ALÉM DO ORGANISMO COMO UM TODO

GUILHERME SCHERER ZAVASCHI

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE PSICOLOGIA

DISCIPLINA: CLÍNICA II

PROFESSORA: JANICE VITOLA

PORTO ALEGRE, MAIO DE 2001

INTRODUÇÃO

O trabalho que segue parte com um texto retirado do livro “A consciência sem fronteiras” de um psicólogo contemporâneo norte americano, Ken Wilber. O texto em questão ilustra de forma compacta o sentido da discussão posterior. Minha idéia aqui é explorar o conceito de organismo como um todo, visto na Gestalt e no humanismo-existencialismo de forma bastante semelhante, e relacioná-lo com alguns tópicos da psicologia transpessoal, abordados pelo autor em questão. Também tenho a intenção de fazer alusões aos estados de consciência descritos pelas escolas psicológicas acima mencionadas, bem como seu poder de desenvolver e curar o ser humano em sua totalidade. Diz Wilber:

“Eu tenho o meu corpo, mas não sou o meu corpo. Posso ver e sentir o meu corpo, e aquilo que é visto e sentido não é o verdadeiro observador. Meu corpo pode estar cansado ou excitado, doente ou são, pesado ou leve, mas isso nada tem a ver com o meu interior. Eu tenho um corpo, mas não sou o meu corpo.

Eu tenho desejos, mas não sou meus desejos. Posso conhecer meus desejos, e o que pode ser conhecido não é o verdadeiro conhecedor. Os desejos vão e vêm, flutuando através de minha consciência, mas eles não afetam meu interior. Eu tenho desejos, mas não sou os meus desejos.

Eu tenho emoções, mas não sou minhas emoções. Posso sentir minhas emoções, e o que pode ser sentido não é a verdadeira pessoa que sente. As emoções passam através de mim, mas não afetam meu interior. Eu tenho emoções, mas não sou minhas emoções.

Eu tenho pensamentos, mas não sou meus pensamentos. Posso conhecer e intuir meus pensamentos, e o que pode ser conhecido não é o verdadeiro conhecedor. Os pensamentos vem até mim e me abandonam, mas não afetam meu interior. Eu tenho pensamentos mas não sou meus pensamentos” (Wilber 1979, p.161).

I – CONCEPÇÃO INICIAL

Em uma análise um pouco precipitada poderia sugerir que a experiência do organismo como um todo é justamente a de identificar-se e ser todos os elementos que o autor diz não ser seu verdadeiro eu.

Partamos, portanto, a uma análise um pouco mais ponderada.

A compreensão do conceito de “organismo como um todo” é fundamental para fazer-se um bom entendimento da psicologia da Gestalt. Carl Rogers, principal teórico do humanismo-existencialismo também refere-se a um conceito semelhante quando fala de “organismo” e “sabedoria organísmica”. Trata-se de estados muito abrangentes que não se estendem apenas a personalidade e a pessoa em si. Com a vivência organísmica a pessoa mergulharia em sua identidade mais profunda, em harmonia indissociada com o entorno que a cerca. Seria a base e referência para os demais elementos do ser.

Alguns teóricos e pesquisadores, nos quais se inclui Wilber, sugerem uma possível extensão da identidade humana ainda mais abrangente que o organismo.

É interessante frisar que meu interesse em entender a definição de organismo foi despertado pela leitura de autores como Stanislaw Grof e Ken Wilbrer, expoentes da psicologia transpessoal, mais que os textos clássicos de Rogers e Perls.

Assim como a Gestalt e o Humanismo, estes autores defendem a vivência plena do corpo, da mente e das emoções. Para eles este vivenciar total, aliado a uma perspectiva existencial concomitante e integrada, seriam o primeiro passo em direção a uma suposta “transcendência”.

Deste modo, minha intenção é focalizar exatamente o momento de transição desse contínuo existencial-transcendência, embora me arrisque a cair numa análise demasiado breve e superficial.

Cabe ressaltar que há uma evidente complexidade rondando as tentativas de explicar com palavras a vivência organísmica e a transcendência. Dentro desse tema tanto Rogers como Perls buscaram em relatos de pensadores orientais, os quais trabalhavam de forma quase sistemática com a questão da transcendência, noções importantes para a complementação de suas teorias. Um exemplo disso é a citação de Lao-Tsé, a qual Rogers diz resumir sua posição:

“Se eu deixar de interferir nas pessoas

elas se encarregarão de si mesmas,

Se eu deixar de comandar as pessoas

Elas se comportarão por si mesmas,

Se eu deixar de pregar as pessoas

Elas se aperfeiçoarão por si mesmas,

Se eu deixar de impor as pessoas

Elas se tornarão elas mesmas.”

(Rogers, 1973, p.206, apud Fadiman e Frager, 1986)

Sabe-se também que Frederick Perls praticou pessoalmente a meditação zen-budista. Segundo ele, “a filosofia zen tem muito a nos ensinar a respeito da experiência do nada, positiva e geradora de vida, e a respeito de permitirmos esta experiência sem interrompê-la” (Fadiman e Fagner, 1986, p.138).

Pode-se observar com clareza que a vivência plena do aqui-agora, a avaliação organísmica e o experimentar o organismo como um todo, termos humanistas e gestaltistas, tem extrema semelhança com os ensinamentos de escolas espirituais orientais como o zen-budismo.

II – O ORGANISMO COMO UM TODO

É importante salientar neste momento, que nas terapias humanistas (ACP) e principalmente na terapia da Gestalt utilizam-se técnicas para chegar a este momento presente “aqui-agora” e para experienciar o “organismo como um todo”. O tornar possível este tipo de experiência significa, em termos terapêuticos, um grande passo no processo de crescimento do indivíduo e uma instância importante na contribuição da dissolução de sua “neurose”.

Não muito distante disso, Ken Wilber fala que o ser humano tem intrínseco a si o que chamou de projeto identificatório. No meu modo de entender este projeto significa que o ser humano tem intrínseco a si, como outros autores também sugerem um eterno, “vir a ser”. Este tornar-se e identificar-se com o que se tornou é impulsionado pelo que no humanismo se chama “tendência atualizante”. O ser humano está em um movimento constante, ainda que muitas vezes não o perceba com clareza, em direção a tornar-se cada vez mais autônomo, mais auto-realizado, e a experimentar a realidade de uma forma cada vez mais totalizadora. Sendo o objeto de estudo da psicologia transpessoal a consciência, pode-se dizer que a medida que a pessoa experimenta e se identifica com partes cada vez mais sutis e abrangentes do seu ser, sendo conduzida por este impulso vital, mais consciente ela está.

O termo consciência, por si só, principalmete visto a luz do referencial transpessoal, demandaria muitas linhas para um entendimento minimamente claro. Deter-me-ei portanto aos aspectos da consciência referentes a vivência do “organismo como um todo”.

Segundo Wilber também podemos usar inúmeras técnicas, as quais igualmente requerem um capítulo a parte, que nos facilitam no desenvolvimento em direção a vivência organísmica plena, abrangendo também os aspéctos existenciais e do sentido do vida, bem como as técnicas Gestálticas e, por mínimas que sejam, as do humanismo. O que é importante aqui é que os caminhos para atingir esse tipo de experiência, embora possam ser parecidos em alguns aspectos e distintos em outros, tendem a chegar exatamente no mesmo objetivo.

O que me parece mais polêmico, no entanto, é que na visão de Wilber o ser humano seguiria em direção a um estado qualitativamente superior, mais abrangente e totalizador, posterior a vivência total do organismo. O desenvolvimento desse potencial, assim como o do organismo em termos humanistas, também seria intrínseco e inerente ao ser humano.

Em seus trabalhos, em especial em o autor faz uma exploração ao que denominou de “níveis de consciência”, e explica esta concepção com um modelo que chamou “espectro da consciência”. Neste contexto o ser humano estaria em processo contínuo de evolução e desenvolvimento em direção a níveis mais sutis e complexos do espectro.

Limitar-me-ei a comentar aqui o chamado nível do “centauro”, cujo nome já sugere o problema da integração mente-corpo. Neste nível podemos fazer analogias com a vivência organísmica e existencial. Nas palavras de Wilber:

“Ora, muitos desses escritores existencialistas- humanistas não puparam esforços para explicar, explorar e descrever os potenciais do corpo-mente total ou centauro. Um conceito primordial a este respeito é o de auto-realização introduzido por Goldstein e Karen Horney e popularizado por Maslow, Rogers, Perls e todo o movimento dos potenciais do ser humano. Toda a teoria de Rogers, por exemplo, reexamina a importância da realização plena de cada pessoa e o significado de conceitos tais como experiência, avaliação orgânica que, segundo essa teotia são de importância fundamental para concretizar aquele potencial único” (Wilber, 1996, p.66).

Para um maior entendimento do organismo, Wilber (1996) usa termos freudianos, como superego e ego, e junguianos, como persona e sombra, para afirnar que a implicação do potencial total de alguém deriva do que Rogers chama de ‘fluxo psicofisiológico total e contínuo’ ou ‘experiência orgânica total’ e não de qualquer aspecto ou fragmento deste fluxo – o ego, o corpo, o superego, o conceito do eu, e assim por diante. Em nossos termos, a auto-realização tem estreita relação com o nível do centauro e não está ao alcance direto dos níveis do ego e da persona.

Rollo May refere-se também a esta questão afirmando que “nem o ego, nem o corpo, nem o inconsciente podem ser ‘autônomos’, só podendo existir como partes de uma totalidade. É nessa totalidade (centauro) que a vontade e a liberdade devem se assentar” (May, 1969,apud Wilber, 1996).

III ¬- TRANSCENDÊNCIA

No meu entender, nossa grande dificuldade de entendimento completo do organismo se dá em nível pessoal. Ora, se eu particularmente jamais vivenciei um processo experiencial total do organismo, como posso saber o que significa? E mais: como saber que vai além de meu ego, além de meu corpo, mas abrange em comunhão com um profundo sentimento totalizador e existencial? Como saber que tal coisa existe e é real?

Segundo Wilber, o mesmo problema ocorre com níveis ainda mais elevados de consciência. Parece-me que não há outro remédio se não seguirmos nossas vidas “normais” da forma mais “aberta a experiência” possível. Além disso, temos o louvável relato de pessoas que de uma forma ou de outra deixaram o registro de suas experiências.

Assim sendo, por tratar-se de um trabalho cuja intenção também é questionar o que não conhecemos, vamos, pelo menos de forma teórica, abordar um dos relatos de um dos grandes herdeiros de Perls e da terapia da Gestalt, que segundo o próprio Perls é uma terapia puramente existencial. E. George Brown, gestaltista contemporâneo, descreve o que acontece quando alguém atinge o ponto de centrar-se no aqui-agora, própria do centauro chegando a um empasse:

“A experiência do impasse poderia ser descrita de muitas maneiras. Há energias transpessoais envolvidas. As pessoas falam de sensações instáveis de tranqüilidade e paz. Nos não pressionamos. Dizemos ‘ ótimo, continue contando o que está acontecendo com você’. Às vezes, perguntamos se elas conseguem tocar alguma coisa onde estão; se não conseguem, tudo bem. Se conseguem, o que acontece é que costumam enxergar alguma luz (verdadeira esfera sutil). Isso pode muito bem ser um movimento em direção ao transpessoal. Muitas vezes elas vêem a luz e vão em direção dela, vão para fora e lá estão o sol e coisas bonitas: árvores verdes, céu azule nuvens brancas. Depois, quando terminam a experiência e abrem os olhos, elas vêem com mais clareza, a visão mais apurada e a percepção intensificada (percepção supersensorial do centauro). Nesse momento, elimina os filtros do ego e da afiliação impostos por seus fantasmas e patologias” (Brown apud Wilber, 1996, p.81)

Wilber denomina a vivência organísmica total juntamente com o profundo sentido da vida e da existência como centauro existencial. Segundo ele este nível consciencial não é apenas a integração de ordem superior do ego, do corpo, da persona e da sombra; é também o ponto de transição para as esferas sutis e transpessoais do ser. Assim, vale citar um pequeno fragmento que aborda o tema das esferas sutis e da transcendência nas palavras do autor:

“A questão toda é que na esfera sutil e principalmente na sutil superior está ocorrendo uma diferenciação e transcendência de ordem muito superior. Com a mediação de formas simbólicas arquetípicas superiores – as formas da divindade, iluminadas ou audíveis – , a consciência trilha um caminho de transformação ascendente que leva muito além do corpo-mente bruto. Essa transformação ascendente, como todas as outras que estudamos envolve o aparecimento (por meio de recordação) de uma estrutura profunda de ordem superior e da diferenciação ou desidentificação das estruturas inferiores (no caso o ego-mente). Isso resulta na transcendência das estruturas inferiores (a mente e o corpo brutos), o que permite que a consciência atue sobre todas as estruturas de ordem inferior, integrando-as”.

(Wilber 1996, p.90)

CONCLUSÃO

O que me parece impressionante, embora bastante questionável, é que de acordo com o autor os estados descritos acima, em sua manifestação autêntica não seriam estados dissociativos, parciais, ou patológicos, muito pelo contrário. Todos esses elementos são sugestões das esferas superiores e da transcendência.

A possível existência de tais estados parece-me no mínimo muito intrigante, pois trata-se do entendimento de uma provável direção do desenvolvimento humano, sua integração, e a realização de seu potencial máximo.

REFERÊNCIAS BIBLIOFRÁFICAS

FADIMAN, James, FRAGER, Robert. Teorias da Personalidade. São Paulo: Harba,

1986.

WILBER, Ken. A Consciência sem Fronteiras. São Paulo: Cultrix, 1979.

¬¬¬¬¬_____________ O Espectro da Consciência. São Paulo: Cultrix. 1977.

_____________ O Projeto Atman. São Paulo: Cultrix. 1996.

Apresentado no VI Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa – Canela RS – 9 a 15/10/2005