ACP EXISTENCIALISMO FENOMENOLÓGICO

GILBERTA PEREIRA DE VASCONCELLOS
CENTRO UNIVERSITÁRIO DE JOÃO PESSOA – UNIPÊ

FACULDADE DE PSICOLOGIA

ACP EXISTENCIALISMO FENOMENOLÓGICO

GILBERTA PEREIRA DE VASCONCELLOS

PROFESSORA SUPERVISORA DA ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA EXISTENCIAL

OURO PRETO – MG

OUTUBRO DE 1999

“Todas as coisas são produzidas pelo tao e nutridas pelo seu constante fluir. Recebem suas formas de acordo com sua própria natureza e se completam de conformidade com suas contigências existenciais. Portanto, todas as coisas, sem exceção, honram o tao e exaltam o seu constante fluir. Honrar o tao e exaltar o seu fluir não é o resultado de qualquer lei coercitiva, mas de um tributo espontâneo. Assim, o tao produz todas as coisas, nutre-se e leva ao pleno conhecimento, completa-as, amadurece, mantém e difunde. Ele as produz e em troca não exige qualquer posse. Guia-as no seu processo, mas não exerce qualquer autoridade. Esta se chama a operação misteriosa.” (Lao-Tsé, Tao Té Ching)
“A visão lúcida de uma situação, por mais sombria que seja, já é em si mesma um ato de otimismo; implica que essa situação é possível de reflexão, isto é, que não estamos ali perdidos, como numa floresta escura, e que dali podemos, ao contrário, desprender-nos pelo menos em espírito, mantê-la sob o nosso olhar, já que ultrapassá-la, portanto, e tomar nossas resoluções em face dela.” J. P. Sartre
ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA NO EXISTENCIALISMO FENOMENOLÓGICO HUMANISTA

“A abordagem centrada na pessoa confia na potência das forças naturais da vida e esforça-se por estabelecer um clima que não interfira com seus propósitos.” “…que cada participante seja provido de uma oportunidade para viver conscientemente em harmonia com a sabedoria e propósitos de tendência formativa, à medida que ela cria a espécie humana…” (John K. Wood)
1 – INTRODUÇÃO

O trabalho será apresentado durante o III Fórum Brasileiro da ACP, a realizar-se em Minas Gerais – Ouro Preto. Objetiva aprofundar os conhecimentos e de como raízes conceituais e experienciais da Abordagem Centrada na Pessoa se situam no existencialismo fenomenológico humanista.

A autora sempre priorizou as visões mais holísticas de lidar com o homem. Esta postura, facilita o trabalho terapêutico.

Na trajetória da psicologia como ciência autônoma destacam-se três movimentos considerados como verdadeiras revoluções do pensamento e da prática de uma nova ciência. Estas correntes ou escolas são: o Condutivismo, a Psicanálise e a Terceira Força o Psicologia Humanística Existencial.

As abordagens da Terceira Força da psicologia concebem o ser humano partindo da mesma ontologia considerando e enfatizando na prática a mesma essência e intenção de seus pressupostos básicos. A Abordagem Centrada na Pessoa, a Gestalt-Terapia, a Logoterapia e outras, fazem parte das correntes da Terceira Força. Algumas maneiras de agir são periféricas no trabalho holístico.

O enfoque existencial humanístico com a metodologia fenomenológica ocupa um espaço amplo dentro da psicologia com seus conceitos e suas características.

1962, é a data oficial do nascimento da psicologia humanista.

Vários psicólogos se reuniram a ABRAHAM MASLOW e fundaram uma associação com o fim de aprofundar os conhecimentos e a dinâmica do comportamento e das reações dignas de uma pessoa plena.

Os psicólogos reunidos pensaram em vários nomes: psicologia humanista ou humanismo existencial (referiam-se às correntes filosófica-humanista e existencialista), psicologia holística-dinâmica, psicologia organísmica e psicologia do ser.

Comumente é denominada a Terceira Revolução da psicologia, ou Terceira Força, em oposição ao behaviorismo e à psicanálise.

Fenomenologia – tudo indica que este termo foi criado por LAMBERT em 1764 na quarta parte do NEVES ORGANON (1996 – LALANDE, ANDRÉ – pg. 397). Este termo foi citado depois por KANT, tratando do movimento e do repouso na relação com a representação enquanto características gerais do fenômeno. Hegel, intitulou de Fenomenologia do Espírito a história das etapas sucessivas das aproximações e das oposições pelas quais o Espírito se eleva da sensação individual até à razão universal.

Fenomenologia no sentido geral é o estudo descritivo de um conjunto de fenômenos, tal como eles se manifestam no tempo ou no espaço, por oposição, quer às leis abstratas e fixas destes fenômenos, quer à realidade transcendente de que seriam a manifestação, quer a crítica normativa da sua legitimidade (1996, LALANDE, 397).

Fenômeno, para KANT, significa a “imagem sensorial, que se origina no sujeito cognoscente sob o influxo da coisa na qual, esta nos aparece na forma correspondente à peculiar maneira de ser dos nossos sentidos”. Refere-se a uma coisa em si, pela qual foi produzida de acordo com as leis, (LALANDE, 1996, 394), ainda KANT – o fenômeno (ERSCHEINUNG) como impressão sensorial formada com sujeição ao espaço e ao tempo, é todavia “subjetivo converte-se em fenômeno objetivo, por ele denominado, Phaenomenon, ao ser-pensado por uma categoria (LALANDE, 1996, 394).

Na medida em que, segundo KANT, só conhecemos o fenômeno da coisa em si, sua doutrina é fenomenalismo.

O escritor inglês que introduziu pela primeira vez, fenomenalismo como equivalente a positivismo foi John Grote, na sua Exploratio Philosophica (1865), 1ª parte, cap. I. (LALANDE, 1996, pág. 393).

Segundo o realismo escolástico a imagem sensorial não é mero fenômeno, mas ao menos, dentro de certos limites, é uma representação da coisa concordante com a realidade.

Um outro sentido do termo fenômeno, em Fenomenologia, designa todo o conteúdo imediatamente conhecido; neste sentido pode ser também, fenômeno um ente real (atos internos próprios ou um objeto apreendido em sua essência), (BRUGGER, 1987, 190).

A Abordagem Centrada na Pessoa, termo criado por Rogers, designa a corrente do pensamento psicológico, fruto da evolução de suas idéias, trabalhos e formulações. Nesta evolução, inicialmente no campo Terapêutico, foi ocupando espaços em campos diversos: na educação, na organização, escolas, pequenos e grandes grupos e se expandiu à resolução de conflitos, chegando à transformação e desenvolvimento de culturas.

Na trajetória da psicologia como ciência autônoma, notam-se três movimentos considerados como verdadeiras “revoluções do pensamento” e da prática de uma nova ciência. Estas correntes ou escolas são: o condutivismo, a Psicanálise e a Terceira Força ou Psicologia Humanística Existencial.

“Numa mesma trajetória de fogo, os tenteios instintivos da primeira célula encontram-se com os sábios tenteios dos nossos laboratórios. Inclinemo-nos, pois, com respeito sob o sopro que enche os nossos corações e os prepara para experimentar as angústias de ‘tudo tentar e tudo descobrir’. A vaga que sentimos passar não se formou em nós mesmos. Chega-nos de muito longe tendo partido ao mesmo tempo que a luz das primeiras estrelas. Alcança-nos após tudo haver criado pelo caminho. O espírito de pesquisa e de conquista é a alma permanente da evolução.”

(Teilhard de Ghardim – O Fenômeno Humano)
2 – EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA

A psicologia como ciência autônoma surgiu na segunda metade do século passado em 1879 quando WUNDT, fundou o laboratório de psicologia experimental, em LEIPZIG. Pertencia, anteriormente a outras ciências, principalmente à filosofia e à fisiologia, já que utilizava os conteúdos e os métodos destas. As duas ciências são consideradas como que deram origem à psicologia.

Ao fazer-se ciência autônoma, delimitando o seu próprio espaço distanciou-se da filosofia e usou os métodos da fisiologia.

Em 1894 o filósofo W. DILTHEY alertou publicamente os pioneiros da psicologia de não considerar a natureza dos fenômenos psíquicos, pela sua subserviência aos métodos das ciências físicas.

DILTHEY defendida a tese de que a psicologia pertencia às ciências do espírito e não as ciências da natureza.

DILTHEY na sua filosofia, sua visão pessimista da existência, cede lugar a uma concepção mais confiante e correspondente às exigências de domínio do homem sobre a natureza, de eterna conquista a ser o artífice do seu mundo e da sua verdade.

Considerando a tese de DILTHEY que a psicologia pertence às ciências do espírito, entretanto ela não pode prescindir nem da Filosofia nem da Fisiologia,. Os fatos psíquicos estão sempre unidos de forma indivisível, aos biológicos. É o holismo. Unidade. Todo.

DILTHEY, mestre do historicismo alemão negou a filosofia como ciência de verdades absolutas, justificando entretanto, a sua existência; declara as contradições das filosofias mas reivindica à cada uma delas o seu valor da realidade.

A última palavra da concepção histórica do mundo é a relatividade de toda concepção humana: tudo caminha, nada está parado. Nem o homem, nem a psicologia.

“Para a compreensão da verdade, todas as idéias, conclusões e opiniões devem cair por terra, como as folhas secas de uma árvore. A verdade não pode ser achada em livros, mas no contato verdadeiro com as vivências.

J. Krishnamurti

3 – EVOLUÇÃO DA TERCEIRA FORÇA DA PSICOLOGIA

A evolução da Terceira Revolução da Psicologia, teve início na psicologia superficial, preocupada em registrar e valorizar com precisão matemática as expressões fisiológicas, relevando os conteúdos da consciência. Evoluiu em seguida à psicologia profunda, centrada nos instintos e no inconsciente, referenciando a patologia do comportamento.

Freud (1856 – 1937) não entrou nos aspectos superiores inerentes a espiritualidade e aos potenciais criativos. O pai da psicanálise, deu-se conta de haver parado no primeiro piso da psicologia dinâmica. A ele, sucederam-se vários, sem atentar que se Freud não tivesse morrido naquele momento sua concepção da psicanálise teria evoluído consideravelmente., haja vista, quando se observa os seus filmes, atenta-se a várias colocações existencialistas. O próprio Freud, numa sua carta a BINSWANGER, da daseinanálise (corrente existencialista) expressou-se: “Mantive-me sempre no primeiro piso do edifício” (Cyntia G. Olsen, 1992, 155)

A Terceira Força da Psicologia, também chamada Psicologia Transcendental ou Psicologia Humanística Existencial, defende a não determinação do homem por motivações instintivas ou ambientais, não dominado por dinamismos inconscientes. O homem, é impulsionado por forças interiores construtivas que o orientam à sua realização e liberdade experiencial e humana.

Evoluindo a psicologia, a Transpessoal, conhecida como a Quarta Força da psicologia dinâmica, tendo como iniciador ABRAHAM MASLOW, fundou também o movimento humanista.

“Cada pessoa é seu ditador absoluto, seu provedor particular de glórias ou catástrofes; o governante da própria vida, sua recompensa, sua punição.” Mabel Collens
4 – EXISTENCIALISMO

O aprofundamento dos conceitos do Existencialismo, devemos a SÖREN AABYE KIERKEGAARD.

Na América, a psicologia existencialista, uniu-se com a psicologia da Terceira Força, e os estudiosos deste campo, falam em Psicologia Humanista Existencial.

Para KIERKEGAARD “a verdade existe no homem, só quando ele a traduz em ação”. Quer dizer: só se conhece a si através da ação. A metodologia, é a tentativa de entender o comportamento e a experiência do homem, com base nos pressupostos constituintes de seus fundamentos. Entender o humano de maneira existencial é experienciar o seu experienciar. Assim, comprova-se a significação do termo que se origina do latim – EXISTIR, literalmente traduzido como SAIR, EMERGIR.

A psicologia da Terceira Força, não descarta os dinamismos presentes no homem-instinto, pulsões, condicionamentos, defende entretanto, que esta base de trabalho é insuficiente para entender, mergulhar no seu humano visto que, permanecia no campo da abstração e generalização.

O homem há de experienciar o que experimenta ou vive, a nível de organismo.

O existencialismo, desde tempos remotos, até chegar a Sartre e particularmente com ele, preocupou-se de explicar ao homem a sua importância. EXISTIR É UM SER QUE SE NOMEIA A SI MESMO. O homem, único, existente, é um ser que se nomeia um ser e que nomeia a cada instante. Ele crê em si mesmo.

Existir, é ser um ser livre. Conhecer o conceito de liberdade é um marco do existencialismo.

O homem é toda possibilidade de ser. É um ser possível de criar possibilidades para adquirir a sua liberdade. Essa liberdade não lhe outorga tranqüilidade, sossego, bem estar, ao contrário. Esse princípio de liberdade intrínseca do homem lhe obriga a ser mais cuidadoso consigo porquanto que, se lhe oferece um leque de opções. Daí, ele é seu próprio escravo, se angustia, responsabiliza-se por si, exigindo de si, que seja cada vez melhor, aperfeiçoar-se.

A corrente existencialista defende que o homem é um ser, cuja relação com o mundo, o amarra e o compromete. Ele é um ser comprometido.

O sistema filosófico existencial, responsabiliza o homem e ao afirmar que o homem é o único responsável pelo seu próprio ser, está impingindo um sentimento de culpa derivado dessa mesma responsabilidade a qual está preso em razão da liberdade que impõe sua própria existência. Somos atores do mundo, assim, somos responsáveis pelo bom ou pelo mal que possa ocorrer.

“Tenho uma paixão: compreender os homens”. “Inventando sua própria saída, inventa-se a si próprio”.

J. P. Sartre

5 – HUMANISMO

Inclui-se na Terceira Força da Psicologia. ABRAHAM MASLOW, foi considerado o pai do humanismo. Outros pensadores escreveram sobre o tema: ANTHONY SUTICH, JAMES BUGENTAL, GORDON ALPORT, ROLLO MAY (iniciador do humanismo na psicologia americana), ERICH FROM, HENRY A. MURRAY (exemplar humanista) e CHARLOTE BÜHLER (cooperou na compreensão psicológica da vida humana).

A palavra humanismo é mais antiga que o seu uso no Renascimento. A Renascença foi assinalada por várias mudanças em todos os aspectos, originando uma civilização brilhante bem diferente da que antecedeu – a medieval. Ficou conhecida como época do humanismo – indica, nova sensibilidade no homem. Com o surgimento da literatura clássica, principalmente a latina – considerada a mais alta expressão dos valores propagados pelo humanismo e também o mais eficiente instrumento para elevar o homem ao clímax da sua humanidade – homo humanus.

A psicologia humanista, é a libertação do homem a fim de assumir a dignidade que é própria na sua natureza. É o estudo do ser humano e um compromisso com o vir a ser, dando ênfase à pessoa na sua totalidade e unicidade.

A principal tarefa do humanismo não é simplesmente ajudar o ser humano a resolver os seus conflitos neuróticos, mas principalmente, facilitar ao homem descobrir um mundo de valores, o primeiro dos quais o valor do seu EU, quer dizer, o seu próprio potencial criador, significa o pleno desenvolvimento de sua liberdade.

“O ‘caso bem-sucedido’ não é uma ‘cura’ no sentido de um produto acabado, mas uma pessoa que sabe que possui ferramentas e equipamentos para lidar com os problemas à medida que estes surjam. Ele ganhou espaço para trabalhar, sem ser estorvado pelas bugigangas acumuladas de transações iniciadas, mas não acabadas”. B. Steevens
6 – HUMANISMO x EXISTENCIALISMO x FENOMENOLOGIA E ROGERS

A corrente da Abordagem Centrada na Pessoa que se denominou existencialista foi pela evidência do subjetivismo na relação e através da filosofia existencial, marcadamente o pensamento de KIERKEGAARD e de BUBER.

A colocação básica de KIERKEGAARD “a verdade existe no homem só quando ele traduz em ação”. Quer dizer: só se conhece a si através da ação. Compreende-se o termo existir – vem do latim, traduzido como – sair, emergir. EDMUND HUSSERL (1859 – 1938) criou o método fenomenológico que conjugado à atitude de MARTIN HEIDEGGER (1889 – 1976), foi eficaz e consistente – a fenomenologia e a análise existencial.

A terapia enquanto relação intersubjetiva, interpessoal, fornece uma discriminação clara da experiência sob uma metodologia fenomênica através da redução fenomenológica.

A redução fenomenológica é uma atitude que o terapeuta através dela, se abstêm de todo conhecimento, valores, pressupostos, saber. HUSSERL, disse: “não me importa aqui absolutamente a existência de todas estas transcendências, quer eu creia nelas eu não, aqui não é lugar de sobre elas julgar; isso fica completamente fora de jogo” (Husserl, 1907: apud Husserl, 1990).

HUSSERL, em sua obra IDÉIAS RELATIVAS A UMA FENOMENOLOGIA PURA e uma FILOSOFIA FENOMENOLOGIA, referiu-se:

“Se por um lado o autor precisou praticamente rebaixar o ideal de suas aspirações filosóficas ao de um simples principiante, por idade, a plena certeza de poder chamar-se um efetivo principiante (…)vê estendida diante de si a terra infinitamente aberta da verdadeira Filosofia, a “Terra Prometida” que ele mesmo já não verá plenamente cultivada (Husserl, 1913, tradução publicada em 1986, pág. 304 apud FORGHIERI, 1993;20).
A filosofia de Husserl foi uma grande contribuição na relação da filosofia com a psicologia, principalmente, a psicologia de Rogers; deu ênfase ao mundo vivido, como marco inicial do seu empreendimento. E não concluiu o seu ideal quanto a fenomenologia, por estar sempre recomeçando até o fim de sua vida. Quando já no leito, prestes a morrer, verbalizou à enfermeira que o assistia. “Eu precisaria começar tudo de novo” (Forghieri:21).

Essas citações nos leva a reflexão da não conclusão da sua fenomenologia, reflexão esta, confirmada por HEIDEGGER:

“O que ela possui de essencial não é ser real como corrente filosófica (Heidegger, 1971:49, Apud Forghieri 1993:21).

…Ela não é nenhum movimento, naquilo que lhe é mais próprio. É possibilidade de pensamento…de corresponder ao apelo do que deve ser pensado” (Heidegger, 1972:107, apud Forghieri, 1993:21).
Carl Rogers, com toda a sua educação voltada ao positivismo lógico americano, contrariando todo o pensamento reinante, não conseguiu impedir, com toda a sua educação preconceituosa, que a sua sensibilidade ímpar, percebesse que todo o tipo de relação, leva as pessoas a se defender, acentuando suas neuroses, e que tipo de relação as leva a procura da terapia para se “curar”.

Rogers, com essa capacidade perceptiva tão rara, chegou à essência do comportamento humano por meios empíricos, o que por coincidência outros teóricos europeus alcançaram a mesma essência por outras vias.

Rogers, muito se preocupou, atormentou-se até, em garantir à psicoterapia um caráter científico.

Ao contactar com o existencialismo fenomenológico disse: “Fiquei surpreso ao constatar, em meados de 1951, que a direção do meu pensamento e os aspectos centrais do meu trabalho terapêutico, poderiam ser acertadamente classificados como existenciais e fenomenológicos. Parece estranho que um psicólogo americano possa se encontrar em semelhante companhia” (IN Rogers, 1951).

A visão existencialista fenomenológica do homem, não se restringe aos filósofos.

Para que não haja momentos mágicos – “insiglts”, é imprescindível uma preparação, um alicerce, uma facilitação. Eles não provêm do nada.

Os maiores pensadores detectaram e refletiram nessas questões, encontrando soluções. Foram incompreendidos, criticados, rechaçados. Rogers é o maior exemplo de incompreensão, inaceitação, pelo seu pensamento e sua maneira revolucionária de evidenciar a potencialidade, acreditar nas pessoas. Rogers, evidenciou a relação inter-pessoal e intersubjetiva e até a transpessoal.

A partir de um relacionamento pleno, incondicional, sem obstáculos, insinuações ou diretrizes, as coisas fluem sem obstáculos. As descobertas e o crescimento far-se-á da melhor forma possível. A condição “sine-que-non” para que haja este processo, é que o terapeuta aceite-se a si. O outro sentindo-se aceito, terá o necessário apoio e aceitar-se-á. Haverá o encontro, sem julgamento, sem preconceitos e, oportunizar-se-á o clima de crescimento. Haverá sintonia e o momento mágico eclode. (Santos, A.M.)

MERLEAU-PONTY, diz que o maior ensinamento, é o de experienciar o que experimenta a nível organísmico. A mesma defesa de Carl Rogers.

Ao considerar as atitudes facilitadoras para que uma terapia funcione, defendidas na ACP, Rogers foi muito ajudado na sua experiência com esquizofrênicos, iniciada em 1957 na clínica de Wisconsin. Nessa experiência ele concluiu que o encontro, tem que ser pessoal e total em pleno sentido. O terapeuta deve experienciá-lo na sua totalidade.

A psicologia da Terceira Força, não descarta os dinamismos presentes no homem – instintos, pulsões, condicionamentos, entretanto defende que esta base de trabalho é insuficientes para entender, mergulhar no ser humano, visto que permanece no campo da abstração e generalização. O homem, há de experienciar o que experimenta.

Rogers acreditou no potencial a pessoa. O “paciente enfermo”, deixou de ser objeto passivo de tratamento e passou a ser cliente e depois pessoa. Este não é doente. Eliminou o modelo médico. A pessoa em terapia, passou a ser respeitada e dirigir seu próprio trabalho. Rogers, convidava seus clientes a experienciar a sua própria experiência a nível de organismo. Eliminou o divã e o diagnóstico, também; a anamnese, anotar o que escutava durante a terapia, bureau, separando o terapeuta do cliente e todas as atitudes clássicas. Inovou todo o clima da terapia.

Acreditou nas tendências sociais positivas, das pessoas e que estas emergem de dentro para fora e que a experiência organísmica é uma fonte interna de direção vital que cria sentido e valores.

Essa crença no potencial humano se opôs às crenças dos outros profissionais da época. Estes defendiam que todos os valores e formas de viver têm que ser impostas ou eram impostas pela sociedade sobre cada pessoa. Essas inovações foi motivo de muitos mal entendidos dos seus colegas de época.

Propagou a existência de uma sabedoria organísmica e valorização interna. O corpo é diferente da máquina. Que as informações são inerentes, interacionais e em movimento. O mundo exterior se torna conhecido através dos cinco sentidos, basicamente através do experienciar a si mesmo.

Ensinou que uma teoria deve ser experienciada além dos conceitos. Recomendou aos seus seguidores que usassem o seu método a título de hipótese.

Não necessitava está de acordo com as suas suposições. O que defendeu foi que: à partir de se estar inteiramente com o outro, o outro resolveria tudo por si mesmo, desde que não se impusesse outros conceitos e valores.

“A visão lúcida de uma situação, por mais sombria que seja, já é em si mesma um ato de otimismo; implica que essa situação é passível de reflexão, isto é, que não estamos ali perdidos, como uma floresta escura, e que dali podemos, ao contrário, desprender-nos, pelo menos em espírito, mantê-la sob nosso olhar, já ultrapassá-la, portanto, e tomar nossas resoluções em face dela…” J. P. Sartre

7 – CONCLUSÃO

Agora, quando fenece o ano de 1999, simultaneamente o século e o milênio, aponta uma nova era para o homem, cheia de descobrimentos científicos e ferramentas tecnológicas. O existencialismo poderá nos surpreender. O homem poderá dominar as profundezas do mar, estabelecer-se na Lua ou em Marte, porém não poderá esquecer-se de si mesmo. Não terá sentido que os descobrimentos científicos e tecnológicos que ele está empenhado, não tenham como resultado melhorar sua condição humana.

O existencialismo defende o homem, como um ser cuja relação com o mundo, o amarra e o compromete. Ele é um ser comprometido. Sua vivência tem limites invioláveis que não podem ser transgredidos.

O homem é toda possibilidade e sendo pleno dessas possibilidades, a morte o limita.

A relação das psicologias humanistas é constatada na defesa que seus seguidores sustentam e professam – uma filosofia contrária àqueles que discordam das abstrações filosóficas.

O pico culminante da ACP, é o encontro existencial. Para isso, o terapeuta, necessita ter uma postura de total empenho, tornar-se a cada momento mais ativo na relação. Daí, o processo terapêutico, a cada momento irá se distanciando da técnica, e os dois, terapeuta e terapeutizando, vivenciam a cada momento, mais e mais, uma expressão da riqueza de suas potencialidades humanas.

Um pensador e admirador de Carl Rogers, expressou: “A relação terapêutica, perde o seu caráter impessoal e objetivo entre duas pessoas distintas. O terapeuta dispõe e uma maior espontaneidade interior e chega a instaurar com o cliente uma relação amorosa quase mística. A terapia de Carl Rogers alcança assim o máximo nível existencial.” (GONDRA – 1975, pág. 190).

A vivência de sentimentos, emoções enquanto experiência organísmica do terapeuta e terapeutizando é um fenômeno existencial (nada cognitivo a exemplo do positivismo que reduz o fenômeno a um objeto distorcendo a relação). A ciência, tem a sua validade mas não abrange os fenômenos.

A ACP com a fenomenologia, a redução fenomenológica ou epoché caminha no processo a uma atitude natural ou seja, coloca entre parênteses a realidade tal como é concebida pelo senso comum, como existindo em si, independentemente de todo ato da consciência. Mediante essa atitude emerge do fenômeno a apreensão de significados do vivido experiencial. Essas apreensões são sistematizadas, excluindo, qualquer casualidade, com atenção permanente ao acontecimento – o encontro é priorizado. O terapeuta optará pelo e disposição a uma clara e espontânea autenticidade. Haverá um encontro. O cliente não mais se sente um objeto. A relação é caracterizada pela subjetividade. É um mergulho profundo na relação, no mundo subjetivo do outro. É um perigo da segurança, ir sem conhecer, é tudo estranho, desconhecido. Mas é a única direção certa e adequada. Ele, Carl Rogers, acreditava e comprovou mediante as suas pesquisas que num relacionamento de total confiança, o terapeuta assume posturas de total comprometimento pessoal – congruência, autenticidade existencial, presença ativa e empática e um envolvimento afetivo sem limites, a terapia será bem sucedida, ilimitadamente.

Fazendo uma relação da Fenomenologia com a Psicologia, Husserl confirma, deixando transparecer a existência de um entrelaçamento. Na sua última obra (1938) afirma “subjetividade transcendental é intersubjetividade” corroborando a idéia de que os limites entre o empírico e o transcendental não são distintos, há uma interseção entre a fenomenologia e a psicologia. Elas se completam. A psicologia é reflexão e vivência. O psicólogo procura descobrir a significação contactando seu experienciar e a experiência vivencial dos seus semelhantes.

Concluindo, as duas ciências têm estreito inter-relacionamento, Psicologia e Fenomenologia, haja vista que os seus criadores, Rogers da Psicologia acepiana e Husserl da Fenomenologia, defendem a hipótese da inacababilidade de suas pesquisas e de seus métodos, recomendando aos seus sucessores que dêem continuidade.

“É temerário investigar o desconhecido; mais temerário, porém, é pôr em dúvida aquilo que se conhece”. (Kaspar)

“A saída é pela porta. Por que será que ninguém a quer usar?” (Confúcio)
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Apresentado no III Fórum Brasileiro – Ouro Preto – outubro 1999