Algumas reflexões sobre o futuro da ACP

Maria C. Vilias-Boas Bowen

Parece existir uma preocupação crescente em relação ao futuro de ACP entre as pessoas envolvidas com ela. A preocupação parece vir de duas fontes:

Primeiro a ACP cresceu a passos gigantes, em todo o mundo, nos últimos 10 anos. No 2º. Fórum Internacional em Norwich, estiveram representados 24 países, de 6 continentes. Novas organizações da ACP estão surgindo em vários países. As idéias de Carl Rogers infiltraram várias profissões e várias formas de terapia de forma tão diversificada que às vezes torna-se difícil traçar a origem destas idéias até Carl Rogers. Esta diversidade emergente dá origem à preocupação que a ACP se diluirá tanto a ponto de perder sua identidade única.

Segundo, Carl Rogers tem sido a figura central da ACP. Todos nós, admitindo-o, ou não, fomos muito influenciados por ele. Sua presença nos deu uma sensação de equilíbrio. Mas a presença física de Carl não é eterna. Existe um receio em relação ao futuro da ACP, quando ele não estiver mais conosco.

Parecem prevalecer dois principais correntes de pensamento em relação ao futuro da ACP. Alguns gostariam de institucionalizá-la, criando uma instituição central e “oficial”, enquanto outros preferem a descentralização e redes de comunicação como forma de manter contato e definição.

Como no presente, estou optando pela rede de comunicação, gostaria de expressar minhas opiniões sobre o assunto. Existem três razões principais por que me oponho à institucionalização da ACP:

O potencial para 1) o desequilíbrio de poder; 2) o laço cultural e 3) a incongruência com a ACP, como a compreendo.

Desequilíbrio de Poder

Se uma instituição central fosse existir, teríamos que eleger “funcionários” para administrá-la. Apesar de acreditar que o processo seria democrático, e todos teriam algo a dizer sobre que candidatos deveriam ser eleitos, ainda assim, os funcionários eleitos teriam o controle. O problema é que geralmente somente um pequeno número de pessoas está disposta a disputar um cargo. Estas pessoas provavelmente teriam alguma inclinação política e algum interesse em administração. Assim, o futuro da ACP estaria nas mãos de políticos e administradores. Independentemente do seu grau de abertura à nossa influência, eles ainda assim teriam o poder de decidir sobre o nosso futuro.

Para a instituição poder existir também teríamos que pagar mensalidades, para nos afiliarmos a ela. Questiono-me, se as pessoas que não pudessem arcar com essas mensalidades ainda assim seriam consideradas membros da mesma, e mais importante ainda, se elas seriam elegíveis para cargos. Criar-se-ia rapidamente uma hierarquia de membros, perdendo-se o status igualitário que temos no presente. —

Laço Cultural

Apesar de Carl Rogers ser americano e suas idéias terem, no início, sido desenvolvidas neste país, acredito que a ACP veio transcender – barreiras culturais e raciais.

Os Latino-Americanos, por exemplo, têm um Fórum a cada dois anos para estudar as aplicações da ACP — sua realidade. Estão sendo criados programas para treinamento de profissionais para trabalhar com pessoas de diferentes raças e de realidades sócio-econômicas diferentes. Diferentes países têm suas próprias organizações da ACP e sentem-se no controle daquilo que estão realizando. Suponho que, se uma instituição central e oficial fosse criada, este seria um esforço essencialmente americano. Apesar de que representantes de outros países fariam parte da diretoria, a instituição teria um caráter americano. Meu receio é de que esta instituição central tiraria o poder das instituições já existentes em outros países, tentando subordiná-las à instituição central. Ou, se uma instituição em determinado país é vinculada à instituição central, aquela será considerada a “oficial” e teria prioridade sobre as outras.

Filosofia da ACP

Minha compreensão da filosofia da ACP é a de que conhecimento e poder são distribuídos entre todos aqueles envolvidos em vez de ser concentrado entre poucos. De acordo com minha compreensão, nosso objetivo é de criaras condições que possibilitem às pessoas ou grupos escolherem e percorrerem seus caminhos de atividades preferidas. Se o poder permanecer com uma instituição ao – invés de permanecer com cada indivíduo ou grupo, isto seria uma contradição do objetivo inicial da ACP. Estaríamos delegando responsabilidade a uma hierarquia, que independentemente de quão democrática, benevolente, ainda teria autoridade sobre nós.

Outro receio que persiste é que uma instituição central e oficial poderia assumir o direito de julgar outros indivíduos. Ela tomaria decisões como quem merece, ou não, fazer parte, sem mencionar que grupos, pessoas, idéias e atividades merecem ser chamadas – “centrados”. Um sistema que se orgulha de ser não avaliativo – (se tal coisa é possível) estaria se contradizendo, se tal avaliação fosse parte de sua estrutura.

Apesar de meus atuais sentimentos serem contra uma instituição central e oficial, reconheço a necessidade de contatos e identificação e suporte da identidade da ACP que temos todos. Até agora, isto tem sido realizado através de redes de comunicação. Gostaria de continuar fazendo isto, talvez de uma maneira mais organizada e em escala maior.

No momento tenho conhecimento da existência de três redes: 1) A Associação para o Desenvolvimento da ACP, fundada por David Cain; 2) A Rede de Comunicação/Buletim de Ann Weiser; e 3) Centro para Estudos das Relações Humanas de Barrett-Lennard. Provavelmente, existem outras, sem que eu o saiba. O Person C. Review contribuirá de sobremaneira para a rede. Os dois Fóruns foram organizados através de redes de comunicação e propiciaram ocasiões para membros de redes de comunicação estabelecerem contato entre si e se fortalecerem. No momento ninguém tem controle sobre ninguém. Estão sendo realizados diálogos particulares entre diferentes membros de redes de comunicação, possibilitando a qualquer indivíduo realizar um impacto nos pensamentos e decisões de outro indivíduo. Apesar de sermos muito primários em nossas tentativas, sinto que temos um bom começo, graças aos esforços de alguns. Acredito que se mais de nos contribuirmos e se respondermos uns aos outros através de nossas redes, poderemos nos tornar mais e mais criativos e efetivos em relação ao futuro da ACP.

Publicado no boletim Rede de Comunicação ACP – Rio de Janeiro – no. 0 – novembro 1987