Atuação da Psicologia na Instituição Asilar numa Abordagem Centrada na Pessoa – O Sentimento de Afetividade como Fonte de Longevidade com Qualidade de Vida

Ana Maria Pacheco Souza

Resumo

Através da abordagem Centrada na Pessoa, é realizada a intervenção pelo Serviço de Psicologia, junto a idosos em Instituição Asilar. Além das avaliações, entrevistas e atendimentos individuais, realizamos três atividades grupais estimulando a reflexão, o incentivo a leitura e atividades corporais para prevenir a saúde mental e física, propiciando melhor qualidade de vida ao idoso. E compreensão da importância nas mudanças de paradigmas nas Instituições Asilares.

VELHAS ÁRVORES

Olavo Bilac

Olha estas velhas árvores, mais belas

Do que as árvores novas, mais amigas:

Tanto mais belas quanto mais antigas,

Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas

Vivem, livres de fomes e fadigas;

E em seus galhos abrigam-se as cantigas

E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!

Envelheçamos rindo envelheçamos

Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,

Agasalhando os pássaros nos ramos,

Dando sombra e consolo aos que padecem!

ÍNDICE

Pág.

I – Introdução ……………………………………………………………………………… 01

II – Histórico e Descrição atual da Clínica ………………………………………… 02

III – Marco Teórico …………………………………………………………………………… 02

IV – Objetivo Geral …………………………………………………………………………. 03

V – Objetivos Específicos ……………………………………………………………….. 03

VI – Atuação da Psicologia ……………………………………………………………… 04

1 – Procedimentos para admissão na Clínica …………………………….. 04

2 – Acompanhamento …………………………………………………………….. 04

VII – Considerações Finais ……………………………………………………………… 08

VIII –Anexo 1 ………………………………………………………………………………… 09

Anexo 2 ………………………………………………………………………………… 10

Anexo 3 ……………………………………………………………………………….. 11

Anexo 4 ……………………………………………………………………………….. 12

Anexo 5 ……………………………………………………………………………….. 13

Anexo 6 ………………………………………………………………………………. 14

IX – Bibliografia ……………………………………………………………………………. 15

I- INTRODUÇÃO

Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e da Organização das Nações Unidas dão conta de que, em números absolutos, o Brasil ostentará, em 2025, uma das maiores populações de idosos do planeta. Um crescimento que ao contrário da população européia, que envelheceu lentamente, se dá de forma muito rápida.

Em 1950, o país possuía 2 milhões de pessoas com mais de 60 anos, informação que o colocava em 16º lugar no ranking dos países com maior número de idosos. Em 2000, essa população já correspondia a 11 milhões de brasileiros e, hoje, calcula-se, ser 14 milhões. Segundo a demógrafa Elza Berquó, o número de pessoas com mais de 60 anos, que em 1980 representavam 6,3% do total de brasileiros, chegará a 14% em 2025, o que deve levar o Brasil à 6ª posição no ranking.

Consideráveis avanços nas condições de vida da população, como melhorias das situações de moradia, trabalho, alimentação e saneamento básico, além do desenvolvimento tecnológico e maior controle da natalidade, são alguns dos responsáveis pelo envelhecimento dos brasileiros.

Em 1950, a expectativa de vida de quem nascia naquela época não ultrapassava os 51 anos. Hoje, estima-se, que o brasileiro chegará pelo menos aos 68 anos.

Segundo a gerontóloga Laura Machado, consultora para assuntos da terceira idade e representante para a América Latina do Internacional Network for the Prevention on Elder Abuse, órgão internacional para a defesa dos direitos humanos dos idosos, diz: “Que a longevidade é uma conquista irreversível da humanidade ninguém duvida” e ainda: “O desejo, agora, está em garantir a qualidade de vida a esse grupo que cresce sem que as pessoas se dêem muita conta”.

Ser idoso no Brasil é lutar principalmente contra o preconceito e descriminação social. Enfrentar dificuldades próprias de uma sociedade que, em vários setores, ainda não aprendeu a lidar com seus cidadãos mais velhos.

A psicologia como categoria profissional da saúde está inserida no estudo do envelhecimento no que diz respeito à prevenção, educação, reabilitação, pesquisa e prática clínica.

Pesquisas realizadas com idosos possibilitaram identificar um desejo comum a eles: ter condições de continuar a viver sós pelo resto da vida. Isso significa que cultivam sua independência, mas têm consciência de suas limitações. Em vez de soluções meramente assistenciais, reivindicam respeito, suporte da família à distância e formas criativas de superar seu déficit funcional, sem que para isso seja preciso modificar radicalmente seus hábitos de vida.

O presente trabalho é desenvolvido com idosos institucionalizados, que voluntariamente ou não, estão na condição de moradores de uma clínica. Serão descritas as diferentes atuações, objetivos e metodologia assim como a descrição do trabalho do profissional em psicologia.

II – HISTÓRICO E DESCRIÇÃO ATUAL DA CLÍNICA

Foi fundada em 17 de dezembro de 1967 como Abrigo João Miranda em prédio adquirido pela Sociedade Portuguesa de Beneficência de Niterói, a rua Eduardo Luis Gomes sem número e rua Quinze de Novembro número 239. Sendo em 7 de novembro de 1975, neste mesmo local, hoje rua Jornalista Moacyr Padilha número 250, inaugurado o edifício com a denominação de Clínica Gerontológica e Geriátrica João Miranda.

A clínica é dirigida pela Diretoria Social, destina-se a prestar serviços assistenciais aos sócios da Beneficência ou qualquer pessoa sem vínculo ao quadro social (particulares).

Existem, hoje, 48 moradores, entre sócios e particulares, com capacidade para 60 moradores. Possui um andar para acamados e três andares para os mais independentes. Tem quartos suítes individuais, e enfermaria para duas pessoas, podendo ser para casal, familiares ou não, com serviço de hotelaria. Em cada andar tem um posto de enfermagem com duas auxiliares, chefiadas pela enfermeira supervisora que faz parte de uma equipe multidisciplinar, formada por geriatra, psicóloga, assistente social, nutricionista, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta e fonoaudióloga.

III – MARCO TEÓRICO

Para o desenvolvimento e atuação da psicologia de uma forma mais ampla, considerando-se os atendimentos individuais e grupais, torna-se necessário a revisão de alguns conceitos teóricos da abordagem centrada na pessoa, fundamentada no Existencialismo, na Fenomenologia e no Humanismo.

O conceito de Tendência Atualizante é central na teoria da Abordagem Centrada na Pessoa. Á proposição

“Todo organismo é movido por uma tendência inerente a desenvolver todas as suas potencialidades e a desenvolvê-las de maneira a favorecer sua conservação e enriquecimento. Observamos que a Tendência Atualizante não visa somente a manutenção das condições elementares de subsistência como as necessidades de ar, de alimentação e etc. Ela preside, igualmente, atividades mais complexas e evoluídas tais como, a diferenciação crescente dos órgãos e funções; a revalorização do ser por meio de aprendizagens de ordem intelectual, social, prática. (Rogers & Kinget, 1977, I: 159 – 160)”.

Segundo o mesmo autor, a noção do “eu”. – Experiência de si – abrange todos os fatos e acontecimentos do campo fenomenológico que o individuo reconhece como sendo relacionados com o “eu”.

Estrutura do eu (idéia ou imagem do “eu”) – experiências composta de percepções relativas ao eu, as relações do eu com o outro, com o meio e com a vida.

Da mesma forma que a tendência atualizante, a noção do “eu” tem um papel fundamental na síntese teórica de Rogers. Juntas, estas duas preposições resumem tudo o que se relaciona com a terapia: toda a hipótese, toda a afirmação e toda prática.

A partir de tais fundamentações, devemos refletir que desde o momento que o idoso é encaminhado para a avaliação, este poderá trazer ou não, suas experiências, desejos, compreensão da situação vivida aceitação, frustração e outros sentimentos que retratarão naquele momento, o início de uma nova fase, longe dos seus familiares e amigos, enfim, daqueles personagens que fazem parte de sua história de vida.

Diante destes conceitos procuramos ajudá-los a perceberem esta nova fase da vida, como uma transformação que pode ser vivida de maneira favorável, desenvolvendo sua capacidade, estimulando sua tendência atualizante.

IV – OBJETIVO GERAL

Através da Abordagem Centrada na pessoa, propiciar melhor qualidade de vida ao Idoso Institucionalizado.

V – OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Promover a cooperação mútua e socialização
Estimular a autoconfiança e auto-estima
Sensibilizar para a importância da prevenção da saúde física e mental
Proporcionar o aprendizado do novo
Desenvolver e estimular o conhecimento do próprio corpo
Oportunizar trabalhar conteúdos internos
Ampliar, valorizar os relacionamentos
Trabalhar conflitos
Preservar e desenvolver capacidades intelectivas
Despertar para o autoconhecimento (noção do eu, estrutura do eu)
Estimular as funções cognitivas
VI – ATUAÇÃO DA PSICOLOGIA

.

Sua atuação existe há aproximadamente cinco anos, fundamentada na Abordagem Centrada na Pessoa com os seguintes procedimentos:

1. Procedimentos para admissão do idoso na clínica:

-Avaliação psicológica:

-Entrevista e síntese da história familiar e comportamental com o idoso e familiares

-Testes de avaliação mental

-Escalas indicadoras de patologias

-Escalas de independência – atividades de vida diária (AVD)

– Conclusão com parecer psicológico

2. Acompanhamento:

• Visitas psicológicas:

-Acompanhamento da adaptação à clínica

– Ajuda terapêutica sobre suas necessidades através dos aspectos psicológicos: perdas, crises, sexualidade, isolamento, abandono, preconceito, depressão, demência e medos.

-Avaliações funcionais de seis em seis meses usando testes e escalas ditas no item acima.

– Encaminhamento a outros profissionais da equipe para atendimento individual ou em grupo.

• Atendimentos individuais:

– Psicoterapia breve – (Abordagem Centrada na Pessoa)

– Avaliação neuropsicológica

– Conclusão com parecer psicológico.

• Atendimentos em grupo: grupos abertos, o idoso pode ir e vir.

? Grupo de reflexão e convivência.

Objetivo: troca de informações sobre prevenção, tratamento e cura dos males do corpo e da mente. Buscando através deste entendimento, participação visando uma maior qualidade de vida.

Oficina de literatura.

Objetivo: estimulação das funções cognitivas através da leitura e reminiscências trabalhando as emoções e sentimentos.


– Grupo de relaxamento e meditação:

Objetivo: trabalhar e exercitar o corpo e a mente através do relaxamento e meditação trazendo bem estar, conforto e segurança.

Hoje, existem três atividades de grupo sendo que estas atividades foram criadas a partir das necessidades percebidas com a vivência nos atendimentos que fazia individualmente.

Era necessário estimular os idosos, conscientiza-los que para viverem uma vida saudável, com qualidade e preservar a independência, dependia muito deles.Que atendê-los individualmente não seria suficiente, que no grupo eles poderiam juntos enriquecer e propiciar a revalorização do *Self, por meio de aprendizagem e trocas intelectuais, sociais e práticas.

*Self – “Corresponde ao conjunto de percepções que a pessoa tem de si mesma e de si nas relações com os outros e com o meio, bem como os valores que a pessoa atribui a estas percepções. Faz parte da unidade psicofísica total do organismo e, conseqüentemente, está também sob a ação da tendência atualizante, constituindo-se numa configuração em estado de fluxo continuo, mantendo sempre a coerência interna e estando disponível à consciência, uma vez que corresponde a uma porção do campo experiencial total da pessoa.

Esta estrutura perceptual abarca, portanto, as características, as qualidades e os defeitos, as capacidades e os limites que a pessoa acredita ter e que fundamentam as suas atitudes consigo mesma, com os outros e com o meio, formando a sua maneira de ser e atuar no mundo, ou seja, direcionando o seu comportamento.” (Psicologia Hospitalar – Uma abordagem holística e fenomenologica-existencial. Lenize M. Brandão).

O objetivo desta oficina é estimular as funções cognitivas através da leitura, dar continuidade, estimulação e sensibilização literária, com leitura de contos que possuem verdadeiras metáforas do comportamento humano, poesias trazidas e escolhidas por eles evocando reminiscências individuais.

Grupo de Reflexão e Convivência (anexo 1)

Resolvi criar um grupo para que juntos pudessem fazer a revalorização do self*, por meio de aprendizagem e trocas intelectuais, sociais e práticas.

Este grupo é denominado de Grupo de Reflexão e Convivência. Seu objetivo é proporcionar trocas de informações sobre vida saudável, prevenir e superar doenças, vivendo plenamente um despertar de idéias positivas e trocas afetivas entre eles.

Oficina de Literatura (anexos: 2, 3, 4, 5).

O objetivo desta oficina é estimular as funções cognitivas através da leitura, dar continuidade, estimulação e sensibilização literária, com leitura de contos que possuem verdadeiras metáforas do comportamento humano, poesias trazidas e escolhidas por eles evocando reminiscências individuais.

Grupo de Relaxamento e Meditação (anexo 6).

O trabalho de relaxamento e meditação objetiva sensibilizar o idoso para a importância da prevenção da saúde física e mental, e trabalhar conteúdos internos.

Na atividade de relaxamento e meditação todos ficam sentados em cadeiras confortáveis porque assim é mais cômodo para o idoso. É feito com música relaxante.

Começamos pela respiração diafragmática que leva o ar para todo o corpo. Criei para motivá-los, um mantra que faz sincronia com a respiração. Enchendo o corpo de ar fala-se: a saúde penetra em mim. Mantendo o ar no corpo: todo o meu ser se refaz. E soltando completamente o ar: expulso todos os males.

À medida que se relaxa partes do corpo, repete-se o mantra. O relaxamento começa pelos pés e termina na cabeça, soltando o couro cabeludo da caixa craniana e franzindo a testa.

No segundo momento, eles são induzidos a se interiorizarem e sentirem o corpo internamente, através das sensações físicas. Sentindo o batimento cardíaco, o coração pulsando sangue para todo o corpo, irrigando os órgãos internos desbloqueando as veias, artérias e vasos em direção aos pés, pernas, braços, mãos, subindo em direção a cabeça, irrigando e oxigenando todo o cérebro preservando as funções cognitivas fortalecendo a produção dos neurônios que fazem conexões com todo o corpo mantendo-o em equilíbrio.

No terceiro momento passamos a perceber e sentir a energia vital a imaginamos subindo pelo sacro em direção a medula e se espalhando pelo corpo através das vértebras. Movimenta-se em forma de espiral e absorve a energia parada e estagnada no corpo que causam dor, mal estar e angústia. Continuando em direção a nuca e saindo do corpo como uma garrafa de champanhe quando soltamos a rolha. Sentindo seu corpo vazio, leve e pronto para receber energia nova, positiva e vibrante. Energizando-se através da natureza, imaginando estar num lugar muito bonito, sentindo a força do mar, das montanhas, das árvores, da terra e do ar. Concentrando todas essas energias numa cachoeira que se transforma em luz, sentindo esta luz descendo pela sua cabeça, ombros, abdome, braços, ventre, pernas e pés, de maneira que se torna uno com essa luz. Seu corpo se reenergizando como uma pilha que recarrega um aparelho, fique assim por algum tempo.

Num quarto momento passamos para a meditação da cura, já energizados vamos utilizar esta energia para curar os males do corpo e da mente.

Uma finalidade da atividade de relaxamento e meditação é proporcionar o fortalecimento do organismo como um todo: corpo e mente. Atuando no sistema imunológico.

Outra finalidade é promover a conscientização do interior como uma força vital que ajuda na cura dos males e facilita o processo do morrer com dignidade.

A morte é um processo e este processo tem que ser vivido unicamente pela própria pessoa , não há como dividir com ninguém. A perda, sim, é vivida e sentida pelos entes queridos, mas este é um outro assunto, longo e doloroso.

VII – Considerações finais.

Verificamos que a partir do trabalho realizado, algumas considerações devem ser aprofundadas para a continuidade deste.

O universo onde o idoso cresceu, construiu sua história, estabeleceu parcerias, assim como os motivos e sentimentos na chegada a uma instituição asilar devem ser profundamente considerados, durante o processo de avaliação inicial deste, pois os reflexos de toda sua trajetória serão indispensáveis no processo terapêutico.

Quanto ao acompanhamento individual, terá início informal, gradual, e posteriormente de acordo com o desejo do idoso, sendo auxiliar no acompanhamento de seus conflitos.

A partir destes, detectamos os diversos temas selecionados de acordo com a demanda do grupo, problemas atuais, conhecimentos gerais e auto conhecimento.

Para tal é necessário compreendermos que a existência da Instituição Asilar pode ser útil, necessária e indispensável para alguns familiares e idosos, no que diz respeito aos cuidados e qualidade das atividades oferecidas, podendo propiciar uma mudança nos paradigmas até então estabelecidos, ou seja, procurando mudar visão preconceituosa da Instituição como deposito de velhos (anexo 7). A diferenciação da Instituição Particular para a Pública, como se a qualidade de vida fosse direito, apenas, de algumas pessoas privilegiadas.

Faz-se necessário, uma participação ampla de todos os saberes, com visão sociológica, num processo caracterizado pela capacidade criativa e inovadora em busca de soluções para os problemas do envelhecimento.

Devemos ressaltar a importância da equipe multiprofissional, na Instituição Asilar, onde os diversos saberes, caminham para favorecimento também de uma melhor qualidade de vida, estabelecendo trocas constantes com a Psicologia, ou seja, a prática da interdisciplinaridade.

Concluímos que a fonte de longevidade com qualidade de vida é o sentimento de afetividade.

Anexo 1

Sra. L era uma moradora de 89 anos, veio para clínica, trazida pela filha, que morava fora e não podia dar assistência a mãe. Ela quebrou a cabeça do fêmur, fez uma cirurgia para colocar uma prótese, e ficou semidependente, usando um andador, sentia muitas dores e entrou num quadro depressivo.

Sua irmã mora na Clínica e ia visitá-la com freqüência, se lamentava muito e chorava sem parar. A única atividade que fazia era crochê, que doava para casas de caridade. Mas, nada a fazia feliz. O quadro de depressão já estava acelerado e as medicações já não faziam efeito favorável. Aos poucos momentos que conversava lamentava-se da vida. Dizia que foi muito bem casada. Seu marido tomava conta de tudo, e quando ficou viúva, não sabia nem preencher um cheque, ficou perdida. Não sabia porquê ainda estava viva, a vida não tinha mais valor. Poucos meses depois fez uma pneumonia que agravou-se e algum meses depois faleceu na UTI do Hospital.

ATIVIDADE NO GRUPO DE REFLEXÃO E CONVIVÊNCIA

Anexo 2

Sra. N é uma moradora, que já encontrei vivendo lá, tem 89 anos, é professora, tem 89 anos, solteira, tem uma cunhada que vai sempre visitá-la, e a ajuda muito. É diabética, hoje tem muita dificuldade para andar. Mas, o que mais sente é a perda da visão causada pelo glaucoma. Já operou, mas não teve resultado satisfatório, perdeu uma vista e a outra está muito fraca. É uma pessoa bem humorada, possui um interior muito rico. Gostava muito de ler, tem livros de poetas famosos.

Quando vou vê-la, costumo levar alguma poesia para ler, ela fica muito satisfeita. Para incentivá-la a sair do quarto e conviver com outros moradores, criei outra atividade que é a Oficina de Literatura.

ATIVIDADE NA OFICINA DE LITERATURA

Anexo 3

A moradora B, que veio morar na Clínica junto com sua mãe. Ela é psicótica e tem 68 anos, não conseguia elaborar nada. Mantinha-se com medicamentos e não participava de nenhuma atividade. Falava da sua doença e queria se curar. Passou a freqüentar os grupos e na oficina de literatura começou a desenhar e escrever histórias bem elaboradas com princípio meio e fim. Um dia sua mãe que já estava doente foi internada e ela ficou com uma cuidadora sozinha, foi algo que preocupou muito a todos da equipe. Surpreendeu-nos quando participava das atividades com muito mais êxito e se mostrava bem com a situação. Sua mãe veio a falecer, e B viveu esta perda conseguindo falar da sua dor e mantendo-se muito bem.

Hoje, B participa de todas as atividades, lê muito bem e cria histórias fantásticas.

16/07/2002

“Mulata meu bem e neguinho meu amor.

Num bangalô nasceu uma mulatinha e a mãe dela chamou ela de minha boneca de piche crescendo fez trancinhas no cabelo dela e ela saiu de casa e foi brincar com as meninas. Marli conheceu Osvaldo e se amaram. Osvaldo falou pra ela como é linda a sua cor morena. Marli falou: mamãe comeu muita canela e eu nasci com a cor de canela. Era linda a cor marrom. Marli falou pra Osvaldo: você é pretinho porque apanha muito sol. Crescendo ficaram noivos e casando passou o braço na cintura de Marli e falou, você é minha cabrocha e casaram. Marli tava linda com o vestido de noiva e começaram a se amar e Marli chamava Osvaldo de meu ioio e Osvaldo chamava Marli de minha iaia e Marli cantou para Osvaldo beijar os seus lábios de mel e Osvaldo cantou para Marli e depois numa nuvem subiram para o céu e se abraçaram. Tiveram sete filhinhos, quatro meninos que crescendo foram estudar, um era enfermeiro e o outro farmacêutico, outro professor e outro advogado e as três meninas eram, uma era professora a outra operária e a outra artista e assim viveram numa grande felicidade. Aos domingos Marli fazia festas e as crianças e Osvaldo e Marli cantavam de felicidade e pro seu amor fazia gostosas comidas, doces, feijoada, macarronada que Osvaldo comia e beijava Marli na boca e assim se amaram muito.Marli enchia a sala de flores e os dois iam rezar na igreja. Depois ficaram velhinhos e Osvaldo ia descansar no sítio e na rede abraçava Marli e com cabelos brancos bem velhinhos morreram. Aí botaram uma cruz branca no cemitério, nasceu uma erva na cruz que era a alma de Osvaldo e nasceu rosas que se enrolou na erva que era a alma de Marli. E assim dormiram em paz por toda a eternidade”.

B.

Anexo 4

ATIVIDADES DA OFICINA DE LITERATURA

02/07/2002

Obs.: foi dada a palavra VIDA, como estímulo para a criação de um texto.

VIDA.

Os anos passam tão rápidos !

Sinto sempre saudades da minha infância, e

então gosto muito lembrar tantas vezes o

que fazia…

Mas depois, na adolescência… quantas diferenças!

Recordo constantemente as aulas nos colégios, as

colegas, professoras, e como eu gostava de declamar os recitativos…

Mas sempre tive muita devoção nas orações

nas missas que assisto.

Hoje estou na reta final de minha existência com muita resignação

e como não dizer… saudades, saudades.

A.

09/07/2002

Obs.: foram dadas dez palavras para estimular a criação de uma poesia.

Lágrimas, pecado, nudez, fogo, perfuma, cantares, chorares, teu olhar, amor, sublime.

”O teu olhar é como um fogo que transforma a tua nudez em pecado. Se cantares ou chorares, as lágrimas serão como um óleo que perfuma o teu amor sublime”.

A.C.

Anexo 5

ATIVIDADE DE RELAXAMENTO E MEDITAÇÃO.

Anexo 6

A história de um morador da Clínica exemplifica bem esta visão, da instituição asilar como suporte para a independência, segurança e qualidade de vida:

Sr. A tem hoje 80 anos, chegou na Clínica, ainda com seqüelas de um trauma que viveu: é aposentado, solteiro, e tem uma sobrinha que lhe dá atenção, vivia sozinho, e contratou uma cuidadora para ajudá-lo na administração da casa e dele. Relata que ficou sem voz durante um período, porque, foi amordaçado e preso na cama, sem poder se comunicar, sua sobrinha telefonava e a cuidadora dizia que ele estava muito gripado e completamente rouco, e não podia falar ao telefone, obrigou – o a lhe dar a senha do seu cartão do banco, roubou vários pertences de valor e foi embora deixando-o preso à cama. Foi achado pela sobrinha, que desconfiada foi visitá-lo, levando-o para o hospital. Depois de recuperado, resolveu morar na Clínica que poderia lhe dar mais segurança e conforto.

Hoje, Sr. A., está integrado e independente. Foi orientado a personalizar seu quarto, trouxe seu piano, quadros e cds de música clássica. Participa de todas as atividades. Na Oficina de Literatura, leva seus livros de poetas como Olavo Bilac, Cecília Meireles, lê para todos e faz poesias.

BIBLIOGRAFIA

Brandão, Lenise – Psicologia Hospitalar – Uma abordagem Holística e Fenomenológica-existencial- Ed. Livro Pleno- RJ/2000

Cunha, Jurema Alcides – Psicodiagnóstico V – Ed. Artmed – PA/2000

Forlenza, Orestes V. , Paulo Caramelli -Neuropsiquiatria Geriátrica – Ed. Ateneu – 2001

Gobbi, Sérgio Leonardo e Sinara Tozzi Missel – Abordagem Centrada na Pessoa – Vocabulário Noções Básicas- Ed. Universitária – SC/1998

Netto, Matheus Papaléo – Gerontologia – Ed. Ateneu – 1996

Rogers, Carl R. e G. Marian Kinget – Psicoterapia & Relações Humanas – Vol. I e

II Ed. Interlivros – MG – 1977

Wood, John Keith – Abordagem Centrada na Pessoa – Ed. Fundação Ceciliano Abel de Oliveira – ES – 1995

Vieira, Eliane Brandão – Manual de Gerontologia – Ed. Revinter – 1996

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002