Ciranda Abordada

Luiz Alfredo Millecco

Diálogo iniciado entre MONTEIRO, MARCIA ALVES TASSSINARI e ROGÉRIO CHRISTIANO BUYS – Primeira apresentação no Fórum Brasileiro da ACP. abril,96/RJ.

Depois da leitura do texto Abordagem Centrada na Pessoa: Rumo a Uma Compreensão de suas Implicações que John Wood me mandou em agosto do ano passado, mais um essencial trabalho para os abordados e simpatizantes, reli com Ana Maria Monteiro, com Márcia Tassinari, pensei muito numa conversa de corredor com Rogério Buys e organizei oito questões que sempre permeiam nossos trabalhos e nossas conversas informais.

Depois falei com Márcia, que propôs conversarmos sobre isso com o maldito gravador. Trabalhamos muito, sempre sem tempo, e então fomos lá. Convidamos Rogério para participar desse primeiro estágio que oferecemos a vocês para interagirem conosco via cartas.

Se algo acontecer de mais valioso e interessante, quem sabe podemos estender para o Latino e o Internacional. É uma proposta para uma reflexão de nossas idéias incluindo o novo sem perder o “nosso jeito”.

Luiz Alfredo Miliecco Monteiro

Rio de Janeiro, 31/03/96

1 Existiria uma direção ou uma tendência filogenética para uma humanidade mais generosa?

LULA (LUIZ ALFREDO MILLECCO MONTEIRO), Rio de Janeiro

Acho que sim, ou seja, acho que não. Longe de qualquer talento futurista mas como agente e espectador da história, me parece que a repetição dos humanos ao longo de milhões de anos de ensaios e erros e de inteligências aculturadas com campo informativo cada vez maior, vai colocando o homem, mesmo com todo o freio dos poderes e da maioria reacionária, em patamares também evolutivos em sua própria espécie.

Um exemplo entre muitos: se pensássemos numa reunião de pensadores para discutir a capacidade de amar, de cumplicidade, de estar empático em relação ao outro, o outro como sujeito diferenciado e reconhecido, etc, há poucas centenas de anos atrás, estaríamos irremediavelmente condenados a fogueira como bruxos medonhos. E fato que grande parte das organizações humanas ainda está sobre o autoritarismo tribal e há alguns anos, nós mesmos, sul-americanos, sofríamos mais explicitamente o arbítrio e a fala animalesca da força bruta dos ditadores, mas não importa se pensarmos a humanidade como um todo em suas partes diferenciadas. Parte de nós, parte das organizações humanas na terra, partes cada vez mais numerosas, lutam por uma ciência humana mais aprimorada ao próprio humano. O homem do futuro de Carl já se multiplica entre nós. Mesmo precariamente, ainda muitos de nós já o tomamos como exemplo de atualização da espécie.

MARCIA TASSINARI, Rio de Janeiro

Não creio nessa tendência filogenética como um fim a ser alcançado, esperando-se que o ser humano chegue lá. Hipotetizo uma evolução/modificação construída pela própria interação com as realidades em transformação. E, fazendo eco com CarI, existe um fiapo de esperança e espero que maior conscientização levará a uma humanidade mais generosa e não “kamikasi”.

ROGÉRIO BUYS, Rio de Janeiro

Para mim, não está claro se filogenético significa biológico. Se assim for, não acho que exista esta tendência, mesmo porque adaptação não implica necessariamente generosidade. Entendo que existe possibilidade de a humanidade se tomar mais generosa, mas este deve ser um esforço permanente de cada pessoa. Não alguma coisa “dada”, nem uma “tendência”.

OBS: A “Tendência Atualizante” da ACP, da forma como a entendo, diz respeito a pessoas. Quero dizer com isso que quando se trata de “humanidade”, ou seja, grandes grupos, grandes empresas, países, religiões, interesses internacionais, etc, intervém outras variáveis que não as pessoais, concernentes à “Tendência Atualizante”.

JOHN KEITH WOOD, Campinas

Filogenética: o desenvolvimento evolucionário da espécie humana, na forma de seleção natural, supostamente é livre de valores. Isto é, a evolução biológica do homo sapiens sapiens não prevê a formação de uma humanidade mais ou menos generosa. E também, a direção ou inclinação que a evolução humana tomou até agora não fornece evidências que suportem a idéia de que uma humanidade mais generosa, mais nobre esteja de fato se manifestando. A partir do cotidiano parece ser bem o contrário. Entretanto, não se pode dizer que as pessoas sejam totalmente boas, mas também não se pode dizer que sejam totalmente más. A estória ainda não acabou.

A hipótese da “tendência formativa direcional” de Rogers é diferente. E uma “tendência em direção à maior ordem, maior complexidade, maior inter-relacionamento”. Esta hipótese também não prevê uma humanidade mais generosa. Sinto que uma teoria para as aplicações da abordagem centrada-na-pessoa (uma aplicação é a terapia centrada-no-cliente) fundamentada na biologia evolucionária, tem vantagens indubitáveis.

Em primeiro lugar, a tremenda quantidade de dados da biologia se torna disponível para estudos de fenômenos psicológicos, fazendo assim uma ligação entre psicologia e ciência biológica. O que se chama, “psicologia evolucionária” já está fazendo isso, e até agora seus esforços tem sido muito promissores.

Em segundo, essa tem sido sempre a base implícita do pensamento de Rogers. Embora sua hipótese de uma “tendência atualizante” fosse ainda um pouco alinhada na direção de uma filosofia do vitalismo, sua insistência em seguir uma “experiência organísmica” é completamente central ao pensar da biologia.

Terceiro, não há nada a perder, e tudo a ganhar, em se construir uma teoria de fundamento biológico. Explicações do comportamento humano, deduzidas a partir de uma “psicologia evolucionária” são tão ou mais satisfatórias do que as explicações da psicanálise ou do comportamentalismo (ambos sistemas mortos: o primeiro morto por sua própria falta de resultados no consultório; e o último pela demolição de Chomsky do conceito de mente como tábula rasa, fundamento do trabalho de Watson e Skinner). Além disso, alguns problemas que antes pareciam insolúveis se tornam claros nessa nova perspectiva.

Eu recomendo com insistência que as pessoas sérias leiam a literatura relevante (forneci um começo nas referências bibliográficas do meu artigo Abordagem Centrada na Pessoa: Rumo a Uma Compreensão de suas Implicações publicado no Person-Centered Journal, 2, (2) 1995, p.18-35) Se não for possível nada mais, pelo menos The Adapted Mind deve ser lido. Por não estarem informadas as pessoas irão perder muito tempo em discussões sobre idéias já há muito desacreditadas como “darwinismo social” e outras bobagens.

(Nota: Como se pode ver pela observação do Rogério, psicoterapeutas que trabalham somente com indivíduos no consultório, têm muito pouco interesse em uma discussão que tente lidar com a complexidade crescente exigida pelas diversas aplicações da Abordagem Centrada na Pessoa. Entretanto, acredito que lhes seja mais vantajoso apoiarem essa discussão porque, embora a simplicidade da abordagem ainda funcione eficazmente no consultório, a psicologia da terapia centrada-no-cliente não é mais convincente em contextos mais amplos).

LUCILA M ASSUMPÇÃO, Campinas

O que significa uma pessoa ser generosa? E desejável? E possível? Será necessário para o sucesso da espécie? O que é generosidade?

-E coisa de genes? Nesse sentido quanto mais genes melhor?

-Ou é coisa de genes mais nobre? Nesse caso, quanto mais refinado melhor?

Webster (resumo e tradução minha) do latim genus, eris – raça, espécie generosus – de nascimento bom e nobre nobreza de espírito, magnânimo, benfazejo disposto a dar e compartilhar, não egoísta, liberal, farto, abundante, fértil, dadivoso

Generosidade enquanto uma coisa de genes mais nobre, seguramente não é necessariamente privilégio do sangue, ou do “povo” – é a forma mais significativa de conquista pessoal que decorre de uma intenção deliberada. Não uma nobreza de sangue mas de ação.

Assim, generosidade talvez seja apresentar na minha ação, minha face mais verdadeira, mais genuína possível, com toda a complexidade daquele momento e lugar. Com tudo que sou, fruto das minhas preferências (gostos, sonhos, e musas) e referências (palavras, imagens, lendas). Novamente como virgem, não porque inexperiente, mas virgem porque novamente com todo meu potencial, não uma tábula rasa, mas resultado de cada compromisso anterior com o ser, com os outros, com o todo.

E além das referências a respeito das fontes (livros, filmes, imagens, etc), referências a respeito do processo. Ex: Sou capaz de aprender? Sou capaz de me deixar transformar? Sou capaz de me alinhar? Alinhar-me com tudo que sou, num fluxo maior e além de mim, num fluxo universal? Num fluxo construtivo, ou pelo menos harmonioso?

Nesse caso Generosidade seria, então, refinar e atualizar o melhor que eu puder todos meus talentos, todos meus melhores sonhos.

“Olhar pra sua parte mais (bonita, curiosa, alegre, inteligente, etc)

com minha parte mais (bonita, curiosa, alegre, inteligente, etc)

e daí… dá tudo mais (certo, confortável, harmonioso, etc).

E uma questão de mais.”

Custou para aprendermos quantidade.

Houve época em que não conhecíamos números, tínhamos contas,

a cada continha ou pedrinha eqüivalia uma galinha,

e assim podíamos contar, apresentar as contas.

Com o tempo aprendemos a representar:

uma galinha tinha um sinal, duas galinhas outro sinal

e dois porcos outro para diferenciar.

A quantidade intrinsecamente ligada ao objeto.

Conclusão – sinais demais.

Com o tempo e a necessidade de muitos itens

demos um salto de abstração, foi quando apareceram

sinais para quantidade, separados dos objetos.

Um traço representava a unidade e o círculo representava 10.

e as coisas tinham seu sinal particular que era sempre o mesmo.

Esse pulo nos levou à matemática

e tudo que essa ferramenta nos possibilitou.

Talvez agora precisemos dar outro pulo mais complicado,

achar um sinal para qualidade

Precisamos descobrir o Valor Real.

“O Valor Real precisa da Realidade de cada um,

a lhe conferir realmente valor” “Mural Dá História” 27-06-1994

“Valor Real, o valor da Qualidade que permanece,

e por isso se faz reconhecer” “Mural Dá História” 29-06-1994

“Um Valor Real exige Nobreza de coração, Independência

responsável e corajosa Intenção de consistência”. “Mural da História” 30-06-1994

“Já abrimos a porta para o Valor Real!

Real porque está virando realidade e Real porque

está se mantendo com realeza”. “Mural Dá História” 03-09-1994

“Sou por uma Real ldade mais Nobre, não uma nobreza

necessariamente de sangue, mas de [cor] ação” M. Dá H.” 14-12-1994

“Sou por uma Real Idade mais Bela, não apenas

na aparência, mas na Verdade Interior” “Mural da História” 16-12-1994

“. . . e a História da nossa Passagem para um Valor Real continua…”

“Mural Dá História” 26-12-1994 último dia na praça de Jaguariuna

Ainda sobre a questão de generosidade (aliás, sugiro que cada questão seja respondida em folha separada para poder ser arquivada por assunto, assim teremos chance de comparar e cross fertilizar idéias de diferentes pessoas sobre um mesmo tema)

De alguma forma, generosidade pode estar associada com cooperação, e talvez sob esse ponto de vista haja uma tendência filogenética nessa direção. De fato, através da nossa evolução, cada vez mais, aprendemos a viver em maiores grupos. Cada vez que o grupo aumentava tínhamos que incorporar novos recursos, novas funções (a fala, a escrita, a agricultura, o comércio, etc) Cada aumento do grupo exigia mais limites, regras, restrições ao indivíduo, em particular. Não sei se podemos nos vangloriar tanto, porque o urbano que criamos ainda não se provou com melhor qualidade de vida.

Hoje nossos instrumentos de conhecimento e de consciência nos permitem, se quisermos optar por isso, uma ação muito mais efetiva e responsável numa colaboração muito mais ampla, envolvendo todo o planeta. Até ao ponto em que possamos desenvolver o melhor de cada um sem perder de vista uma harmonia com todo, talvez essa seja a grande forma de generosidade.

Há muito mais que eu gostaria de discutir mais vou deixar para a nossa volta,

LUIZ ALFREDO (em resposta à resposta de Lucila):

CIRANDEMOS

(para Lucilamiga)

Cirandemos pois, cirandemos.

Já cirandei com nuvens

São algodão-doce sem açúcar.

Cirandei com luas

São Jorge de plumas e dragão amigo

Com a mulher

gozo é o sonho bom do homem.

Cirandamos em Vinhedo

Com suas luzes e cores

Cirandaria com Deuses

Um dia, tentei.

Cirandaria com a delicadeza

Fosse ela, coisa, seria linda. –

Cirandarei com o tempo

Canções e assobios

Imitando o vento, que nem índio.

Cirandemos mal s, cirandemos.

E o acúmulo do melhor dos humanos

Cirandemos mais, cirandemos

E o que nos falta,

E o que nos resta.

Cirandemos o som da esquina

Cirandemos o tom de dentro

A luz é ciranda

A alma é ciranda

Cirandemos pois, cirandemos

VERA CURY, Campinas

Creio que do ponto de vista filogenético, a evolução responde apenas às necessidades de manutenção da espécie, como segmento biológico. A seleção de um traço tal como “generosidade” pertenceria mais ao campo de uma evolução ontogenética, de desenvolvimento do ser, e indo um pouco além, do ser no mundo.”

No entanto, admito um certo mal-estar quanto a este termo generosidade”, por estar impregnado do moralismo vigente nas sociedades ocidentais de tradição católica, nas quais a doação ao próximo implica sempre uma possível abertura de crédito em relação à vida eterna. Sob este prisma, não me parece algo que expresse a congruência de um ser, gregário por definição, com a tendência formativa, e sim mais uma exigência em sintonia com padrões culturais vigentes. Prefiro pensar na possibilidade de escolha do comportamento “mais voltado para o bem comum” como decorrente de uma apreensão mais amadurecida, ou seja realista, da vida quotidiana; vida esta que demanda cooperação como via de acesso a uma complexidade necessária para ampliar as possibilidades de sobrevivência da espécie e dos indivíduos em grupo. Neste sentido, uma humanidade mais generosa seria aquela com maior grau de coerência experiencial coletiva. Recorro ao sentido do coletivo, por acreditar que se tal significado não se constituir numa percepção compartilhada por grande parte do grupo, e não mera idiossincrasia de determinados indivíduos, não pode ser considerado de relevância como traço evolutivo.

Finalmente, creio que como tendência potencial, os comportamentos que priorizam o bem comum são parte de uma herança genética que vem sendo aperfeiçoada ao longo de toda a história da humanidade, o que, certamente, não garante sua efetivação ou eficácia em determinado tempo ou local, como nos evidenciam os episódios trágicos da vida em sociedade testemunhados neste século.

CLÁUDIO RUD, Buenos Aires

Habria una primera reflexion de un caracter mas general en relacion a las questoes pianteadas: Me temo no ser original ai decir que ia unica iey fija para la humanidad es la TRANSFORMACION, y esta no me parece que tenga una direccion determinada. Me gustaria traér el aporte polémico y genial de Nietzsche a esta humorada acerca dei sujeto humano. Qué puede ser únicamente nuestra doctrina? “Esto: que nadie atribuya ai hombre sus propias cualidades, ni Dios, ni la sociedad, ni sus padres y antepasados, ni éi mismo. Nadie es responsable dei hecho de existir, de estar constituido de este o del otro modo, de encontrarse en esta situación, en este ambiente. La fatalidad de su existir no se puede desligar de ia fataiidad de todo lo que fue y será. No es ia consecuencia de una intención suya propia, de una voluntad, de un frn; com éi no se ha hecho ia tentativa de liegar a un ideal de hombre, o a un ideal de felicidad,o a un ideal de moralidad; es absurdo ei querer desviar ei propio ser hacia cualquier fim. Nosotros hemos inventado ei concepto de fim; en ia realidad falta ei fim… ;somos cosas necesarias, somos un fragmento de fatalidad, formamos parte de un todo, estamos en ei Todo;no hay nada que pueda dirigir, medir,confrontar, condenar nuestro ser,pues esto significaria purgar. Medir, confrontar, condenar el Todo… Nada hay fuera del todo!

De tal manera que preguntamos si vamos para arriba o vamos para abajo, para la derecha o para la izquierda, parece una pregunta irrelevante, aunque confieso que me gustaria que fuerainos para “arriba y a ia izquierda”

Quiero decir que ia ciranda es inevitable y que danzamos lo sepamos o no, porque lo que hay es transformacion. Como lo dice hermosamente Borges en un cuento Ilamado “La rosa de Paracelso en el cual el maestro le dice ai que pretende ser su discípulo que “el verdadero haber sido arrojado del paraíso es no damos cuenta que estamos en el paraíso”.

VERA ALVES, Campinas

Se existiria uma tendência filogenética no sentido biológico, não sei. Mas, uma direção acredito que sim. Como espectadora e participante da realidade, eu a percebo principalmente em momentos de crise, em momentos que o ser humano corre riscos, até de perder sua vida. E os momentos que essa generosidade se mostra, realmente me emocionam e me fazem acreditar na saúde do ser humano.

SHIRLEY MACEDO, Campinas

Entendo esta questão como se existe ou não uma natureza eminentemente boa” no homem. Creio que bondade é algo complexo de se definir. Tanto a nível de característica pessoal quanto a nível cultural (costumes, por exemplo). Entre os antropófagos, seria maldade devorar a própria carne? Não creio. Acredito que tanto a bondade quanto a maldade são desenvolvidas pela interação do homem com o mundo. Tem um sentido cultural que subjaz à generosidade (ou maldade) do homem, assim com há um resultado positivo e/ou negativo do desenvolvimento destas características a um nível de avaliação social e cultural.

Agora, se me perguntam se há possibilidade de existir uma humanidade mais generosa, mais bondosa, mais integrada, menos individualista e mais autêntica, com relações interpessoais promissoras, creio que sim. O homem se faz no mundo conforme suas possibilidades de ser e conforme suas relações com o outro. A partir de relações satisfatórias é possível, sim, que a humanidade caminhe no sentido do crescimento interpessoal entre os homens.

SILAS SARMENTO, Rio de Janeiro.

POSSO, LOGO EXERCO!

Creio ser esta uma adequada caracterização da condição humana. O ser humano é um ser poderoso.

Nós podemos tocar fogo no mato, podemos derrubar as árvores, podemos escravizar os mais fracos (as mulheres, as crianças e outros animais). Podemos e vamos, inexoravelmente, utilizar este poder.

O poder da consciência, o poder de nos sabermos individualizados e temporais. A capacidade de transformar o ambiente que nos cerca, mas também a capacidade de nos perceber internamente.

A consciência de impor nossa vontade ao meio, nos faz poderosos ativos. A consciência voltada para perceber nossa intrincada teia de raciocínios, sensações e emoções, nos faz poderosos passivos. E nós somos ambos, em cada situação, em cada momento.

– Creio, contudo, que nosso desenvolvimento antropológico, por sua raiz animal, nos conduziu, preferencialmente, para a utilização do poder na transformação do meio que nos cerca e, criamos muitas coisas. Temos hoje uma sociedade bastante complexa, com estratos primitivos, bárbaros e civilizados convivendo simultaneamente. Nosso planeta abriga há, pelo menos quatro milhões de anos, este ser proto – humano que evoluiu culturalmente até materializar progressivamente a sua cultura.

Nossos registros da cultura datam de, pelo menos, dez mil anos. Não é muito dentro de uma perspectiva histórica, mas se olhannos para os últimos cinqüenta anos, veremos que nossa produção cultural está se expandindo geometricamente. E viva o poder ativo!

Criamos exércitos, governos, Estados, sistemas políticos e econômicos e transformamos o mundo. No entanto, estas transformações mostram seqüelas terríveis. Criamos, também, toda sorte de desigualdades, de escravagismos e de exploração.

O homem é o lobo do homem!

Não creio que qualquer pessoa de boa vontade deixe de reconhecer essa assertiva.

Contudo, jaz subjacente no homem sua potencialidade interior e, irremediavelmente, com o passar dos anos, ela irá se manifestar. O poder ativo só é possível frente aos outros, ou seja, coletivamente. Individualmente, a expressão de poder tende a ser passiva. A consciência de si próprio se expande na medida em que se apercebe mais profundamente. O que é percebido nem sempre é agradável. Somos arenas de contradições intelectuais e emocionais. Internamente, ou seja, voltada para si próprio, a consciência não consegue ser ativa, ela será passiva. Mesmo que tente impor sua vontade, os resultados serão frustrantes. Já tentou suprimir a dor? A raiva? O medo? A fome? O contato? Conseguiu?

A consciência não se presta para imposição interna. Ela é mais um testemunho, uma observação do fenômeno do sentir. No campo intelectual a escolha ainda é possível, mas no campo do sentir, não. Sentir é render-se a complexidade do seu ser. A consciência aqui será sempre passiva. A expansão da consciência se dará pela inação, contrariando nossos paradigmas científicos.

E viva o poder passivo!

VIVA EU

VIVA TU

VIVA O RABO DO TATU.

E viva o homem, expressão máxima da complexidade biológica conhecida. A encruzilhada do “POSSO, LOGO EXERÇO!” contudo se mantém impávida, com a esfinge a interrogar os viajantes:

DECIFRA-ME QUE TE DEVORO !

MARIA DO CÉU L. BATTAGLIA, Rio de Janeiro

Acredito que na verdade não existe tendência para nada. Algumas direções nos aprazem mais, outras menos, mas somos a soma de tudo e do todo. Nós é que qualificamos como bom ou mau, como generoso ou não generoso, etc.

DNAH MEIRELLES MG

FILOGÊNESE à caráter genético. Por esse lado só, não creio. Momento atual: grande influência da cultura, do social, portanto, acredito mais no investimento e no esforço de cada pessoa para se atingir o todo, num movimento expansivo (tipo ondas).

QUINAM/MG

Não creio que haja uma “tendência” dessa natureza “inerente” ou “inata” na humanidade, como rogers propõe para a pessoa. Entendo que a humanidade tomar-se “mais generosa” depende da atuação das pessoas como agentes de mudança: tanto a nível pessoal – individual, quanto a nível social. No primeiro caso, atuando junto aos indivíduos, no segundo, participando de movimentos que visem a transformações sociais. Exemplo: atuação junto a entidades e movimentos em prol do menor ou do idoso abandonados. (quer como profissional, quer como cidadão).

2 Por que cresce a necessidade de se esclarecer e discutir diferenças entre ACP e TCC?

LULA (LUIZ ALFREDO MILLECCO MONTEIRO)

2) Acho, se entendo o John e como entendo o CarI, que a Abordagem implica em um sistema interno, uma dinâmica psicológica mais que visão de mundo ou postura filosófica que a implicaria sem dúvida, sem defini-la entretanto. Na TCC adiante-se, espera-se o conhecimento algo próximo da técnica, do método, uma experimentação e uma expectativa de resultados.

MARCIA TASSINARI

2) Essa necessidade é menos sentida aqui no Brasil, visto que a denominação Abordagem Centrada na Pessoa é mais utilizada como substituta de Terapia Centrada no Cliente ou na Pessoa. A grande maioria de nossos profissionais centrados está envolvida com psicoterapia individual. Portanto outras aplicações da ACP (grupos de encontro, grandes grupos, ensino centrado, resolução de conflitos liderança centrada, etc.) são escassas (na prática, pesquisa e teorização). Acompanhando via INTERNET as recentes discussões da lista centrada, percebe-se uma nítida diferença entre os profissionais que trabalham com a psicoterapia e os que trabalham em outros níveis, assim, a necessidade de diferenciação aumenta à medida que vamos para outros campos além da psicoterapia e percebemos que a teoria da terapia proposta inicialmente por Rogers não dá conta desses outros níveis.

Nesse artigo, John Wood explicita de maneira clara para mim, essa distinção, colocando:

TERAPIA CENTRADA NO CLIENTE ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

é uma psicoterapia, com formulação de princípios é uma abordagem (postura psicológica, um “jeito de ser” específico), não é uma filosofia, não é Psicologia, não é uma Escola. Não tem princípios.

tem teoria específica não tem ainda uma teoria

tem um método não tem método

possui corpo de pesquisa comprovando sua eficácia tem poucas pesquisas

ROGÉRIO BUYS

Me é difícil falar do assunto posto que não sinto esta necessidade. Se comentasse, seria “achismo” à distância. Mas, para não deixar em branco a questão, aqui vai minha opinião (com as características ilegível citadas); é uma tremenda babaquice.

JOHN KEITH WOOD

Lula parece ter compreendido a idéia central. Rogers tentou por muitos anos definir claramente a ACP. Quando ele falou sobre TCC, não pareceu haver nenhum problema porque os princípios da TCC são, de uma maneira grosseira, uma descrição da ACP. Entretanto, quando ele tentou explicar outras aplicações da ACP, como workshops de grandes grupos, os princípios pareciam não ser mais relevantes. Assim ele sempre se voltava para sua idéia de um jeito de ser. Esse era um começo satisfatório para definir a ACP, mas subsistiam problemas de categoria que causavam ainda maior confusão. TCC é uma terapia: isto é, uma atividade, que é feita metodicamente, que tem uma teoria e um corpo de pesquisa. ACP é uma postura pessoal. Uma rocha e um elefante pertencem a categorias diferentes. Eles podem ter coisas em comum, como serem ambos de cor cinza. Uma psicoterapia e uma postura pertencem a categorias diferentes. Embora possam se aproximar em vários pontos. Nesse caso, a ACP (um jeito de ser) foi aplicada ao problema da psicoterapia individual e ao longo de 30 anos surgiu a TCC (uma psicologia, com teoria, com um método e um corpo de pesquisas).

Marcia também parece compreender bem as diferenças, mas sugere que elas não importam para os brasileiros que substituem ACP por TCC. O que, nesse caso, é um erro de categoria que resulta num contra-senso literal. E a esse contra-senso se somam outros problemas, tais como os que revolvem em torno da questão 4 sobre, “bastaria um jeito de ser”. (Se a ACP e a TCC fossem esclarecidas, poder-se-ia ver que ao lado de um jeito de ser, em cada campo de aplicação, há também um sério desenvolvimento da prática, incluindo-se métodos, o cultivo de habilidades, tanto quanto um corpo de conhecimento e tentativas de teorização que toma óbvio, que um jeito de ser só não basta).

Rogério nos dá um bom exemplo de ignorância aliada a falta de autocontrole. Depois de admitir sua incompetência para comentar o assunto, ele solta “é uma tremenda babaquice”.

Parece não haver fim para o número de pessoas que comprovam a observação que existem pessoas que têm alguma coisa a dizer, e existem pessoas que têm que dizer alguma coisa. A ACP tem sido definida como: uma tradição, uma filosofia, um meio de comunicação, um sistema de valores, um conjunto de atitudes, um movimento social, uma religião, uma psicoterapia, uma técnica para “responder”, um método revolucionário para mudar instituições, um quadro de referência Iingüístico, e muito mais.

As idéias de Rogers foram comparadas com as dos psicoanalistas Sigmund Freud, Carl Jung e Heinz Kohut; do psiquiatra Milton Erickson, do antropologista Gregory Bateson; do comunitário H.C. Boyte; do pedagogo Paulo Freire; do filósofo Martin Buber. A prática da TCC foi associada com Mr. Rogers uma personalidade conhecida da televisão em programas de crianças, com taoismo, budismo, florais de Bach, com a doutrina cristã do pecado original, com as virtudes do Novo Testamento. Sua luta com a psiquiatria foi associada com a posição de Lutero confrontando a Igreja Católica. E a lista continua.

Há pessoas que praticam ACP combinada com Tai Chi Chuan, ACP e a órbita microscópica do Taoismo, ACP e treinamento vocal, Abordagem Existencial-Fenomenológica Centrada na Pessoa. Há um dentista cujo cartão de visitas convida seus pacientes a Descobrir Carl Rogers. Há até mesmo um psiquiatra que diz fazer, “tratamento de choque eletro-convulsivo centrado-na-pessoa”. E isso não é tudo.

Assim, ninguém sabe o que os outros estão falando porque cada um significa uma coisa diferente quando fala de ACP. Depois de escutar conversas entre “abordados” e “centrados” e também de “críticos”, fica-se com a impressão de se ter testemunhado Chiquita Bacana tentando, sem sucesso, ter um pensamento original.

Eliminar esse nível de confusão por si só já seria suficiente para justificar uma declaração clara do que seja a ACP e como se relaciona com a TCC. Assim, embora possa haver alguma rivalidade entre pessoas que trabalhem como psicoterapeutas no consultório e outras que estejam aplicando a ACP em áreas diversas, a razão principal para clarear as diferenças entre ACP e TCC é esclarecer a confusão e deixar cada pessoa continuar mais eficazmente seu próprio trabalho.

VERA CURY

Infelizmente, não tenho percebido evidências desta preocupação com a freqüência que a pergunta sugere. Tal esclarecimento tornou-se, a meu ver, necessário a partir do momento em que as aplicações da ACP foram sendo ampliadas a outros campos, além da psicoterapia individual. Enquanto esta última se constituía no único exemplo bem sucedido da abordagem, os princípios que lhe conferiam legitimidade prática e conceitual ainda caminhavam de comum acordo com os insights de Rogers a respeito da própria abordagem, isto é, ele se encarregava de incorporá-los á psicoterapia. No entanto, desde os trabalhos com psicóticos (pacientes extremos como foram designados), passando pelos trabalhos com os pequenos grupos de encontro, indo em frente com os workshops intensivos e os encontros de comunidade, diferentes referenciais conceituais precisaram (e ainda precisam) ser construídos para dar conta dos fenômenos envolvidos e dos processos desencadeados. Quanto à ACP, continuou seu curso como uma forma de abordar fenômenos humanos de uma maneira geral, tendo sua compreensão aumentada à medida que as diferentes aplicações se mostravam eficazes.

A esta altura, não me parece concebível que nós — aqueles que compartilham os avanços nos diversos campos de aplicação e beneficiam-se deles em projetos profissionais — ainda façamos confusão entre ACP e TCC. [maginar que os conceitos da TCC possam ser meramente adaptados aos grupos intensivos, só para citar um exemplo, é no mínimo de uma ingenuidade científica considerável, já que qualquer de nossos colegas psicólogos, nas universidades ou em instituições de saúde mental, jogariam por terra tal argumento sem grande esforço, aplicando apenas a lógica. Terapia Centrada no Cliente se constituiu na primeira aplicação eficaz da Abordagem Centrada na Pessoa, de tal forma próxima a eIa em tennos históricos, que Rogers se referia a uma Abordagem (‘entrada no Cliente, porém, atualmente cabe aos psicoterapeutas a continuidade na elaboração de hipóteses que sirvam de

acesso do tipo mão dupla para os avanços práticos e teóricos deste campo de atividade. O mesmo pode ser dito em relação aos que se dedicam aos trabalhos com grupos. A abordagem em si mesma não é passível de filiação e sim de uma convicção autêntica quanto a sua validade e importância em quaisquer dos campos a que foi aplicada.

Nem sempre um bom psicoterapeuta centrado no cliente será uni bom facilitador de grupos pequenos ou um convenor bem sucedido num empreendimento de grupo grande. O fato de todos estes personagens terem nascido da força vital da ACP, não lhes confere legitimidade, cada um deles demanda habilidades específicas que precisam ser exercitadas e desenvolvidas também de formas específicas. Já no caso da ACP, pode continuar como uma forma de abordar fenômenos da inter-relação humana, sem que precise incorporar as especificidades decorrentes de sua aplicação. Caso isto acontecesse, perderia sua potencialidade geral e seria submetida às peculiaridades de determinado campo, isto é, perderia seu caráter de fluidez e movimento para tornar-se vinculada, localizada. Assim, acredito que a manutenção de sua legitimidade como geradora de novas aplicações e conhecimentos depende em última análise da possibilidade de compreensão por parte daqueles que a consideram útil e viável em situações onde faltam respostas e os problemas se avolumam.

Se um psicoterapeuta restringir seu trabalho a uma abordagem ao cliente, pura e simplesmente, correrá o risco de não estruturar a relação terapêutica e nem desenvolver o vínculo interpessoal necessário para que empatia e aceitação incondicional possam ser experienciadas. Neste caso específico, coube à ACP a visão das possibilidades e da urgência deste vínculo, de forma a tomar eficaz a realidade de uma psicoterapia num momento em que Rogers vivenciava o excessivo tecnicismo dos psicólogos versus a demanda emocional emergente naqueles que buscavam ajuda. A ACP trouxe o insight sobre a problemática e a flexibilidade geradora de mudanças; coube aos psicoterapeutas aprender como fazê-lo.

VERA ALVES

Não sei se cresce a necessidade de discutir a diferença entre ACP e TCC, para mim elas são diferentes. A ACP embasa a TCC, como forma de abordar e pode ser estendida a outros âmbitos que não os exclusivamente psicoterápicos. Mas, também pode se dirigir ao campo da psicoterapia.

Acredito que penso assim porque toda minha formação clínica iniciada há dez anos atrás (grupo de estudos, supervisão, etc.) na Abordagem, foram desenvolvidas segundo os princípios da ACP, muito mais do que uma aplicação da técnica da TCC. Talvez para mim falar em diferenciação não seja tão importante até porque fui “formada” dentro desta diferenciação. As pessoas com quem estudei eram profissionais que na época já estavam usando a aprendizagem adquirida com grandes grupos para a prática psicoterápica.

SHIRLEY MACEDO

Porque não há uma divulgação científica suficientemente consistente para se entender que a TCC foi uma fase da ACP e que hoje temos mais uma psicoterapia centrada na pessoa (do cliente e do terapeuta) e que a Abordagem é algo que envolve tanto a PCP quanto a psicoterapia de grupo, os trabalhos em instituições, organizações, etc. E necessário se esclarecer quais os tipos de trabalho que cada “subclasse” dessas se propõe, para que não se proliferem as distorções frente a uma abordagem científica que vem crescendo bastante ao longo dos anos.

MARIA DO CÉU L. BATTAGLIA

Não sei. Disputa de poder?

DINAH MEIRELLES/MG

Vejo a ACP como uma evolução denominativa determinada pela própria evolução da proposta, da atividade, da atividade (ou atuação?): a ACP é mais ampla, a mais abrangente do que TCC (engloba esta).

QUINAM/MG

Acredito que essa necessidade só é sentida por quem tem interesses que eu chamaria de “acadêmicos”. O que tenho visto é o emprego de ambas as expressões, sem prejuízo para a comunicação. Aliás, o mais freqüente, na minha observação, é o emprego de ACP para designar a TCC. Uma pergunta freqüente até para as pessoas que não são do meio “psi”: Qual é a sua abordagem?

3 Existe um caminho ou criação dentro da ACP e da TCC pós-Rogers?

LULA (LUIZ ALFREDO MILLECCO MONTEIRO)

Na ACP não creio ou seja, somos tão recentes no planeta e recém-recentes nesse olhar para o outro, que nesse momento histórico, a ACP já é o porvir. Na TCC, creio que sim, se acreditamos em estudos, atualização, experiência, novas formas de contato, etc.

MARCIA TASSINARI

Ainda não (o próprio Rogers esperava que tivesse), mas vejo algumas possibilidades insinuadas:

• trabalhos além da psicoterapia (citados na outra questão);

• ACP Transpessoal (a partir de Maria Bowen, Antônio Monteiro dos Santos e Elias Boianam);

• psicoterapia fenomenológica-existencial;

• terapia experiencial (Gendlin e colaboradores);

•terapia expressiva centrada na pessoa (Natalie Rogers e colaboradoras).

ROGÉRIO BUYS

Se se delineia uma tendência dentro da ACP surgida após Rogers, acho que não.

JOHN KEITH WOOD

O que implica essa questão? Será que alguém tomou as rédeas depois que Rogers morreu? Não, que eu saiba. Existem novas tendências? Não conheço nenhuma. As que Marcia mencionou, têm existido por muitos anos.

Se alguma coisa indica uma direção dentro da ACP, pode ser a perspectiva que essas várias direções, quando forem compreendidas a partir de uma postura comum – a ACP – conseguirem mostrar um movimento muito forte e definido em direção à “maior ordem, maior complexidade, maior inter- relacionamento”. Se não houver uma visão com essa perspectiva, somente o caos poderá ser notado.

VERA CURY

Não entendi se “pós-Rogers” significa “como superação do modelo rogeriano” ou apenas uma referência histórica ao período compreendido entre sua morte e os dias atuais. Sendo assim, vou tentar uma aproximação a ambas as acepções.

Como sabemos, a obra de Rogers é ampla e traz desenvolvimentos em diversas áreas de aplicação da ACP. Sua contribuição, no entanto, vai além dos campos específicos nos quais atuou: há uma coerência espantosa em seus relatos, sejam eles excertos de sessões terapêuticas, experiências vividas em grupos de encontro, em sala de aula, ou em grandes grupos. Esta coerência diz respeito a sua forma de agir, seu estilo pessoal, seus valores sobre relacionamento humano em geral. E a esta regularidade marcante atribuo a vitalidade das hipóteses teóricas, pois embora não tenham sido até o momento cientificamente comprovadas, sustentam-se graças a inquestionável eficácia da prática. Devemos aos brilhantes insights de Rogers os melhores momentos terapêuticos que já tive oportunidade de acompanhar através de registros. Ele soube como ninguém manter a relação com os clientes em condições ideais de “temperatura e pressão,” ensinando-nos sobre o estado especial de consciência necessário para que o processo experiencial possa ser desencadeado e a mudança terapêutica ocorra. Não há como transmitir o significado das atitudes terapêuticas sem levar o aluno ao contato direto com estes registros de sessões. Frente a isto, curvo-me a sua genialidade e volto a comover-me com a capacidade que teve de transformar sessões públicas de terapia, cuja finalidade era a de demonstrar a técnica, em episódios raros de encontro e troca emocional entre dois seres humanos. Superá-lo? Para que, se seus exemplos continuam tão atuais e ainda demandam teorização? Creio que o melhor seria continuarmos a estudar sua obra de forma a traduzi-la aos meios científicos com maior competência, legitimando-a, ao invés de tentar esquecê-la, pois no meu entender sem Carl Rogers a história da ACP perde não só a luz de quem a fez nascer, perde a própria possibilidade de existir. Produzimos ainda muito pouco como herdeiros, talvez devido a ambigüidade presente na formulação desta pergunta, ou seja, enquanto nos debatermos entre estudar profundamente e com novos métodos a produção de Rogers ou julgá-lo “old-fashioned,” a teoria não consegue avançar.

Quanto aos desenvolvimentos mencionados por vocês em relação ao transpessoal, podemos encontrar mais exemplos significativos nos livros e artigos de Rogers e seus colaboradores diretos escritos até meados da década de 80 do que toda a nossa produção posterior, como “legítimos representantes do movimento.”

VERA ALVES

Se no sentido de após a existência de Rogers, me parece óbvio que sim. Há vários trabalhos sendo desenvolvidos e divulgados que se vinculam aos princípios da ACP. Onde isso vai dar? Não dá para saber, afinal só temos consciência da história, do histórico, depois de tê-los vivido.

SHIRLEY MACEDO

Claro que existe. Rogers foi o iniciador. Temos Gendlin, o próprio John Wood e todos os nossos colegas que trabalham seriamente em trabalhos de pesquisa, desenvolvendo um plantio para o qual Rogers deixou as sementes. Regá-las é tarefa de cada um de nós. Podem-se descobrir coisas novas e dar andamento à ACP dentro de um enfoque que não nos desarticule de um paradigma de visão de homem: o existencialismo e a fenomenologia.

MARIA DO CÉU L. BATTAGLIA

Espero que sim. Pelo menos foi o que entendi da proposta do próprio Rogers de crescimento e transformação X estagnação, modelos rígidos e focos.

DINAH MEIRELLES/MG

Concordo com Marcia Eu mesma introduzi, recentemente, a ACP na .PM Relacional, (Psicomotricidade) conforme trabalho apresentado, (ainda em andamento) no fórum Brasileiro – maio/96, Santa Bárbara, e a ser levado em sua forma concluída, a Aguascalientes.

QUINAMJ –MG

Se existe, eu não conheço

4 Existe uma impressão velada entre alguns colegas que a ACP é um caminho mais sedutor para pessoas menos preparadas cultural e tecnicamente, porque bastaria “um jeito de ser” que seria aval para qualquer tipo de trabalho dos experimentados por Rogers. Vocês também têm essa impressão. E então?

LULA (LUIZ ALFREDO MILLECCO MONTEIRO)

Acho que estamos carentes de liderança vocacionadas, emergentes, que nos ajudem mais contentemente a discutir a Psicologia Comparada questões interdisciplinares, o trabalho dos pequenos e grandes grupos. Por outro lado, a proposta não hierarquizada, a formação que se fundamenta também na auto-atualização, na prática permanente do encontro, da reflexão, da vivência, é muito mais difícil do que o ensino acadêmico dominante em que uma instituição me intitula e um papel escrito por um superior me avaliza.

A experiência institucional das escolas dominantes gera filhos mais bem comportados e às vezes até mais estudiosos. O caminho da liberdade sempre será mais difícil. Não há punição legalizada para preguiça, a usurpação e deturpação de idéias, a caricatura da postura empática, por exemplo. É difícil demais pensar essa questão. Fico, ambíguo, contraditório e infelizmente com alguma nostalgia.

MARCIA TASSINARI

Lamentavelmente tenho mais do que impressão. Constato isso pela demanda dos que procuram (muitos, mas não a maioria), pela má qualidade de alguns trabalhos, palestras e artigos publicados, pelas conversas de bastidores dentro e fora da ACP. Alguns fatores parecem contribuir para essa identidade que “basta um jeito de ser”, que não precisamos estudar, nem pesquisar, que é mais fácil ser centrado, etc:

• hegemonia e institucionalização da psicanálise tanto nos meios acadêmicos quanto na mídia;

• alguns escritos de Rogers, parecendo românticos e simplistas;

• má compreensão de alguns conceitos, especialmente as famosas três atitudes; o processo de grupo, etc.

• ênfase no aspecto vivencial, às vezes sendo entendida como exclusão do intelectual, cognitivo.

•cursos de formação “vapt-vupt”, com critérios de seleção “super elásticos”

ROGÉRIO BUYS

Tenho fortemente esta impressão. A ACP se caracteriza por uma linguagem coloquial (na relação terapêutica). Os conceitos da ACP são acessíveis posto que ela é uma terapia centrada no cliente. Esta realidade facilmente confunde o trabalho centrado com senso comum. Essa opinião e muito difundida. E preciso enfatizar que a efetividade da ACP não está em uma linguagem especial. mas na atitude terapêutica. Esta não é senso-comum esta não existe em nenhum outro lugar a não ser dentro do consultório.

JOHN KEITH WOOD

Aqui, no Brasil nunca encontrei um “colega” que fosse mais preparado cultural e tecnicamente do que os melhores terapeutas centrados-no-cliente, que conheço. Pelo contrário. Aqui novamente, assumo que a questão lida com psicoterapia. Devo dizer que essa perspectiva centrada-no-terapeuta que vocês três estão dando a este estudo enfraquece a sua relevância geral. Embora possa ser extremamente relevante para seus interesses restritos).

Penso que a culpa para esse equívoco grosseiro da noção que “bastaria um jeito de ser” deva ser partilhado. Vocês não podem culpar somente os alunos, que do jeito brasileiro atual querem o máximo com o mínimo esforço possível. Vocês não são meros observadores. Devem assumir sua parte na culpa. Como se espalhou esse conceito ridículo? Ninguém teve coragem de se manifestar contra? Será que os bastidores estão tão mal informados a ponto de não poder esclarecer esse equívoco para prevenir mais “abortados cirandando”?

Rogers disse que, enquanto membro de um grupo, se ele pudesse ser, de verdade, quem ele realmente era, seria suficiente como sua contribuição para a facilitação daquele grupo. Ele nunca alegou que seu “jeito de ser” fosse suficiente para resolver todos os problemas da vida, nem mesmo para aconselhamento de um cliente em terapia.

Sem dúvida, seu “jeito de ser” não é suficiente; mas, para ele, era necessário. Era a postura essencial com a qual ele abordava seu cliente no consultório, sua participação em um grupo de encontro, sua interação com estudantes em sala de aula, sua organização de um grande grupo para lidar com conflitos, compreensão transnacional, como culturas se formam e se transformam.

Como alguém poderia pensar que isso fosse suficiente? Ele aplicou sua abordagem à psicoterapia por 30 anos. Através de ensaios e erros, observação apurada, experimentos científicos, raciocínio preciso, ele lentamente e com segurança, desenvolveu um corpo de conhecimento e métodos eficazes para o aconselhamento de indivíduos no consultório. Será que isso se parece com, bastaria “um jeito de ser”? Outras aplicações da ACP começaram com esse mesmo “jeito de ser” e estão – embora não tão sistematicamente – desenvolvendo seus próprios métodos, acumulando seu próprio corpo de conhecimento.

VERA CURY

Creio que esta não é uma impressão velada, mas sim descarada… Agora, minha grande indagação a este respeito é a seguinte: de onde nasceu tal concepção, no mínimo absurda, senão dos próprios “praticantes do rogerianismo”, ou pior, dos “abordados”, que pretendem representar uma dissidência avançada? Nos meios acadêmicos, a marca costuma fazer valer o produto, isto é, a despeito de nossos valores científicos, continuamos a julgar os trabalhos na área de produção de conhecimentos a partir das pessoas envolvidas. Partindo deste dado de realidade, tenho procurado desenvolver meu potencial individual e profissional na instituição da qual faço parte; tenho feito um exercício de paciência e bom humor para suportar as infindáveis reuniões e os entraves administrativos com o intuito de aumentar minha competência institucional, seja ela nas atribuições burocráticas ou nas salas de aula. Procuro não esquivar-me da vida institucional, pois sem esta tolerância e sem um espírito de pertinência não me vejo em condições de dar aos colegas um testemunho da seriedade e coerência de minhas idéias. Não encontrei, até o momento, outro meio para desfazer esta imagem de superficialidade, ou pior, de irresponsabilidade, que está associada não só a ACP, mas sim a todo o movimento humanista. Por outro lado, ao mencionar a “terceira força” em Psicologia, devemos reconhecer que o pioneirismo daqueles que ousaram desrespeitar o status quo em nome de uma nova ordem, mais humana para abordar problemas humanos, por si só atraiu desafetos, o resto ficou por conta dos próprios humanistas.

CLAUDIO RUD:

Respecto del facilismo conque algunos entienden nuestra practica clinica, creo que no basta con un jeito de ser mi experiencia es que la practica del a.c.p. requiere un riguroso y permanente desafio que no es unjeito de ser. es: SER y ESTAR ASISTIENDO Y SIENDO.(Creo que esto merece una aclaracion mas extensa, pero la verdad es que tengo mucho sueño) Estoy tan entusiasmado con la posibilidad de comunicarme que me doy cuenta que quiero escribir todo en uma solo E-mail, eso no va a ser posible. Asi que mañana continuo con otro para voce y uno especial para Lula.

Cleidemar Teani, Campinas

Não quero, aqui, transmitir a idéia de que abomino os conhecimentos teóricos na ACP, mas apenas reafirmar a escolha, a partir de estudos teóricos e de reflexões sobre a pratica clinica, da primazia da pessoa sobre a técnica.

Estas reflexões dizem respeito à citação de John, a respeito de Buber no texto: “Apenas quando todos os meios falham e que o encontro ocorre”, e a ocorrência deste encontro pode ser de grande fecundidade para a relação de ajuda.

Estou me lembrando de algumas situações em que minha relação com o cliente está de tal forma, que parece que o que eu sei sobre ele, ou, a compreensão que venho tendo do caso, não está ajudando. Então resolvo falar com ele sobre isto que estou percebendo e sentando, e também sobre as coisas que estou pensando a respeito dele: como venho trabalhando, ou seja, o que vinha tentando fazer para ajudá-lo (por exemplo digo de como estava tentando compreende-lo nisto ou naquilo, aceita-lo, etc). E, então, esta conversa é extremamente importante para a pessoa, muda os rumos do atendimento para muito melhor.

Isto, de uma certa forma, pode se ligar com o que já disse de priorizar a pessoa à “técnica’; embora também concebo este exemplo como repleto de empatia. Mas é, aqui, empatia como ATITUDE GENUINA, “saindo pelos poros”, não há um pensar e decidir por ser empático (o que chamaria de usar a” técnica de empatia’). E reagir à situação e esta reação que é minha, enquanto psicoterapeuta, ser importante para o cliente; porque se dá através da expressão de algo que diz respeito, vai diretamente ao encontro dele. E uma fala que brota da pessoa que o terapeuta e, em decorrência da relação que esta travando com esta outra pessoa, que é o cliente, e que se refere não só ao que está se passando com o terapeuta, mas, também com o que está se passando com o cliente. Quando me refiro ao QUE ESTA SE PASSANDO, falo de toda a realidade pessoal do terapeuta, como o que ele pensa, percebe, sente. etc. Há outra situação parecida com a anterior, é que e quando parece que por mais que eu esteja sendo ‘facilitadora”, o processo terapêutico não está evoluindo, e então tenho uma atitude pessoal de “desistir”, não da pessoa, mas de trabalhar como vinha fazendo, e então a pessoa do cliente emerge com uma energia que me surpreende. Situações como estas vão ensinando a ser mais paciente, a esperar com mais confiança, a não exercer uma atividade que é muito mais importante, para a vida do cliente, quando parte dele. Esta paciência e não atividade não significa ficar esperando sem fazer nada. Significa não agir pelo cliente, não tomar para si uma iniciativa que pode ser do cliente; deixar brotar dele esta energia.

Finalizando, esta concepção de empatia, que penso se basear bastante nas aprendizagens mais recentes da ACP, tem levado a me situar mais como uma terapeuta centrada na pessoa e menos como uma terapeuta centrada no cliente. A empatia é vista como o que Wood citou como uma” empatia mais profunda” onde não importa apenas repetir o que o cliente está dizendo, ou cada coisa que ele diz, mas como já citei, anteriormente, que significa agir, como terapeuta, de forma que esta ação diga respeito ao que está se passando na relação com o cliente, podendo incluir a expressão de percepções a respeito do processo terapêutico, a expressão de algum pensamento ou sentimento que o terapeuta esteja tendo, etc. E a empatia será, enato, diretamente proporcional à capacidade do terapeuta de estar presente, vivendo algo COM o cliente, e expressando a ele isto que está vivendo, que está fazendo parte da relação deles.

Aliás, ao observar transcrições de atendimentos feitos por Rogers, não o vejo, de um modo geral, preso à técnica. Sua própria forma de escrever, é mais uma tentativa de dizer, cada vez mais precisamente, o que é a Abordagem em termos da experiência vivida, do que uma tentativa de descrever técnicas.

Um dos fatores que parece ter distorcido um pouco o valor que se dá a técnica foi a pesquisa típica daquela época em que Rogers vivia e que se baseava em testes de hipóteses. As conclusões destas pesquisas inevitavelmente eram do tipo: se isto, então aquilo; ou, isto, isto e aquilo e o que importa; supondo-se que, de antemão, sabe-se sobre o que se está pesquisando. A técnica, num certo sentido, significa saber coisas de antemão, saber como devem eia para a época, e tem até hoje. dependendo do que se queira pesquisar. Mas seguramente, não creio que seja fecunda e abrangente, o bastante, para se estudar os aspectos mais significativos da Abordagem Centrada na Pessoa como a estamos vendo hoje.

Parece que a pesquisa qualitativa, orientada para a descoberta, possibilita que se compreenda melhor o novo, o inusitado de cada encontro humano. Não tendo fixados de antemão seus objetivos, como, por exemplo, a pesquisa fenomenologica existencial (em que venho trabalhando – que ao invés de objetivos tem uma intenção de pesquisa), propicia que se acesse O QUE AINDA NAO FO[ cogitado, mas que pode VIR A SE MOSTRAR, na relação humana, que se constituir. Parece estar aqui uma possibilidade de desenvolvimento e renovação no casamento entre a ACP e a ciência.

VERA ALVES

Acho que os colegas que pensam assim estão certos. Há essa impressão que não me parece velada. E acho que os profissionais “de dentro de casa” contribuem para isso.

SHLRLEY MACEDO

Não. É esta impressão ingênua que permite um sentido de a – cientificidade em relação a ACP. Claro que temos que ter uma abertura para o mundo, acreditar nas forças humanas e humanizantes, mas é preciso que desenvolvemos o lado teórico e científico sem os quais a prática da ACP queda no misticismo, fracassa como conhecimento científico. O “jeito de ser” do próprio Rogers não surgiu ao acaso, ele trabalhou arduamente para fornecer à nossa abordagem um caráter científico. O conflito vivido por ele entre objetividade e subjetividade é um, dentre muitos, dos esforços para conciliar naturza humana com validade científica, uma “afetando” a outra, para resultar num trabalho em prol do crescimento da humanidade.

MARIA DO CÉU L. BATTAGLIA

Acredito que existam terapeutas que se utilizam do título de Rogerianos para um trabalho totalmente desvirtuado do que Rogers propôs. Pode até ser que alguns cheguem aos cursos de formação com esta visão distorcida, mas à medida que vão tendo contato com a teoria e a prática vão certamente cada vez mais descobrindo o quanto é dificil, complexo, arriscado, envolvente, profundo, enriquecedor, construtivo, criativo, “ser” um terapeuta da ACP.

DINAH MEIRELLES – MG

Já ouvi comentários velados, sim, com esta opinião. Mas não endosso. Vejo o trabalho na ACP como de grande exigência na formação, sobretudo no que toca à formação pessoal de atitudes. Entretanto, tenho também uma crítica: parece-me haver um comodismo dos “centrados” quanto à produção científica. Em Maragogi já tivemos uma mostra significativa de trabalhos. Mas sinto que precisamos nos empenhar mais, tanto na produção e publicação, como na formação (cursos).

QUINAMJ – MG

Eu também constato isto. Aliás, historicamente, as primeiras adesões às idéias de Rogers foram muito por aí. Ele mesmo chegou a dizer que não sabia quem tinha feito mais mal às suas idéias: se os ditos “discípulos” ou os que o combatiam.

Mas foi aí que muita gente deu com os burros n’água, porque esse “jeito de ser” não é simplesmente, uma questão de “querer”, de “querer ser”; é preciso “ser” realmente.

5 Como resolver ou se movimentar no antagonismo em que se coloca a ACP de ser anti institucional, por natureza e precisar da instituição universitária, por exemplo, para ensino, formação e reconhecimento acadêmico?

LULA (LUIZ ALFREDO MILLECCO MONTEIRO)

Prefiro ouvir vocês que estão em instituições.

MARCIA TASSINARI

Creio que Rogers, ao se colocar contrário e até avesso às instituições, estava voltado para aquelas que existem, com verticalidade do poder. Acho que podemos criar “instituições centradas”. Aliás, acredito que um dos fatores de nossa “crise”(da ACP) é porque não conseguimos nos fixar muito tempo nas instituições vigentes/atuais.

ROGÉRIO BUYS

Acho que a ACP questiona as instituições, questiona as relações de poder dentro das instituições e este questionamento deve ser levado adiante. Não seria o caso, me parece, da ACP simplesmente afastar-se das instituições – isso seria mais fácil e cômodo.

JOHN KEITH WOOD

A ACP é uma postura. Não é a favor ou contra instituições, universidades, reconhecimento acadêmico. Normalmente é aplicada em situações onde a abordagem institucional tenha falhado. Sua devoção é para com a eficácia, não eficiência; à preservação do potencial, não da produção. Está mais perto da verdade do que da polêmica; mais próxima de fazer a coisa certa do que de acertar (fazer o que é considerado correto). Embora a ACP seja indiferente às instituições, Rogers, depois de uma vida de desapontamentos trabalhando com instituições, tomou-se contrário a elas. Entretanto, duvido que ele continuasse contrário, se elas estivessem ajudando pessoas; a pensar mais claramente, a amar mais profundamente e a agir mais responsavelmente.

VERA CURY

ACP — Anti-institucional por natureza? Será? O próprio Rogers passou grande parte de sua vida profissional e desenvolveu grande parte de sua obra dentro de instituições. Sua crítica às instituições parece-me mais próxima de uma busca de novas formas ou conceitos do que uma apologia ao anarquismo. Superar os modelos institucionais ineficientes e viabilizar as instituições vigentes para os seres humanos, no sentido de possibilitar-lhes settings apropriados para aprendizagem, saúde e criatividade, está mais de acordo com as idéias de Rogers do que a desestruturação da organização social e a volta às bordas.

Creio que um grande parâmetro para mim tem sido este olhar critico sobre os meandros institucionais, sejam estes na família, na universidade, ou nos órgãos públicos. Superar modelos obsoletos ou dotados de pouca honestidade em seus propósitos sim, ficar à parte da vida institucíonai não.

Nossa dificuldade em gerar algum nível de organização para sistematizar os conhecimentos da ACP e de suas aplicações parece ter mais a ver com a ambigüidade quanto à compreensão dos fenômenos envolvidos do que com uma tomada de posição autêntica.

CLAUDIO RUD

Respecto a que somos un movirniento anti institucional, no creo que esto sea asi, en todo caso creemos en otro tipo de instituciones donde el poder esta en manos de todos y para esto la red es un ejemplo de ia institucion que propiciamos como modelo alternativo ai tradicional.

VERA ALVES

Não considero que ACP deva ser anti-institucional.

SHIRLEY MACEDO

Trabalhando em pesquisa. Divulgando a ACP como ciência. Acredito na pesquisa, acredito que fazer psicoterapia individual, grupal, praticar a ACP em instituições é pesquisar. Levar este desenvolvimento adiante é institucionalizar a ACP, é fornecê-la um estatuto de ciência, daí advindo um reconhecimento não só do acadêmico mas social e humano, necessário à manutenção de qualquer ciência.

MARIA DO CÉU L. BATTAGLIA

Pondo os pés no chão. O mundo tem regras e limites. Se estes não existirem também não existiria a ACP. Ela só é enquanto inserida num mundo que não é. E este mundo que faz ela ser grande e construtiva. E a partir deste mundo que podemos trabalhar dentro de uma visão Humanista – Existencial e tentar assim transformá-lo em uma direção centrada.

DINAH MEIRELLES – MG

Do que sempre observei, inclusive no próprio Rogers (Brasília, 85) é uma preocupação e uma- precaução, de, ao se institucionalizar, cair no lugar comum de muitas outras instituições onde, como já se disse, se instala o poder vertical, autocrata, além da formação de “igrejinhas”, o que contrariaria o princípio da “liberdade de ser”. Isso não significa liberdade total, sem limites, de modo algum. Mas a liberdade conquistada pela maturidade com responsabilidade. Quanto à universidade, é o ligar específico para isso, não há como fugir além de não ser antagônica.

QUINAM- MG

Acho que essa pergunta subentende outra questão: “temos de ter o mesmo antagonismo que Rogers tinha pelas institucionalizações ou não?”

Ele tinha motivos para não querer institucionalizar a TCC; nós podemos ter motivos para querer. Aliás, antagonizar a institucionalização para sermos “fiéis” a Rogers consiste um paradoxo: estamos colocando Rogers exatamente no lugar que ele não queria ocupar. Acho que a questão não é a institucionalização em si, mas o que fazemos dela.

6 Por que na nossa história é tão difícil juntar de forma mais profunda, mais abrangente, pessoas que pensam parecido e acreditam fundamentalmente nos grupos, na solidariedade, na comunhão, na força da criatividade coletiva, etc?

LULA (LUIZ ALFREDO MILLECCO MONTEIRO)

Esta questão me coloca na questão 4. Queremos e somos frutos do fascínio pela alteridade, pelo particular, por existências multiplicadoras de si mesma. O outro é diferente do outro que difere de mim, mesmo os profundamente parecidos. Toda tentativa de poder autocrático em que bem e mal, certo e errado servem a um sistema de controle individual e social, não há espaço para divergências, oposição, confronto. As regras gerais são de inclusão e exclusão.

Acho também que estas são as formas mais profundas que conseguimos até aqui conviver.

MARCIA TASSINARI

Sinto-me impotente, enquanto psicóloga para responder a essa questão. Creio que vários outros fatores, sociais, culturais e políticos desempenham um grande papel nessa impossibilidade ou dificuldade de acreditarmos, de radicalizarmos o humano e todas as suas possibilidades. Nossa história têm nos mostrado que os instrumentos de força, de poder, de coerção, de desrespeito têm sido preponderantes.

ROGÉRIO BUYS

É uma ótima pergunta.

JOHN KEITH WOOD

Nossa história? como “abordados”? como espécie? o que?

1. Como espécie: Existiram e sempre irão existir pessoas que agem em comunhão com os outros e com respeito às pessoas, individualmente. Se não fosse assim, a espécie humana já estaria extinta e nós não estaríamos tendo esta discussão, hoje.

2. Como “abordados”: Estou preocupado que vocês achem que sou chato, e que não prossigam adiante no pensamento sobre este assunto tão importante. Peço-lhes que sejam pacientes, e que reflitam mais profundamente no que vou dizer.

Penso que seja simpático e inteligente usar termos tais como “abordados” e “centrados”. E, eu os veria como inofensivos também, se não fosse pela forte impressão que fico, pelos comentários de vocês, que vocês não acham importante agir (ser, pensar e falar) sob a perspectiva que a ACP seja uma postura e não uma filosofia ou um grupo para se filiar ou torcer. Por não agir consistentemente com essa perspectiva, vocês incentivam que pessoas mal preparadas possam ir por aí, chamando atenção a si mesmos como sendo “abordados”.

A definição da ACP que propus não surgiu de um papo no barzinho da praia, no último fim-de-semana. E o próprio conceito de Rogers, e permeia toda sua vida de trabalho. Pessoas sérias devem estudar seu trabalho em profundidade.

A ACP é exatamente o que as palavras sugerem, uma abordagem, que consiste de atitudes, crenças, intenções da parte da pessoa que se defronta com o fenômeno (uma pessoa em terapia, um grupo de encontro, um workshop que se reúne por vários motivos). Assim, é uma postura. Falar “abordados” e “centrados” sugere que a ACP não seja uma postura, nem um jeito de ser (que era a expressão favorita de Rogers), mas, algo mais do tipo de um partido político, o PACP do Brasil (um abordado, como um tucano) ou talvez, uma torcida (ser centrado, como ser um corinthiano).

Vocês podem querer descartar o que estou dizendo como sendo “ironia”. Não é nada disso. Perguntem a seus amigos, jornalistas, ou de literatura, o que eles entendem da construção de suas frases e sobre o conteúdo das suas declarações. As declarações de vocês não apontam para um conceito de ACP? Qual é esse conceito? Certamente não é um jeito de ser.

Agora, voltando para o assunto que, “é tão difícil juntar de forma mais profunda, mais abrangente, pessoas que pensam parecido e acreditem fundamentalmente …“

Vocês já notaram que um grupo de pessoas que se dizem “centrados”, quando se encontram, logo começam a discutir? Fica óbvio que o fato de acreditarem em democracia, apreciarem gerânios e terem repulsa pela autoridade, não significa que tenham mais nada em comum.

Se for possível esclarecer pelo menos o que é ACP, talvez essa situação possa ser melhorada.

VERA CURY

Infelizmente, vejo com um certo pessimismo esta crença de que há “pessoas que pensam parecido e acreditam fundamentalmente nos grupos, na solidariedade, na força da criatividade coletiva, etc.” Eu diria que não tenho visto bons exemplos deste tipo em nossa própria “gente”, naqueles que se dizem parte das “fileiras da ACP”. O misticismo tem tomado o lugar de discussões mais legítimas e objetivas sobre nossos objetivos como profissionais e mesmo como pessoas; ostentamos uma solidariedade, alardeando-a aos novos, nos abraçamos a cada novo Encontro Latino-americano ou Fórum, mas somos incapazes de produzir obras coletivas. Talvez seja por esta razão que tem sido mais fácil embalar os jovens, os recém-chegados, do que enfrentar com amadurecimento nossas diferenças. As vezes, penso que se tivéssemos a coragem para este enfrentamento, muitos partiriam em busca de outros referenciais e isto seria bom, maduro, real. Não adianta engrossar fileiras, se elas se mantêm às custas de tantas ambigüidades escondidas. O que estamos passando aos mais jovens, verdadeiramente? Nosso desejo de estabelecer territórios e fortalecer trincheiras ou um anseio autêntico, legítimo, pelo estabelecimento de compromissos com o saber, com o humano, com o compartilhar de experiências. Ao longo da minha própria vida, tenho aprendido que somente quando minhas ações refletem meus verdadeiros objetivos internos encontro alguma eficácia e desenvolvo meus potenciais criativos.

A cada novo encontro da ACP as pessoas trazem seus trabalhos, mas na maioria das vezes eles são esforços solitários, trôpegos como os primeiros passos. Aplaudimos todas estas iniciativas. massageamos a auto-estima de seus autores e nos despedimos satisfeitos, cada qual de volta a seu próprio destino, aliviados por termos conseguido manter nossa autonomia, tal qual uma daquelas festas em família em que todos festejam e ninguém conversa realmente ou estabelece parcerias. Quando por ventura surgem debates, estes são manipulados para que determinadas “figuras” politicamente corretas, ao menos no que concerne a suas bases territoriais e a suas ambições, mantenham seu brilho e enfraqueçam as dissidências.

VERA ALVES

Respondo aqui usando as colocações de Rogério para a primeira questão: “. . . quando se trata de “humanidade”, ou seja grandes grupos, grandes empresas, países, religiões, interesses internacionais, etc intervém outras variáveis que não as pessoais …“

SHIRLEY MACEDO

Apreendi esta pergunta como algo que ocorre nos encontros da ACP. Todo mundo fica esperando alguém fazer alguma coisa. Parece que há uma cultura que impede o posicionamento das pessoas, um poder que enviesa mais a liberdade de expressão dos antigos. Só participei de um encontro da ACP e foi frustrante para mim. Irritava-me o fato das pessoas dizerem “é assim mesmo, tenha paciência”. Irritava-me, também, o fato de ter a mesma crença no potencial humano e estar ali a serviço de algo em que acreditava e ninguém fazia nada. Passaram-se os quatro dias e eu voltei pra casa com a sensação de vazio, de que ninguém se encontrou, mesmo que alguns questionamentos foram possibilitados (nisso me orgulho de ter frutificado” as pessoas). Não sei responder esta pergunta. Creio que cabe aos mais antigos fazê-lo, para ensinar aos mais novos, à prole da ACP, um caminho diferente. Creio que há receio de um encontro.

MARIA DO CÉU L. BATTAGLIA

Porque tenho a impressão que estas pessoas, na busca da individualidade e da liberdade, têm medo de se “acorrentar” a qualquer grupo, linha ou corrente como se assim fosse ou pudesse ser aprisionada a um espaço específico e estabelecido.

DINAH MEIRELLES – MG

Ultimamente tenho observado, sentido mesmo com muita intensidade, o peso da influência sócio-cultural nas pessoas. Ora, o individualismo é marca forte e registrada das últimas década. Donde, mesmo acreditando “fundamentalmente nos grupos, na solidariedade.., etc.” A pessoa se deixe levar pelo individualismo. Urge trabalharmos bem isso, entre nós.

QUINAM – MG

Eu precisaria de exemplos que caracterizassem essas pessoas para responder à pergunta. Só assim terei uma idéia mais clara das afinidades que a pergunta sugere.

7 Em que, para uma definição mais geral, a ACP em sua estrutura evolucionista se difere das pretensões budistas, evangélicas, incluindo o catolicismo, espíritas de Kardec ou da mitologia africana, para termos alguns pontos referencias?

LULA (LUIZ ALFREDO MILLECCO MONTEIRO)

Se podemos aproximar algumas intenções individuais de pessoas que exercitam, por exemplo, sua capacidade de amar e ajudar o outro, acho antagônicas as propostas que se limitam a um caminho e um fim e a de Rogers que é ilimitada em si mesma e de final improvável, a meu ver impossível de prever, a não ser que perdedores da dificílima esperança, constatemos que a maioria reacionária dos humanos conseguiu pôr fim à espécie e a quem poderia surgir além dela.

MARCIA TASSINARI

Ainda que algumas intenções pareçam semelhantes, creio que existe uma distância irrecuperável em todo e qualquer modelo, religião ou seita que priorize um ser superior ao homem.

ROGÉRIO BUYS

Seria talvez necessário discussão mais ampla sobre as pretensões dos movimentos citados. Na minha opinião, uma das características mais importantes da ACP, senão a mais, é que “o homem é a medida de todas as coisas”. Qualquer outro valor que se interponha entre o homem e ele mesmo, que penso existir nesses movimentos, afasta a concepção fundamental da ACP.

JOHN KEITH WOOD,

Eu lhes dei uma definição mais geral da ACP. Essa questão sugere que vocês ou não compreenderam o que eu disse ou insistem na [vossa] definição implícita da ACP: como tudo e nada. Se continuarem nessa direção, nunca poderemos chegar a alguma compreensão inteligente.

O que os Fóruns da ACP, encontros latinos e os encontros evangélicos, católicos, kardecistas e macumbeiros têm em comum, é a exploração de estados alterados de consciência de pessoas reunidas juntas. O contágio emocional no grupo é usado para reforçar os princípios norteadores de um sistema particular. Assim, “centrados” se sentem mais “centrados”. Evangélicos mais prontos a darem suas vidas para Jesus. Cavalos de santo prontos para carregar mais. Adeptos da macumba, mais próximos de seus arquétipos. A verdade eterna, que sem dúvida está escondida em seus sistemas não aparece facilmente. Embora o candomblé, por exemplo, pareça ser um sistema completo de educação, saúde pública e fortalecimento do caráter moral. Pessoas sérias devem tomar consciência dos sistemas tradicionais e não pensar que sabem alguma coisa porque formaram uma opinião a respeito. Mais importante, devem estudas a produção mágico-religiosa, tribal e cultural dos “encontros latinos”, e “fóruns”. Talvez, seja mais importante saber o que “nós” somos do que imaginar o que “eles” são.

LUIZ ALFREDO (trechos da resposta de Luiz Alfredo para as respostas de John Wood à Ciranda)

Queridíssimo John,

De sua falta e de Lucila, falo em carta para Raquel Rosenthal, que nos propõe, dentro da mesma idéia da ciranda, uma avaliação do Fórum. Peço cópia a ela e lhe mando também. Acho que nessa carta consigo, com mais intimidade e calma, refletir sobre o que sinto e o que vivo na Abordagem e pela Abordagem, com a consciência de quem se afastou de conceitos, de grandes grupos, de Fóruns, etc, por alguns bons anos.

Não tenho hoje, nenhum vínculo institucional. Acho que nunca mais terei. Posso ir num momento ou outro a universidades ou clínicas para grupos rápidos de reflexão, mas já me sinto aposentado de instituições, sejam elas quais forem. Também não me sinto vinculado a uma idéia onde sou aprendiz e dela a um compromisso didático ou formativo ou de liderança de qualquer espécie a não ser de mim mesmo, o que já é muito difícil para um “pai-avô de família”.

Artesão, sou um pouco, operário, sou também. Além disso, enfim, encontrei um velho amigo músico, que aceitou um projeto de compor canções sérias e irônicas sobre a alma humana. Estou adorando. Já temos mais de 20 canções. Mostrei metade delas no Fórum. Foi ótimo. Um dia quero te mostrar todo esse novo trabalho.

Meu compromisso com o sagrado é com a poesia. Entre um livro técnico que me explique a verdade das coisas e de mim mesmo, leio mais um poema, que me explica melhor e mais profundamente o inexplicável. Por ironia do destino, meu parceiro é físico e químico e gosta de pensar nessa área do conhecimento. Entre uma canção e outra, contrastamos meu subjetivismo irremediável com sua obsessiva articulação lógica em tentar me mostrar as evoluções do pensamento de Newton, Einstein e Capra. Às vezes, nos explicamos e nos confundimos horas a fio, tentando desvendar as coisas, mas a volta à musica e à poesia sempre me pacificam e em mim tudo se resolve.

Espero que entenda melhor e também com mais tolerância e paciência a um amante irmão, mas certamente não engajado nessa liderança que você acusa e critica. Mesmo assim queria esclarecer alguns equívocos, não sei porque equivocados:

1) a idéia da ciranda foi minha com entusiasmada ajuda e criação de Marcia.

2) as questões que teriam a função de somente um primeiro estímulo foram escritas por mim, menos por inquietações particulares, essas estão abertamente escritas no meu trabalho para o Fórum, mas mais como um jornalista que faz uma amadora pesquisa de opinião sobre as pessoas que se dizem ligadas a ACP.

3) não sei de onde vieram os termos “abordados”, “centrados”, “dinos”. Sei que chamei de “babies” os que nos chamavam de “dinos”, mas em mim, a única intenção era aceitar umas brincadeiras e brincar de volta.

4) vou ler logo que possa suas indicações. Venho de Marx, de Nietzsche, de Deleuze, de Laing, de Carl, de RacheI e de você, querendo eles e você ou não. Venho de dois acontecimentos sociais ou de “grupo” que me encantaram e me norteiam ainda de alguma forma. O hippismo e o movimento de 68 em Paris. Venho da poética de Camões, de Drummond, de Pessoa, de Bandeira, de Aldir Blanc, meu particular amigo.

5) minha intenção última, mas nada precisa, era levantar algumas questões que são temas permanentes nos Fóruns, Latinos e encontros de pessoas ligadas a nós. Qualquer pessoa poderia invalidar qualquer questão e inserir outra que lhe agradasse. Não tive a menor intenção de acertar ou responder em nome de ninguém ou de nenhum suporte acadêmico.

6) esperava depois de recebidas as novas questões e as respostas às reflexões, mandar para você. Aí sim, para seus estudos e observações finais. Para minha surpresa e mesmo assim, profunda alegria, você e Lucila foram os primeiros a responder. Que loucura, não? Olha que eram 105 pessoas lá no Fórum, vivas com a proposta e quase um mês depois, recebemos por enquanto só vocês.

7) não coloquei essas questões, se você me entende, respondendo ao seu artigo ou tentando algum contra canto. Foi a partir do seu artigo, que adorei, principalmente quando você esclarece definitivamente a ACP e TCC, que pensei em estimular as pessoas a lerem e se revelarem com mais compromisso intelectual.

8) muitas pessoas que formam, dirigem instituições, supervisionam, trabalham em departamento de estado com Educação, Pedagogia, Treinamento, falam da ACP e algumas divergem publicamente de você. Pensei numa ciranda mágica, como Lucila mais uma vez captou perfeitamente, que nos aproximasse na dança do conhecimento e numa possibilidade harmônica na diferença.

9) pedimos aos pernambucanos que nos ensinassem a dançar a ciranda e dançamos todos antes de apresentarmos nossa proposta. Foi lindo. Senti muito a falta de vocês nesse momento.

10) a clínica, o encontro clínico (não gosto do termo psicoterapia porque me confunde com outros procedimentos da área médica e com a pretensão enganosa de que podemos tratar alguém como se trata de dente ou de dor lombar) é minha mais absoluta paixão e orgulho desde o receber torturados pela ditadura à aproximação da morte que faço hoje e ainda ao trabalho com artistas diversos, sobre o processo de criação. Essa experiência me trouxe tudo de melhor que tenho e que fiz, fora a construção definitiva de minha relação com Ana e nossa filha, luz primeira dos meus dias, que espero me ilumine até meu fim.

11) a palavra “colega”, em português, no seu sentido de senso comum, vulgar, realmente é entendida como estrutura de classe, de organização formal, burocrática, mas num sentido mais amplo, mais abrangente, metafórico, quer dizer afins, comunhão de alguma identidade: de bandidos a poetas, de prostitutas a sonhadores ou românticos ou risonhos ou melancólicos. Foi evidentemente esse segundo sentido que eu quis dar.

12) Por mais que eu considere Rogério e Marcia meus queridos colegas nos dois sentidos, não me sinto simbiótico em meus comentários e, se você fizer uma releitura, verá que escrevemos de forma e, às vezes, de conteúdo diferente. Ou seja, não me incluo no vocês que você repetiu mais de uma vez.

13) O fato de você não introduzir nenhuma questão ou anular alguma outra proposta, significa que você considera, mesmo questionada algumas, como você fez, que elas são as questões fundamentais nesse momento em que estamos nos re-movimentando?

14) Você percebe que há um reaquecimento de pessoas interessadas na ACP, em Rogers, até mais do que na TCC? Ou seja, mais de 200 pessoas no Encontro nordestino, algumas universidades abrindo espaço em condições mais dignas em relação a outras visões, e não só para aplicação clínica? Se pensávamos em momento pessimista em 30 ou 40, no Fórum, chegamos a 105 e não demos nenhuma bolsa das 12 solicitadas. Existe aqui no Rio, para minha surpresa, na Baixada Fluminense, área de extrema pobreza e conflitos sociais, uma universidade em que Rogers é cadeira específica. Na Ilha do Governador, bairro de classe média, já se faz a 3a Jornada Rogeriana.

15) Vem, de vez em quando, vontade de juntá-los num encontro para ver quem são, quem somos hoje? O que eles têm a dizer? O que fazem, como fazem? Fico, entretanto inseguro porque não estou mais a fim de confrontos sem a aura da delicadeza. Às vezes, acho que estamos influenciados e parecidos com os gestaltistas dos anos 70.

Enfim, adorei seu trabalho, adorei seu compromisso com nossa idéia, adorei suas respostas, mesmo as equivocadas, no que toca a mim. Leio e guardo com toda a atenção e o respeito que tenho por você. Entendi o que você falou sobre os termos abordados e centrados e o compromisso com a palavra, quando somos públicos, principalmente. Espero ser mais cauteloso no falar e escrever sobre esses temas.

Com amor,/Beijos, /Luiz AIfredo,/maio/96.

JOHN WOOD (resposta à carta anterior de Luiz Alfredo e a um bilhete manuscrito de Marcia – 16/06/96):

Muito obrigado por suas cartas e presentes. E também pelo seu manuscrito, Intenções e Gestos.

Eu apreciei meticulosamente a leitura do seu manuscrito, um agradável equilíbrio de prosa e poesia. Fiquei impressionado com sua habilidade em capturar os pontos sutis do meu trabalho. Sem dúvida, você faz isso também com outras pessoas.

Lendo as mensagens de e-mail que Marcia me mandou, sobre um encontro nos Estados Unidos de pessoas que se associam com “PCA”, fiquei muito surpreso pela discussão. Foi como abrir uma “cápsula de tempo” e estar tendo uma discussão de vinte anos atrás. Foi uma experiência triste para mim. As pessoas participantes dessa discussão de grandes grupos não se informaram, nem sobre os princípios elementares. Estavam preparadas para expressarem suas opiniões e discutirem sem a menor preparação sobre o assunto. Fez-me lembrar daquelas crianças conversando entre si sobre Deus. Porém sem a graça das crianças.

Ainda que nosso avanço de conhecimento tenha sido pequeno, penso que nós, no Brasil, somos privilegiados por termos tido umas poucas experiências genuínas de grandes grupos criativos, e por termos sido obrigados a pensar mais profundamente sobre o assunto. Por exemplo, a única voz sensível que ouvi nessa discussão Americana foi a de Jaime (com quem freqüentemente não concordo). Ele os desafiou a verem o grande grupo sob uma perspectiva mais ampla do que mero aconselhamento. Este desafio não é para diminuir o aconselhamento. E para ampliar a visão.

Esse tipo de insight não é algum tipo de fenômeno Latino Americano, porque Alberto Segrera (a despeito de todo seu charme e inteligência) não tem insights sobre esse assunto como muitos brasileiros têm.

Nem acho que seja um fenômeno totalmente brasileiro: visto que muitas pessoas no Nordeste, que por outro lado têm pensamentos refinados, parecem completamente perdidos neste assunto.

Você e Marcia, Jaime, Vera Cury, e uns poucos outros, não percebem quão avançados vocês realmente estão.. Eu sei porque tenho tido experiência direta com o que está acontecendo em várias partes do mundo.

É devido à confusão epidêmica sobre a abordagem centrada-na-pessoa que tenho trabalhado tão duro tentando tomá-la mais clara como uma postura essencial, e fazendo um esforço para preservar seu potencial, para quando for necessária novamente.

Certamente a necessidade sempre existe. Mas é que o reconhecimento dessa necessidade só vem quando, como notou Buber, “todos os outros recursos falharem”. Quando a última moda de pensamento, a última novidade em técnica de psicologia, a última interpretação de filosofia utópica falharem, então essa postura pode ser aplicada. Entretanto isso só será possível se o seu potencial tiver sido preservado e não desperdiçado por. difamadores, ou pela confusão entre seus adeptos, pela mania de dar novos nomes (embrulhar bens antigos em embalagens novas), pelo fascínio dos jogos infantis sem fazer a passagem para a maturidade.

Portanto eu lhes agradeço por ter inventado a Ciranda e pela oportunidade d’eu poder participar. Estou fazendo-o seriamente e de coração. Estive esperando exatamente por uma iniciativa como essa, para poder contribuir com tudo que posso de uma maneira que as pessoas possam se beneficiar. Talvez essa seja a maneira. Tenho esperança que um diálogo importante resulte dos esforços de vocês.

VERA CURY

A ACP difere das seitas, exatamente porque não é uma seita por definição. Esta pergunta decorre dos tais desvios que estive mencionando ao longo desta ciranda. A questão mais apropriada, embora de certa maneira possa também soar apocalíptica, é “o que fizeram da ACP, ao longo dos anos, no que a transformaram aqueles que pretendiam defendê-la dos cépticos?”

Atualmente, eu diria que não há como evitar as comparações, já que o tal “movimento dos abordados” realmente parece existir, a despeito de todos os esforços de Rogers no sentido contrário. Se a minoria não contaminada pelo fervor religioso ou político for capaz de manter a lucidez e continuar trabalhando de forma objetiva, talvez possa mobilizar as forças construtivas para uma elaboração teórica a partir da prática, com consistência suficiente para sensibilizar aqueles que não compactuam da seita e chegue a produzir uma obra compatível com a herança deixada por Rogers e colaboradores. Este, o meu mais sincero desejo, e com este propósito tenho empenhado esforços.

VERA ALVES

Para mim a ACP não é uma seita, que tenta ganhar “mais ovelhas para seu rebanho”. Eu não a vejo assim, mas me ressinto de algo que ocorre com freqüência de um julgar se o outro é ou não da ACP, aí me parece que alguns acabam tendo um postura de seita.

SHIRLEY MACEDO

Simplesmente por ser uma Ciência. Nada mais que isso.

MARIA DO CÉU L. BATTAGLIA

Não sei.

DINAH MEIRELLES-MG

Não conheço o suficiente aquelas posições, mas vejo pontos comuns entre a ACP e o Catolicismo (Cristianismo) no que tange ao Humanismo.

A ACP, além de atitude (o principal) exige formação teórico – científica para ser aplicada, donde pertencer ao campo da a e da ciência.

QUINAM/MG

Não vejo necessidade desse paralelo diferencial para “uma definição mais geral da ACP. A menos que não tenha entendido a pergunta.

ADENDOS (comentários extras dos cirandeiros):

VERA CURY

Despeço-me aqui desta ciranda, rogando-lhes que aceitem o sabor ácido de algumas de minhas colocações como os acordes mais fortes que impelem a dança a um novo movimento e convidam as pessoas à troca de pares para experimentarem o sabor de novas sensações. Que o cirandar se faça e se insinue, indo além dos grandes salões, espiando por entre frestas e pondo em movimento cada um e a todos. Que desta ciranda possa emergir a coragem de novos olhares e a alegria das descobertas! Um grande abraço,

JOHN KEITH WOOD

Quero agradecer o convite para participar no projeto de vocês. Fico muito contente por vocês estarem tentando uma maneira criativa de avançar o conhecimento. Então, aqui estamos, como numa Ciranda, cada um começando de novo, começando juntos. Espero que essa dança – através de palavras – possa dar mais, do que mera satisfação (ou desapontamento) pessoal, de fazer parte de um “acontecimento”, como um “fórum” ou “encontro latino”, e que ocorra uma verdadeira integração de conhecimento.

LUCILA MACHADO ASSUMPÇÃO:

CIRANDA

Gostei muito da idéia de vocês

(Lula, Marcia e Rogério)

de porem o texto do John a cirandar.

Dando voltas a cada novo perguntar.

Quero participar dessa Círanda,

quero re-conhecer-me no seu nome.

Um nome sem “dadas”, ou “ísmos” no seu título. –

Apenas um chamado, como placas no caminho:

“Atenção ! Pessoas Cirandando”

ou “Vamos todos Cirandar…’

Ou qualquer coisa sem gênero ou sigla.

Simplesmente Pessoas, pessoas atentas.

Atentas a si mesmas e aos outros,

às circunstâncias

e ao desconhecido.

Pessoas que não necessariamente sigam uma linha,

mas estejam em busca de um alinhamento.

Dispostas a por seu melhor

e não resistir se transformar,

se for pra melhor cirandar.

Voltar ao círculo pra aprimorar

e me tomar objeto desse refinar

que integra o ser, o pensar e o falar.

Gostei! Cirandando

poderemos chegar em algum lugar,

e talvez o Papel da gente possamos realizar:

– pensar mais claramente

– amar mais inteiramente

– agir mais responsavelmente

Gostei! Porque ao tentar responder

me descobri a perguntar, e a me auscultar

– isso, que é o combustível do Cirandar

2ª. mensagem de CLAUDIO RUD em 24/07/96:

Respecto de la ciranda nos ocurre que tal vez estas preguntas, si bien son interesantes, no son lo que para nosotros es lo mas importante. Uno de los concxeptos que estamos revisando es el de la tendencia actualizante a Ia cual estas prefiriendo denominar TENDENCIA TRANSFORMATIVA y no formativa. Esta denominacion y las implicancias teoricas y practicas permiten no ocupamos de cuestiones teleologicas es decir finalistas, no tendria sentido entonces preguntarse si Ia humanidad es escencialmente generosa o rum como estadio ultimo, es como entender que la vida y la humanidad no son un film con un happy end o un bad end, es un film SIN END y por eso hay que abandonar la espectativa occidental y cristiana de pensar los acontecimientos humanos como un cuento con final. Por supuesto que esto requiere una mayor explicitacion pero ai menos queria contarles algunas de Ias inquietudes teoricas y sus consecuencias practicas en las cuales estoy reflexionando cii ia actualidad.

Cleidemar Teani:

Sinto que estamos fazendo desta Ciranda, cada um com sua participação, algo muito especial. Traz um gosto de estar junto e também de liberdade. E sempre bom poder compartilhar um pouco das reflexões que estamos fazendo. E bem este o sentido deste texto. Conforme fui lendo o texto do John me senti tentando compreender o que ele havia escrito ali, ao mesmo tempo que ia tendo vontade de dizer algumas coisas a ele.

A Ciranda possibilita estender este dialogo a todos vocês, colegas e amigos da ACP. E melhor ainda. O que este artigo foi me fazendo pensar: Quando a técnica falha, então quando não se sabe o que fazer.. .nestes momentos somos mais humanos, esta falando mais alto o que estamos experimentando, sentindo, do que o que sabemos (ou pensamos saber). E a experiência que está sendo vivida (algo inusitado: estar com aquela pessoa naquela situação) que sobressai, que “domina a cena’, e não os conhecimentos teóricos. Então há menos técnica e mais UM ENCONTRO ENTRE DOIS SERES HUMANOS, ou momentos como estes, para mim, são o que mais caracteriza a ACP, inclusive quando ela está sendo aplicada à psicoterapia (aliás, minhas reflexões se baseiam. principalmente, na experiência clínica, como psicoterapeuta e pesquisadora). A ACP é ressaltada ao viver estes momentos sem ansiedade, na confiança de que eles podem ter efeitos muito positivos para quem os esta vivendo. Quando as pessoas estão experimentando algo que é, essencialmente, baseado no que existe entre elas naquele momento, estão colocando em prática o viver existencialmente. isto pode ser tanto ou mais importante que qualquer dado intelectual, de conhecimento prévio a respeito da situação, que qualquer uma das pessoas (terapeuta ou cliente) possa ter.

Marcia, pra você também um grande beijo e os agradecimentos, por ter junto ao Lula e ao Rogério, aberto mais este espaço de comunicação.

VERA LÚCIA ALVES/Campinas (19/08/96)

(trechos da carta introdutória) . . . fiquei agradavelmente surpresa quando recebi a Ciranda Abordada. As perguntas são extremamente pertinentes, assim como muitas das respostas. Li as suas. as de Lula e Rogério: as de Luciia e de Vera Cury.

(introdução às respostas) Achei sua resposta para a quarta questão extremamente verdadeira: não podemos separar cognitivo do vivencial … E assim tomei gosto para me atrever a respondê-las. Achei estas perguntas muito boas, interessantes e me parecem relacionadas à uma visão de homem, preocupação esta que nem sempre vejo na ACP. Respondo aqui, de forma breve às sete questões propostas. Penso que poderia elaborar melhor minhas idéias e responder de forma mais profunda. Mas, me vejo respondendo à esta categoria de questões de forma visceral, na produção de minha dissertação de mestrado…

SHIRLEY MACEDO

(trechos da introdução às respostas): Responder estas questões constitui um desafio para alguém que só há pouco tempo entrou em contato com a ACP na prática clínica, embora como graduanda venha estudando a obra rogeriana, o existencialismo e a fenomenologia já há alguns anos (desde 1992). Também cursei a pós – graduação Lato senso na UNICAP – Recife/PE em Psicologia- Clínica na Abordagem Existencial – Fenomenológica Centrada na Pessoa – onde tive o prazer de entrar em contato com laraci Advíncula, Carmem Barreto e Afonso Fonseca, entre outros. Hoje trago tais colegas como amigos que muito me ajudaram a assumir um posicionamento crítico – científico frente à ACP e que muito me engrandecem pessoalmente. Farei um esforço para responder às questões da Ciranda Abordada, mas com algumas dúvidas no entendimento da formulação das mesmas (será isso mesmo que estão perguntando? Será isso mesmo que devo responder?) Enfim, faço o possível para ajudar os colegas que tiveram uma idéia muito interessante de dividir e divulgar questionamentos que, certamente, irão enriquecer ainda mais a ACP e a integração “cultural” da mesma.

CIRANDA

Gostei muito da idéia de vocês

(Lula, Marcia e Rogério)

de porem o texto do John a cirandar.

Dando voltas a cada novo perguntar.

Quero participar dessa Ciranda,

quero re-conhecer-me no seu nome.

Um nome sem “dadas”, ou “ismos” no seu título.

Apenas um chamado, como placas no caminho:

“Atenção 1 Pessoas Cirandando”

ou ‘Vamos todos Cirandar…”

Ou qualquer coisa sem gênero ou sigla.

Simplesmente Pessoas, pessoas atentas.

Atentas a si mesmas e aos outros,

às circunstâncias

e ao desconhecido.

Pessoas que não necessáriamente sigam uma linha,

mas estejam em busca de um aljnhamento.

Dispostas a por seu melhor

e não resistir se transformar,

se for pra melhor cirandar.

Voltar ao círculo pra aprimorar

e me tornar objeto desse refinar

que integra o ser, o pensar e o falar.

Gostei! Cirandando

poderemos chegar em algum lugar,

e talvez o Papel da Gente possamos realizar:

– pensar mais claramente

– amar mais inteiramente

– agir mais responsavelmente

Gostei 1 Porque ao tentar responder

me descobri a perguntar, e a me auscultar

– isso, que é o combustível do Cirandar

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