Casamento, Amor e Mágoa

Eglantine Gomes de Biase

Quando o homem se reúne em grupo aparecem razões para desentendimentos. As regras a que tem de se submeter chocamse com seus interesses pessoais, traços de personalidade e tudo mais. Está também ele inserido num contexto de trabalho, tem uma família com aspirações, projetos, valores, que não se adeqüam às exigências da nova sociedade. Atrasa os prazos combinados, não cumpre horários, falta às reuniões. Começam os choques.

Kurt Lewin diz que se representássemos as necessidades pessoais por 03 círculos: superficial, mediano e profundo, os participantes de qualquer sociedade só seriam atingidos quando houvessem desentendimentos na camada superficial. No casamento os círculos seriam tocados em todas as áreas.

Grupo e sociedades em geral.
grupo casal

Nele a situação é bem mais complexa: seus membros partilham a “mesma casa, mesa e cama”.Daí os conflitos atingirem profundamente a personalidade. E tem mais, o casal, como grupo, inclui poucas pessoas,assim “cada ação de um membro colide, até certo ponto , com a do outro”. Temos de um lado o grupo casal com seu estreitamento de espaço individual livre e por essência, uma proposta de co-participação em áreas particulares recíprocas. Do outro, o amor, com sua abrangência gigantesca, se imiscuindo na privacidade de ambos.

Que opostos: pequenês de espaço e abrangência do amor!

Aparentemente inconciliáveis, mas não o são. Sabem por quê? Porque a renúncia a certa dose de liberdade é condição para se participar de qualquer grupo. No casamento também, com uma agravante: a fatia de liberdade exigida dos cônjuges é bem maior compara da com outros aspectos. Renúncia, doação são enfatizados em detrimento do crescimento em parceria. Daí tamanhos desencontros! Tenho observado também que é mais estável e duradoura a relação que consegue certo equilíbrio entre a intercomplementariedade e a individualidade, o que é difícil.

Oxalá a alquimia do amor mobilizasse a criatividade fazendo-a descobrir uma fórmula, na dinâmica da comunicação conjugal, capaz de permitir ser vivido o nós sem anular o eu.

O amor dá e tira, por isso é preciso estar atento a sua dominação. Ela é tão sutil, tem tamanha leveza, que chega a ser capaz de comparar o sim e o não, sem que os parceiros se dêem conta de que estão sendo esmagados, em nome de um amor, que apenas tem “pele de cordeiro”. E que tem isso de mal, não é uma renúncia consciente? Podem me perguntar. Consciente, não sei. Dificilmente o tempo irá suportar o peso de tanta anulação.

Certa vez ouvi um depoimento assim: “você manda em tudo em mim, mas não manda nos meus pensamentos.”

Depois de muitos desencontros o amor é diferente. Aquele amor lírico, sonhado, está adulto. Cada um cedeu, ganhou de um lado, perdeu do outro, lamentou as diferenças, decepcionou—se, mas decidiu tentar. Sabem os dois, agora, que há riscos e que contra

eles não há vacinas. Um amor assim pode renascer, apesar dos desafios, se forem importantes para ambos, entre outros, os seguintes aspectos:

-a opção por uma vida de família;

-o amor que existe entre eles.

Nessas condições discutem melhor suas fraquezas, ajudam-se mutuamente. Reconhecem também que as promessas de que “isso não vai mais acontecer”, os propósitos podem ser quebrados. Fazem parte da fragilidade humana. São duas pessoas passíveis de recaídas.

Ser casado, no mais amplo sentido, não significa perder o gosto pelo belo e deixar de sentir tesão nas seduções. Admirar e desejar, em si, são apenas riscos, não acabam casamento de ninguém. São obstáculos, como o são a rotina de uma vida a dois. Esta sim deve ser combatida, porque o amor é um sentimento e como todo sentimento, vulnerável. “Casamento se faz todo dia”. É preciso renovar o amor sexualmente criando novos recursos eróticos, e que o relacionamento e a comunicação mobilizem a criatividade e consigam manter o amor sempre renovado.

SOBRE AS MÁGOAS

Há algum tempo fui procurada por um casal a quem chamaria de João e Maria. Classe média, meia idade, cuja queixa principal era a mágoa recíproca. Entre eles havia um amor frio, sem brigas nos primeiros tempos, apesar do relacionamento sexual esporádico, era eroticamente cheio de criatividade.

Tanto é assim que João, numa de suas fantasias,introduziu a figura de outro homem com quem a mulher, supostamente, transava.

Pensava ele que isto o deixaria mais excitado. Acontece que João passou a acreditar que existia mesmo uma 3a pessoa. Qual não foi a decepção de Maria ao constatar que estava sendo vigiada até com detetive. Uma situação como essa facilmente leva ao desespero. O fato de Maria saber que ele adoecera, trocando a fantasia pela realidade,não lhe diminuía a mágoa.

A distância entre eles era abismal, pois além da calúnia,a traía com outras mulheres. Desenvolveu—se nela uma repulsa incontrolável, porém nenhum dos dois falava em separação.

Aqui vão fragmentos de uma carta em resposta a que me escreveu.

Maria:

Você colocou em jogo seus sentimentos mais profundos. Há tanta dor em sua vida que me pergunto: como consegue se manter inteira ainda?

A úlcera gástrica e a dor de cabeça que desafiam as terapêuticas mais modernas são de origem emocional. Os médicos assim o constataram depois dos exames sofisticados a que foi submetida.

Dê as suas mágoas o destino que elas merecem, mas não machuque mais quem sofre tanto. Você está sabendo bem que escolheu esse caminho para castigar João e se não estiver consciente disso, reflita que constatará. Pare de adoecer. Você pode.

Eglantine.

Como vêem as mágoas destruíram o equilíbrio emocional de ambos, pois além do desgaste em todas as áreas, adoeceram fisicamente também. Tudo indica que eles vão terminar juntos, mas nem sempre é este o saldo das mágoas.

As mágoas são devastadoras. Tem uma propriedade fermentativa, com um raio de penetração capaz de invadir áreas distantes do ocorrido, O silêncio não ajuda, ao contrário, aumenta porque a ele vão se somando outras fantasias e situações mal resolvidas. É preciso ter uma atitude hábil, prudente, mas esclarecedora, de parte a parte. Que se fale sem brigar, explicando os prós e os contras,voltando ao assunto sempre que puder, sem molestar, até que o parceiro esteja convencido. É um trabalho que leva tempo, vale a pena tentar.

As mágoas funcionam como uma espécie de colesterol emocional, impedindo o relacionamento e dificultando o fluxo da comunicação. Entre o casal fica apenas o necessário para manter de pé, sei lá até quando, uma vida a dois que definha. Este mal começa cedo e nenhum dos dois dá o grito de alarme. Tentam sepultá—la mas não conseguem. Dizem “vou levando”. Nem sei mesmo como é esse “vai levando” uma vez que muitas mudanças ocorreram entre eles e até as conversas, outrora calorosas, passaram a ser superficiais e lacônicas. Pouco a pouco vai desaparecendo o chamego ousado, o cochicho ao pé do ouvido, o abraço esquentado, aperitivos de uma boa noitada. Naquele momento,cabeça , tronco e membros eram cúmplices das mais lunáticas histórias de amor.

Com as mágoas, os sofrimentos, o amor começa a minguar

Fica uma espécie de ranço. Na hora da transa, (se ainda houver),apenas um “lambuzado”, para segurar o tesão e facilitar o vai e vem do orgasmo.

Aquela volta em três tempo, outrora tão curtida, acabou. Um rebolado de corpo e as costas viradas uma para outra simbolizam o fim do que era continuado, na ternura de um abraço, até o outro dia.

A pessoa magoada pode dar, entre outras, 03 direções a sua dor:

a) fazer dela um fato consumado, jogando—a fora mesmo, como se estivesse arrancando—a do próprio corpo;

b) integra—la à própria vida — aprendendo a conviver com o ocorrido;

c) descobrir novos caminhos, se ainda for uma situação possível, tentar uma solução.

Em toda mágoa, a gravidade está na razão direta do significado do agressor para o agredido.

O terapeuta trabalhará com o que restou incluindo: a força que tiveram em situações similares, a capacidade de lutar, o amor que sobrou. E ainda o que tem de positivo em cada um e na relação depois do ocorrido. Ficará atento também, como em toda terapia, ao silêncio, ao que foi explicitado, a postura e ao desacordo entre a verbalização e o que não foi verbalizado.

O atendimento será:

casal juntos e individualmente, pelos menos uma vez por semana. Se as mágoas não forem superadas, se o amor não foi renovado, se o significado de uma vida a dois não puder ser mantido, o casamento não resistirá.

As mágoas, em si, não acabam o casamento. Sobejamente existe uma história de situações inacabadas que o indivíduo não superou

dificultando a solução dos conflitos atuais. Por isso a pessoa não consegue ter um presente genuíno. Nessa condição é presa fácil de um passado que a todo instante pode lhe dar urna rasteira.

Dicks nos diz:

“para alcançar o ideal da mútua satisfação

das necessidades, a interação conjugal exige de cada cônjuge a disponibilidade flexível de modificar sua conduta em resposta às necessidades momentâneas do outro. Esta flexibilidade é um aspecto da capacidade de fusionar, tolerar e utilizara ambivalência — talvez a chave de todas as relações humanas. É a capacidade de conter o ódio no marco do amor”.

A meta final bem pode ser: “olhar juntos na mesma direção

Nota: Este trabalho foi feito a partir de depoimentos de clientes, no consultório.

EGLANTINE GOMES DE BIASE

APËNDICE — Apanhado de alguns sentimentos encontrados nas entrevistas com clientes.

— Ouve vozes

— Desajuste emocional, sente—se sem amor seguro

— Desestímulo total

— Perda da filha, desajuste com a sogra, raiva de Deus.

— Mágoa de infância, problemas não resolvidos.

— Insegurança afetiva; adolescente que rouba.

— Insegurança geral, idosa, decepção com as filhas.

— Doença mental no marido, maus tratos, divórcio.

— Desajuste geral.

— Marido abandonou a casa, mas se encontram em fase de retorno.

— Insegurança financeira, depressão — doença.

— Não sabe conviver com os problemas da vida — problemas de infância.

— Hipocondríaco.

— Desajuste geral: ele tem outra,

— Em torno de 1 sobrinho supostamente com dependência de drogas.

— O marido abandonou a casa.

— Desajuste com as filhas.

— Marido envolveu—se com outras, más há diálogo e caminho de volta.

— Relacionamento distante, falta de diálogo

— Doença mental

— Afastamento da mulher porque arranjou outra.

— Depressão por desajuste financeiro, perdas.

— Decepção com o marido, ele arranjou outra. Distanciamento no relacionamento e na comunicação, desprezo. Ela arranjou outro também, mas ainda estão juntos.

— Hipocondríaco — insegurança e medo.

— Nunca houve relacionamento satisfatório, um amor que já nasceu falido. Mantém—se juntos por conveniência, dinheiro e os filhos. Ocultamente ambos tem outra vida paralela.

— Foi obrigada a casar para fugir à tirania paterna; caiu noutra do marido (com ele tem de ter 03 a 07 relações sexuais por dia) doente. Profundamente sofrida. Adoeceu: câncer. Desrespeito dos filhos à sua pessoa.

— Mágoas profundas da família. Chegou a ser presa.

— Desajuste relacionamento, falta de diálogo.

— Doença mental marido.

— Afastar para outra.

— Doença por pressão financeira.

— Insegurança, hipocondria.

— Revisão

— Nunca houve relacionamento satisfatório em todas as áreas, ambos

vivem vida oculta paralela.

— O marido deixou para ter outra.

— Perda da única filha.

– Insatisfação geral.

– Síndrome de pânico.

— Psicose.

— Perdas pela morte marido e filho, medo.

— Insatisfação sexual.

— Acomodação marido, envolvimento dela com outro, falta de admiração do marido.

— Marido não sente tesão por ela.

— Insegurança geral, mas bem no amor.

Conclusão

Como vimos, os conflitos tem diferentes causas e sempre há em todos um sentimento comum: as magoas. Às vezes a pessoa tem um amor magoado. Bem diz o poeta: “para que maltratar o amor, o amor não se maltrata não (brigas) Em uma, sai ferido o amor, na briga; em outra a pessoa, como um todo está ferida.

Só as mágoas que reúnem o amor e a pessoa amada (que são duas na fantasia do sentimento) apenas estas, destroem.

Trabalho apresentado ao VII Encontro Latino Americano da Abordagem Centrada na Pessoa, realizado de 9 a 16 de outubro de 1994, em Maragogi – AL — Brasil.