Breve História da ACP no Brasil

Márcia Alves Tassinari

A abrangência e receptividade mundial pelas idéias seminais que compõem a Teoria da Psicoterapia Centrada no Cliente/Pessoa tem passado. por diversas revisões e aponta para a necessidade de reformulações, no sentido de explicitação de seus princípios básicos, que nem sempre sustentam as práticas da Abordagem Centrada na Pessoa.

Wood (1994) nos explicita a “confusão” do que considera-se hoje Abordagem Centrada na Pessoa: uma diversidade que poderia ser tudo ou nada, desde uma escola de pensamento importante em psicologia, uma tradição, uma filosofia de ser, um conjunto de atitudes, até um modelo lingüístico ou até mesmo um “movimento”. Ele considera esta confusão desnecessária e propõe: É meramente uma Abordagem, nada mais, um ‘Jeito de ser’ ao se deparar com certas situações”

No Brasil, temos unta história de cerca de 50 anos de atividades, envolvendo diversos profissionais e instituições, principalmente nas áreas de psicologia e pedagogia. O desenvolvimento desse percurso é conhecido apenas de maneira informal e fragmentada, por profissionais e pela sociedade em geral. Nesse sentido resolvemos pesquisar o que fazem e pensam os profissionais influenciados pela Abordagem Centrada na Pessoa no Brasil. Com base na coleta de dados tentamos esboçar reflexões esclarecedoras de nossa identidade, de nossos avanços e retrocessos e da influência de nosso contexto sócio-político-cultural.

Esse trabalho foi organizado a partir de depoimentos de pessoas há multo envolvidas com a

Abordagem Centrada na Pessoa no Brasil e de material (monografias, teses de mestrado e doutorado, artigos publicados em revistas, jornais, livros brasileiros, programas de cursos e eventos) enviado por colegas e pesquisado pelo grupo de trabalho.

Numa primeira aproximação geral, delineamos três momentos: o primeiro, até a vinda de Rogers ao Brasil, pela primeira vez, em 1977, representando nossa “pré-história”. Consideramos essa data um marco, pois foi a partir daí que os brasileiros já envolvidos com a Abordagem Centrada na Pessoa, tiveram a oportunidade de iniciar um entrosamento, a nível nacional. O segundo momento, descrevendo uma curva ascendente, em termos de ventos e formação de novos núcleos, foi representado até 1987, ano em que Rachel Rosenberg e Carl Rogers faleceram, perdas essas que abalaram mais a região sudeste, onde aqueles profissionais tinham uma grande influência. A partir daí, a curva descreve um certo declínio, com ofertas escassas de eventos, especialmente os de caráter vivencial, retomando, partir da década atual, o seu crescimento. Parece agora delinear um novo momento, francamente ascendente.

A chegada da Abordagem Centrada na Pessoa no Brasil surge em 1945, ainda que as publicações e os núcleos profissionais tenham aparecido na década de 60, de forma isolada nas cidades de São Paulo, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio de Janeiro. Aos poucos, foi se inserindo nos meios acadêmicos, especialmente nos departamentos de Psicologia e Educação, não tendo, contudo, se legitimado até o momento como uma disciplina obrigat6rla na graduação. Vários fatores parecem contribuir para que a ACP continue pouco reconhecida: pequena penetração nas instituições (hospital, escola, empresa, universidade), ênfase no trabalho de consultório, de forma solitária; inexistência de sociedades detentoras e transmissoras do “saber centrado na pessoa”; grande divulgação da Psicanálise e de outras orientações psicoterápicas; compreensão superficial e/ou distorcida de seus princípios básicos, publicação pouco expressiva nas revistas especializadas e/ou leigas.

O momento mais fértil surge em decorrência da vinda de Rogers e associados ao Brasil, bem como do movimento político que víamos na década de 70. Com a vigência da ditadura e consequentemente o temor das pessoas de se reunirem em grupos, os valores da ACP sobre o respeito ao ser humano e seu poder pessoal, respondiam às necessidades de reconhecimento, valorização e esperança de que não seríamos totalmente “abortados” pelo regime político, não perderíamos nossa dignidade.

Após os falecimentos de figuras importantes, (Rachel Rosenberg, em 1987, Dario de Oliveira, em 1985, Lúcia Campos em 1990) inclusive a do próprio Rogers (em 1987), observamos um declínio das atividades, que estão sendo retomadas com mais vigor nessa década, quando os princípios enfatizados por essa orientação teórica começam a despertar mais a consciência da sociedade brasileira como um todo, a saber, a recusa e o questionamento do mito da cosmogênese e entendendo a liberdade como valor indistinguível da condição humana. (ver quadro no final do artigo)

A presença de participantes brasileiros nos Fóruns Internacionais, nos Encontros Latinos, nos Encontros Nordestinos, nas jornadas de Psicologia Humanista, e em outros eventos, além da organização, no Brasil, do IV Fórum Internacional (1989) e de três Encontros Latino-Americanos (1983, 1986 e 1992) são fatores importantes no desenvolvimento da Abordagem Centrada na Pessoa no Brasil. Os diversos trabalhos e artigos apresentados nesses eventos demonstram o potencial da contribuição dos profissionais brasileiros.

A questão cultural tem permeado o interesse de diversos profissionais, destacando-se as reflexões de Wood e Fonseca que evidenciam a sua indissociabilidade com as questões epistemológicas. Isso traz implicações importantes para a psicoterapia, educação, trabalhos com pequenos e grandes grupos. Até a própria manifestação das “condições necessárias e suficientes “ é influenciada pelos fatores culturais.

O grupo de Jaguariúna, formado por Psicólogos, Professores Universitários e Sociólogos, de diversas cidades, sob a coordenação de John Wood, evidencia a necessidade de inserção da Abordagem Centrada na Pessoa na cultura, na consciência e no jeito de ser das pessoas. Por um lado, isto parece gerar algum desconforto; por outro, oferece condições de liberdade de pensamento e um verdadeiro respeito e consideração pela pessoa humana, aceitando seus limites e potencialidades.

Os depoimentos revelaram que os “precursores” (Oswaldo Barros Santos/SP, Rachei Rosenberg/SP, Lúcio Campos/PE, Antonio Quinan/MG, Rogério Buys/RJ e Irmão H. Justo/RS)- se envolveram com a Abordagem Centrada na Pessoa pela “paixão’, ao se identificarem com os princípios axiológicos, que essa Abordagem valoriza. Interessante notar que a formação desses profissionais pode ser caracterizada como “autodidata”, pois só tiveram contato pessoal com Rogers (quando tiveram), após estarem praticando a Abordagem Centrada na Pessoa. Além disso, Rogers visitou, o Brasil somente três vezes (1977,1978 e 1985), o que permitiu um desenvolvimento autônomo da comunidade brasileira, buscando aplicar os conceitos básicos, a partir da nossa realidade concreta de terceiro mundo.

Evidenciou-se também que as profissionais entrevistadas que “trocaram” a Abordagem por outra orientação teórica (Teresa Cristina Carreteiro/RJ e Teresa Dubeux?PE) apresentaram críticas semelhantes quanto à fragilidade teórica e a questão do poder, por exemplo. O que para esta significou o momento de partida, para os que “Permaneceram”, representou convite a aprofundar e a completar as lacunas.

A necessidade de um sistema eficiente de comunicação, tipo boletim e/ou revista, entre a comunidade centrada parece urgente. Esse veículo poderia permitir a circulação e a troca de informações, noticias, pensamentos e divulgação das práticas atuais, artigos, debates e resenha de livros e teses.

Wood (1994) propõe que ao se considerar a Abordagem Centrada na Pessoa como uma Abordagem e pesquisar o que acontece quando ela é aplicada a fenômenos complexos, poder-se-ia formular uma Psicologia mais adequada para melhor compreensão dos fenômenos dos grupos humanos, incluindo a terapia. Uma Psicologia que nos forneça explicações plausíveis sobre as dimensões da mente, os estados alterados de consciência, agressão, oportunismo, comportamentos tribais, efeito placebo, influências físicas e ambientais e culturais a que estamos expostos.

O trabalho Integral, referente à Primeira Versão, foi apresentado no VII Encontro Latino da Abordagem Centrada na Pessoa (outubro/94) e esta disponível aos interessados na Biblioteca do Centro de Psicologia da Pessoa/RJ, bem como os endereços dos Núcleos. Atualmente estamos trabalhando na Segunda Versão, complementando as lacunas e aprofundando nas questões teóricas e no contexto sócio-político-cultural brasileiro em que essa Abordagem tem ido praticada e teorizada.

Os autores sentem em débito com vários colegas que, forneceram Informações e questionamentos valorosos, sem os quais esse trabalho não teria sido desenvolvido. Continuamos receptivos a qualquer material e/ou reflexão que possam complementar nossa “aventura”.

1. MARCIA ALVES TASSINARI, Psicóloga, Sócia-Fundadora do Centro de Psicologia da Pessoa, Professora e Supervisora da Universidade Santa Úrsula e Professora Titular do IBMR. Esse artigo. um resumo do trabalho apresentado o VII Encontro Latino-Americano da Abordagem Centrada na Pessoa, (out/94, Maragogi/AE) realizado com um grupo de colaboradores: Andréa Uns, Clayse Silva, Evandro Farias, Monica Silva, Rosane Oliveira e Yeda Portela.

Bibliografia

FONSECA, Afonso Lisboa da. De Qaxtapec ao Nordeste da América do Sul: O Encontro Latino Americano da Abordagem Centrada na Pessoa (texto não publicado), 1994

LIETAER, G.-, ROMBAUTIS,,J. & VAN BALEN. R. Client Centered and Experiential Psychoterapy In the Nineties .. Leuven University Press, 1990.

TASSIANRI, Márcia A & DOXSEY,Jaime E. The Latin American Encounters (1983-1992) Recent Trends in the Written Material on the Person-Centered Approach – Pat II. Trabalho apresentado no V Fórum Internacional da-ACP, Holanda,

1992.

THORNE, Brian. Carl Rogers (Key Figures in Counselling and Psychotherapy): London Sage Publication, 1992.

WOOD, John K. et all. (Orgs.). Abordagem Centrada na Pessoa. Vitória: Editora Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1994.

WOOD, John K. Abordar a Abordagem (texto não publicado), 1994. (boletim. Arp)

Publicado no Jornal da Abordagem Centrada na Pessoa – Associação Rogeriana de Psicologia. Rio de Janeiro; junho 1995 – Ano I no. 0 – p.3.