As Experiências dos Grandes Grupos Intensivos e o Desenvolvimento da Escuta Clínica

Iaraci Advíncula

RESUMO

Este texto enfoca, inicialmente, o desenvolvimento da escuta clínica na formação do psicólogo, durante o processo de ensino-aprendizagem. São postos em relevo os aspectos formais desta formação, enfatizando-se as questões teórica, experiencial e supervisão.

No desenvolvimento das idéias são destacadas a subjetividade humana para reconhecer a periculosidade do existir e as conseqüências deste fato no ser do homem. Enfatiza-se que, ao longo de toda uma vida, sucedem-se momentos existenciais que, permanentemente, remetem o ser humano ao estranhamento de si mesmo e ao confrontamento com as incertezas. Este fato é corroborado pelas vicissitudes do mundo contemporâneo que não permitem mais o seu desconhecimento. São apontados os ideários do mundo moderno com sua ênfase nas representações racionais, como marca de toda uma mentalidade. Em decorrência, são lembrados os filósofos da finitude, como Nietzsche, Heidegger e Levinás que tematizam sobre a efemeridade da vida e vêem no reconhecimento deste aspecto o fator fundamental do viver humano.

No continuar das reflexões, enfatizam-se as experiências dos Grandes Grupos Intensivos, também chamadas de vivências em comunidade, movimentos criados e desenvolvidos nos Estados Unidos por Carl Rogers e colaboradores. Evidencia-se que viver essas experiências permite a emergência de expressões afetivas normalmente contidas e escamoteadas nas situações cotidianas, e isto, muitas vezes, é estranho e assustador. Mostra-se que o objetivo dessas experiências é descobrir possibilidades criativas de desenvolver formas novas e mais satisfatórias de viver na relação consigo mesmo e com os demais. Finalmente, defende-se a idéia de que, nessas experiências dos Grandes Grupos Intensivos, os rituais costumeiros do cotidiano são desestabilizados por acontecimentos que não encontram correspondência nas representações até então construídas, e que este fato cria condições para uma escuta desentravada do ‘outro de si mesmo’, ou seja, do ‘não eu’.

A título de conclusão, defende-se que para o desenvolvimento da escuta clínica é necessário sedeixar afetar pelos acontecimentos existenciais. E que isto exige coragem para que estes acontecimentos possam romper o cotidiano reassegurador, alicerçado pela nossa herança de pensamento, criando novas roupagens nas antigas configurações.

Introdução.

O desenvolvimento da escuta clínica implica em fatores diversos, desde uma sensibilidade peculiar até capacidades específicas desenvolvidas na formação do psicólogo e no exercício da prática profissional. É fato corrente na ciência psicológica que estes aspectos englobam três dimensões fundamentais: teórica, experiencial e supervisão.

A dimensão teórica necessita ser buscada, formalmente, nas várias modalidades de estudo, tais como, nas aulas do curso de formação do psicólogo, nas leituras dirigidas, nos seminários, nos grupos de estudo e nas pesquisas bibliográficas pertinentes. Essas são situações importantes para a apreensão dos aspectos teóricos e técnicos necessários para o desempenho profissional.

A dimensão experiencial se refere à demanda que se instala na pessoa durante o processo do seu fazer clínico e que implicará na própria busca de psicoterapia. Esse é o lugar específico para o psicólogo desenvolver o aspecto fundamental para sua formação, que é a aprendizagem sobre sua forma de funcionar e estar no mundo, seus limites e suas possibilidades.

A dimensão de supervisão constitui o lugar privilegiado para que as articulações entre teoria e prática aconteçam de forma rica e produtiva para o processo de desenvolvimento da escuta clínica.

Procedido a este enfoque, infere-se que é a supervisão o momento significativo para o processo de ensino-aprendizagem. Durante a supervisão emergem situações experienciaisque se manifestam nas interseções da relação com o supervisor, com os colegas do grupo de formação e com o próprio cliente. A relação aprendiz-supervisor é a relação através da qual se trabalhará a relação terapeuta-cliente. Nos momentos em que o supervisor escuta o psicólogo que está em formação, ao falar da sua relação com seu cliente, está propiciando a ampliação da capacidade de escuta do seu aprendiz,

“(…) o foco da supervisão não é o cliente como caso clínico ou o conteúdo da sessão em si mesmo. O foco é necessariamente a relação intersubjetiva supervisor-estagiário-cliente.” (…) “O supervisor terá um papel totalmente diferenciado do psicoterapeuta ou do professor, ao mesmo tempo em que é uma “mescla” dos dois, buscando facilitar o processo de articulação entre a teoria e a experiência vivida. Neste sentido, a supervisão é o lugar onde surgem, além do mais as naturais dúvidas e inseguranças teóricas e técnicas, ( Que fazer? Como dizer? Quando intervir?) a necessidade de autoconhecimento pessoal ( Que se produz em mim na relação com esta pessoa? Como a escuto? Minha intervenção se origina desta relação ou de minhas próprias ansiedades pessoais?) Desta forma a supervisão assinalará a própria demanda de psicoterapia no terapeuta aprendiz e o ensinará a desempenhar-se como instrumento da psicoterapia a partir do processo de dar-se conta de si mesmo, escutando em forma dupla durante a sessão, isto é, ao cliente e a si mesmo simultaneamente” (MOREIRA,1997,p.05 e p.03) .[1]
As três dimensões para a formação do psicólogo e, especialmente, os aspectos destacados para o desenvolvimento da escuta clínica, parecem ser os pontos básicos e fundamentais do desenvolvimento profissional. No entanto, existem vicissitudes existenciais que nos remetem a aspectos outros que necessitam ser sublinhados e que implicam em reconhecer a subjetividade humana como não redutível ao representável. A existência se caracteriza como um processo contínuo de desestabilização, “(…) que faz da subjetividade “um sempre outro”, “um si e não si ao mesmo tempo. (ROLNIK,1997,p.31) Ao longo de toda uma vida, sucedem-se momentos existenciais que, permanentemente, remetem o ser humano ao estranhamento de si mesmo e ao confrontamento com as incertezas.

Ressalte-se, contudo, que por conta da nossa tradição milenar de pensamento estamos, sempre, voltando e tentando nos manter nos ideais representacionais e de identidades impermeáveis.

“Faz parte da nossa milenária herança intelectual atribuir ao que verdadeiramente é, ao que nos aparece como indiscutível sendo, uma presença plena: o que foi… já não é; o que será… não é ainda; ao que parece, ser é manter-se numa identidade, numa pura coincidência consigo mesmo, como a das idéias platônicas, a de Deus na tradição cristã e a do sujeito transcendental na Idade Moderna.” (FIGUEIREDO,1996, p.4). [2]
Como resultado deste processo, instalamos nele uma rotina reasseguradora, onde reduzimos o outro e a nós mesmos a medidas limitantes e limitadoras do processo de viver. A vida para poder “(…) fluir e afirmar-se em sua potência criadora depende, antes de mais nada, da relação que se estabelece com o trágico, como se reage ao mal-estar a cada momento de nossa existência.”( ROLNIK,op.cit.,p.31) .[3]

O mundo contemporâneo está impondo ao ser humano uma convocação e um desafio, que implicam na desconstrução dos ideais da tradição filosófica das identidades e das representações. É preciso, para isto, compreender o homem como abertura, incompletude e finitude, e, nesta medida, compreendê-lo como um campo de possibilidades, e consequentemente, não redutível ao fechamento identitário e ao campo do representável.“O ‘psicológico’ constitui-se, portanto, como um meta-fenomenal que detém o segredo das condições e dos outros sentidos daquilo que se dá e se configura na experiência. Por meta-fenomenal estou designando, então, aqueles aspectos que embora constitutivos da experiência, não se mostram na própria experiência e devem ser buscados a partir da experiência, mas para além dela. Cabe aos psicólogos, em primeiro lugar, ter os olhos para ver e, no caso da clínica, os ouvidos para escutar este interditado.” (FIGUEIREDO,1995,p.29) [4] Como ter olhos para ver e, principalmente, ter os ouvidos para escutar, se permanecemos reduzindo as compreensões do humano ao mundo do representável e às nossas próprias medidas? Como compreender verdadeiramente o homem e a sua humanidade se continuamos reduzindo-o ao biológico e às idéias universalizantes? “O corpo do homem é algo essencialmente diferente do organismo animal.” (HEIDEGGER,1979, p.352) [5] É na visão de Heidegger que compreendemos que a essência do homem implica em um processo de vir a ser. O homem é um ente que se mostra no seu sendo, como pura possibilidade. Logo a essência deste eu está em sua existência. “Toda modalidade de ser deste ente é primordialmente ser” (HEIDEGGER,1988,p.78)[6] . Ser, nesta acepção, é verbo e não substantivo. Como possibilitar a emergência deste ser se o cristalizamos nas características anteriormente dadas? As verdades humanas não podem se converter em fatos acabados e permanentes; outras verdades estarão sempre se anunciando e metamorfoseando os acontecimentos passados.

Para que o desenvolvimento da escuta clínica implique na singularização do homem, com a permanente emergência do novo que permitirá ao ser humano o cumprimento do seu ofício existencial, é necessário que o psicólogo viva experiências que o leve a experimentar situações desestabilizadoras. Referimo-nos à aquelas situações existenciais em que o inesperado irrompe e “o mundo foge aos nossos pés.” Esta sensação emerge exatamente porque se perdem as referências anteriores com a irrupção da situação inesperada. Não sabemos como explicá-la: ela não cabe, ou melhor, ela excede às explicações até então válidas.

“O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles.(…) Ele mastigava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos.(…) Ana olhava. (…) – o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás,(…) – Ana deu um grito,(…) os passageiros olharam assustados.

Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida.(…) O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.

(…)O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.

(…) A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. (…) Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas na rua eram periclitantes, (…). Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde,(…). Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão.(…)

Ela apaziguara tão bem sua vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso.” (Clarice Lispector,1998, p.21,22,23). [7]

Parece-nos fundamental a vivência destas experiências para conseguirmos escapar da nossa tradição milenar de pensamento e dos conseqüentes ideais representacionais e identitários.

As Experiências Desestabilizadoras e os Filósofos da Finitude.

Colhe-se o momento oportuno para mencionar os filósofos da finitude, particularmente, Nietzsche, Heidegger e Levinás que reconhecem a efemeridade da vida e vêem neste reconhecimento o fator fundamental do viver humano. A partir da analítica da finitude, desenvolvida por estes filósofos, o conhecimento passou a ser vinculado à fisiologia e à história. A analítica da finitude propõe desconstruir a hegemonia da consciência, presente na cultura ocidental. Este domínio foi progressivo e longo, iniciado desde a antiguidade com Sócrates e Platão, consolidado no século XVII com Descartes, para, finalmente, com Kant, a consciência ser erigida como o fundamento universal do conhecimento.

“É Nietzsche quem nos mostra que esse processo faz parte de um projeto mais amplo, qual seja: disciplinar e controlar o devir das forças, criando uma metafísica e uma moral capazes de esconjurar a presença do caos e de fazer o mundo assentar-se sobre bases firmes. Em suma de substituir a aventura e o risco pela previsibilidade racional.”(NAFFAH NETO,1997,p.44) [8]
Na Genealogia da Moral, concebida por Nietzsche, todos os valores transcendentais vão ser colocados sobre suspeita, especificadamente aqueles que, são postos acima de qualquer dúvida. “A consciência é a última e mais tardia evolução da vida orgânica e, por conseguinte, o que existe nela de mais inacabado e mais frágil.” (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, In: MARTON,1991,p.36)[9]

A noção nitzscheana de além-do-homem implica na ultrapassagem da condição humana, que renunciando as defesas se expõe às forças vitais para poder participar “(…)do lógosimanente ao devir e apreender a justiça da vida(…)” Pois,”(…) justo é o jogo, o ensaio, a aventura, enfim o próprio acaso, como princípio que rege a vida.” ( NAFFAH NETO,1994, p.112-113)[10]

No conceito nitzscheano de amor fati – significando amor aos fados, ao destino, aos fatos da vida – estão presentes o reconhecimento e a aceitação da existência na sua periculosidade e nas suas múltiplas perspectivas. O homem, ao entrar em contato com a realidade e aceitá-la, reconhece que não é deus e, portanto, não tem autonomia sobre o seu destino.

Na sua obra fundamental intitulada “Ser e Tempo”, Heidegger (op.cit.), enfatiza a condição da temporalidade do ser. O homem seria o ente privilegiado no sentido de que seria o único que teria a tarefa e a responsabilidade de ser. Este privilégio implica na aceitação do dom da existência. O homem é dotado do modo de ser da pre-sença, ou seja, é nele que se dá o ser. “(…) o homem é um ser voltado para fora (ec-sistência) e esse fora é o ser. Portanto, o homem é abertura originária ao ser, pré-comprensão do ser, procura de ser.” (VASQUEZ,1999,p.3)[11] Constata-se nestas assertivas a precariedade do existir humano que se constitui na aceitação da sua ec-sistência, do seu ser a ser.

Lévinas(1997)[12] entende a subjetividade, fundada na responsabilidade pelo outro. Diz ele: “(…) eu falo da responsabilidade como a estrutura essencial, primeira, fundamental, da subjetividade. Pois é em termos éticos que descrevo a subjetividade. (…) é na ética entendida como responsabilidade que se funda o próprio núcleo do subjetivo. Entendo responsabilidade como responsabilidade pelo outro, (…) (p.31) E, termina afirmando:” (…) eu sou eu na única medida em que sou responsável. (…) É essa a minha inalienável identidade de sujeito […].” (p.34)

Esta parece ser uma posição ética fundamental do existir humano, em que, muito mais que para si, o sujeito se constitui para um outro. Na sua filosofia, Lévinas radicaliza na precedência da relação ética, a constituição da subjetividade humana. O outro não é visado como objeto. O outro afeta e é afetado, na medida da sua passividade humana fundamental. A fragilidade e a mortalidade do outro atingem e impactam seu semelhante. A sensibilização e o chamamento exercido por esta fragilidade exigem uma resposta. Há uma invasão do outro na sua alteridade e um conseqüente desalojamento do si mesmo. A constituição da subjetividade no pensamento levinasiano implica na compreensão de que dois sujeitos, em processo de constituição, são capazes de lançar apelos e de responder apelos, na proporção das suas alteridades que excedem às medidas de cada um. Levinás concebe o diálogo implicando, também, numa diacronia e disvelamento. Nesta concepção, o Tu contém um ele ou eleidade, que extrapola o Eu e o excede. “Trata-se do que emerge do encontro com a alteridade do outro, alteridade invisível e não fenomenalizável e que Lévinas designará como a eleidade do outro. Esta eleidade do outro é o que se destaca do tu como aquilo que no outro me transcende, introduzindo um “terceiro homem” em toda relação aparentemente dual. Sem a eleidade nada resistiria no tu ao poder assimilativo do eu-mesmo. A eleidade é o nome do infinito do outro, do opaco, do resistente, do surpreendente, do que no outro desfaz o “face a face”.(FIGUEIREDO,1997,p.45)[13] Para Levinás, no reconhecimento da diferença do outro, é necessário, também, reconhecer o outro do outro. Melhor dizendo, reconhecer no Tu aquilo que não é a minha medida, e, portanto, excede a minha capacidade de entendimento e representação.

Posto isto, é possível deduzir que o devir humano implica numa produção do conhecimento onde a primazia não pode ser a relação teórico-ontológica, onde o mundo e os objetos do mundo são reduzidos ao império do mesmo, e à conseqüente eliminação da alteridade.

As experiências dos Grandes Grupos Intensivos e o contato com as forças vitais possibilitadoras do devir humano.

As experiências em grandes grupos, também chamadas de vivências em comunidade, foram movimentos criados e desenvolvidos nos Estados Unidos por Carl Rogers e colaboradores, e disseminados por várias partes do mundo. Esses eventos constituem intensas experiências de grupo, onde uma grande quantidade de pessoas se reúnem, em lugares aprazíveis, próximos à natureza, durante um período determinado de tempo, permanecendo em total imersão neste lugar e nesta vida. Nessas experiências, procura-se exercitar a aprendizagem de conviver com um número diversificado de pessoas e se exercita a aprendizagem de tomar decisões e de fazer escolhas, não só com a bagagem das referências anteriores, mas, principalmente, a partir das mudanças advindas dos acontecimentos que afetam a todos. Viver essas experiências nos aproxima de um contato muito íntimo com a realidade humana, com suas lutas e conflitos. O acolhimento e a contenção grupal, que essas vivências possibilitam, permitem a emergência de expressões afetivas normalmente contidas e escamoteadas nas situações cotidianas, e isto, muitas vezes, é estranho e assustador. A aprendizagem singular é lidar com a emergência destas expressões e, principalmente, lidar com a afetação que elas causam, se deixando transformar.

O objetivo dessas experiências é descobrir possibilidades criativas de desenvolvimento, novas e mais satisfatórias, de viver na relação consigo mesmo e com os demais. A fonte produtora dessas descobertas são as vivências ocorridas durante aqueles dias e em decorrência do contato com a diversidade de pessoas e com o inusitado que aquela espécie de vida proporciona. O único acontecimento pré-determinado nesses eventos é o encontro do grupão, cujo objetivo é permitir o fluir das emergências presentes, de onde se delinearão as outras atividades. Estas são atividades diversas, efetuadas de acordo com os interesses, as expectativas, as capacidades e as necessidades de cada um. Variam desde atividades teóricas específicas, a grupos de vivências e momentos de lazer.

O grupão é o nome pelo qual é designado o momento em que todos os participantes do encontro se reúnem e, a partir do qual, surgem todas as deliberações das demais atividades do restante dos dias. É previsto a sua repetição diária, sem que isto represente uma imposição, por ser este o reduto possibilitador da manifestação e captação das forças vitais emergentes ao longo dos acontecimentos de todos os dias.

. “Num certo sentido, estes eventos não são nada além de versões comprimidas de vida real. As pessoas vivem o drama de uma vida em poucos dias. As formas, segundo as quais reagimos uns aos outros, as emoções, as regras que estabelecemos, as diferenças, os rituais, a formação de casais, a competição, fazem parte de nossa vida real. O workshop é um local, como qualquer outro, para apaixonar-se, aprender a comunicar-se, sentir-se bem ou mal a respeito de si mesmo. Talvez, ele seja um microscópio, mas é capaz de ampliar nossa visão apenas em relação àquilo que nós já sabemos, algo que já existia. Em inúmeras ocorrências, tanto sábias quanto tolas, o padrão da vida normal repete-se com uma similaridade angustiante. Egoísmo e boas ações, freqüentemente escondem-se por trás de rótulos grandiosos: crescimento pessoal, poder pessoal, espiritualidade, cooperação mundial. Casamento e divórcio, desapontamento, ganância, inveja e todos os demais dramas dos relacionamentos florescem na vida comunitária do grupo. Os participantes (…) juntos lutam, trapaceiam, mentem, competem, manipulam, enlouquecem, pensam, ajudam, se sacrificam, amam, tornam-se amigos, brincam, criam, e transcendem as habilidades comuns e as aptidões. (…) O workshop está repleto(…) de pessoas buscando superficialmente a certeza.(…)Queremos melhorar com pouco esforço. Queremos atingir mistérios que não somos capazes de produzir. E, (…) nossa luta constante por perfeição,(…) sem dúvida ajudam a impedir o ser. Somos freqüentemente bloqueados de alcançar o desenvolvimento que desejamos, por ficarmos presos num ciclo de dar, receber, e querer. Com a melhor das intenções, as pessoas, no início do workshop, rejeitam umas às outras, a fim de receber a atenção e o respeito que julgam necessitar. Quando as coisas vão bem, damos tapinhas amigáveis nas costas uns dos outros; quando não acontecem como queremos, nos acusamos mutuamente. Todos os problemas da comunidade mundial estão presentes(…).A experiência é cheia de contradições e surpresas. Quem acreditaria que o simples ato de falar com outra pessoa poderia ser uma atividade tão opressiva e frustrante? Alguém suspeitaria que um grande grupo de pessoas que têm dedicado suas vidas a ajudar os outros, a despeito da educação, do treinamento e das boas intenções, em apenas alguns minutos juntas pulariam na garganta umas das outras, da maneira que fazemos, algumas vezes, durante os workshops? Cada novo dia traz a sua própria medida de confusão e surpresas.(…)Por outro lado, de um monte de entulhos, amor, sabedoria e beleza também florescem. Com muita dificuldade, começamos a compreender nossas diferenças externas. Com grande esforço, descobrimos nossas semelhanças(…). Lutamos para descobrir maneiras de nos tornarmos seres humanos melhores, ao estarmos com outros seres humanos. Tentamos encontrar um tipo de sabedoria dentro de nós. E, algumas vezes, conseguimos. Embora a loucura se apresente, o grupo é capaz de enfrentar esta crise com uma sabedoria curativa. A comunidade cria uma medicina feita de cuidados e bom humor. Ela é capaz de rir de seus ídolos, de suas tolices, e dos dogmas inevitavelmente estabelecidos coletivamente. Se, a risada , a seriedade ou a habilidade técnica tornam-se necessárias, logo aparece a pessoa certa para fornecer isto no momento certo.

Em algum ponto (suponho que devido ao fato da razão não penetrar no irracional), as opiniões e os pensamentos estritamente intelectuais são colocados de lado. O emocionalismo, que floresce primeiro, abre caminho para a intuição e um sentimento de unicidade se desenvolve entre os membros da comunidade. Puxar e empurrar, debater com intensidade, expressar idéias e sentimentos, passam a caracterizar um processo de tomada de decisão, que não conduz a decisões democráticas, mas ações sábias. O grupo não adota um método orgânico de governo consensual; por um determinado período, a própria comunidade torna-se um ser orgânico. Nestes momentos, os indivíduos, tais como fragmentos de lentes de um par de óculos quebrados, fitam-se uns aos outros, a partir de seus próprios lugares, formando um espelho completo, inteiro, que reflete cada pessoa com total realismo. O todo não apenas reflete, mas tem um efeito peculiar, sobre cada indivíduo. Participantes de um workshop, tal como partes de um holograma, projetam a comunidade em sua totalidade. A leitura do mundo privado de alguém é também uma leitura do grupo todo. Vislumbrar a consciência do grupo eqüivale a penetrar o mundo privado de um participante. A consciência individual torna-se equivalente ao todo. Cada atividade bem sucedida da comunidade nutre a todos com criatividade, crescimento interno e promove cooperação orgânica entre seus membros.

O workshop possui indício, talvez até potencial, para a aquisição de conhecimento, autogovernabilidade e para a atualização da espécie humana.(…)

O que se pode concluir deste tipo de evento? Ele se constitui num microscópio para se olhar a espécie humana trabalhando por sua evolução, desenvolvendo novas capacidades de percepção e comunicação, para adequar-se e engajar-se num mundo em constante mudança?(…)Não compete a nós possuir a certeza deste conhecimento.(…) Nas sombras de emoção, das sensações, da imaginação, tateamos o novo. Nosso método: esperar e testemunhar.(…).” (WOOD, in:CURY,1993,p.162-167) [14]
Vivencia-se, nestas situações, o “caos enloquecedor,” e parece-nos que por isto as experiências dos Grandes Grupos Intensivos podem ser pensadas como um exemplo de experiências que possibilitam um acesso máximo à verdade experiencial. Os rituais costumeiros do cotidiano são desestabilizados por acontecimentos que não encontram correspondência nas representações até então construídas.

“Realmente participar dos encontros causa mudanças. Senti isso quando fui para o Fórum no RS e agora volto a sentir mais forte. Os outros encontros dos quais participei, não menos importantes, não me causaram tão grandes mudanças quanto estes. Tanta coisa aconteceu (…) que eu, ao chegar em casa, não sabia direito onde era o meu quarto, achava estranha a minha casa, os meus objetos. A sensação primeira foi de vazio, algo faltava, teria sido perdido?… Depois vem a sensação de reconhecimento (do quarto, dos objetos, dos espaços) e percebi que poderia estar me reencontrando, ou, quem sabe, me encontrando.” [15]
A configuração grupal, constituída pela presença de pessoas que indo além do homem são capazes de renunciar às defesas para se expor às forças vitais, oferece o holding necessário para a contenção da loucura e para o ato criativo.

“A experiência do grupão, no Encontro em Canela, Rio Grande do Sul, outubro, 1997 por ocasião do II Fórum Brasileiro, se caracterizou como uma das mais fortes de que participei. Nele foram experimentados emoções em intensidades diversas, confrontos variados e violentos. Encontros e desencontros se mesclaram desordenadamente. Momentos havia em que parecia que submergiríamos no caos. A configuração grupal aconteceu possibilitada, principalmente, por algumas pessoas significativas que, na sua coragem de ser, conseguiam, com a simples presença, criar uma contenção, para daí, então ensejar, em todos , a formação de sentidos. Algumas das pessoas que no Encontro do México tinham se ressentido com a diferença e com o estranho, e tinham deduzido que as condições oferecidas lá eram as propiciadoras de situações daquela ordem, estavam, agora em Canela, experimentando situações semelhantes. Imagino que devem ter ficado estarrecidas, ao constatar, apesar do controle que ali pensavam poder oferecer, que nada adiantava pôr em prática os princípios da teoria, diante dos acontecimentos que excediam as medidas. Os dados da vida estão a exigir novos redesenhamentos à teoria.” [16]
Nestes grupos “se rompem os hábitos e rotinas que encobrem (…) as alteridades de si” e se criam condições para se estabelecer “(…)espaços de uma escuta desentravada do que em mim não é eu,(…).” (FIGUEIREDO,1995,p.50) [17] Estas são experiências singulares de descentramento pelo que possibilita de encontro com o estranho-em-nós.

“ Os momentos mais mobilizadores dos grupões vinham à minha mente como flashs. Será que tinha vivido aquilo mesmo? Perguntava-me.

Algumas coisas foram boas (mesmos tendo sido dolorosas), mas outras coisas me fizeram questionar sobre uma possível dicotomia entre nossa teoria e nossa prática (principalmente de vida). Choquei-me sim com as atitudes violentas.” [18]
Penso que lá as “grossas artilharias metapsicológicas abrem espaço no cotidiano reassegurador e nos remetem de volta à original estranheza de “ser-no-mundo” como ser lançado enquanto um não sentir-se em casa”. Todas às vezes em que participei de vivências como estas, sentia-me potencializada como terapeuta e credito o muito do desenvolvimento da minha escuta clínica a estas vivências. Por isto que nos cursos de formação para terapeutas que já ministrei faz parte da programação experiências desta ordem. Agora sei que é porque se trata de “uma operação de descentramento indispensável: ela institui não só o espaço de uma outra escuta, mas é a fonte de uma outra possibilidade de fala.” (FIGUEIREDO,1995,p.50) [19]

Acho, também, que posso pensar os grandes grupos como uma experiência ímpar de “desalojamento do eu” pela alteridade do outro, pois nestas vivências experimenta-se radicalmente a eleidade de que nos fala Levinás, ou seja, o outro na sua diferença que “põe em xeque a minha capacidade de entender e de acomodar.” Enfim, “é um excesso”.

“Como você disse, Sônia, eu não preciso ser insana nem violenta para ser real. E nesse momento eu lembro de algo que a gente prega: respeito. Não quero magoar ninguém, mesmo porque não faz parte de mim. Mas quero que nós passemos a nos dar conta de que até que ponto estamos adotando na vida, nos grupos e em outros contextos, o respeito? Ter raiva faz parte do ser humano, gritar, espernear também, magoar também… Muita coisa ruim também…(…) Talvez eu ainda não tenha me encontrado o suficiente para escrever aqui, agora. Por isso já passei duas semanas querendo escrever e não conseguia fazer uma linha.

Acho que os grupões devem ser espaços de encontros e desencontros, de alegrias e tristezas, de amor. E quando digo amor, penso no respeito, e aí eu senti que isso nem sempre ocorreu. (…)” [20]

A Título de Conclusão.

“ (…) cada ‘presente’ está nele mesmo fraturado, como cada simples e plena ‘presença’ nada tem de plena nem de simples: traços e vestígios, de um lado, antecipações, de outro, fazem de cada presença uma heterogeneidade, ou seja, fazem de cada ‘presente’ algo diferente de si mesmo, fazem de cada ‘identidade’ uma composição heterogênea de alteridades constitutivas.” (FIGUEIREDO,1996,p.10) [21]
Desenvolver a escuta clínica implica em nos deixarmos afetar pelos acontecimentos existenciais. É preciso, no entanto, coragem para deixar que estes acontecimentos rompam o cotidiano reassegurador, alicerçado pela nossa herança de pensamento. É preciso, como pontifica Clarice Lispector(1992) [22], despertar do longo sono e voltar-se “com docilidade para o delicado abismo da desordem”. (p.121)

Desenvolver a escuta clínica implica em se deixar afetar por um saber que, como ser-no-mundo que nós somos, já nos habita. Parece, entretanto, que só saberemos “(… )como as coisas vivas sabem: através do susto profundo.” (LISPECTOR,1992,p.123)[23]. As situações existenciais, por si só, já nos oferecem estes grandes sustos. “Era impossível dar-lhe a palavra asseguradora que o fizesse não ter medo, consolar coisa que por ter nascido se espanta. Como prometer-lhe o hábito? Pai e mãe, sabíamos quão breve seria a vida (…).” (LISPECTOR,1992,p.123[24]) . Existe, entretanto, o perigo de nos entrincheirarmos, cercando a vida de hábitos, conselhos e opiniões formadas. “(…) pois meninos quando se dá a mão querem subir na cabeça. Banana não se mistura com leite. Mata.(…) Não era mais hora de estar de robe;(…) não era hora de ainda não ter tomado banho.(…) empada de legumes não tem tampa.” (LISPECTOR,1992,p.126). [25]

Desenvolver a escuta clínica implica em passar por experiências como as vividas nos Grandes Grupos Intensivos que, de forma contundente, poderão nos levar ao confronto com experiências incontornáveis e fundamentais para o devir humano. Intensas e múltiplas experiências são vividas e partilhadas, muito mais do podemos nos dar conta. “O que, por sua vez, me fizera pensar se na verdade ela não me dissera mais do que nós duas percebêramos. (LISPECTOR,1992,p.125)[26]. Muitas coisas são ditas e ouvidas sem que possamos apreender e sem que possamos avaliar as transformações que se processarão. Ganhos e perdas se sucedem. Cria-se, em muito pouco tempo, um nível de intimidade difícil de ser compartilhada na vida cotidiana. Uma peculiar rede de afetos é subliminarmente tecida. A maioria das pessoas, apesar de se encontrar durante muitos anos, e em vários encontros desta ordem, e viver neles relações profundas, dificilmente consegue manter algo equivalente no cotidiano de suas vidas. Isto porque nestes encontros “(…) as relações primordiais não se tecem entre pessoas, mas entre circuitos afetivos que ora se enfrentam, ora se espelham; vivências de dor e de alegria que explodem e se multiplicam em formas singulares; forças que ora se condensam, ganham potência e rompem prisões simbólicas, ora se deslocam por todo espaço grupal, como mãos energéticas acolhendo e sustentando as emoções mais viscerais.” ( NAFFAH NETO,1994, p.103).

Desenvolver a escuta clínica implica, finalmente, em pararmos para nos darmos conta e “(…)no silêncio da atenção (…)” sermos forçados a ouvir e conseguir ver o que “(…)antes nunca vira(…).” E, termos “a coragem de ser o outro que se é, a de nascer do próprio parto, e de largar no chão o corpo antigo.” (LISPECTOR,1992,p.131). [28]

Notas de rodapé (aqui transformadas em nota de fim de texto)

[1] V. Moreira, Supervisión en psicoterapia:un enfoque fenomenológico-existencial, Artículo elaborado a partir de ponencia proferida en el V Congresso Nacional de Psicología, en el Simpósio de Supervisión Clínica, Santiago, Chile, noviembre 7, 1997 (não publicado). A tradução da citação é da minha inteira responsabilidade.

[2]L. C. Figueiredo, Questões ontológicas (e pré-ontológicas) na pesquisa dos processos de singularização. Versão inédita de artigo anteriormente publicado no Boletim de Novidades Pulsional, 87(julho),1996.

[3] S. Rolnik, Uma Insólita Viagem à Subjetividade: Fronteiras com a Ética e a Cultura In: D Lins, (org.) Cultura e Subjetividade:Saberes nômades – Campinas, SP: Papirus,1997.

[4] L. C Figueiredo. Revisitando as Psicologias: da Epistemologia à Ética nas práticas e discursos psicológicos –São Paulo: EDUC; Petrópolis: Vozes, 1995.

[5]M. Heidegger, Carta sobre o humanismo.(1949), col. Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural,1979. p.345-374.

[6] M. Heidegger, Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes,1988.

[7]C. Lispector, O Amor, in: C. Lispector, Laços de Família, Rio de Janeiro: Rocco,1998. p.19-29.(os grifos são meus).

[8]A Naffah Neto, Nietzsche e a Psicanálise, in: cadernos Nietzsche 2, p.41-53,1997.

[9]S. Marton, Nietzsche: Consciência e Inconsciente, in: Ana Lia Aufranc…[et al.], O Inconsciente: várias leituras, São Paulo: Escuta, p.27-41, 1991.

[10] A Naffah Neto, A Psicoterapia em busca de Dioniso: Nietzsche visita Freud. SãoPaulo:EDUC/Escuta,1994.

[11]J.T.Vazquez, Angústia e Desamparo numa Perspectiva Heideggeriana Texto apresentado no V Fórum Brasileiro de Psicanálise: Psicanálise e Desamparo, Recife, 17 a 20 de junho de 1999.

[12]E. Lévinas, Entrevista com Emmanuel Lévinas, in: Cadernos de Subjetividade, São Paulo, 5(1): 9-38, dezembro,1997.

[13]L.C. Figueiredo, O interesse de Lévinas para a psicanálise: desinteresse do rosto, in: Cadernos de Subjetividade, São Paulo, 5(1):39-51, dezembro,1997.

[14]J.Wood, Trechos do diário de bordo, com reflexões sobre os processos envolvidos nos encontros de comunidade realizados durante sete anos na década de setenta, por Carl Rogers e colaboradores, in: V. Cury, Abordagem Centrada na Pessoa: um estudo sobre as implicações dos trabalhos com Grupos Intensivos para a Terapia Centrada no Cliente, Tese de Doutorado, Universidade de Campinas, Campinas, São Paulo,1993.

[15] Texto apresentado, via Internet, por uma participante após a sua experiência num Grande Grupo Intensivo, maio,1999.

[16]Texto de minha autoria quando da elaboração do meu percurso, março,1999.

[17]L.C. Figueiredo, Heidegger e a Psicanálise: Encontros. Comunicação apresentada na Mesa-redonda “Heidegger e a psicanálise” no Colóquio Heidegger, promovido pelo Núcleo de Pesquisas das Práticas Clínicas da Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP em novembro de 1995. p.39-51.

[18]Ibidem, nota 15.

[19]Ibidem, nota 17.

[20] Ibidem nota 15.

[21]Op.cit. nota 2.

[22]C. Lispector, A Legião Estrangeira, in: C. Lispector, A Legião Estrangeira, São Paulo: Siciliano,1992.

[23]Ibidem, nota 22.

[24]Ibidem, nota 22.

[25]Ibidem, nota 22.

[26] Ibidem, nota 22.

[27]Ibidem, nota 10.

[28] Ibidem, nota 22.

Apresentado no III Fórum Brasileiro – Ouro Preto – outubro 1999