível profundo, o que está presente na consciência e o que está sendo expresso ao cliente.

O terapeuta está congruente quando é transparente, quando o cliente pode perceber claramente o que o terapeuta é na relação, e quando não percebe nenhum bloqueio da parte do terapeuta (Rogers, 1997). Segundo Haugh (1998), para Rogers, congruência é ser transparente no sentido de estar disposto a ser visto pelo cliente através das aparências. Para a autora, quanto mais plenamente o terapeuta estiver consciente de sua experiência, mais provavelmente ele será sentido pelo cliente como genuíno, autêntico e real.

Imprescindível na criação de um clima facilitador de mudança, a segunda atitude mencionada por Rogers (1983a), é a aceitação, o interesse ou a consideração. Significa que o terapeuta tem atitude positiva e aceitadora à pessoa do cliente, isto é, ao que o cliente é naquele momento.

O terapeuta facilita ao cliente a expressão dos sentimentos que estão ocorrendo no momento, não importando quais sejam. Este interesse do terapeuta não é possessivo. Tem consideração integral e não condicional pelo cliente.

Quando o terapeuta é capaz de perceber o significado do que o cliente diz, ou um pouco além do que ele está sendo capaz de expressar, quando ouve sem julgar, diagnosticar, apreciar ou avaliar; quando o cliente está numa situação psicologicamente dolorosa e o terapeuta é capaz de simplesmente ouvir, sem tentar assumir a responsabilidade pelo cliente, sem tentar moldá-lo – este sente-se aceito sem condições e torna-se capaz de rever seu mundo e continuar sua auto exploração (Rogers, 1983a).

Rogers (1977) define a compreensão empática como um processo, uma maneira de ser na relação com outra pessoa. Significa penetrar no mundo de percepções do cliente, apreender os significados que o mesmo percebe em relação aos seus sentimentos sem julgamento, e transmitir esta compreensão de forma não impositiva.

A intenção do terapeuta é captar, com precisão, os sentimentos e significados pessoais que o cliente está vivendo e comunicá-los ao cliente. Quando está em sua melhor forma, o terapeuta pode entrar tão profundamente no mundo interno do cliente que se torna capaz de esclarecer, não só o significado daquilo de que o cliente está consciente, como também do que se encontra abaixo do nível de consciência.

Ao acompanhar o cliente, mostrando os possíveis significados presentes no fluxo de suas vivências, o terapeuta ajuda a pessoa a focalizar-lhe o ponto de referência e a vivenciar os significados de forma mais plena. Para o terapeuta, estar com o cliente desta forma é preciso deixar de lado, neste momento, seus próprios pontos de vista e valores, para entrar, sem preconceitos, no mundo do cliente. Em certo sentido, afirma Rogers (1977), é colocar de lado o próprio eu.

Quando o terapeuta efetivamente ouve uma pessoa e os significados que lhe são importantes naquele momento, ouvindo além de suas palavras, e quando apreende o significado pessoal e íntimo, a pessoa sente-se aliviada, quer falar mais sobre seu mundo, sente-se impelida em direção a um novo sentido de liberdade e torna-se mais aberta ao processo de mudança.

1.5 A segurança

A segurança na relação terapêutica centrada no cliente está intimamente relacionada com um clima não ameaçador. Rogers (1991) descreve a segurança sentida pelo cliente, identificando três condições a ela associadas. A primeira está vinculada à aceitação e valorização incondicional da pessoa; a segunda, ao estabelecimento de clima não avaliativo e sem julgamento; e a terceira, à presença da compreensão empática. Esta última condição está relacionada às duas anteriores, facilitando plenamente a criação de clima de segurança psicológica.

O papel da segurança na relação terapêutica é extremamente importante para a auto-exploração e reorganização do cliente (Rogers, 1992). Para Rogers (1991), é no conforto emocional da relação com o terapeuta que o cliente começa a experienciar a segurança ao descobrir que qualquer sentimento, opinião ou atitude pode ser expressa, sendo compreendida e aceita. Desta forma, o cliente sente-se capaz e seguro para explorar aspectos de suas experiências até então negadas por ter um sentido muito ameaçador. Estes aspectos antes ameaçadores podem ser explorados e ressignificados na segurança da relação.

Na segurança da relação, o cliente descobre que, embora seja dolorosa a admissão à consciência de aspectos negados, o ganho supera a dor (Rogers,1992). Durante o processo terapêutico, muitas vezes, o cliente percebe a hora com o terapeuta como a única porção estável de sua experiência, sendo, portanto, a terapia centrada no cliente sentida como apoio, apesar de não oferecer apoio ou aprovação num sentido superficial, mas, sim, constância e segurança em nível mais profundo (Rogers, 1991).

1.6 A mudança

Ao elaborar exposição sobre as características de uma relação de ajuda, Rogers (1991) cita diversos estudos realizados sobre a eficácia do processo de psicoterapia, em diferentes contextos teóricos. E em todos esses se evidencia a importância das atitudes do terapeuta e a percepção destas atitudes pelo cliente. Ao longo de seus estudos, constata que as mudanças do cliente são a recíproca das atitudes do terapeuta. Para Rogers (1992), a partir da vivência das atitudes do terapeuta, o cliente sente-se capaz de assumir novas atitudes em relação a si mesmo.

A psicoterapia facilita a liberação das forças de crescimento da pessoa. Na relação terapeuta-cliente, quando o terapeuta é autêntico, quando experiencia uma atitude calorosa de aceitação em relação ao cliente e quando é capaz de apreender o significado daquilo que o cliente está comunicando, enfim, quando estas três condições estão presentes no terapeuta e o cliente percebe estas atitudes, mudanças construtivas ocorrem. Rogers (1991) conclui assim que mais do que o conhecimento e a capacidade técnica do terapeuta, são suas atitudes as principais responsáveis pela mudança do cliente.

O poder da técnica não é exercido sobre a pessoa. O terapeuta potencializa, facilita a expressão de sentimentos e libera o cliente para o exercício da autonomia. Potencializar a pessoa, para Rogers (1983b), é colocar em movimento um processo de mudanças. Não é a perspectiva teórica, as habilidades diagnósticas ou o treinamento profissional que garante um bom resultado na terapia, afirma Wood (1983). Para ele, ao contrário, a terapia centrada no cliente acentua a compreensão e lhe enfatiza o potencial de cura. Para que a mudança seja efetiva, o terapeuta deve ser uma pessoa capaz de comunicar as condições terapêuticas de congruência, empatia e não-avaliação, conclui este autor.

O processo de mudança descrito por Rogers (1991) envolve alteração no modo do cliente experienciar a sua vivência. De um modo geral, verifica-se que o processo afasta-se da fixidez, do caráter remoto dos sentimentos e experiências, da concepção rígida de si, do afastamento das pessoas e da impessoalidade do relacionamento. O cliente evolui para a fluidez, para a possibilidade de mudança, para a percepção imediata de seus sentimentos e experiências, para a aceitação desses sentimentos e dessa experiência, para tentativas de construção, para a descoberta de um eu que é mutável, para a realidade e proximidade das relações, a uma unidade e integração do funcionamento.

Quanto mais ele vê o terapeuta como pessoa verdadeira ou autêntica, capaz de empatia, tendo para com ele respeito incondicional, tanto mais se afastará de um modo de funcionamento estático, fixo, insensível e impessoal, e encaminhar-se-á no sentido de funcionamento marcado por uma experiência fluida, em mudança, e plenamente receptiva dos sentimentos pessoais diferenciados. A conseqüência desse movimento de mudança, conclui Rogers (1991), é a evolução da personalidade e do comportamento no sentido da saúde e da maturidade psíquica e de relações mais realistas para com o eu, os outros e o mundo.

1.7 As condições necessárias e suficientes

Para que a relação seja terapêutica e ocorram mudanças construtivas na personalidade do cliente, Rogers (1995) sintetiza assim as seis condições necessárias e suficientes para que isto ocorra:

1 – Que duas pessoas estejam em contato psicológico;

2 – Que a primeira, a quem chamaremos cliente, esteja num estado de incongruência, estando vulnerável ou ansiosa;

3 – Que a segunda pessoa, a quem chamaremos de terapeuta, esteja congruente ou integrada na relação;

4 – Que o terapeuta experiencie consideração positiva incondicional pelo cliente;

5 – Que o terapeuta experiencie compreensão empática do esquema de referência interno do cliente e se esforce por comunicar esta experiência ao cliente;

6 – Que a comunicação ao cliente da compreensão empática do terapeuta e da consideração positiva incondicional seja efetiva, pelo menos num grau mínimo.

Para Rogers, nenhuma outra condição é necessária: “Se estas seis condições existirem e persistirem por um período de tempo, isto é o suficiente. O processo de mudança construtiva da personalidade ocorrerá” (Rogers, in Wood, 1995 p. 160).

As três atitudes facilitadoras foram amplamente discutidas ao longo da obra de Rogers. O autor, no entanto, chama a atenção sobre a necessidade de que estas atitudes sejam percebidas pelo cliente, pelo menos em grau mínimo.

2 MÉTODO

2.1 A Opção pelo Método Fenomenológico

A intenção de buscar os significados da experiência vivida do cliente na relação terapêutica leva-me a optar por método de pesquisa qualitativa com base fenomenológica, já que os pressupostos da fenomenologia são a base da Terapia Centrada no Cliente. Além disso, para buscar o significado da experiência do participante não há como não levar em consideração o seu mundo vivido – é o participante desse estudo que vai expressar seu mundo, suas percepções, seus sentimentos, enfim, seu modo único de experienciar e dar o sentido que tem para ele a relação com seu terapeuta.

O método fenomenológico, conforme Giorgi (2001), preenche os critérios fenomenológicos porque é um método descritivo, utiliza a redução fenomenológica, procura a essência do fenômeno e presume uma relação intencional entre o sujeito e o objeto da experiência. Este método também preenche aos “requisitos científicos porque produz conhecimento metódico, sistemático, crítico e potencialmente intersubjetivo” (Giorgi, 2001, p.134). Também são preenchidos os critérios psicológicos, porque a análise das descrições ocorre dentro da perspectiva psicológica, buscando-se essências psicológicas.

O sentido que uma situação tem para a pessoa é uma experiência íntima que só pode ser alcançada através de informações dadas pela própria pessoa. O método fenomenológico é o recurso apropriado para pesquisar este tipo de experiência que é a vivência, (Forghieri, 2001). Sob este ponto de vista, buscam-se os significados da experiência para compreendê-la mais completamente, (Giorgi, 2001).

O princípio fundamental deste método é ir ao encontro do fenômeno, é mostrar o que é dado e esclarecer este dado. Ele não tenta explicar mediante leis e nem deduz a partir de princípios (Gil, 1991). Permite-se que o fenômeno se manifeste como ele é e não na forma como o pesquisador pensa que ele deva ser (Kern, 1996). O objetivo é chegar à essência do próprio conhecimento, é captar o sentido ou o significado da vivência e passar a investigar o mundo vivido dos sujeitos (Forghieri, 2001). O método fenomenológico busca esclarecer o fenômeno através de uma base segura, livre de pressuposições (Gil, 1991).

A fenomenologia surge no campo da filosofia como um método que possibilita chegar à essência do conhecimento. A redução fenomenológica é concebida por Forghieri (2001) como o recurso apropriado para buscar esta essência. “A redução fenomenológica consiste em retornar ao mundo da vida, tal qual aparece antes de qualquer alteração produzida por sistemas filosóficos, teorias científicas ou preconceitos do sujeito…” (p.59).

Ao se transpor o método fenomenológico para o campo da Psicologia, afirma Forghieri (2001), o objetivo inicial de chegar à essência do próprio conhecimento passa a ser o de procurar captar o sentido ou o significado da experiência para a pessoa. Para investigar as experiências vividas, utilizando-se da redução fenomenológica, o pesquisador deve voltar-se para a vivência e refletir sobre ela, a fim de captar o significado da mesma.

A linguagem diária do sujeito é transformada em expressão psicológica seguindo o argumento fenomenológico de que: “o mundo da vida ou o mundo pré-teórico é o suporte para todo o conhecimento e a ciência é uma atitude derivada, motivada pelos aspectos que aparecem no mundo diário” (Giorgi, 2001, p.138).

Neste sentido Forghieri (2001) salienta a importância de que o pesquisador coloque fora de ação ou “entre parênteses” os conhecimentos adquiridos sobre a experiência que está investigando. A redução fenomenológica constitui-se de dois momentos denominados por Forghieri: envolvimento existencial e distanciamento reflexivo que, segundo a autora, são momentos “paradoxalmente inter-relacionados e reversíveis” (p.60).

Para compreender o significado da vivência da relação terapêutica para o participante, procurei seguir e vivenciar estes dois momentos: iniciando com o envolvimento existencial, prosseguindo com o distanciamento reflexivo, salientando que não há completa separação entre eles, apenas predominância, ora de um, ora de outro.

No envolvimento existencial procurei, no momento do encontro com o participante, colocar fora de ação meus conhecimentos e expectativas para abrir-me à vivência de modo espontâneo e experiencial. Tentei, naquele momento, uma profunda sintonia, saindo de uma atitude intelectualizada para me soltar no fluir da vivência daquele encontro, deixando surgir a intuição, percepção, sentimentos e sensações, buscando a totalidade daquela experiência para nela penetrar, partilhar da mesma e compreender como o participante vivencia sua relação, de acordo com sua forma única e seu próprio modo de existir.

Após vivenciar e buscar compreender o sentido da experiência, procurei estabelecer certo distanciamento da vivência, para refletir e compreender o sentido ou significado da relação para o participante e enunciar descritivamente o que captei daquela vivência.

2.2 Participantes e Coleta de Dados

Foram entrevistadas quatro pessoas em acompanhamento psicológico, independentemente de sexo, escolaridade e profissão. Os únicos critérios previamente estabelecidos foram: pessoas em atendimento psicológico, com tempo de terapia de, no mínimo, seis meses e idade compreendida entre 25 e 35 anos. A idade foi definida segundo critérios de Mosquera e Stobaus (1984). Esta idade se caracteriza como a segunda subfase da vida adulta, denominada por eles como “adultez jovem plena” e representa um momento no qual “a existência se condensa com a força de sua problemática”. Nesta subfase da vida há uma grande preocupação pela afirmação pessoal e de alta significação para se construir, um passo importante para que a pessoa chegue a admitir com clareza a sua adultez, com sentido existencial de comunicação, principalmente consigo mesmo.

O número de participantes ficou restrito a quatro pessoas por ter considerado suficiente, tendo em vista os objetivos desta pesquisa, apesar de ter estudado durante a fundamentação teórica e verificado ao longo da coleta dos dados, que a experiência da relação é única para cada pessoa. Na concepção de Rey (1999), o número de participantes na pesquisa qualitativa não pode ser definido a priori e sim no transcorrer da investigação.

As entrevistas foram realizadas em uma clínica de Psicologia, localizada na cidade de Porto Alegre, cujos profissionais trabalham com a Terapia Centrada no Cliente. Contatei alguns psicólogos que se dispuseram a falar com seus clientes e ver se estariam dispostos a participar deste trabalho. A escolha dos clientes foi feita pelos terapeutas que, após contato com seus clientes, me passaram nomes e telefones dos prováveis participantes. Foi assim que, após obter o consentimento informado, partimos para a entrevista no próprio local, em sala reservada, com horário previamente agendado.

Buscando com o participante a expressão de seus sentimentos quanto à relação terapêutica, iniciei com uma pergunta aberta: como tu sentes a relação terapêutica?

Considerei este como o melhor caminho para entrar no mundo vivido do participante e, durante as entrevistas, coloquei, nas minhas intervenções, o que percebi dos sentimentos que ele trazia. Assim, as entrevistas foram construídas. O tempo de duração das entrevistas ficou compreendido entre vinte e sessenta minutos. Estas foram gravadas com o consentimento dos participantes e, posteriormente, transcritas de forma literal. Para resguardar suas identidades, utilizo-me de nomes fictícios, preservando as informações sobre escolaridade, profissão ou qualquer outro dado pessoal, levando em conta que estes dados são irrelevantes para os objetivos desta pesquisa.

2.3 A análise das entrevistas

As entrevistas ou descrições foram transcritas e analisadas seguindo os quatro passos propostos por Giorgi (2001):

1 – Leitura do material – primeiro, o pesquisador lê a descrição completa a fim de obter um sentido da experiência total. Não se tenta buscar sentido do todo explícito dessa vez, pois ele se torna mais claro à medida que o método é clarificação do sentido total da descrição, sob uma perspectiva psicológica.

2 – Divisão do material em partes – após ter obtido o sentido do todo, o pesquisador volta ao início da descrição e começa a dividir o todo em partes, porque é impossível analisar o todo como tal. Estas partes são as unidades de significados e são estabelecidas de acordo com critérios psicológicos. Toda vez que o pesquisador experiencia uma transição no significado, indica onde isso ocorre sem maiores interrogações nessa ocasião. Percorre-se a descrição inteira, demarcando unidades de sentido desse modo.

3 – Modo disciplinado ou profissional de obter sentido das partes. O terceiro passo, para o autor, é o cerne do método, porque o pesquisador precisa agora descrever as intenções psicológicas que estão contidas dentro de cada unidade de significado. Até este ponto, a linguagem do participante não foi modificada. Agora, a tarefa do pesquisador é intuir e descrever essencialmente os significados psicológicos contidos na descrição, através da variação imaginativa livre. Este passo envolve uma transformação das expressões do participante, favorecendo a realização científica.

4 – Reintegração das partes – O passo final deste método envolve uma síntese das unidades de significado transformadas. Todos os dados devem ser considerados neste passo, mas nem todas as unidades de significado têm igual valor, sendo muitas implicitamente incluídas. O importante é que a estrutura resultante expresse a rede essencial das relações entre as partes, de modo que o significado psicológico total possa sobressair. A variação imaginativa também aparece nesse processo. A estrutura é, então, apresentada à comunidade de cientistas para a crítica.

3 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

3.1 O encontro com as participantes

Para apresentar e discutir os resultados desta pesquisa, faz-se necessário refletir sobre seu processo, desde o contato com os participantes no momento da entrevista, até a finalização da análise das transcrições. Na opção pelo método fenomenológico e no desenrolar das entrevistas, aprendi que a coleta de dados não é uma simples coleta de informações. Muito pelo contrário, são momentos significativos e vivenciais. Tentarei traduzir em palavras meu envolvimento com o fenômeno, o que percebi, senti e compartilhei com cada participante.

Percebi que o momento da entrevista tornou-se um espaço de reflexão, onde o participante pôde entrar em contato com sua experiência e vivenciá-la, expressando seus sentimentos em palavras, gestos e silêncios. Foi como se percebesse a importância do momento em si, como uma oportunidade de parar. Parar a fim de pensar e sentir.

Os entrevistados me passaram emoção e intensidade ao falar da relação terapêutica – como se estivessem vivendo a relação, e a totalidade do processo, naquele momento e se extasiassem ao (re)ver as mudanças que, segundo eles, a relação de ajuda propiciou em si mesmos , nas suas relações e, de forma mais ampla, nas suas vidas.

Muito do que senti nas entrevistas foi suscitado por gestos, lágrimas e expressões em silêncio por parte dos entrevistados. Cabe ressaltar que percebi o silêncio, na maioria das vezes, como espaços cheios e não decorrentes da falta do que dizer. Eram vivências a princípio difíceis de ser expressas em palavras, pois pareciam transcender a linguagem verbal, ao incluir sentimentos, sensações e percepções. Foram momentos significativos que me tocaram bastante, pois me levaram a sentir com o outro a importância que a relação terapêutica tem em suas vidas.

Na primeira entrevista, com Lígia, senti a emoção que ela trazia ao olhar para seu processo terapêutico e a intensidade com que colocou a importância de ter vivido a relação de ajuda e o quanto esta experiência marcou sua vida, como algo único e extremamente valioso.

Esta primeira entrevista pareceu-me breve e, a partir desta, questionei-me se seria possível coletar mais informações caso houvesse uma postura mais ativa por parte do entrevistador. Para a segunda entrevista, fui com a intenção de buscar mais dados e, ao iniciá-la, tive a oportunidade de perceber que minha expectativa levava-me a cogitar um método de certa forma diretivo – o que vai de encontro aos pressupostos de Rogers e da fenomenologia. Neste momento pude vivenciar algo do qual ouvira falar muitas vezes, da “epoquê” da fenomenologia, de que deveria suspender ou “colocar entre parênteses” o que eu já sabia sobre o fenômeno, ou seja, que não adiantaria eu ir para a entrevista buscando algo previamente pensado, pois os dados surgiriam naquele momento e, o que viria, seria o mundo vivido e não o que meus conhecimentos anteriores me levavam a supor.

Percebi que, de nada adiantava tentar dirigir o processo. Um exemplo claro disto são os momentos de silêncio, ou seja, ao me sentir desconfortável no silêncio do entrevistado e interferir no seu processo, não significa que o mesmo seguirá o curso por mim pretendido.

Houve longos silêncios na segunda entrevista e pude sentir o vivido deste silêncio e perceber que, apesar da minha intervenção em determinado ponto, a entrevistada seguiu seu próprio movimento. Pude percebê-la voltando-se para dentro, para si mesma e explorando seus sentimentos. Nos momentos de silêncio senti a profundidade com que Silvia vivia a experiência da relação.

Nesta fase, tive certeza de que estava no caminho certo, que voltara a caminhar em direção ao que queria pesquisar, que não deveria interferir na sua expressão se queria alcançar o mundo vivido destes entrevistados. O que eu poderia fazer era estar ali junto, facilitando a expressão dos seus sentimentos, ao invés de querer trazer algo de fora do encontro para investigar ali, pois o fenômeno está no significado que a pessoa está trazendo naquele momento.

É este significado que o cliente dá à relação que procurei desvelar e passei a compreender que isto independe do tamanho da entrevista, do tempo despendido e da quantidade de palavras – vem na emoção e na expressão dos sentimentos, não importando a forma como é trazida esta vivência no momento da entrevista.

Quanto à entrevista com Débora, tocou-me a forma significativa com que falou da relação, frisando que sentia certo desconforto no início, o que hoje é percebido por ela como a descoberta de que pensar é diferente de viver uma relação. Débora trouxe essa emoção de vivenciar a relação, sem ter mais que explicá-la e conseguindo deixar fluir. Senti alegria e satisfação quando ela trouxe a relação como potencializadora de si mesma.

Na entrevista com Elisa, percebi o momento como uma retomada de seu processo terapêutico, de dar-se conta desde o início até como ela se encontra hoje. Pude percebê-la relaxando no decorrer da entrevista, podendo entrar em contato com seus sentimentos e olhar para as conquistas pessoais, sentindo o significado que tem a relação em sua vida. Aqui também pude sentir a gratidão e o espanto pelas mudanças que teve num período, segundo ela, tão curto. Nos momentos de silêncio, Elisa parecia ir mais fundo, trazendo na sua história a importância dessas mudanças. Senti, também, o significado da descoberta do silêncio como um momento nitidamente seu.

3.2 Síntese das Entrevistas

3.2.1 Síntese da entrevista com Lígia

Tenho um vínculo bem grande com minha terapeuta, confio bastante nela. Não é uma relação fria, é uma relação diferente. Eu sinto uma pessoa na minha frente. É uma relação que vai mudando, é um processo. Sinto aceitação e confiança. Esta relação faz parte da minha vida e é muito importante pra mim. A partir desta relação, fui me sentindo capaz de estabelecer outras relações. Não sei explicar exatamente o que é. É um momento meu. Esta relação implicou várias mudanças na minha vida. Percebi que não eram as coisas que eu trazia que eram importantes e sim o que acontecia ali, entre a gente. Sinto um respeito e um carinho, e este carinho acaba revertendo pra mim mesma. É a relação mais importante que eu estabeleci. Com ela passei a sentir o que é uma relação. Consigo parar e ver que eu posso entender outra pessoa, sem julgar, porque na relação com minha terapeuta não me senti julgada, também nunca ouvi sugestões. Me permitiu ser quem eu sou. Ela me aceitou e me compreendeu sem aprovar e nem desaprovar, e este é um ponto bem importante da relação. Também nunca me senti pressionada, nunca senti uma pessoa me dizendo que o que falo está certo ou errado. Tenho liberdade para falar dentro deste espaço. É um espaço meu, um espaço da relação e de um contexto todo. O que sinto é intenso e sei o quanto é importante esta relação na minha vida. E é isto que eu encontrei na relação, algo que me toca, que faz sentido, como esta intensidade que faz me sentir comprometida comigo mesma.

3.2.2 Síntese da entrevista com Sílvia

É abrangente falar dos sentimentos. Eu nunca parei pra sentir, pra pensar. É uma relação que me traz entendimento e é uma relação onde me sinto importante também. É difícil de traduzir em palavras. Eu sei que, pelo menos naquele momento ali, vai ter uma pessoa que vai estar comigo, do meu lado, seja pra o que for. Outro sentimento que me vem é respeito. Me sinto respeitada, do jeito que eu tiver que ser, eu sou respeitada. É estar comigo e este respeito… e junto com isso é um saber… eu tenho certeza… eu sinto. Eu sei que naquele momento eu vou ser aceita. Eu tenho certeza que isso acontece e que vai acontecer enquanto eu estiver ali. Eu sei que ela vai estar comigo ali, tanto nas coisas mais absurdas, nas coisas ruins e nas coisas boas. Não vai resolver nada por mim, não vai fazer as coisas por mim, mas vai estar do meu lado. Nesta relação, eu sinto que sou uma pessoa importante no sentido de que as minhas coisas são importantes, têm importância, eu me sinto importante. É uma relação onde eu faço diferença, onde eu sinto que tem uma pessoa comigo e que eu faço diferença, e isto tem um grande significado pra mim.

3.2.3 Síntese da entrevista com Débora

No início, senti a relação confusa, era um desconforto . Hoje eu olho pra traz e vejo que eu não saía do lugar. Eu tava esperando alguma coisa de fora, que a terapeuta me dissesse algumas coisas, por mais que eu soubesse que ela não diria, pois eu nunca tive respostas. Eu tava numa posição passiva, mas num determinado momento comecei a ver que era eu mesma que tinha que fazer. Eu não sei explicar como e não sei definir o momento exato em que aconteceu. Alguma coisa me segurava naquela relação, eu me sentia bem, por mais que eu sentisse um desconforto. Parei de pensar sobre a relação e comecei a me soltar e tudo começou a acontecer. Me senti completamente segura, à vontade pra falar, pra brigar, pra dizer o que eu não gostava da relação, pra cobrar quando eu achava que não tava legal. Esta foi minha busca, uma relação verdadeira. Eu comecei a ver que o espaço era meu e que eu é que ia construir dentro deste espaço, e isto me deu confiança sobre mim, me potencializou enquanto Débora, enquanto pessoa, por eu ver que sou eu que dirijo minha vida e tenho que me responsabilizar por isso. O desconforto era me sentir parada, era uma agitação comigo mesma. Eu tava passiva frente à minha própria vida. Este processo me deu segurança na minha vida. A relação com a terapeuta me dá segurança nas minhas relações de hoje em dia. Foi fundamental vivenciar o que é ser compreendida e vivenciar o que é uma pessoa estar comigo. Eu entrei pensando na relação, e depois eu vivi a relação e isso tem muito a ver com a atitude da terapeuta. Pela atitude dela eu fui deixando de pensar e fui vivendo. Nesse momento eu fui deixando de lado o que eu esperava de uma relação e viver esta relação. Comecei a confiar em mim mesma. Foi fundamental na minha vida ela aceitar minhas dificuldades, me compreender, ter se colocado no meu lugar, sem me julgar, sem me criticar. Ter sentido esta compreensão, ter sentido esta não-interferência da outra pessoa no sentido de trazer as coisas dela, mas sim de trazer pra mim as minhas próprias coisas, de me mostrar as minhas próprias coisas.

3.2.4 Síntese da entrevista com Elisa

No começo é bem difícil, depois vem a confiança. É tranqüilo, embora tem vezes que a gente escuta o que não quer escutar. Sinto minha terapeuta como minha amiga, uma pessoa que eu sei que eu posso falar. É uma relação normal. A terapeuta faz parte da minha vida. Com o tempo percebi que não era a pessoa que iria me dizer o que fazer. Ela vai só me ajudar, ser um guia. Eu sinto que a minha terapeuta me ajudou em infinitas coisas, quando penso em como eu era e como eu sou. Eu vejo que tem um retorno, hoje eu vejo que melhorei muito. Me sentia a pior pessoa do mundo. Eu não conseguia nada. De repente senti alguma coisa mudando dentro de mim. Ela me ajudou a acreditar em mim mesma. Eu acreditava que todo mundo podia, menos eu. Sempre conto com esta ajuda. Quem me ajudou a acreditar em mim mesma foi ela. Quando paro pra olhar pra traz, vejo tudo o que já fiz e passo a acreditar ainda mais, a reconhecer, a olhar, a ver que é verdade. Mudei muito. Eu nunca abraçava ninguém, eu tinha medo de abraçar as pessoas, as pessoas chegavam perto de mim e eu nem tocava. Hoje eu abraço muitas pessoas. Era, talvez, uma falta de confiança nas pessoas. Da minha terapeuta eu sinto que tenho atenção, carinho, me sinto bem ali, me sinto super à vontade, não preciso me esconder, ela sabe quem eu sou. E o mais interessante é que ela também é de carne e osso que nem eu. Não vejo minha terapeuta como alguém que não tenha problemas. Ela é uma pessoa normal, como qualquer pessoa.

3.3 As essências fenomenológicas

Para chegar aos significados da experiência da relação terapêutica para as participantes deste estudo, após a realização, transcrição e análise, busquei do mundo vivido destas participantes, através de suas entrevistas, as seguintes essências fenomenológicas, definidas a priori pela teoria:

1- Aceitação incondicional

2 – Compreensão empática

3 – Congruência

4 – Não-diretividade

5 – Segurança

6 – A vivência da relação

7 – Mudanças para a vida

Cabe ressaltar, que estas “essências” estiveram presentes na expressão dos sentimentos dos participantes com grande significado. Um dado importante a ser levado em consideração é que cada participante expressou sua forma única de experienciar a relação. Ao buscar as essências, percebi que cada participante dava um significado especial a uma delas. Todos, no entanto, evidenciaram a importância das atitudes presentes na relação como facilitadoras das mudanças. Da entrevista com Lígia, emergiu como significativa a vivência da relação terapêutica; Silvia ressaltara a aceitação incondicional; Débora, a não-diretividade e Elisa, a segurança encontrada na relação.

1 – Aceitação incondicional

Conforme referido durante a fundamentação teórica, aceitar incondicionalmente, na concepção de Rogers (1983), é uma atitude do terapeuta em aceitar o cliente, naquele momento e em sua totalidade. É aceitar seus sentimentos e toda sua expressão. É aceitar a pessoa enquanto pessoa, independente de outros critérios que se possa ter para avaliar seu comportamento.Em outras palavras, não há condições para que o cliente seja aceito.

O significado de se sentir aceito na sua expressão vem de forma muito clara na fala dos participantes e esta aceitação tem um sentido de liberdade: Ligia: Aceitação… este é um ponto bem importante da relação…Eu sinto que eu tenho a liberdade de falar.

Débora: …me senti à vontade pra falar tudo o que eu queria…liberdade de chegar e falar… e saber que eu ia ser aceita quando falasse… ela me aceita em tudo.

Elisa: …me sinto bem ali…eu relaxo mesmo no consultório…os únicos quarenta minutos da semana que eu relaxo…eu consigo relaxar…me sinto super à vontade…não preciso me esconder…ela sabe quem eu sou.

Além de sentir que é aceito, o participante tem a certeza de que será aceito em tudo que expressar. Neste sentido, a aceitação parece ter um significado de segurança e confiança na relação:

Débora: …de chegar e falar e saber que eu ia ser aceita…nunca me senti assim, mal…de eu ter vivido o que é ser aceita…saber que eu posso ser aceita…por ela ter aceito todos meus, minhas dificuldades…minhas coisas.

Silvia: …vou ser aceita.

Na atitude de aceitação, o cliente é considerado como pessoa de valor exatamente pelo que ele é. Para Peterson & Hidore (1997), aceitar é também um cuidado não possessivo. O cliente é valorizado na medida em que é ele que vai dar o próprio significado para seus sentimentos e experiências O significado da aceitação na fala de Silvia é de sentir-se importante na relação:

Silvia: …me sinto importante…sou uma pessoa importante…minhas coisas são importantes …eu me sinto importante.

O que Silvia expressa vai ao encontro do que mencionam Rogers e Kinget (1977), ao referir que a pessoa parece sentir na terapia a experiência de ser amada. Amada não de modo possessivo, mas de maneira distinta, com suas idéias e sentimentos e um modo de ser que é exclusivamente pessoal.

A aceitação aparece na fala dos participantes também como respeito. O significado de respeito é referido por Rudio (1999). Para ele, aceitar alguém é acolher a pessoa, é respeitar a qualidade de pessoa que o cliente possui aqui e agora, na sua situação presente:

Silvia: …Me sinto respeitada…do jeito que eu tiver que ser…eu sou respeitada.

A pessoa é aceita da forma como está conseguindo ser. O terapeuta respeita e aceita a pessoa em sua totalidade, inclusive em relação ao seu próprio ritmo: Lígia: …eu não me sinto pressionada.

Outra faceta da aceitação positiva incondicional discutida por Rogers (1997), e que aparece na fala dos participantes é a ausência de julgamento. O autor considera como aspectos facilitadores em uma relação terapêutica, a livre expressão de sentimentos, abstendo-se o terapeuta de qualquer atitude valorativa ou crítica:

Lígia: Na relação com minha terapeuta, é isso, assim, a questão de eu não me sentir julgada..ela sempre me passou esta coisa de não estar julgando…de me permitir ser quem eu sou, na relação…mesmo quando eu não aceito isso…

Eu não sinto…que alguém tá me dizendo que o que eu tô falando tá certo ou tá errado.

Débora:…sem me julgar, sem me criticar…eu conseguia chegar e cobrar as coisas que eu achava que não era legal pra mim…eu acho que é isso, assim…a relação.

Na expressão de Ligia: …mesmo quando eu não aceito isso…, aparece a importância da aceitação positiva incondicional em uma relação terapêutica. O cliente, no início do processo de terapia, tem de si uma visão negativa, rejeitando-se em menor ou maior grau. Não tem aceitação positiva para consigo mesmo. Enquanto não se aceita como realmente é, sente-se ameaçado e utiliza defesas. Neste sentido, a aceitação no ambiente terapêutico favorece um clima não ameaçador. A partir do momento em que o cliente é aceito pelo terapeuta, passa a aceitar-se como realmente é, pode reconhecer e avaliar as suas experiências de modo mais realista, sem distorções.

Em um clima livre de ameaças, o cliente sente-se seguro para revelar aspectos de si mesmo e passa a ter a certeza de que não vai sentir-se julgado. Além disto, Lígia traz um aspecto passível de ser interpretado de forma incorreta. Na terapia centrada no cliente, adverte Rudio (1999), aceitar não é aprovar ou desaprovar, não é manifestar opinião. Aceitar, enfim, não é concordar. Na concepção de Rogers, é acolher o que o cliente oferece de si mesmo, tal como ele percebe e manifesta, sem necessidade de concordância nem discordância; concordar, ao contrário de aceitar, é assentir, aprovar. Aceitação não é aprovação. Este aspecto se torna claro na fala de Lígia:

Lígia:…aquele medo de se eu revelar isso prá alguma pessoa, a pessoa não vai gostar de mim. E aí, de repente, perceber, assim, que eu vou revelar e que ela não vai aprovar e nem desaprovar, inclusive quando eu busco aprovação também..

2 – Compreensão empática

Rogers (1977) define a compreensão empática como um processo, uma maneira de ser na relação com outra pessoa. Significa penetrar no mundo de percepções do cliente, apreender os significados que o cliente percebe em relação aos seus sentimentos, sem julgamento, e transmitir esta compreensão de forma não impositiva. A intenção do terapeuta é captar, com precisão, os sentimentos e significados pessoais que o cliente está vivendo e comunicar-lhe essa compreensão.

A compreensão empática é vivida pelos participantes como forma profunda, um significado de sentir-se verdadeiramente compreendido, sem julgamento ou crítica:

Lígia: …de realmente me entender, em momentos.

Silvia: É uma relação que me traz entendimento……nas coisas mais absurdas…nas coisas ruins…nas coisas boas.

Débora: …saber que, saber não, ter sentido esta compreensão…vivenciar o que é ser compreendida.

Compreender de forma empática é uma tentativa do terapeuta de ver o mundo com os olhos do cliente, de sentir o que se passa nele como ele o sente, de entender a realidade como ele a entende, procurando alcançar os significados que os sentimentos e as experiências têm para o mesmo. Esta forma de compreensão faz com que o cliente possa sentir o terapeuta dentro de seu próprio mundo, traz a certeza de um momento verdadeiramente compartilhado. Este parece ser o significado da compreensão empática na fala de Débora, enquanto que para Elisa significa carinho, atenção e cuidado:

Débora: Vivenciar o que é uma pessoa estar comigo dentro do meu processo. E me compreender… por ter me compreendido… por ter se colocado no meu lugar.

Elisa: … quando a gente chega, a gente não chega só tentando achar o que tá errado…ver somente o que tá errado, a gente espera que alguém chegue e, este afago…eu quero atenção…quando eu entro no consultório…eu vejo que eu tenho atenção…eu sei que ali ela tá me dando atenção…me passando um carinho…e é isso que eu procuro.

3 – Congruência

O terapeuta será congruente na medida em que for ele mesmo na relação com o cliente. Quanto mais puder se desprover de barreiras profissionais ou pessoais, maior a probabilidade de que o cliente mude e cresça de modo construtivo, afirma Rogers (1983a). O cliente pode perceber o que o terapeuta é na relação. Deste modo, ele experiencia a congruência do terapeuta e passa a ser congruente consigo nesta relação. Congruência, na concepção de Rogers, é uma correspondência entre o que está sendo vivido em nível profundo, o que está presente na consciência e o que está sendo expresso ao cliente.

A congruência, na fala dos participantes tem um sentido de proximidade. A relação se torna congruente:

Lígia: …a relação com minha terapeuta não é aquela coisa fria, que se restringe, eu não me sinto, assim, adquirindo um produto.

Débora: …é uma relação verdadeira.

Elisa: …é uma relação normal…

O terapeuta não é visto como um expert . Antes de ser um profissional, é uma pessoa que está ali. O encontro, assim, é de pessoa para pessoa, não é frio, distante ou “profissional”. A relação, desta forma, se torna congruente. A congruência não é algo que se pode fingir, quando de fato não existe. Sem ser congruente, toda atitude do terapeuta perde seu valor e sentido. É uma atitude do terapeuta e não uma técnica, não é um papel a ser desempenhado.

Os participantes falam da importância que têm para eles ver o terapeuta como pessoa. A relação é de proximidade e isto parece trazer também segurança na relação:

Lígia: …eu sinto, uma pessoa na minha frente.

Silvia: …uma pessoa que vai estar comigo.

Débora: …sem colocar os sentimentos dela…

Elisa: …tenho a minha terapeuta como muito minha amiga…ela também é de carne e osso que nem eu…ela também tem problemas…

Ela é uma pessoa totalmente diferente de mim, não que ela seja diferente de mim, que não tenha problemas. Ela é uma pessoa normal…E isso é muito importante……não acho que é uma pessoa sem nenhum problema, uma pessoa totalmente resolvida.

Na terapia, é desejo do terapeuta criar um clima favorável, onde a pessoa possa reconhecer suas próprias incongruências, avaliando-as adequadamente. A base para que isto aconteça é a própria congruência do terapeuta. Quando o cliente percebe que o terapeuta não age enganosamente, adquire confiança e segurança.

4 – Não-diretividade

A não-diretividade, como foi vista na fundamentação deste estudo, parte da confiança do terapeuta na capacidade da pessoa. Acreditar no ser humano significa aceitar a sua capacidade de dirigir-se a si mesmo. A Terapia Centrada no Cliente acredita na capacidade do cliente para a resolução dos problemas. Conselhos ou sugestões são frontalmente opostos a esta abordagem. A atitude não-diretiva do terapeuta vem muito clara no relato dos participantes:

Lígia: …eu nunca ouvi, assim, sugestões.

Sílvia: …Não vai resolver nada por mim…não vai fazer as coisas por mim…

Elisa: …a pessoa não vai me dizer o que eu tenho que fazer…eu percebi que não era a pessoa que tinha que me dizer o que é que eu tinha que fazer realmente…ela vai só me ajudar…ser um guia… e acho que minha terapeuta é um bom guia…

Débora: …sempre foi uma coisa assim, eu nunca tive respostas…eu ficava esperando que viesse alguma coisa…não que ela me indicasse o caminho…

Na fala de Débora, percebe-se a espera de uma atitude talvez diretiva da terapeuta. Mesmo não querendo respostas, esperava que a terapeuta confirmasse, talvez, suas percepções. O terapeuta centrado no cliente, não confirma, não indica, não sugere, não orienta. O terapeuta preocupar-se em facilitar a pessoa na busca de sua autonomia, contando com seu potencial natural e permanente. Vista desta forma, a psicoterapia não se propõe a resolver problemas. A atenção se focaliza não sobre o problema do cliente, mas sobre o próprio cliente.

Para Rogers e Kinget (1977), a não-diretividade refere-se, essencialmente, à abstenção de juízos de valor. A maior parte dos clientes solicita o julgamento do terapeuta, sua opinião, sua aprovação, até mesmo suas críticas e, freqüentemente, mostra-se contrariado quando o terapeuta não cede às suas exigências. Estes fatos indicam a insegurança e imaturidade do cliente em início de terapia.

A atitude não-diretiva por parte do terapeuta, traz um desconforto para Débora no início da relação:

Débora: …eu sentia um desconforto… porque eu tava esperando que alguma coisa viesse de fora de mim…que a terapeuta me dissesse algumas coisas… pensar nisso é uma coisa, viver isso enquanto cliente é bem diferente.

A atitude não diretiva da terapeuta faz com que Débora se dê conta da sua postura frente à vida, conscientizando-se, também, do significado que tinha para ela o desconforto:

Débora: …porque eu tava numa posição… de aguardar. Desconforto é isso, sabe, é eu estar parada, me sentir parada. Era uma agitação comigo…eu táva passiva. Eu não sei se eu táva esperando que a terapeuta dirigisse o processo, não era coisa assim pensada, sabe…eu achava que tinha que ter mais.

A relação terapêutica caracterizada por Rogers (1987) deve estar livre de qualquer tipo de pressão ou coerção. Isso significa dizer que aconselhar, sugerir, fazer pressão para algum tipo de ação e não outra, é atitude que não faz parte de uma relação terapêutica.

Rogers (1992) destaca um dos elementos presentes no início do processo terapêutico, que é a descoberta de que o cliente é responsável por si mesmo na relação. Muitas vezes, a transição entre a expectativa irreal de que o terapeuta resolva seus conflitos e a experiência real de assumir responsabilidade por seu crescimento é difícil, mas também sentida como válida. Débora traz este aspecto salientado por Rogers. Em algum momento, Débora parece ter-se dado conta da sua responsabilidade por seu processo:

Débora: …alguma coisa me segurava naquela relação…comecei acho que…não sei se acostumar é a palavra…mas aceitar…por eu sentir raiva de não ter uma direção assim, da outra pessoa. E me responsabilizar por isso…no início era assim…eu não tenho responsabilidade de mudar, é a terapeuta que tem a responsabilidade…mas eu fui vendo que era eu que tinha que ter estas atitudes.

Ao invés de o terapeuta ficar absorvido no esforço de compreender e resolver o problema, vai criar condições para que o cliente dê o seu próprio significado ao problema e resolva por si mesmo, da sua melhor forma. O cliente, assim, passa a confiar nas suas potencialidades, não para resolver somente um problema específico, mas para solucionar problemas em geral. A autonomia, desta forma, é conquistada pelo cliente no transcorrer do processo terapêutico. A conquista da autonomia e da confiança em si mesmo tem profundo significado para Débora, envolvendo mudanças na sua vida:

Débora: …ter sentido esta não-interferência da outra pessoa no sentido de trazer as coisas dela, mas sim de trazer prá mim as minhas próprias coisas, entende, de me mostrar as minhas próprias coisas.

As expressões dos participantes, em relação à atitude não-diretiva, vêm reforçar as afirmações de Rudio (1999): Acreditar no cliente, no significado da Terapia Centrada no Cliente, não é apenas uma tática, é uma crença, uma convicção, uma certeza que emerge de atitudes anteriores profundas. Estas atitudes não se elaboram intelectualmente, mas é o conhecimento vivencial que se obtém na verificação da experiência da psicoterapia.

A não-diretividade, neste sentido, é o resultado das atitudes facilitadoras do terapeuta e de sua profunda nas forças e capacidades do cliente.

5 – Segurança

A segurança está relacionada com um clima não ameaçador. Rogers (1991) identifica três condições associadas à segurança. A primeira está vinculada à aceitação e valorização incondicional da pessoa; a segunda ao estabelecimento de um clima não avaliativo e sem julgamento e a terceira à presença da compreensão empática. Esta última condição está relacionada às duas anteriores e facilita plenamente a criação de um clima de segurança psicológica.

Rudio (1999) diz que a segurança pode ser resultado da aceitação incondicional e da congruência do terapeuta. O que Rogers e Rudio afirmam sobre a segurança, percebe-se na experiência das participantes, tanto no sentido de confiança, quanto no sentido de aceitação. A segurança, conforme expressada pelas participantes, parece ser resultado das atitudes facilitadoras do terapeuta que estão presentes na relação.

No sentido de confiança, a segurança vai se construindo na relação:

Lígia: …confio bastante…é parte de um processo em que eu já consigo trazer e dizer…é uma pessoa que eu confio.

Sílvia: …ela vai estar comigo…estar do meu lado.

Débora: …me senti completamente segura…

Elisa: …é uma relação de confiança…com minha terapeuta eu já estou acostumada…depois que a gente vai pegando confiança. De uma maneira tranqüila…uma pessoa que eu sei que eu posso falar……é tranqüilo assim.

Segurança no sentido de aceitação:

Débora: A segurança de chegar e falar…é uma relação assim…que eu sempre me senti super segura prá falar as coisas, prá brigar, prá dizer o que eu não gostava da relação…prá cobrar quando eu achava que não tava legal…

Elisa: Desde o início, foi tranqüilo… me deixou bem à vontade …não sei se eu fiquei muito bem, à vontade, ou se a pessoa me deixou à vontade.

A segurança, na expressão dos participantes, tem também um sentido que parece ir além da confiança e aceitação. Os participantes vivenciam a segurança como certeza de poder contar com o terapeuta, uma relação verdadeira, presente e certa:

Lígia: …eu tenho esta pessoa que eu posso me relacionar e falar…dentro deste espaço… surge, propicia. É como um costume, não como costume, mas já fica uma coisa mais regular…saber que eu vou ter um contato regular…

Sílvia: …saber…ter certeza…

Elisa: Eu tenho muita confiança… tem aquele amigo que tu pode contar …que tu pode conversar…e sempre eu conto com esta ajuda. É uma cordinha que tá sempre ali …me segurando prá eu não cair …é um apoio prá mim… mas prá cortar a corda quando tem que cortar.

A segurança também aparece com um significado de segurança pessoal. A relação terapêutica é sentida como facilitadora da confiança em si mesmo, como pessoa:

Débora: …a relação com a terapeuta me dá muita segurança…Descobri que eu é que ia construir dentro deste espaço…No momento em que eu confio numa pessoa, essa pessoa vai começar a se voltar para ela e começar a confiar em si própria.

6 – A vivência da relação

Na prática clínica, quando o cliente procura ajuda psicológica, Rogers verificou que suas experiências de relacionamento geralmente são distantes e impessoais, no sentido de que ele renunciou ao que realmente é como pessoa para agradar às pessoas significativas. Rudio (1999) afirma que, para Rogers, o desajustamento psíquico se deve ao fato de que a pessoa deixou de comunicar-se bem consigo e, em conseqüência, com os outros.

Para facilitar o desenvolvimento do cliente, a relação terapêutica se dá através de um contato pessoa-pessoa (Rogers, 1992). A ênfase no processo terapêutico, não está na técnica, como um papel a ser desempenhado pelo terapeuta, mas na própria relação terapeuta-cliente.

A relação terapêutica é experienciada e sentida pelos participantes com significado de: proximidade, intimidade, intensidade e comprometimento com o processo. Os participantes, ao se referirem à relação, transmitem emoção ao perceber o significado que a relação tem em suas vidas:

Lígia: …eu sinto que tenho um vínculo bem grande com minha terapeuta…me emociono…estou aprendendo a ser pessoa nesta relação…É uma coisa assim, familiar, realmente. É isso, bem isso… intenso…é justamente isto que eu encontrei, na relação…que me toca…esta intensidade é que me faz sentir ligada e comprometida, não com ela, comigo mesma, através desta relação…

Sílvia: …é abrangente…falar dos sentimentos…Eu nunca parei prá sentir…prá pensar… é difícil traduzir em palavras.

Elisa: …todos os dias que eu chego na terapia eu abraço ela…forte…tem um significado aquele abraço.

Na relação terapêutica, o profissional acompanha o cliente em sua auto-exploração, centrando-se no referencial interno do cliente. Portanto, o que a princípio pode ser visto como técnica dá lugar a uma extraordinária relação pessoa-pessoa. O terapeuta torna-se um companheiro para o cliente, segundo Rogers e Kinget (1977).

As atitudes presentes na relação não podem ser vistas como ferramentas ou técnicas. A essência do processo terapêutico está na relação, enfatiza Yalom (1991). Para Natiello (1994) Rogers considera a relação terapêutica como entidade em si mesma e acredita na relação como facilitadora do crescimento e mudança.

A ênfase da relação também é verificada pelo participante, quando expressa a importância da relação em seu processo de terapia:

Lígia: …uma coisa muito importante prá mim…é parte integrante da minha vida, inclusive, a minha relação com ela… É a relação mais importante que eu estabeleci… vejo a importância desta relação… o quanto é importante, assim, como tudo.

Sílvia: É uma relação onde eu faço diferença… tem um grande significado prá mim.

Elisa: …a terapeuta faz parte da minha vida… faz bem parte da minha vida…

Os participantes trazem também, nos seus sentimentos, a construção da relação, como um processo, uma conquista pessoal:

Lígia: …é um processo dentro desta nossa relação…é uma porta aberta…um espaço meu, um espaço da relação e de um contexto todo.

Débora: …eu tinha uma expectativa…eu não sei definir o momento exato em que isso aconteceu…parecia que eu tava parada…parei de pensar sobre a relação…As coisas começaram a ir, a fluir…comecei a me soltar.

A importância dada por Rogers à relação terapêutica é confirmada na fala dos participantes. A experiência e vivência da relação aparecem como propiciadoras de mudanças:

Lígia: …eu já não sei explicar, assim, exatamente o que é…bem como um momento meu, desta relação…Hoje eu sempre venho, assim, sabendo que alguma coisa vai acontecer…na nossa relação… de ter percebido… de que não eram as coisas prontas que eu trazia que iam importar, mas o que acontecia ali, naquele momento, entre a gente…por mais que pareça que nada aconteceu, aconteceu alguma coisa.

Débora: …dá muita…não só confiança de sentir na relação…acho que me potencializou…sentir, viver, mudar…Fui tão potencializada. Uma coisa é ter vivido isso, outra coisa é ter pensado sobre isso. Óbvio que é difícil compreender o que é isso, se tu não viveu isso na relação…e a relação com a terapeuta eu vivi assim…Com certeza, eu acho que eu entrei pensando na relação, e depois eu vivi a relação. Tem muito a ver com a atitude da terapeuta. Pela atitude dela eu fui deixando de pensar e fui vivendo…eu fui me permitindo viver…eu fui deixando de lado o que eu esperava de uma relação e viver esta relação…acho que eu consegui viver.

Elisa: …ela me ajudou…quem me ajudou a eu a acreditar em mim mesma foi ela…fez com que eu enxergasse que eu podia acreditar em mim…não uma tábua de salvação mas uma ajuda….eu sou assim, vou ser sempre assim, então não vou mudar né…e não se dá conta de que alguém pode ajudar…ainda bem que eu me dei conta disto…e encontrei.

7 – Mudanças para a vida

O resultado de um processo terapêutico centrado no cliente aparece nesta essência, a qual denominei “mudanças para a vida” a fim de conseguir traduzir o que captei dos participantes como algo único. Uma conquista do participante que, através da relação verdadeira de pessoa para pessoa, com a vivência das atitudes facilitadoras, no clima psicológico de compreensão, acolhimento, e não-diretividade, apropria-se de seu espaço no mundo, de sua responsabilidade, de seu processo. Enfim, uma mudança que não está somente no ambiente terapêutico, mas o participante leva suas conquistas para a vida toda, no significado da autonomia sobre sua vida.

Na Terapia Centrada no Cliente, este percebe as conquistas como suas, é grato ao terapeuta mas não no sentido de colocar nas mãos deste a responsabilidade por suas conquistas. É o cliente que é dono de si mesmo e agente de sua transformação. O potencial da pessoa, desta forma, foi liberado. Este é o sentido e o significado único, pessoal e intransferível: o sabor e o prazer de ter conquistado, por si mesmo, a mudança.

O momento da entrevista para os participantes foi um momento para perceber suas conquistas. A mudança está na fala de Lígia, Débora e Elisa. Já para Silvia, suas conquistas não foram expressas em palavras, mas as percebi através da emoção e do significado contido além das palavras. Os momentos de silêncio para Silvia foram profundos e quando falava do significado de se haver sentido aceita e compreendida, parece ter implicado em algum tipo de mudança.

Lígia: …quando eu penso no como eu tava quando conheci ela e hoje…vejo o antes e o depois…a partir desta relação, eu fui me sentindo capaz de, inclusive, estabelecer outras relações… com algumas outras pessoas… a relação com a terapeuta implicou várias coisas, até com outros aspectos da minha vida… Na minha vida…me perdi um pouco assim, como me relacionar…e com ela eu voltei a sentir, isso assim, uma relação.

Débora: A relação com a terapeuta me potencializou enquanto Débora, enquanto pessoa… me dá muita confiança sobre mim…me deu segurança na minha vida …eu acho que é isso…foi fundamental na minha vida,

Elisa: …eu sinto que a minha terapeuta me ajudou em infinitas coisas assim…quando eu lembro de como eu era e como eu sou…percebo que…é tudo…um encaixe aqui, um desencaixe ali … eu começo a olhar pra trás e vejo o quanto eu já caminhei…aí eu vejo que tem um retorno…Hoje eu vejo que melhorei muito.

Me sentia a pior pessoa do mundo…eu não conseguia nada…com os outros acontecia e comigo não… eu achei que eu nunca ia sair sabe…que aquilo era normal…depois que eu comecei a terapia e fui, devagarinho…é bom enxergar as coisas que eu fazia…

Nas falas de Lígia, Débora e Elisa, citadas acima, torna-se evidente o que Rogers acentua como essencial para o processo de mudança: a relação. Como diz Rogers (1983b), o poder da técnica não é exercido sobre a pessoa. O terapeuta potencializa, facilita a expressão de sentimentos e libera o cliente para o exercício da autonomia. Potencializar a pessoa, para ele, é colocar em movimento um processo de mudanças.

No processo de mudança em terapia, Rogers (1992) diz que, na relação com o terapeuta, o cliente sai de uma atitude de sentir-se incapaz e sem valor e constata que pode ser aceito e valorizado. À medida que o cliente experimenta a aceitação do terapeuta, passa a aceitar-se a si mesmo. Quando aceita a si mesmo, passa a aceitar os outros.

Este aspecto está presente na fala de Lígia, que, a princípio, sente a aceitação da terapeuta, expressa por Lígia como carinho e, após, passa a aceitar os outros:

Lígia: … o carinho como uma coisa que acaba revertendo pra mim mesma… Consigo, às vezes, já parar e ver que eu posso tentar entender a outra pessoa que tá na minha frente… sem julgar tanto…

Durante o desenrolar deste estudo foi evidenciada a forma única de cada pessoa ao experienciar o mundo. O processo terapêutico e as mudanças que resultaram a partir dele, teve, na fala de cada um dos participantes, suas peculiaridades. Neste momento, ao finalizar esta discussão, deixo Elisa, com seu jeito único, expressar um pouco mais sobre suas conquistas. Não tenho mais nada a acrescentar neste momento, suas palavras falam por si só:

Elisa: …eu acreditava que todo mundo podia, menos eu… não conseguia dar um passo, era bem assim que eu sentia… A terapeuta me ajudou a acreditar… aquilo que eu dizia…todo mundo consegue e eu não consigo, eu troquei: se todo mundo consegue, eu também vou conseguir …aí eu comecei a acreditar muito mais… agora eu posso…é a vitória.

Quem dera se todas as pessoas pudessem fazer terapia …as coisas iam ser bem mais simples…a vida……as pessoas iam ser mais felizes…

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao iniciar este estudo, tinha presente como objetivo verificar qual é a percepção do cliente sobre a relação terapêutica na Terapia Centrada no Cliente. Através de uma pergunta aberta, procurei ver se o cliente, ao expressar seus sentimentos sobre a relação com seu terapeuta, mencionaria as três atitudes facilitadoras – congruência, compreensão empática e aceitação positiva incondicional.

Neste momento, tentarei salientar o que mais emergiu da integração da teoria com o mundo vivido dos participantes. Em primeiro lugar, sinto-me satisfeita por ter verificado que, através de uma pergunta aberta: (Como tu sentes a relação terapêutica?), os participantes expressaram o que sentiram, perceberam e experienciaram na relação terapêutica, indo além do que havia me proposto.

Nas suas expressões, tanto em forma de palavras, gestos, na emoção, no silêncio, no riso e nas suas lágrimas, emergiram, de forma muito clara, as atitudes facilitadoras: congruência, compreensão empática e aceitação positiva incondicional. Além das três atitudes, os participantes evidenciaram a importância da não-diretividade, da segurança, da vivência da relação terapêutica e das mudanças proporcionadas pela psicoterapia.

Para cada participante, a experiência tem um significado único. Isto ficou evidente na forma como cada um trouxe o seu mundo vivido da experiência terapêutica. Além disto, cada um trouxe o que lhe era mais significativo naquele momento da entrevista. Os participantes, ao que me parece, evidenciaram o que para eles foi mais significativo para a mudança. Além disto, Elisa trouxe suas conquistas pessoais como muito significativas naquele momento.

Lígia deu ênfase à vivência da relação, pois foi através da relação terapêutica que ela conseguiu voltar a se relacionar de forma verdadeira consigo mesma e com outras pessoas. Sílvia evidencia a aceitação incondicional que recebeu de sua terapeuta. Apesar de seu sofrimento inicial, Débora dá um grande significado ao fato de sua terapeuta não ser diretiva. Este foi o fator que a fez compreender que deveria se responsabilizar por sua vida, no sentido de ir à busca e não esperar. Elisa, ao relatar suas mudanças, faz um paralelo de como era antes e depois de um certo período de terapia, evidenciando a segurança encontrada na relação, que parece ter se traduzido em confiança em si mesma e segurança para enfrentar os obstáculos.

Da análise dos dados emergiram sete “essências”: congruência, compreensão empática, aceitação positiva incondicional, não-diretividade, segurança, a vivência da relação e mudanças para a vida.

As três primeiras essências, que são as três atitudes facilitadoras, foram mencionadas por todos os participantes. Assim, penso que meus objetivos foram alcançados neste estudo. As essências: não-diretividade, segurança e a vivência da relação, ao que me parece, é o resultado das atitudes facilitadoras presentes na relação. Já, as mudanças são o resultado de todo um processo que envolve a psicoterapia, desde os pressupostos que estão na base da Terapia Centrada no Cliente – confiança no potencial da pessoa, bem como os vários aspectos, muitas vezes sutis, de uma relação centrada no cliente.

Do mundo vivido dos participantes emergiu, em forma de essências, a vivência da teoria de Rogers para a relação terapêutica. Este estudo vai ao encontro da proposta do autor de que para uma relação ser terapêutica, o cliente deve perceber, pelo menos em grau mínimo, as atitudes de congruência, compreensão empática e aceitação positiva incondicional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARRETT-LENARD, G.T. The Relationship Inventory Now. Issues and Advances in Theory, Method and Use. Reprinted from ‘The Psychotherapeutic Process: A Research Handbook’, edited by Greenberg Leslie S. and Pinsof William M. New York: Guilford Press, 1986.

______. Carl Rogers’ helping system: Journey of Substance. London: Sage, 1998.

BOZARTH, J.D., ZIMRING, F. & TAUSCH, R. Client-Centered Therapy: Evolution of a Revolution. Em D. Cain & J. Seeman (Eds.) Handbook of Humanistic Psychotherapy: Research and Practice. Washington D.C.: American Psychological Association, 2000.

EIDT, L.M. O mundo da vida do ser Hanseniano: Sentimentos e vivências. 2000. Dissertação (Mestrado em Educação) da Faculdade de Educação, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

FORGHIERI, Y.C. Psicologia fenomenológica: fundamentos, método e pesquisa. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2001.

GIORGI, A. Método psicológico fenomenológico: alguns tópicos teóricos e práticos. Educação, Porto Alegre, Ano 24, n. 43, p.133-150, abr. 2001.

GIL, A.C. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. São Paulo: Atlas, 1991.

GUSMÃO, S.M.L. Ousando Ser Feliz: Temas de Psicologia Humanista. João Pessoa: Editora Universitária, 1999.

HAUGH, S. Congruence: A Confusion of Language. Person-Centered Practice 6, 44-50, 1998.

JUSTO, H. Cresça e Faça Crescer: Lições de Carl Rogers. Canoas: La Salle, 2000.

KERN, F.A. Adolescentes abrigados: suas vivências e a compreensão de seus projetos de vida. 1996. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) da Faculdade de Serviço Social, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

MOSQUERA, J. e STOBÄUS, C. Educação para a saúde – desafio para sociedades em mudança. Porto Alegre: D.C. Luzzatto Editores Ltda, 1984.

O’HARA, M.M. et.al. Em busca de vida: da terapia centrada no cliente à abordagem centrada na pessoa. São Paulo: Summus, 1983.

PATERSON C.H. & HIDORE, S. Successful Psychotherapy: A Caring, Loving Relationship. London: Jason Aronson, 1997.

REY, F.G. La investigación cualitativa em psicología: rumbos y desafíos. São Paulo: educ, 1999.

ROGERS, C.R. e ROSEMBERG, R.L. A pessoa como centro. São Paulo: EPU, 1977.

ROGERS, C.R. & KINGET, M. Psicoterapia e Relações Humanas: teoria e prática da terapia não-diretiva. Belo Horizonte: Interlivros, 1977.

ROGERS, C.R. A Way of Being. Boston: Houghton Mifflin, 1980.

______. Um Jeito de Ser. São Paulo: E.P.U., 1983a.

______. Em busca de vida: da terapia centrada no cliente à abordagem centrada na pessoa. São Paulo: Summus, 1983b.

______. Reflection of feelings. Person-Centered Review, 2, 11-13, 1986.

______. A essência da psicoterapia: momentos de movimento. Em Santos, A.M. & Bowen, M.C. Quando fala o coração: a essência da psicoterapia. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.

______. Sobre o Poder Pessoal. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

______. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

______. Terapia Centrada no Cliente. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

______. Seis Artigos Seminais de Carl Ranson Rogers. Em J.K. Wood (Org.) Abordagem Centrada na Pessoa. Vitória: Editora FCAA, 1995. pp.17-179.

______. Psicoterapia e Consulta Psicológica. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

RUDIO, V.F. Orientação não diretiva: na educação, no aconselhamento e na psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 1999.

WOOD, J.K. et.al. Em busca de vida: da terapia centrada no cliente à abordagem centrada na pessoa. São Paulo: Summus, 1983.

Apresentado no VI Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa – Canela RS – 9 a 15/10/2005