AS ESTAÇÕES E NOSSAS VIDAS: Uma vivência Interior..

Djalmira Santiago Junqueira Ayres, Eliane J. P. Figueiredo dos Santos e Nadja Naíra Silva e Silva

Sol de Primavera>

Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos

Quero ver brotar o perdão onde a gente plantou juntos outra vez

Já sonhamos juntos semeando as canções no vento

Quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar

Já choramos muito, muitos se perderam no caminho

Mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer

Sol de primavera abre as janelas do meu peito

a canção nós sabemos de cor

só nos resta aprender…

Beto Guedes

INTRODUÇÃO

Diante dos constantes desafios da vida, da atualidade, e das inúmeras problemáticas do cotidiano, somos convidados a refletir acerca das nossas escolhas de caminhos frente a vida, de modo a agir na construção da nossa própria paz, harmonia, saúde, felicidade, com pequenos mas firmes esforços. Somos em realidade, os artífices de nossas vidas.

Como podemos observar, a reflexão constitui um desafio para o homem contemporâneo. Sendo atraído pelas conquistas externas e convidado às atividades intelectuais, cansa-se, desgasta-se com facilidade, buscando renovação e bem-estar nos desportos, nas férias, nos passeios…

Embora os resultados saudáveis que adquire nos divertimentos, no repouso e na variação da atividade, a reflexão, que lhe favorece a um aprofundamento dos valores da vida, serve-lhe de preciosa ajuda para que ele possa dar conta com equilíbrio e entusiasmo mesmo as circunstâncias adversas.

A reflexão para a paz é conquista que a mente deve incorporar ao cotidiano das atividades humanas. Todos aspiram a paz, a felicidade, como conquistas máximas, sendo essencial a luta inadiável para torná-las presente nas matrizes do pensamento e do sentimento.

Conquistar esta meta é um compromisso que o homem inteligente não pode negligenciar, haja vista ser indispensável e urgente, para a conquista da auto-realização, da felicidade.

Só existe felicidade em quem consegue olhar sua verdade e dentro dessa realidade estabelecer normas de conduta adequadas, não carecendo de ações desculpistas ou de fuga.

A felicidade relativa é possível e se encontra ao alcance de todos os indivíduos, desde que possam ter aceitação dos acontecimentos conforme se apresentem.

O amadurecimento psicológico, a visão correta e otimista da existência, servem de base para que se conquiste a felicidade possível. É nessa busca que se encontram os grandes desafios existenciais responsáveis pelas contínuas realizações humanas. Ser feliz tem a ver com o que o indivíduo é e com o que ele pensa ser.

Assim,é imprescindível que se possa enfrentar com autonomia, responsabilidade e leveza o momento que se atravessa na vida, compreendendo o significado profundo das experiências vivenciais. Enfim, das fases naturais da vida de cada um.

Através da observação, torna-se visível que o período entre os 18 e os 50 anos representa o centro da vida mais ativa, uma época de desenvolvimento e oportunidades. A vida segue um padrão, um modelo de estágios no desenvolvimento, embora cada ser seja único, o qual, sendo conhecido, favorece a um experienciar com mais equilíbrio e serenidade.

Importante se faz a consciência de que vivemos ciclos, que nada se perpetua a nível de experiências vivenciais. Afinal, tudo passa… e saber disso, certamente nos dá mais força, coragem, paciência, perseverança e principalmente esperança para continuarmos os nossos passos – às vezes longos e outros bem curtos – na longa estrada evolutiva. Que na luta pela realização dos nossos sonhos e quando olharmos “A Lista” de Osvaldo Montenegro, embora tenhamos muito o que chorar, encontremos também alegrias, realizações e conquistas a serem feitas. Que continuemos a não desistir dos nossos sonhos, pois que, se não sonharmos, não teremos futuro…

A Lista

Faça uma lista de grandes amigos

Quem você mais via há dez anos atrás

Quantos você ainda vê todo dia

Quantos você já não encontra mais

Faça uma lista dos sonhos que tinha

Quantos você desistiu de sonhar

Quantos amores jurados pra sempre

Quantos você conseguiu preservar

Onde você ainda se reconhece

Na foto passada ou no espelho de agora

Hoje é do jeito que achou que seria?

Quantos amigos você jogou fora

Quantos mistérios que você sondava

Quantos você conseguiu entender

Quantos segredos que você guardava

Hoje são bobos ninguém quer saber

Quantas mentiras você condenava

Quantas você teve que cometer

Quantos defeitos sanados com o tempo

Eram o melhor que havia em você

Quantas canções que você não cantava

Hoje assobia pra sobreviver

Quantas pessoas que você amava

Hoje acredita que amam você

Oswaldo Montenegro

A natureza a todo o momento está a nos convidar ao aprendizado das grandes lições da vida, e com muita ternura e sabedoria nos diz que as Estações de Nossas Vidas são tão ricas de beleza e criatividade quanto as que Deus nos oferta no Inverno, Primavera, Verão e Outono…

Portanto, é na natureza que temos encontrado exemplos extraordinários de superação dos nossos momentos de crise cheios de dor, angústia, medo, ansiedade… mas, acima de tudo a fé na vida, no homem, no que virá. Um nascer, crescer, morrer, renascer continuamente.

Então, é tempo de recomeçar como se fosse sempre a primeira vez…E é, com muita alegria que procuramos compartilhar com quem o queira e deseje esta vivência que tanto tem nos enriquecido, com a certeza que no cultivo e oferta das nossas flores íntimas, estamos contribuindo de forma positiva para que o mundo seja um lugar mais belo, melhor e mais feliz para todos.

FASES DE DESENVOLVIMENTO HUMANO

Ao contrário dos demais seres vivos, o ser humano já nasce predisposto a ter companheiros. Sua condição ao nascer é de total dependência da mãe. Precisa que ela, ou um substituto, lhe dê os cuidados básicos, sem os quais, não será capaz de sobreviver.Não é como os animais, que já nascem praticamente com capacidade até mesmo de andar e de se alimentar. Traz a necessidade de se relacionar com seus geradores e cuidadores. Nenhum ser humano é indiferente a outro ser humano. Pode até não demonstrar, mas percebe sempre sua presença. A força relacional é praticamente instintiva na espécie humana. E é nessa relação consigo mesmo, com o outro e com o mundo que ele vai amadurecendo psicologicamente, conquistando a paz, auto-realizando-se, fazendo-se feliz

Infância

A infância é o exemplo natural da verdadeira alegria. Por ainda não sentir culpa, a criança, toda ela esplende num sorriso, é espontânea, vibra no contato com as coisas simples e por inocência até mesmo com situações perigosas. É um momento de muita alegria de viver.

É através do convívio com outras crianças que as crianças se vêem, trocam olhares e se identificam, formando uma auto-imagem de si mesmas.

Movimentos, vozes, lugares, músicas, coloridos alegres e bonitos, prendem sua atenção. Os desenhos e os bichinhos de pelúcia, são seus preferidos porque desde cedo elas gostam de gente.

As crianças maiores brincam no corpo-a-corpo, numa avaliação e formação de padrões comparativos.

Juventude

Na puberdade, buscam a identidade sexual, através da inundação dos hormônios, num terremoto corporal, causando mudança radical física e nas emoções. É época de convulsão familiar

O feminino e o masculino diferenciam-se bastante , onde cada qual apresenta um comportamento característico, resultante da dobradinha hormônios/cultura.

Na adolescência, procura a identidade social. É a fase que pode ser comparada à etapa em que as árvores frutíferas dão flores, quando estas, geralmente ficam na parte mais alta, bem expostas ao sol. Supercoloridas e perfumadas, elas chamam a atenção de todos os polinizadores. Os adolescentes são ao mesmo tempo flores e polinizadores.

Assim, a juventude, não é somente um estado biológico, característico de determinada faixa etária. É também todo o período em que se pode amar e sentir, esperar e viver, construir e experimentar necessidades novas e edificantes.

O período juvenil, limitado entre a infância e a idade da razão, é de muita significação para o desenvolvimento real do indivíduo, porque abre espaços existenciais para a aprendizagem, fixação dos conhecimentos, ansiedades de conquistas e realizações, em um caleidoscópio fascinante. É também o período da imaturidade, do desperdício de oportunidades, porque tudo parece tão distante e farto, que os prejuízos de tempo e produção não têm significado profundo, dando nascimento a futuros conflitos que necessitam ser vencidos.

Maturidade

Às flores seguem-se as frutas, a produção das árvores. É o ser humano maduro, produtivo, que trabalha, se compromete seriamente com outra pessoa, tem filhos, constitui sociedades, estabelece territórios etc.

Segundo Gail Sheehy, em seu livro Passagens, “ao atingirmos a idade madura, em meio aos trinta ou aos quarenta anos, tornamo-nos suscetíveis à idéia de nossa própria transitoriedade. Não estamos preparados para a idéia de que o nosso tempo possa vir a se esgotar, ou para a verdade assustadora de que se não nos apressarmos em cumprir nossa própria definição do que seja uma existência relevante, a vida pode tornar-se uma rotina de meras obrigações de sobrevivência e manutenção. Tampouco prevemos uma grande reviravolta dos papéis e das regras que possam ter confortavelmente nos definido na primeira metade da vida, mas que têm de ser organizados em torno de um núcleo de valores pessoais imensos na segunda metade”.

Em circunstâncias normais, essas questões vinculadas com a idade madura são reveladas no transcurso de vários anos. Temos tempo de nos ajustar.Entretanto, quando são jogadas sobre nós de repente, não conseguimos aceitá-las imediatamente. O declive da vida chega com força excessiva e rápido demais.

Ainda que essa nossa jornada possa ser uma viagem comum, sem nenhum acontecimento externo que a assinale, por fim todos nós nos confrontamos com a realidade da nossa própria morte. E, de uma forma ou de outra, temos de aprender a aceitá-la. A primeira vez em que percebemos essa mensagem provavelmente é a pior.

Tentamos fugir à tarefa de assimilar nossas próprias falências e destrutibilidade, bem como o lado destrutivo do mundo, Ao invés de aceitarmos os fantasmas indesejados, procuramos afugentá-los recorrendo às técnicas que já deram certo no passado.

A primeira dessas técnicas é acender a luz. Isso sempre fazia com que os fantasmas fossem embora quando éramos pequenos. Adultos, traduzimos essa técnica na aquisição do conhecimento correto, o que na maioria das vezes não traz a explicação total, mostrando que nem sempre acender essa luz faz desaparecer o medo..

Uma segunda técnica consiste em gritar por socorro. Quando uma criança tem medo, chama uma Pessoa Forte para interromper esse medo e fazer com que ele suma. Depois, aprende ele próprio essa técnica e torna-se capaz de eliminar a maioria dos medos irracionais. Mas o que acontece quando chegamos a um medo que não conseguimos fazer desaparecer? Ninguém possui qualquer mágica contra a mortalidade. Todos aqueles a quem incumbimos dessa missão nos decepcionam.

Um terceiro método está em ignorar o medo, enchendo-nos de trabalho, fingir que nada mudou. Contudo, as mesmas sensações costumam persistir. Não podemos fazer de conta que não nos perguntamos onde estamos e aonde vamos, fingir que não temos muitas vezes, uma sensação geral de estar perdendo o equilíbrio. Equilibrar-se é, falando simbolicamente, agüentar-se sobre os dois pés. É a condição que conseguimos, quando crianças, ao começar a caminhar. Mesmo então, ao aprendermos a assumir parte da responsabilidade por nós próprios, sentimos ao mesmo tempo que ganhávamos imensos poderes novos e que perdíamos nossos apoios protetores. A principal tarefa da idade madura consiste em renunciar a todas as nossas proteções imaginárias e ficarmos de pé, nus no mundo, como o ensaio para assumirmos plena autoridade sobre nós próprios. O medo é: E se eu não conseguir me agüentar em meus pés?

O temor da morte é assustador demais para ser encarado de frente, e por isso ele insiste em voltar, sob vários disfarces: como aviões desgovernados, pisos balouçantes, varandas instáveis, brigas de amor, misteriosos defeitos em nosso equipamento físico. Iludimos esse medo fingindo que tudo vai como sempre. Algumas pessoas apertam com mais força o seu acelerador profissional. Outras jogam mais tênis, futebol, dão mais uma volta na pista de corrida, organizam maiores festas, procuram carne mais jovem para sua cama.No entanto, mais cedo ou mais tarde uma avalanche de pensamentos, visões distorcidas e nítidas de envelhecimento, solidão e morte, juntam força suficiente para esmagar temporariamente nosso pressuposto fundamental: “Meu sistema está em bom estado de funcionamento e posso ficar de pé sempre que desejar”.O que acontece se não pudermos confiar nem mesmo nisso? Começa então a luta renhida entre uma mente que procura expulsar esses pensamentos e visões e as perguntas intensas da segunda metade da vida, que insistem em bater à porta dos fundos dessa mente, dizendo: Você não pode nos esquecer!

O trabalho representa outra maneira de nos mantermos ocupados. Às vezes o medo torna o trabalho impossível.Abandonamos todo o mundo que pensávamos ser – a pessoa carinhosa, destemida, generosa, ambiciosa, que vivia num mundo humano, sensato, alegre – então passa a ver o lado sombrio.Os temores insondáveis são: Vou perder meu quadro estável e todas as qualificações profissionais que me mantêm… Vou acordar em algum lugar desconhecido… Vou perder todos os amigos e conhecidos… De repente, não serei mais eu… Vou ser transformado em alguma outra forma, execrável… numa pessoa velha.

São os pontos críticos dos nossos ciclos de vida., onde sentimos inquietações, às vezes mudança drástica de perspectiva, freqüentemente misteriosas insatisfações com o rumo que seguíamos com entusiasmo alguns anos antes. Aí percebemos que não nos equipamos com nenhuma compreensão real do mecanismo interior, da noção que mesmo quando adultos podemos alternar entre marchar no passo certo e estar em desequilíbrio com nós próprios e com as forças do nosso mundo. Nada disso faz parte da programação cultural.

O período entre os 18 e os 50 anos é o centro da vida, a fase de maiores oportunidades e máxima capacidade. Mas se não dispusermos de um guia para as mudanças interiores que se operam no caminho para a plena vida adulta, estaremos nadando às cegas. Quando não nos “ajustamos”, tendemos a considerar nosso comportamento como prova de nossas deficiências, e não como um estágio válido desdobrando-se numa seqüência de crescimento, uma coisa que todos nós aceitamos quando é aplicada à infância. É mais fácil ainda jogar a culpa por nossos períodos de desequilíbrio a pessoa ou instituição mais próxima: nossa mãe, nosso casamento, nosso trabalho, a família nuclear, o sistema.

Portanto, percebemos que a vida adulta apresenta a perspectiva de mudanças contínuas e previsíveis e que a vida depois da adolescência não é um longo planalto. Mudanças não são apenas possíveis e imagináveis; negá-las representa tornarmo-nos cúmplices de nossa própria vegetação desnecessária.

Um novo conceito de vida adulta, um conceito que abarca todo o ciclo da vida, está questionando os velhos pressupostos. Se considerarmos a personalidade não como um dispositivo que, em essência, está pronto e acabado na época em que termina a infância, mas como uma coisa cuja essência está em constante desenvolvimento, então a vida aos 25 ou aos 30 anos, no limiar da meia idade estimulará seu próprio interesse, surpresa e alegria de descoberta.

Todo mundo tem dificuldades com as fases do crescimento interior, mesmo quando os obstáculos externos parecem facilmente transponíveis. Ademais, em nossa sociedade, os louros são reservados a realizações externas, e não às internas. Raros são os troféus concedidos pela conciliação de todas as forças que competem pela orientação de nosso desenvolvimento, ainda que trabalhar em favor dessa conciliação, a cada hora difícil, a cada dia triunfante, a cada ano exigente, seja o que determina todo o crescimento da personalidade. Essas experiências ensinam-nos a cada dia que nenhuma idade e nenhum fato podem, por si sós, impedir o espírito humano de ultrapassar suas antigas fronteiras.

Assim, caminhamos para a maturidade psicológica que se faz de forma acidentada, através de sucessos e repetições, por formar um quadro muito complexo na individualidade humana.

Velhice

Numa visão materialista, hedonista, a velhice se apresenta quando o indivíduo se considera inútil, quando experimenta o desprestígio da sociedade preconceituosa. Pode-se observar na atualidade que os conceitos que limitam o início da velhice quando surgem os sinais de decadência orgânica, estão plenamente ultrapassados. Muitos são os idosos que apresentam excelente estado orgânico, bem mais saudáveis que muitos jovens.

A velhice é inevitável, circunstância biológica de desgaste que atinge todos os seres vivos.Resulta do esforço do organismo para dar conta de sua funcionalidade.

A Terceira idade, como tem sido chamada, deve representar sabedoria, riqueza decorrente das experiências, período próprio para o repouso.Muitos pensam de forma indevida que é a fase das enfermidades degenerativas, dos distúrbios emocionais, dos desajustes sociais e do enfraquecimento, quando já se perdeu a utilidade, por não se poder contribuir ativamente para o bem da comunidade.

“A velhice deve ser considerada inevitável e ditosa pelo que encerra de gratificante, após as lutas cansativas das buscas e das realizações. É o resultado de como cada qual se comportou, de como foi construída pelos pensamentos e atitudes, ou enriquecida de luzes e painéis com recordações ditosas ou infelizes”…

Joanna de Angelis (Elucidações Psicológicas pg. 354)

Portanto, temer a velhice é conduta injustificável, que o indivíduo que atingiu a maturidade psicológica, já consegue superar, percebendo que não apenas aos idosos surgem as enfermidades, bem como o deperecimento das forças e a falta de prazeres exaustivos.

O Ser Psicológico Maduro

O ser psicológico maduro enfrenta desafios e vence-os com naturalidade, sem pressa, confiando no próprio crescimento e nos recursos de que possa usufruir na convivência social. Quando se fragiliza, pára, reflete e recomeça, procurando fortalecer-se na própria luta, evitando fugir, porquanto esse recurso não leva a nada.

A maturidade psicológica é um processo de experiências felizes e ingratas que leva a escolhas por parte do indivíduo do que lhe é de interesse real, tornando-o o responsável por seus caminhos, mesmo em condições não ideais.Com tal compreensão, luta e trabalha para realizar suas metas de bem-estar. Tem a visão do processo de realização e investe com confiança, onde as dificuldades são sentidas como oportunidades para o crescimento.Emocionalmente já apresenta certa estabilidade, não se exaltando ante o sucesso, nem se deprimindo frente ao fracasso, que simplesmente serve de aprendizado para situações futuras.Desta forma pode identificar os problemas relacionados ao medo, à insegurança, à culpa e à vergonha, como fenômenos normais do processo de crescimento emocional e moral.

Assim, sabe que não é fácil viver uma vida adulta. E como na infância, cada passo implica não apenas novas tarefas de desenvolvimento, mas uma exigência ao abandono de recursos usados anteriormente. A cada etapa, faz-se essencial renunciar a ilusão de segurança e algum sentido confortavelmente familiar de identidade, é preciso levar em conta a dilatação da própria individualidade. É momento de muita hesitação, mas permite o desenvolvimento.E, parece que os momentos de crise, de desagregação ou de mudança construtiva, são previsíveis e desejáveis para as pessoas.

Atingindo a maturidade moral, surge naturalmente a maturidade social, visto que com o autoconhecimento que lhe favorece o constante trabalhar de suas necessidades interiores, consegue relacionar-se de forma harmônica no grupo, com atitude de compreensão, sendo líder natural, que proporciona bem-estar e alegria de viver em sua volta.

Conhecer para Ser

Não somos diferentes da lagarta que precisa romper a crisálida para tornar-se borboleta, voando alto e embelezando os jardins do mundo. O processo de transformação se faz árduo porém com muita riqueza e beleza, favorecendo-nos a conquista da felicidade tão sonhada.

A cada passagem de um estágio do crescimento humano para outro, também é necessário que mudemos uma estrutura de proteção. Ficamos expostos e vulneráveis, mas também capazes de nos estendermos de modo antes desconhecido. Essas mudanças podem durar vários anos. Contudo, ao sairmos de cada um dos estágios ou ciclos, penetramos num período mais prolongado e mais estável, no qual vivenciamos certa tranqüilidade e uma sensação de reconquista de equilíbrio.

Somos afetados por todas as nossas experiências. Formaturas, casamento, filhos, separação, divórcio, emprego que se consegue ou se perde… são os fatos concretos de nossas vidas.Um estágio de desenvolvimento, entretanto, não se define em termos de acontecimentos como esses; o que define são mudanças internas. Haverá sempre o impulso fundamental para mudanças , não importando que se manifeste ou não num acontecimento como esses, ou seja por ele acentuado.

A qualquer tempo, a vida de uma pessoa incorpora aspectos internos e externos. Externamente, encontramos nossas participações culturais: nosso emprego, nossa classe social, nossos papéis familiares e sociais, a forma como nos apresentamos e participamos no mundo. Interiormente, encontramos os significados que essa participação traz para cada um de nós.Gail Sheehy, nos convida aos seguintes questionamentos :De que modo nossos valores, metas e aspirações estão sendo fortalecidos ou violados por nosso atual sistema de vida? Quantas partes de nossa personalidade podemos “viver” e quais estamos reprimindo? Como nos sentimos com relação à nossa maneira de viver no mundo a qualquer momento dado?

É interiormente que situações cruciais acontecem, levando-nos muitas vezes ao desequilíbrio, trazendo-nos a necessidade de mudança de atitude. Tais circunstâncias cruciais ocorrem durante toda nossa vida, entretanto, nem sempre estamos dispostos a reconhecer que possuímos um sistema de vida interno e que só podemos atingir nossa meta de paz, auto-realização, felicidade se nos arvorarmos ao : Conhecer para ser, traduzir-nos e a partir de, recriar-nos…

MEDITAÇÃO : As Quatro Estações

Pe. Airton Freire

Atenção, para ti que nos escutas em retribuição à vida pela pura alegria de viver, queremos partilhar contigo As Quatro Estações. Bom proveito, e aprende de início esta lição: cada estação do ano, assim como, cada fase da vida, tem sua dor e seu encanto.

Contigo, o Inverno primeiramente:

Assim como atravessamos certos momentos da vida, com menos ou intenso frio, com menor ou maior solidão, o inverno chega. E se não nos dermos por conta de que a sua duração já está determinada a ser breve ou longa, dependendo da intensidade com que o vivermos, poderemos até nos perder e nos inquietar com o que traz cada estação. Poderemos até nos fixar demasiadamente no lado da dor, da perda, da falta, da carência, da iância, da brecha, da falta ser. Do despojamento que ele nos traz e não olharmos para o seu aspecto fecundo, educador, construtivo, bom, que ele traz consigo.

Não nos esqueçamos, de que por baixo do gelo, germinam flores. A estação do inverno precede a estação das flores. Sabermos disso por antecipação, até que nos ajuda a suportar o frio, ajuda-nos, se possível até, a nos curvar à tempestade fria que não respeita a posição, o local, a situação em que estamos .

Lembremo-nos de que é preciso por vezes, nos curvar para dar passagem ao vento que como que cego, surge veloz, queima, caustica, sem dar-se ao menos por conta, de que somos árvores também.Que como elas, estamos presos a esta vida, a esta terra, pelas raízes e como o vento somos partes da natureza. Só que ele por vezes se nos apresenta, hora em forma de brisa, hora em forma de violenta rajada.Estar de sobreaviso a essas possíveis mudanças de direção, intensidade ou calor do vento, equivale a começar a viver com equilíbrio, com sabedoria.

Acho que se perguntássemos a árvore o que a faz sofrer mais na natureza, talvez ela dissesse: não é tanto o calor que vem do verão, do sol quando se faz quente. Mas é a frieza do vento que passa cortante, como que indiferente, sem considerar o que vai pela frente. Mas o inverno passa e como tudo que passa, também com seu valor, esse tempo passará.

Primavera:

Com tua maneira, suave, discreta, sóbria e sábia vais fazendo a transição. Momento difícil é o de toda transição tu bem sabes. Uns transigem, outros tornam-se intransigentes, mas tu sabes esperar. Tu marcas teu momento com equilíbrio, com passos seguros, para não tropeçar. Se a transição fizer-se com turbulência, dificilmente não deixará seqüelas. E o perigo maior de toda travessia, é ignorar contornos, detalhes, idiossincrasias, e achar que se pode fazer tudo por acreditar correta sua visão de mundo e das coisas e ter por inacabado, falho, desnecessário, carente de reforma tudo quanto até então se fez.

Quem na transição não se coloca no veio do que está mudando, corre o risco, na melhor das intenções, de cometer, de repetir erros passados. Mas tu sabes, administrar contrastes e é preciso na vida saber fazê-lo, sem o que nós próprios seremos atropelados e nunca chegaremos a bom termo, aonde quer que entendemos chegar.

Para todo aquele que se precipita a queimar etapas, tu ensinas, a partir de ti, que o momento propício chegará. E o que faz o encanto de todo ato não é tanto aquilo que é feito, mas a maneira como se chegou a se fazer e a alcançar.

Verão

Quando tu te prolongas, conhecemos a estiagem, e se esta se arrastar por meses, ou anos a fio, sofreremos os rigores da seca. Se teu rigor tornar-se estremado, causarás de imediato desequilíbrio. Em tempo de aridez, nossa alma geme e sofre e com gemidos inexprimíveis, busca a água que lhe possa saciar a sede, como a terra seca precisa de água no sertão.

O prolongamento da estiagem, é momento que faz sofrer. Sofre quem não tem e tem que ter pra dar. Sofre quem mesmo tendo, não sabe do bem e da alegria que acompanha quem partilha, quem sabe dar, sem humilhar.

Na aridez, precisamos ser constantes, tanto quanto temos sido, tanto quanto já o formos antes. Na aridez, sentimo-nos completamente sós, embora sós nunca estejamos. E quando a falta é por demais sentida, quem se lembra do bem que faz, ao não se precipitar e considerar, assim como veio, a aridez passará.

Outono:

A sua chegada se anuncia, com o soprar do vento frio que vem do norte. Conhecemos já seus sinais. Há certas chegadas que dão sinais de proximidade, esfriando-nos não sei , que região da nossa alma. E nos põe de sobreaviso e trazem-nos à lembrança, outros outonos já acontecidos em nossa vida.Cada um veio ao seu modo, tivemos por momentos, e disso bem sabemos, que perder nossa folhagem, deixando-nos renovar. Questionarmos. Adaptando-nos a melhor forma possível de ser, sem contudo perder, o que nos é essencial.

O outono chega, o outono passa. Invernos chegam e passam, primaveras também, também o verão. Mas o verão também passará. Nesse pensamento e nessa perspectiva, poderemos com maior desenvoltura, desembaraço, leveza, viver a vida, encantar-se e encantá-la, sem viver o fatalismo de só ver e deixar o tempo passar.

Outono irmão, tu em tua sabedoria, ensina-nos que de prontidão, precisamos sempre estar, mostra-nos que toda partida é recomeço, que para quem parte há sempre algo ou alguém a esperar.

Obrigado pelo que nos ensinas, obrigado! Contigo aprendemos a sabedoria dos humildes, exposta e partilhada em cada estação. Em razão disso, valeria agora, pela primeira vez, perguntar: em que estação estás agora, vivendo? Não falo da que vemos, mas daquela que em nosso íntimo ser experimentamos. Qual sua leveza, sua dor, seu peso e seu encanto? E, se ainda puder, qual tem sido a mais difícil de enfrentar? Vale a pena pensar.

No outono, as árvores perdem a folhagem em alguns momentos de nossa vida, também precisamos isso fazer.

Caro outono, tu nos ensinas a manter e a preservar , apenas o que é essencial. Se no lugar das folhas, perdêssemos o caule, ou perdêssemos as raízes, o que seria de nós? Se no lugar de mudarmos as cores de nossa roupagem, se ao invés de deixarem as folhas caírem, irem-se, se ao invés disso, perdêssemos a seiva que vem da raiz e percorre o tronco, o que seria de nós? Tu nos ensinas que na vida, é preciso preservar o que é essencial,

A aparência que por vezes tomamos de árvores sem brilho, sem folhas, não é senão, transitória, porque, sem a folhagem que caindo à terra, seca e com ela se mistura e sem chuva, que transforma tudo em húmus, ela a terra, não se tornaria fértil

Perder para poder ganhar é preciso, Tu tens caríssimo, a virtude de nos ensinar a ser humildes, de nos fazer ver a transitoriedade das coisas . Tu nos preparas para mais um recomeço de um novo ciclo de estação e é preciso se recomeçar sempre como se fosse a primeira vez. .

CONCLUSÕES

A vida parece ofertar a todos os seres, incessantemente a oportunidade de recomeçar, evoluindo através de ciclos. É o vai e vem das ondas do mar, a subida e descida das marés, a fases da lua, o dia e a noite, a vida e a morte…

A árvore que tem os galhos podados a golpes de machado recomeça, sem alarde, o trabalho interior para gerar novos ramos que a tornarão mais forte.

Também assim acontece com o ser humano, que ao longo de sua existência no mundo, depara-se com inúmeras situações que impõem a necessidade de recomeçar.

Geralmente, apresentam-se na forma de aparentes derrotas e fracassos, decepções e quedas. Entretanto, longe de representar o aniquilamento inapelável, constituem convites da vida para que o ser se fortaleça, reavaliando experiências e seguindo adiante na luta árdua do vencer a si mesmo e não aos outros.Sabe que, só tomando em suas mãos as rédeas da sua vida, alcançará a conquista da paz e da felicidade.

Sabemos que todos desejamos a felicidade, contudo, muito poucos dentre nós conseguimos realizar essa façanha.

Lutamos de várias formas na tentativa de encontrar a verdadeira felicidade e evitar o sofrimento. Aí, vamos em busca de pessoas e coisas para preencher nossos vazios existenciais, repletos de medos e ansiedades.

Nada há de errado em se conseguir relacionamentos e posses. O problema é quando as coisas significam a causa de nossas alegrias e felicidade, quando não temos a consciência da sua transitoriedade.

Tudo muda constantemente por natureza e eventualmente desaparece: nosso corpo, nossos amigos, nossas posses, nossos bens, o meio ambiente.

Desta forma, ao entregarmos nossas razões de felicidade a coisas efêmeras, estamos decretando para nós o sofrimento, as decepções, medos e desesperanças.

O fato é que experimentamos a felicidade com coisas exteriores a nós , mas isso não nos traz satisfação real, nem nos liberta dos nossos problemas. Trata-se de uma felicidade fugaz, ilusória, que nos amedronta, pois temos medos de nos deparar com a realidade das coisas não estarem mais ali. Não precisamos deixar nossos amigos e nossas posses para sermos felizes. Urge, entretanto, respondermos a seguinte indagação: A felicidade depende das circunstâncias ou da nossa perspectiva de vida?

Os ensinamentos Sufis, nos dizem que a um homem “ não é apenas necessário ter paciência para suportar todas as coisas, para aliviá-lo momentaneamente as dificuldades e dores, mas também ver as coisas de um certo ponto de vista. Muitas vezes é a perspectiva que muda toda a vida de uma pessoa. A perspectiva transforma o inferno em céu, pode fazer das tristezas alegrias. Quando uma pessoa vê as coisas sob um certo ponto de vista, sente cada pequena alfinetada como se fosse a ponta de uma espada atravessando seu coração. Mas, quando vê a mesma coisa de um ponto de vista diferente, o coração torna-se à prova de ferroadas. Nada pode atingi-lo, todas as coisas que lhe são atiradas são como pedras atiradas no chão, não atingem o coração.Ela pode caminhar sobre as águas”…

Qual é a nossa significação de caminhar sobre as águas ? O Sufi nos esclarece:” A vida pode ser simbolizada pela água; há aquele que se afoga na água, há outro que nada, mas há ainda um terceiro que caminha sobre ela. Aquele que é tão sensitivo que a cada alfinetada fica infeliz dia e noite, pertence à primeira categoria, a dos que se afogam. Aquele que recebe e devolve, fazendo da vida um jogo, é um nadador, não se importa de receber uma pancada, pois sente satisfação de ser capaz de devolver uma pancada com duas pancadas. Mas aquele a quem nada pode atingir está no mundo e, todavia, está acima do mundo. É o que pode caminhar sobre as águas. A vida está sob seus pés, quer as alegrias como as tristezas”.

Enfim, precisamos é abandonar nossas falsas concepções em relação as coisas e as nossas expectativas irrealistas de felicidade ao obtê-las ou mantê-las.Precisamos correr o risco de qualquer que seja a estação de nossa vida – seja em ventos frios do inverno, lindas flores da primavera, estiagem e aridez do verão, ou mesmo, a aparência de árvores sem vida do outono, nas tantas e tantas experiências que a vida nos traz – seguirmos com confiança, força e alegria, na serenidade de saber esperar, pois que, “ Há tempo de plantar, há tempo de colher”… Trabalhemos juntos, semeando a paz ao oferecermos as flores da alegria da amizade e do amor infinito. Vivamos o amor desta Primavera de luz…

Um Presente de Primavera

Hoje se inicia a primavera. A vida nos sorri com muita alegria, harmonia, serenidade e a beleza multicor dessa estação.

A luz e o calor do sol, fazem vibrar intensamente as raízes das nossas entranhas, abrindo as portas do nosso ser profundo. E no mergulho às profundezas do meu sentir, tomo contato com todas as belas paisagens que já posso saber-me ser. E, frete àquelas ainda tristes e sombrias, sinto a alegria de saber que não estou só, em abandono. Sei que teu olhar terno, teu abraço fraterno, teu silêncio eloqüente, tua ausência de censura, teu carinho sem alarde me acolhem com inteireza, propiciando-me um sublime experienciar do amor.

A alegria e a serenidade inundam o meu ser. Lágrimas de ternura e gratidão refletem o profundo de minha alma neste agora radiante e lindo. Mais uma vez agradeço à Vida, a tua presença presente. Como sou feliz por já poder aceitar-me, amar-me, mas hoje sinto, que é principalmente porque tenho a ti. Tu, a quem amo e me motivas, na grande luta por ir em busca do meu melhor.

Assim, meu coração se eleva e gratifica-se, com a alegria de poder ir em busca, das mais belas canções que possam ressoar dentro em mim; trazer do meu olhar, as mais belas paisagens do infinito e expressá-las numa terna aquarela; com minhas mãos, colher a simplicidade das flores do campo na primavera; da fonte a água pura e cristalina; da infância, minha fantasia de menina; do céu uma estrela verde pequenina; do sol, a luz, força e calor e com tudo isso a ti oferto, meus sentimentos mais sublimes: gratidão e amor .

Nadja Naíra, primavera de 2005.

BIBLIOGRAFIA

SHEEHY, Gail, Passagens, Crises previsíveis da vida adulta. Livraria Francisco Alves Editora, Rio de Janeiro, 1979

GAWAIN, Shakti, Visualização Criativa, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2002.

TIBA, Içami, Quem ama educa. Editora Gente, São Paulo, 2002.

ANDERTON, Bill: A Prática da Meditação Hoje. Editora Pensamento, São Paulo, 1995.

FRANCO, Divaldo Pereira: Elucidações psicológicas à luz do Espiritismo (pelo espírito de Joanna de Angelis). Editora Alvorada, Salvador, 2002.

Apresentado no VI Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa – Canela RS – 9 a 15/10/2005