Descobertas e transformações

Luciene Geiger

Passado um tempo…
Quatro meses. Exatos quatro meses transcorreram desde o começo de meu estágio em Psicologia Clínica no Delphos Instituto de Psicologia.
Quatro meses experienciando uma nova concepção de psicoterapia, a terapia centrada no cliente, de Carl R. Rogers. Quatro meses vivenciando uma nova visão de ser humano e de relações interpessoais; um novo jeito de estar-com ele, por ele e para ele, a abordagem centrada na pessoa.
Quatro meses convivendo com novos colegas dentro de um novo ambiente, conhecendo pessoas que anseiam por transformações e que contam comigo em sua caminhada rumo a tais transformações, rumo a superações, rumo a seu crescimento.
Quatro meses de profundas transformações. Transformações na concepção da profissão, na visão de ser humano, na filosofia de vida, que há muito clamavam por autenticidade e congruência com meu jeito de ser.
Quatro meses também de transformações pessoais, profundas, irreversíveis. Quatro meses perguntando “quem sou eu?”, perguntando como muito bem coloca Fernando Pessoa:

“Que fiz eu da vida? Que fiz eu do que queria fazer da vida? Que fiz eu do que poderia haver feito da vida?”

Mais do que nunca, quatro meses vislumbrando um ponto de interrogação em relação ao meu vir a ser. Quatro meses aprendendo a viver o momento, o aqui-e-agora. Quatro meses construindo algumas respostas a algumas perguntas. Quatro meses em que surgiram novas perguntas, ainda sem respostas.
Quatro meses em constante processo de crescimento; crescimento profissional, mas essencialmente pessoal. Quatro meses de “um caminho sem volta”, parafraseando Tambara e Freire (1999).
Em poucas linhas e em poucas palavras, essa tem sido minha experiência no estágio em Psicologia Clínica no Delphos. Último dos estágios dentro de curso de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas nem por isso com menor valor. Muito pelo contrário. Através de minha experiência posso dizer que, para mim, talvez seja o momento mais rico e valioso de todo o curso pelo que representa, pelo que oportuniza, mas fundamentalmente pelo que faço dele.
Sim, porque são um espaço e um tempo de criação em que coloco todo meu ser em questão. Um espaço e um tempo em que o único instrumento de trabalho que possuo sou eu mesma. E , justamente por isso, devo respeito ao meu ritmo, ao meu processo, a mim mesma, apesar de todas as dificuldades e limitações ainda presentes.
Pela primeira vez realmente comecei a compreender a necessidade da constante transformação pessoal rumo ao crescimento, ao encontro de mim mesma, para essa prática clínica psicoterapêutica. Uma prática que flui enquanto meu ser flui, que permanece rígida enquanto meu ser permanece rígido. Uma prática em que é preciso aventurar-se, como aponta Sören Kierkgaard:

“Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo… e aventurar-se no sentido mais elevado é precisamente tomar consciência de si próprio”.

Nesse quatro meses, aprendi que posso e preciso ser eu mesma naqueles instantes de encontro com o outro. Com aquele outro ser que fala, grita, murmura, gesticula, mantém-se em silêncio; que, em última análise, está em busca de ser ele mesmo, de descobrir-se a si mesmo.
Descobri que a experiência em psicoterapia é, ao mesmo tempo, processo de resgate e construção. É, todo o tempo, movimento. É o grito de nossa essência querendo aflorar e tendo de suportar todas as pressões a sua volta, todas as forças que tentam sufocá-la. Mas é também prova de que é possível mudar, crescer, ser o que se é, verdadeiramente.
Descobri também algo que modificou profundamente minha visão a respeito da psicoterapia e de nossa missão enquanto profissionais dessa área. Descobri que não sou eu quem tem as respostas às perguntas que esse outro (se) coloca, que não sou eu quem conhece o caminho que esse outro deve trilhar em busca de si mesmo, e que não há alguém melhor do que ele para (re) conhecer suas percepções e seus comportamentos.
Descobri, sim, que preciso estar-com ele, facilitando sua caminhada, sua busca de respostas, catalizando esse processo, mas ainda assim respeitando seu ritmo. Também descobri que o aparentemente simples estar-com ele é muito mais do que isso. É tão somente estar-com ele, mas é total e profundamente estar-com ele, é muito mais do que estar-com ele.
Estar-com o outro. Tarefa muitas vezes difícil, exigindo atitudes que, segundo alguns dizem, temos de desenvolver, mas que, creio eu, desconstruímos ao longo da vida. Foi preciso, portanto, que eu voltasse a construir tais atitudes, que eu voltasse a buscar meu verdadeiro eu, que me colocasse aberta à surpreendente experiência de ser eu mesma. Sim, surpreendente. Por vezes ainda me assusto quando me dou conta de partes de mim que pensava ter perdido, ou que sequer (re) conhecia.
Descobri, diferentemente do que havia conhecido até então, que esse outro é sempre digno de minha confiança em sua tendência para a saúde, para a maturidade e para a auto-realização de suas potencialidades, em suas forças internas e construtivas de crescimento. Em suma, digno de confiança em sua tendência atualizante. Talvez mais importante que isso, redescobri que posso confiar nele, sem estar sendo ingênua ou irresponsável.
Foi importante ter descoberto que esse outro não se restringe ao cliente que se coloca diante de mim durante cinqüenta minutos de uma sessão psicoterapêutica. Descobri que esse outro está todo o tempo ao meu lado, no banco de um ônibus, na mesa de um restaurante, na cozinha do Instituto, numa sala de aula, dentro de minha casa, ou a milhares de quilômetros enquanto conversa comigo através de um computador.
Descobri, em última análise, como colocam Tambara e Freire (1999), que

“… ser terapeuta centrado no cliente é ser, na essência, um homem. Este é o mistério do desvelar-se como ser humano e ajudar as pessoas, ao invés de buscar o controle sobre elas. ” (p. 182).

Nesses quatro meses apenas iniciei uma nova etapa do meu caminho rumo ao crescimento pessoal e profissional. Apenas quatro meses. Infinitos quatro meses. Quatro meses de descobertas e transformações.

Referência

Tambara, N. & Freire, E. (1999). Terapia centrada no cliente: teoria e prática: um caminho sem volta… Porto Alegre: Ed. Delphos

As demais citações são pertencentes ao velho e empoeirado caderno de anotações, que sempre tem algo a dizer…

Este texto foi editado a partir do trabalho apresentado para a disciplina “Psicologia Clínica I – Estágio”, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Trabalho apresentado no IV Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa

28/10 a 03/11/2001 – Pirenópolis–GO