Ciranda Abordada

Vera Engler Cury

1. Existiria uma direção ou uma tendência filogenética Para uma humanidade mais generosa?

Creio que do ponto de vista filogenético a evolução responde apenas às necessidades de manutenção da espécie. Como segmento biológico. A seleção de um traço tal como “generosidade” pertenceria mais ao campo de uma evolução ontogenética de desenvolvimento do ser, e indo um pouco além, do “ser no mundo.”

No entanto, admito um certo mal-estar quanto a este termo “generosidade’, por estar impregnado do moralismo vigente nas sociedades ocidentais de tradição católica, nas quais a doação ao próximo implica sempre uma possível abertura de crédito em relação a ida eterna. Sob este prisma, não me parece algo que expresse a congruência de um ser, gregário por definição, com a tendência formativa, e sim mais uma exigência em sintonia com padrões culturais vigentes. Prefiro pensar na possibilidade de escolha do comportamento “mais voltado para o bem comum” como decorrente de uma apreensão mais amadurecida, ou seja realista, da vida cotidiana, vida esta que demanda cooperação como via de acesso a uma complexidade necessária para ampliar as possibilidades de sobrevivência da espécie e dos indivíduos em grupo. Neste sentido, uma humanidade mais generosa seria aquela com maior grau de coerência experiencial coletiva. Recorro ao sentido do coletivo, por, acreditar que se tal significado não se constituir numa percepção compartilhada por grande parte do grupo, e não mera idiossincrasia de determinados indivíduos, não pode ser considerado de relevância como traço evolutivo.

Finalmente, creio que como tendência potencial, os comportamentos que priorizam o bem comum são parte de uma herança genética que vem sendo aperfeiçoada ao longo de toda a história da humanidade, o que, certamente, não garante sua efetivação ou eficácia em determinado tempo ou local, como nos evidenciam os episódios trágicos da vida em sociedade testemunhados neste século.

2. Por que cresce a necessidade de se esclarecer e discutir diferenças entre ACP e TCC?

Infelizmente, não tenho percebido evidências desta preocupação com a freqüência que a pergunta sugere. Tal esclarecimento tornou-se, a meu ver, necessário a partir do momento em que as aplicações da ACP foram sendo ampliadas a outros campos, além da psicoterapia individual. Enquanto esta última se constituía no único exemplo bem sucedido da abordagem, os princípios que lhe conteriam legitimidade prática e conceitual ainda caminhavam de comum acordo com os insights de Rogers a respeito da própria abordagem. isto é, ele se encarregava de incorporá-los à psicoterapia. No entanto, desde os trabalhos com psicóticos (pacientes extremos como foram designados), passando pelos trabalhos com os pequenos grupos de encontro, indo em frente com os workshops intensivos e os encontros de comunidade, diferentes referenciais conceituais precisaram (e ainda precisam) ser construídos para dar conta dos fenômenos envolvidos e dos processos desencadeados. Quanto à ACP, continuou seu curso como uma forma de abordar fenômenos humanos de uma maneira geral, tendo sua compreensão aumentada à medida que as diferentes aplicações se mostravam eficazes.

A esta altura, não me parece concebível que nos – aqueles que compartilham os avanços nos diversos campos de aplicação e se beneficiam deles em projetos profissionais ainda façamos confusão entre ACP e TCC. Imaginar que os conceitos da TCC possam ser meramente adaptados aos grupos intensivos, só para citar um exemplo, é no mínimo de uma ingenuidade científica considerável, já que qualquer de nossos colegas psicólogos, nas universidades ou em instituições de saúde mental, jogariam por terra tal argumento sem grande esforço aplicando apenas a lógica. Terapia Centrada no Cliente se constituiu na primeira aplicação eficaz da Abordagem Centrada na Pessoa, de tal forma próxima a ela em termos históricos, que Rogers se referia a uma Abordagem Centrada no Cliente, porém, atualmente cabe aos psicoterapeutas a continuidade na elaboração de hipóteses que sirvam de acesso do tipo mão dupla para os avanços práticos e teóricos deste campo de atividade. O mesmo pode ser dito em relação aos que se dedicam aos trabalhos com grupos. A abordagem em si mesma não é passível de filiação e sim de uma convicção autêntica quanto a sua validade e importância em quaisquer dos campos a que foi aplicada.

Nem sempre um bom psicoterapeuta centrado no cliente será um bom facilitador de grupos pequenos ou um convenor bem sucedido num empreendimento de grupo grande. O fato de todos estes personagens terem nascidos da força vital da ACP, não lhes confere legitimidade, cada um deles demanda habilidades especificas que precisam ser exercitadas e desenvolvidas também de formas especificas. Já no caso da ACP, pode continuar como uma forma de abordar fenômenos da inter-relação humana, sem que precise incorporar as especificidades decorrentes de sua aplicação. Caso isto acontecesse, perderia sua potencialidade geral e seria submetida às peculiaridades de determinado campo, isto é, perderia seu caráter de fluidez e movimento para tornar-se vinculada, localizada. Assim, acredito que a manutenção de sua legitimidade como geradora de novas aplicações e conhecimentos depende em última análise da possibilidade de compreensão por parte daqueles que a consideram útil e viável em situações onde faltam respostas e os problemas se avolumam.

Se um psicoterapeuta restringir seu trabalho a uma abordagem ao cliente, pura e simplesmente, correra o risco de não estruturar a relação terapêutica e nem desenvolver o vínculo interpessoal necessário para que empatia e aceitação incondicional possam ser experienciadas. Neste caso específico, coube a ACP a visão das possibilidades e da urgência deste vínculo, de forma a tornar eficaz a realidade de uma psicoterapia num momento em que Rogers vivenciava o excessivo tecnicismo dos psicólogos versus a demanda emocional emergente naqueles que buscavam ajuda. A ACP trouxe o insight sobre a problemática e a flexibilidade geradora de mudanças; coube aos psicoterapeutas aprender como fazê-lo.

3)Existe um caminho ou criação dentro da ACP e da TCC pós-Rogers?

Não entendi se “pós-Rogers” significa “como superação do modelo rogeriano ou apenas uma referência histórica ao período compreendido entre sua morte e os dias atuais. Sendo assim vou tentar uma aproximação a ambas as acepções.

Como sabemos, a obra de Rogers é ampla e traz desenvolvimentos em diversas áreas de aplicação da ACP. Sua contribuição, no entanto, vai além dos campos específicos nos quais atuou, há uma coerência espantosa em seus relatos, sejam eles excertos de sessões terapêuticas, experiências vividas em grupos de encontro, em sala de aula, ou em grandes grupos. Esta coerência diz respeito a sua forma de agir, seu estilo pessoal, seus valores sobre relacionamento humano em geral. E a esta regularidade marcante atribuo a vitalidade das hipóteses teóricas, pois embora não tenham sido até o momento cientificamente comprovadas, sustentam-se graças a inquestionável eficácia da prática. Devemos aos brilhantes insights de Rogers os melhores momentos terapêuticos que já tivemos a oportunidade de acompanhar através de registros. Ele soube como ninguém manter a relação com os clientes em condições ideais de “temperatura e pressão,” ensinando-nos sobre o estado especial de consciência necessário para que o processo experiencial possa ser desencadeado e a mudança terapêutica ocorra. Não há como transmitir o significado das atitudes terapêuticas sem levar o aluno ao contato direto com estes registros de sessões. Frente a isto, curvo-me a sua genialidade e volto a comover-me com a capacidade que teve de transformar sessões públicas de terapia, cuja finalidade era a de demonstrar a técnica, em episódios raros de encontro e troca emocional entre dois seres humanos. Superá-lo para que, se seus exemplos continuam tão atuais e ainda demandam teorização. Creio que o melhor seria continuarmos a estudar sua obra de forma a traduzi-la aos meios científicos com maior competência, legitimando-a, ao invés de tentar esquecê-la, pois no meu entender sem Carl Rogers a historia da ACP perde não só a luz de quem a fez nascer, perde a própria possibilidade de existir. Produzimos ainda muito pouco como herdeiros, talvez devido a ambigüidade presente na formulação desta pergunta. ou seja, enquanto nos debatermos entre estudar profundamente e com novos métodos a produção de Rogers ou julgá-lo “old-fashioned,” a teoria não consegue avançar.

Quanto aos desenvolvimentos mencionados por vocês em relação ao transpessoal, podemos encontrar mais exemplos significativos nos livros e artigos de Rogers e seus colaboradores diretos escritos até meados da década de 80 do que toda a nossa produção posterior, como “legítimos representantes do movimento.”

4) Existe uma impressão entre alguns colegas que a ACP é um caminho?

Creio que esta não é uma impressão velada, mas sim descarada… Agora. minha grande indagação a este respeito é a seguinte: de onde nasceu tal concepção, no mínimo absurda, senão dos próprios “praticantes do rogerianismo”, ou pior, dos “abordados”, que pretendem representar uma dissidência avançada? Nos meios acadêmicos, a marca costuma fazer valer o produto, isto é, a despeito de nossos valores científicos, continuamos a julgar os trabalhos na área de produção do conhecimento a partir das pessoas envolvidas. Partindo deste dado de realidade, tenho procurado desenvolver meu potencial individual e profissional na instituição da qual faço parte tenho feito um exercício de paciência e bom humor para suportar as infindáveis reuniões e os entraves administrativos com o intuito de aumentar minha competência institucional, seja ela nas atribuições burocráticas ou nas salas de aula. Procuro não esquivar-me da vida institucional, pois sem esta tolerância e sem um espírito de pertinência não me vejo em condições de dar aos colegas um testemunho da seriedade e coerência de minhas idéias. Não encontrei, até o momento, outro meio para desfazer esta imagem de superficialidade. ou pior. de irresponsabilidade, que está associada não só a ACP, mas sim a todo o movimento humanista. Por outro lado, ao mencionar a “terceira força” em Psicologia, devemos reconhecer que o pioneirismo daqueles que ousaram desrespeitar o status quo em nome de uma nova ordem, mais humana para abordar problemas humanos, por si só atraiu desafetos, o resto ficou por conta dos próprios humanistas.

5) Como resolver ou se movimentar…

ACP — Anti-institucional por natureza? Será? O próprio Rogers passou grande parte de sua vida profissional e desenvolveu grande parte de sua obra dentro de instituições. Sua critica às instituições parece-me mais próxima de uma busca de novas formas ou conceitos do que uma apologia ao anarquismo. Superar os modelos institucionais ineficientes e viabilizar as instituições vigentes para os seres humanos, no sentido de possibilitar-lhes settings apropriados para aprendizagem, saúde e criatividade, está mais de acordo com as idéias de Rogers do que a desestruturação da organização social e a volta às hordas.

Creio que um grande parâmetro para mim tem sido este olhar crítico sobre os meandros institucionais, sejam estes na família, na universidade, ou nos órgãos públicos. Superar modelos obsoletos ou dotados de pouca honestidade em seus propósitos sim, ficar à parte da vida institucional não.

Nossa dificuldade em gerar algum nível de organização para sistematizar os conhecimentos da ACP e de suas aplicações parece ter mais a ver com a ambigüidade quanto à compreensão dos fenômenos envolvidos do que com uma tomada de posição autêntica.

6) Por que na nossa história….?

Infelizmente vejo com um certo pessimismo esta crença de que há “pessoas que pensam parecido e acreditam fundamentalmente nos grupos, na solidariedade, na força da criatividade coletiva, etc”. Eu diria que não tenho visto bons exemplos deste tipo em nossa própria “gente”, naqueles que se dizem parte das “fileiras da ACP”. O misticismo tem tomado o lugar de discussões mais legítimas e objetivas sobre nossos objetivos como profissionais e mesmo como pessoas. Ostentamos uma solidariedade, alardeando-a aos novos, nos abraçamos a cada novo encontro latino-americano ou fórum, mas somos incapazes de produzir obras coletivas. Talvez, seja por esta razão que tem sido mais fácil embalar os jovens, os recém-chegados, do que enfrentar com amadurecimento nossas diferenças. As vezes, penso que se tivéssemos a coragem para este enfrentamento, muitos partiriam em busca de outros referenciais e isto seria bom, maduro, real. Não adianta engrossar fileiras, se elas se mantêm às custas de tantas ambiguidades escondidas. O que estamos passando aos mais jovens, verdadeiramente? Nosso desejo de estabelecer territórios e fortalecer trincheiras ou um anseio autêntico, legítimo, pelo estabelecimento de compromissos com o saber, com o humano, com o compartilhar de experiências. Ao longo da minha própria vida, tenho aprendido que somente quando minhas ações refletem meus verdadeiros objetivos internos encontro alguma eficácia e desenvolvo meus potenciais criativos.

A cada novo encontro da ACP as pessoas trazem seus trabalhos, mas na maioria das vezes eles são esforços solitários, trôpegos como os primeiros passos. Aplaudimos todas estas iniciativas, massageamos a auto-estima de seus autores e nos despedimos satisfeitos, cada qual volta a seu próprio destino, aliviados por termos conseguido manter nossa autonomia, tal qual uma daquelas festas em família em que todos festejam e ninguém conversa realmente ou estabelece parcerias Quando por ventura surgem debates, estes são manipulados para que determinadas “figuras” politicamente corretas, ao menos no que concerne a suas bases territoriais e a suas ambições, mantenham seu brilho e enfraqueçam as dissidências.

7) Em que para uma definição….

A ACP difere das seitas, exatamente porque não é uma seita por definição Esta pergunta decorre dos tais desvios que estive mencionando ao longo desta ciranda. A questão mais apropriada, embora de certa maneira possa também soar apocalíptica, é “o que fizeram da ACP, ao longo dos anos, no que a transformaram aqueles que pretendiam defendê-la dos cépticos?”.

Atualmente, eu diria que não há como evitar as comparações, já que o tal “movimento dos abordados” realmente parece existir, a despeito de todos os esforços de Rogers no sentido contrário. Se a minoria não contaminada pelo fervor religioso ou político for capaz de manter a lucidez e continuar trabalhando de forma objetiva, talvez possa mobilizar as torças construtivas para uma elaboração teórica a partir da prática, com consistência suficiente para sensibilizar aqueles que não compactuam da seita e chegue a produzir uma obra compatível com a herança deixada por Rogers e colaboradores. Este, o meu mais sincero desejo, e com este propósito tenho empenhado esforços.

Despeço-me aqui desta ciranda, rogando-lhes que aceitem o sabor ácido de algumas de minhas colocações como os acordes mais fortes que impelem a dança a um novo movimento e convidam as pessoas à troca de pares para experimentarem o sabor de novas sensações. Que o cirandar se faça e se insinue, indo além dos grandes salões, espiando por entre frestas e pondo em movimento cada um e a todos. Que desta ciranda possa emergir a coragem de novos olhares e a alegria das descobertas!

Um grande abraço,

Vera Engler Cury

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