ESTÁ SENDO DIFÍCIL SER MÃE – DEPRESSÃO PUERPERAL – UM ESTUDO DE CASO

Sandra de Oliveira Garcia

OBJETIVO: No puerpéreo é comum a existência de crises, devido às profundas mudanças intra e interpessoais desencadeadas pela gravidez e pelo parto. A mulher tornar-se mais sensível, ansiosa e pode apresentar depressão reativa. Merece cuidados especiais caso se intensifique a permanência dos sintomas depressivos. O presente estudo visa apresentar a eficácia da psicoterapia com base no modelo teórico da Abordagem Centrada na Pessoa(ACP) a uma cliente com Depressão Puerperal(DP)

METODOLOGIA: A cliente, primípara, 25 anos, foi atendida por quatro meses, com sessões psicoterápicas individuais semanais. Como recurso , foram usadas técnicas de relaxamento e respiração. Ao chegar à terapia, a cliente, cujo filho possuía seis meses, vinha sendo acompanhada por psiquiatra há dois meses e fazendo uso de medicação controlada..

RESULTADOS Nota-se que a cliente, foi se sentindo mais segura em exercer seu papel de mãe e melhorou sua auto-estima,além de ter retornado ao trabalho e suspendido a medicação anti-depressiva.

CONCLUSÃO: Diante do exposto, confirmou-se a eficácia da psicoterapia com referenciais teóricos na ACP, aplicados a clientes com DP. Para tanto, faz-se necessário tanto a capacitação técnica e pessoal da terapeuta, quanto sensibilidade, criatividade e amor pelo que faz.

IMPLICAÇÕES CLÍNICAS: A partir das atitudes de aceitação positiva incondicional, compreensão empática e congruência por parte da terapeuta, a cliente evoluiu para uma situação de maior equilíbrio psico-emocional.

SANDRA DE OLIVEIRA GARCIA / Psicóloga Clínica CRP 13/1716

15.07.01

SUMÁRIO

I INTRODUÇÃO

II – DESENVOLVIMENTO

1- Depressão Puerperal – Conceituação

2- Etapas características do processo terapêutico

3- Estudo de caso

4- Evolução da cliente dentro dos referenciais teóricos da ACP

III – Conclusão

IV – Bibliografia

I – INTRODUÇÃO
O presente trabalho consiste na apresentação de um estudo de caso, referente ao acompanhamento psicoterápico individual, com base nos referenciais teóricos da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). A cliente, de 25 anos de idade, primípara, apresentava naquele período características de um quadro de Depressão Puerperal (DP).

Escrever e propor-me a apresentar este trabalho foi um desafio por diversa razões, mas principalmente, por ser este o primeiro trabalho dessa natureza, estudo de caso, que apresento. Mas como venho numa fase de intensificar esforços, no sentido de investir em prol do meu crescimento profissional, criei e aceitei esse desafio.

Estou em busca de socializar, compartilhar minhas experiências profissionais, aprendizado e dúvidas também. Acredito que, dessa forma, também estarei contribuindo para o crescimento e valorização da Psicologia e, em particular, da aplicabilidade da ACP.

Como também trabalho enquanto Psicóloga em Posto de Saúde, percebo a importância do trabalho interdisciplinar. Assim, uma das minhas motivações com a apresentação desse estudo é contribuir com as reflexões e práticas dos profissionais da área de saúde, especialmente de Psicólogos, no que diz respeito ao atendimento a clientes que se apresentam no quadro de DP.

Neste trabalho apresentamos um estudo de caso dividido da seguinte forma: Inicialmente abordaremos as definições mínimas necessárias para o embasamento teórico deste estudo, tanto no que se refere à de DP , quanto com relação às etapas características do processo terapêutico segundo Rogers. No segundo momento, apresentamos o estudo de caso propriamente dito, com o relato das sínteses das sessões dos quatro meses de atendimento, evidenciando a evolução da cliente à luz das fases do processo terapêutico. Por fim, relatamos nossas conclusões e crescimento ao ter tido a oportunidade de acompanhar a cliente em questão. Neste também compartilho os meus sentimentos tanto em acompanhar a cliente em seu processo, como também na elaboração deste trabalho.

II – DESENVOLVIMENTO
2.1 – DEPRESSÃO PUERPERAL – CONCEITUAÇÃO

Segundo Maldonado, “o puerpério, assim como a gravidez, é um período bastante vulnerável à ocorrência de crises, devido às profundas mudanças intra e interpessoais desencadeadas pelo parto”. O período de duração do puerpério é variável mediante alguns autores. [maldonado, 97), cita autores que consideram o puerpério como o “quarto trimestre” da gravidez, compreendido entre os três primeiros meses após o parto”. Complementa citando autores que afirmam servirem os primeiros seis meses após o parto como parâmetro na avaliação da saúde mental da mulher quando da elaboração desta fase”.

Os sintomas tendem a ser mais acentuadas nas primíparas. “Nesse período, a mulher torna-se especialmente sensível, muitas vezes confusa, até mesmo desesperada; a ansiedade normal e a depressão reativa são comuns”. [MALDONADO, 1997]

Existem três formas de transtornos depressivos que podem se manifestar no estado puerperal: O Blues puerperal (estado de tristeza passageira), a depressão puerperal (DP) e a psicose maníaco-depressiva.

Segundo CURY[1997], “pode-se definir DP como um quadro clínico-psicológico caracterizado por transtornos depressivos que se instalam no puerpério precoce ou tardio. No entanto, esta definição está sujeita a críticas pelo número de indefinições e dúvidas que comporta. Transtornos depressivos não delimitam nem a variedade, nem a gravidade dos sintomas da DP”. Os sintomas presentes nos quadros depressivos, segundo o [DSM-IV1994], são os seguintes:

– Humor depressivo

– – Diminuição ou perda de interesse nas atividades diárias

– – Mudança significativa de peso ou do apetite

– – Insônia ou sono excessivo

– – Fadiga

– – Sentimentos de desvalia ou culpa

– – Perda de concentração

– – Idéias de morte ou suicídio

Vale salientar que, existe “predomínio da alteração do humor e dos conflitos relacionados com a inabilidade diante do novo papel materno sobre os sintomas neurovegetativos e as idéias suicidas”. [CURY, 1997]

Conforme cita Whiteford, quando fala sobre exercícios pós-natais, a maioria das mulheres com DP queixam-se “não apenas de cansaço pós-natal normal, mas de algo muito mais intenso e continuado. Tristeza e choro, uma sensação de inadequação, tensão e ansiedade, medos irracionais… sintomas físicos – palpitações, tonturas, dores por todo o corpo, impossibilidade de dormir apesar do cansaço, ou de completa perda da libido(interesse sexual)”. [WHITEFORD, 1992]

Segundo dados fornecidos pelo Psicossomaticista e Ginecologista Dr. Malcolm Montgomery na Revista Gravidez – passo a passo, “cerca de 80% das parturientes sofrem de blues puerperal e, destas, 20% desenvolvem depressão. Ou seja, exceção é quem não fica triste.”

A depressão puerperal possui uma incidência de 6,8% a 16,5% das Mulheres), sendo 26% em adolescentes, segundo CURY[1997]. Tais dados justificam a importância do tema para os profissionais ligados à saúde da mulher. Observa-se que, instalado o quadro de DP, boa parte das mulheres não retornam às suas atividades profissionais logo que termine o período da licença maternidade (quatro meses), acarretando prejuízos econômicos, principalmente na mulher atual que normalmente participa ativamente do orçamento doméstico.

No âmbito das relações sociofamiliares, afirma Cury, “a mulher tende a se isolar e aumenta o risco da separação do casal. Sobre o recém-nascido recaem, também, pesados ônus. Diversos trabalhos mostram inadequado desenvolvimento físico e emocional dos filhos de mães com problemas psicológicos. Do ponto de vista pessoal, a puérpera deprimida corre o risco de apresentar somatizações e continuar deprimida, anos após a instalação do quadro”.[CURY, 1997].

Na etiologia da DP, constata-se que os fatores biológicos, psicológicos e socio-culturais podem contribuir para o surgimento, manutenção e gravidade do quadro. De forma geral, segundo afirma Malcolm na Revista Gravidez – passo a passo, a principal causa é a “idealização a respeito do parto e da maternidade. Para completar o quadro, ela perde as atenções, deixa de ser filha para ser mãe e sua liberdade fica restrita, consumida pelos cuidados com o bebê. Isso, sem falar em outros fatores – que vão de problemas, físicos, como a queda da taxa hormonal e o grande desgaste do parto, às neuroses mais profundas de um ser humano”.

No que diz respeito aos fatores biológicos, existem vários estudos que não serão explanados neste trabalho. Mas, em linhas gerais, observa-se na primeira semana após o parto, a labilidade emocional, onde a puérpera oscila entre a euforia e a depressão, esta podendo chegar a grande intensidade. “Alguns autores acham que esses sintomas são devido às mudanças bioquímicas que se processam logo após o parto, tais como o aumento da secreção de corticoesteróides e a súbita queda dos níveis hormonais”[ MALDONADO, 1997].

No que tange ao aspecto psicológico, verifica-se a influência de como a mulher vivencia as transformações desencadeadas pela gravidez, parto e puerpério. Estudos “consideram a “crise” desse período como decorrente da reativação dos conflitos com as figuras paternas (Deutsch, 1947; Bibring, 1961; Racamier, 1961)”. Logo, a forma como a mulher irá lidar com as transformações peculiares à chegada do filho, “pode ser saudável ou não, dependendo de fatores situacionais, pessoais e da qualidade e continuidade dos seus primeiros vínculos. Assim, a experiência da gestação e do puerpério atual é largamente influenciada pelo conjunto dos sentimentos hostis e amorosos da mulher para com seus próprios pais”[CURY,1997].

Sobre os fatores socioculturais constatam-se vários estudos: a)Existe pouca evidência de DP em sociedades não industrializadas; outros que evidenciam a existência de DP em mães e pais adotivos e destacam as expectativas irreais dos pais sobre o filho como fatores que contribuem na DP. Por fim, houve estudos que constataram que “homens e mulheres vivenciam, igualmente, depressão puerperal”. [CURY, 1997]

Existem muitas controvérsias sobre os fatores de riscos da DP. Destacam-se com maior consenso os seguintes trabalhos mais recentes: “Conflitos conjugais, falta de apoio do marido, problemas com o outro filho, eventos vitais estressantes durante a gravidez, antecedentes de história psiquiátrica e de DP prévia antecedentes familiares de doença psiquiátrica. Por outro lado, não se pode confirmar a associação com o nível sócio-econômico e com o grau de escolaridade. Cabe destacar que, apesar da importância dos fatores de risco, principalmente pessoais e familiares, 50% das mulheres apresentam o primeiro episódio depressivo, apenas após o parto”. [CURY, 1997]

Nesse aspecto do período em que se instala a DP também existem diferentes opiniões. Sabe-se que, “mais comumente, a DP inicia-se dentro das primeiras seis semanas do puerpério. Nos primeiros dez dias, os sintomas depressivos podem fazer parte do quadro de blues puerperal, que tende a regredir espontaneamente . Alguns casos de DP surgem do terceiro ao sexto mês, enquanto outros só aparecem mais tardiamente, após doze meses. Admite-se que, quanto maior a duração, maior a gravidade do quadro

Para Cury, o diagnóstico da DP é clínico, devendo ser detectado pelo obstetra. Nesse sentido, o conhecimento do estado emocional na gestação – especialmente nas “múltiplas queixas somáticas e nos estados de tristeza, ansiedade e irritação”- .facilitaria deduções sobre o estado psicológico no puerpério,

É importante realizar-se o diagnóstico diferencial da DP com as outras formas de manifestação da depressão não puerperal, como “a depressão causada por condições médicas, drogadição ou pelo uso de medicamentos, distúrbios da alimentação e luto real[CURY,1997].

Quanto ao tratamento da DP, normalmente baseia-se em psicoterapia e medicação antidepressiva. Cury refere que “a psicoterapia deve se constituir na primeira opção de tratamento, principalmente nos casos leves e moderados, nas pacientes que não respondem ou apresentam contra-indicações ao uso de drogas. Deve ser iniciada o mais precocemente possível. A psicoterapia resolve, igualmente, a terapia medicamentosa em cerca de 50% dos casos”.

O autor ressalta a importância do papel do obstetra não apenas no diagnóstico da DP, mas também, num momento inicial, prestar apoio emocional, incentivando à paciente a expressão de seus sentimentos, através de uma “escuta atenta, solícita, interessada e isenta de julgamentos morais ou pessoais…Há de se frisar que a atuação do obstetra depende de suas condições técnicas e pessoais, sendo preferível solicitar ajuda do especialista, psiquiatra ou psicólogo, quando houver qualquer tipo de impedimento”.[CURY, 1997].

Quando da presença de manifestações da depressão puerperal de forma exacerbada ocorre a psicose puerperal. Na sintomatologia deste quadro, “a mulher torna-se ensimesmada, afastada, triste, rejeita o filho, em geral declara que não quer vê-lo, sofre de insônia, inapetência, descuida-se da própria aparência, não se veste, não se banha nem se penteia. Muitas vezes faz referência a alucinações, geralmente auditivas, ou exprime idéias delirantes. Tal estado pode remitir por si mesmo, ao cabo de alguns dias, semanas ou meses”. [SOIFER, 92]

2.3 –ETAPAS CARACTERÍSTICAS DO PROCESSO TERAPÊUTICO

Segundo Rogers e Kinget [ROGERS,1977], ao analisarmos o processo psicoterápico podemos considerar quatro fases, cujas características básicas são as seguintes:

1) DESCRIÇÃO

– Apresentação dos problemas e sintomas

– Expressão de estados emocionais

– Atitudes críticas com relação ao “eu”

2) ANÁLISE

– Exploração e avaliação do comportamento

– Emergência de uma imagem consciente do eu

– Descoberta de contradições experienciais

3) AVALIAÇÃO

– Percepção de si a um nível mais profundo

– Mudança do lugar da avaliação

– Início da reorganização

4) INTEGRAÇÃO

– Aceitação de si

– Percepção de progresso

– Avaliação positiva de si

– Esboço de projetos

Vale salientar que “cada etapa se funde com as etapas vizinhas e suas características se reencontram em graus menos pronunciados no conjunto do processo”

2 – ESTUDO DE CASO

Considerando a necessidade ética de preservar a identidade dos envolvidos, adotamos os seguintes nomes: cliente: Maria; Avós: Joana e Pedro; Filho: Davi . Passaremos a seguir ao relato de algumas sessões e alguns comentários sobre a evolução da cliente.

Maria, é uma jovem de 25 anos, paraibana, de classe média, graduada em Contabilidade e casada. Filha única e adotiva recebeu uma educação dos pais de forma super protetora. Quando casou-se morou com o esposo em apartamento alugado durante alguns meses, período em que conseguia conciliar os cuidados com a casa e seu emprego como prestadora de serviço em um banco. Mas, devido à dificuldades financeiras, retornou a morar na casa dos pais. Ao engravidar do seu primogênito, de forma não planejada, apresentou-se tranqüila e sadia durante os nove meses. No entanto, Maria que até então nunca havia tido depressão, aproximadamente hum mês depois do parto, apresentou quadro de depressão puerperal, sendo acompanhada por Psiquiatra a partir do segundo mês, com o qual vinha fazendo psicoterapia semanalmente e submetendo-se a tratamento medicamentoso.

Quando seu filho completara seis meses, os pais de Maria resolveram solicitar ajuda de uma psicóloga, visto que estavam muito preocupados com a evolução do caso. A seguir, é relatado uma síntese dos atendimentos psicoterápicos que teve como base os referenciais teóricos da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) e a duração de quatro meses.

ENTREVISTA COM OS PAIS

A mãe telefona para a terapeuta e expõe superficialmente o problema da filha. Diz que a mesma viajou com o marido para Natal/RN por alguns dias enquanto os avós, ela e o marido, ficaram cuidando do neto. Agendo uma sessão com os avós, os quais terão os nomes fictícios de Joana e Pedro. Ele fala durante quase toda a sessão. Parece muito preocupado e ansioso pela recuperação da filha. Informa que , no momento, a filha estava fazendo uso de quatro medicações . Diz que ela é filha adotiva e reconhece que, como filha única, foi mimada pelos pais, “cresceu cheia de vontades, gosta de se arrumar, nunca foi de estar fazendo as coisas em casa”. Acrescenta que Maria cursou Contabilidade e, até o nascimento do neto, ela estava trabalhando como prestadora de serviço em um banco. Desde então, está de licença para tratamento de saúde e sentia-se diminuída por perceber salário semelhante ao da empregada doméstica.

A mãe parecia bastante angustiada enquanto o marido falava. Posteriormente, ela relata o quanto estava estressada e sobrecarregada, pois vinha assumindo os cuidados com a filha e o neto, além dos afazeres domésticos. Informa que o neto, desde que chegou da maternidade, dorme no quarto com eles, pois a Maria ainda não tinha condições emocionais para ficar com ele a noite. A mãe informa ainda que a filha nunca havia apresentado um quadro depressivo antes. Acrescenta que a gestação da filha transcorreu de forma tranqüila e sadia, mas que desde o início da gravidez, a filha optara pelo parto cesário. Após as primeiras semanas do nascimento do bebê, a filha apresentou um quadro de depressão puerperal, sendo necessário ser acompanhada por psiquiatra. Devido aos efeitos da medicação, a mesma não pode amamentar o filho. Até a presente data, a cliente não sai sozinha e não dirige automóvel.

1ª Sessão

Essa foi uma sessão muito importante. A cliente traz os conteúdos que têm lhe afligido no momento, retratando bem seu momento presente.

Maria pareceu-me bastante ansiosa. Fala muito, mas sem aprofundar nenhum assunto. Durante a sessão, foi ao banheiro, bebeu água, levantou-se outra vez para pegar um bombom. Parecia-lhe difícil estar quieta. Inicialmente, fala de como “está sendo difícil ser mãe… Ele só quer estar no braço, eu não agüento …” Queixa-se do quanto a sua vida mudou depois da chegada do bebê:

C – “Antes eu quase não parava em casa. Trabalhava e tinha prazer em me arrumar. Eu nunca saía sem me maquiar. Hoje, está vendo, nem baton eu coloquei “

T – “Hoje, parece que está sendo difícil para ti aceitar essa nova realidade”

C- “Muito difícil…”(Cliente fala de várias atividades que fazia antes de engravidar.)

Como se observa, diante de seu jeito de ser anterior à gestação, muito vaidosa com sua aparência, a falta de prazer em se arrumar no puerpério denota um forte indício da depressão. Maria fala também de sua insegurança em cuidar do bebê. Em decorrência disso, afirma Maldonado [1997]: “Na depressão que se prolonga pelos primeiros meses pós-parto é comum a sensação de decepção consigo mesma, desilusão e fracasso”.

C – “Eu não sei cuidar do meu filho direito, tenho medo de dar banho nele, sempre quem dá é minha mãe”

T – “Qual é o teu receio?”

C – “Sei lá, medo de que ele chore, de que eu não consiga… “(pausa) Cliente apresenta semblante triste

T – Há momentos em que ainda não te sentes capaz de cuidar do teu bebê e isso tem te deixado meio triste

C- É isso mesmo.

T – “Estás falando então do desejo de cuidar de Davi, que existe esse desejo dentro de ti.

Nota-se que as intervenções da terapeuta tendem a elevar ou, pelo menos, a manter a auto-estima da cliente, procurando sempre que possível, ressaltar os aspectos positivos explícitos ou subjacentes na fala da mesma. Em seguida, a cliente acrescenta a seguinte fala:

C – “Outro dia percebi que o bebê estava ficando assado e passei pomada no bumbum dele.

T – Tu percebeste que ele estava ficando assado e tomaste a iniciativa de cuidar dele e ele melhorou.

C – Foi (leve sorriso)

T –E ficaste feliz em ter sido capaz, naquele momento, de perceber a necessidade dele.

C – “É… apesar de tudo, eu amo muito o meu filho”

Nesta passagem, a terapeuta procura reforçar qualquer fala da cliente que demonstre a sua iniciativa em cuidar do bebê e de compreendê-lo, refletindo assim, que existe uma capacidade intuitiva da mãe em poder cuidar do filho.. Nesse sentido, a cliente também relata um momento em que o filho estava chorando e ela se aproximou do berço pegou-o no colo e ele se calou.

A esse respeito, comenta Spitz: “O que ocorre no interior da díade permanece um tanto obscuro. Como, por exemplo, podemos explicar a maneira quase clarividente pela qual uma boa mãe parece adivinhar as necessidades de seu filho, compreender o que significa seu choro e o que ele está balbuciando? Falamos da intuição materna, de inteligência da mãe e de sua experiência…”[SPITZ, 91].

No final da sua fala, a cliente demonstra seu amor pelo filho “apesar de tudo”. Sabemos que, no puerpério é comum a labilidade emocional , onde “também poderá observar violentas mudanças de estado de espírito, num momento sentindo intenso amor maternal e, no momento seguinte, ao contrário, sendo levada ao desespero porque o bebê está chorando”.[ WHITEFORD, 92]

Posteriormente, a cliente muda de assunto e informa que sempre foi uma menina muito protegida pelos pais e o fato de ter descoberto ser filha adotiva não lhe afetou tanto. Ela parecia incomodada não com o fato de ser filha adotiva, mas pela super proteção dos pais adotivos. A cliente também queixou-se do marido que, apesar de ter mudado para melhor depois que o filho nasceu, gostaria de receber mais atenção dele.

Outro assunto abordado que denota seu sentimento de insegurança em relação ao filho, foi o ciúme que sente da empregada da casa em cuidar do seu filho.

Finalizando, a cliente fala do seu incômodo com os medicamentos, diz sentir muita sonolência e que tem medo de ficar dependente dos remédios. A terapeuta sugere que a mesma exponha esse incômodo com o seu psiquiatra, mas também reflete o seu desejo de melhorar. Ao término da sessão, ao perguntar como ela está se sentindo, ela diz:

C – “Estou mais aliviada, estou me sentindo mais mãe”.

Resumo das sessões do 1º mês:

Cliente ainda apresenta-se ansiosa, movimenta-se pela sala novamente, para ir ao sanitário, beber água. Diz que o psiquiatra reduziu a medicação possivelmente por verificar que ela apresentava uma melhora em seu quadro depressivo. A cliente fala de sua angústia em lidar com a depressão:

C – “Eu não aguento mais essa depressão, quero ficar logo boa disso, eu não desejo isso para ninguém”(chora)

T – “Tu estás angustiada”

C – (Confirma acenando com a cabeça)

T – “Tu tens um desejo muito grande de superar a depressão e não estás

te entregando, estás lutando para vencê-la. O fato de buscar a terapia já é um movimento nesse sentido, é isso?”

Como se observa, a terapeuta procurou enfatizar ao invés da sua angústia e dor, o desejo de melhorar, e sua iniciativa nesse sentindo, buscando assim, ressaltar sua tendência atualizante.

Maria demonstra novamente seu ciúme da empregada em relação ao filho. Isso a incomoda muito, pois ela ainda se sente insegura em cuidar do filho precisando do apoio total da mãe e da empregada, mas se culpa por isso e teme perder o amor do filho

Nessa sessão, Maria queixa-se novamente da proteção dos pais que chega a sufocá-la. Diz que gostaria de ter o seu próprio espaço, como ocorrera nos seus primeiros seis meses de casada, quando moravam em um apartamento alugado. Mas que , no momento, ela e o marido não tinham condições financeiras em assumir o compromisso financeiro em aluguel. Ela diz que, naquela época, ela própria cozinhava e cuidava dos afazeres domésticos.

De forma geral, podemos observar que, conforme etapas características do processo terapêutico, a cliente se encontra na fase de descrição pelas seguintes características: descrição dos aspectos que tem lhe afligido naquele momento, ou seja, de sua insegurança em cuidar do filho, da transformação da sua vida após a maternidade, do seu incômodo com a super proteção dos pais, do ciúme da empregada, de seus conflitos com o marido. Além disso, ela, com freqüência , compara o presente com o passado, denotando, assim, a sua dificuldade em aceitar essa nova fase, na qual passou da condição de filha (única e super protegida) para a de mãe, o que envolve um novo papel e responsabilidades. Nessa fase, percebe-se que a cliente possui “atitudes críticas com relação ao “EU”, diante da sua ambivalência afetiva em relação ao filho e de seu sentimento de incapacidade de cuidar do mesmo, quando apresenta certo sentimento de culpa. Além disso, “o tom é geralmente negativo, cheio de frustração, de depressão e, às vezes, de um sentimento de incapacidade total”. [ROGERS, 77].

2º Mês

Sessão com o marido:

O marido pareceu disponível ao atendimento e sincero. Relata que, ao conhecer Maria, já era separado do seu primeiro casamento, tendo um filho, naquela data com oito anos. Que este filho sempre foi um foco de conflito entre ambos devido aos ciúmes de Maria, principalmente com relação àquele filho. Esse ciúme se intensificou depois da chegada de Davi. O marido diz amá-la muito e que está disposto a continuar ajudando-a no seu processo de recuperação. Acredita que o pior já passou, foram os dois primeiros meses, que ele estava super estressado e chegou sentir uma dor de cabeça muito forte. Acrescenta que , no momento, vive para o trabalho e para casa.

A terapeuta reforça a importância da paciência dele e de sua colaboração na recuperação da esposa. Sobre o local onde o bebê dorme, no quarto dos avós, a terapeuta sugere que, à medida que ele for percebendo que a esposa estiver se sentindo mais segura em cuidar do filho, que ele a incentive a, gradativamente, dormirem com o bebê no quarto deles. É ressaltado que é preciso se ter um certo cuidado para que o excesso de proteção que os pais passaram para a filha não se repita com o neto. O marido então fala da interferência dos sogros no início do casamento quando eles não moravam na casa dos sogros , mas só os dois em um apartamento alugado. Segundo ele, os sogros tinham acesso à chave do apartamento e diariamente os visitavam e que isso o incomodava.

Por fim, a terapeuta sugeriu para que ele estivesse atento a também estar cuidando de si, para se reabastecer. A mesma perguntou o que ele poderia fazer nesse sentido, dentre as possibilidades daquela fase. Ele logo respondeu que estava sentindo muita falta das suas “peladinhas”, que sempre gostou de esporte, mas que estava evitando criar ciúmes na esposa. A terapeuta refletiu, então, a importância de ambos procurarem melhorar o nível de comunicação, sobre a relevância de se expressar os sentimentos, da arte de falar e ouvir.

Síntese das sessões com a cliente:

A ênfase da fala da cliente nesse período foi a relação da díade mãe-filho, tanto no que se refere a sua insegurança em cuidar do filho, quanto na dificuldade dela em aceitar as mudanças de vida peculiares com a chegada do bebê. Nesse sentido, afirma Maldonado:

“A depressão pós-parto tende a ser mais intensa quando há uma quebra muito grande da expectativa em relação ao bebê, a si própria como mãe e ao tipo de vida que se estabelece com a presença do filho. Com o desaparecimento da “imagem ilídica”, vem muitas vezes desapontamento, desânimo, a sensação do “não era isso que eu esperava” e a impressão de ser incapaz de enfrentar a nova situação”[MALDONADO, 97].

Maria deixava claro a ambivalência afetiva que ainda sentia com relação à maternidade: ora demonstrava amor pelo filho, de sua alegria por ele já solicitar o colo dela, dando-lhe os “bracinhos”, ora expressava , de certa forma, uma aversão em estar com o filho.

C – “Amo muito o meu filho, mas ele me cansa, só quer estar nos braços, eu não tenho paciência; ele pesa muito…”

Mais adiante, ela acrescenta:

C – “Às vezes, sinto vontade de brincar um pouco com ele, mas fico meio sem jeito”.

T – “De que gostarias de brincar com ele?”

C – “De bola, geralmente menino gosta de brincar de bola”

Como a terapeuta dispunha de uma bola de frescobol no consultório, ela pega a bola e oferece à cliente:

T – “Gostarias de brincar um pouco agora?”

C – (Sorri meio sem jeito, pega a bola)

T – “Como é que brincavas quando criança?”

C – (Bate a bola no chão várias vezes)

T – “Gostarias de jogar para mim”

C – (Sorri, e joga a bola para a terapeuta e vice-versa algumas vezes) Os olhos de Maria adquirem um novo brilho. Após pararem a “brincadeira”:

T – Parece que não foi tão difícil assim….

C – É verdade.(sorri)

T – O que estás sentindo agora?

C – “Vontade de brincar com Davi. Quero comprar uma bola bem colorida para brincar com ele…”

Nesse trecho, percebe-se a flexibilidade da terapeuta em “brincar” de bola com a cliente durante a sessão, possibilitando-a, de certa forma, a se projetar brincando com o filho.

Na sessão seguinte, Maria fala que ainda não comprou a bola, pois não encontrou uma colorida como gostaria. Mas acrescenta:

C – “Já estou conseguindo brincar um pouco mais com Davi.”

T – “Que bom, isso está te deixando bem satisfeita”

C – “Sim, eu tenho gostado, embora não brinque por muito tempo.(pausa) Mas ele ainda não fica sentado direito e é preguiçoso para engatinhar. Não vejo a hora desse menino andar. Será que isso é normal, uma criança com sete meses ainda não ficar sentada direito?”

T – “Estás te sentindo ansiosa em vê-lo crescer”

C – “É, só queria que já passasse essa fase, que ele já andasse e falasse o que queria”

T – “Parece que ainda está sendo difícil para ti lidar com essa nova realidade e aí, seria preferível que o tempo passassse mais rápido. É isso?”

C – “Vai ver que é isso mesmo…”

Enquanto primípara, Maria apresenta muitas dúvidas quanto ao desenvolvimento do filho. Como intervenção, a terapeuta sugeriu que ela poderia buscar alguns esclarecimentos com a Pediatra, como forma de sentir-se mais segura com relação aos cuidados com o bebê. Além disso, lembrava que cada criança tem seu próprio rítmo de desenvolvimento.

Outro fator preponderante ocorrido neste período é que Maria conseguiu com que a mãe demitisse a empregada doméstica que auxiliava nos cuidados com o bebê. O motivo, como já fora citado, o ciúme dela. Não havia nenhum indício de maus tratos desta em relação ao bebê ou outro fator que justificasse aquela demissão.

No entanto, com a saída da empregada, a avó ficou mais sobrecarregada de afazeres e Maria, por sua vez, teve de assumir mais o filho, ficando com este durante toda a manhã. Foi quando passou a ensaiar os primeiros banhos ao filho, a brincar mais com ele, etc. Mesmo com a chegada da nova empregada, Maria continuou a cuidar mais do filho no turno da manhã.mas geralmente chegava ao consultório com várias queixas:

C – “Estou cansada, impaciente, Davi me dá muito trabalho. Só quer estar no braço. Não tem quem agüente … De manhã cedo, eu fico com ele, enquanto minha mãe prepara o almoço. Já dou banho nele, depois arrumo, brinco um pouco. Mas chega uma hora que já estou cançada.

T – Apesar do cançaso, tu estás te dando a oportunidade de estar mais com o teu filho e de estar cuidando dele.

C – “Isso é verdade. Davi está lindo. Ele não pode ouvir a minha voz já fica querendo o meu colo..

T – “Ele te quer muito bem. Apesar de tudo, tem sido gratificante pra ti”

C – “Muito” (emocionada)

Analisando a cliente nesse segundo mês, percebemos já se ter estabelecido um vínculo de confiança entre cliente-terapeuta, face especialmente da presença das atitudes de aceitação positiva incondicional, congruência e compreensão empática por parte da terapeuta. No momento em que a cliente se permite “brincar” de bola com a terapeuta, fica evidente esta confiança. A partir daí, percebemos um certo crescimento da cliente, no sentido de conseguir fluir mais livremente com o filho, pois Maria relata conseguir brincar mais com Davi e a exercer um pouco mais seu papel de mãe em cuidar do filho, mesmo após a chegada da nova empregada. Nota-se, no entanto, que ela ainda apresenta muitas queixas referente a esse novo papel, denotando sua dificuldade em aceitar não apenas essa nova realidade, mas a si mesma enquanto mãe.

3º Mês

Maria começa a demonstrar preocupação com a mãe, com a sobrecarga que a mesma vem assumindo desde o nascimento do neto.

C – “Reconheço que as vezes eu me acomodo com a ajuda dos meus pais, principalmente da minha mãe”

T – “Às vezes te sentes sufocada com a superproteção de teus pais. Apesar de reconhecer que isso não te faz bem, estás reconhecendo que, em certos momentos, te acomodas com isso.

C – “É, eu sei que a minha mãe cuida de Davi. Acho que, às vezes, eu me escoro nela.

T – “Em outro momento, falaste da preocupação de que teus pais não superprotejam o neto, reproduzindo o excesso de cuidado que tiveram contigo.

C – É, eu não quero que meu filho seja superprotegido, porque isso não me ajudou muito.

T – “Parece então que, à medida que vais assumindo cuidar do teu filho, gradativamente, estás contribuindo para que isso não se repita, é isso? ”

C – “É” (reflexiva)

A partir dessa sessão, a cliente vez por outra questiona algumas atitudes da sua mãe em relação ao neto e passa a tomar mais iniciativas nos cuidados com o filho. Por exemplo: Passa a dar certos alimentos ao filho, que a avó discorda. Questiona também o hábito dos avós de colocarem o nenê na cama entre eles por volta das cinco horas da manhã, quando o mesmo acorda para tomar o “leitinho” e dormir novamente.

Percebe-se assim, que o discordar do excesso de cuidados dos avós para com o neto representava também um passo para não aceitar mais a sua própria proteção.

É nessa fase que Maria passa a admitir a possibilidade de tentar dormir algumas noites com o filho. No entanto, ela se queixa da pouca disponibilidade do marido nesse sentido, pois exatamente a noite, ou ele estaria de plantão no hospital ou dormindo em casa depois de um dia exaustivo no trabalho.

Tais tentativas para Maria foram quase sempre frustrantes: Ela sempre chegava na sessão queixando-se de não ter dormido direito em função do filho e que , no dia seguinte, entregava Davi para a avô como se não agüentasse mais. De qualquer forma, ela estava tentando dormir com o filho, o que era reforçado na terapia e como sendo este também um papel da mãe e não da avô.

Maria também começou a expressar, nesse mês, seu desejo de retornar ao trabalho, bem como os medos que lhe acompanhavam. Vale salientar que, neste período, a cliente passou a ir sozinha para o consultório, ela própria dirigindo o carro do pai.

Nesse ínterim, a terapeuta solicita uma sessão com D. Joana (avô do bebê), com o intuito de ouvir a percepção dela em relação às mudanças da filha. A mesma relata estar notando Maria assumir um pouco mais o filho, a brincar mais com ele, inclusive que ela precisou viajar um dia, tendo deixado, pela primeira vez, o neto sob os cuidados de Maria e da empregada. Mas percebe-a ainda, impaciente com o filho, precisando melhorar muito.

A terapeuta refletiu a necessidade dos pais permitirem que a filha crescesse e exercesse seu papel de mãe, dentre as possibilidades dela a cada momento ou seja, incentivá-la a dormir com o filho, por exemplo. A avó, vez por outra, procurasse sair para resolver algumas coisas e deixasse a filha tomando conta do filho com a ajuda da empregada. E assim, que ela precisava cuidar mais de si e de sua relação com o marido e, sobretudo, demonstrar para a filha que acreditava na capacidade dela em cuidar do filho.

A terapeuta também ressaltou que, nesse período, o apoio deles (pais) estava sendo de extrema importância, mas como eles tem consciência de que sempre superprotegeram a filha, precisavam estar atentos para não continuarem superprotegendo a filha e, agora, transferindo esse excesso de cuidados para com o neto. D. Joana concordou e saiu da sessão muito reflexiva.

Analisando a cliente nesse mês, com base nas etapas do processo terapêutico, entende-se que a mesma apresenta reações características da segunda fase, a Análise, pois ela passa a explorar e a avaliar mais o seu comportamento, bem como a reconhecer e a assumir que se acomodava com a superproteção da mãe. Nota-se, assim, que a cliente passa a ter uma imagem mais consciente do eu e a perceber algumas contradições em seu comportamento.

4º MÊS

O foco da terapia nesse mês foi o retorno de Maria ao trabalho. Encerrava-se o prazo da Licença para tratamento de Saúde, renovada para dez meses, o que estava deixando-a bastante ansiosa. Ela tinha muito receio de que a empresa não mais a “aceitasse”. O retorno ao trabalho também simbolizava para ela o retorno à vida de antes: “Quero sentir prazer novamente em me arrumar todos os dias para sair, em casa direto eu vou me arrumar para quê?”

Trabalhamos muito essa expectativa de retorno ao emprego e seu “medo de receber um Não”. Com tanto tempo sem trabalhar, ela se sentia insegura em exercer suas funções na empresa.

Com relação ao filho, ela continuava tentando algumas noites dormir com o filho. Sentia-se feliz por ter ido à praia com o esposo e o filho, tendo o pequenino brincado na areia com ela.

O ciúme que tem do marido copntinuava,contribuindo para constantes conflitos na relação conjugal. Ao mesmo tempo, Maria demonstrava-se inconstante, ora tinha medo de perde-lo, ora desejava separar-se dele.

Maria também continuava incomodada com o uso dos medicamentos. Tinha medo de tornar-se dependente. A terapeuta sempre lhe sugeria comunicar esse medo dela ao Psiquiatra que a acompanhava. Ao mesmo tempo, refletia o desejo dela de se sentir livre e capaz de vencer a depressão com o seu esforço, ou seja, com seu poder pessoal. Vale destacar que em momento algum , a terapeuta sugeriu para que ela abandonasse a medicação.

Nesse mês, a terapeuta viajou de férias retornando depois de vinte dias. A cliente, no entanto, chegou a marcar algumas vezes a sessão sem comparecer, abandonando a terapia.

Em contato com o Psiquiatra que a acompanhara, em linhas gerais, ele informa que na percepção dele, a cliente apresentou características que evoluiu de um quadro de depressão para psicose puerperal.

O retorno da cliente à terapia demonstra que o processo terapêutico anterior fora importante e que, efetivamente, existiu uma relação de confiança entre cliente-terapeuta. A cliente presta o seguinte depoimento para contribuir com a apresentação deste trabalho:

“No início não acreditei, eu dizia: Pra que Psicologia? Mas
rdepois de um tempo, comecei a acreditar na Psicologia.

Cresci muito com a depressão que eu tive. Foi muito

importante para mim a terapia. Hoje eu acredito demais na

Psicologia e tenho muita confiança na profissional que me

acompanha por eu ter obtido muito sucesso”. (Depoimento da cliente)

CONCLUSÃO

Com o estudo e apresentação deste caso, fica evidente a evolução satisfatória da cliente, comparando-se o seu estado psíquico e emocional ao chegar à terapia. A cliente passou a assumir um pouco mais o seu papel de mãe, no que diz respeito aos cuidados com o filho como também passou a brincar mais com ele. Passou a reconhecer e assumir que se acomodava com a superproteção dos pais, apresentando posturas que evidenciavam seu esforço, no sentido de caminhar com seus próprios pés. Ao término do acompanhamento, a cliente retornou ao trabalho e já saía sozinha e dirigindo o automóvel do pai. Além disso, no decorrer da terapia, o Psiquiatra chegou a reduzir a medicação, e a cliente abandonou a medicação ao término da terapia, sem apresentar nenhuma alteração do comportamento, conforme depoimento da mesma posteriormente.

Com tais constatações, percebemos a relevância da psicoterapia nos casos de DP bem como da aplicabilidade da ACP nesses processos. Verificamos também que, independente do diagnóstico, depressão puerperal ou psicose puerperal, o mais importante é que a terapeuta não se prendeu a um diagnóstico e pode fluir com a cliente, a qual evoluiu para uma situação de maior equilíbrio psico-emocional, dentro do período de quatro meses de acompanhamento psicoterápico.

Nesse processo, nota-se a importância da capacitação técnica e pessoal do profissional, além da sensibilidade e amor pelo que faz. É preciso acreditar sempre tanto no nosso poder de ajuda no caminho de cura, quanto no potencial de crescimento do cliente.

Evidentemente que, enquanto terapeuta e pessoa, tive a oportunidade de aprender muito sobre a maternidade em si. Acredito que a minha experiência de mãe de um casal de filhos contribuiu de forma significativa para a compreensão do processo da maternidade da cliente.

Hoje sinto-me bastante gratificada e feliz. Sim, gratificada por ter, por um período, caminhado junto a alguém que precisava de ajuda; e feliz por estar conseguindo contribuir de uma forma mais efetiva, para a valorização da nossa profissão e, especialmente da ACP. Por olhar para trás e ver o quanto é linda a Psicologia.

Após este episódio, a cliente já retornou ao processo terapêutico por duas vezes, trazendo outras problemáticas que emergiram posteriormente. Fica claro, assim, a confiança existente na relação terapeuta-cliente. Dessa forma, pude perceber com mais clareza que, quando nos envolvemos em um trabalho com seriedade, sensibilidade e amor e buscando a capacitação técnica, sempre somos recompensados de alguma forma. Seja com o crescimento do(a) cliente, seja com o nosso, enquanto pessoa e profissional.

Finalizando, quero fazer alguns agradecimentos especiais: primeiramente à cliente por ter autorizado a apresentação deste trabalho e pelo aprendizado pessoal e profissional que pude adquirir. Ao Psiquiatra Marcones Serrano pela disponibilidade de trocas profissionais. Ao Psicólogo Hélio Pachêco por, muitas vezes, ajudar-me a me conectar com a guerreira que existe em mim. À Psicóloga Edézia Almeida pelas colaborações e incentivo ao meu crescimento profissiona.A Rosa Garcia pela revisão deste texto. À meus filhos, por terem me proporcionado a rica experiência da maternidade. A Jorge Gomes, meu esposo e Psicólogo, pelo incentivo, ajuda na elaboração deste trabalho, mas principalmente, por acreditar tanto na minha capacidade de Ser. Agradeço também a você, colega, pela leitura desta produção. Estou aprendendo a compartilhar e aprendendo com o fazer.

4 – REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

[CURY 97] CURY, ªF. “Depressão Puerperal” pp.206 a 227, in [TEDESCO 97]

[MALDONADO 97] MALDONADO, M.T. “Psicologia da Gravidez – Parto e Puerpério”, Ed. Saraiva, 14ª edição, São Paulo, 1997

[ROGERS 77] ROGERS, C.R.; KINGET, G.M. “Psicoterapia e Relações Humanas”, Ed.

Interlivros, 2ª Edição, Belo Horizonte, 1977.

[SPITZ 91] SPITZ, R. “O primeiro ano de vida”, Ed. Martins Fontes, 6ª edição, São Paulo, 1991.

[SOIFER 1977] SOIFER, R.”Psicologia da gravidez, parto e puerpério”, Ed. Artes Médicas, 6ª edição, Porto Alegre, 1992

[WHITEFORD 92] WHITEFORD, B.POLDEN, M. “Exercícios Pós-Natais”, Ed. Maltese, São Paulo, 1992.

[TEDESCO 97] TEDESCO, J.J.A et alli, “Obstetrícia Psicossomática”, Ed. Ateneu, São Paulo, 1997

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002