COMUNIDADE OU GRANDE GRUPO ? (Comunidade e a Abordagem Centrada na Pessoa)

Raquel Wrona

INTRODUÇÃO

Comunidade é tema de interesse para estudiosos dos grupos humanos, seja sob a ótica da Antropologia, da Sociologia ou da Psicologia Social, sendo especialmente precioso para a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) quando trata dos grandes grupos.

Minha motivação para explorar esse tema vem da observação de que se atribui distintos significados para comunidade, o que parece implicar na disparidade de expectativas e consideração dos resultados dos eventos de grandes grupos sob os referenciais da Abordagem Centrada na Pessoa.

Tratarei dos chamados Fóruns ou Encontros da ACP ,eventos dirigidos especificamente a publico interessado por essa abordagem. Não serão consideradas aqui as propostas conhecidas como workshops ou grupos vivenciais intensivos dirigidos a um público mais amplo, quando “o tópico de interesse mais freqüente dos participantes é explorar a si mesmos e seus relacionamentos”(Wood,1999,p.137).

Nos Encontros (ou Fóruns) da ACP são considerados tópicos de interesse não só o crescimento pessoal dos participantes, como a ampliação da compreensão da Abordagem Centrada na Pessoa nos seus aspectos teóricos e práticos, objetivos a serem alcançados através da oportunidade de entrosamento em comunidade das pessoas presentes, sejam elas profissionais, estudantes ou estudiosos da Abordagem Centrada na Pessoa. É essa condição, de profundo entrosamento que propiciará a realização dos objetivos visados por cada um e por todos os participantes desses encontros, sendo a própria dinâmica do desenvolvimento desse entrosamento – a formação de comunidade – um objeto de interesse de estudo para a ACP.[1]

Recorrerei ao conceito de comunidade para a Sociologia, à sistematização de Barrett-Lennard (1994) sobre comunidades da ACP, a textos mais recentes de destacados autores desta abordagem e aos levantamentos que realizei sobre o I Fórum Brasileiro da ACP[2] e o I Encontro da ACP da Região Sudeste [3]. Nesses, e mais especialmente no segundo, me interessei pelas motivações, expectativas e intenções dos participantes e suas percepções sobre resultados. Devido à natureza auto-reguladora desses eventos, é de se supor que encontraríamos aquilo que, como participantes-construtores, estivéssemos buscando construir, portanto as motivações, expectativas, as intenções dos participantes determinariam o resultado alcançado.

Há comunidade?

Analisando as diferentes acepções em que é mais freqüentemente empregado, pretendo contribuir para maior especificidade do conceito de comunidade para a Abordagem Centrada na Pessoa .

Presto atenção reverente às palavras e seu poder transformador. É para mim angustiante testemunhar o que agora, com o advento da Internet e a conseqüente “comunicação escrita apressada”, se tornou mais ostensivamente observável: o descuido com a precisão da linguagem, o esvaziamento das palavras, a banalização dos sentidos e conseqüente imprecisão dos conceitos advindos dessa criação humana tão poderosa que é a palavra. Acredito que a palavra certeira, precisa, tem um valor mágico de transformação e proponho aqui retomar comunidade, como tentativa de restaurar seu poder .

ORIGEM DA PROPOSTA DE GRANDES GRUPOS SOB OS REFERENCIAIS DA ACP

As “comunidades para aprendizagem” (communities for learning) surgiram na metade da década de 70, como desenvolvimento das idéias de Carl Rogers, sob a hipótese de que o clima de liberdade promovido pelas condições facilitadoras, já evidenciado na psicoterapia individual, nos pequenos grupos e no contexto escolar, poderia também propiciar o crescimento no grupo maior, numa comunidade.

Reúne-se um grande grupo de pessoas interessadas no potencial de desenvolvimento humano, convivendo em regime residencial por uma semana em média ,cabendo ao grupo como um todo ,através de uma grande reunião inicial e que poderá ocorrer quase diariamente (ou mais de uma vez por dia) encontrar as formas de atender a seus interesses, providenciando criativamente as atividades que comporão sua agenda para aquela semana. Assim, poderão surgir reuniões em grupos menores de interesse por um determinado tema, as atividades de lazer, celebrações, discussões, eventualmente excursões (!), incontáveis possibilidades de criações originais e transformadoras para cada participante individualmente e para o grupo como todo. A grande reunião é a matriz gestora: conversando, compartilhando emoções e sentimentos , idéias, sonhos e planos,

“desencadeia-se um movimento cada vez maior dos participantes na identificação e resolução de suas questões enquanto grupo, na consecução de seus objetivos, movimento esse que se desenvolve através das manifestações das sensibilidades individuais, com a consideração aberta das diferenças e similaridades e que vai construindo o consenso, apesar de e graças às diferenças.O processo assim desenvolvido permite a cada participante o reconhecimento da responsabilidade por si próprio e pelo grupo como um todo”(Wrona Rosenthal,1996,p4)
É a oportunidade da construção, da geração de uma condição que proporciona o entrosamento de cada um consigo mesmo[4], engendrado em concomitância à interconexão entre os membros, numa integração tal onde não há cisão, mas totalidade; unidade sem perda da multiplicidade e multiplicidade em “estado de comunidade”.

Em 1981,por iniciativa de Alberto Segrera, com a total adesão de Rogers, inicia-se o planejamento do que viria a ser o I Fórum Internacional da ACP, realizado no México em 1982, e que originou uma seqüência de encontros periódicos internacionais, latino-americanos, nacionais e regionais , com a característica de especificidade de público e objetivos conforme descrevemos.

O QUE É COMUNIDADE ?

Encontro de comunidade, comunidade para aprendizagem (ou de aprendizagem), workshop de comunidade, reunião de comunidade, aprendizagem de comunidade…afinal, o quê é comunidade?

A literatura sobre a ACP reflete a imprecisão do que se entende por comunidade: é freqüente o emprego de “comunidade” como sinônimo de “grande grupo”.

Para Bozarth, um grupo de comunidade centrado na pessoa ( person centered community group )geralmente se refere a grupos de 30 a 300 pessoas, que se encontram por um período entre três dias a duas semanas, numa atmosfera psicológica baseada nos princípios da Abordagem Centrada na Pessoa” ( 1998 p.151 ).

Já Coulson (1999,p.167) emprega tanto os termos workshop, grupo ou comunidade para se referir à totalidade dos participantes desse tipo de evento, ressaltando que nem todos necessariamente comparecem à reunião central , a chamada community meeting , à qual nós brasileiros costumamos chamar “grupão”.

MacMillan & Lago(1999) num levantamento dos diferentes eventos de grupo da ACP, referem-se a “workshop de grande grupo”, expressão usada também por Wood (1999) que outras vezes agrega o adjetivo “temporário” a grande grupo . Mesmo quando- raras vezes- se refere a comunidade , para maior rigor, me parece, a coloca entre aspas ou ainda acrescenta o adjetivo temporária..

Barrett-Lennard (1994) apresenta dois principais sentidos para comunidade :

a)comunidade como corpo de pessoas , abrangendo um coletivo que pode ser de muitos tipos;
b)comunidade como companheirismo conectado por relações e sentimentos
O primeiro sentido, referente ao coletivo, que poderíamos chamar o mais concreto, com características substantivas e o segundo, de natureza mais sutil ou abstrata, ao qual ele passa se referir como “sentido de comunidade”(sense of community)e que nos sugere uma condição adjetiva, qualificativa, designando não “o que” mas , “como” ,portanto uma determinada qualidade de relações entre os membros.

As comunidades , enquanto espécie básica de coletivo humano, são assim caracterizadas por Barrett Lennard :

1.proximidade física dos membros, ou pelo menos, ‘algum tipo de orientação geográfica’;
2 .um contexto de socialização ou aprendizagem de relacionamento humano que fomenta o compartilhamento de valores básicos, crenças e/ou estilo de vida, ou que diz respeito à descoberta de comonalidade numa situação, diga-se, numa circunstância difícil ou emergência;
3.acordos reguladores que incluam um código de conduta ou outras normas generalizadamente entendidas e sancionadas, desenvolvidas de dentro da comunidade e adotadas por ela (relações e negociações entre os membros são a principal preocupação de tais códigos);
4.uma linguagem comum, freqüentemente com idioma especial ou dialeto. Características de uma linguagem distintiva concorrem para o reconhecimento da afiliação comum, podem favorecer o entendimento mútuo e contribuir para o sentimento de grupo/comunidade;
5.relativa auto-suficiência da comunidade como grupo, pelo menos em relação a dimensões da atividade da vida ou áreas de necessidade que tenham reconhecimento comum dos membros como sendo importantes;
6. interdependência dos membros, usualmente incluindo divisão de trabalho e responsabilidade no preenchimento de necessidades e providências de tarefas da comunidade
7.por último, mas não último, um sentido de comunidade por parte dos membros, incluída a experiência sentida de pertencer, de conexão, de significados ou identidade compartilhada, de estar em relação com membros-companheiros ,membros que experienciam ser reconhecidos juntos ou ONIMOS, ao invés de ANONIMOS “(p.64-65)
E acrescenta que:

“dificilmente se possa experienciar comunidade sem o “corpo de pessoas” -estejam ou não os membros juntos presentes .No entanto, a existência de um corpo organizado ou coletivo, é claro, absolutamente não se constitui como uma garantia de que um sentido de comunidade –incluindo aspectos de união experienciada, conexão, compartilhamento e pertinência- ocorrerão”(p.64)
Entre nós no Brasil, nas suas acepções mais freqüentes ,comunidade é palavra empregada para designar:

– o conjunto de profissionais ,estudantes e estudiosos que tomam a ACP como referencial para suas práticas. Assim entendida, fala-se em comunidade internacional da ACP, comunidade latino-americana, comunidades nacionais, regionais.

– Mais recentemente ,vemos referências à “comunidade virtual da ACP”, como o conjunto dos participantes das redes de comunicação através da Internet[5];

-o grupo de pessoas que está presente num determinado Encontro: o total de participantes inscritos e presentes naquele evento;

-a própria reunião maior do evento, o grupão em si;
A maioria dos significados encontrados nas respostas ao levantamento refere-se ao aspecto “coletivo”, isto é , como um substantivo referente a um tipo específico de coletivo humano, conforme o primeiro sentido discriminado acima.Com referência ao segundo sentido :

“que eu saísse de lá alimentada, com uma experiência que ficasse marcante em mim e para todo o grupo(…)que o Encontro proporcionasse para o grupo lá presente, uma experiência que transcendesse a expectativa individual de cada um e que nós atingíssemos uma experiência de comunhão grupal- possível em uma situação de grupo”
“participar, mais uma vez, da construção de uma comunidade auto-dirigida, um espaço para mim privilegiado de aprendizagem de viver de modo significativo e genuíno, onde várias dimensões da minha existência pudessem ser incluídas, sem dicotomias”

Raramente, comunidade aparece como essa característica dinâmica referente ao nível de integração e interação entre os participantes, e é essa conotação que me parece essencial para conferir a condição de comunidade a um grande grupo sob os referenciais da ACP.

COMUNIDADE OU SOCIEDADE

Num volume dedicado a estudos de Psicologia Social, Bader B. Sawaia (1998) e Guareschi (1998) apresentam dois ensaios que contribuem para aprofundar a questão. Ambos retomam o pensamento de Ferdinand Tönnies, que da Sociologia alemã, no final do século XIX teria sido um dos primeiros a sistematizar a noção de comunidade. Diz Guareschi:

“ Para ele, a comunidade é uma associação que se dá na linha do ser, isto é, por uma participação profunda dos membros no grupo, onde são colocadas em comum relações primárias, como o próprio ser, a própria vida, o conhecimento mútuo, a amizade, os sentimentos. Já a sociedade é uma associação que se dá na linha do haver, isto é, seus membros colocam em comum algo de seu, algo do que possuem, como o dinheiro, a capacidade técnica, sua capacidade esportiva.” (p.95)
Sawaia evoca Weber, que

“em suas reflexões sobre as relações sociais solidárias (1917),distinguiu dois tipos que, segundo ele, recordam a classificação feita por Tönnies, a comunitária e a associativa.[…] Comunalização refere-se à relação baseada no sentimento subjetivo de pertencer, estar implicado na existência do outro, como a família e grupos unidos pela camaradagem, vizinhança e fraternidade religiosa. A relação pode ser afetiva (piedade, amizade) ou erótica e amorosa; enfim baseada em qualquer espécie de fundamentos, emocional ou tradicional. Sociação é uma relação cuja atividade se funda sobre um compromisso de interesse motivado racionalmente (em valor ou finalidade)e resultante de vontade ou opção racionais, mais que na identificação afetiva”(p.40-41)
Tomando como exemplo algumas das respostas dos participantes do I Encontro Regional Sudeste, encontramos como expectativas:

“que seria uma boa oportunidade de podermos conhecer o trabalho que outras pessoas estavam fazendo com Plantão Psicológico e de mostrarmos o que nós estávamos fazendo (…)”

“reciclagem profissional através de intercâmbios interpessoais e grupais”

“desejo de levar um pouco da experiência que tenho realizado, com relação às minhas intenções de pesquisar algum assunto pertinente às minhas atividades profissionais com a ACP e relevante para a comunidade ACP ”

“um encontro com as fontes da ACP: eu tinha certeza de que ia ser diferente, isto é, os mais antigos, contato com as formulações primeiras da Acp, contato com novas visões ou formulações(…)acabei priorizando um aspecto durante o Encontro: foco na relação de poder (…) certa curiosidade organizacional”

“vivenciar a apresentação de trabalhos interessantes, que me acrescentassem novos conhecimentos e me possibilitassem crescer”

“aprofundar discussões sobre a fundamentação teórica da ACP, como também discutir sobre a possibilidade de aplicação e possíveis descontruções necessárias na teoria, tendo em vista a ciência contemporânea (…) tomar conhecimento de novas propostas,tanto na teoria como na prática”

“expectativas referentes a forma como se trabalha em grandes grupos”

“discussões teórico práticas fundamentais para os rumos da Acp e para minha formação profissional ”

“ter contato com “papas”(e papisas) da linha Carl Rogers no Brasil, tomando conhecimento das atualidade teóricas do movimento e da Psicologia em geral”

“expectativa de ver o que estava acontecendo de novo na ACP”

“encontrar pessoas (…)que pudessem me dar algum indicativo da Psicologia, do mercado de trabalho, do rumo da Abordagem”
Estas respostas, tomadas isoladamente nos levam a entender as expectativas sobre o Encontro dentro de uma perspectiva “associativa”, ou seja ,uma relação cuja atividade se funda sobre um compromisso de interesse motivado racionalmente (em valor ou finalidade) e resultante de vontade ou opção racionais, mais que na identificação afetiva, conforme a definição mais acima.

Essas mesmas motivações vêm também acompanhadas de expectativas de natureza afetiva:

“eu queria rever amigos e realimentar laços (de ternura) com quem já conhecia(…)tive um desejo muito fugaz de conhecer gente nova (…) arranjar uma situação que me favorecesse um bom passeio”

“encontrar gente desconhecida(…)rever velhos amigos(…) cantar, dançar e jogar muita conversa fora(…)dar uma força para alguém quando solicitado”

“minhas expectativas eram muito egoístas: só penso no prazer do encontro e do reencontro com as pessoas e nas minhas realizações”

“espero contato, espero despertar-me, espero encontrar-me, sei que aprendo muito sobre solidão e também a abrir-me para mim, para os outros, é um excelente momento de aprendizagem interpessoal”

“que pudéssemos assumir com mais coragem nossas diferenças, nossas intolerâncias, nossas atuações individuais e pessoais…que pudéssemos questioná-las e nos enriquecer com as reflexões(… )esperava também rever pessoas queridas e que há muito não via;

trocar informações com alguns”

“passar seis dias em ambiente de serenidade, elevação e alegria”
Para Weber (1997) , não há grupo humano que possa ser descrito pura e simplesmente como comunidade ou como sociedade. Há elementos contratuais nas comunidades assim como elementos comunitários nas sociedades .Para ele, “comunidade se inspira no sentimento subjetivo (afetivo ou tradicional) dos participantes em constituir um todo”(p.33)

Uma visão que resume bem a visão integrativa de comunidade é dada por Nisbet:

“Comunidade abrange todas as formas de relacionamento caracterizado por um alto grau de intimidade pessoal, profundeza emocional, engajamento moral(…) e continuado no tempo. Ela encontra seu fundamento no homem visto em sua totalidade e não neste ou naquele papel que possa desempenhar na ordem social. Sua força psicológica deriva de uma motivação profunda e realiza-se na fusão das vontades individuais, o que seria impossível numa reunião que se fundasse na mera conveniência ou elementos de racionalidade. A comunidade é a fusão do pensamento e do sentimento, da tradição e da ligação intencional, da participação e da volição”( Nisbet apud Sawaia,p.50)
E acrescenta Sawaia: “o elemento que lhe dá vida e movimento é a dialética da individualidade e da coletividade”.

Essa colocação parece mais próxima daquilo que propõem os encontros sob os referenciais da ACP. No entanto, o que de fato encontramos quando nos reunimos ?

Barrett Lennard (1994) lembra que embora haja toda uma acolhida no momento inicial da reunião, a “experiência de comunidade ainda não aconteceu”(p.70 ).Apesar de algumas das condições descritas por eles estarem presentes, podemos dizer que no começo somos apenas um grupo, um grande grupo.

“a palavra grupo é uma expressão ocasional, um lugar vazio que, segundo o contexto de cada ocasião, se enche de diferentes significados(…)Serve para definir qualquer tipo de relação recíproca entre multiplicidade de indivíduos, qualquer vínculo entre seres humanos(Adorno e Horkheimer, apud Sawaia p.43)
“quando minha identificação e o grupo se encontram reciprocamente em uma correlação organizacional, essencial e estável, não temos mais grupos, mas comunidade (Heller,idem ibidem)
Notem que o caráter de estabilidade mencionado por Heller ou de continuidade no tempo, conforme Nisbet aqui não se dão: terminado o evento, há como uma diluição gradual desse condição de integração ou entrosamento, e o que se verifica, através de relatos dos participantes, é um estado de consciência cuja duração se esvai com o decorrer do tempo, que pode variar de dias a alguns poucos meses.

Essa integração teria portanto a característica da impermanência, de volatilidade ou ainda da fugacidade, como atributo lembrando Fonseca (1988 ) ao falar dos grupos. Terminado o encontro, retornam os participantes para seus países, estados, cidades de origem ,mantendo-se geralmente a comunicação entre os membros através das redes de discussão pela Internet e até o próximo evento as relações “comunitárias” entendidas no seu sentido pleno se perdem ou ainda se deformam através dos percalços e limitações próprias da comunicação mediata pelo computador.

ESTADO DE COMUNIDADE

John Wood ,com maior critério, aponta o caráter temporário da comunidade que pretendemos criar com nossos encontros, quando usa a expressão “temporary communities”.(1999, p.4).

Proponho relativizar mais ainda esse caráter temporário, ao definir este estado de integração como “estado de comunidade” que não é dado pela simples reunião das pessoas ao se iniciar o evento, mas é resultado de uma criação, de empenho, de paciência e impaciência, de sofrimento e prazer que pode durar horas , dias e noites até ser desencadeado. Não basta estarmos lá, termos linguagem comum, objetivo comum,etc.; não será simplesmente por estarmos presentes nestes eventos que nos constituímos como comunidade, mas que poderemos estar – se conseguirmos e quando conseguirmos- em ESTADO de COMUNIDADE[6].

Considerando os aspectos que caracterizam uma comunidade segundo os critérios sociológicos, entendo que não será por estarmos todos hospedados num mesmo hotel que seremos uma comunidade; não será por estarmos sentados juntos falando no grupão que seremos uma comunidade; não será somente por assumirmos os referenciais da ACP em nosso trabalho cotidiano que nos constituiremos como comunidade.

Numa situação como essa, mesmo que se possa encontrar algumas das seis primeiras condições descritas por Barrett-Lennard como características de comunidade, falta ainda a característica sutíl, uma dinâmica que engendrasse as dinâmicas individuais em um processo como um , um engrenar de sons numa harmonia sinfônica, naturalmente conduzida, onde o que é individual não se perca e onde tudo se transforme .

Como uma pintura impressionista , aquilo que no início seria um aglomerado de pontos possa ser vistos compondo um todo com sentido e consentido por todos .

Embora estejamos em nossos Encontros desenvolvendo inúmeras relações empáticas e também solidárias, isso não necessariamente significa que estejamos nos constituindo como uma comunidade. Recentemente, durante o X Encuentro latino da ACP[7], um colega expressou com muita propriedade, referindo-se ao que via acontecendo no grupão como “individualismo solidário”: a cada manifestação de um participante, seguia-se o agradecimento quase coletivo “por compartilhar sua intimidade” (Gracias por compartir! era exclamação freqüente) e em seguida lhe davam as costas e outra pessoa iniciava um discurso pessoal em nada conectado ao tema ou ao sentimento expresso anteriormente.

Talvez se possa aqui acrescentar uma distinção de características entre os Encontros da ACP e os workshops como originalmente propostos por Rogers e seus colaboradores:

como dissemos, esses últimos eram destinados a um público aberto, de diferentes áreas de atividade e se a experiência era ou não uma aplicação dos referencias da ACP isso não se constituía para eles um fator de importância, um interesse de estudo. O objetivo nesses casos, era ver o que se poderia criar junto s(Wood);
Já nos Encontros ou Fóruns da ACP, o interesse do público parece estar voltado para “entender o processo”, o dinamismo, e as atenções talvez estivessem no mais das vezes voltadas para uma “abstração” chamada ACP que para o outro participante.

Some-se a isso o fato de que temos em nossos encontros da ACP professores e seus alunos/estagiários; eventualmente terapeutas e seus clientes e fatores como a preservação de uma certa imagem profissional ou preocupação com a divulgação de competência ou auto- promoção muitas vezes parecem concorrer para que se busque “brechas” na fala de outro participante para introduzir sua apresentação pessoal/profissional gerando um clima de competitividade por espaço,fatores esses que para serem atendidos e superados requereriam um tempo maior de processamento, o que se torna cada vez mais difícil se lembrarmos que os encontros sucessivamente têm procurado arrebanhar maior número de participantes dentro do mesmo tradicional prazo de uma semana de convivência, prazo que parece já não estar sendo suficiente para atender a todas as pretensões. O relacionamento interpessoal, o contato humano direto ficariam mediados pelos papéis sociais.

Para Buber, um possível conceito de comunidade

“significa, aqui e agora, multiplicidade de pessoas, de modo que sempre seja possível para qualquer um que a ela pertença estabelecer relações autênticas, totais, sem finalidades…de modo que exista tal relação entre todos os membros. O importante são as centelhas, o acontecimento verdadeiro. Porém, o estatuto, a estrutura desta multiplicidade de pessoas deve ser tal que nada reprima este tipo de relações entre estas pessoas ou que torne essas relações impossíveis. Devo afirmar, mais uma vez, que antes de tudo tal relação deve ser imediata, isto é, que os homens se encontrem mutuamente na ação mútua, sem que algo de pessoal ou objetivo se interponha entre eles. Isto quer dizer que eles se relacionem não pelo fato de possuirem algo em comum (interesses, negócios, trabalho ou qualquer ligação prática ou uma realização) mas, ao contrário, que se relacionem imediatamente sem intermediários. As centelhas da relação cintilam daqui e dali, de pessoa a pessoa. É isso que entendo por imediaticidade”(1987p.88)
Essa descrição remete ao que vimos acontecer em não muitos grupos dos quais participamos e a evoco acompanhada por certa uma nostalgia ,um sentimento de que perdemos algo no decorrer desses tantos anos em que vêm se realizando os Encontros e Fóruns da ACP. Não estariam as motivações conferindo um caráter marcadamente associativo a nossos Encontros?

Somos uma comunidade ou estamos comunidade?

Vimos que o sentido concreto de comunidade como coletivo é o mais usado entre nós, sendo que há também um significado sutíl, chamado por Barrett Lennard “sentido de comunidade”.

Lembrando as palavras do educador e religioso canadense Henry Nouwen (1996 ) sobre comunidade “não como uma condição de pessoas que se reúnem, mas como um atributo do coração”, proponho para nossos encontros um “estado de comunidade” como um atributo da consciência, um estado de consciência comunitária que, distintamente do estado de consciência usual, cotidiano, seria:

-o grau máximo de integração alcançado tanto intra como interpessoalmente ,condição que, quando alcançada gera a possibilidade criativa de providenciar o atendimento das múltiplas necessidades do grupo em todas as suas instâncias, numa operação conjunta e integrada dos seus componentes, numa atmosfera de coesão que ,quando atingida, abre-nos o acesso a uma dimensão transpessoal , queiramos ou não conferir um caráter divino ou religioso a essa dimensão.

À luz do conceito de comunidade e suas características para a Sociologia e das reflexões sociológicas do filósofo Buber ,vimos que o sentido de conexão, pertinência, união experienciada, intimidade e percepção do todo são características do próprio conceito sociológico de comunidade. Assim sendo, qualquer evento de grande grupo da ACP, nos seus primeiros momentos, é apenas um evento de grande grupo ou workshop, como queiramos chamar. Falar em “comunidade para aprendizagem” (community for learning) pressupõe a existência anterior da comunidade que se reúne “for learn”, o que não é o caso quando não existe ainda a comunidade ou o “estado de comunidade”.

Somente SE e QUANDO se atinge a unidade, a comunhão, o senso de unidade, podemos falar então em comunidade: estaríamos então em “estado de comunidade”.

Assim, pode-se entender que a idéia de “unidade” para Wood (1999), “comunhão” para Bozarth (1998),”sentido de comunidade” para Barrett-Lennard (1994),ou o “senso de unidade” para Coulson(1999)seriam todas elas a própria manifestação da condição de comunidade, entendida não como uma condição dada à priori, mas gerada no decorrer do evento.

Como atingi-lo? Como se faz ? O processo é difícil? Arrisco uma possível “receita” individual para atingi-lo:

umas pitadas,aqui e alí, das condições facilitadoras;

duas mãos cheias de paciência (e um dedo de impaciência)

um coração desprevenido ( “in natura”) ;

um par de olhos divergentes (um dirigido para dentro de si; outro, para dentro do “outro”)

um cálice da mais pura intenção de estar em comunidade

incorpore-se totalmente a hipótese da tendência formativa, fundamental da Abordagem Centrada na Pessoa;

e uma ajuda da percepção iluminada de Clarice Lispector sobre “entrega”:
“Submissão ao processo

O processo de viver é feito de erros – a maioria essenciais – de coragem e preguiça, desespero e esperança de vegetativa atenção, de sentimento constante (não pensamento)que não conduz a nada, não conduz a nada, e de repente aquilo que se pensou que era “nada”- era o próprio assustador contato com a tessitura do viver- e esse instante de reconhecimento (igual a uma revelação)precisa ser recebido com a maior inocência, com a inocência de que se é feito. O processo é difícil? Mas seria como chamar de difícil o modo extremamente caprichoso e natural como uma flor é feita[ …] (p.710)
Aprendendo a desencadear o “estado de comunidade” é nome desse exercício que temos feito insistentemente, tão erráticos e esperançosos .

Referências Bibliográficas

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BUBER, Martin .Sobre Comunidade Tradução Newton Aquiles VonZuben. São Paulo: Ed.Perspectiva, 1987

COULSON,Alan. Experiences of Separateness and Unity in Person-Centered Groups. In:LAGO C. & MAcMILLAN, M.. Experiences in Relatedness: Groupwork and the Person Centered Approach. Ross-on-Wye: PCCS Books,1999

FONSECA,Afonso Henrique Lisboa da .Grupo-Fugacidade,Rítmo e Forma: Processo de grupo e facilitação na Psicologia Humanista .São Paulo:Ed.Ágora,1988

GUARESCHI, Pedrinho. Relações Comunitárias -Relações de dominação.In: CAMPOS, Regina Helena de Freitas (org.).Psicologia Social Comunitária:Da solidariedade à autonomia. 2a. Ed.Petrópolis, R.J : Ed. Vozes,1998

LISPECTOR,Clarice. A Descoberta do Mundo.Rio de Janeiro:Nova Fronteira,1984

NOUWEN, Henri. Entrevista concedida a Brian Miller para o programa Vision’s Cross Currents, exibido na televisão Canadense [1996 ?]

MacMILLAN, Mhairi. & LAGO,Colin. PCA Groups: Past, Present… and Future ?In :LAGO C. & MAcMILLAN, M. Experiences in Relatedness: Groupwork and the Person Centered Approach. Ross-on-Wye: PCCS Books,1999

ROGERS,C.R et al. Em busca de Vida: Da terapia centrada no cliente à abordagem centrada na pessoa .Tradução Afonso Henrique L. da Fonseca São Paulo: Summus Editorial,1983

SAWAIA ,Bader Burihan .Comunidade: a apropriação científica de um conceito tão antigo quanto a humanidade. In: CAMPOS, Regina Helena de Freitas (org.) Psicologia Social Comunitária:Da solidariedade à autonomia.2a Ed. Petrópolis, R.J.: Ed. Vozes,1998

WEBER, Max . Economia y Sociedad. 11ª Ed. México: Fondo de cultura, 1997

WOOD, John Keith. Toward an understanding of large group dialogue and its implications In: LAGO, Colin. & MacMILLAN, Mhairi. Experiences in Relatedness: Groupwork and the Person Centered Approach.Ross-on-Wye:PCCS Books,1999

WRONA ROSENTHAL,Raquel. Entrevista concedida a Márcia Tassinari e Luiz Alfredo Milleco .Abordagem Centrada na Pessoa: Informativo da Associação Rogeriana de Psicologia, Setembro 1996

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[1] Além disso , podemos encontrar em muitos dos folders de convocação para esses eventos a “divulgação da ACP” como objetivo. Esse aspecto mereceria uma discussão à parte,. Seria mesmo a divulgação da ACP um objetivo, ou um “efeito colateral”, secundário (embora importante) do evento?

[2]I Fórum Brasileiro da ACP-28 de Abril a 05 de Maio de 1996,Engenheiro Paulo de Frontim, Rio de Janeiro.

[3] I Encontro Regional Sudeste da Abordagem Centrada na Pessoa, 05 a 10 de Maio de 1998,Petrópolis,Rio de Janeiro, Brasil

[4] a esse respeito ver Coulson,1999

[5] a respeito dos grupos através da Internet v.WOOD,1999,nota 2,p.161

[6] Essa percepção me ocorreu quando assisti a uma apresentação da artista e filosofa Lucila Machado Assumpção, no VI Fórum Internacional da ACP,01 a 09 de Julho de 1995,Leptokarya,Macedonia,Grécia: através da dinâmica das varetas de um leque, evocava diferentes “estados” (possibilidades de estar): estado de união, estado de equilíbrio, etc.”. Proponho então o ESTADO DE COMUNIDADE.

[7] X Encuentro Latino Americano da ACP 9 9-15 Outubro de 2000 Córdoba,Argentina

Apresentado no Fórum Brasileiro de 2001 em Pirenópolis,GO