DIFICULDADES ENCONTRADAS NAS APLICAÇÕES DAS ATITUDES NA POSTURA DA NÃO-DIRETIVIDADE

Roneci Jacques

Orientadora – Anita Bacellar

Este artigo apresenta como tema, as dificuldades encontradas nas aplicações das atitudes na postura da não-diretividade. Foram experiências vivenciadas pelo terapeuta/estagiário, diante das necessidades e dificuldades de lidar com seus problemas, que foram manifestados nos relatos feitos pelos clientes que vieram em busca de ajuda.

Na historia antiga, o termo humanismo, designava um movimento real que consistia na “liberdade de pensamento”.

Segundo Rogers, a terapia não-diretiva deu primordial importância na gradual aquisição pelo cliente do insight criando um ambiente permissivo, não autoritário, no qual o cliente era livre para prosseguir no seu próprio ritmo e em suas próprias direções.

Na Abordagem Centrada na Pessoa, o terapeuta assume um papel não-diretivo, não interpreta nem intervem, a não ser que seja para encorajar ou repetir as colocações do próprio cliente, para fins de aclaração e ênfase. Apresenta como objetivo a ampliação da compreensão de si mesmo, através da relação de ajuda.

As atitudes do terapeuta na Abordagem Centrada na Pessoa pressupõem habilidades prévias ou capacidades interpessoais. O terapeuta precisa ter, antes que ele possa estabelecer um relacionamento e responder ao cliente de modo terapêutico.

É muito difícil para o terapeuta no início do estabelecimento da relação terapêutica. Desenvolver a postura da não-diretividade, devido as dificuldades encontradas para operacionalizar tal postura nas suas atitudes, ou seja, ser empático, congruente e ter aceitação incondicional.

Estas dificuldades aparecem nas suas atitudes por não estarem ainda bem definidas e pela própria insegurança que o iniciante apresenta na sua condição de estagiário da Abordagem Centrada na Pessoa. Isto fica evidente diante dos conteúdos e sentimentos que o cliente está trazendo para serem trabalhados na psicoterapia.

Pode-se dizer inclusive, que estas dificuldades podem estar associadas também, ao fato de que, não é uma postura que normalmente a sociedade desenvolve no ser humano.

Percebe-se que o terapeuta iniciante ao se encontrar de frente com as suas primeiras dificuldades na clínica, toma algumas atitudes inadequadas. Tende de imediato, colocar em prática, o aprendizado teórico adquirido, pois o mesmo pressupõe que está habilitado. No entanto, ele ainda não tem a experiência necessária para dar conta de resolver ou de responder para o cliente. Ele acaba intervindo de forma incorreta, ou seja, atua de forma diretiva.

O terapeuta acaba por fazer exatamente aquilo que normalmente ele faria, numa situação que lhe é comum, fazer no seu dia-a-dia, ou seja, dar conselhos, dar algum tipo de direção, ou até mesmo emitir algum tipo de julgamento de valor.

Num dos atendimentos realizados, um dos clientes trouxe como queixa, a morte de sua filha de sete meses, sendo que este não se conformava e não aceitava a morte. Relatou inclusive que a sua vida não fazia mais nenhum sentido e que ultimamente só pensava em morrer também. Ele descrevia que a doença da filha o fazia sofrer muito e que ele sofria com isso, ou seja, julgava que os procedimentos utilizados durante o tratamento eram incorretos. Percebia-se neste atendimento, que o terapeuta se envolveu emocionalmente, onde demonstrou que estava sofrendo junto com o seu cliente. O terapeuta passou então, a lhe dar conselhos, pedindo que ficasse calmo e sugeriu para que tivesse paciência para poder suportar tais sofrimentos.

O que leva a sugerir que o terapeuta iniciante ainda não estava preparado para atuar de forma não-diretiva é que a sua experiência do dia-a-dia ainda é muito presente nas suas relações terapêuticas. Isto o que o impossibilita de dar conta da queixa trazida pelo seu cliente. Sendo assim, como esta postura não é desenvolvida para a rotina diária do ser humano, em contrapartida, também não é cobrada. Então, para o terapeuta iniciante colocar em prática tal atitude, torna-se difícil e exige um pouco mais da capacidade do mesmo, que acaba por torná-lo inseguro, quando se encontra frente-a-frente com as expectativas esperadas pelo cliente.

A finalidade terapêutica é libertar o cliente de ameaças e conflitos, permitindo que ocorra o crescimento. A ênfase incide sobre as diferenças entre o eu percebido do cliente e o seu comportamento. Quando o indivíduo começa a perceber-se com um comportamento que é coerente com os seus conceitos de self, também começa a sentir-se mais seguro e mais adequado.

A não-direção na concepção de Rogers, na sua intenção e na sua especificidade está inspirada numa atitude incondicionalmente positiva onde, “o indivíduo é estimado como pessoa e independentemente dos critérios que se poderia aplicar aos diversos elementos de seu comportamento”, (Rogers, 1977, p. 175).

Uma das dificuldades nas atitudes que se percebe no terapeuta é a função de não fazer julgamento de valores, ou seja, “perceber é julgar valor”, e esta atividade exige o tempo todo o uso desta função. É comum no ser humano a atitude de julgamento de valores, porque a sociedade estimula tal atitude. No dia-a-dia está-se julgando e sendo julgados, isso faz parte da dinâmica das relações sociais desenvolvidas através das situações que se manifestam e exigem que sejam assumidas posturas que justifiquem tais atitudes.

Como pode-se perceber através do relato de uma das clientes que trouxe em uma das sessões que “eu não quero sair do apartamento, realmente eu não quero sair. Eu sei que sofro com isso, mas não vou sair, não vou dar esse gosto pra ninguém, nem pra minha família, muito menos pro pessoal do condomínio, porque é isso que eles querem, é isso que eles esperam que eu faça, exatamente como eles querem que eu faça. Eles me incomodam pra fazer eu sair, fazem de propósito, mas não saio, nem adianta. Eu sei que estou errada, eu sou assim mesmo e pronto”.

Diante deste relato, é possível para um terapeuta, não ter uma atitude voltada para o julgamento de valor? É natural ou não, para o terapeuta pensar ou se perguntar, o que ela está esperando que aconteça, se ela própria assume que está sofrendo, sabe que está errada, então porque age desta forma, sabendo que está tendo este tipo de comportamento, que não vai levar a nada?

Quando o terapeuta está diante de um relato do cliente, está percebendo algo e esta percepção implica em julgamento, não a qualidade, mas a existência de um acontecimento. Então fica difícil de se abster e ficar isento de julgamento de valores, embora ocorram solicitações por parte dos clientes neste sentido, para que se emita opiniões e aprovações. Alguns clientes se manifestam contrariados quando não obtém o retorno das respostas que eles acham que deve ser a função do terapeuta.

Uma das clientes sempre que relata seus fatos e em seguida se dirige para as perguntas, “tu não vai dizer nada, só eu falo, já é assim desde o início lá com as outras ‘psicólogas’. É assim: eu falo, falo, falo e vocês não respondem como eu devo fazer. Qual a resposta para os meus problemas? Como que eu saio dessa? O quê eu tenho que fazer pra que eles parem de fazer tudo errado, achando que são donos de tudo? Agem como se fossem donos do condomínio, só eles tem razão, como que eu fico?”.

O que acontece neste momento, seguindo o que prevê a clarificação que é deter-se na descrição do cliente,

“[…] a forma elementar do reflexo dirige-se ao conteúdo estritamente manifesto da comunicação. É geralmente breve e consiste ou em resumir a comunicação do cliente, ou em assinalar um elemento relevante dela, ou simplesmente em reproduzir as últimas palavras de modo a facilitar a continuação da narrativa. O reflexo simples se emprega principalmente quando a atividade do cliente é descritiva, isto é, quando carece de substancia emocional ou quando o sentimento está a tal ponto inerente ao conteúdo material que o terapeuta demonstre uma atitude investigadora, analítica, contrária às suas intenções, se procurasse deduzir daí alguma significação implícita ”. (ROGERS, 1977, p. 64).

Assim sendo, deve-se pegar o conteúdo e devolver para o cliente e neste momento, diante da atitude do terapeuta, acaba ocorrendo uma reflexão de sentimentos que é, “[…] o reflexo propriamente dito tem por objetivo descobrir a intenção, a atitude ou sentimento inerentes às suas palavras, propondo-os ao cliente, sem os impor” (ROGERS, 1977, p. 67), porque é através dos conteúdos que o cliente traz e é em cima dos sentimentos que o cliente dá segurança para o terapeuta devolver a pergunta.

Então, no caso da cliente em questão, foram devolvidas as suas perguntas, “o que você acha que deve ser feito para que “eles” venham a fazer tudo certo conforme sua maneira de ver as coisas? Como você acha, então, que deve proceder para que “eles” entendam seus problemas? Com relação as atitudes, elas são erradas nas soluções encontradas para solucionar os problemas administrativos e/ou de cobranças do condomínio? O quê você sugere? Como viabilizar essas questões?”.

Neste processo, primeiro ocorre a atitude empática que é “a capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro, de ver o mundo como ele o vê”, (ROGERS, 1977, p. 104), e a partir dela, se constrói a intervenção, ou seja, o terapeuta pega o conteúdo e se põe no lugar do cliente, isto é, existe uma reflexão de sentimentos.

Na terapia, se um cliente está consciente de comunicar um sentimento que está realmente experimentando, diz-se que o seu comportamento se tornou congruente, pois “a sinceridade consiste em falar ou em agir de acordo com a representação consciente, isto é, com a experiência tal como ela aparece na consciência”. (Rogers, 1977, p.106). Quando se está no papel de ajudar o outro, é necessário exercer a empatia, a aceitação e buscar a congruência.

A atitude do terapeuta na postura não-diretiva na Abordagem Centrada na Pessoa é caracterizada pela ausência das diversas formas através de conotação de direções que são as perguntas, interpretações, conselhos, sugestões e possivelmente outras que possam simbolizar direções.

No entanto, a partir desta postura do terapeuta da Abordagem Centrada na Pessoa pode significar que esteja sendo inativo na relação com o seu cliente. Quanto a isso Rogers diz:

“É verdade que o papel do terapeuta não-diretivo é descrito com freqüência como “inativo”. Contudo, convém entender este termo num sentido de certa forma oriental, isto é, significando não a ausência de atividade, mas ausência de atividade intervencionista. Na verdade, o terapeuta rogeriano “inativo” esta intensamente empenhado no processo da terapia, mas evita cuidadosamente perturbar o seu desenvolvimento inerente, esforçando-se, ao mesmo tempo, por facilitá-lo. Por isto, esta terapia pode caracterizar-se como sendo uma catálise – por oposição á noção de análise”. (Rogers, 1977, p.34).

Segundo Rogers, (1977) diz ser verdade, ou seja, concorda com a colocação de alguns críticos da Abordagem Centrada na Pessoa, quanto ao fato de, num certo sentido, a não-direção não existe. Rogers, ainda diz também, que é preciso fazer distinção entre “não dar diretivas” e “não ter direção”, mais precisamente, entre diretivas e direção, porque o termo “diretivas” pode parecer que se está dando conselhos, instruções, sugestões entre outras. Já o termo “direção” pode sugerir a idéia de orientação ou de significação.

Considerando que, na primeira acepção a ausência de diretivas, Rogers afirma que não há dúvidas de que a não-direção existe. Porém, quanto a direção que significa a noção de estrutura ou de orientação, Rogers enfatiza categoricamente que a ausência de diretivas corresponde ao vazio. Sendo assim, pode se dizer que a não-direção não existe.

“No campo humano a neutralidade é impossível, e por duas razões. Primeiro, porque toda a situação comporta necessariamente uma estrutura, isto é, um conjunto de fatores constantes que fazem com que uma situação seja o que é e não outra coisa. Do ponto de vista da estrutura, é evidente que toda psicoterapia é, inevitavelmente, e alias, deliberadamente, orientada em certa direção. Precisemos por um exemplo. Conversando com seu cliente, o terapeuta não pode responder a tudo que este lhe comunica. Diante de uma multidão de idéias, sentimentos e lembranças que lhe são apresentados, ele deve fazer uma escolha. Ora toda seleção implica em direção. No entanto, esta seleção não representa simplesmente um mal necessário. Antes pelo contrario. Qualquer que seja a abordagem terapêutica, esta escolha se faz deliberadamente, em conformidade com os princípios que governam esta abordagem e que lhe dão sua identidade. Por outro lado, para que haja direção não é nem mesmo necessário que haja interação. Todos sabemos que a simples presença de uma pessoa é capaz de exercer um efeito sobre outros indivíduos, independente de toda ação ou intenção por parte desta pessoa” (Rogers, 1977, p. 37).

Desta forma, segundo Rogers (1977), em toda a situação humana envolve direção, e quanto mais importante é esta situação para o eu do indivíduo, mais elevado será o seu potencial de direção. Toda a situação psicoterapêutica está, portanto, enfatiza Rogers, cheia de direção e de significação orientada, por mais não-diretiva que seja a atitude do terapeuta.

Uma das clientes em atendimento quis saber sobre um comportamento que ela estava tendo. “Eu quero saber o quê que tu achas? Se estou certa ou errada. Qual é a tua crítica sobre mim? O que eu estou fazendo? Posso continuar fazendo ou não? O que devo, o que não devo. O que posso ou que não posso”. Então, ela queria a opinião, ou seja a crítica do terapeuta. É isso que normalmente os clientes esperam do terapeuta, é dar ao cliente a resposta ou a direção daquilo que ele está trazendo para a psicoterapia.

Para a Abordagem Centrada na Pessoa, através da não-diretividade, direciona-se o cliente a conseguir localizar e resolver o seu problema. O terapeuta não identifica o problema, apenas o auxilia, ou seja, é o cliente que o faz.

Outra cliente que está em atendimento relata que em todas as sessões nunca está bem. Diz que continua com problemas e que as coisas não mudam. Nada melhora! “Eles sempre estão fazendo alguma coisa para me incomodar”, ou seja, ela relata o motivo pelo qual eles a incomodam. Seus sentimentos parecem ser negativos, tendo em vista que, nunca percebe que alguém possa estar em algum momento com atitudes que possam expressar de fato os sentimentos adequados diante de fenômenos normais do seu dia-a-dia.

“O psicólogo esforça-se, através do que diz e do que faz, para criar uma atmosfera em que o cliente possa chegar a reconhecer que tem esses sentimentos negativos e que é capaz de aceitá-los como uma parte de si mesmo, em vez de projetá-los nos outros ou de ocultá-los por detrás de mecanismos de defesa.” (Rogers, 1997 p.38)

Através da triagem, foram passadas mais duas clientes que já estavam em atendimento. Uma delas, trazia como queixa principal a dificuldades de relacionamentos e de fazer amizades. A outra, trouxe a depressão como sendo sua principal queixa e relatou ainda que se encontrava num processo de separação conjugal. Descrevia que este era o seu maior desejo. Este, estava difícil de ser realizado porque o marido fazia ameaças de morte e chorava, fazendo com ela desistisse de levar à frente o processo de separação.

Durante as primeiras sessões, estas clientes falavam muito, era preciso estar preparado para a escuta, pois de acordo com Roger, ouvir atentamente o cliente é uma maneira importante de ajudar.

Podia-se perceber claramente que a escuta estava sendo exercitada e o efeito desta técnica ao final das sessões, era visível. Elas mesmas colocavam: “puxa eu falei tanto, não deixei a senhora falar quase nada”. “Me desculpa, eu falei muito que o horário acabou rápido. É que eu acho que estava precisando muito”. Como pode o tempo passar tão rápido?”.

Em outro encontro, foram trazidos conteúdos que pareciam ser significativos e que provavelmente mexeram muito com elas. Uma delas, em algumas sessões relatava que sempre “abria mão de tudo”. Porém, nesta sessão, relatou pela primeira vez, sobre sua vida na infância e adolescência. “Ah!, na minha vida foi sempre assim. Desde que nasci, quando eu nasci, não fiquei com a minha mãe, porque minha tia também ia ganhar neném e minha avó que ia cuidar. Como ela não podia cuidar das duas ao mesmo tempo, minha mãe foi para casa dela e daí ela cuidava das duas. Só que o neném da minha tia nasceu morto. Daí, elas ficaram comigo por pena da minha tia…”, “e enquanto fui crescendo fui abrindo mão de tudo”. A outra cliente trouxe que “quando cheguei em casa meus filhos estavam chorando. Então perguntei porque. Eles falaram que o pai tinha ido embora de casa. Eu me assustei, levei um choque! Fui até o quarto, abri o guarda-roupa e vi tudo vazio. Levei alguns minutos, eu acho, e comecei a chorar também. Foi muito esquisito! Era tudo o que eu queria, mas parecia que alguma coisa estranha, muito ruim tinha acontecido…”.

Então, podem ter sido estes os motivos pelas quais elas não compareceram nas sessões seguintes.

Sejam quais forem os motivos pelas quais as clientes não comparecerem nas sessões não cabem julgamentos nem interpretações ou até mesmo procurar algum tipo de desculpa. Segundo Rogers “a expressão mais alta de empatia consiste em aceitar e não julgar”. O que realmente se percebe, é que elas têm suas razões e seus motivos devem ser verdadeiramente importantes, aceitáveis e passiveis de compreensão. A empatia é “a capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro, de ver o mundo como ele o vê”, (ROGERS, 1977, p.104). Quando compreendo o momento que ele está vivendo, percebo o que ele está sentindo. Aceito e não julgo suas queixas, ou seja, entendo o comportamento sob o ponto de vista da pessoa, sem envolvimento, abstraindo os juízos de valor.

Pressupõe-se inclusive que o conhecimento gerado nas relações terapêuticas possa também ter produzido algumas descobertas. É possível que estas clientes tenham desenvolvido capacidades de criar conhecimentos válidos sobre si mesmas, a partir do momento em que elas estão se relacionando com o mundo, porque:

“Há uma tendência para que a aceitação do self, operacionalmente definida, aumenta durante a terapia. A aceitação do self, de acordo com a definição usada, significa que o cliente tende a: – perceber a si mesmo como uma pessoa de valor, digna de respeito e não de condenações; perceber seus padrões como baseados em sua própria experiência, e não nas atitudes ou nos desejos de outros; – perceber seus próprios sentimentos, motivos, experiências sociais e pessoais sem distorção dos dados sensoriais básicos; – sentir-se confortável ao agir em termos dessas percepções.” (ROGERS, 1992, p.159:160).

Com uma das clientes pode-se observar seu crescimento no processo psicoterápico. Ou seja, a aceitação do eu de acordo com a sua definição, pois a cliente percebeu a si mesma como uma pessoa de valor, digna de respeito e não de condenações como era de fato a sua relação no casamento. Quando se deu conta que estava feliz, fazendo tudo aquilo que ficava imaginando que poderia um dia fazer. Conforme seus relatos: “recebi o meu salário, e mesmo faltando para pagar tudo, foi muito bom. Foi uma sensação diferente quando me vi arrumando os montinhos de dinheiro em cima da cama para pagar as contas, fazendo a divisão. Foi muito legal! Me deu prazer”. […] “não sei como dizer, mas até estendendo as roupas no varal, recolhendo e dobrando, depois para guardar. Isso me deu muito prazer, nunca tinha sentido isto antes, porque tudo que eu fazia ele tinha que dizer alguma coisa. Botava defeito, se metia. Tudo que eu fazia estava errado, ele era incapaz de fazer um elogio ou dizer que tava bom ou certo”.

O processo psicoterápico quando bem estabelecido seguindo a não-diretividade pode proporcionar ao cliente uma tendência para a aceitação do seu eu e chegar a descobertas surpreendentes a seu favor. Demonstrando, com isso, o seu crescimento como pessoa e não ficar achando que as atitudes dos outros são as corretas, ou as melhores e continuar levando uma vida sem sentido.

Segundo Rogers, o ser humano tem a capacidade latente ou manifesta de compreender-se a si mesmo e de resolver seus problemas de modo suficiente para alcançar a satisfação e eficácia necessárias ao adequado funcionamento.

Ainda, de acordo com Rogers, as pessoas trazem dentro de si, a capacidade e a tendência para caminhar rumo à maturidade. Desde que em um clima psicológico adequado, essa tendência é liberada, tornando-se real ao invés de potencial.

“Seja chamando a isto uma tendência ao crescimento, uma propensão rumo à auto-realização ou uma tendência direcionada para frente, esta constitui a mola principal da vida, e é última análise, a tendência de que toda psicoterapia depende. É a necessidade que se faz evidente em toda a vida orgânica e humana – de expandir, estender, tornar-se autônoma, desenvolver, amadurecer – a tendência de expressar e ativar todas as capacidades do organismo, ao ponto em que tal ativação aprimore o organismo ou a pessoa. […], sustenho que ela existe em cada individuo, e aguarda somente pelas condições apropriadas para ser liberada e expressa.” (Rogers, 1999, p.40).

O processo psicoterápico bem direcionado é capaz de promover as condições apropriadas para liberar e expressar toda a capacidade de crescimento existente no organismo humano.

Pode-se dizer também, que esta tendência ao crescimento se dá, a partir da noção do self. Da mesma forma que a tendência à atualização, a noção do self tem um papel fundamental, que podem ser manifestadas a partir da sua tendência à atualização, que é a motivação que direciona para algum lugar.

O estágio em Psicologia Clinica desenvolvido no Serviço de Psicologia, foi vivenciado de forma a contemplar o que Rogers coloca através da postura da Abordagem Centrada na Pessoa, embora com algumas limitações, que são características próprias no papel do iniciante desta abordagem.

Considerando ainda, que este estágio é apenas uma experiência que visa proporcionar tanto a vivência quanto a construção de uma forma de atuação profissional. Sugere, portanto, aperfeiçoamentos nos pressupostos da metodologia da Abordagem Centrada na Pessoa.

Percebe-se que as intervenções foram as maiores dificuldades encontradas nas atitudes propostas nesta metodologia. Sugere uma maior compreensão, experiência e uma vivência prática que ainda não foram adquiridas. Requer também, habilidades prévias ou capacidades interpessoais. Portanto, para a realização deste estágio os objetivos foram atingidos satisfatoriamente, conforme estava previsto no planejamento para a realização deste estágio .

Referências Bibliográficas

ROGERS, Carl R. Psicoterapia e Consultas Psicológica. São Paulo, Martins Fontes, 1997.

ROGERS, Carl R. Terapia Centrada no Cliente. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1992.

ROGERS, Carl R. Psicoterapia e Relações Humanas. Vol I e II. B. Horizonte, Interlivros, 1977.

ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. São Paulo, Martins Fontes, 1999.

Apresentado no VI Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa – Canela RS – 9 a 15/10/2005