ESCALADA: UMA VIA DE AUTOCONHECIMENTO

Guilherme Scherer Zavaschi

Artigo TCC

Prof. Celito Mengarda

RESUMO

Trata-se de um estudo sobre a influência da prática da escalada esportiva no psiquismo. Através de metodologia qualitativa, foram entrevistados seis escaladores com, pelo menos, cinco anos de prática. Foram encontradas características de experiências culminantes, como descritas na literatura, e transformações no estilo de vida e personalidade dos sujeitos.

Palavras-chave: escalada, autoconhecimento, experiências culminantes, consciência.

ABSTRACT

This is a study about the influence of sport climbing practice in the human psichy. Six climbers with at lest five years of practice wore intervew using qualitative metod. Evidence of peak experiences as described in theorie, transformations in life style and personality wore found.

Key-Words: sport climbing, self knowledge, peak experiences, consciousness

INTRODUÇÃO

Motivado pela idéia de conhecer as prováveis transformações decorrentes da prática escalada possibilita no ser humano, levando em consideração as influências tanto na área da escalada quanto da psicologia, escolheu-se como tema de trabalho de conclusão de curso enfocar a escalada esportiva sob o olhar, principalmente, da psicologia transpessoal ou integral. Este enfoque parece o mais adequado para dar conta do tipo de transformações que possivelmente ocorrem por via da prática desta atividade.

Assim sendo este artigo é o resultado do trabalho que consiste em verificar a influência da prática da escalada esportiva no psiquismo de escaladores com mais de cinco anos de prática nesse esporte A questão seria, dentro deste trabalho, observar se ocorrem, e como são realmente tais transformações segundo o ponto de vista dos praticantes.

É bastante conveniente mencionar que há uma provável ampliação do campo da consciência, catalisada pela escalada, que possivelmente pode ser responsável por vários benefícios à saúde global do indivíduo. No entanto, persistia a dúvida de que estes processos efetivamente ocorressem, impasse que se solucionou ao longo do trabalho

Finalmente, além do desejo, levantou-se a possibilidade de que podemos perceber e experienciar, através da escalada, uma via para perceber a união do corpo com a mente. Sabendo da tendência atual da visão de integração entre mente e corpo, vejo a necessidade de encontrar atividades que efetivamente conduzam as pessoas a experienciar esta união e não apenas aceitarem intelectualmente a noção de que existe um nível de consciência em que a mente não está separada do corpo.

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

1. Escalada esportiva

Para falar sobre os aspectos psicológicos na escalada esportiva, é necessário primeiramente definir o que é escalada esportiva

Na escalada esportiva o aspecto mais destacado é a busca da dificuldade e complexidade dos movimentos realizados com mãos e pés diretamente sobre a rocha. As cordas e todos os demais equipamentos de segurança são usados única e exclusivamente para a proteção do atleta em caso de quedas, sendo que o escalador não usa estes equipamentos como forma de apoio para subir e sim para protegê-lo das quedas.

Desde o seu surgimento e diferenciação do montanhismo por volta da década de 60, muitos adeptos perceberam os níveis de exigência corporal e mental da atividade dando depoimentos como os de Wolfgang Guilich, que escalou a via mais difícil do mundo em 1991: “O cérebro é o músculo mais importante dentro da escalada” (NEUMANN,1992, p.42), ou de Suzi Good, ex-campeã mundial, que demonstram uma outra faceta da aprendizagem proporcionada pelo esporte: “Através da escalada aprendi a estar ciente de meu corpo, aprendi a chegar ao limite e não desistir e pude ser capaz de aplicar isto para minha vida diária” (ZAK, 1997,p.11).

2. A integração mente-corpo

Ciente da noção de possibilidades de experiências de integração e sensibilização mental e psicológica, recorreu-se a Ken Wilber, um autor que justifica esta noção de união mente-corpo e que me pode dar um panorama global de desenvolvimento do ser humano situando-nos em nosso estagio de evolução e compreendendo a realidade de uma forma ampla.

Cabe ressaltar que, para dar base a esta noção mente-corpo, Wilber se vale de uma série de autores que possuem idéias e pesquisas que convergem para uma definição bastante semelhante.

Na definição de Wilber, a experiência humana, e também de toda a existência, é manifestada em níveis; em estratificações. Particularmente deu a estas estratificações no ser humano o nome de “Espectro da Consciência”. Limitar-nos-emos a falar aqui sobre o principal nível de consciência ao qual acredito que a escalada pode ajudar a ascender, do qual eu mesmo tenho experiência em minha prática de escalada e na partilha com outros escaladores.

Estamos falando em um nível de consciência que Wilber chamou de centauro, o grande ser mitológico com corpo de animal e mente de homem que vive em perfeito estado de união:

Esse estágio recebe diferentes denominações: integração dos níveis inferiores (Sullivan, Grant e Grant), integrado (Loevinger), auto-realizado (Maslow), autônomo (Fromm, Riesman). De acordo com Loevinger, esse estágio apresenta “uma integração do fisiológico e do psicológico”, e os estudos de Broughton mostram essa fase como aquela em que” a mente e o corpo são experiências de um eu integrado. (WILBER, 1996, p. 78)

Wilber nos diz que algumas abordagens, como as terapias humanísticas, a logoterapia e a análise existencial, por exemplo, lidam diretamente com a mente. O hata yoga, a integração estrutural, o rolfing, por exemplo, trabalhariam predominantemente com o corpo. Algumas abordagens poderiam também trabalhar concomitantemente, “com as duas extremidades”, mente e corpo, como a análise bioenergética e a terapia do orgone.

O mais importante, no entanto, é que, venham estas abordagens através do corpo ou através da mente , ou de ambos, nas palavras de Wilber (1977, p. 2000), “todas partilham igualmente de uma meta comum: o organismo integrado, o nível existencial, homem como centauro.”

3. O Social e a escalada

Segundo Reich (1948), o sistema social e político condiciona o corpo e o molda, de forma que ele esteja condizente e esteja funcionando de acordo com as normas sociais estabelecidas. Sua noção de “armadura” ou “couraça muscular”, embora bastante controvertida, ainda é considerada em alguns espaços acadêmicos e terapêuticos.

Minha tese é de que certos estados proporcionados pela escalada podem trazer à consciência tensionamentos e sensações musculares que provavelmente correspondem a algumas das couraças descritas por Reich. Em situações-limite na escalada, são bastante comuns certos bloqueios respiratórios, tensões nas costas, pescoço, pernas e pélvis. É importante ressaltar que são sensações distintas ao puro tensionamento físico sentido em um contexto protegido como, por exemplo, atividades esportivas onde se trabalham muito mais aspectos físicos ou corporais “brutos”. Quando, no entanto, tais situações-limite são atravessadas com êxito, há um alívio arrebatador de tais tensões e uma sensação de liberdade e comunhão com o ambiente. Sendo assim, é possível suspeitar de que certas experiências dentro do âmbito da escalada facilitem a dissolução de alguns pontos ou “anéis” das couraças, no vocabulário reichiano.

Citando Michael Foucault quando fala de “Corpos Docilizados”, conceito que ajudará a situar o fenômeno com o qual se trabalhará ao nível social, o que contextualizará e reforçará a importânciado estudo.

Segundo o autor, haveria em nossa sociedade uma dificuldade de vivenciar a totalidade de nossas funções corporais e mentais devido à submissão a um sistema complexo de funcionamento que condiciona por fim o uso restrito dos corpos a atividades que “funcionam” dentro do sistema. Dessa forma, vejo que a escalada se revela como uma possível ferramenta de ascensão da consciência em nível social. Segundo Foucault, haveria dispositivos capazes de fugir á lógica de deste funcionamento maquínico. Assim sendo, se a escalada realmente puder exercer a função de integrar e ampliar a consciência, pode também sair da lógica “perversa” do sistema, tornando-se um canal de ruptura e liberação.

Assim sendo, se a escalada realmente puder exercer a função de integrar e ampliar a consciência, pode também sair da lógica “perversa” do sistema, tornando-se um canal de ruptura e liberação.

4. A pirâmide de necessidades e a escalada esportiva

Abraham Maslow, conhecido por ser um dos precursores da psicologia transpessoal, trabalhou amplamente com a temática existencialista e formulou, de maneira bastante sintética porém sólida, a ligação entre os estados de consciência humanos em uma escala hierárquica.

Tais estados foram inicialmente organizados como necessidades humanas a serem supridas, sendo que as aspirações e desejos estariam dispostos em um espectro crescente, indo das mais básicas e rudimentares, como as necessidades de respirar a alimentar-se (necessidades fisiológicas) até necessidades mais sutis e sublimes, como as de auto- atualização transcendência ou emergência espiritual. Dessa forma, Maslow criou a pirâmide de necessidades que consiste justamente em um modelo de desenvolvimento humano que divide em níveis as necessidades e possibilidades de ser. Para o presente trabalho, a pirâmide pode ser útil no sentido de localizar as aspirações e necessidades dos escaladores, conhecer sua personalidade, o tipo de necessidade e responsabilidade que podem assumir em determinado nível desta escala de desenvolvimento.

Finalmente é fundamental o conceito de experiências culminantes: tais experiências são eventos vitais que levam o sujeito em direção a instâncias superiores fora de seu padrão habitual de consciência. Podem levar o sujeito a sentimentos de grandeza ou pequenez em relação ao mundo e à existência, “podendo ampliar a própria identidade a outras esferas da vida, da natureza ou divindade” (MASLOW, 1968, p. 105). Tais experiências podem dar uma noção ou causar o sentimento de ser uma parte do infinito ou do eterno. São também chamadas experiências místicas e podem são parte importante de muitas tradições filosóficas ou religiosas. “Tendem a deixar uma marca no indivíduo, provocando transformações no psiquismo, mudando-o para melhor” (MASLOW, 1968, p.103).

METODOLOGIA

Entrevistou-se seis escaladores cuja experiência era de, pelo menos, cinco anos, sendo que todos eram gaúchos do sexo masculino, com idades entre 20 e 40 anos, todos ativos em sua vida de escalada, ou seja escalando em média três vezes por semana. As entrevistas foram gravadas em fitas cassetes e posteriormente foram transcritas de forma literal.

O método de análise dos dados foi a análise qualitativa. Dentro deste método, foi usada a análise de conteúdo. Foram retirados das entrevistas unidades de sentido,. frases ou fragmentos das falas dos sujeitos, que indicavam o responder, de alguma forma o objetivo da pesquisa. A seguir, dividiu-se as unidades de sentido em seis categorias de temas afins (sensação vital ou existencial, relacionamentos, consciência corporal, experiências culminantes, auto conhecimento e motivação. Fez.-se, então, uma tradução psicológica das unidades de sentido já categorizadas, chegando a alguns resultados. Posteriormente foi feita a discussão dos resultados à luz de referenciais teóricos pertinentes, e por fim considerações finais sobre a pesquisa.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

1 Relacionamentos

Através dos dados que os sujeitos trouxeram, inferiu-se que o ambiente da escalada dentro da amostragem de sujeitos é tido como um local onde se vivenciam laços de forte amizade, valores diferenciados, companheirismo e cooperatividade.

O tipo de relacionamento vivenciado dentro da escalada, pelo fator intensidade e necessidade de vinculação autêntica, pode, como o relatado pelos sujeitos, vir a tornar-se uma matriz, criando modelos positivos e de referência de relacionamentos, para os diversos âmbitos da vida do sujeito no que se refere a relação de amizade, familiar, de trabalho ou de casal.

Como nos fala Winter (2000), a escalada esportiva é uma atividade que se pratica junto a um companheiro e que se fundamenta nas relações entre seus protagonistas.

2. Motivação

Neste item o que se pode compreender com mais clareza são os motivos pelos quais as pessoas praticam a escalada. Por que escalar afinal?

O primeiro fator a ser mencionado é a auto-superação, a superação de limites bloqueios e barreiras. Como podemos perceber pelas falas do sujeitos, existe um fator impulsor que leva-os a realizar algo que antes era considerado impossível para si próprio. Há uma necessidade de confrontar-se com a limitação, uma necessidade de conhecer suas reais capacidades.

Outro ponto interessante é o prazer e da sensação de completude relatados como fonte motivadora. Pelo que é indicado nas entrevistas, os sujeitos parecem, sentir-se mais completos, e sentirem um prazer imenso com a prática da escalada e todo o contexto que a rodeia. Se seguimos conectando os fatores que motivam os escaladores, podemos inferir que, o que preenche é sensação de completude. O prazer de sentir-se completo é motivador.

Por outro lado, os escaladores apontam para um foco em todo o processo, não apenas alcançar seu objetivo. Neste sentido, o prazer não se encontra mais apenas no final, mas durante todo o processo.

Ainda neste item, uma pequena parte dos entrevistados relatou que a motivação muitas vezes se torna um vício, sendo que a necessidade de deixar de escalar por algum período da vida é sentida com intenso sofrimento.

3 Experiências Culminantes

As experiências culminantes são referidas como possíveis eventos vitais extensamente descritos na obra de Maslow (1962). “Êxtase”, “maravilhamento”, “orgasmo”, “grande alívio”, “conexão”, “completude”, “felicidade”, são apenas algumas das palavras usadas pelos sujeitos do estudo quando descrevem suas sensações com a prática da escalada. Tais sentimentos correspondem precisamente as descrições de experiências culminantes propostas pelo autor.

As experiências culminantes também podem de forma isolada explicar os insights obtidos pelos escaladores em seus relatos e as filosofias de vida baseadas nas experiências da escalada. Da vivência da experiência culminante, o sujeito retorna “com mais autoestima”, “mais disciplinado”, “mais completo”, “mais realizado”, “mais feliz”, “maravilhado”, “espontâneo”, “com disposição para a vida”, “extasiado”, “aliviado”, “sentindo-se vivo”, citando somente fragmentos das falas dos sujeitos. Como explicam eles mesmos, estas vivências são em grande medidas transpostas para sua vida diária. Alguns dos sujeitos também indicam ficar com esta sensação algumas horas ou até dias depois da experiência, exatamente como indica Maslow (1962). Sobre a validade desta experiência para a vida dos sujeitos nos diz esse autor:

“A pessoa está mais apta a sentir que a vida de uma forma geral vale a pena. Mesmo que muitas a vida seja penosa, terrena, não gratificante, sabe-se que a beleza, a excitação, a honestidade a brincadeira, a bondade, a verdade e a significância das coisas foram demonstradas como realidades existentes” (MASLOW, 1962, p. 105).

Como descrevia anteriormente, estes momentos passam a ser uma referência de felicidade e realização dos sujeitos. Momentos onde a vida parece lhes oferecer o seu máximo, momentos para os quais vale a pena treinar, disciplinar-se e ter uma saúde global.

Como explica Maslow (1962) sobre seu trabalho de pesquisa, as experiências culminantes podem vir a remover sintomas neuróticos. Neste sentido, os sujeitos parecem viver o contraponto de experiências traumáticas, resultando em exatamente o efeito oposto do trauma, ou seja, impulsão para o desenvolvimento do ser.

4.Autoconhecimento

Esta categoria vem a indica que entre os sujeitos há uma unanimidade na assunção de que a escalada serve como um campo de experiência onde se aprendem lições de vida e do qual se extrai autoconhecimento.

Em outras palavras, escalar e viver o que a escalada proporciona mobiliza os sujeitos a sentirem, pensarem e refletirem sobre a existência como um todo, como se atividade fosse uma filosofia prática.. Como diz O’Connell (1993), os escaladores não escalam somente pela adrenalina ou pelo exercício, mas pela oportunidade de terem insights sobre si mesmos e sobre o mundo em volta deles.

O escalar não se mostra simplesmente como a busca do prazer, nem muito menos uma busca da dor ou a auto destruição. O praticante busca sim, viver a vida com mais intensidade. Busca a completude da vida, o que a vida pode oferecer em sua plenitude. Sobre este tema valem ser usadas as palavras do autor Nicholas O´Connell, escalador e escritor, que entrevistou e teve contato com alguns dos maiores alpinistas e escaladores da história do esporte:

Algumas vezes eu fui questionado se os escaladores tinham em si internalizados um desejo de morte. Tal pensamento parece ser de que qualquer um com este tipo de objetivo tão radical e improvável, deve ser mentalmente desbalanceado de alguma maneira, e que consciente ou inconscientemente as escaladas devem ser alguma espécie de missões suicidas, de roleta russa.. Após te entrevistado alguns dos maiores escaladores do mundo e pensando sobre o significado de tal atividade, eu só posso dizer que honestamente nada poderia estar mais longe da verdade. O que anima os escaladores não é um desejo de morte mas um desejo de vida, um desejo de viver, plenamente, intensamente, complemente. Eu nunca antes encontrei um grupo de pessoas tão verdadeiramente vivas; fisicamente, emocionalmente, intelectualmente, espiritualmente. (O’CONNELL, 1993. p.11).

5 Sensação vital ou existencial

Este tópico tem a intenção de explorar aquilo que os sujeitos mencionam como sendo o conhecer a vida como ela á ou a vida como ela pode ser.

Um dos sujeitos nos fala inclusive que em certos momentos durante a prática da escalada sente aquilo como real, como sendo muito real. Pode-se deduzir disso que aí se vivencia uma realidade à parte, normalmente não experimentada pelo indivíduo. A realidade plena, como a vida pode ser, como a vida pode oferecer. Como explica Maslow (1962, p.171), “podemos usar a nós mesmos, em nossos momentos mais preceptivos, em nossos momentos auto-atualizantes, em nossas experiências culminantes, quanto por momentos estamos auto-atualizados, para reportar a natureza da realidade, que é mais verdadeira do que nós ordinariamente imaginamos.”

Ora, se levarmos em consideração que os sujeitos estão efetivamente tendo experiências culminantes, que efetivamente a consciência adquire conformações de elevação ou expansão, se consideramos que o sujeito se torna pelo menos por instantes, como o centauro, e que nisso há uma real integração da mente e do corpo, pode-se inferir que abarcam ou comportam mais o que chamamos de realidade. Pode-se chamar estes poucos momentos de verdadeira lucidez ou em outras palavras, uma maior sobriedade, ou por fim o conhecimento de uma outra realidade que não a que vivenciada em um nível abaixo do referido na culminância.

Podemos concluir, portanto, que o sujeito realmente se refere a outra realidade, que não é senão uma descrição do mesmo plano em que vivemos todos, mas com a consciência aberta de tal forma que é capaz de compreender e abarcar a realidade de uma forma mais ampla e, por estar em um nível mais elevado, mais verdadeira. Ilustrando com as palavras dos escaladores:: “A escalada te mostra um lado da vida que é bem mais real. Porque a escalada te permite ver como o mundo é bom, como o mundo é legal, que é bom estar vivo, sentir-se vivo.” (Suj 3). “Na escalada experimentamos o que a vida realmente é e que nas circunstâncias sociais em que vivemos estamos impedidos de experimentar” (Suj 2). “Escalar na realidade, né, escalar com a realidade de uma vida com outras coisas” (Suj 6).

Se levada adiante, o que definitivamente não é minha intenção neste trabalho, Acredita-se que a discussão sobre a realidade aqui mencionada, é capaz de render volumes de livros e teses de mestrado e doutorado. Limitar-nos-emos a defender que o que esses escaladores podem estar experimentando, via experiências culminantes, mais facetas de sua própria existência, percepção que é bastante facilitada e viabilizada, como estamos descobrindo, pela prática da escalada.

6 Consciência corporal

Dentro deste tema, iniciarei com o que os sujeitos indicam que há de mais básico dentro do que se refere a aspectos corporais e a escalada. Isto significa que há uma experiência de evolução e desenvolvimento corporal através da pratica regular de escalada esportiva. Entre os entrevistados há uma unanimidade, como seria de se esperar, quanto ao fato de que fisicamente há um considerável aumento da força e da resistência corporal, ou seja uma evolução do corpo como um todo. Alguns entrevistados referiram que a escalada em relação com outros esportes praticados foi também a modalidade que mais lhe proporcionou evolução física.

Sem dúvida, a escalada, quando se toma pelo aspecto esportivo, é uma fonte de exercício físico, requerendo, conforme o grau de dificuldade da escalada e do nível do escalador, uma força corporal muito intensa, especialmente se comparada com a maioria dos esportes.

O que nos interessa aqui, no entanto, são os aspectos psicológicos implicados na escalada. Se analisarmos a pirâmide de Maslow, na base estão as necessidades fisiológicas. Suprimos tais necessidades, quando temos, por exemplo, o corpo saudável. Ora, na perspectiva de Ken Wilber, de uma visão integral do desenvolvimento humano, para que se conceba um desenvolvimento coeso em direção aos níveis mais elevados da consciência, a base ou o corpo forte e saudável é uma plataforma de partida para que os degraus seguintes de evolução estejam bem assentados.

Neste sentido, os escaladores da amostra se destacam no que se refere ao cuidado corporal. Todos sem exceção fazem menção a cuidados diferenciados com o corpo, seja no que se refere a alimentação, condicionamento físico geral, cuidado e a prevenção de lesões: “A escalada te dá uma série de lições para você perceber e cuidar do corpo” (Suj 1). “A escalada me trouxe uma percepção diferenciada do corpo, que me trouxe uma alimentação melhor, que me trouxe uma percepção diferenciada do corpo e assim por diante…” (Suj.3). Se novamente levamos em consideração o desenvolvimento integral proposto por Wilber ou a pirâmide proposta por Maslow e comparamos com o cuidado dos escaladores com o corpo, há uma nítida preparação do corpo para suportar o tipo de vivências físicas e a carga emocional acarretadas pela escalada. Podemos inferir que o cuidado do corpo se dá em função da escalada, como eles o mencionam, e a escalada está em função do tipo de vivência emocional e psicológica proporcionada. Podemos considerar que os sujeitos preparam seus corpos para suportar estas vivências. Conseqüentemente, estão disponíveis todos os benefícios decorrentes da prática de atividade física regular.

Os escaladores mencionam um aumento de vivências corporais, como o equilíbrio e a mobilidade em geral, alguns falam em disposição física para o dia-a-dia, flexibilidade e equilíbrio. Aqui mais uma vez a escalada se mostra como atividade reguladora do sujeito, partindo da parte física.

Finalmente msncionaremos aqui a um último aspecto da corporalidade que chamarei de consciência corporal. Esta é a aquisição de uma sensibilidade ou identidade do corpo diferenciada ou não antes obtida. Alguns escaladores dão a entender que estão desenvolvendo um sentido de corporalidade diferenciado, um sentir mais intenso, mais integrado, mais conscientes de seu próprio corpo.

O sentir-se seu próprio corpo é uma das características do ser no estado de centauro. Não há evidência de que os escaladores estejam efetivamente estacionados com sua consciência no nível do centauro, embora o tipo de reflexão existencial ao qual freqüentemente chegam é característico de tal estado. Por suas descrições, pode-se dizer que vivificaram este estado alguma vez durante a prática, quando encadearam determinada via ou atingiram determinado objetivo. Alguns, como já vimos, conservam esta vivência mais tempo do que outros. Wilber levanta a questão de que para atingir o nível do centauro o primeiro passo é uma via pela qual se tenha contato com o corpo:

O primeiro passo a favor ou contra eu receber de volta o meu corpo e por fim reviver o centauro consiste apenas em estabelecer contato com o próprio corpo, dar-lhe alguma percepção, explorar-lhe os sentimentos, os impulsos, os comichões, as respostas e as vibrações. Enfrente o corpo, e em seguida entre em contato com ele (WILBER, 1977, p. 206).

Ora, se compararmos tal premissa com a experiência obtida na escalada, parece que os sujeitos estão exatamente neste caminho. “A consciência corporal da musculatura, dos tendões, nervos, dores e sinais que ocorrem no corpo é muito maior que de uma pessoa sedentária. Acho que só foi devido a escalada que tive este conhecimento” (Suj 1). : “Então tu começas a aumentar tua percepção corporal. É mais ou menos o que eu acho que acontece com as pessoas na dança ou no teatro.” “Tu percebes que não é a força é o jeito. “‘De repente tu até não caminhas mais inconsciente” (Suj 3). “De repente tu aprendes a sentir o corpo inteiro” (Suj. 2).

Na soma dos relatos, considerando o nível de insight, sobre a existência, a intensidade das vivências e o tipo de relação que estabelecem com seus corpos, pode-se assumir que há uma grande probabilidade de que estes sujeitos estejam caminhando para uma transição de sua identidade para o nível existencial ou do centauro, tal como descritas por Ken Wilber. Isto significa dizer que são pessoas que tem uma aguda experiência organísmica, a que se refere Rogers. Finalmente, parecem ser pessoas que conhecem o terreno da auto-atualização ou auto-realização ilustrada no cume da pirâmide proposta por Maslow.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como podemos perceber, a escalada se configura como um instrumento de harmonização da vida do sujeito regulando seus processos vitais e auxiliando-o no que se refere ao equilíbrio de sua existência.

Viu-se nesses escaladores um sentido genuíno de satisfação enquanto conversávamos e uma alegria transbordante em seus relatos muitas vezes bastante emocionados.

Identificamo-nos, como escalador e psicólogo, com as vivências dos sujeitos. Como se esperava, facilmente entrou-se em sintonia com o que estavam relatando, e compreendendo muitas das experiências as quais se referiam, pois efetivamente havia vivenciado situações semelhantes. Mesmo assim, aprendeu-se outras tantas lições com os meus colegas escaladores e traçou-se diferentes conexões com referenciais aparentemente distantes, como a psicologia transpessoal e a escalada esportiva.

Lança-se aqui a perspectiva de entender e usar a escalada como ferramenta de auto-conhecimento, potencialmente terapêutica.

A prática da escalada parece abrir a possibilidade, também, de um tipo de relação com a natureza não utilitária. Os sujeitos vão às rocha,s pois ali se sentem bem; apenas querem estar no ambiente e subir as pedras.

A prática de uma atividade que conecta o corpo, a mente e a natureza demonstra ser capaz de desenvolver valores humanos fundamentais como a cooperação, a confiança, a disciplina e a coragem.

Outras transformações que se evidenciaram através da prática da escalada foram um aumento considerável da autoestima, diminuição e controle de estados de ansiedade, consolidação de vínculos e confiança entre as pessoas e aumento da tolerância à frustração. Há um aumento significativo da consciência corporal de quase todos os praticantes, um cuidado diferenciado com a saúde e com seus corpos.

Um ponto importantíssimo das transformações advindas da escalada é a obtenção de experiências culminantes. Todos ou quase todos escaladores já vivenciaram em alguma medida estes fenômenos. Há uma sensação de vitalidade e gosto pela vida, presentes nesta amostra, não apenas em relação à escalada, mas em outros âmbitos da existência.

A partir da escalada, os sujeitos demonstraram extrair lições e filosofias bastante semelhantes. Tais lições são usadas como atitudes que ajudam a enfrentar o dia a dia e a vida em geral.

Considera-se, dessa forma, que aqueles que a escalarem, com similar tempo e freqüência de prática, podem experimentar em suas vidas, transformações semelhantes as dos sujeitos aqui entrevistados. Como vimos tais transformações apontam no sentido de aumento de riqueza física, mental e, inclusive, espiritual.

Finalmente retoma-se aqui a idéia de que a escalada pode ser experimentada como uma filosofia prática, um microcosmo da vida, uma analogia da existência. Como diz o sujeito 1 “…é a vida com tudo aquilo que ela verdadeiramente é, com tudo aquilo que ela pode ser.”

REFERÊNCIAS

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Apresentado no VI Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa – Canela RS – 9 a 15/10/2005