ACP: encruzilhadas de perspectivas.

Vera Engler Cury

O tema que eu gostaria de trazer para uma discussão nossa hoje refere-se, por um lado, a uma visão da Psicoterapia Centrada na Pessoa como tendo evoluído em direção a uma aproximação com as abordagens fenomenológica em termos de sua pratica clínica e, por outro, as dificuldades inerentes as suas formulações teóricas no sentido do acompanhar ou legitimar esta evolução.

Inicialmente, torna-se importante salientarmos que considerar toda a psicologia rogeriana como fenomenológica seria um exagero evidente.Rogers não apenas adotou este rótulo tardia e incidentalmente, como também nunca tentou praticar fenomenologia conscientemente. Na melhor das hipóteses podemos dizer que, em retrospecto, ele reconheceu sua abordagem como possuindo afinidades com os trabalhos e conceitos de alguns fenomenologistas. Pode-se afirmar também que ele foi estimulado conscientemente pelas contribuições de Snygg e Combs e, mais tarde, por Gendlin. A fenomenologia significou para ele a reabilitação da experiência subjetiva. Mas, ele também esteve sempre muito interessado na verificação cientifica objetiva o na mensuração dos dados subjetivos da terapia. Neste sentido, Rogers pode ser considerado tão objetivista como subjetivista-fonomenologico.

A estrutura teórica da Terapia Centrada no Cliente da qual a Psicoterapia Centrada na Pessoa e herdeira desenvolveu-se a partir do experiências clínica de enunciados de hipóteses provisórias baseadas nesta pratica, de pesquisas e do inúmeras outras atividades inerentes a investigação e a explicação sistemática do fenômeno terapêutico. Sucederam-se a esta teoria da terapia, formulações sobre uma teoria da Personalidade o das Relações Humanas tendo esta última se constituído no mais recente campo de interesse e pesquisa no contexto da Abordagem Centrada na Pessoa. Com referência ao processo terapêutico, houve alterações na forma de conceitualizá-lo, ao longo das diversas fases que caracterizam o desenvolvimento teórico-prático desta abordagem. Desde a década do 40 persiste o interesse dos terapeutas centrados no cliente em pesquisar algum aspecto do processo terapêutico, tendo-se desenvolvido três diferentes concepções sobre este processo. Cada uma destas concepções originou, o surgimento de um tipo especifico de pesquisa. A primeira correspondia a. uma noção do processo terapêutico como sendo formado por urna seqüência ou seria de eventos ao longo do tempo. A pesquisa que predominou, então, implicava em medir as afirmações de clientes bem-sucedidos, em termos de auto-referências, nas primeiras e últimas sessões da terapia, analisando-se o aumento na freqüência das auto-referências. A segunda concepção referia-se ao processo terapêutico através de relações causais entre os eventos, isto e, relações do tipo causa-e-efeito. A pesquisa correta investigava as interações ou conexões entre os comportamentos do terapeuta e os do cliente. A terceira e mais atual destas concepções considera o processo terapêutico como um movimento ou fluxo experiencial. A pesquisa que a caracteriza consta de avaliações do nível e das variações na experienciação do cliente através da Escala de Experiênciação, elaborada por Gendiju e Tomijusou (1963). Gendlin considera que a Terapia Centrada no Cliente atingiu sua fase experiencial apenas a partir do momento em que houve a inclusão no conceito de autenticidade do terapeuta da expressão dos seus próprios significados pessoais, ou seja, de aspectos de sua experiência imediata como agentes terapêuticos. Até então, ou mais especificamente, durante a fases não-diretiva e reflexiva, tratava-se, segundo ele, de recusas formais do terapeuta para não envolver-se pessoalmente no processo. Da mesma forma como o psicanalista, Gendlin afirma, utilizou-se no passado da transferência e da contra-transferência como artifícios para manter-se distante do paciente em analise, O aumento da atenção e da utilização pelo terapeuta de seus próprios sentimentos e de se mundo subjetivo como agente essencial de mudança ou ajuda para o cliente permite considerar esta forma de se fazer psicoterapia não mais como exclusivamente centrada no cliente. Ela torna-se bi-centrada consistindo num esforço para explorar dois mundos fenomenais e fazê-los interagir em beneficio do cliente. Este torna-se consciente do mundo fenomenal do terapeuta como o incluindo nessa vivência restituindo sua própria capacidade de auto-compreensão. O que realmente altera a experiência do cliente de estar sendo compreendido é o fato de que quem o compreende é um outra pessoa, O que importa é que dizer algo ao terapeuta é uma experiência diferente do que dizê-lo a si mesmo, assim como ouvir-se respondido pelo terapeuta também se constitui numa experiência medita em relação a ouvir-se a si mesmo.

Pajès recoloca esta questão afirmando que a abordagem rogoriana representa um terceiro momento na evolução das ciências humanas. Rogers trouxe uma concepção nova de ciência ao assumir-se a si mesmo enquanto terapeuta, e a seus valores, durante. a relação terapêutica. O primeiro momento, segundo Pajès, teria sido representado pela concepção clássica, cientificista com valor máximo na objetividade para abordar objetos do estudos e com o homem da ciência negando-se a reconhecer seus sentimentos, ou antes, esforçando-se por separar completamente o domínio dos sentimentos pessoais do domínio da ciência. O segundo momento nesta evolução emerge com o advento da Psicanálise Freudiana. Nela o psicanalista aceita seus sentimentos como fatos que podem interferir em sua atividade cientifica e se esforça por utilizar o conhecimento que dela adquire para chegar a uma percepção mais objetiva da realidade. Os dois domínios, o do homem como indivíduo e o do homem de ciência, nesse caso se comunicam, mas permanecem distintos. O terapeuta centrado no cliente, por sua vez, utiliza seus próprios sentimentos como movimentos dirigidos ao cliente e que participam ativamente no processo de mudança terapêutica. Seus sentimentos deixam de ser fonte do conhecimento sobre o cliente. Criam-se novos significados a partir do espaço experienciado por ambos. Esta terapia realiza-se, essencialmente, no dialogo intimo e intersubjetivo entre o cliente e sou terapeuta. O terapeuta exerce um papel ativo na intensificação dos fenômenos intersubjetivos ao iniciar a interação desta forma, facilitando a atualização de seus próprios com base na experiência imediata. O que distingue o terapeuta em relação ao cliente, portanto, é o grau ou capacidade de experienciar e não a natureza dos intra-psíquicos de um ou do outro. Espera-se do terapeuta em essência, que seja mais ágil e menos obstruído em relação ao seu próprio fluxo exponencial, viabilizando ao cliente a necessidade de retomar seu fluir imediato.

VanKaam chama a empatia de co-experienciação, referindo-se ao fato de que o terapeuta compartilha a experiência do cliente num certo nível emocional, sem com isso descaracterizar sua presença como algum distinto do cliente. Gendlin esclarece a este respeito que como processos experienciais, a empatia e a congruência são exatamente a mesma coisa, ou seja, a expressão direta daquilo que o terapeuta esta experienciando ao estar com o cliente, em resposta ao que este lhe traz. Como um mero conteúdo verbal, a congruência ou autenticidade do terapeuta pode, no entanto, parecer contraditória em relação a empatia pois na empatia a referência é o cliente, enquanto a congruência privilegia os aspectos internos do terapeuta.

A função terapêutica concebida desta maneira acaba por viabilizar uma fenomenologia da relação intersubjetiva e não mais de aspectos subjetivos do cliente, considerados como distintos da experiência imediata do terapeuta. Na prática, esta abordagem não trabalha com base numa dualidade entre consciência e verdade. O terapeuta Centrado na Pessoa não reconhece nenhuma incongruência entre o contendo comunicado pelo cliente e aquele que poderia se esperar dele caso não apresentasse nenhum comprometimento emocional. A nível teórico, no entanto, esta dualidade persiste, pois a teoria contém uma formulação sobre a discrepância que pode se desenvolver entre o “self” como e percebido e simbolizado e a experiência do “self”, dando origem a um estado de incongruência ou desacordo interno. Tal dualidade começou a ser revista teoricamente com o surgimento da teorização sobre o conceito de experienciação e com a decorrente concepção do processo terapêutico como um movimento ou fluxo exponencial. Ainda assim sobrevive uma forma de focalizar o fenômeno da terapia centrada no cliente segundo a qual e possível uma analise da subjetividade do cliente como distinta das operações ou estratégias do terapeuta e vice-versa.

Concordo com Zimring quando ele afirma que uma das razões para a pouca repercussão das formulações teóricas da Terapia Centrada no Cliente se comparada com seus efeitos na pratica, reside na submissão ao zeitgeist da época em que Rogers iniciou sua atividade como psicoterapeuta. Esta foi desde o inicio uma abordagem psicossocial dos problemas emocionais e de suas resoluções, embora o próprio Rogers se esforçasse por limitá-la aos quadros de uma psicologia clínica moldada na psicopatologia. A genialidade do Rogers conduziu-o intuitivamente para os movimentos com grupos e os encontros de comunidade da década de 70-80 sem que ele ou seus seguidores mais próximos fossem capazes de incluir na discussão teórica da psicoterapia os aspectos transpessoais que na pratica já ocorriam e surtiam efeitos. A partir desta fragilidade teórica, a Terapia Centrada no Cliente foi sendo absorvida e assimilada por outras orientações terapêuticas nos Estados Unidos, tanto a nível de suas supostas técnicas, como também através de certos procedimentos que costumavam distingui-la em seus primórdios, tais como a posição física do terapeuta colocado frente a frente com o cliente ou o registro através de gravações das sessões de terapia para estudos e pesquisa. Rogers esteve, talvez, tão preocupado em opor-se aos pressupostos psicanalíticos, ou a compreensão que deles adquirira durante os anos que pautou seu trabalho clinico institucional nos moldes psicanalíticos que deixou a descoberto na teoria o que parece ser o mais essencial deste modelo: a possibilidade do individuo, via relação terapêutica, de transcender suas próprias significações e partindo de uma unidade de experiência intersubjetiva desencadear um processo auto-propulsor de mudanças no qual conteúdos aparentemente sem importância adquirem vida nova e alteram suas percepções. Finalizando, eu gostaria de chamar a atenção para o fato de que o desenvolvimento de formulações teóricas mais abrangentes em relação a esta abordagem multiplicarão em benefícios para a formação de psicoterapeutas, assim como para viabilizar a própria Psicoterapia Centrada na Pessoa enquanto esta não é apenas uma revisão de nomenclatura em relação a Terapia Centrada no Cliente mas constitui-se numa nova e significativa fase na evolução histórica desta Abordagem.

publicado no Boletim da ACP – São Paulo – especial do II Simpósio da Psicologia Fenomenológica Existencial – USP – junho 1988