A RELAÇÃO DE AJUDA NO CONTEXTO MÉDICO-HOSPITALAR

VERA LYGIA MENEZES FIGUEIREDO

 

“Aqueles que passam por nós,

não vão sós,

não nos deixam sós.

Deixam um pouco de si,

levam um pouco de nós”.

(Antoine de Saint-Exupéry)

I – INTRODUÇÃO

“Pode-se também formular a pergunta nos seguintes termos: será melhor gritar e precipitar seu próprio fim, ou calar-se e barganhar uma agonia mais lenta? ”. Milan Kundera

Conhecí a sra. V. em um momento de desespero frente a alta hospitalar do seu marido. Fisionomia envelhecida e cansada, uma imensa tristeza na voz ao dizer que não aguentava mais a vida que levava. Um casamento de muitos anos, atualmente ambos na 3ª Idade.
A visitação ao quarto hospitalar atendia a uma demanda do médico-assistente para uma assistência psicológica ao doente: pautas comportamentais discrepantes, reativas de complicações do seu quadro orgânico, tornava-o uma pessoa de difícil trato. Mas, quem pediu ajuda foi a acompanhante. Conversei com o casal, expliquei meu trabalho. O doente disse não perceber necessidade de uma psicóloga para si, e tentou estender sua opinião para a esposa. Esta refuta e afirma a sua própria necessidade. Neste primeiro encontro, caracteriza-se uma situação que a sra. V. percebe-se com um problema pessoal grave e importante, que tenta resolver e não consegue.
No dia seguinte, pela manhã, houve uma alta – a do marido, e uma baixa – a dela , a quem prestei atendimento psicológico por quase dois anos até a sua morte.
Com esta senhora, vivenciei seu adoecer, seguido de um ano de um viver liberto das amarras existenciais construídas, e o seu processo de morrer. Pressuponho que a morte, antes de concretizar-se no corpo, já vinha existindo em sua alma. E somente após a visão explícita do seu feio semblante é que a coragem para ser e viver pôde desabrochar. Na hora do tudo ou nada, a tão decantada liberdade pôde ser experimentada.
Através do relato de uma assistência psicológica efetivada ao longo de uma internação hospitalar, estarei entretecendo os postulados teóricos preconizados por Carl Rogers para uma Relação de Ajuda, além de tentar configurar a Abordagem Centrada na Pessoa como uma potente perspectiva para a atuação do psicólogo em área hospitalar.

II – FIXIDEZ E FLUIDEZ COMO POSSIBILIDADES DO SER

• Fixidez e a potência de ser

“Temos a tendência a ver na força um algoz e na fraqueza uma vítima inocente”.
Milan Kundera

[] A sra. V. é hospitalizada por conta de uma forte dor abdominal, que a nauseia e a deixa enfraquecida fisicamente. Exames são prescritos, hipóteses diagnósticas levantadas. Ela recebe sedativos para a dor, além de hidratação venosa, e é mantida hospitalizada para observação e fechamento de um diagnóstico médico.
Apresento-me para o segundo atendimento. No dia anterior, após desfilar suas mazelas e chorar muito, havia pedido que eu a ajudasse. Encontro-a no mesmo estado: prostrada e lamuriante. Quer muito falar de suas agruras familiares, reclama das necessidades pessoais insatisfeitas por não saber como desvencilhar-se de problemas que a mantém sempre no mesmo lugar. Não se queixa da hospitalização, pelo contrário, aprecia a atenção e a solidariedade dos profissionais; sente-se acolhida e protegida, distante dos conflitos. Dispomo-nos a trabalhar juntas. Vamos, então, a cada encontro,possibilitando descobertas sobre si, desvelando sentimentos, compreendendo dificuldades … buscas frustrantes ao longo de uns vinte anos para mais, de um amor idealizado pelo esposo e pouco correspondido, no seu entender ; frustrações, raiva, revolta … sentimentos ainda não claramente percebidos por não se encaixarem na imagem que tem de si mesma: é aquela que sempre cede, e que por isso pouco pode se cuidar e se poupar. Não se enxerga capaz de libertar-se, está à mercê do outro, através dele existe – esta é sua questão crucial!. Sente saudades de uma filha (que optou por viver sua própria vida, distanciando-se da família), expressa irritação e tristeza por um filho que se assemelha ao pai em temperamento, e que lhe traz aborrecimentos por conta de uma vida pessoal acidentada.
Nos dois últimos dias de hospitalização, observo mudanças atitudinais que paulatinamente vão ganhando expressão e, nas trocas com o meio social, vão revelando um processo de crescimento: o reconhecimento e a aceitação de alguns sentimentos, que favorece a reflexão sobre os seus conflitos familiares e as possibilidades de ação a partir disso; o “ensaio” de algumas atitudes com relação ao esposo; a iniciativa de re-estreitar laços com a filha distanciada; as possibilidades do viver, já esboçadas pela aparição da vaidade feminina no seu dia-a-dia no hospital, pelos telefonemas para os amigos, pelas visitas dos parentes que faz questão de solicitar, e também pelas reinvidicações para manter-se bem assistida pela equipe de saúde.
A sra. V. recebe alta hospitalar, sendo-lhe recomendada continuidade de atendimento médico em ambulatório. Ofereço-lhe continuidade na assistência psicológica (pós-hospitalização), após preocupação demonstrada, de sua parte, para não perder um espaço que sentia vinha lhe fazendo bem. Ela fica de entrar em contato.

[] O campo relacional estava preenchido por eu e ela e a situação, que são o ambiente. Havia um texto (o mundo interno e subjetivo dessa pessoa) e um contexto (tudo aquilo que acompanhava o seu texto). Quando a sra. V. criticou o contexto, pôde rever o seu texto, possibilitando escolher para além das alternativas já prontas, reorganizando as percepções sobre si própria, e sobre o mundo. A partir daí, “O comportamento se mantém coerente com o conceito de self e altera-se conforme este último também se altera”. (Rogers, 1992:224)
Havia uma incongruência do self, onde configuravam-se discrepâncias entre suas necessidades pessoais, a percepção delas, e as ações que permitiriam a sua satisfação. Havia uma auto-imagem construída alhures no passado, que obstaculizava atualizações, gerando uma existência autolimitada que vinha sendo incomodamente arrastada. “O eu que se afirmava vazio está cheio de conteúdo, que o escraviza justamente porque ele não o conhece ou aceita como conteúdo” (Tilich, 1976:118).
A tomada de consciência de sua experiência pessoal, segundo Rogers (Rogers & Kinget, 1971), tende a ser uma diretriz no processo da reorganização de suas condutas atuais e às condutas futuras de sua vida ; com a liberação do self para novas construções no presente, há uma tendência a um aumento da auto-estima por reconhecimento de potencialidades (que podem ser transformadas em atitudes construtivas e prazeirosas) e a redução da angústia por afastamento dos grilhões da não-consciência (que tendem a paralisar as expressões criativas). Em outras palavras, dá-se ênfase à experienciação da pessoa, onde a preocupação do terapeuta, diz Rogers (in Wood, 1994:264), deve estar “não com a verdade já conhecida ou formulada, mas com o processo pelo qual a verdade é vagamente percebida, testada e aproximada”. Tilich (1976:82, 139), discutindo a ontologia do ser, aponta o sujeito da auto-afirmação como um eu centralizado, onde ele é um eu individualizado, apesar deste eu somente poder ser este eu porque tem um mundo estruturado, ao qual ele pertence e do qual, ao mesmo tempo, está separado. “Empenhar-se pela auto-afirmação faz uma coisa ser o que ela é” (id:15). Há uma opção a ser tomada, certamente espinhosa e muitas vezes dolorosa, porém libertadora, que é a de possibilitar a potência que um ser tem de realizar-se contra a resistência de outros seres.
Eis o ponto de partida para uma Relação de Ajuda: “(…) uma das condições quase sempre presente é um desejo indefinido e ambivalente de aprender ou de se modificar, desejo que provém de uma dificuldade percebida no encontro com a vida” (Rogers, 1991:260). Esta relação torna-se possível somente quando acontece debaixo de um clima de aceitação e de crença na capacidade daquela pessoa de empreender, na sua maneira singular, o resgate da sua responsabilidade sobre si mesma até onde ela quiser e puder ir.

• Fluidez e as forças construtivas do self

“Mas era justamente o fraco que deveria saber ser forte e partir, quando o forte é fraco demais para poder ofender o fraco”.
Milan Kundera

[] Mais ou menos uma semana após a alta, a sra. V. é internada em estado de emergência, indo direto para a UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). Acontece uma cirurgia de longa duração, com momentos críticos pelo seu delicado estado orgânico. Suspeição de câncer intestinal.
A sra. V. pede a minha presença. Momentos difíceis no confronto com a sua realidade de adoecimento, atitudes oscilantes e hesitantes pelo temor da morte. Sentimentos conflituosos relativos aos tratamentos médicos, estados de ânimo flutuantes. A família e a equipe de saúde são estimuladas a participar intensamente desses seus momentos de hospitalização, compreendendo e acolhendo suas necessidades de atenção, de carinho, de apoio enfim; interconsulta e orientação familiar passam a ser uma atividade minha constante, facilitando as comunicações e amplificando os movimentos de ajuda à paciente.
Com o vínculo terapêutico estreitado, em um “setting” flexível e adaptado por nós duas, as variáveis típicas de um espaço hospitalar puderam ser melhor controladas e minimizadas (telefonemas, entrada e saída no quarto de profissionais ou atendentes, presença da família, etc), possibilitando nesta intimidade momentos de vívidas emoções e insights. Espontânea e corajosamente a sra. V. vai procurando formular planos de ação concretos, já que a experiência da responsabilidade sobre si torna-se mais aceitável. Emerge decidida a modificar sua vida, a permitir-se viver e a ser feliz. Dispensando os familiares da tarefa de “porta-vozes” (comportamento até então habitual seu), procura maiores explicações do médico acerca de sua doença (pode agora verbalizar a palavra “câncer”); enfrenta o medo pelo tratamento radioterápico prescrevido, e lida de uma melhor forma com a difícil questão dde uma colostomia permanente. Complementando este ciclo de tratamento intensivo de saúde, uma nova cirurgia é efetivada; a evidência orgânica da sua doença é afastada, até onde os resultados dos exames clínicos podem revelar. Recebe alta hospitalar, já demonstrando atitudes de engajamento na responsabilidade dos procedimentos de manutenção do seu tratamento, sendo estimulada pela filha que agora a acompanha permanentemente. Após haver experimentado a possibilidade concreta da morte, a sra. V. optou por ressignificar sua vida e libertar-se para viver. Ela havia deixado a morte para o momento real da sua aparição.
Ao longo de um período de mais ou menos um ano, vem visitar-me de quando em quando para contar as novidades. Sente-se ótima, vívida; diz ter-se dado férias da família, está passeando muito. Sua mudança física é surpreendente, parece ter rejuvenescido uns dez anos. Fala-me das coisas que vem descobrindo, de suas conquistas no âmbito pessoal-familiar-social. Às vezes uma sombra insinua-se no seu semblante, é o medo da recidiva da doença. Mas, logo em seguida, abre um sorriso maroto para falar da estupefação da família pelos seus novos comportamentos. A família, às vezes, vem me visitar também; reclamam das mudanças ocorridas na sra. V., e relutantemente (eu percebo) dizem-se contentes por vê-la tão feliz, “tão bem”. A filha que com ela caminha incansavelmente, ao longo do tratamento clínico, pede-me de quando em quando um apoio psicológico: quer partilhar sua tristeza por temer a recidiva da doença, quer entender a possibilidade de ligação da sofrida vida de sua mãe com o aparecimento do câncer, quer confirmar a importância dos estímulos que vem oferecendo a ela para que possa viver sua vida atual de forma mais prazerosa.

[] Através da relação terapêutica per se, configurada como um instrumento suficiente e necessário para focalizar o universo daquele ser que sofre, o enfoque centrado na pessoa facilita as experiências bloqueadas a virem à consciência, podendo ser simbolizadas, gerando assim uma abertura à experienciação, fundamental ao processo de mudança efetiva.
Rogers (Rogers & Kinget, 1971) havia preconizado que, na liberdade da experiência, a pessoa sente-se livre para reconhecer e elaborar suas experiências e seus sentimentos pessoais, como ela crê que deve fazê-lo. “(…) uma característica desta mudança é que o indivíduo move-se de um estado em que seus pensamentos, sentimentos e comportamentos são governados pelos julgamentos e expectativas em direção a um estado no qual baseia seus valores e padrões em sua própria experiência”. (Rogers, 1992:183)
Adquire-se uma maior autonomia nas atitudes e comportamentos para se alcançar os objetivos pessoais. Não se está obrigado a negar ou a deformar o que sente para conservar o afeto ou a estima dos que desempenham um papel importante na sua vida. A liberdade do self possibilita que os recursos da pessoa (potenciais internos) serem utilizados de uma forma mais construtiva, resgatando forças revitalizantes (fluidez de energia potencial); criam-se condições de vislumbrar metas vitais mais abrangentes e completas (ressignificação do seu momento existencial), abrindo espaço para um desenvolvimento mais positivo (no sentido de não-danoso) e coerente com sua realidade atual. Confirmando com Rogers (1992:225): “O resultado essencial é uma estrutura de self com uma base mais sólida, a inclusão de uma proporção maior de experiência como parte do self e um ajustamento mais confortável e realista à vida”.

• A morte enfrentada com dignidade

“A fraqueza de Tereza era uma fraqueza agressiva que o derrotava sempre e que o transformou numa lebre aninhada em seus braços”.
Milan Kundera

“O que significa ser lebre ? Significa que a força foi esquecida. Significa que dali para diante um não é mais forte do que o outro”.
Milan Kundera

[] Então, um dia, a sra. V. precisa ser novamente hospitalizada por fortíssimas dores. Há indício de metástase. Uma bateria de exames é solicitada, e os resultados não trazem esperança. Por um pouco tempo, ela ainda consegue voltar para casa, mas a doença perversa ganha a batalha. No hospital permanece, fazendo uso de coquetéis de sedativos. Seu enorme sofrimento perdura por uns quatro meses.
Queria ver-me todos os dias. Eu também a queria ver. Combinamos sobre o melhor momento para conversarmos, quando a sós podia “abrir sua alma”. Havia uma questão que sempre trazia à baila: como teria sido sua vida, se houvesse desistido do casamento ? Foi certo o que fez (prosseguir com ele), ou na verdade abriu mão do viver ? Ia tentando explorar seus sentimentos no antes e no agora, como um balanço de vida. Pôde comprender que o marido foi o que pôde ser, que muitas prisões foram construídas por ela mesma. Foi-lhe também importante falar sobre os momentos felizes vividos; com que prazer saboreava essas lembranças!
Paralelamente a estes “mergulhos para o interior de si”, havia a realidade dos desconfortos da dor que enfrentava, do avanço da doença, e dos procedimentos médicos invasivos mas necessários. A isto tudo reagia com vigor, dando-se o direito de exprimir no tempo e na ocasião propícios os seus sentimentos, os seus desconfortos, os seus desejos, o que favorecia a uma menor ansiedade pela hospitalização e pela sombra da morte. Uma “nova” sra. V. descortinava-se aos olhos dos familiares e da equipe de saúde, pois fazia questão de colocar-se como co-partícipe das decisões sobre o seu corpo e o seu bem-estar. As vezes suas atitudes geravam polêmicas, mas ela tinha um jeitinho todo especial de amortecer os choques, conseguindo conduzir seus momentos de vida de uma forma mais autônoma e melhor ajustada às suas necessidades. O terço final de sua vida, no hospital, foi ocupado com as preocupações sobre a morte, seu desejo quanto ao funeral e os seus pertences pessoais, e como a família ficaria sem ela. Momentos pungentes de despedida , de desespero para os familiares e de tristeza para a equipe profissional.
Uma tarde quis confidenciar-me um segredo que carregava desde menina, e que nunca teve coragem de contar para ninguém; veio entrecortado por um mar de lágrimas, soluços, tremores corporais. Ela mesma já não tinha certeza se o fato havia acontecido, mas não queria levar esta lembrança consigo (mal sabíamos que este seria seu último dia de consciência, pois no dia seguinte entraria em estado comatoso). Após três dias em coma, vem a falecer.
Deste baque, o esposo da sra. V. veio a sucumbir após. Ainda nos encontramos algumas vezes nesse meio tempo. Sua profunda tristeza o impedia de sair do vazio deixado pela morte da esposa. Ele sentia-se como uma lebre, frágil e indefeso; não conseguiu deixar de ser lebre.

[] Tendo o processo de experienciação desencadeado, eu percebia que nos intervalos entre os nossos encontros a sra V. “trabalhava” muito consigo mesma. Pois quando eu me apresentava no dia combinado, ela já ansiosamente queria compartilhar seus sentimentos, contar as ultimas novidades ocorridas. “(…) insights significativos ocorrem no intervalo entre as entrevistas, e embora o insight pareça bastante simples, é o fato de adquirir significado emocional (grifo do autor) e operacional que dá a ele o ar de novidade e nitidez” (Rogers, 1992:139).
Entendo que a sra. V. pôde singularizar o seu processo de adoecer e até mesmo o seu morrer. Na segurança da relação terapêutica, a sra. V. foi capaz de permitir-se experienciar suas verdades, conhecer-se um pouco mais, construir seu presente e vivê-lo, onde “(…) a raiva é mais claramente sentida, mas o amor também; o medo é uma experiência feita mais profundamente, mas também a coragem” (Rogers, 1991:175).
Concluo este relato valendo-me de uma definição sobre o crescimento pessoal, de Clark Moustakas (in Miranda, 1983:10), bastante pertinente à ocasião:

“O sentido de ligação a outra pessoa é um requisito básico para o crescimento individual. O relacionamento deve ser tal que cada pessoa seja considerada um indivíduo com recursos para o seu próprio desenvolvimento. O crescimento, às vezes, envolve uma luta interna entre necessidades de dependência e de autonomia; mas o indivíduo se sente livre para se encarar se tiver um relacionamento em que sua capacidade seja reconhecida e valorizada e em que ele seja aceito e amado. Então ele estará apto a desenvolver seu próprio potencial de vida, a tornar-se mais e mais singular, autodeterminado e espontâneo”.

III – O PSICÓLOGO HUMANISTA CENTRADO NA PESSOA E A RELAÇÃO DE AJUDA

“Quando ouço, verdadeiramente, uma pessoa e apreendo o que mais lhe importa, em dado momento, ouvindo não paenas as suas palavras, mas a ela mesma, e quando lhe faço sabeer que ouví seus significados pessoais privados, muitas coisas acontecem”
Carl R. Rogers (1973:210)

A pessoa, ao ser hospitalizada, mostra-se geralmente confusa e aturdida com o impacto da doença e com as consequências refletidas na sua vida pessoal-familiar. Quer sair disso, quer voltar a ser o que era e como era, assusta-lhe ser e/ou estar diferente. Seu pedido de ajuda é para partilhar sua confusão, aliviar seus medos, livrar-se do desconhecido que a assusta porque é justamente a perda do controle sobre si que teme.
“Do ponto de vista da Abordagem Centrada na Pessoa”, nos alerta Rosenberg (1987:20), o ‘foco’ é dado pelo cliente (…). Isto implica que o cliente não só levante os temas e conflitos emergentes, como tenha a liberdade para explorá-los ou abandoná-los no decorrer do processo. Mesmo que se disponha de pouco tempo, este procedimento se mantém”. Assistir psicologicamente ao doente hospitalizado intenta facilitar a liberação do self para vivificar as suas forças construtivas. Assim, esta pessoa transforma-se no seu próprio agente de mudanças. “Uma relação de ajuda significa favorecer ao outro as condições mínimas para seu desenvolvimento” (Morato, in Rosenberg, 1987:25). Para tal, o psicólogo centrado precisa estar imediatamente presente e acessível ao seu cliente, apoiando-se na sua experiência, momento a momento, para facilitar o movimento terapêutico. “Acredita-se que um número pequeno de encontros, ou mesmo um único, tem uma função terapêutica e pode ser suficiente para que o cliente se organize internamente e prossiga sem ajuda”. (Rosenberg, 1987:19).
O seu método de trabalho pode ser entendido como propiciar um clima contínuo tal de aceitação e liberdade que a pessoa possa re-pensar e avaliar seus desejos e necessidades. Auto-valorização e auto-correção são as duas operações fundamentais advindas do conhecimento reflexivo. Este tipo de conhecimento é uma capacidade potencial existente em todo ser humano de compreender-se a si mesmo e resolver seus problemas de modo suficiente para atingir a satisfação e a eficácia necessárias a um funcionamento adequado para si – idéia central de uma Relação de Ajuda.
A intervenção psicológica centrada na pessoa, caracterizada pela Relação de Ajuda, deve ter como fundamentos:
• As atitudes do psicólogo (suficientes e necessárias) que ensejam a função facilitadora do processo de auto-exploração e mudança na pessoa
• A pessoa é capaz de viver e elaborar suas experiências de forma integradora.

Quando necessário, o psicólogo centrado também pode vir a ser um facilitador das comunicações, colaborando para uma maior integração na ação terapêutica da equipe de saúde, através do estímulo à reflexão sobre as atitudes profissionais e a capacidade de escuta refinada, de forma a que possam oferecer um ambiente acolhedor e facilitador para a expressividade do doente.

IV – A APLICAÇÃO DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA
NO CONTEXTO MÉDICO-HOSPITALAR

• O Adoecer e as Relações Interpessoais

O processo orgânico do adoecer leva a uma ruptura da realidade cotidiana da pessoa. Quando a hospitalização faz-se necessária, um nova realidade será descortinada. Neste contexto, há um pulsar humano dinâmico pelos interrelacionamentos que se constróem, dos quais passiva ou ativamente o doente participa.
Em meio ao sofrimento, o doente tende a procurar quem o conforte, quem sintonize com seus sofrimentos; a hierarquia vertical das categorias profissionais não lhe é tão significativa quanto a hierarquia dos valores humanos. “A ciência assumiu o compromisso de melhorar a qualidade de vida e assim o fez. Entretanto, ao suprir nossas necessidades no nível material, também revelou que apenas isso não é suficiente, que há um outro nível mais profundo da necessidade humana que a ciência não provocou mas que nos ajudou a compreender (…) Sofremos com a ausência de calor, entusiasmo, compreensão, humor, esperança, aspiração”. (Remen, 1992:15).
O profissional de saúde, via de regra, escolheu sua profissão motivado pela ajuda ao próximo e comunga um sentimento de humanidade. Muitas das vezes as emoções do doente são identificadas corretamente, contudo, precisa haver uma disponibilidade interna daquele profissional de “abrir-se ao outro” , caso contrário suas intervenções tenderão a ser diretivas, podendo até mesmo inibir ou bloquear a expressividade do doente. Rogers (1991:290-294) hipotetiza que a maior barreira à comunicação interpessoal é a natural tendência da pessoa para avaliar, julgar, e consequentemente aprovar ou desaprovar as afirmações e as atitudes de outra pessoa ou de outro grupo, partindo da apreciação do que foi dito do seu próprio ponto de vista, do seu quadro de referência interno. “Assim, quanto mais fortes forem os nossos sentimentos, com muito mais facilidade deixará de haver elementos comuns na comunicação”. A relação, deste modo, não conduz ao crescimento/desenvolvimento do outro. “E nessa medida creio que agora mais facilmente se evidencie que nem todas as relações interpessoais mantidas pelo indivíduo são consideradas relações de ajuda. Nem todas ajudam a crescer”. (Rosenberg, 1987:26)
Discorrendo sobre os cuidados com a saúde, os papéis profissionais e os relacionamentos, Remen (1994) aponta a tendência à perda do significado vocacional dos profissionais de saúde frente às pressões do trabalho diário, trazendo como consequência o esvaziamento do elemento humano que há na pessoa e o acento na doença e no órgão doente. Segundo a autora, o resgate da consciência pessoal da importância do significado recoloca as tarefas, tornadas um fim em si mesmas, como meios disponíveis para alcançar-se o objetivo pelo qual estão sendo realizadas. “A busca do significado torna-se assim uma preocupação legítima e mútua na relação entre profissionais e pacientes”. (id:193)
Todo profissional de saúde pode vir a desempenhar uma função terapêutica quando nas suas relações com a pessoa do doente (e sua família), alcançando inclusive uma proficiência maior na sua ação curativa pelo olhar integral que se dispuser a fazer. A demonstração de carinho, de solidariedade e de humanismo, reforça a vontade de lutar, de viver, de vencer. Esclarecendo e desmistificando procedimentos médicos, muitas fantasias e ansiedades podem ser reduzidas, aumentando a concentração do paciente na real ajuda ao seu adoecer pela melhor capacidade para discernir com senso prático e objetivo as opções, e para ser co-partícipe na reconquista de sua saúde e de sua auto-estima. Remen (1974:184) enfatiza a posição de experienciador quando discute o papel profissional ensinado na formação médica: “Na verdade, a questão não é saber como o profissional pode cuidar da pessoa inteira mas, sim, como pode, enquanto uma pessoa inteira, interessar-se pelo outro como um todo” (grifos da autora).
Estratégias de ação voltadas para a humanização do atendimento não podem ser meramente implantadas como qualquer ato administrativo. E certamente não conseguirão também (aquelas estratégias) ser açambarcadas numa abordagem acadêmica puramente cognitiva, pois a questão do enfrentamento do adoecer e do morrer precisa passar pela pessoa do profissional. Neste aspecto, Rogers (1977:69-89) comenta acerca de uma série de pesquisas e experimentos feitos sobre a atitude empática: “É extremamente encorajador saber que esta característica sutil e fluida, de importância fundamental na terapia, não é um ´dom´, mas pode ser aprendida num clima empático e muito rapidamente”.
Um conhecido ditado popular diz que o paciente, antes de engolir o remédio, precisa “engolir” o médico; uma clara alusão à importância da adesão ao tratamento no campo da Saúde. O objetivo central a alcançar é o resgate do respeito à individualidade e à singularidade do homem, através do envolvimento da instituição hospitalar em movimentos sincronizados com o sofrimento e a dor, evitando-se assim a banalização do adoecer e do morrer humanos.
Encontra-se aqui um campo fértil para a aplicação da Abordagem Centrada na Pessoa.

• O terreno psicossomático

É no contexto médico-hospitalar que os domínios orgânico e psíquico mostram seus tangenciamentos e imbricações com uma força maior. A definição funcional de um hospital como um local de constatação e ataque ao mal, característica de uma medicina individualizante, vem sendo questionada pelos resultados de pesquisas que apontam as interrelações dos estados emocionais com as funções orgânicas, mais a influência do meio ambiente. Uma crescente focalização no processo de adoecer vai deixando para trás o conceito de uma doença invasora pura e simplesmente, complexificando assim a noção do organismo humano pelas descobertas de suas redes interrelacionais sistêmicas. Sabe-se que a rede neuro-endócrina, por exemplo, é encarregada não apenas da transmissão do impulso e da informação, como também do equilíbrio e da defesa do organismo por intermédio dos sistemas simpático, parassimpático, hipotalâmico, endócrino e imunológico. Por esta rede admite-se que a atividade energética psíquica interpenetra e interage no e com o soma. O que ainda muito se pesquisa é o como e o quanto esta atividade pde ser responsável pelos estados alterados orgânicos e/ou psíquicos.
Retomando a experiência do encontro com a sra. V., destaco o fato de ter havido uma demanda de ajuda antes da aparição de uma doença orgânica propriamente dita. Enquanto sendo acompanhante do marido hospitalizado, os sinais que ela deixava transparecer do seu desconforto existencial (e da angústia que isto lhe causava) eram o choro constante e uma sensação de cansaço físico que não debelava com o repouso. Como a ruptura de um dique, a doença irrompeu concomitantemente à assistência psicológica.
Como compreender o adoecer pela Abordagem Centrada na Pessoa? Melhor falando, qual o valor do aprofundamento de qualquer estudo neste terreno psicossomático? Rogers (1992:119) menciona que “A prova da eficácia de nossa organização fisiológica e psioológica total, se alguma prova for necessária, reside na eficiência com que nos protegemos de ter que reconhecer aitudes ou experiências que foram negadas à consciência por serem ameaçadoras ao self”. Rosenberg (1987:61), discorrendo sobre a atividade de pesquisa, pondera que: “Hoje, quer-se mais a compreensão dos processos de mudança no ser humano e no seu comportamento que a comprovação empírica de um método”. Mais adiante diz ser “(…) imperativo que possamos reconhecer e definir o que são efeitos desejáveis de um atendimento psicológico, estabelecer tipos e critérios de mudanças positivas, correlacionar aspectos do processo de aconselhamento psicológico com o desenvolvimento e os resultados deste processo”. (id:64)
Não tenho respostas ainda para estas indagações. Consigo apontar apenas o fenômeno.

V – CONSIDERAÇÕES FINAIS

A história da sra. V. nos faz pensar que, durante um processo de hospitalização, uma Relação de Ajuda pode ser um potente instrumento a serviço daquele que enfrenta momentos existenciais tão difíceis.
Olhar o contexto hospitalar sob o prisma da Abordagem Centrada na Pessoa é considerar as forças dos relacionamentos emocionais nas mudanças, nas restaurações e nas melhoras do indivíduo. É acreditar nas expectativas e valores individuais como as partes mais importantes no sucesso para um bem-estar pessoal, a partir do seu compromisso de trabalhar no sentido da mudança. E isto tanto pode ser verdadeiro para o doente como para o profissional de saúde. “A Abordagem Centrada na Pessoa constitui uma experiência altamente complexa, de aprender-fazendo” (Wood, 1994:274).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KUNDERA, Milan (1983) A insustentável leveza do ser. 35ª ed. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1985

MIRANDA, Clara F. de & MIRANDA, Mário L. (1983) Construindo a relação de ajuda. 6ª ed.
Minas Gerais: Crescer

REMEN, Rachel N. (1974) O paciente como ser humano. São Paulo: Summus, 1992.

ROGERS, Carl R. (1961) Tornar-se pessoa. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991

_______ (1969) Liberdade para aprender. Minas Gerais: Interlivros, 1973

_______ (1979) Terapia Centrada no Cliente. São Paulo: Martins Fontes, 1992

_______ & KINGET, Marian (1971) Psicoterapia e Relações Humanas.
Madrid: Alfaguara

_______ & ROSENBERG, Rachel L. (1977) A pessoa como centro. São Paulo: E.P.U.

ROSENBERG, Rachel L. (Org.) (1987) Aconselhamento Centrado na Pessoa. São Paulo: E.P.U.

TILICH, Paul (1952) A coragem de ser. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976

WOOD, John K. (Org.) (1994) Abordagem Centrada na Pessoa. Vitória: Fundação
Ceciliano Abel de Almeida.

Trabalho apresentado no IV Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa

28/10 a 03/11/2001 – Pirenópolis–GO