Congruência do Psicoterapeuta: escutar-se para escutar o cliente

Patrícia Gonçalves Costa

CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA

PRÓ-REITORIA ACADÊMICA

COORDENADORIA DE GRADUAÇÃO E EXTENSÃO

CURSO DE PSICOLOGIA

BELO HORIZONTE

DEZEMBRO/2001

Monografia de conclusão do curso de Graduação em Psicologia do Unicentro Newton Paiva, orientada pelo professor Antonio Angelo Favaro Coppe

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho ao Anjo, que um dia me convidou para passear pela sua existência. Hoje caminhamos juntos, compartilhando o amor e nossas existências.

AGRADECIMENTO

Agradeço àquelas pessoas que não acreditaram em minhas capacidades, o que me possibilitou olhar para dentro de mim mesma, apreciar o meu jeito de ser e descobrir as infinitas possibilidades que a vida abarca, lançando-me na busca de meus objetivos.

SUMÁRIO

Introdução………………………………………………………………………………………………………………..6

Capítulo I

A congruência como uma das atitudes básicas do psicoterapeuta…………………………………..8

Capítulo II

Algumas atitudes relacionadas à congruência…………………………………………………………….12

Capítulo III

Os efeitos da atitude de congruência na relação psicoterapêutica…………………………………15

Conclusão………………………………………………………………………………………………………………20

Bibliografia……………………………………………………………………………………………………………..24

INTRODUÇÃO

Desde os primórdios, a vida em sociedade requer certa organização, divisão de tarefas e responsabilidades entre seus membros, bem como a regulação de seus relacionamentos, em prol do viver em comunidade. Em outras palavras, é no ponto em que o particular, o singular se anula, ou se organiza em torno de objetivos comuns, que vemos emergir o caráter social de um grupo humano. A própria fragilidade orgânica do homem, ao nascer, marca a sua dependência em relação aos seus semelhantes. Dependência esta que ultrapassa a esfera biológica, formando a imagem que a pessoa tem de si e do mundo e que, paradoxalmente, aponta para sua progressiva e relativa autonomia frente às experiências vivenciadas no decorrer de sua existência.

Do nascer ao morrer, o ser humano posiciona-se de diferenciadas formas, ao se deparar com a gama de possibilidades que cada atitude sua encerra, agindo em estreita relação com o mundo e o contexto histórico-social nos quais está inserido. Observa-se que, mesmo que precise desempenhar certos papéis, seguindo determinados padrões de comportamento para se tornar parte integrante do corpo social, cada homem difere-se do outro, reconhecendo em si traços, características e vivenciando situações de forma única, diversa de qualquer semelhante seu, o que pode ser definido como o “eu” de cada pessoa. Segundo ROGERS e KINGET (1977a: 44):

A noção do ‘eu’ é uma estrutura perceptual, isto é, um conjunto organizado e mutável de percepções relativas ao próprio indivíduo (…) características, atributos, qualidades e defeitos, capacidades e limites, valores e relações que o indivíduo reconhece como descritivos de si mesmo e que percebe como constituindo sua identidade.

Adotando-se como pressuposto o fato de que o homem possui uma tendência a desenvolver suas potencialidades, movendo-se entre as possibilidades e restrições de seu meio, de forma a promover seu crescimento e enriquecimento pessoal, bem como a manutenção de sua vida, verifica-se que tal tendência, que ROGERS e KINGET (1977a) chamam de tendência à atualização, relaciona-se com a “noção de eu”, específica deste, e com as relações sociais estabelecidas pelo mesmo.

Esta noção, porém, pode ser distorcida, distanciando o homem de sua realidade objetiva, interferindo na sua tendência à atualização e na simbolização de suas experiências. Quando esse processo não ocorre, a pessoa apresenta como característica a congruência, definida por TAMBARA e FREIRE (1999: 86) como um estado de acordo entre o auto-conceito de um indivíduo e as suas experiências organísmicas.

No presente trabalho, pretende-se focar a congruência do psicoterapeuta, analisando como essa atitude pode interferir na relação psicoterapêutica e como a mesma relaciona-se com outras atitudes a serem desenvolvidas pelo psicólogo que pretende trabalhar sob a orientação da Abordagem Centrada na Pessoa, teorizada por Carl Rogers. A importância desse estudo é encontrada no fato de evidenciar como as atitudes do psicoterapeuta podem potencializar o crescimento ou a mudança construtiva de personalidade do cliente.

A metodologia utilizada para tal investigação foi a pesquisa bibliográfica. Essa modalidade de pesquisa caracteriza-se pelo levantamento, por parte do pesquisador, de todo conhecimento disponível relativo ao tema ou problema que se quer estudar. Ela fornece embasamento teórico que contribui para ampliação e domínio de conhecimentos relativos a determinada área que irão possibilitar ao pesquisador delimitar melhor o seu objeto e construir modelos teóricos que expliquem o seu problema.

Espera-se que este trabalho contribua para aqueles que se dispõem a seguir o caminho de um crescimento não só profissional, mas, também, pessoal, uma vez que, quanto mais o psicoterapeuta encontra-se inteiro, como pessoa, mais ele se disponibiliza para acompanhar o cliente na sua própria caminhada.

CAPÍTULO I

A CONGRUÊNCIA COMO UMA DAS ATITUDES BÁSICAS DO PSICOTERAPEUTA

Não temos que ‘consertar’ nada. Nossos clientes consertar-se-ão por si próprios se pudermos aprender a estarmos presentes com relação a nós próprios, a eles e a nossos grupos, nesse estado de nos entregarmos ao que quer que brote em nós. Nossos companheiros humanos nos necessitam não pelo que podemos fazer, mas pelo nosso essencial ser, pela nossa natureza. (O’HARA, 1983: 102)

Ao se falar sobre uma relação psicoterápica, o que logo se imagina é a interação entre o psicólogo e o cliente, onde o último é o principal foco de uma ação em direção a uma mudança construtiva da personalidade. Esta é definida por WOOD (1994: 156) como mudança na estrutura de personalidade de um indivíduo, tanto a nível superficial quanto mais profundo, numa direção que os clínicos concordariam que significa maior integração, menos conflito interno, mais energia utilizável para um viver efetivo.

Levando-se em conta essa visão, o psicólogo parece ocupar um segundo plano, quase, talvez totalmente, eclipsado nessa relação. Depreende-se desse fato a falsa idéia de que o trabalho em psicoterapia é de responsabilidade quase unânime do cliente e de que caberia ao psicólogo apenas a tarefa de resgatar do seu conhecimento formal e acadêmico adquirido aquela intervenção apropriada, calculada, que impulsionaria a elaboração dos conflitos pelo cliente citado.

Porém, há de se verificar que a psicoterapia, como um campo dinâmico e dual, requer, do psicólogo, características para além do conhecimento teórico. WOOD (1994: 157), ao abordar as condições necessárias para uma mudança construtiva de personalidade, cita, entre as seis condições que elege, as de que duas pessoas estejam em contato psicológico, que a primeira (cliente) esteja num estado de incongruência, estando vulnerável ou ansiosa e que a segunda pessoa (terapeuta) esteja congruente ou integrada na relação.

ROGERS e KINGET (1977a: 104), escrevendo sobre a prática do psicoterapeuta, dentro da perspectiva da Terapia Centrada no Cliente, enumeram alguns atributos que seriam necessários a esse profissional. São eles a capacidade empática, a concepção positiva e liberal do homem, a autenticidade, bem como as qualidades de maturação emocional e compreensão de si.

Neste contexto, a autenticidade ou congruência será a característica destacada para se refletir sobre a conduta do psicoterapeuta em relação a si e ao cliente, no âmbito psicoterápico. Referindo-se ao termo “congruência”, ROGERS (1983a: 9) afirma que:

Com isto (congruência) quero dizer que quando o que estou vivenciando num determinado momento está presente em minha consciência e quando o que está presente em minha consciência está presente em minha comunicação, então cada um desse três níveis está emparelhado ou é congruente. Nesses momentos, estou integrado ou inteiro, estou inteiramente íntegro.

A pessoa congruente, então, seria aquela que simboliza corretamente sua experiência vivida, ao relacioná-la com a imagem que tem de si, com sua noção de eu. Essa noção não se apresenta aqui como uma categoria estanque, mas como uma configuração em constante mudança.

ROGERS e KINGET (1977a: 165) designam a noção ou imagem do eu como uma configuração experencial composta de percepções relativas ao eu, as relações do eu com o outro, com o meio e com a vida, em geral, assim como os valores que o indivíduo atribui a estas percepções. Quando ocorre uma distância entre a realidade vivenciada pelo indivíduo e imagem que ele tem de si, essa experiência, sentida como ameaçadora, pode ser distorcida e deformada, caracterizando uma incongruência.

Dessa forma, quando se fala em congruência como uma atitude do psicoterapeuta, pressupõe-se que este reconheça e aceite o que lhe é próprio, suas características pessoais, particularidades e valores, sem deformar sua experiência ou experimentar o mundo de forma ameaçadora. Ocorre, sob esse aspecto, uma conexão direta entre o eu e a experiência.

FREIRE (2000: 50), ao dissertar sobre o assunto, escreve que quanto mais plenamente o terapeuta estiver consciente de sua experiência, mais provavelmente ele será experenciado como genuíno, autêntico e real e segue, expondo que a definição teórica de congruência versa sobre a relação entre o eu e a experiência. Para ela, na terapia, a congruência é vista como um estado interno, subjetivo do terapeuta enquanto ele provê uma compreensão empática aceitadora do cliente.

Cabe, neste momento, ressaltar alguns equívocos que podem surgir quando se explana sobre a congruência do psicoterapeuta. Dois despontam de forma mais evidente: o de que o psicoterapeuta deve se apresentar ao cliente como um exemplo de perfeição, sendo integrado nos diversos aspectos de sua vida e o de que ser congruente, na relação psicoterapêutica, é poder despejar sobre o cliente todos os seus receios, necessidades e valores próprios.

Sobre o primeiro equívoco, WOOD (1994) escreve que não é necessário que o psicoterapeuta seja um modelo de perfeição, apontando ser suficiente que ele seja ele mesmo na hora em que a relação psicoterapêutica está ocorrendo. Esse fato implica num reconhecimento, por parte do psicoterapeuta, de seus próprios limites, sentimentos e valores que podem estar interferindo diretamente nessa relação e não devem ser negados, mas assumidos frente ao cliente.

O segundo equívoco trata exatamente do grau em que o psicoterapeuta irá se expressar congruentemente na relação. Coloca-se, aqui, a questão: até que ponto o psicoterapeuta está sendo congruente ou está utilizando a relação psicoterapêutica para sanar seus próprios conflitos em detrimento ao cliente? FREIRE (2000) trata da congruência como sendo uma condição subjetiva do psicoterapeuta, que não precisa ser necessariamente comunicada e que se difere da franqueza. Para ela (2000: 52-53):

Na terapia centrada no cliente, a distorção se apresenta quando o terapeuta sistematicamente declara suas próprias reações ou pensamentos em relação ao cliente e justifica esta prática como sendo uma forma de vivenciar a atitude terapêutica de congruência (…) a genuinidade terapêutica não requer que o terapeuta sempre expresse todos os seus sentimentos, mas somente requer que o que quer que seja expresso seja real e genuíno e não incongruente no contexto do ambiente terapêutico.

Assim, congruência não significa que o psicoterapeuta deva se expressar o tempo todo dentro da relação psicoterapêutica, mas que, ao reconhecer os sentimentos e limitações que lhe são próprios e, muitas vezes, suscitados pelo cliente, ele não os negue e nem utilize o pressuposto da congruência para se defender dos conflitos surgidos nessa relação.

Vale ressaltar que a atitude de congruência não é uma característica facilmente alcançada. Seguindo o pensamento de WOOD (1994: 238), ser congruente não é só ter suficiente ousadia para expor sem pensar o que quer que passe pela mente, ou revidar o que pareça ser agressão, ou automaticamente retribuir, com um abraço apertado, o que se percebe como gentileza. O psicoterapeuta precisa possuir, para além de uma honestidade consigo mesmo, um auto-conhecimento que o possibilite identificar os sentimentos que experimenta e a habilidade suficiente para transmitir estes ao cliente.

No contexto da relação psicoterapêutica, a expressão da congruência, ou o compartilhar de sentimentos e experiências por parte do psicoterapeuta irá variar de acordo com o caráter do vínculo estabelecido com o cliente. Sob esse aspecto, uma intervenção mais apropriada será aquela que se harmoniza com os fatos e sentimentos vividos nessa relação única e singular.

CAPÍTULO II

ALGUMAS ATITUDES RELACIONADAS À CONGRUÊNCIA

Para se verificar como a atitude de congruência interfere na relação psicoterapêutica, torna-se necessário explicitar outras duas atitudes básicas do psicoterapeuta, que se encontram diretamente relacionadas com a primeira, figurando como atitudes facilitadoras da mudança terapêutica. A congruência permite o fluir das atitudes de consideração positiva incondicional e compreensão empática, sendo estas as três características que o psicoterapeuta, na Abordagem Centrada no Cliente, procura desenvolver dentro da relação psicoterápica.

TAMBARA e FREIRE (1999: 81) definem a consideração positiva incondicional como um tipo de atitude em relação à outra pessoa na qual tudo o que essa pessoa exprime sobre si mesma é igualmente aceito com calor, estima e respeito. O psicoterapeuta, então, deve suspender seu juízo de valores, mostrando-se aberto ao que o cliente exprime, sejam sentimentos positivos ou negativos, impulsos de defesa ou crescimento.

Verifica-se que, sob o prisma dessa atitude, não são impostas condições para que a pessoa seja aceita. Ao contrário, esta é apreciada em sua totalidade, expressando-se da forma como se apresenta. Para WOOD (1994: 163), quando o psicoterapeuta encontra-se experenciando a consideração positiva incondicional, esta atitude:

(…) significa um cuidado com o cliente, mas não de forma possessiva, ou simplesmente para satisfazer as necessidades do próprio terapeuta. Implica numa forma de apreciar o cliente como uma pessoa individualizada, a quem se permite ter os próprios sentimentos, suas próprias experiências.

O autor segue a sua explanação (1994: 163), citando a fala de um cliente em relação ao seu psicoterapeuta, exemplificando um tipo de aceitação que hipoteticamente é necessária para que a mudança de personalidade aconteça. Este cliente descreve o psicoterapeuta como fomentando o meu apoderar-me de minha própria experiência… que (esta) é minha experiência e que eu a estou realmente vivendo: pensando o que penso, sentindo o que sinto, querendo o que quero, temendo o que temo; não “se”, “mas”, ou “não” reais.

Com relação à compreensão empática, verifica-se que, para o termo empatia, existem várias significações. Porém, na perspectiva da Abordagem Centrada no Cliente, este indica a capacidade de entrar no mundo subjetivo de outra pessoa, participando de suas experiências, até onde se é possível. Segundo ROGERS e KINGET (1977a: 104), esta capacidade, indispensável ao psicoterapeuta que trabalha sob o viés dessa abordagem, consiste em:

(…) captar e refletir sobre a significação pessoal das palavras do cliente – bem mais do que em responder a seu conteúdo intelectual. Para ser bem sucedido nesta tarefa é preciso que o profissional saiba fazer abstração de seus próprios valores, sentimentos e necessidades e que se abstenha de aplicar critérios realistas, objetivos e racionais que o guiam quando está fora de sua interação com seus clientes.

WOOD (1994: 165), ao se referir às condições necessárias para a mudança terapêutica de personalidade, escreve sobre a necessidade da experenciação da compreensão empática por parte do psicoterapeuta e a define como sentir o mundo privado do cliente como se ele fosse o seu, mas sem perder a qualidade ‘como se’. O “como se” é o limite que possibilita a diferenciação entre o que é próprio do cliente (medos, sentimentos, conflitos, defesas, crescimento) e o que próprio do psicoterapeuta. Esse limite permite a este último transitar pelo mundo interno do cliente sem se confundir com este.

BARBOSA (s.d.) ressalta que o psicoterapeuta, ao simbolizar sua experiência corretamente, frente àquilo que o cliente lhe comunica, estará criando condição para que a consideração positiva incondicional e a empatia presentifiquem-se na relação. O autor afirma, ainda, que quando o psicoterapeuta não experimenta um acordo interno e acredita estar sentindo algo positivo ao invés da verdadeira experiência, sua consideração positiva e sua empatia serão deficientes.

Para FREIRE (2000) a congruência é um estado ou característica do psicoterapeuta, sendo a compreensão empática e a consideração positiva incondicional condições a serem experenciadas por este em relação ao cliente.

A abertura na relação psicoterapêutica conjuga as atitudes de congruência e consideração positiva incondicional, onde a primeira revela uma abertura em relação a si mesmo e a segunda reflete uma abertura em relação ao outro. Fica claro, portanto, a ligação estreita entre essas atitudes e a congruência. Ainda em FREIRE (2000: 55), pode-se dizer que:

A capacidade do terapeuta de estar consciente de sua própria experiência (genuinidade) lhe permite estar mais consciente da experiência do cliente (…) a congruência é uma forma de preparação do terapeuta para ser maximamente receptivo. Isto é, a congruência é um desenvolvimento atitudinal que habilita o terapeuta a ser mais capaz de experenciar compreensão empática e consideração positiva incondicional em relação ao cliente.

CAPÍTULO III

OS EFEITOS DA ATITUDE DE CONGRUÊNCIA NA RELAÇÃO PSICOTERAPÊUTICA

Para que se possa definir os efeitos da atitude de congruência numa relação psicoterapêutica, faz-se necessário, primeiramente, definir quais as condições necessárias para que se estabeleça um processo psicoterapêutico, através do qual uma modificação da personalidade coloca-se em andamento. Segundo ROGERS e KINGET (1977a: 182), para que o processo psicoterapêutico seja produzido é necessário:

1) Que duas pessoas estejam em contato.

2) Que a primeira pessoa, que designaremos o cliente, se encontre num estado de desacordo interno, de vulnerabilidade ou de angústia.

3) Que a segunda pessoa, que designaremos como terapeuta, se encontre num estado de acordo interno – pelo menos durante o decorrer da entrevista e no que se relaciona ao objeto de sua relação com o cliente.

4) Que o terapeuta experimente sentimentos de experiência positiva incondicional a respeito do indivíduo.

5) Que o terapeuta experimente uma compreensão empática do ponto de referência interno do cliente.

6) Que o cliente perceba – mesmo que numa proporção mínima – a presença de 4 e de 5, isto é, da consideração positiva incondicional e da compreensão empática que o terapeuta lhe testemunha.

ROGERS e KINGET (1977a) consideram a proposição 3, ou seja, o acordo interno, a congruência do psicoterapeuta, como o elemento central desta teoria. Dessa forma, para que uma relação seja psicoterapêutica, torna-se necessário que a experiência imediata deste profissional seja corretamente representada na sua consciência. Em outras palavras, os sentimentos e atitudes que o psicoterapeuta experimenta em relação ao cliente precisam estar plenamente disponíveis a sua consciência.

Ao abordar a atitude de congruência, necessária ao psicoterapeuta, bem como as atitudes relacionadas à mesma, já citadas, surge a questão de como esta poderia interferir no desenrolar do processo psicoterápico.

Tendo-se em vista que uma das finalidades da psicoterapia é a mudança terapêutica de personalidade, por parte do cliente, observa-se que as atitudes descritas irão compor o esteio para que esta ocorra, sendo a congruência do psicoterapeuta o sustentáculo interno, expresso nas outras atitudes, que facilitará esse movimento. De acordo com TAMBARA e FREIRE (1999: 88):

Quando o cliente se sente aceito incondicionalmente e compreendido empaticamente por um terapeuta congruente, então a mudança terapêutica ocorre. Nada mais é necessário. O terapeuta não necessita de técnicas, não necessita fazer um diagnóstico ou adquirir um conhecimento intelectual específico.

Nessa concepção, a mudança terapêutica irá propiciar a liberação da tendência atualizante do cliente, ou seja, o seu impulso em direção a um crescimento pessoal. WOOD (1983) esclarece que cada pessoa, embora possa, num determinado momento, experenciar uma incongruência entre o conceito de eu e sua realidade organísmica, apresenta, concomitantemente, outra tendência que opera no sentido de reorganizar o conceito do eu em direção a uma congruência mais estreita com a experiência em sua totalidade. ROGERS (apud WOOD, 1983: 51), enunciando o principal teorema da terapia centrada na pessoa, no início dos anos sessenta, afirma que:

As capacidades inerentes de cura e a tendência atualizante são liberadas numa relação interpessoal em que o terapeuta é congruente na relação, experencia consideração positiva incondicional para com o cliente, e uma compreensão empática do referencial interno do cliente, e quando o cliente percebe, pelo menos em um nível mínimo, a consideração positiva incondicional e a compreensão empática do terapeuta para com ele/ela.

FREIRE (2000) escreve que à medida que o psicoterapeuta está mais consciente da experiência do cliente, uma vez que se torna consciente de sua própria experiência (congruência), o último, também, se tornará mais consciente da sua própria experiência no relacionamento. Assim, a atitude assumida pelo psicoterapeuta na relação com o cliente é que determinará um maior ou menor grau de abertura para que este possa ser congruente em relação a si mesmo, caminhando rumo a sua auto-atualização.

BARBOSA (s.d.) relata sua experiência em estágios supervisionados, como psicoterapeuta em formação, onde as situações vivenciadas apontavam para a importância da autenticidade ou congruência como fator de continuidade do processo psicoterápico. Segundo ele, os conteúdos que os clientes traziam constantemente tocavam em questões pessoais suas e de seus colegas, bem como os faziam deparar-se com situações para as quais julgavam-se despreparados.

Sentimentos como estes, ao serem assumidos pelo psicoterapeuta como parte de sua experiência em relação à noção de eu que este tem de si, permitem ao mesmo a consciência dos processos que o mobilizam, possibilitando seu auto-aperfeiçoamento, tanto a nível interno, quanto teórico e prático. BARBOSA (s.d.) descreve que:

De posse dos resultados desses aperfeiçoamentos, nos sentimos mais seguros durante os atendimentos, ampliando nossa capacidade de autenticidade, consideração positiva incondicional e empatia. Com isso, a relação com o cliente também melhorava e este se mostrava mais envolvido com o processo psicoterápico. A relação psicoterapeuta/cliente foi gradativamente fortalecendo-se e o cliente sentia-se cada vez mais livre para abordar questões até então ameaçadoras. No decorrer do processo psicoterápico, o cliente encontrava mais facilidade para apropriar-se de seus sentimentos e atitudes, relativas às questões que ameaçavam a integridade de seu self. Houve, então, um desenvolvimento em direção a compreensão de si ou da autenticidade, que é o objetivo do processo terapêutico, de acordo com a Terapia Centrada no Cliente.

Observa-se que, a partir da atitude de congruência, o psicoterapeuta estará mais aberto para desenvolver as outras atitudes facilitadoras do processo psicoterapêutico. Quando tal fato ocorre, estabelece-se um clima favorável para que a mudança terapêutica de personalidade ocorra no cliente. Isso acontece na medida em que o ambiente da relação psicoterapêutica não representa uma ameaça para este, que geralmente chega para o tratamento com uma noção de eu fragilizada, incongruente e, conseqüentemente, defensivo.

Uma psicoterapia bem sucedida, objetiva o crescimento do cliente rumo a um funcionamento ótimo da personalidade, o que, de acordo com TAMBARA e FREIRE (1999: 75), conduziria o indivíduo a uma reorganização do seu auto-conceito, promovendo uma maior integração entre o eu e a experiência organísmica. Como conseqüência, (…), o cliente viveria com menor tensão psicológica ou ansiedade, aprimoraria seus relacionamentos interpessoais e desenvolveria seu próprio sistema de valores, baseado diretamente na sua experiência.

Porém, esta mudança não equivale à remoção de uma patologia ou a uma normatização do indivíduo em relação à sociedade. O cliente, ao contrário dessa concepção adaptativa, apresentaria uma crescente abertura à experiência, bem como confiança no próprio organismo, dentro de um processo contínuo de mudança e flexibilidade da sua personalidade. A caraterística de adaptação, dentro desse contexto, é aquela em que o indivíduo mostra-se como um ser humano dinâmico, para o qual a vida não está dividida em padrões rígidos, mas flui livremente.

ROGERS e KINGET (1977a) afirmam que, quando um clima favorável ao crescimento e à experiência ótima ocorre, o cliente consegue alcançar a consciência de experiências que, até então, havia interceptado e que pareciam perigosas para a manutenção do seu “eu”. Os autores (1977a: 257) ainda escrevem que:

(…) na segurança de sua relação com o terapeuta, o cliente se torna capaz de experimentar plenamente a significação dos dados experenciais assim descobertos. (…) Pouco a pouco, ele se dá conta de que não há razão para temer os dados de sua experiência, quaisquer que sejam eles; que pode acolhê-los livremente como uma parte inerente de um eu em vias de transformação e de desenvolvimento.

Sob essa perspectiva, as atitudes do psicoterapeuta são os indicadores do grau de abertura frente ao cliente e deste na relação. A congruência representa, assim, um ponto de dicernimento, através do qual o psicoterapeuta irá balizar a sua interação com o cliente. Os efeitos que essa provoca estão ligados ao desenvolvimento de um ambiente relacional propício à mudança terapêutica, onde a pessoa possa ser ela mesma, sem se sentir ameaçada.

CONCLUSÃO

Diante do que foi trabalhado até aqui, algumas considerações são necessárias. O foco explicitado no texto escrito foi a atitude de congruência do psicoterapeuta, bem como as atitudes de consideração positiva incondicional e de compreensão empática, que estão diretamente relacionadas à primeira. Verificou-se que o conjunto destas, quando presentes na relação psicoterapêutica, funciona como facilitador de um processo de mudança, que levaria o cliente a um funcionamento ótimo da personalidade, ou seja, a se tornar uma pessoa em funcionamento pleno, sendo importante salientar que este estado é um processo contínuo de crescimento, um ideal traduzido pela busca constante de auto-realização, de desenvolvimento como pessoa. De acordo com ROGERS (apud WOOD, 1994: 212):

A pessoa em funcionamento pleno é uma pessoa idealizada com a capacidade de processar todo o estímulo através do sistema nervoso sem distorcê-lo por mecanismos defensivos. Essa pessoa seria aberta à experiência. Sua experiência e seu self estariam continuamente em fluxo, vivendo o momento, confiando no seu organismo pra encontrar o comportamento mais satisfatório para cada situação existencial.

Sob esse aspecto, o psicoterapeuta apresenta-se como um agente, que influi no rumo do processo psicoterápico. Porém, as atitudes facilitadoras que este desenvolve não devem ser consideradas como técnicas terapêuticas, mas como uma forma autêntica e espontânea de ser. A ausência de técnicas, na Terapia Centrada no Cliente, aponta para o fato do psicoterapeuta ser ele mesmo o seu mais valioso instrumento de trabalho.

No entanto, KINGET (apud TAMBARA e FREIRE, 1999: 145) afirma que este, (psicoterapeuta), não pode agir como se experimentasse sentimentos calorosos em relação ao cliente, como se abstivesse de julgar, como se aceitasse o cliente tal como ele é, como se quisesse que o cliente tomasse a direção da entrevista, etc. Nesse âmbito, o psicoterapeuta deve se mostrar genuíno e inteiro na relação com o cliente. TAMBARA e FREIRE (1999: 145) acrescentam que:

O terapeuta precisa vivenciar de forma genuína e autêntica estes sentimentos e atitudes em relação ao cliente, senão seus esforços serão inúteis. Para promoverem a mudança terapêutica, a consideração positiva incondicional, a compreensão empática e a congruência precisam ser experenciadas com a totalidade do ser do terapeuta. Se estas atitudes forem consideradas apenas como técnicas para serem aplicadas na situação terapêutica, o fracasso da terapia será inevitável.

Outro ponto que precisa ser esclarecido é o de que, mesmo que o psicoterapeuta seja um pólo importante da relação psicoterapêutica, o cliente jamais ocupará aí um segundo plano. De fato, é a qualidade da relação que irá delinear o grau das mudanças ocorridas, sendo ambos, cliente e psicoterapeuta, os responsáveis pelos rumos do processo que se coloca em andamento, os construtores dessa interação. Assim, embora o psicoterapeuta esteja congruente e esteja experimentando compreensão empática e consideração positiva incondicional, isso pouco será efetivo se o cliente não tiver essa percepção e se o mesmo não estiver disposto a entrar em contato consigo e com a pessoa do psicoterapeuta na relação que se estabelece. ROGERS (apud WOOD, 1994: 216-217) afirma que:

O processo de terapia (…) é visto como sinônimo de um relacionamento experencial entre cliente e terapeuta. A terapia consiste em experenciar o self numa ampla escala de alternativas, num relacionamento emocionalmente significativo com o terapeuta. As palavras – sejam do cliente ou do conselheiro – são vistas como tendo uma importância mínima comparadas com o relacionamento emocional presente entre os dois.

A importância da congruência torna-se clara quando se verifica que, através de uma auto-percepção coerente, o psicoterapeuta pode escutar a si mesmo, perceber suas limitações, seu valores próprios, seus sentimentos, vislumbrando suas potencialidades. Escutando a si mesmo, este profissional promove uma abertura para que o cliente também se escute, para que este possa ser na relação psicoterapêutica ele mesmo, vencendo seus medos e defesas, em busca da sua própria congruência, de uma vida mais efetiva, sendo seu próprio centro de referência.

Ao se focar o psicoterapeuta, no contexto de uma atitude de congruência, pode-se dizer que, escutar a si mesmo para escutar o cliente, nada mais é que olhar para si como pessoa, com seus pontos positivos e negativos, estando inteiro na relação psicoterapêutica e proporcionando a abertura necessária para que o cliente também esteja. Resta, como uma questão a ser trabalhada, a seguinte pergunta: até que ponto estas atitudes explicitadas restringem-se apenas à situação psicoterapêutica ou são parte integrante do estilo pessoal do psicoterapeuta na sua vida como um todo?

Para finalizar, voltando à questão da relação entre cliente e psicoterapeuta, na tentativa de delinear o caráter desse tipo de interação, o texto que se segue, escrito por FREIRE (s. n. t.: 59-60), fornece uma base para a reflexão sobre esse tema.

EU NÃO SOU VOCÊ

VOCÊ NÃO É EU

Eu não sou você

Você não é eu

Mas sei muito de mim

Vivendo com você

Você não é eu

Mas encontrei comigo e me vi

enquanto olhava pra você

Na sua, minha, insegurança

Na sua, minha, desconfiança

Na sua, minha, competição

Na sua, minha, birra infantil

Na sua, minha, omissão

Na sua, minha, firmeza

Na sua, minha, impaciência

Na sua, minha, prepotência

Na sua, minha, fragilidade doce

Na sua, minha, mudez aterrorizada

E você se encontrou e se viu, enquanto

olhava pra mim?

Eu não sou você

Você não é eu

Mas foi vivendo minha solidão

que conversei com você

E você conversou comigo na sua solidão

ou fugiu dela, de mim e de você?

Eu não sou você

Você não é eu

Mas sou mais eu, quando consigo

lhe ver, porque você me reflete

No que quero vir a ser…

Eu não sou você

Você não é eu

Mas somos um grupo, enquanto

somos capazes de, diferenciadamente,

eu ser eu, vivendo com você e

Você ser você, vivendo comigo.

BIBLIOGRAFIA

BARBOSA, Marcelo. A importância da autenticidade do psicoterapeuta. Belo Horizonte: Clínica de Psicologia da PUC [s.d.]. (Trabalho de Aluno).

FRANÇA, Júnia L. et al. Manual para normalização de publicações técnico-científicas. 3a. ed. rev. aum. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1996. 191p.

FREIRE, Elizabeth S. A implementação das atitudes facilitadoras na relação terapêutica centrada no cliente. Campinas: PUC, 2000. P. 50-58.

FREIRE, Madalena. O que é um grupo? [s. n. t.} p. 59 – 68.

O’HARA, Maureen M. A consciência do terapeuta. In: ROGERS, Carl R. et al. (p.97-102). Em busca de vida: da terapia centrada no cliente à abordagem centrada na pessoa. São Paulo: Summus, 1983. 187p.

ROGERS, Carl R., KINGET, Marian. Psicoterapia e Relações Humanas: teoria e prática da terapia não-diretiva. 2a. ed. Belo Horizonte: Interlivros, 1977a. Vol. 1. 288 p.

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_____________. Abordagem Centrada na Pessoa. Vitória: Editora Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1994. 313 p.

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002