As condições necessárias e suficientes do processo terapêutico (paráfrase de Carl Rogers)

Rogério Christiano Buys

Introdução

Em 1957, Rogers escreveu “The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change” no Journal fo Consulting Psychology, vol. 21, n.º 2, 1957, 95-103[1] Este trabalho talvez um dos mais importantes e fundamentais da ACP, traduz, em termos da prática terapêutica, os princípios fundamentais desta abordagem, tanto aqueles de caráter teórico, quanto os de feição filosófica. Rogers foi, no meu entender, muito feliz na redação deste trabalho, sintetizando de maneira clara e econômica, objetivando à prática, princípios amplos e complexos.

A par da clareza, concisão e elegância do trabalho, que os comentários que se seguem de maneira nenhuma diminuem, persistem, todavia, alguns pontos que requerem discussão, não obstante não ser o objetivo destas reflexões críticas ao trabalho em tela. Estes pontos dizem respeito à suficiência das condições que servem de título ao artigo citado.

A proposta de Rogers estabelece condições do relacionamento interpessoal necessárias e suficientes para que se produzam as mudanças terapêuticas da personalidade. O exame das condições preconizadas revela que elas se referem à qualidade da relação terapeuta/cliente ou a “clima” (no sentido lewiniano) que nela deve existir. Então, dadas estas condições, ocorre um processo que tem tais e tais resultados. Porém, fica na obscuridade, o trabalho não nos diz, o que é necessário para que as condições (propostas por Rogers) sejam “dadas”.

Duas respostas, me parece, podem ser dadas a esta questão, a saber: 1) o trabalho de Rogers não se propõe a responder esta questão, ela fica fora dele; 2) o trabalho de Rogers de fato se propõe mais do que realmente dá. A primeira resposta entendo como uma fuga da questão, já que as condições que permitem que as condições (propostas por Rogers) tenham êxito, também são condições necessárias às “mudanças terapêuticas da personalidade”, ou simplificando, também fazem parte do processo terapêutico . A segunda resposta me parece mais adequada, porquanto Rogers afirma que as condições por ele enumeradas são bastante e suficiente. Não me parece que sejam,, ainda que representem o âmago da relação terapêutica. O próprio autor parece perceber a insuficiência delas quanto escreve: “For constructive personality change to ocurr, its necessary that these conditions existe and continue over a period of time …”[2] . Daqui se depreende que a existência das condições independem de sua continuidade, ou seja, são coisas diversas – não se implicam mutuamente – porque, se assim fosse, seria necessário referir-se a ambas. Neste trabalho pretendo discutir as condições que julgo necessárias para que as condições recomendadas no trabalho acima citado tenham continuidade, ou seja gerem um processo terapêutico.

Entretanto, se as condições necessárias à continuidade das condições terapêuticas propriamente ditas e os fatores que nelas podem intervir negativamente não podem ser diretamente terapeutizáveis pelas condições da terapia proposta por Rogers e que são o “âmago” da terapia, como podem elas ser abordadas? Resposta: pelo cuidado que deve circunscrever o processo terapêutico e suas condições de realização. Estas condições a seguir serão expostas e posteriormente comentadas.

As condições necessárias e suficientes do processo terapêutico

Para que as “condições necessárias e suficientes das mudanças terapêuticas da personalidade” sejam efetivas é necessário:

1. Que duas pessoas estejam em contato numa freqüência estável, sem variações. Que o ritmo das sessões se mantenha constante para que a terapia seja um processo;

2. Que a primeira pessoa, o cliente, tenha dúvidas e conflitos quanto a ir às sessões; que sua presença nelas nunca seja algo tranqüilo e rotineiro;

3. Que a segunda pessoa, o terapeuta, ao contrário, não tenham nenhuma dúvida ou conflito quanto a estar nas sessões; que a sua presença nelas seja sempre clara e inequívoca;

4. Que o terapeuta tenha em relação ao cliente aceitação positiva incondicional com relação às suas faltas e atrasos de maneira que estes possam ser integrados terapeuticamente à terapia;

5. Que o terapeuta tenha compreensão empática do quadro de referência interno do cliente com relação a seus conflitos em estar em terapia;

6. Que o cliente perceba, maximamente, o rigor do terapeuta quanto à realização das sessões ou a condição 3.

Comentários sobre as condições

1. Para que a terapia se torne um processo é necessário que a freqüência das sessões seja regular e constante. A ocorrência de falhas – atrasos, faltas, mudanças de horário etc. – altera imediata e necessariamente o processo terapêutico em sua própria intimidade. O processo terapêutico em sua totalidade é fundamentalmente um processo de auto-regulação no qual fatores internos e externos à relação mesma se compõem. Os primeiros dizem respeito à qualidade terapêutica da relação (Rogers) e os segundos às condições que dão suporte à continuidade da relação. No que concerne a estes, a previsão e a realização efetiva da sessão é essencial à auto-regulação do processo como um todo. A previsão, a expectativa, da sessão e sua frustração, por outro lado, engendram atitude desconfiada e de controle do processo, portanto restringindo a fluidez e a espontaneidade dele: ou o interrompendo-o ou o superficializando.

Uma forma mais simples de dizer a mesma coisa é que para que o cliente se doe ao processo terapêutico, se engaje nele, é necessário que sinta por parte do terapeuta, além da atitude terapêutica (Rogers), também a disposição efetiva, concreta, prática de atender ao cliente. O conflito entre estas duas disposições percebido pelo cliente compromete gravemente o processo terapêutico.

2. A decisão de fazer terapia e a decisão de continuar nela, quando ela é vivida como um processo real e profundo, não é fácil. A terapia, como um processo de questionamento da própria experiência, deve incluir-se necessariamente neste processo ou não será uma terapia capaz de mudanças reais. Neste sentido, o processo terapêutico efetivo volta-se contra si mesmo questionando e rompendo suas motivações e determinações primevas, descomprometendo-se com balizamentos prévios e, então, é capaz de se desenrolar por si mesmo, criando suas próprias motivações e determinações. A autonomia do processo terapêutico é facilitada ( ou possibilitada) pela recusa do terapeuta em assumir os objetivos do cliente para sua terapia: a relação terapêutica vai encontrar-se a si própria ao encontrar a própria verdade.

É conflitivo estar presente a uma situação levado por motivações e expectativas que são negadas por essa mesma situação. É conflitivo estar com um terapeuta que recusa seu projeto de terapia, lançando-o na imprevisibilidade.

Estar na terapia é viver todos estes conflitos que são conflitos em estar na sessão terapêutica independentemente de outros que dizem respeito à relação terapêutica ou ao conteúdo do que nela é tratado.

3. Para o terapeuta, o conflito do cliente em estar na terapia é a afirmação e confirmação do processo terapêutico, portanto ratificação do terapeuta em sua função terapêutica. Por outro lado, o processo terapêutico não é (não deve ser) contraditório com os objetivos que o terapeuta se propõe na terapia, nem as motivações que levam o terapeuta à terapia serão por esta questionados e rompidos – pelo contrário, deverão ser confirmados.

Assim, a presença do terapeuta na sessão deve ser a confirmação de seu investimento como terapeuta – daí a clareza da presença do terapeuta na terapia.

4. A ausência de conflitos no terapeuta quanto a estar na sessão terapêutica, pelo processo terapêutico ser a afirmação de seus objetivos e de suas motivações, possibilita que o terapeuta tenha em relação ao cliente atitude de aceitação positiva incondicional pelos seus conflitos em estar na sessão, já que estes são o próprio processo terapêutico em seu desenrolar. Isto significa simplesmente que o terapeuta aceita integralmente o processo terapêutico em sua realidade, o que possibilita a integração do conflito do cliente à sua terapia.

5. A condição anterior quando se efetiva permite que o terapeuta compreenda empaticamente o conflito que seu cliente experimenta em estar na sessão; como este conflito é vivido singularmente por esta pessoa específica em seu particular momento de vida. Aqui é importante frisar que a empatia não capta o processo terapêutico em seus movimentos, mas em seus momentos condensados em conteúdos significativos. A percepção do processo terapêutico requer outro tipo de esforço que não o empático e, oposto a este que busca a aproximação e aprofundamento, procura distanciamento perspectivo para apreendê-lo em segmentos maiores.

A percepção e compreensão do processo terapêutico não é imediatamente terapêutico como a compreensão empática, diria que é meta-terapêutico, portanto alheio ao miolo da relação terapêutica e não atingível por esta, como afirmei anteriormente. A relação terapêutica produz o processo terapêutico e não vice-versa. Porém, a apreensão quanto ao livre desenrolar deste processo, vale dizer, a apreensão quanto à direção que vai tomar a relação terapêutica a partir da compreensão empática profunda, pode impedir a conservação das condições terapêuticas. O modo do processo (posterior) impede as condições (anteriores ) que lhe dão origem.

A aceitação do processo em sua forma pelo terapeuta, permite empatizar com seus conteúdos, possibilitando seu desenrolar.

6. Para que o cliente assuma a terapia como sua, portanto, os conflitos presentes nesta situação como seus, é necessário que não sinta estes mesmos conflitos no terapeuta para que então este possa ser realmente seu terapeuta. Quando isto não ocorre, geralmente o cliente sente o terapeuta como cúmplice em um processo que ambos vivem condições muito semelhantes: ambos se defendem de uma situação que os ameaça. A relação assim distorcida, longe de ser terapêutica, é simbiótica e alienante.

Notas de rodapé, convertidas em notas de fim de texto

1. KIRSCHENBAU, Howar Henderson, Valeri Land The Carl Rogers reader. Hougton Mifflin Company. Boston, 1989

2. idem, ibidem, p. 221 (o grifoi é meu)

Trabalho apresentado no III Fórum Brasileiro da A.C.P. realizado entre os dias 10 a 16 de outubro de 1999, em Ouro Preto, Minas Gerais