Descobertos dinossauros nos grupos de encontro da ACP

Paula Lira

Pode parecer brincadeira, mas essa é uma informação fidedigna e muito séria

Os dinossauros têm andado muito em moda ultimamente, e toda criança tem pelo menos uma idéia de quem foram esses seres que reinaram na Terra antes do homem. Talvez por isso continuem existindo no imaginário de cada um, como se houvesse uma espécie de acordo coletivo para não deixar morrer essa figura que faz parte de nós.

Relembrando o meu fascínio por dinossauros quando pequena, vejo-os enormes e fortes, invencíveis. Ainda menina, aprendi que esses seres foram aos poucos desaparecendo. Meus pais diziam que não haviam mais árvores grandes o bastante para que eles conseguissem abaixar e saciar a fome. Hoje sei que a história não foi tão simples assim, mas sei também que os adultos me contavam algo baseado em realidade. Os dinossauros foram banidos do planeta porque as condições ambientais foram se tornando a eles adversas. E o que será do homem daqui a alguns milhões de anos? Bem, essa é outra história.

Depois dessas discussões familiares, qual não foi minha surpresa, alguns anos depois, em ver dinossauros ainda sobrevivem, e que foram descobertos nos Encontros da Abordagem Centrada na Pessoa (l), fazendo pensar que pela lógica, existem ainda muitos deles espalhados por ai.

Não falo do monstro do Lago Ness. Deste ainda se pode questionar a existência. Tal qual a história esclarecedora que aprendi na infância, os “dinos” desses Encontros são reais. Eles encontram semelhanças com os dragões chineses esses seres fantásticos e presentes, com a diferença que os dinossauros terem sua existência respaldada por pesquisas científicas.

Os que viveram esses últimos encontros da Abordagem Centrada na Pessoa podem compreender com mais exatidão o que estou dizendo. Todas viram, embora inicialmente só alguns comentaram, imponentes, dóceis, pré-históricos, muito queridos e temidos Dinossauros Centradas, ou Abordados, como Eles existem aos montes, nos Encontros.

Foram apelidados de dinossauros os da Abordagem Centrada “que têm mais experiência” e conhecimento teórico e que muitas vezes, não obrigatoriamente nem a todo momento, são pessoas com sabedoria, dão bons empurrões nos filhotes da espécie.

Diante da descoberta podemos iniciar o estudo da fama, características e boatos, para tentar entender dentre nós o que é um dinossauro.

Bem antes do assustador Jurassic Park de Spielberg, já existia um desenho animado onde encontramos Gudsuk e Godsila que, diga-se de passagem são dinossauros com jeito de super-heróis e que além de onipotentes e as vezes onipresentes, são bem legais.

Por outro lado, existe uma linhagem de dinossauros que já perdeu um pouco essa característica, digamos mitológica. Quem não conhece a família dinossauro? Se não o próprio seriado pelo menos alguém parecido com algum deles. Neste caso qualquer semelhança não é mera coincidência: não é confortável admitir, mas eles são a nossa cara.

Acredito o temo dinossauro sofre influências de todos esses dinos mencionados. A expressão foi criado por um grupo de corredor(2) que estava sentido incomodado pelas sérias investidas de realismo, fantástico ou não, desses seres pré-históricos, já no Encontro Latino da Abordagem Centrada, em Maragogi (l994). Essa história foi uma espécie de fantasma no Encontro Nordestino – João Pessoa (l995), e no Fórum Brasileiro – Rio de Janeiro (l996) tomou forma – os dinossauros se materializaram.

Utilizar o termo inicialmente parecia congregar raiva, chacota e admiração. Sim. Primeiro porque até hoje dinossauro é rapidamente associado a fóssil, velho ultrapassado – nesta Cultura utilitarista, algo que perdeu o valor. O grupo do corredor utiliza freqüentemente o diminutivo dino para identificar essas pessoas. Essa palavra, coincidentemente ou não, também identifica o Dino da família dinossauro. O bestalhão, “chefe de família” que se gaba de ter o domínio de seu lar mas que na realidade é sua esposa que exerce esse poder por pura força de necessidade (caso contrário a família correria o risco de entrar em estado calamitoso!). Dino praticamente no tem moral com seus filhos, ele é o protótipo da figura que diz sempre a última palavra: “sim querida”. Por outro lado, é impossível negar a força e grandiosidade dos nossos dinossauros, e por isso que esse termo traduz com tanta perfeição (e ambivalência intrínseca) o que se quer dizer

No Fórum Brasileiro então, os que se sabiam dinossauros parecem ter sentido todas essas “qualificações” que o termo proporciona.

Essa brincadeira levantou poeira. Ninguém queria claramente agredir ninguém, mas alguns se sentiram insultados, outros lisonjeados, outros talvez excluídos. A questão do poder emergiu. Essa história do poder é sempre muito confusa, e me parece que na Abordagem Centrada na Pessoa ganha um destaque velado. Destaque porque em nossos encontros pode-se viver na pele do poder do outro, sem qualquer patamar feito de cimento, mesa ou viro dos congresso tradicionais. As estrelas estão aí, nos corredores, nas salas para alimentação, dormindo em quartos como nós, e vivendo nas mesmas condições, enfim é um momento de igualdade que acentua nessa sensível diferença.

Por esse e outros motivos os medalhões chamam a atenção. Por essa luz, digamos, fixa, que os destaca. Mas mesmo aparentemente tão claro, esse destaque na maioria das vezes é escondida meio que cada um fingindo não perceber as diferenças entre alguém com escritos publicados, uma história congregando experiências e reflexão profissional e que se destaca com falas importantes, entre outras coisa, e outros que não são assim. Essa diferença existe e não faz sentido negar e sim afirma, para ver oq eu se fazer dessa realidades. Mas ao contrário, tudo isso gera um desencontro enorme, alguns entraves, dramas, mágoas.

Parece que é unânime, todos querem poder. Poder de compra, poder andar na rua sem se preocupar com assaltos, poder ter lazer, que ninguém é de ferro, e dentre outros, poder falar em poder sem que pareça se está dizendo um palavrão. Se bem que esses poderes mencionados não são os podres poderes. Sei muito bem que existem de fato poderes podres.

Falo de um poder que está nesses todos e dentro de qualquer um de nós, Perls flava em awereness, Rogers em conscientização organísmica. É um poder de sabe rque podemos.

Acho que nossos dinossauros sabem perfeitamente que podem, e é certo que conquistaram muito mais do que grande parte dos jovens almeja. Só que é difícil dizer que puderam e que sabem disso, porque ficou estabelecido que é feio ter poder.

Vendo de forma mais abrangente, isso não se restringe a seres individuais (nem muito menos a Encontros de psicólogos). As Abordagens Humanistas, da necessidade de afirmar o poder do cliente, findam muitas vezes negando o que está na cara, o poder do terapeuta. É fato que estamos envolvidos por uma visão de homem que aponta para um sentido diferente e até revolucionário. Combatemos o poder autoritário facilitando a ascensão de quem se sente completamente impotente. Não tenho dúvida de que a terapia é um exercício de potencialização do ser social que é o cliente. Por dentro, na relação, trabalhamos falhas do poder do Brasileiro.

Mas por dentro não quer dizer escondido, do mesmo jeito que é imprescindível para que esse processo aconteça que não se ocultem as relações que ocorrem na relação terapêutica. O poder do terapeuta de facilitar esse encontro do cliente com ele mesmo é uma delas. Quem tem dúvidas desse poder é porque não se acha competente para atuar enquanto clínico. Claro que não vamos fazer mágica, eu mesmo não aprendi a fazer! Mas se boicotamos o que nos esforçamos para obter – ser um terapeuta poderoso, instala-se uma confusão, um verdadeiro buraco negro de onde não se pode mais sair. E o cliente que chega confuso, ou encontra-se em estado saudável o bastante para abandonar o processo, ou entra nesse buraco negro, e fica até sabe Deus quando.

Não quero dizer com isso que somos apenas nós existencialistas que sentimos essa dificuldade com o poder. Inclusive não tenho dúvida de ser essa mesma confusão, que eventualmente se instala, já resultante de um parar-para-pensar que viabiliza evoluções muito positivas na psicologia, e no fato de tratar o poder intrínseco do homem.

Neste I Fórum Brasileiro trabalhou-se bastante esses poderes e é óbvio afirmar que os dinos só têm esse magnífico poder porque têm quem os reconheça como poderosos. Parece que ficou claro para muita gente que os dinossauros só poderiam ameaçar os deles distanciados. Eles apenas seriam os consagrados monstros hollywoodianos caso nós alimentássemos em nós e consequentemente neles, a fantasia de uma força jurássica destruidora.

Eu vejo que a força jovem e às vezes até meio adolescente, é algo imprescindível para que os Encontros se movam e se renovem(3). A energia do jovem parece catalisar processos nos mais experientes, transformando. Para a gente que está começando, estar com, sentir-se ouvido, porque nos fazemos ouvir e escutar os conhecimentos dessas pessoas, nos torna sábios, inspirados e muitas vezes sagazes, verdadeiros dinossauros.

Parece também que a partir desse Fórum ficou claro: ser um dinossauro é como representar um papel(4). Perls explicita que assumimos vários papéis (eus), que compõem nossa personalidade. Diferentes situações exigem papeis diversos, ou seja, a vivência de um papel é algo que ocorre em momentos certos, espontâneo, é algo fluido. Somos vários e diversos dentro de um. E só olhar para dentro e perceber os conflitos entre esses infinitos seres dentro de nós.

Fritz alerta que apenas é possível vivenciar e conciliar tranquilamente os vários eus se o indivíduo estiver em awere(5). A cristalização dos papeis, para ele, é um característica neurótica, pois por mais adequado que seja o papel em determinada situação, não quer dizer que poderá ser cegamente generalizado. Não pode ser rígido para não virar fóssil.

No Fórum esse perigo personificou-se e por isso pode ser combativo. As ambivalências todas, inerentes a essa questão, também estavam lá e acredito que podem ser notada aqui neste texto. Em alguns momentos posso parecer glorificar os “mestres” e em outros rebaixá-los. Não sei o que cada leitor poderá achar mas o tema suscita uma atitude múltipla (não apenas dúbia), e seria impossível estar distancia dessa diversidade. Acho que os dinossauros são imprescindíveis para a perpetuação de nossa espécie da mesma forma que às vezes são muito chatos! Conheci uns ótimos e estou amando mais ainda outros de quem já era próxima. Estou estudando e ficando bem com a orelha em pé, para também ser enorme um dia.

Foi ainda repletos de contradições, entre coisas amadas e sofridas, que voltamos para casa tranqüilos. Sabemos que nem nossos dinos vão entrar em extinção, nem nós não permitiremos ser eternos babyssauros, Charlenes e Bobs. O tempo não para, ao mesmo tempo em que não existe. Estamos e estivemos sempre de alguma forma todos juntos.

E fui assim que o termo dinossauro deixou de ser secreto e ganhou o espaço dos grupões para podermos unidos compreender que dinossauro é uma da partes do todo que cada. Pudemos ver o óbvio – a porção dinossauro é como uma figura que emerge e toma a gente, facilitando o próprio crescimento e o processo do grupo.

l – Esses encontros são caracterizados por ciência e vivência de grupo. (intensiva e comunitária, de normalmente uma semana),apresentando uma estrutura diferente dos padrões de reuniões de outros profissionais e de até mesmo de psicólogos de outras Abordagens. Discute-se ciência em um clima leve, dentro de um grande grupo que se forma e se auto facilita a cada encontro.

2 – Denominação dada aos pequenos grupos se formam no corredores, longe dos grupões oficiais, característicos dos encontros da ACP. O termo dinossauro foi colocado por Adriando Holanda (Brasília), num misto de brincadeira e sabedoria.

3 – Antes mesmo de eu ouvir falar de dinossauros, Afonso H. Lisboa da Fonseca (Maceió) já havia exaltado a força do jovem, referindo-se inclusive ao último Encontro Latino da ACP.

4 – Carol Dubeux (Recife) claramente facilitou essa compreensão ainda no Fórum, na discussão sobre pesquisa fenomenológica existencial.

5 – Estado humano onde é fluida a integração entre reflexão e ação. De onde deriva awerwness.

A autora é psicóloga clínica, supervisora de estágio e pesquisadora da Fundação de Cultura Cidade do Recife.

Publicado no Jornal da Abordagem Centrada na Pessoa – Associação Rogeriana de Psicologia – Rio de Janeiro – setembro 1998 – p.4 e 5