A PSICOLOGIA HUMANISTA NO HOSPITAL CIRÚRGICO

Lenise M. Brandão

Niterói, 02 de outubro de 1994.
À direção do hospital que me possibilita este trabalho.

1 — INTRODUÇÃO

Há tanto o que refletir sobre o ser humano, não mesmo? Principalmente em situações em que as pessoas sentem a sua vida de alguma forma ameaçada. Situações que se tornam por vezes angustiantes, mas que também podem proporcionar um momento de amadurecimento e crescimento.

Num hospital cirúrgico lidamos com isso. Existem momentos difíceis, em que nos deparamos com a dor, com o inconformismo e a revolta, com o limite da vida. E outros em que nos gratificamos com a alegria da superação de dificuldades e reafirmação da vida, ou com a renovada determinação de luta. E outros ainda, em que a beleza se encontra numa serena aceitação interior.

Tamanha riqueza de experiências está a espera que nós nos disponibilizemos a vivenciá-la em todos os seus matizes.

Busco nesse trabalho refletir sobre e passar essa experiência adiante.

Faço inicialmente um apanhado histórico do desenvolvimento da medicina, para que possamos entender suas principais limitações atuais, em termos da sua prática e da sua eficiência. A seguir, procuro mostrar como a Psicologia Humanista, especialmente a Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, pode contribuir para uma expansão e superação dessas presentes dificuldades.

Muito há o que se discutir. Vejo-me, entretanto, tendo que limitar essa exposição, na expectativa de poder desdobrá-la num segundo momento.

II — A MEDICINA NO PARADIGMA CARTESIANO-NEWTORIANO

De acordo com a visão do mundo antes do ano 1.500, o universo era um todo orgânico, vivo e espiritual.

A ciência medieval buscava a sabedoria, a compreensão da ordem natural e do significado das coisas, visando alcançar a vida em harmonia com o universo. Usando a terminologia da filosofia chinesa, seu objetivo era “fluir na corrente do Tao”. A ciência tinha propósitos “yin”, ou integrativos.

Nos séculos XVI e XVII, esta visão foi sendo substituída pela noção do mundo como uma máquina e a atitude dos cientistas inverteu—se, passando de “yin” para “yang”, ou seja, para a auto-afirmação , voltando—se para a predição e controle da natureza através de um novo método de investigação , apoiado na descrição matemática da natureza e no raciocínio analítico.

Essa mudança ocorreu como conseqüência de descobertas na física e na astronomia, que alteraram concepções da realidade vigentes até esse momento. Por exemplo, com Copérnico a Terra deixou de ser o centro do universo, tornando—se apenas um planeta dentre outros. Galileu confirmou esta hipótese, transformando-a em teoria científica, sendo considerado o pai da ciência moderna ao combinar a experimentação científica com a linguagem matemática na formulação das leis da natureza.

Ao enfatizar as propriedades quantificáveis da matéria, Galileu promoveu a exclusão dos aspectos qualitativos da experiência do domínio científico. Como bem se pronunciou Laing:

“Perderam—se a visão, o som, o gosto, o tato e o olfato, e com eles foram—se também a sensibilidade estética e ética, os valores, a qualidade, a forma; todos os sentimentos, motivos, intenções, a alma, a consciencia, o espírito.” [Ronald Laing – The Voice of Experience.Citado em Capra, p. 51]

Enquanto isso na Inglaterra Bacon desenvolvia o método empírico da ciência, compreendendo a realização de experimentos, de onde se extrairiam conclusões, testadas por novos experimentos.

Descartes defendeu a ciência como domínio da verdade absoluta e o método científico como único meio válido de conhecimento do universo, desembocando no cientificismo característico de nossa cultura ocidental. Seu método analítico consistia na decomposição de um problema em suas partes, dispondo-as em ordem lógica. Tal método impregnou de tal forma o moderno pensamento científico que gerou a fragmentação das disciplinas acadêmicas e o reducionismo na ciência, fomentando a crença de que os fenômenos complexos podem ser compreendidos pela redução as suas partes constituintes.

Outra influência de Descartes sobre o pensamento ocidental foi a divisão entre matéria e mente, colocando a razão como único caminho válido para o conhecimento (“Cogito, ergo sum”), o que fez com que nós nos identificássemos com a nossa mente, com as nossas idéias, valorizando o trabalho mental como superior e dificultando a consideração dos aspectos psicológicos das danças, tidas como doenças “do corpo”.

Descartes percebia o universo como uma máquina, funcionando de acordo com leis mecânicas. E estendeu essa concepção mecanicista aos organismos vivos – plantas, animais, e ao corpo humano, comparando-o a um relógio. Explicava os movimentos e várias funções biológicas reduzindo-as a operações mecânicas. Os efeitos negativos dessa concepção faz—se presente ainda hoje na medicina, dificultando a compreensão de enfermidades importantes.

Newton deu segmento às idéias de Descartes, formulando as leis gerais do movimento, abrangendo todos os objetos do sistema solar. O universo tornou-se assim um enorme sistema mecânico, movido por leis matemáticas exatas e imutáveis, de forma que qualquer fenômeno no sistema podia a princípio ser previsto, posto que tudo teria uma causa definida e geraria um efeito definido dentro de um rigoroso determinismo. A física newtoniana foi tomada como modelo e seus princípios aplicados às ciências da natureza e da sociedade humanas.

A concepção cartesiana dos organismos como máquinas ainda constitui a base da estrutura conceitual dominante na biologia, acarretando problemas quanto ao entendimento dos sistemas vivos como totalidades e de suas interações com o meio. Em algumas áreas, essa dificuldade torna-se marcante, como no desvendamento da ação integrativa do sistema nervoso superior, que é holístico por excelência. O mesmo ocorre em relação aos fenômenos da cura e da dor, que geralmente envolvem uma interação de aspectos físicos, psicológicos e ambientais, evidenciando-se nessas áreas as limitações da abordagem reducionista.

Tendo em vista a associação entre biologia e medicina ao longo da história, a medicina ocidental incorporou aquela abordagem da biologia, incluindo a divisão cartesiana e deixando de tratar o paciente como uma pessoa total. Conseqüentemente não conseguem os médicos entender importantes doenças da atualidade, como o câncer e a AIDS.

Concentrando-se em partes cada vez menores do corpo, ou se especializando cada vez mais no estudo de um determinado órgão do corpo, os médicos perdem a visão do organismo como um todo e do paciente como ser humano, referindo—se freqüentemente aos pacientes como “o pâncreas do leito 03”, o “estômago que eu atendi ontem”, a “úlcera que subiu para a cirurgia”.

Ao longo da história, vemos a cura sendo pratica da por curandeiros, que, dentro da sua sabedoria, compreendiam a doença como um distúrbio da pessoa, envolvendo seu corpo, sua mente, sua auto-imagem, sua relação com o meio, sua visão de mundo e suas crenças. Não se restringiam, portanto, a fenômenos puramente físicos, como ocorre no modelo biomédico.

Transcorridos três séculos que Descartes expôs suas idéias, a medicina ocidental ainda se baseia, como cita Endel, “nas noções do corpo como uma máquina, da doença como conseqüência de uma avaria na máquina e da tarefa do médico como conserto dessa máquina.” [George Endel — The need for a new medical model: achailenge for biomedicirie. citado em Capra, p. 116.]

Segundo a O.M.S., “a saúde é um estado de completo bem—estar físico, mental e social, e não meramente a ausência de doenças ou enfermidades.” Esta definição, apesar de colocar a saúde como um estado estático, ao invés de focalizá-la como um processo em evolução constante, ressalta a sua natureza holística. E nesta concepção, a enfermidade física vem a ser apenas uma das manifestações de desequilíbrio do organismo. Como outras possíveis manifestações temos as patologias psicológicas e sociais. E pode ocorrer que, ao eliminar o sintoma físico por meio de uma intervenção médica restrita e localizada, sem compreensão e manejo do contexto em que aquele sintoma se insere, a doença se manifeste ou em outro nível, ou por outro sintoma físico, ou ainda pela reincidência daquele primeiro. Um exemplo clássico são os pacientes com úlcera, que tempos após a cirurgia não raramente retornam ao hospital com reincidência daquele sintoma. Outro exemplo são os pacientes com câncer, em que, mesmo após a completa extirpação cirúrgica do tumor, mas permanecendo a problemática emocional de base, ocorre uma recidiva da malignidade.

A divisão cartesiana levou à ênfase no aspecto corporal, físico, negligenciando os médicos os outros componentes – psicológicos e sociais – das doenças. No entanto, o que consta em termos de registro histórico, é que o próprio Descartes considerava importante a interação entre corpo e mente na dinâmica e no tratamento das doenças, a ponto de diagnosticar determinados sintomas físicos como devidos fundamentalmente à tensão emocional, prescrevendo relaxamento e meditação além do tratamento puramente físico.

Assim, como bem analisou Capra, “Descartes mostrou—se muito menos ‘cartesiano’ do que a maioria dos médicos atuais.” [Fritjol Capra — O Ponto de Mutação, p. 120].

Pasteur, na sua teoria microbiana da doença, concluiu que, funcionando o corpo humano como hospedeiro de vários microrganismos, estes só causariam dano quando o organismo estivesse debilitado, deslocando a atenção do agente patológico causal para o meio como fator principal do adoecimento. E foi mais além, sugerindo a influência dos estados mentais na resistência do organismo infecção.

A tendência central de evolução da medicina permaneceu, contudo, transferindo o foco do paciente para a doença. E, durante o séc. XIX, houve uma acentuada preocupação com a localização, diagnóstico e classificação de patologias. Hospitais transformaram-se em centros de terapia e de ensino, dando início à tendência para a especialização, que atingem o auge nesse nosso século, incrementada pelo crescente uso de uma tecnologia complexa na assistência médica.

No séc. XX, a biologia molecular tornou—se a base da medicina científica, sendo as patologias reduzidas a esse nível, o que restringiu enormemente a visão dos distúrbios e das terapêuticas. Essa limitada abordagem tem como conseqüência uma redução na eficácia da prática médica.

Além disso, a influência cartesiana dividiu a prática da assistência à saúde em dois grupos distintos: de um lado, os médicos, tratando do corpo; de outro lado, os psiquiatras e psicólogos, ocupando—se da mente. Existe hoje um hiato entre esses dois grupos, como podemos observar nas apresentações de trabalhos em congressos, pela ausência de uma abordagem conjunta sobre um determinado tema de saúde.

O mesmo ocorre na literatura e na pesquisa. Na área da psicologia, encontramos discussões em torno da influência dos fatores emocionais no organismo. Na área da medicina, a literatura fundamenta—se na fisiologia, sem fazer menção aos aspectos psicológicos das doenças.

As questões filosóficas e existenciais são também evitadas, consideradas não pertinentes ao domínio da ciência médica —— objetiva e positivista. Esta situação torna-se flagrante na questão da morte, que é na medida do possível, negada, como o é na nossa sociedade de um modo geral, sendo abordada pelo lado técnico das intervenções físicas, guardando os profissionais um asséptico distanciamento afetivo-emocional do seu significado para si próprios e para o paciente. Lembro-me de um adolescente internado, que estava sentido e chateado com a morte de um outro paciente, que ele havia presenciado na véspera. Disse-me: —— “Falei com o médico e ele não disse nada. Acho que eles, os médicos, no sentem, não é? A esposa dele (do paciente) estava chorando muito.”

Esse quadro contrasta muitíssimo com o que era considerado no passado o papel do bom médico, junto aos pacientes agonizantes e suas famílias, proporcionando-lhes conforto e apoio emocional.

A prática da medicina transferiu—se do clínico-geral para o especialista, do consultório para o hospital, em virtude inclusive da tecnologia utilizada. A assistência ao paciente tornou-se despersonalizada. Perdeu—se aquela qualidade afetiva, humana da relação. A pessoa —— seus sentimentos, expectativas, suas necessidades, preocupações, seus limites e significados -— deixou de ser vista, tornando—se um número, um órgão ou uma entidade nosológica. Com freqüência o paciente sente-se impotente e assustado, subjugado pela ciência e pela tecnologia, à mercê dos profissionais, como se o seu próprio corpo deixasse de lhe pertencer. Ele ouve, enquanto os médicos discutem entre si o seu quadro patológico e decidem o procedimento que vai ser feito nele, em seu corpo. Procura entender fragmentos daquele discurso “científico” que lhe é vedado e no qual, ao mesmo tempo, ele está incluído.

A doença é vista como algo exterior que ataca, interferindo no funcionamento normal do organismo, sendo necessária uma ação também vinda do exterior para restabelecer a ordem. Não existe dentro do sistema de assistência vigente a noção de poder de cura inerente ao organismo, não sendo levada em conta a percepção que o indivíduo tem de seu próprio corpo, nem estimulada a confiança em seu próprio organismo.

Da mesma forma, não se fomenta a compreensão do paciente com relação ao seu adoecimento, ou seja, a compreensão de como foi ocorrendo e se desenvolvendo aquela desorganização, de qual o seu sentido no curso de vida da pessoa,que resposta é aquela que o seu organismo está dando e a que está sendo dada. Uma vez que os médicos não alcançam essa compreensão nem em relação a si mesmos, como fomentá-la nos pacientes? Como bem salientou Thomas McKeown: “Deve—se reconhecer que a questão fundamental na medicina é porque a doença ocorre e não como ele funciona depois que ocorreu.” [Thomas McKeown — The Role of Medicine:.mirage or nemeais. Citado em Capra, p. 143.]

Vale a pena ressaltar a distinção entre enfermidade e doença. Enquanto a primeira corresponde a uma condição do ser humano total, a segunda é vista como a condição de uma determinada parte do corpo. O médicos deslocaram a atenção dos pacientes enfermos para as suas doenças, não havendo enfermidade se não for encontrada alteração estrutural ou bioquímica especifica. E dirigiram o tratamento exclusivamente para a correção da anormalidade biológica, dando como bem sucedido o tratamento que levava a extinção daquele sintoma localizado numa determinada parte do corpo, sendo partes diferentes tratadas por especialistas diferentes.

Como corolário do cientificismo que se instalou desde então, o médico é aquele que sabe o que está se passando com o paciente e que pode intervir, visto que só ele, médico, possui o conhecimento racional científico e a tecnologia dele decorrente, capacitando—o para o diagnóstico e para a terapêutica. A saúde torna-se assim uma área médica, onde são considerados irrelevantes a avaliação do estado emocional, a história do curso de vida e a situação familiar e social do individuo.

O estado emocional merece o foco da atenção apenas quando interfere negativamente no tratamento clínico, sendo nessa ocasião comumente ministrado um ansiolítico ou anti—depressivo para uma solução rápida, que não solicite maior envolvimento do médico na sua relação com o paciente.

A única história levantada é a das doenças no âmbito familiar e individual, constando esse histórico apenas de uma relação das ocorrências com as respectivas datas, numa perspectiva de sucessão linear de “fatos” patológicos, sem compreensão da muiti-interação e encadeamento dos fatores envolvidos. De modo que a doença “tratada”, mas no compreendida, não se apreendendo o seu sentido na história e no contexto atual de vida do sujeito.

O médico é colocado no topo da pirâmide da assistência à saúde, ao qual os demais profissionais devem se submeter, sendo estes considerados “ajudantes”. Uma vez que essas outras categorias profissionais —- enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos —- são formadas em sua grande maioria por mulheres, ao passo que a medicina ainda é uma área predominantemente masculina, vemos reproduzir-se aqui uma atitude sexista presente na nossa sociedade em geral. É valorizada uma abordagem racional e agressiva, em detrimento da intuição e da sensibilidade, concluindo—se que a formação médica retro-alimenta o sistema de valores machista da nossa cultura, não sendo enfatizadas nem desenvolvidas durante o curso de medicina a sensibilidade na compreensão e a habilidade no manejo dos problemas emocionais que se apresentam juntos com os distúrbios físicos nos pacientes.

III – A PSICOLOGIA HUMANISTA NO PARADIGMA HOLÍSTICO

A psicologia como ciência possui uma história bem mais recente, cujo inicio situa—se no séc. XIX. E, de forma semelhante à biologia e à medicina, foi impregnada pelo paradigma cartesiano-newtoniano no afã de estabelecer—se como ciência aos olhos da critica positivista. Adotando como modelo de teoria e de método a física clássica, reproduziu em suas construções teóricas os conceitos da mecânica newtoniana.

Wundt e demais psicólogos estruturalistas do século XIX, objetivando realizar um corte com as influências da filosofia e da teologia na psicologia, estabeleceram a

introspecção controlada como método científico para o estudo de fenômenos da consciência humana, procurando reduzi-la a elementos básicos bem definidos. Surgiam assim os primeiros laboratórios de psicologia experimental, marcando a influência da fisiologia no estudo da sensação e da percepção.

Por outro lado, no inicio deste s&culo, alimenta dos pelos mesmos objetivos, radicalizando-os ainda mais, os behavioristas centralizaram-se no estudo do comportamento humano observ&ável, excluindo a consciência, cuja abordagem estaria ainda impregnada do subjetivismo que deveria ser varrido do campo da nova ciência. Ficava bem caracterizada no behaviorismo a imagem do homem-máquina, devendo o seu comportamento ser passível de controle e predição dentro da perspectiva da causalidade linear —— determinado estimulo (S) provocando determinada resposta (R).

Mais ou menos contemporaneamente, assistia-se no desenvolvimento da psicanálise a construções do aparelho psíquico que utilizavam como modelo a física clássica. Na teoria da homeostase, recorrendo ao modelo hidráulico, Freud enfatizava a necessidade de descarga periódica de tensão, fosse por meio da satisfação ou do deslocamento de impulsos, para manutenção do equilíbrio interno do indivíduo. Em seguida, propôs o modelo topográfico da mente com deslocamento de conteúdos nesse espaço, estando associada a esses conteúdos uma certa quantidade de energia, como na mecânica newtoniana. Além disso, a abordagem genética da psicanálise concebia o funcionamento psíquico do individuo, dentro de um rigoroso determinismo —— todo comportamento ou sintoma teria sua causa-origem em uma fase do desenvolvimento.

Em reação a essas teorias reducionistas e materialistas, surgiram duas correntes na psicologia: o gestaltismo e o funcionalismo, ambos enfatizando a unidade da consciência e sua natureza dinâmica, processual. Criticaram a análise atomista da mente e pregaram a percepção por meio de gestalten, ou seja, de totalidades significativas. Essas duas correntes tiveram grande influ&ência no desenvolvimento de novas propostas dentro da psicologia na segunda metade do século XX, englobadas no que se denominou de Psicologia Humanista ou Terceira Força, da qual a Abordagem Centrada na Pessoa faz parte.

A Psicologia Humanista chegou salientando o papel da consciência no indivíduo, dotando-o de uma capacidade de reflexão da sua relação consigo mesmo e com o mundo, permitindo-lhe uma auto-avaliação e uma auto—condução, dispondo o indivíduo de uma liberdade que ele atualizará através de suas escolhas ao longo da vida, escolhas essas envolvendo uma responsabilidade consigo mesmo e com os outros.

Esta visão do ser humano contrapõe-se à percepção do paciente como um objeto de diagnóstico e intervenção, característica da medicina científica.

Focaliza também o individuo como uma totalidade, corpo e mente interagindo numa unidade, de modo que um se torna expressão reflexa do outro, ao mesmo tempo que nele atua. O corpo, com sua cor, temperatura e umidade, com suas proporções, tensões musculares e movimentos, com sua vitalidade e com suas doenças, na realidade nos fala da personalidade daquele individuo, de suas atitudes frente ao mundo e a si mesmo, de seus sentimentos, revelando a sua história emocional, as suas percepções e os seus anseios. Formam partes de um todo, de tal forma interligadas, que não podemos modificar uma sem atuar também nas outras. Eventos psicológicos e corporais não podem mais ser encarados separadamente um do outro; ambos significam a história do individuo. A separação corpo-mente cultural e não inerente ao ser humano.

A partir dessa concepção torna-se indiscutível não só a necessidade de um trabalho conjunto de médicos e psicólogos, como também que os médicos absorvam essa visão holística e humanista, utilizando-a na sua relação com o paciente, seja no caso de queixas difusas e não localizadas, de disfunções ou lesses crônicas, ou de pacientes com risco de vida, acreditando na existência em cada ser humano do que Rogers chamou de Tendência à Atualização.

[Tendência à Atualização: tendência motivacional central presente no ser humano, dirigindo-se para o desenvolvimento de suas potencialidades, visando a sua conservação e o seu enriquecimento,dentro das possibilidades e limites do meio].

Colocando-a como suporte de sua prática médica numa atitude de respeito à vida, que muito se aproxima da postura do homem antes da idade moderna e dos curandeiros ao longo dos tempos. Tal atitude significa compreender a atuação das forças vitais num determinado indivíduo, agindo em consonância com elas e facilitando sua expressão de modo mais adequado para a preservação e o desenvolvimento daquele individuo, como é característica da medicina homeopática. Opõe-se de forma clara à atitude intervencionista de pseudo—superioridade adota da pela medicina científica.

Agir de acordo com a Tendência à Atualização presente no organismo implica percebê-lo com uma capacidade de auto—cura, ou seja, de reestruturação e regeneração a nível físico, capacidade esta que funciona como condição sine qua non de qualquer terapêutica bem sucedida. Implica também acreditar na capacidade do individuo lidar da forma mais realista possível com o seu adoecimento, podendo transformá-lo num momento de aprendizagem e crescimento psicológico, mesmo quando limitações lhe são impostas, ou quando o processo entrópico tornou—se irreversível.

Compreende, por outro lado, uma atitude de aceitação das limitações que aquele individuo trouxe até aquele momento, da sua maneira inadequada, prejudicial a si mesmo de se conduzir na sua vida e da qual a doença vem a ser um reflexo, uma expressão. Essa atitude que Rogers conceitualizou como aceitação incondicional do outro abrange aceitar o paciente em seus sentimentos, percepções , necessidades e significados, sem juízos ou reprovações , por mais desconexos ou absurdos que possam parecer do ponto de vista dos profissionais. Significa aceitar até mesmo a sua necessidade presente de negação da doença e de suas implicações, percebendo essa negação como o recurso de que ele está dispondo para lidar com aquela situação, de acordo com suas condições psicológicas naquele momento. Cabe aos profissionais que o acompanham proporcionar-lhe uma relação de suporte emocional, em que ele se sinta com maior segurança interna para lidar com seu adoecimento de forma mais realista.

Mas preciso também reconhecer o direito que o paciente tem de tomar conhecimento de seu diagnóstico e manter suas esperanças numa outra evolução, diferente da que se prognostica para o seu caso. E quantas vezes nos surpreendemos com a evolução de um paciente, mostrando-nos que existe muito mais nesse processo chamado vida, do que nós conseguimos compreender até esse momento. É de grande importância que os profissionais, sobretudo os médicos, substituam aquela anterior atitude de donos do saber científico, que lhes proporcionaria um domínio de verdades absolutas, por uma atitude de humildade, flexibilidade e curiosidade diante dos processos da vida.

Com todas essas nuances, torna-se necessária uma escuta cuidadosa do paciente, dentro do seu quadro de referência interno, o que Rogers denominou de compreensão empática. Ou seja, buscar apreender como aquela pessoa vivencia o seu mundo e a si mesma, e que significado está tendo para ela aquele adoecimento, a internação e a cirurgia. Em outras palavras, como estão se inserindo esses acontecimentos no seu contexto existencial e que compreensão ela está alcançando do seu adoecimento, cabendo ao psicólogo ajudá-la a desenvolver uma percepção mais abrangente de si mesma, inter—relacionando aspectos orgânicos e emocionais, facilitando com que ela perceba a linguagem do seu corpo através dos sus sintomas, linguagem essa que vai sendo decifrada na relação empática.

Em geral o paciente é visto no hospital artificialmente destacado do seu contexto de vida, quando na realidade todo esse contexto está presente ali com ele na internação. E a tentativa por parte dos médicos de negá-lo, só leva a um aumento de ansiedade no paciente, que se sente ignorado em suas angústias, preocupações e expectativas.

Outro sentimento muito agudo é o da impotência, expresso como sentir-se nas mãos dos outros, que sentenciam o seu diagnóstico e decidem o seu tratamento,devendo o indivíduo submeter-se pacientemente a ser tratado como um objeto de manipulação, como se, uma vez internado, perdesse o seu direito de escolha sobre si mesmo, passando—o para o poder m&dico. Esse sentimento é potencializado pelo ato cirúrgico sob anestesia geral, durante o qual o indivíduo perde a consciência e com ela a sua possibilidade de avaliação, escolha e intervenção. Ligado a isso, há também o medo da morte, de “ir e não voltar”, sendo comum os pacientes religiosos referirem-se a esse hiato involuntário da consciência como o momento em que eles “estão nas mãos de Deus”.

Um procedimento simples, que minimizaria essa angústia, seria a discussão do diagnóstico e do tratamento com o paciente, inclusive explicando-lhe o ato cirúrgico numa linguagem acessível a seu nível de compreensão, deixando claro a cada passo o seu poder de escolha e decisão, e assinalando por outro lado a sua responsabilidade na participação ativa de seu tratamento, abrangendo não só os aspectos orgânicos como também os psicológicos.

Em suma, a atuação do psicólogo no hospital cirúrgico situa—se em dois níveis básicos, que se interpenetram no dia-a-dia da instituição , a saber:

3.1 — nível clínico (individual ou em grupo), quando as angústias, ansiedades e medos dos pacientes são trabalhados através da compreensão empática e da aceitação incondicional, acompanhando-os nos períodos pré e pós—operatórios, ajudando—os a integrarem adequadamente aquele fato, aquela experiência em suas vidas através de uma compreensão mais abrangente de si mesmos e de suas relações como mundo, podendo alcançar uma nova gestalt, uma resignificação de suas vidas, transformando a doença, a internação e a cirurgia num momento de aprendizagem e crescimento. A partir da crença nessa sua capacidade, podemos facilitar com que a pessoa, através da nossa relação com ela, consiga responder para si mesma as seguintes questões: — “Como que isso (a doença) aconteceu a mim? Com eu fui levando a minha vida até aqui? Em que eu venho me prejudicando? Que atitudes e valores têm norteado a minha vida? O que eu estou sentindo a necessidade de mudar em mim e em minha vida a partir de agora?” Desta forma, a doença deixa de ser vista como um agente externo que ataca de surpresa o individuo, passando a ser compreendida como um processo, em que o agente é o próprio indivíduo, fazendo com que este se perceba responsável por sua própria saúde. Com relação a esse ponto, existe uma diferença notável entre informar didaticamente o paciente sobre esses aspectos e facilitar com que o próprio paciente atinja essas percepções. No primeiro caso, com freqüência no se desenvolve a sua conscientização da questão, limitando-se o paciente quando muito a cumprir uma determinação do “doutor”, ao passo que no segundo caso a questão é experienciada internamente pelo paciente, integrando—se mais facilmente a sua conduta.

3.2 — nível institucional, onde se pode trabalhar as relações dos demais profissionais — médicos, enfermeiros e assistentes sociais —- com o paciente, procurando fazer com que eles o percebam em sua totalidade e unicidade, compreendendo—o a partir de seu referencial interno, na sua dinâmica pessoal. Faz—se necessário que aquelas mesmas condições requeridas na relação do psicólogo com a pessoa internada estejam presentes na sua relação com os demais profissionais, aceitando-os nas suas limitações e dificuldades pessoais, sem, contudo, perder de vista o paciente, foco primeiro de seu trabalho. Mas tendo-se claro que, na medida em que se trabalham as relações dentro da instituição, favorece—se a criação de uma atmosfera menos ameaçadora e uma melhor abordagem do paciente, contribuindo—se para a minimização de suas angústias e ansiedades, o que facilitará a sua recuperação, reduzindo os casos de complicações no pós—operatório, causadas principalmente pelo stress da internação e da cirurgia.

De tudo o que foi dito acima, conclui—se, a despeito das concepções limitadas e restritivas da medicina científica, ou até mesmo fomentado indiretamente por elas, o importante papel que o psicólogo na abordagem humanista tem a desempenhar na instituição hospitalar, tendo como instrumento básico de trabalho as relações humanas que a permeiam e que se intercruzam numa teia dinâmica e processual. Possui como objetivo transformar essas relações num meio de crescimento para todos os envolvidos, visto que nessas relações é com a vida que nos deparamos a todo instante —- a vida com seus valores, com seus limites e com suas possibilidades, quando a vida do outro me remete a minha própria vida.

Cabe à Psicologia Humanista ajudar a medicina a realizar a passagem em suas teorias e em sua prática do velho para o novo paradigma, recuperando aquela qualidade humama que ficou perdida na ciência.

BIBLIOGRAFIA

— Capra, Fritjof – O Ponto de Mutação S. Paulo, Editora Cultrix.

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— Rogers, Carl e Kinget, Marian – Psicoterapia e Relaçes Humanas — vol. 1 M.G., Interlivros, 1977.

— Greening, Thomas – Psicologia Existencial—Humanista R.J., Editora Zahar, 1975.

— Pfeiffer, Wolfgarig e Ripke, Thomas – Reflexioris on Person—Centered Approach to Medicine, in Client—Centered and Experiential Psychotherapy in the Nirieties.

Belgium, Leuven University Press, 1990.

Trabalho apresentado ao VII Encontro Latino Americano da Abordagem Centrada na Pessoa, realizado de 9 a 16 de outubro de 1994, em Maragogi – AL — Brasil.