Conto de fadas

Antonio Carlos Zago

Unitermos – drogadição; self; contos de fadas; recursos terapêuticos

Summary

Drug addiction, the self, fairy tales and therapeutic resources: a phenomenological and existential view point

Tube author analyses in this paper a phenomenological and existential view point on the drug dependence process and its implications in the development of a genuine self He uses from uni¬versal literature, for example some fairy tales, to illustrate the self drugs relation;and be proposes the person centered approach concepts as therapeutic resources. The purpose is to present subsidies for the clinical work with the drug addict patients.

Uniterms: drug addiction; the self therapeutic resources

Toda vida nova que surge é resultado de uma experiência de interconexão. Desde a concepção a nova vida ingressa na universalidade da existência que é o viver com. E provável que exista uma ligação mais que placentária ou fisiológica nos meses de vida intra ¬uterina. Não seria a condição da gravidez um relacionamento feto-mãe, e vice-versa, onde um eu-primordial que de tão rudimentar, dependente e imaturo necessita diuturnamente do outro (= a mãe) para alimentá-lo e mantê-lo vivo? Não poderíamos chamar esse relacionamento de comunicação primitiva entre o eu-primordial ou eu-fetal e a futura mãe? Ignorar os sentimentos que uma gravidez mobiliza é como descartar o óbvio.

Com base nas idéias de alguns físicos ocidentais e de pensadores orientais, Bowen(2)’ afirma que a fonte de amor do self vem de uma experiência de interconexão com o universo, e que vivenciamos a nós mesmos não como estando sozinhos, mas como parte de um todo à semelhança do paradigma da ordem implicada de David Bohm para a física.

Heuscher4>, apoiado em Kierkegaard, enfatiza que uni tecido social saudável somente pode resultar de individua!idades genuínas, onde cada eu ou self, embora comprometido com o outro, permanece autônomo e autêntico, que corresponde ao que Kierkegaard chama de “amando um ao outro em Cristo”. A fenomenologia descreve isso, sem metáforas religiosas, de relacionamentos intersubjetivos ocorrendo no âmbito transcendental. Assim, onde há relacionamentos não autênticos como a dominação, a submissão ou a dependência mútua (fusão) não ha relações sociais sadias e duradouras.

Em outro estudo Heuschers utiliza-se de contos populares e de contos de fadas para demonstrar que a busca de um self ou de um eu genuíno é uma caminhada de desafios, sofrida, de enganos e desenganos, vitórias e novas lutas para atingir um ideal. Geralmente nesses contos os heróis terminam como príncipes, reis, princesas, rainhas ou imperadores: no sentido dessa busca da autenticidade ultrapassar o mero significado de um novo e mais alto status social, contudo por ter atingido e introjetado um ideal de ser. E um dos aspectos essenciais do eu ou do self, que ele é sustentado por relações de amizade, de amor, em suma, de relacionamentos intersubjetivos autênticos.

Desse modo, entendemos crescimento interior como um movimento à atualização própria de cada ser que transcende qualquer forma de adição a objetos, quer de pobreza, quer de riqueza material. O sentido do existir presentifica-se no processar da vida se e somente se estiver em direção ao semelhante, ao próximo, ou seja, numa relação eu-outro e não eu-objeto, portanto em experiências de interconexão resultante de um trabalhar-se conforme o conceito kierkegaardíano.

Nossas reflexões sobre o fenômeno da drogadição têm conside¬rado como centro a pessoa do dependente e não o objeto concreto droga. Seguindo essa ótica, já apresentada em textos anteriores, o objetivo é aprofundar a compreensão sobre a pessoa que se droga.

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situada num modo extremamente estético, de obtenção de prazeres, e por isso seu viver é a experiência do outro-negado ou do outro¬-coisificado [13]

Vivemos num contexto onde estão valorizadas as relações do produzir-consumir. numa sociedade de aparências priorizadas que dificultam o ser voltar para si mesmo, estimulando-o a buscar suas “soluções” e seu crescimento interior nos objetos, nas coisas.

A pessoa, desde a infância, é levada num crescente jogo, que por força da ideologia, representada nos primeiros anos de vida pelos pais, que ter é mais fundamental que ser, ocorrendo uma inversão da essência pela aparência. Com isso a pessoa é transformada em consumidor potencial ou eficaz, contudo, muitas vezes, solitária de si mesma, e correndo o risco de alienar-se se elabora seu self apenas nas coisas concretas e externas.

Quando uma mãe amamenta seu bebê através do seio, o contato não preenche somente as necessidades alimentares. O ato de alimentar mobiliza, nesse caso, conteúdos afetivos, relações de confiança ou desconfiança, de satisfação ou insatisfação, entre outros, no bebê. O alimento é um dos primeiros veículos de interconexão.

Entretanto, na sociedade consumista,há um destaque especial ao alimento concreto, que por ser dividida em classes, alguns o têm em abundância e a maioria carente dele. E, geralmente, quer na fartura, quer na carência, o alimento e seus sucedâneos são colocados muitas vezes sem o conteúdo afetivo ou inerente. Uma dissociação, isto é, prioriza-se somente o material das coisas. Um exemplo extremo e considerado um transtorno é a obesidade que, em muitos casos, é mais uma doença do “espírito” que do corpo. A rigor a ingestão voraz de alimento é uma tentativa de preencher um profundo vazio, buscando no fora, no exterior, respostas que provavelmente estão no mundo interno.

Com o drogadicto o mecanismo não difere muito do obeso. Muda é claro o objeto de consumo e as conseqüências do uso desse objeto. Se a obesidade traz sérios riscos para a saúde, que dizer então das drogas, que além disso embotam as experiências do viver com?

É na adolescência, período etário dos 12 aos 18, que o ser busca de maneira mais intensa a sedimentação de sua identidade mais autêntica. E nesse período. quando emerge questionamentos internos e pressões externas no sentido de assumir determinados papéis sociais, que o ser exige e é exigido a trabalhar-se. Se a sua formação vem sendo pautada pelas soluções exclusivas do mundo exterior, é bem possível que a pessoa irá dirigir a sua busca-encontro ou o sentido ou o conceito de si mesma não em si, nem nos outros, mas tão-somente no mundo dos objetos. E como acaba não encontrando seu significado de ser-no-mundo nos objetos externos, em nenhum lugar, e receoso pela angústia e desespero de trabalhar suas crises, fica na defensiva e começa a “identificar-se”, quase que compulsivamente, com objetos e objetos, os quais não lhe dão o significado de seu existir. Ou seja, não lhe dão sua identidade, seu self genuíno, não se permitindo trabalhar no sentido de qualificar seu eu ou self. Torna-se então um escravo de objetos, visando apenas lutar para suprir suas necessidades mais corpóreas:comer, beber, luxo, conforto, status. Não consegue amar o seme¬lhante porque não consegue amar a si mesmo; ama coisas.

E assim que se sente uma pessoa nessa condição: vazia, carente de um referencial interno sem discernimento do que é, do seu existir, do seu eu genuíno e de sua tarefa humanizadora. E os objetos não preenchendo esse vazio, essa carência, não atingem realizar essa tarefa de qualificar seu eu e de ser capaz de exercer sua intersubjetividade autêntica, portanto não sendo transformador da sociedade. Dessa forma, tem dificuldade para desenvolver e conquistar seu self genuíno, descobrir sua “cara”, isto é, ser na sua totalidade. Não se permite vislumbrar o contorno de si mesma ou trabalhar para atingir e delinear esse contorno ou limites de seu ser. E esse ser, geralmente na idade jovem, que se fixa, por toda essa insegurança, num ponto de risco do continuum consumista. As drogas podem parecer como a solução mágica das incertezas, das dores, das angústias e do vazio interior. Dessa maneira, a pessoa que se droga não deixou de ser “careta” por isso, mas justamente por não ter “cara”, por não ser “careta”, quer dizer, por não elaborar sua identidade autêntica, é que tenta um significado para seu viver num objeto externo como a droga. Isso fica mais evidente quando o drogadicto, não estando sob efeito de uma droga, precisa ter consigo, em seu bolso, a droga. A sua “cara”, a sua “identidade” seu self, está de certa forma externalizado no objeto droga. E sem a posse da mesma desespera-se porque sente que falta um “pedaço” de si mesmo. Sem a droga é um vazio, sem “cara”. Através da droga o ser dependente encontra sua “cara” idealizada ou um falso self. O drogadicto, então, torna-se cada vez mais solitário de si mesmo, cada vez mais incapaz de trabalhar-se com suas crises e seu crescer, pois trabalhar suas crises significa muitas vezes desesperar e angustiar para ser. Não realiza suas reflexões — uma das funções das drogas na sociedade é impedir o pensar—, mantém-se imaturo, isto é, o eu acirra defesas para evitar o trabalhar-se e, conseqüentemente, não suporta a angústia, a frustração e os limites próprios da vida a não ser anestesiando seu sofrimento. Chega um momento de dependência que o drogadicto se distancia tanto de si mesmo, de seus semelhantes e do mundo que sua existência passa a gravitar como um satélite em torno da droga. E num grupo de usuários ele faz “presença”, isso porque a oferta da droga o toma presente: é a droga que num certo significado o faz existir, é pela droga que se imagina ser. Em outras palavras, presentifica-se através da droga e investe tanta vida nela dando poder para a droga ser o sujeito, e ele, o dependente, o complemento.

Desse modo, tecendo com a droga a imagem de si mesmo, elegendo-a como parâmetro central de seu viver, o dependente tem sérias dificuldades para relacionar de forma mais profunda e genuína com o outro, o próximo. E evitando trabalhar suas crises não busca qualificar seu self e se valorizar, para que com isso se comprometa com seu semelhante, autenticamente. A droga, como vara de condão, encobre seu vazio e alivia durante seu efeito a angústia de não ser “careta”, ou seja, de não ser genuíno, ao mesmo tempo, ainda sob seu efeito, que lhe dá uma fachada de segurança e de onipotência. E com a droga, e só com ela, que a pessoa ensaia uma intersubjetividade, mas com o intuito de tirar proveito para alimentar sua drogadição, colocando o semelhante como o outro¬ coisificado, uma negação do outro, á semelhança do conto do Rei Midas que tudo que tocava se transformava em ouro, em um objeto concreto, mas o privava do amor e da amizade. Portanto o drogadicto é um inautêntico e, devido a isso, não pode se posicionar genuinamente nem ser comprometido com o outro, não havendo experiências de interconexão com o próximo, o viver com, porque seu comprometimento é exclusivamente com a droga.

Esse comprometimento escravo com a droga afasta ainda mais o ser de si mesmo colocando-o a margem do processo histórico ou de suas possibilidades como existente de provocar transformações positivas no mundo. Alienado de si e do mundo, esse comprometimento escravo com a droga leva o drogadicto á chamada marginalidade social: o furto, o roubo, a violência, a manipulação, a mentira, enfim, o desrespeito á cidadania. Tudo é um preço para ele barato demais para o objeto que anestesia as suas crises, suas angústias, seu desespero e sua vida. Esse comprometimento é a forma de negar a si, concomitantemente nega o semelhante. Como não há crescimento pleno ou essa possibilidade se não for em direção ao outro, ao próximo, o drogadicto é, como ser-no-mundo, embotado, pois no seu projeto existencial está a droga ( =objeto ) como centro e não outros eus.

À medida que distancia mais de si mesmo, mais e mais estreita sua escravidão com a droga. Cada vez mais inautêntico, cada vez mais carente e sem rumo no seu interior, chega a por-se em risco de vida. O aumento do consumo de drogas não tem haver somente com o fenômeno da tolerância. O ser assim exprime sua extrema imaturidade e dependência, um retorno análogo ao seu viver intra-uterino, quando injeta a droga nas veias á semelhança de um feto interconectado à mãe para obter satisfação e segurança imediatas; em outras palavras, retorna a eu-primordial ou eu-fetal. Além disso, o drogadicto nessa condição se expõe à promiscuidade sendo alvo fácil de doenças, inclusive a Aids. Queremos dizer, dessa maneira, que todo esse processo é um projeto de morte. Tal projeto fica mais evidente quando o drogadicto, sob o efeito da droga, provoca ou envolve-se em acidentes, ou, ciente ou não, tenta o suicídio com uma superdosagem, tanto no que se refere às tentativas de suicídio total quanto às de suicídios parciais. A drogadição é

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um processo franco de auto-eliminação do self ou do eu. E externamente, em sua aparência, também se desorganiza: troca o dia pela noite, descuida de seu corpo e de seus pertences pessoais, abandona estudos, abandona o trabalho, vive às escondidas, isola-se da vida familiar, torna-se irritado, nervoso ou explosivo. Não raro pode ocorrer um surto de rompimento com a realidade, que denominamos de transtorno psicótico.

Ao mesmo tempo a dependência de drogas é um verdadeiro grito de socorro, de pedir ajuda. A própria busca da droga representa uma tentativa de “solução” para as crises do existir, a esperança de que seja um método mágico para aliviar sofrimentos resultantes de crises e crises acumuladas, bem como a dificuldade de refletir sobre seus sentimentos, intenções, perdas, alegrias, etc. Entendemos que o ser não adoece porque começou a tomar drogas, mas por já estar adoecido existencialmente faz do uso de drogas uma tentativa de “solução” ou “cura” [13].

A sociedade, de um modo geral, não compreende o drogadicto da maneira como expomos. Ela o vê como fronteiriço entre o marginal e o doente. A ideologia consumista questiona veementemente essa expressão extrema da patologia do consumo. Sobretudo, estimula o uso de drogas legais como o álcool, tabaco e “medicamentos” receitados pela mídia, e combate o uso de drogas ilegais. Tolera o drogadicto legal desde que não comprometa a produção e marginaliza o dependente de droga ilegal.

A droga em si nada é. E apenas um objeto inanimado, sem x’ida. E preciso que o ser dê vida a esse objeto para que produza seus efeitos. Assim, o problema fundamental do drogadicto não é a droga. Esta é a questão-objeto. O maior problema do drogadicto é ele próprio, a questão-humana.

E importante diferenciar o ser que se droga, a pessoa dependente com as características que estamos demonstrando, e que inclusive tem traços sociopátícos como o furto, a mentira, a manipulação e exerce o pequeno tráfico para poder ter sua porção de droga,.do sociopata frio e calculista que trafica para obter lucros, cuja capacidade de encontrar a si mesmo está deteriorada. Neste, que vive ás custas da exploração da doença alheia, da aniquilação do outro, há a impossibilidade de entrar em desespero, utilizando um conceito de Kierkegaard, sendo incapaz de atingir estágios mais humanizados da existência.

O ser que se droga desperta sentimentos, idéias e ações das mais contraditórias nas pessoas que com ele tentam conviver, inclusive naquelas que estão dispostas a oferecer ajuda.

A descoberta pela família de que um de seus membros está envolvido com drogas estimula reações que vão desde uma irônica indiferença até a violência física. Às vezes os familiares desconfiam que tal membro da família esteja usando droga, mas não querem acreditar. Sutilmente revistam roupas e pertences geralmente receosos de encontrar o que procuram. Esse posicionamento dá a impressão de que o diálogo nessa família está comprometedor. Há famílias que não têm mais autoridade para dar limites á pessoa dependente devido á maneira permissiva ou de abuso de poder na formação. Em outras famílias contatuar ou discutir problemas humanos como gravidez na adolescência, uso de drogas, sexo, aborto, etc., enfim, temas considerados críticos, é catastrófico. Há famílias que ao constatarem um membro drogadicto. mantêm-se permissivas. Sabem, por exemplo, que estão desaparecendo objetos e dinheiro da casa, contudo nada fazem, esperando uma solução milagrosa. Outras reagem com agressão ou expulsam o dependente de casa.

A prática clínica tem mostrado que o drogadicto emerge de grupos familiares onde os extremos estão sempre presentes:rígidos/permissivos; frustração/satisfação plena; falsa moral! mentira; entre outros. E comum drogadictos virem de lares de pais separados, embora conviver sob o mesmo teto não signifique vidas harmoniosas.

Duas características estão presentes na família do dependente de droga: a mentira, onde está associada à manipulação e o duplo-vínculo. É um clima familiar onde à verdade é sempre distorcida, onde se dá um jeito de arrumar as situações, de limites elásticos e sem respaldo de princípios básicos de respeito nas regras de convivência, onde as mensagens são contraditórias. A partir da constatação do uso de drogas por um de seus familiares, essas dificuldades tornam-se mais agudas. Então, inicia-se um processo de adoecer recíproco: o drogadicto, conforme é cobrado, droga-se mais e mais; a família, por sua vez, faz inadvertidamente dessa cobrança uma maneira de empurrar mais e mais a pessoa dependen¬te para a droga. Se o ser que se droga alivia toda a sua desesperança com sua maneira dependente de viver, os familiares assumem para si esse desespero até para reparar uma culpa que sentem pelo fracasso de ter em seu seio um drogadicto, ou seja, todos os atos do drogadicto como o furto, dívidas, problemas judiciais. etc., a família acaba assumindo.

Geralmente pais com filhos dependentes de drogas sentem-se fracassados em sua missão de pais. Culpam-se por não ter conseguido educá-los como acham que deveriam e por não ter dado tudo que esses filhos precisavam no sentido material. A verdade é que não existem pais nem filhos perfeitos. Talvez porque coloquem expectativas muito idealizadas uns nos Outros, e que transformam as relações sempre em cobranças mútuas. Há filhos que agridem verbalmente os pais quando afirmam que “não pediram para nascer”. Dê fato os filhos não puderam e não têm como escolher seus pais. Entretanto, é bom ressaltar que os país também não puderam e não têm como escolher seus filhos. Mesmo que sejam adotados, apenas os traços concretos como o sexo e a cor podem ser escolhidos, porém o conteúdo não. Talvez essa impossi¬bilidade de escolhas é quem determina o princípio aberto para a aprendizagem do amor, da interconexão, do viver com.

E evidente que os pais, então, não são perfeitos e falham na tarefa de pais. Há, sem dúvida, pais que são imaturos e não conseguem transmitir segurança aos filhos. Há pais que inclusive cometem muitas bobagens na educação dos filhos. Realmente não há fórmula ou receita de como os pais devem agir. Muitos na tentativa de acertar metem os pés pelas mãos. Há pais cujos filhos, com exceção do drogadicto, estão de bem com a vida, mas mesmo assim esses pais se sentem fracassados.

Ninguém possui uma fórmula ideal para educar filhos. Quere¬mos entretanto fazer duas observações: a) os pais precisam abandonar a crença ideológica de que criam ou educam os filhos em igualdade de condições; b) e abandonar também a crença ideológica de que dar tudo materialmente aos filhos é dever imperioso para ser bons pais.

Os pais devem entender que a experiência de lidar com o primeiro filho é bem diferente do segundo, do terceiro… O relacionamento entre os pais e um filho é diferente do relacionamento dos pais para com outro filho. E necessário reconhecer e aceitar isso. As regras concretas da vida familiar podem até ser as mesmas, mas as interconexões ou as comunicações de afetividade é diferente. Às vezes um dos filhos denuncia: “ele é o preferido”, porém os pais sempre negam. Assumir o que sentimos nesta relação aos outros é o primeiro passo para que esse relacionamento se torne transparente e saudável.

Dar tudo materialmente aos filhos pode estar representando uma forma de evitar uma relação mais profunda. Há pais que se desdobram, ás custas de muitos sacrifícios, para dar algo material a fim de que a felicidade coisificada do filho seja indiretamente a sua. Evitar os filhos aprenderem a lutar por objetivos a médio e longo prazo pode impedir que os mesmos se desenvolvam como pessoas singulares e autônomas. Os pais precisam saber que a família é uma microcomunidade que reproduz a ideologia da macrossociedade. Procurar deixar de lado as questões do consumismo puro e simples nas relações país e filhos é uma tarefa, embora possa ser doida, estimulante. A crise, que emerge em um grupo familiar portador de um drogadicto, se encarada com seriedade e disposição, pode ser transformada como fermento na massa para o crescimento de todos os envolvidos. Podemos também afirmar que o drogadicto é uma vítima-responsável. O drogadicto queixa, e muitas vezes com fundamento, que é vitima da

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sociedade, que é vitima da droga, que é vitima de pais imaturos que não sabem dar amor, que é vitima da injustiça, da incompreensão social, do traficante… Contudo, ele, o drogadicto. é o responsável pela sua existência. Pode até ser de fato vitima de tudo e de todos, descontando defesas racionalizadoras, mas a responsabilidade de reverter seu projeto suicida em projeto de vida, a responsabilidade de qualificar o seu self e de ser capaz de amar o próximo, a responsabilidade, enfim, de existir genuinamente é dele próprio. Não é o mundo de fora que precisa mudar urgentemente, mas o de dentro. Este precisa ser “destruído” para nascer vida nova. E isso só depende do drogadicto querer trabalhar-se.

Nesse prisma apenas parar de tomar droga não modifica a pessoa drogadicta. Precisa parar de tomar droga para poder refletir sobre sua condição, rever posicionamentos, valores e redimensionar sua visão e conseqüentemente sua ação no mundo. Muitos têm dificuldades para repensar isso tudo sozinhos e precisam de ajuda. Quando um drogadicto solicita explicitamente ajuda está dando um valioso passo, pois ai. se esse pedido for sincero, estará começando a resgatar o outro. retomando seu viver- com autêntico.

Rogers apresenta como tese central da abordagem centrada na pessoa o fato de que todos os indivíduos possuem vastos recursos internos para compreender a si mesmos e com isso para modificar atitudes e comportamentos (=tendência atualizante). Esses recursos podem ser despertados ou ativados mesmo que a pessoa esteja com o seu centro de crescimento atrofiado, porém desde que encontre um clima de atitudes psicológicas facilitadoras.

E para a emergência desse clima devem estar presentes três condições, as quais se aplicam à relação terapeuta-cliente, pais-filhos, líder e grupo, administrador e equipe, enfim, em qualquer tarefa cujo objetivo é o desenvolvimento da pessoa: 1-autenticidade, sinceridade ou congruência; 2.. aceitação, interesse ou consideração incondicional; 3.-compreensão empática.

A primeira condição é uma atitude de transparência onde o posicionamento do terapeuta ou do facilitador é ser ele mesmo, sem resistências. A segunda refere-se á ação positiva e acolhedora, na qual o cliente pode perceber a situação como não ameaçadora, portanto livre para expressar o que está ocorrendo em seu intimo, seja amor, raiva, orgulho, confusão, ressentimento, coragem. O terapeuta aceita essas expressões incondicionalmente, e não com censura, posse ou ameaça. E a terceira implica capacidade do terapeuta ou do facilitador captar com precisão os significados e sentimentos que a pessoa está vivenciando na relação, bem como a de comunicar essa compreensão. A real empatia é esse saber ouvir ou esse saber escutar ativamente possibilitando a clarificação da comunicação.

A tendência atualizante está essencialmente ligada ao conceito de self—imagem de si mesmo ou “a consciência de ser e funcionar — como um conjunto mutável diferenciado da experiência organismica e que se enriquece qualitativamente à medida que o ser é aceito ou considerado positivamente por pessoas significativas de seu contexto [8,9], ou, como já citado, o self é sustentado por relações genuínas de amor e de amizade.

Se se aceita como provável a tese que a pessoa que busca a droga está fazendo uma tentativa de “solução” ou “cura” por já estar adoecido existencialmente [13], então, sem consciência de suas intenções, ao buscar esse “mau-remédio” a pessoa está procurando se manter viva psicologicamente, mesmo que, paradoxalmente, isso possa lhe custar à vida. Ignorando no sentido intelectual e ideológi¬co que a droga é um “mau-remédio”, pois esta lhe dá prazer, evita pensar pensamentos desagradáveis, evita a angústia e o sofrer, e todavia a “escolha” que a pessoa encontra como saída imediata para melhorar a imagem de si mesma e sua auto-estima.

A partir daí o self vai sendo construído idealizadamente, distante do que a pessoa realmente é. E um equívoco concluir que passado o efeito da droga a pessoa é a mesma. Gradativamente vai ocorrendo uma mudança devido a essa construção idealizada de si mesma, conforme estreita a dependência com as drogas.

Quando ingerimos um alimento ele não se aloja, tal como é, em

nosso corpo. Passa por um processo metabólico e é transformado em energia para o sustento. Do mesmo modo, ao usar droga, a pessoa processa organismicamente a situação experiencial. Não é mais a mesma durante e depois do efeito. Num sentido amplo. todas as experiências que estabelecemos como ser-no-mundo provocam modificações no ser e no mundo, a partir do referencial interno de cada um .

Entretanto, quando o dependente começa ter a percepção que a droga é um “mau-remédio” para se manter existente, inicia seu desespero de não saber bem quem é e de não saber ao certo o que e o significado genuíno de si mesmo. E pela própria natureza viciante das drogas, pela própria construção gradativa, que em muitos casos remonta a anos, do self+ drogas, pela própria imagem de si desenvolvida sobre fantasias, o drogadicto se assemelha aos exemplos de figura-fundo.

Um desses clássicos exemplos é a figura de um vaso em branco formado pelos perfis de dois rostos em preto um frente ao outro. Normalmente quem observa esse exemplo á primeira vista vê apenas o vaso, não percebendo que o fundo em negro são dois perfis. Depois é percebido os perfis como figura e o vaso como fundo. E necessário perceber a gestalt do quadro para ver o todo, rostos e vaso ao mesmo tempo.

No campo da literatura podemos citar A Obra em Negro de M. Yourcenar [ 11 ] a figura de Zênon na busca do conhecimento absoluto, da pedra filosofal, tendo como fundo o final da Idade Média, período obscurantista e, concomitante, desejoso de conhecimento. Não é possível perceber a busca de Zênon sem o contexto. e vice-versa.

Qualquer que seja a figura emergente num quadro de drogadição numa situação terapêutica, há sempre um desejo velado de mudança (fundo). Em nossa prática clínica, no contato com dependentes de drogas, principalmente entre aqueles mais resistentes ao tratamento ou à consulta, é perceptível uma intenção, muitas vezes pálida, de inconformismo com a drogadição. E esse fundo que o terapeuta precisa perceber. bem como a sua habilidade para trazer à tona a situação, a fim de que o dependente tenha o discernimento da totalidade de sua drogadição, de seu projeto de morte: o aprendizado da situação quando do mesmo modo discernimos pela primeira vez a gestalt do vaso e dos perfis. Uma descoberta significativa.

Em encontros individuais ou grupais com dependentes de drogas, quando um clima de confiança é estabelecido e quando a temática permite, é verificado que narrar uma história popular, uma fábula ou um conto de fadas, estimula a possibilidade de criar uma situação de movimento positivo no processo terapêutico, ou seja, a possibilidade de criar um campo fértil para o discernimento.

Inúmeros são os contos e histórias conhecidos universalmente que podem ser utilizados como ferramenta para estimular uma situação de movimento na relação terapêutica. Alguns exemplos:

O atalho da floresta, onde Chapeuzinho Vermelho. em desobediência á mãe, encontra o Lobo Mau; é a maneira manipuladora como o dependente não aceita a ordem natural das coisas para obter o que pretende ou se expõe com base em sua curiosidade. O sono de A Bela Adormecida como o alheamento ao semelhante e ao mundo:uma vivência à margem do processo histórico, tal como acontece com a condição alienante que é a dependência de drogas. ou seja. não desperto para a vida, num projeto de morte (=adormecer). Sobre o abandono, João e Maria, vidas sem rumo (perdidos na floresta) e atraídos pela beleza e pela fome a uma casinha de chocolate; traídos pelo imediatismo, pela voracidade; não sabendo o que tal bela casinha lhes reserva: um verdadeiro cárcere, semelhante à sedução das drogas.

Desde os tempos imemoriais o uso de histórias tem sido um meio pedagogicamente eficiente para o aprendizado da vida. Cristo é o mais conhecido exemplo de todos, quando do uso de parábolas para tornar acessível sua mensagem. Muito país, sem saber, já ajudaram filhos na infância a organizar ou reorganizar seu mundo interno quando leram para eles uma história ou um conto de fadas. Tal prática salutar era comum nas escolas infantis. Parece que essa prática está cada vez menos freqüente.

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Conforme Bettelheím [1],os psicanalistas junguianos assinalam que os contos de fadas e os mitos representam situações arquetipicas. universais, nas quais simbolicamente está sempre presente a necessidade de atingir um estado mais avançado de autoconfiança ou de conquistar um plano mais elaborado ou elevado de existência através do esforço pessoal. Heuscher [6] demonstra também como óperas e contos podem servir de subsidies para a compreensão do funcionamento psíquico, seus conflitos e soluções, expressos através de situações que cada persOnagem desempenha na história.

Em seu belo romance sobre a história da filosofia, Gaarderm lembra que o escritor de contos fantásticos Hans Christian Anderson foi contemporâneo de Kierkegaard. Ambos tinham o mesmo olhar atento para a riqueza que cada individualidade humana é, numa posição contrária a Hegel cujo historicismo e a filosofia da unidade haviam tirado do indivíduo a responsabilidade pela sua própria existência. Basta ler alguns contos de Andersen para perceber a abundância de sentimentos, posicionamentos, valores pessoais e decisões que exprimem seus personagens, muitos deles solitários, no objetivo de buscar e encontrar urna imagem real de si mesmo, ou seja, um eu ou self genuíno.

Não se trata simplesmente que a drogadição é como um viver num conto de fadas ou num mito.

Mas, em certo significado, o drogadicto é semelhante nos contos de fadas ao infeliz, sem rumo na vida, que vive de sonhos e fantasias, até que um dia algo o desperta para um desafio na busca de um ideal. Nos contos de fadas a auto-realização ocorre sempre no real e não nos sonhos ou nos encantamentos, corno pode ser constatado em inúmeros contos. Também esses contos geralmente começam e terminam da mesma forma, universalmente, “Era uma vez…” e “Viveram felizes para sempre…” Mas a riqueza da mensagem humana de seus personagens está no decorrer da história, onde, muitas vezes, os heróis, para atingirem tal status, precisam superar os encantamen¬tos.

A dependência de drogas e sua sintomatologia aparentemente tornam iguais todos os drogadictos. Assim, uma visão apenas sintomatológica corre o risco de se criar um “sistema” que explica, em todos os dependentes, o fenômeno da drogadição, tornando-os uniformes á semelhança do sistema hegeliano que privilegia a idéia. Dai nosso questionamento, numa proposta kierkegaardiana, no sentido de valorização da individualidade.

E importante na relação terapêutica saber da sintomatologia. Entretanto, esta não deve ser o ponto de partida se quisermos de fato ser uma experiência nova e autêntica de interconexão para o dependente. O caminho, no caso, deve ser o inverso do usual, isto e. considerar a individualidade para compreender os sintomas. E o meio para despertar a tendência atualizante “adormecida” na pessoa que se droga, para que seja criada a condição para um movimento positivo na relação.

Portanto, saber ouvir e saber considerar a pessoa do dependente de drogas são meios que poderão abrir

possibilidades de um mundo novo, de esperança e de sonhos. Sonhos não quimicamente fabrica¬dos, mas os sonhos próprios da vida que se reorganiza em cada um deles em ideais.

É preciso tentar sempre, mesmo sob o risco iminente da frustração em cada tentativa de ajuda. Nem sempre podemos provocar esse despertar ou quebrar os encantamentos. Todavia, isso não deve, de forma alguma, adormecer ou entorpecer nossos sonhos e desafios em ajudar a existência adoecida.

REFERÊNCIAS:

1- BETTELHEIM, B. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra Ed. 1979

2- BOWEN MC — Espiritualidade e a Abordagem Centrada na Pessoa; Interconexão no Universo e na Psicoterapia. ln: SANTOS AM, ROGERS CR,

BOWEN MC — Quando Fala o Coração; A Essência da Psicoterapia Centrada na Pessoa Porto Alegre: Artes Médicas, 1987, pp. 86-1’2

3- GAARDER , J — O Mundo de Sofia . São Paulo: Companhia das Letras , 1995.

4- HEUSCHER JE — Love and authenticity. Am J Psycho anal, 47 [1] : 21-34, 1987

5- HEUSCHER JE — Mythology — the self— Peer Gynt. Am J Psycho anal, 52 (1): 79-92, 1992. •

6- HEUSCHER JE –Don Pascuale, Fidelio and Psychiatry. Am J Psycho anal, 52 (2): 161-173, 1992

7- KIERKEGAARD S — O Desespero Humano: Doença até a Morte. São Paulo: Ed. Nova Cultural – Os Pensadores , 1988, pp. 187-279. .

8- ROGERS CR • Tornar-se Pessoa . Lisboa: Moraes Ed. —, 1970

9- ROGERS CR — A Terapia Centrada no Paciente. São Paulo: Martins Fontes Ed. —, 1974

10- ROGERS CR — Um Jeito de Ser. São Paulo: EPU —, 1983).

11- YOURCENAR M —A Obra em Negro Rio de Janeiro: Rio Gráfica Ed. 1986

12- ZAGO JA – Drogas: Condições Psicosociaís da Dependência . São Paulo: Ícone Ed.—, 1 988)

13- ZAGO JA — Drogadição, um jeito triste de viver. Informação Psiquiátrica, 13 (4): 155-158. 1994

Autor

José Antônio Zago joseantoniozago@ig.com.br

Psicólogo do Instituto Bairral de Psiquiatria – Itapira – SP. Mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba. http://www.adroga.casadia.org em 11/11/2005

Resumo

O autor analisa, em uma perspectiva fenomenológico-existencial, as implicações da dependência de drogas no desenvolvimento de um self genuíno. Utiliza-se de dados da literatura universal, como alguns contos de fadas, para ilustrar tais implicações; e sugere conceitos da abordagem centrada na pessoa como meio ou instrumento terapêutico. O objetivo é apresentar subsídios para o clínico no con¬tato com pacientes dependentes de drogas.

publicado Informação Psiquiátrica volume 17 numero 2, pp. 67-71, ano de 1998