Abordagem centrada na pessoa aplicada à psicoterapia familiar/conjugal: algumas reflexões

Vera Lucia Pereira Alves [2]

Introdução

Este texto é fruto de um desejo ainda forte de discutir a prática da psicoterapia conjugal, segundo os princípios da Abordagem Centrada na Pessoa. Ainda forte, porque ele nasceu já há alguns anos, mas continua presente, tendo sido o motivador de minha dissertação de mestrado, defendida em 1997, na qual relatei uma pesquisa (realizada com quatro casais) sobre o movimento do processo da psicoterapia conjugal (Alves, 1997).

Minha intenção, então, é discutir com os participantes do XI Encontro Latino Americano da ACP as idéias que aqui registro, acerca de minha prática, bem como do levantamento de trabalhos da temática conjugal/familiar na ACP[3] , feito durante a pesquisa, de modo a traçar por meio deles, um panorama sobre o desenvolvimento de tal prática. Ao final teço considerações sobre o que penso possa ser a psicoterapia conjugal de acordo com os princípios que Rogers elaborou para a psicoterapia individual, e também para as relações humanas no geral.

O levantamento bibliográfico sobre a psicoterapia familiar/conjugal[4] compreendeu até o ano de 1995[5] , partindo de textos publicados desde 1964, de forma a obter todo e qualquer trabalho que envolvesse práticas com grupos familiares e ACP.

Ao final deste levantamento, baseando-me, no material encontrado conclui que a psicoterapia familiar e conjugal era pouco explorada neste enfoque, pois assim como constatou Levant (1984), Anderson (1989 b) e Cain (1989) há pouco material escrito tanto em termos de teoria familiar quanto de prática clínica[6] .

O panorama traçado na época da pesquisa e aqui revisto, baseia-se em artigos e capítulos de livros que considerei abranger três áreas: prática clínica, práticas educativas e compreensão do funcionamento familiar. Foram escritos pelos seguintes autores: Ferdinand Van Der Veen, Nathaniel Raskin, Thomas Gordon, Ronald Levant, Ned Gaylin, Wayne Anderson, David Cain, Jerold Bozarth, Ann Shanks, Charles O’Leary, Margaret Warner, Louise e Bernard Guerney, Maryhelen Snyder e Godfrey Barrett-Lennard.

Entre os artigos que relatavam experiências psicoterápicas, alguns traçavam também uma rápida teorização sobre o grupo familiar, mas nem sempre baseada nos princípios da ACP. Os textos de práticas educativas referiam-se a experiências com grupos de treinamento de pais e casais, e os trabalhos aqui referidos como de compreensão do funcionamento familiar, apresentavam-na também com e sem correlações com o enfoque da ACP.

Produção Acerca da Compreensão do Funcionamento Familiar

Começando por este último grupo, no livro Client-Centered Therapy and the Person-Centered Approach: New Directions in Theory, Research, and Practice (1984) o capítulo de Barrett-Lennard apresentava uma compreensão do funcionamento familiar, não referendada especificamente na ACP, obtida por meio do estudo de mapas traçados em função das relações existentes entre os componentes das famílias. Para ele “a estrutura de relações entre os membros de uma família tem uma influência direta e profunda nos relacionamentos passíveis de serem experienciados e, portanto, no desenvolvimento das potencialidades de aprendizagem de cada membro” (p.222).

Barrett-Lennard mapeou as possíveis relações entre crianças e seus pais e entre elas e seus irmãos, dentro de famílias compostas de pai, mãe e de dois a quatro filhos. Concluiu que a compreensão dos sistemas de relações particular que se configuram no seio da família pode ser de grande importância para uma nova visão do ciclo de vida familiar e da história psico-social da família nuclear. Acreditava ele, que estes mapas poderiam ser, também, delineados em situação de pesquisa em momentos de pré e pós-terapia para assim ampliar a compreensão da rede de relações familiares.

O artigo de Van Der Veen (1964 com colaboradores) apresentava uma leitura do funcionamento do grupo familiar considerando o ajustamento da família como decorrente, em parte, do conceito que seus membros teriam sobre ela. Para ele, os dois aspectos vitais, tanto da convivência como do tratamento familiar, seriam: 1) o significado da unidade familiar para o bem estar do individuo e 2) a percepção da unidade familiar por cada um dos seus membros. Seu “conceito de família” foi definido como a imagem, sentimentos, atitudes e expectativas que todos teriam acerca de suas famílias, do que elas seriam e de como gostariam que fossem. Este conceito possuiria, ainda, três características importantes: o poder de influenciar o comportamento da pessoa tanto dentro quanto fora da família; o fato de estar sujeito a uma avaliação própria como por parte de outros e o fato de ser um conceito fluido e imutável. Percebe-se, assim, o quanto essa compreensão do grupo familiar é análoga à compreensão de indivíduo dentro do referencial da ACP, assemelhando-se este conceito ao conceito de self, definido por Rogers (1992), como uma estrutura que implica na consciência de ser e de funcionar, formada mediante a interação avaliatória com os outros, e constituída num padrão organizado, fluido e coerente de percepções das características de relação do eu.

Também, em correspondência aos pressupostos do referencial, Bozarth & Shanks (1989) mostravam compreender o grupo familiar como um “sistema vivo que tem a capacidade inerente de se mover em direção ao crescimento” (p.282). Eles adaptaram para o contexto da família, as duas crenças básicas da ACP para com o indivíduo:

1. Os indivíduos buscam atingir e manter o seu crescimento dentro da família (tendência atualizante), e;

2. O sistema familiar busca naturalmente manter e aprimorar seu potencial de saúde (tendência formativa).

Percebe-se que aqueles que referenciavam a ACP, o faziam pelos conceitos centrais (self e crença na tendência atualizante), enquanto que a compreensão de Barrett-Lennard parecia, uma vez presente num livro acerca da ACP, ter relação com esta à medida que destacava a importância dos relacionamentos entre os membros de uma família.

Produção Acerca Das Práticas Educativas

Os artigos referentes às práticas educativas registravam programas de treinamento de pais e casais.

Os programas de treinamento de habilidades centradas no cliente, adaptadas para o grupo familiar, eram montados de forma a ter como conteúdo de ensino para seus membros as atitudes de empatia, congruência e aceitação positiva incondicional. Estas atitudes estavam igualmente presentes, como método de treinamento desses programas. Os objetivos destes variavam do tratamento de dificuldades ao aprimoramento de relações.

Snyder (1989) ensinava casais a serem centrados na pessoa, em programas de Aprimoramento de Relações (RE programs – Relationship Enhancement programs), com o objetivo de “capacitar um casal a se engajar na prática do diálogo e experienciar um ambiente de compaixão e segurança no relacionamento”. (p.380). Os Guerneys (1989) ensinavam pais de crianças com problemas a serem ludoterapeutas (terapia filial), assim como ensinavam um conjunto de nove habilidades e atitudes em terapia conjugal e familiar, cujo objetivo era o aprimoramento das relações (Relationship Enhancement programs).

Gordon (1970) acreditava que, em se mostrando nossa sociedade incapaz de criar crianças emocionalmente saudáveis, essa sociedade refletiria nada mais nada menos que o fato de que: “os pais não são treinados para a paternidade” (p. 407). Com seu Treino de Eficácia Parental (PET programs – Parent Effectiveness Training) procurava, então, modificar o comportamento dos pais a fim de melhorar seu relacionamento com os filhos, ensinando-lhes as atitudes da ACP.

Cabe ressaltar que o interesse por estas práticas educativas (treinamentos), como refletido numericamente na produção encontrada, parece ter sido maior do que pela prática psicoterápica propriamente dita[7] .

Levant justificava este movimento como conseqüência de: 1) Do fato das chamadas condições facilitadoras terem adquirido grande importância a medida que surgiam os bons resultados da psicoterapia. Assim grande número de psicólogos passou a se envolver com programas de treinamento para relacionamentos interpessoais e as condições facilitadoras passaram, então, a ser reconhecidas como habilidades e 2) Da influência dos movimentos comunitários de saúde e a conseqüente procura por não profissionais para o trabalho na área de assistência à saúde.

Ele mencionava rapidamente (no mesmo artigo de 1983) que este fato se deu não só com a ACP, mas também com o referencial Behaviorista. Os dois últimos enfoques, segundo ele, a entrarem no campo de atuação da prática clínica familiar e a rapidamente se voltarem para práticas educativas, tendo a meu ver por idéia motivadora a modificação de comportamento, como bem evidencia a colocação de Gordon (citado acima).

Produção Acerca Da Prática Psicoterápica

Considero que a produção referente à prática da psicoterapia familiar na ACP reflete: 1) estudos cujos autores mostram a utilização – “não apenas” (como referido por eles) – de conceitos da ACP, mas também de outros referenciais psicológicos e 2) estudos que mostram a concepção do trabalho nesta área segundo princípios exclusivos da ACP.

Com relação ao primeiro grupo, encontrei artigos de alguns autores relatando como e por que associavam outros referenciais à ACP.

O’Leary (1989) considerava que os terapeutas centrados na pessoa necessitavam ir além das atitudes facilitadoras, integrando-as num papel terapêutico mais ativo, para o qual, segundo ele, muitos terapeutas familiares se sentiriam compelidos. Para exemplificar esta sua posição, relatava no artigo sua forma de colocar em prática as atitudes terapêuticas da ACP. Dizia concordar que as mesmas atitudes da psicoterapia individual fossem utilizadas na psicoterapia familiar, mas presentificadas de forma diferenciada. Por exemplo, a aceitação positiva incondicional sendo dirigida a cada um dos membros da família e resultando na percepção de que nenhum deles era superior ao outro, seria manifestada de forma “mais ativa”. Com relação à empatia, dizia ele que os terapeutas poderiam demonstrá-la sob a forma, por exemplo, de solicitação de exercícios para serem feitos em casa pela família.

Warner (1989) apontava desenvolver em seu trabalho uma mescla da ACP com a Teoria Sistêmica, numa tentativa de que o terapeuta familiar não permanecesse num “nível superficial de compreensão” (p.340), pois essa “superficialidade” poderia ser uma das conseqüências do trabalho de um profissional da ACP que não levasse em conta a comunicação estratégica que há dentro de uma família. Essa forma de comunicação, definida como a discrepância entre o que as pessoas estavam dizendo/fazendo e o que elas realmente queriam dizer/fazer; faria surgir aspectos que, segundo Warner, o referencial centrado na pessoa não daria conta: “um terapeuta centrado no cliente, pode permanecer num nível superficial de compreensão das famílias estratégicas se ele considerar as declarações dos membros da família como tendo valor”. (p.340).

Esta autora parece-me que, prevendo eventuais críticas sobre sua postura de psicoterapeuta seguidora de princípios da ACP divergentes do referencial adicionado por ela, parecia defender-se adiantando que “embora possa ser mais intrusivo que outras formas de terapia centrada no cliente, esta forma de atuação detém um intenso respeito pela autonomia e pelo potencial de auto-atualização dos membros da família” (p. 341).

Esta mesma conduta de defesa aparecia entre os autores já citados, por seus trabalhos com grupos de treinamento. Guerney’s (1984) dizia fazer uso correto da ACP, mesmo tendo em mente objetivos específicos para com os clientes, por considerar ser esta uma postura que, mesmo não fazendo parte da tradição da ACP não seria contraditória, pois sua meta para com os clientes seria abertamente discutida com eles.

Snyder (também citado anteriormente) acreditava não ser suficiente a utilização “apenas” da ACP, justificando sua adoção de uma visão sistêmica, por terem ambos referenciais estruturas democráticas de atuação. “O modelo de aprimoramento de relacionamentos de terapia familiar/conjugal oferece uma possibilidade de integrar critérios Rogerianos para uma terapia efetiva com contribuições feitas por teóricos sistêmicos, como Bateson”.(p.358).

A postura profissional destes autores é fruto de uma concepção sistêmica de família, que se desenvolveu a partir da Teoria Geral dos Sistemas de Von Bertallanfy e da Cibernética.

Gregory Bateson – antropólogo e introdutor dos conceitos da cibernética na psicoterapia familiar nos anos 50, em Palo Alto, Califórnia – considerava que:

“… a família desenvolvia formas básicas de interações, seqüências padronizadas de comportamentos, com caráter repetitivo garantidor da organização familiar, que eram governadas por regras que não precisavam necessariamente ser verbalizadas, mas que podiam ser percebidas pela observação dos tipos de transações familiares. O equilíbrio ou estabilidade do sistema familiar não seria considerado indício de saúde, uma vez que a família poderia estar se equilibrando em torno de padrões disfuncionais, como, por exemplo, a manutenção rígida das regras do sistema familiar. A psicoterapia, praticada dentro deste enfoque, valorizava a mudança no sistema familiar pela reorganização da comunicação entre seus membros”. (Alves, 1997, p. 14 e 15).

Parece-me que, realmente, haveria dificuldade para os profissionais que compartilhavam dessa concepção de família, confiar que os princípios da ACP pudessem ser não só necessários como também suficientes para uma prática de psicoterapia familiar eficaz. São dois referenciais com princípios filosóficos diferentes. A postura de terapeuta “mais ativo”, como dizia O’Leary parece ter mais coerência numa concepção Sistêmica do que na ACP.

A mudança dos padrões de comunicação que os psicoterapeutas do enfoque Sistêmico tanto valorizam, é algo que, para a ACP pode vir a ser decorrente do fluxo natural do processo psicoterápico, mas não que seja este seu objetivo inicial.

Psicoterapia Segundo Princípios Exclusivos Da ACP

Na produção científica referida a trabalhos exclusivos com a ACP (Raskin e Van der Veen, 1970); Levant (1983 e 1984); Bozarth & Shanks (1989) e Gaylin (1990 e 1999) há textos, cujos autores mostram como compreendem a divergência entre o modelo Sistêmico e o enfoque Centrado na Pessoa.

Levant (1984) considerava que uma visão Sistêmica não daria conta da variação de resposta individual a um mesmo evento dentro de uma família, porque as pessoas não veriam eventos iguais da mesma forma. Para ele, também, era importante a concepção de que a pessoa existia num campo fenomenológico do qual ela era o centro, incluindo assim tanto aspectos internos como externos: a dinâmica intrapsíquica da pessoa como sua experiência da dinâmica familiar. “Esta visão permite colocar a responsabilidade pela conceituação e atualização da experiência familiar nos membros individuais da família, que são virtualmente o centro de campos fenomenológicos e os mais capazes de assumir esta responsabilidade”. (p.256).

Anderson (1989), na mesma linha de raciocínio de Levant, mostrava compreender família ou casal não como entidades sociais determinadoras de pensamentos, sentimentos e comportamentos de seus membros. Reforçava a idéia de individual e familiar como operando simultaneamente, o que justificava, portanto, a atuação baseada nos conceitos de self e de família.

Ainda Gaylin (1999) dizia ser a ACP um referencial que, quando aplicado a família, concebia que cada membro fosse visto como pessoa e não como um fragmento do sistema familiar. Todos os membros da família seriam foco de atenção por parte do terapeuta, tanto individualmente como na relação com o outro membro.

As questões que estes autores colocavam é a mesma daqueles que adicionavam princípios de outros referenciais às suas práticas: os princípios da ACP desenvolvidos para a psicoterapia familiar seriam suficientes para o trabalho com famílias? Precisariam ser modificados?

Este segundo grupo de autores responde afirmativamente às duas questões. Consideravam que as atitudes para com o trabalho familiar, se comparadas à psicoterapia individual, modificavam-se no sentido de se colocarem em ação para com várias pessoas simultaneamente. Seria, então, uma atuação semelhante a que se tem em psicoterapia de grupo? Segundo Gaylin, não, uma vez que, para ele, a psicoterapia de grupo diferiria da psicoterapia familiar por serem os clientes desta última, pessoas “publicamente comprometidas e intimamente envolvidas umas com as outras”. (1990 p. 843).

Para Anderson (1989 b) o que distinguia a ACP com família, da prática individual seria o “constante interjogo de congruência, aceitação e empatia do terapeuta tanto para o sentido pessoal, subjetivo, quanto para com o sentido interpessoal, na família”. (p.246).

Levant (1984) propunha que o terapeuta familiar devesse experimentar uma consideração calorosa não possessiva para com a família. Para ele, a aceitação positiva incondicional se tornaria reflexo da confiança profunda na habilidade de aceitação de cada membro da família como ele era.

A empatia ocorreria pela captação do ponto de referência interno de cada um dos membros, tendo o terapeuta que equilibrar estes múltiplos referenciais. Isto para Gaylin (1990) tornaria o processo muito mais complexo, chegando até a dificultar a expressão da autenticidade por parte do terapeuta.

Em outro texto, Gaylin (1999) ressaltava a importância da empatia na terapia familiar: “o terapeuta, através da reformulação empática de cada um dos membros da família mantém a visão do mundo de todos eles – um gênero de empatia agregada, que permite ao terapeuta tornar-se um interlocutor articulado com os membros da família”. (p.30).

Em minha opinião (como expresso em trabalho anterior), o psicoterapeuta não só seria empático a cada um dos membros como também à relação que se estabeleceria entre eles:

“Conduzíamos as sessões de psicoterapia de forma a responder àquilo que era manifestado pelos clientes; quer fossem aspectos conjugais, quer fossem aspectos individuais. A resposta a estes aspectos não era feita de forma exclusiva, isto é, não atendíamos ao esposo diante de sua esposa e nem à esposa diante de seu esposo. Nem tampouco, enfocávamos exclusivamente a relação sem escutar ao que nos era falado de forma individual. Tentávamos compreender os clientes diante da relação que compunham, assim como suas relações eram compreendidas como provenientes das pessoas em que se constituíam”. (Alves, 1997, p. 42).

Ainda na tentativa de ampliar esta formulação, concordo com Levant (1984), para quem a empatia na psicoterapia familiar acaba por expressar-se também frente ao sentimento de um membro para com a experiência do outro.

A meu ver, a empatia parece ser a atitude mais ressaltada nesses estudos, da mesma forma que a ressaltei em meu trabalho, (Alves, 1997), compondo uma resposta terapêutica que:

“não se resumia a uma fala acerca da “verdade” sobre eles, mas, sim, que se constituía numa fala simbolizante das experiências relatadas e/ou vivenciadas, e simbolizantes também da compreensão obtida pela terapeuta. Esta fala ao ser emitida pressupunha uma empatia, e só por meio dela é que poderia ser falada” (p.44).

Acerca do trabalho do terapeuta, poder-se-ia concluir, como Gaylin (1990), que:

“o terapeuta atuava mais como facilitador de um processo bloqueado dentro do grupo do que como portador da verdade; e as atitudes de congruência, empatia e aceitação positiva incondicional do terapeuta poderiam servir como modelo para os membros insatisfeitos da família enquanto os faria se lembrarem dos atributos e valores positivos de cada um”. (In Alves, 1997, p. 26 e 27).

Esta atuação do psicoterapeuta parece-me coerente com o objetivo que penso ser presente na instalação da psicoterapia conjugal, segundo a ACP:

“… que duas pessoas se descubram, percebam o que querem e, se possível aprendam a se relacionar, a esclarecer e comunicar suas expectativas encontrando uma forma de resolver conflitos que satisfaça a ambos” (Rosemberg (1986, p. 13) in Alves, 1997, p. 42).

Na dissertação relatei que, em meus atendimentos, tinha por objetivo o estabelecimento de um espaço, no qual fosse possível ampliar a saúde emocional dos membros do casal. A atenção não era voltada especificamente para a instituição (casamento) formada pelos cônjuges, isto é, não havia um comprometimento com a manutenção ou com a ruptura do casamento.

Assim, o processo psicoterápico se estabelece, em minha experiência, com sessões semanais, de oitenta minutos cada, sem tempo de duração predeterminado. A presença dos dois cônjuges é considerada importante por entender que o cliente do processo é o casal. No caso de falta de um dos deles, essa é discutida com o membro presente na sessão e com o membro ausente na sessão seguinte. Embora isso não seja um fato que se deixe avisado de antemão, isto é, não se fixa, no início do processo, a presença obrigatória dos dois para que a sessão ocorra, mas se trabalha com o significado e a repercussão da falta quando ela ocorre.

Mas, diferentemente desta minha compreensão sobre a importância da presença dos membros da família, Raskin e Van Der Veen (1970) concebiam a presença dos familiares como decidida por eles, podendo estar juntos ou separados, ficando o terapeuta aberto a participação de todos, dando-lhes a liberdade para escolher em que medida participariam da forma que lhes fosse mais confortável.

Compreendo essas diferenças como fruto do fato de que, esses dois autores estavam referindo-se à psicoterapia familiar, e, meu caso refere-se à conjugal. Não encontrei nenhum estudo na ACP que pudesse ampliar esta reflexão. Sei, apenas, de relatos de profissionais que atendem eventualmente os cônjuges em separado. De acordo com minha prática clínica, acredito que esta forma de atuação cria uma representação de psicoterapia individual com o mesmo terapeuta, que não se configura como psicoterapia conjugal, ficando em conflito com o que penso ser a intenção de prática de psicoterapia conjugal.

Concluindo, gostaria de “acrescentar” a esta reflexão o autor principal da ACP e seu papel na prática da psicoterapia familiar/conjugal: Carl Rogers. Ele desenvolveu os princípios da ACP, trabalhou com psicoterapia individual, educação e grupos, mas não trabalhou com psicoterapia familiar. Parece que deixou esta missão para nós, seus seguidores. Mas, Rogers, escreveu um livro Novas Formas do Amor – O Casamento e suas alternativas (1987) em que discorreu sobre as várias conjugalidades que conheceu, apresentando trechos de conversas com esses casais, e, a meu ver, nas entrelinhas, em seus comentários, postula sua compreensão de casamento, da importância da relação entre os cônjuges. Nas poucas intervenções que fez em meio ao diálogo que mantinha com os casais, mostrava sua postura empática, aceitadora e autêntica para com eles e os benefícios que estas intervenções lhes trouxeram. A meu ver, uma “dica” de como conduzir a psicoterapia conjugal.

Uma das colocações de Rogers neste livro, acerca do casamento, parece-me de vital importância, por ser esclarecedora da diferença entre a concepção Sistêmica e da ACP para com a conjugalidade:

“As pessoas referem-se normalmente ao casamento como a uma instituição, ou pensam que casamento é uma estrutura. Mas não é: é um processo. Uma série de processos em que nos empenhamos e nunca sabemos para onde nos dirigimos. Creio, porém, que se podem definir esses processos. E se pensarmos no casamento em função de uma série de processos que decidimos pôr em movimento – intimidade física, sexual, provavelmente procriação, partilha da responsabilidade econômica, e assim por diante, pondo de certo modo compromissos em paralelo em função do lugar onde vamos viver, e coisas assim – estes serão processos muito bem definidos”. (Rogers, 1987, p.189).

É interessante notar, ainda, neste livro, o quão arguto foi Rogers em suas “previsões” para a conjugalidade do século XXI. Ao escrever o livro, no início da década de 70 (1972), assinalou que hoje estaríamos vivendo relações conjugais de maior liberdade sexual, muitas delas sem obrigatoriedade de procriação e sem qualquer compromisso com o permanente, sendo a permanência fruto apenas da satisfação emocional, psicológica, intelectual e física entre os parceiros. Registrou, também, que as pessoas, muito provavelmente, se encontrariam por meio de seus computadores. Suas previsões foram acertadas, sua proposta de abordagem às relações humanas, principalmente à psicoterapia está comprovadamente registrada como eficaz. Por que, então, tão restrita a produção de trabalhos na área familiar?

Cain (1989), no número do Person Centered-Review dedicado exclusivamente à Abordagem Centrada na Pessoa com famílias, apontou quatro aspectos desta falta de progresso na área: 1) faltaria aos psicoterapeutas da ACP a crença de que o que funciona na psicoterapia individual, funciona também com famílias, 2) faltaria teoria de família, 3) o amor que os seguidores de Rogers sentiam por ele acabaria por não lhes permitir ir além do que ele pensou e evoluir seus conceitos e práticas, e 4) a difícil tarefa de traduzir crenças, atitudes e valores da ACP em comportamentos terapêuticos eficazes.

Espero que este meu texto, assim como a dissertação que o precedeu, sejam pequenas tentativas de produção de reflexões embasadas numa teoria, cujos princípios concebo como realmente necessários e suficientes, possibilita-me uma boa compreensão e uma boa atuação com conjugalidades. Pequenas tentativas registradas, pois a meu ver, como disse no inicio (nota de rodapé 5): prática psicoterápica por parte dos profissionais da ACP há, sem dúvida, contudo registro delas, talvez haja menos.

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Para contato com autor: alvera@uol.com.br

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002