EXPERIÊNCIA, COTIDIANO E SUJEITO NÔMADE: TRANSITANDO PELAS IDENTIDADES NAS CULTURAS JUVENIS (um esboço)

Viviane Melo de Mendonça Magro

Pretendo tecer algumas reflexões sobre o que acontece quando nada se parece passar: os detalhes, aqueles desapercebidos, aqueles que nos escapam da racionalidade. Nesses detalhes pretendo me situar de modo distraído, como quem contempla e é contemplada em acontecimentos vividos, num turbilhão de sentidos cujo o centro não há nada. Estou falando do cotidiano, da vida cotidiana[1] .

A primeira imagem que encontro é da obra em litografia do artista gráfico holandês M. C. Escher, cujo o título é “ A Mão Com Uma Esfera de Reflexão”. A imagem é de um globo espelhado na mão do artista através da qual ele pode ter uma visão mais completa daquilo que há a sua volta do que a fosse pela observação direta. Ele vê o chão, as paredes, o teto, todos os objetos e ele próprio na reflexão, ainda que de forma comprimida e distorcida. A sua mão segurando o globo, o ambiente onde ele está e a si próprio desenhando é a imagem desta obra.

Não tenho a intenção de fazer interpretações sobre a obra de Escher. Acredito que muitos já as fizeram. Mas me farei uma pergunta: no reflexo da esfera, onde se encontra o centro da imagem? Olhando mais acuradamente, não é difícil responder: entre os dois olhos. O centro entre os dois olhos do artista que se olha e é agora olhado por nós. Mas ainda não é o centro de toda a obra, de toda a sua composição. Fazendo as medições corretas descobriríamos que o centro estaria em algum lugar no peito do artista, ou no seu umbigo. Mas pouco importa, pois o centro depende do enquadramento[2] que estaremos dando a obra. O centro está potencialmente em todo o lugar. Mas quero enquadrar o reflexo da esfera cujo o centro está entre os olhos do artista que se olha e é olhado por nós. Essa é a imagem que eu quero: os olhares que compõe o cotidiano, um olhar fenomenológico, uma experiência sensível entre corpos sensíveis.

O sociólogo José Machado Paes ao discorrer as rotas do cotidiano[3] coloca a abordagem fenomenológica como uma das suas principais abordagens. O olhar fenomenológico é, em suas palavras, intuitivo, mais “bisbilhoteiro”, mais “matreiro”, que se imiscui na multidão que pretende estudar, acotovelando, apalpando-se: um olhar arruadeiro.

Volto então ao meu olhar vagabundo, arruadeiro. A imagem agora é um poema de um fantástico poeta do pantanal, Manoel de Barros[4] .

POEMA

A poesia está guardada nas palavras – é tudo o que

eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.

Sobre o nada eu tenho profundidades.

Não tenho conexões com a realidade.

Poderoso para mim não é aquele que descobre o ouro.

Para mim poderoso é aquele que descobre as

Insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado e chorei.

Sou fraco para elogios.

Percorrendo as insignificâncias e o nada do cotidiano, as repetições e os acontecimentos, deparo-me com a figuração do sujeito nômade construído pela pensadora feminista italiana, que mora hoje na Holanda, Rosi Bradotti.

Bradotti[5] , situando suas reflexões no momento histórico pós-moderno[6] , evoca a urgência de se elaborar afirmações alternativas, apreender as pessoas diferentemente do sujeito, inventar novas abordagens, novas imagens e novos modos de pensamento, movendo-se além constructos conceituais dualísticos e monolíticos próprios de período falocentristas, baseado na racionalidade masculina oposta e superior a uma irracionalidade feminina.

Diante dessa urgência, a identidade no tempo pós-moderno nos interpela a constituí-la por meio de subjetividades alternativas e por facetas do que Bradotti denomina de “sujeitos nômades” – sujeitos não fixos, rizomáticos, abertos e disponíveis ao horizonte das possibilidades, das incertezas, do devir, e da multiplicidade; e também, como nos coloca outro italiano, o psicanalista Mauro Maldonato[7] , por uma identidade que é nascida da passagem, do transitar, das experiências vividas, constituídas sim por traços nômades, que se desterritorializa na recusa da apropriação de espaço, da fixidez de ser, onde o sentido de si mesmo não está na meta ou num rumo certo, mas no seu próprio percurso de construção.

Eu continuo no percurso das insignificâncias e fotografo duas meninas[8] , uma de 14 anos e outra de 21 anos, uma negra e outra branca, fazendo juntas um graffiti num muro autorizado do centro da cidade de Campinas, em um evento de graffiti. Nada demais. Ainda não sei o que estão desenhando.

Nada demais até me dar conta dos detalhes transgressivos daquela cena. Elas são meninas em uma cultura juvenil de periferia predominantemente masculina: hip hop. Elas legitimaram um espaço de expressão para si mesmas, elas fazem graffiti. Uma é negra e outra é branca. Elas estão num contexto de tensões raciais ainda fortes no país da suposta “democracia racial”, onde o/a negro/a ainda é alvo de injustiças e exclusão social, onde a cultura hip hop vai se tornar uma resistência – sendo na sua origem um movimento de jovens negros da periferia. Elas estão juntas em uma trabalho comum, mas o que faz uma branca ali, no espaço de jovens negros? O que fazem elas duas ali tão jovens protagonizando uma postura política e de cidadania característica do hip hop quando a juventude de periferia é representada como violenta e ameaçadora?

O que vejo são atos transgressivos que as revelam como sujeitos nômades, ou que constróem a possibilidade de nomadismo da própria experiência juvenil, pois fogem de qualquer necessidade de fixidez em conceitos, padrões e teorias. São meninas, são jovens, são negra e branca, são pobres, e fazem graffiti. Nada demais se não fossem as representações monolíticas que tentam prendê-las… Aqui está o graffiti que produziram: três meninas enforcadas!

Transitando nesta cena, nos detalhes transgressivos, esbarrando-me no que não vi, no que não descrevi, nos outros detalhes, nas sombras, me sinto tão nômade quanto elas: no trânsito de minhas experiências, meus pensamentos, enquanto mulher, sou afetada pelas imagens que me interpelaram, e que ainda me fazem construir outras imagens, imagens sempre transeuntes na corrente das experiências que são insignificâncias – no sentido poderoso dado a elas por Manuel de Barros- e que se manifestam na vida cotidiana.

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1. Pais, José Machado Nas rotas do cotidiano. Revista Crítica de Ciências Sociais 37:105-115, 1993.
2. O enquadramento do qual estou falando não é o do ajustar, adaptar ou aprisionar à um determinado padrão, mas no sentido do ato fotográfico ou cinematográfico, uma captação sensível de um acontecimento que nos interpela, com determinados elementos de luz e sombra, presença e ausência.

3. Op.cit.

4. Barros, Manuel Tratado Geral das Gradezas do Ìnfimo. São Paulo: Editora Record, 2001.

5. Braidotti, Rosi Nomadic Subjects –embodiment and sexual difference in contemporary feminist theory. New York: Columbia University Press, 1994.

6. Braidotti define o período pós-moderno como de profundas transformações do sistema econômico de produção que tem impactado as estruturas simbólicas e sociais tradicionais da modernidade, mudanças essas que apontam para o declínio dos sistemas baseados no Estado e na autoridade masculina.

7. Maldonato, Mauro A subversão do ser- identidade, mundo, tempo, espaço, fenomenologia de uma mutação São Paulo: Peirópolis, 2001.

8. Aqui estou me referindo ao trabalho de campo para a tese de doutorado que desenvolvo na Faculdade de Educação da UNICAMP sobre identidade e experiência de meninas no graffiti.

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002