Experiências no III Fórum Internacional

Henriette T.P.Morato

O primeiro movimento para participar no III Fórum Internacional da ACP, em Agosto de 1987 em La Jolla, USA, manifestou-se através da oportunidade única de entrar em contato direto com pessoas que trabalham na Abordagem Centrada na Pessoa, em várias áreas de atuação, com as mais variadas formas de prática e as reflexões mais atuais. Mas, aliado a essa possibilidade, havia também o desejo de experimentar uma vivência numa comunidade internacional de aprendizagem (150 pessoas), representada por quinze países.

As trocas de experiências pessoais e profissionais vividas foram tão significativas que não poderiam deixar de serem comunicadas. E esse relato visa retomar o processo e procurar expressar o sentido desses Fórum da ACP.

1. Um pouco do_“Espírito” do I e do II FÓRUNS

Acho que gostaria de apresentar, em primeiro lugar, o sentido etimológico da palavra FÓRUM. Isto porque acredito que a escolha desse nome para representar essas reuniões bi-anuais da ACP não foi casual.

Para Silveira Bueno (1968), FÓRUM palavra de origem greco-latina e quer dizer o mesmo que Foro, Foras, Fores. FORA vem de PHOROS, que significa O QUE LEVA. Esse sentido parece estar ligado ao AGORA que era uma praça ou mercado fora da cidade, onde se realizavam assembléias para ministrar justiça, código de leis ou posturas éticas.

Partindo desse significado etimológico, FÓRUM seria uma assembléia para discussão das posturas dentro da ACP realizada fora do contexto habitual, e seguindo os esquemas de workshops; seria, assim, diferente do sentido usual de CONGRESSO, pois já traz em si o sentido de se vivenciar experiências dentro da Abordagem.

A idéia de se organizar o I Fórum Internacional partiu do Dr. Alberto Segrera, professor da Universidade Ibero-americana, no México. Depois de ter participado de muitos workshops para aprendizagem experiencial da Abordagem, Segrera concluiu que nenhuma dessas experiências preenchia sua necessidade de participar de um encontro com pessoas de várias partes do mundo que estudavam e praticavam a ACP, a fim de discutirem suas dúvidas, trocarem experiências e estabelecerem contatos mais constantes apesar das distâncias. Com isso, as pessoas seriam estimuladas a escrever mais sobre seus trabalhos e experiências (Segrera, 1984). Surgiu, assim, o 1 Fórum internacional, realizado na cidade de Oaxtepec, em Morelos, México, de 27 de Junho a 4 de Julho de 1982, sobre o qual escreve DAVID CAIN (1984) : “O objetivo do 1 Fórum era promover um encontro de trabalho para sintetizar as diversas contribuições e encarar a perspectiva do status corrente da ACP.. . e suas contribuições possíveis para a solução dos problemas críticos dos anos 80” (p. ).

A partir desse Fórum, estabeleceu-se uma rede internacional de comunicação e foi possível organizar o 1º. Fórum. Dessa vez, a promoção foi do Dr. Brian Thorne, da University of East Anglia, em Norwich, Inglaterra, de 14 a 21 de julho de 1984. A temática proposta foi “Treinamento na Abordagem Centrada na Pessoa”. Na opinião de DAVID CAIN (1984) foi uma experiência enriquecedora, pois os “papers” apresentados e as discussões revelaram a internacionalidade da Abordagem bem como a riqueza das diferenças na forma e nos “settings” de trabalho. Escolheu-se os Estados Unidos para sediar o próximo Fórum.

2. O III Fórum

Por razões práticas, o III Fórum Internacional só pode ser realizado em 1987, em La Jolla, Califórnia, de 07 a 14 de agosto. O tema proposto foi “Similaridades e Divergências na Abordagem Centrada na Pessoa”.

Basicamente, foi organizado como um encontro residencial, com alojamentos e refeições conjuntas, no Campus da University of San Diego em La Jolla. As atividades iniciaram-se com uma recepção informal para os participantes, seguida de um encontro de comunidade, do qual participaram todas as pessoas presentes (150 mais ou menos), e que provinham de 22 países (Alemanha Ocidental, Argentina, Austrália, Bélgica, Brasil, Chile, Dinamarca, Escócia, Estados Unidos, França, Holanda, Hungria. Inglaterra, Itália, Iugoslávia, México, Japão, Polônia, Portugal, Rússia, Suíça e Turquia), onde se discutiam questões gerais da organização e onde foram apresentados, durante o que se chamou “International College”, um panorama do desenvolvimento da ACP em cada um dos países participantes (referente a essa apresentação, há 2 fitas de vídeo disponíveis no Centro de Documentação do Núcleo Paulista da ACP) . Esses encontros de comunidade ocorriam uma vez por dia durante os sete dias do Fórum. Para mim, foram os momentos mais significativos da semana, onde pude perceber os movimentos de um grupo buscando encontrar-se e organizar-se ajudando na expressão e comunicação uns dos outros.

As outras atividades do IV Fórum constaram de: sessões de comunicação paralelas (10 ao todo), pura apresentação dos trabalhos inscritos (nem todos os participantes apresentaram trabalho, pois não era condição para inscrição, o que também gerou muita controvérsia) ; ou painéis para discussão ou demonstrações praticas de trabalhos; e grupos de encontro com 12 participantes cada. Esses grupos menores facilitavam a expressão dos que não se sentiam à vontade para se comunicarem nos encontros de comunidade.

Embora questionável quanto à sua estrutura um tanto formal e diretiva, esse esquema facilitou uma aprendizagem vivencial do processo de grandes grupos dentro da Abordagem Centrada na Pessoa, permitindo que nos encontros de comunidade os participantes transcendessem a necessidade de palavras e pudessem criar um cooperativismo para ajudar a expressão de sentimentos e sua comunicação nos momentos de maior intensidade afetiva.

Contudo, as aprendizagens de uma vivência em grupo não se resumem ao formalismo de um esquema proposto. As necessidades e interesses individuais ou de grupos específicos buscavam encontrar-se principalmente nos contatos informais – Dessa forma, dado o interesse e a similaridade de problemas, dificuldades e realidades, os latino-americanos presentes ao Fórum se reuniram e propuseram-se criar uma rede permanente de intercâmbio de bibliografia e informações. Durante três meses, um representante ficaria encarregado de receber as comunicações de todos e as distribuiria aos demais. Essa proposta, que parecia atender s necessidades de comunicação entre latinos foi levada a termo somente por 3 meses, infelizmente. Necessitávamos mas não atuamos . . . Uma pena, sem duvida, pois sua criação visava um entrelaçamento e participação maior para desenvolvimento e eventos, já que as distâncias e problemas econômicos são tão grandes, dificultando enormemente nosso crescimento. Dividir projetos e visitas poderia facilitar a obtenção de recursos e viabilizar sua execução, com economia para todos.

De qualquer forma, a partir dessa reunião dos latino-americanos, foi proposta a idéia de se oferecer o Brasil como sede para o IV Fórum, já que facilitaria a participação de grande número de profissionais latinos ligados à Abordagem e que teriam maiores restrições de participação, caso o fórum fosse em um pais mais distante.

Essa proposta foi levada ao último encontro de comunidade, como uma idéia dos latinos em geral. Além das dificuldades econômicas, salientou-se o grande número de profissionais que trabalham na ACP na América Latina, seus interesses e produção bem como as dificuldades de intercâmbio pelas distâncias. A proposta foi apoiada por virias pessoas, depois de algumas discussões de participantes de outros paises (Escócia e Turquia) que também se ofereceram como sede. A resolução e conciliação surgiu ao se propor a Escócia como segunda alternativa para sediar o IV Fórum, caso o Brasil não pudesse viabilizar seu oferecimento. Além disso, ficou proposto ser a Escócia a sede para um Encontro Europeu em janeiro de 88. Quanto à Turquia, que também se propunha como sede para assim fomentar o desenvolvimento da ACP em seu meio, foi escolhida como o lugar para o próximo Cross-Cultural Program, desenvolvido por Charles Devonshire e Alberto Zucconi na Europa.

Dessa forma, a condução desse processo da comunidade para a escolha da sede do IV Fórum revelou a possibilidade de convergência apesar de diferentes interesses. Uma aprendizagem vivencial do processo no próprio e pelo próprio processo. Assim, do ponto de vista profissional, toda essa experiência foi extremamente rica, onde, através da vivência integrada de cognição e sentimento foi possível compreender os princípios da Abordagem: a necessidade e a suficiência das condições básicas em movimento, a facilitação e o processo das comunidades de aprendizagem, de que fala ROSENBERG(1986).

Ter participado dessa experiência do III Fórum representou abordar um tema muito complexo: similaridades e divergências em contato. Pude perceber que busca das diferenças é essencial para o crescimento e o conhecimento da própria identidade.

Nesse sentido, a experiência mais marcante foi sentir–me pertencendo a uma grande e internacional comunidade, que tem o sobrenome de Abordagem Centrada na Pessoa, apesar da enorme diferença entre seus membros: línguas, costumes, vivencias, níveis de poder, enfoques, contradições internas.

Não acredito que tenha sido casual a escolha do tema do Fórum. As divergências existem, mas em todo o processo pude perceber a força das premissas básicas da ACI, onde, através do clima de aceitação das pessoas umas pelas outras com suas diferenças, da congruência e autenticidade na comunicação de idéias e sentimentos e na capacidade de empatizar-se com as diferenças do outro, é possível haver proximidade e comunicação que transcendem as diversidades e até mesmo a expressão verbal. Foi poderosamente significativo perceber-me numa comunidade tão diferente, mas tão próxima que me permitia, ao mesmo tempo, um sentido de ser através de estar pertencendo e de pertencer em estar sendo.

E foi vivenciando esse processo que percebi um sub-tema permeando todo o Fórum: a política do poder. Veio aí, novamente a expressão da tendência atualizante, pela qual é necessário desenvolver-se todo o processo de ajuda para o crescimento: a recolocação do “locus” (poder) de controle dentro da própria pessoa, a restauração do poder pessoal e/ou a restauração do poder da comunidade (ROGERS, 1977). Isso expressava-se nas discussões sobre semelhanças e divergências entre Abordagem Centrada na Pessoal (ACP) e Terapia Centrada no Cliente (TCC) ; importância ou não de institucionalizar ambas, ou somente a TCC, já que as pessoas nela envolvidas preocupam-se com técnicas e seu treinamento. Notei a competição pela predominância e capacitação (poder, portanto) da ACP ou TCC sobre as formas e métodos de trabalhos, já que o grupo mais envolvido com formação e treinamento de terapeutas (TCC), com programas específicos, diziam-se estarem respeitando mais os fundamentos da Abordagem por estarem ligados ao foco (o da terapia), de onde partiram as idéias de Rogers; ao passo que o grupo mais preocupado com a expansão e abrangência da Abordagem (ACP) voltava-se para um aspecto social mais amplo e um tanto descaracterizado na opinião do grupo da TCC.

Enfim, ficaram questões: há uma competição teórica (ACP) versus prática (TCC)? Ou há uma competição intercontinental entre USA (mais ACP) versus Europa (mais TCC)? Ou ainda, há uma competição entre opressores (primeiro mundo) versus oprimidos (terceiro mundo), já que os países latinos não se sentiam representados nessa competição? Haveria, assim, a existência de um outro tipo de confronto onde, embora não muito representados, os países socialistas e Japão (Oriente, portanto) eram bem mais respeitados que os latinos. refletindo, então, uma preponderância do hemisfério Norte versus Hemisfério Sul, e não leste versus oeste.

Essas questões sugerem a urgência de transformações sociais. E este e o tema para o IV Fórum: recolocação do poder pessoal e do grupo face as transições de nosso mundo atual e a necessidade de um novo comprometimento pessoal e grupal em nosso jeito-de-ser centrados na pessoa.

Referências_Bibliográficas

1. CAIN, D.J. – “Second International Fórum in Norwich, England”. Renaissance vol . 1 . no. 3. 1981.

2. ROGERS,C.R. – Sobre o Poder Pessoal. São Paulo: Martins Font e dJTgT7

3. ROSENBERG, R. L. — “Person — Centered Workshops for families”. Unpublished paper. 19SC.

4. SEGRERA, A.S.- Proceedings of the first International Fórum on the Person-Centered Approach, México City: Universidad Iberoamericana, Centro de Difusión y Extensión Universitarias, 1984.

5. SILVEIRA BUENO – Grande Dicionário Etimológico Prosóico da Lingua Portuguesa. São Paulo: Ed. Saraiva, 1968.

Publicado no Boletim Paulista da ACP – São Paulo – no.7 – abril maio junho 1989