Da Não-Diretividade à Experienciação

Shirley Martins de Macêdo

Título original: Da Não-Diretividade à Experienciação: a alteridade nos encontros dialógicos da relação terapêutica proposta pela ACP

A Abordagem Centrada na Pessoa, inicialmente proposta por Carl Ranson Rogers (1902-1987), foi desenvolvida a partir de trabalhos de pesquisa que levaram à construção dos seus pressupostos teóricos.

O Trabalho de Rogers não se limitou apenas à psicoterapia, mas penetrou no âmbito do ensino-aprendizagem, da enfermagem, do serviço social, da indústria, da religião, das empresas e em qualquer espaço em que seria necessário um desenvolvimento humano para a conclusão de objetivos institucionais. Segundo ele mesmo (1977), o seu trabalho junto com os seus colaboradores revolucionou o campo do aconselhamento e exerceu um profundo impacto desde a psicoterapia até o contexto sócio-cultural como um todo.

Tem-se, daí, a necessidade demonstrar como se desenvolveu o seu pensamento, desde a Psicoterapia Não-Diretiva até os dias atuais, desde quando se tratava apenas de uma prática psicoterápica até a evolução para uma abordagem, já que sua teoria e sua prática podem ser aplicadas em outros contextos fora do consultório.

As pesquisas que atualmente são realizadas por um grupo de profissionais interessados pela ampliação de uma abordagem essencialmente humana, mostram que a mesma está aberta a novas verificações científicas, já que a teoria da ACP não é um dogma incontestável – é pura vivência no tempo e espaço considerados sócio-culturalmente.

Cada período desta evolução é marcado por momentos específicos. As relações com os clientes mudaram, tomaram nova forma, se dinamizaram, demonstrando, entre outros, o caráter fenomenológico das pesquisas rogerianas. Procura-se, contudo, apresentar algo diferente de muitos artigos já desenvolvidos sobre as características destes períodos. Pretende-se, no presente trabalho, articular a apresentação dos mesmos no que tange mais às relações interpessoais e às atitudes do terapeuta, a fim de que se possa esboçar a questão de alteridade ao longo do desenvolvimento da ACP.

Desde as suas mais remotas origens, a hipótese geral que permeia a ACP é a de que os indivíduos possuem vastos recursos, para auto compreenderem-se e para modificarem seus auto conceitos, que podem ser ativados se houver um clima terapêutico facilitador. Esta crença na potencialidade do homem é a característica básica de um psicoterapeuta centrado na pessoa.

No período não-diretivo, Rogers definia a terapia como uma relação terapêutica totalmente livre de qualquer tipo de pressão ou coação. “O terapeuta hábil se abstém de introduzir seus próprios desejos e suas próprias reações ou juízos dentro das situações terapêuticas…” (Rogers, apud Gondra Rezola, 1975:42)

Aliada a isto, tem-se a sua preocupação com a não autoridade do terapeuta já presente no período não- diretivo, o que indica a valorização do outro como um ser dotado de subjetividade engrandecedora de si mesmo. O respeito à autonomia do cliente e aceitação do mesmo em todos os seus pensamentos e sentimentos nada mais são do que afirmações de alteridade do cliente por parte do terapeuta. No período não-diretivo, havia a preocupação originária de não transformar a relação terapêutica em social, seja paterno-filial, seja autoridade-dependência, portanto, já se notava uma preocupação com a não confluência, com o não envolvimento emocional, com a necessidade de se distanciar de uma relação social que, muitas vezes, é estabelecida num grau em que não se consegue diferenciar um eu de um outro.

Com a psicoterapia reflexiva advém uma relação alteritária de maior amplitude: a não preocupação com a técnica torna o terapeuta mais voltado para o cliente, e a maior ênfase nas mudanças na personalidade do cliente faz com que o terapeuta se volte ao centro de referência interno deste – um movimento que tem a ver com a própria filosofia de vida do terapeuta. A compreensão empática denota uma psicoterapia mais humanística, onde o clima terapêutico promove o desabrochar das características pessoais (sentimentos, emoções,etc.) de um outro tido como pessoa central num processo de mudanças pessoais construtivas.

A rigidez do controle da não- diretividade parecia construir uma barreira a uma relação alteritária mais aberta, pois o terapeuta estava despojado de sua subjetividade, mantendo-se à distância de um eu pessoal. Na psicoterapia reflexiva, entretanto, apesar dos reflexos dos sentimentos terem sido entendidos como uma técnica, há um envolvimento maior- do terapeuta enquanto pessoa. A empatia, a atitude básica do terapeuta neste período, leva-o a compreender a realidade alteritária do cliente assim como este a percebe, mas num processo de conscientização de que se trata da realidade do cliente. Isto constitui, também, uma afirmação de diferenças característica de uma relação alteritária.

Contudo, não havendo um diálogo verdadeiramente interpessoal, pode-se dizer que a relação plenamente alteritária ainda não estava presente na fase reflexiva. Tinha-se, sim, a presença alteritária do cliente, pois o terapeuta o via como diferente de si, mas a não imersão total de subjetividade do terapeuta deixava em segundo plano sua própria alteridade, subjetivamente falando, já que a relação ainda lhe exigia muita objetividade e falta de um envolvimento plenamente pessoal.

É na terceira fase que há um envolvimento pleno do terapeuta com o cliente, através do processo de experienciação. Com a maior necessidade do terapeuta centrado-no-cliente de ser mais genuíno e autêntico. Os trabalhos desenvolvidos não poderiam mais ser os mesmos, pois agora a imersão plena em sua própria subjetividade já era mais do que exigida. Com o surgimento da experienciação organísmica, tem-se um envolvimento alteritário de maior amplitude: o processo é de referência de subjetividade de cada participante da relação e ocorre no espaço inter entre terapeuta e cliente, onde ambos fazem valer suas diferenças subjetivamente dotadas de significados pessoais.

As novas concepções sobre a relação terapêutica começam a ter caráter existencial a partir dos escritos rogerianos de 1952. Em 1962, Rogers a conceitualiza como uma relação profunda entre duas pessoas e a terapia é concebida como um encontro interpessoal. O terapeuta, ao entrar na relação com todo o seu organismo, vive existencialmente a terapia e não se contenta em ser apenas um mero instrumento de compreensão. O cliente pode afirmar-se enquanto pessoa, autodescobrndo-se numa relação que é “cume da intersubjetividade” e onde o processo psicoterápico é considerado como a própria relação experiencial entre terapeuta e cliente (Gondra Rezola, 1975).

De Rogers e suã evolução teórico-prática aos atuais pesquisadores da ACP, houve uma evolução no sentido de uma relação essencialmente alteritária. A relação terapêutica atualmente proposta pela ACP é fundamentalmente constituída de encontros dialógicos.

Daí que a atual relação terapêutica já pode ser caracterizada pela relação dialógica proposta pela filosofia buberiana. Quando Rogers apresentou suas idéias sobre encontro subjetivo em psicoterapia ao próprio Buber, em 1957, este relutou em aceitar alegando que o encontro ao qual Rogers se referia incluía desigualdade entre os papéis do terapeuta e do cliente. Rogers argumentou, entretanto, que a psicoterapia centrada no cliente tem uma natureza que neutraliza tal diferença, pois a relação terapêutica é genuinamente humana e real.

Para Buber, o diálogo explica o fenômeno inter-humano, e o inter- humano, por sua vez, implica a presentificação de um encontro mútuo: presença significa presentificar e ser presentificado. O entre deste encontro, o espaço inter, é a categoria ontológica onde é possível a aceitação e a confirmação ontológica dos dois pólos envolvidosna relação. Diria-se, apesar das contestações de Buber sobre a natureza diferenciada da relação terapêutica, que, nos encontramos dialógicos ocorridos na mesma, o grau mais elevado de intersubjetividade é alcançado num espaço transcendental onde há igualdade de posicionamentos, do terapeuta e do cliente, como pessoas humanas, mas as diferenças pessoais também são afirmadas.

Buber também fala que, para um encontro EU-TU, o homem deve estar apto a se colocar como totalidade que age, pois só assim ele faz valer sua independência na própria relação. Ora, o que temos aqui se não uma característica da relação terapêutica proposta pela ACP? – O terapeuta imerge na relação com todo o seu organismo, com toda a sua subjetividade, reconhecendo-se como totalidade diferente do cliente e possibilitando a este reconhecer-se na sua diferença total também: alteridade, autonomia e processo próprio. E por isso que o cliente se cria em seu processo na relação com o terapeuta.

Pode-se chegar a descrever a diferenciação de alteridades num processo terapêutico em três momentos. Num primeiro momento, teríamos um encontro entre alteridades desconhecidas, no qual, pela própria filosofia do terapeuta, a alteridade do cliente deve ser aceita incondiconalmente. No decorrer do processo, com a imersão das atitudes suficientes do terapeuta, chegaria o momento da transcendentalidade das alteridades, ou seja, um encontro entre dois mundos diferentes num ponto de interseção puramente fenomenológico que permite a eclosão de significados para o crescimento do cliente. Na última “escalada”, já teríamos uma verdadeira diferenciação de alteridades, onde os dois mundos se separam e os parceiros da relação percebem o quando significou o encontró para o crescimento dos dois: o terapeuta, entre outras coisas, na sua capacidade de escutar os dois pólos da relação e o cliente no seu autodescobrimento pessoal.

Há, hoje em dia, a constante preocupação dos profissionais da ACP em desenvolver trabalhos de mudanças construtivas num outro, a partir do constante experenciar e autoconhecimento de si mesmo. Tentando ser autenticamente ele mesmo, o terapeuta se coloca como o outro do outro, sempre disponível, a partir de uma relação interpessoal. a situar este outro na sua diferença enquanto pessoa a fim de que ambas as alteridades sejam presentificadas em prol do crescimento da alteridade do cliente.

Bibliografia:

BUBER,M. Eu e Tu São Paulo: Ed. Morues. 1974

GONDRA REZOLA, J. M. – La Psicoterapia de Cari R. Rogers: Sus Origenes, evolucion y relacion con la Psicologia científica. Desclée de Brower: Henao. 6-Bilbao. 9. 1975

ROGERS, C.R. & ROSENBERG, R. L. A Pessoa Como Centro. São Paulo: EPU 1977

• Pós—Graduada Latu— Sensu em Psicologia Clínica na Abordagem Existencial— Fenomenológíca— Universidade Católica de Pernambuco / Mestrandu em Psicologia Clínica – Pontífícia Universidade Católica de Campinas/ CAPES

publicado no Jornal da Abordagem Centrada na Pessoa – Associação Rogeriana de Psicologia – Rio de Janeiro – dezembro de 1996. p.6 e 7