GRUPO DE ENCONTRO: PROJETO DE VIDA

(Anotações sobre o processo vivenciado)

Ivana Lúcia Borges C. Rizvi

Eva Lúcia da Silva

Hoje que a tarde é calma e o céu é tranqüilo,

E a noite chega sem que eu saiba bem,

Quero considerar-me e ver aquilo

Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo

Que fui quem foi aquilo em torno meu,

Salvo o que o vago e incógnito desejo

De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo

Minha atenção sobre quem fui de mim,

E nada de verdade em mim albergo

Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,

Segui por dois caminhos par a par.

Fui com o mundo, parte da paisagem;

Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço

Que sou diverso no que informe estou.

No meu próprio caminho me atravesso.

Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,

Vários trazidos de outros mundos, e

No mesmo ponto espacial sensível

Que sou eu, sendo por estar aqui?

Serei eu, porque todo o pensamento

Podendo conceber, bem pode ser,

Um dilatado e múrmuro momento,

De tempos-sêres de quem sou o viver?

(Fernando Pessoa, in Cancioneiro)

Nosso trabalho conjunto de preparação e facilitação de grupos sobre Projeto de Vida teve como ponto de partida a “provocação” de uma amiga comum que, conhecedora do nosso interesse profissional por trabalhos com grupos, de nossa atuação em facilitação de grupos e da afinidade que desenvolvíamos, sugeriu que organizássemos um grupo de encontro compartilhando sua facilitação. A provocação nos levou a explorar com carinho essa possibilidade, até decidirmos concretizá-la.

A decisão de que os grupos de encontro que facilitaríamos em conjunto teriam como tema o Projeto de Vida foi tomada considerando que uma das facilitadoras já vinha trabalhando e se aprofundando nesse tema há algum tempo, e que o tema era e é de interesse para a outra facilitadora. Uma grande dose de paixão pelo trabalho com grupos e por esse tema, esteve presente no nosso processo de decisão.

Apresentamos neste trabalho as crenças, valores, pressupostos teóricos e intenções que norteiam a nossa prática, um relato do processo de decidir se queríamos e podíamos compartilhar a facilitação de grupos, o processo de sua organização e facilitação e a avaliação de todo o processo, um trabalho que se encontra em construção e que tem vários ângulos a serem explorados e aprofundados no nosso caminhar nessa experiência.

Considerando nosso pouco tempo disponível, optamos por escrever sobre a experiência vivida relacionando-a com idéias, crenças, valores e compreensão da realidade desenvolvidas ao longo da nossa vida, deixando a revisão da literatura que lhe dê sustentação teórica para um segundo momento.

1. CONTEXTO SÓCIO/ECONÔMICO/CULTURAL ATUAL

“Tem dias que a gente se sente

Como quem partiu ou morreu

A gente estancou de repente

Ou foi o mundo então que cresceu

A gente quer ter voz ativa

No nosso destino mandar

Mas eis que chega a roda-viva

E carrega o destino pra lá”

(Chico Buarque de Hollanda, Roda Vida)

A intensificação da compressão do tempo-espaço que estamos vivendo neste final de milênio, com a aceleração tecnológica e do giro do capital, tem tido um forte impacto na vida individual, social e cultural, modificando modos de pensar, sentir e agir, muitas vezes de maneira traumática, e trazendo como conseqüência a volatilidade, dentre outras coisas, de valores, idéias, hábitos de vida e de consumo de bens e serviços. Cada vez mais os serviços oferecidos são efêmeros e para serem consumidos rapidamente.

Esse cenário do capitalismo liberal, também chamado do capitalismo flexível, impacta as vivências imediatas das pessoas, dificultando planejamentos a longo prazo e exigindo uma adaptabilidade à volatilidade e à intensificação da experienciação de rutura, numa tal profundidade, que eleva os níveis de tensão e ansiedade para patamares insuportáveis. Em decorrência, há o aparecimento das mais variadas disfunções psicológicas e orgânicas, incluindo-se aí a ansiedade por obter ganhos a curto prazo, nas mais diversas esferas da vida. Ganhar já, é a regra em tal cenário em que as pessoas não conseguem identificar os caminhos que devem tomar e os riscos que vale a pena serem assumidos. Têm suas necessidades manipuladas pela mídia, assim como são manipulados seus desejos com promessas que jamais se concretizarão, mas que a elas oferecem a ilusão de, ao adquirir determinado produto ou serviço anunciado, estarem concretizando-os. As pessoas, ao consumirem, lutam para criar uma imagem, e a construção de sua identidade se atrela a essas imagens de sucesso, poder, “status”, força, vitalidade, que lhe são oferecidos. Ao mesmo tempo, esses elementos “ilusórios” que passam a fazer parte da sua identidade também se integram à sua busca de auto-realização e à significação que oferecem ao que experienciam da vida, apartando-as da possibilidade de colocar-se no mundo de modo genuíno. Fruto da volatilidade de valores, algumas pessoas não conseguem, sequer, manter aqueles traços de caráter que valorizam em si e pelos quais gostam de ser valorizadas. Isso termina por levá-las a viver um vazio existencial ou a alienar-se para não contactar esse vazio.

Perversamente, a imagem que lutam para criar precisa ser constantemente modificada de acordo com as determinações da moda, criando o sentido de descontinuidade permanente, de fragmentação da existência. A provisoriedade e a volatilidade em tais níveis de aguçamento têm um enorme impacto negativo sobre as condições desejáveis para que o homem construa suas possibilidades e um projeto de vida, considerando que a construção desse projeto requer, de alguma forma, a manutenção de um sentido de continuidade e de futuro. As regras do atual “admirável mundo novo” não servem também para o estabelecimento de relacionamentos significativos e de um senso de identidade sustentável.

Por outro lado, a vivência de tanta fragmentação, corrosão de relações profundas e duradouras entre as pessoas, permanente risco e fugacidade de sentidos levam o ser humano a ter uma necessidade maior, da qual às vezes não se dá conta com facilidade, de algo mais permanente, mais seguro, de uma identidade menos volátil, nesse ambiente cambiante.

A proposta de um grupo de encontro com o tema “projeto de vida” surge como um espaço e momento que vai ao encontro dessa necessidade e do interesse de muitas pessoas de repensarem e ressignificarem a existência. É um espaço para afirmação de valores atemporais como confiança e compromisso mútuos, fundamentais para uma vida emocionalmente estável.

2. FUNDAÇÃO E ALICERCES DESSA CONSTRUÇÃO

“Há muito tempo que eu saí de casa

Há muito tempo que eu caí na estrada

Há muito tempo que eu estou na vida

…………………………………………………..

E aprendi que se depende sempre,

de tanta muita diferente gente,

Toda pessoa sempre é as marcas

das lições diárias de outras tantas pessoas

E é tão bonito quando a gente entende

que a gente é tanta gente

onde quer que a gente vá

E é tão bonito quando a gente sente

que nunca está sozinho

por mais que pense estar

E é tão bonito quando a gente pisa firme

nessas linhas que estão nas palmas de nossas

mãos

E é tão bonito quando a gente vai à vida

nos caminhos onde bate bem mais forte

o coração”

(Gonzaguinha, Pessoa = Pessoas)

A nossa proposta de trabalho e seu desenvolvimento estão lastreados por alguns pressupostos teóricos, concepção de homem e crenças que assumimos como fundação e alicerce para nosso posicionamento profissional e na nossa vida pessoal.

Compreendemos que o homem é um permanente vir-a-ser. É livre para construir sua existência e constrói-se ao existir, plasmando a si e ao mundo pelas suas escolhas, pela sua atividade. Desse modo, objetiva-se. Seu destino, sua vida, são sujeitos e objetos da sua ação ou inação. A relação entre sua singularidade e seu destino não é acidental, o seu projeto de vida é fruto de sua ação, de suas escolhas, o seu destino não é algo que acontece sem a sua participação, e se quiser ser sujeito desse destino e (re)criar o seu projeto de vida precisa questionar os caminhos que outros lhe quiseram impor ou traçaram, encarar as muitas possibilidades de transformação e enriquecimento que pode introduzir na sua vida, ficando “cara a cara” com o que faz parte da sua história, e que nem sempre quer ver.

O processo de contínua criação e recriação da subjetividade humana e de ampliação da humanidade do homem está vinculado à cultura, à história dos homens que o precederam e com os quais convive, e, de modo especial, às histórias daqueles que foram ou são significativos nas suas vidas. Em reciprocidade, o homem e o mundo se constituem.

Nos tempos atuais, pouco o homem pode interferir no fluxo do que vem do mundo, na compressão do tempo e do espaço, na manipulação da mídia, nos apelos para descartar valores atemporais e éticos, mas pode, de maneira ativa, controlar a maneira como se posiciona frente a essa “invasão”. A partir de suas escolhas e do significado que atribua ao que está sendo exprienciado, pode, pelo menos em parte, alterar o impacto do mundo sobre ele, expandindo a vida e a alegria de viver.

Acreditamos que o homem, além de ser capaz de se construir, é capaz de significar e ressignificar o que experiencia na interação com o outro, com o mundo, de forma tal que sua conservação e desenvolvimento sejam favorecidos, apesar das dificuldades, obstáculos e aridez que encontre em seu caminhar.

Na nossa ação enquanto facilitadoras, privilegiamos o ser humano em movimento na sua totalidade significativa momentânea, em constante mutação e desenvolvimento. É com esse ser humano multi-facetado, vivo, em processo, construtor da e construído pela cultura, e em construção permanente que queremos nos relacionar, sem perder de vista que também nós estamos em processo de construção, além de vulneráveis e desejosas de ser modificadas por essa relação. Reconhecemos a simetria entre o valor da subjetividade dos participantes dos grupos e das nossas subjetividades, e queremos nos relacionar com toda sua/nossa multiplicidade e diferença, por acreditarmos que é nesse tipo de relacionamento que está a riqueza da vida e a possibilidade do encontro gerador de vida.

Enquanto facilitadoras, somos colaboradoras de um processo que todos criamos juntos, como diz Maureen Miller, como uma “dança de possibilidades” em que nada está garantido, e onde nos oferecemos como parceiras que se disponibilizam para interagir de modo genuíno e valorizar o outro na sua diferença, caminhando com ele e com o grupo no seu processo de construção.

Vemos o grupo como um espaço privilegiado para experienciação e expressão dos sentimentos e polaridades humanas, para a aprendizagem de cada um sobre si, sobre os outros e sobre como se comunicar melhor, para os encontros existenciais, para recuperação da complexidade e multiplicidade do homem, e como um ponto de partida para o resgate de valores profundos, do contato humano genuíno, da confiança, um momento de aprendizagem para a descoberta do significado da vida e para a construção de um projeto de vida, o que acontecerá no caminho de cada um tornar-se.

Como decorrência, no nosso trabalho com o grupo, privilegiamos o poder da relação, da interação, e procuramos usar nosso poder para facilitar as expressões individuais e grupais de modo a contribuir para que o grupo e cada participante vá assumindo seu próprio poder. A facilitação não é privilégio nosso, mas de qualquer participante do grupo. Uma vez contituído o grupo, todos nos tornamos facilitadores, de uma forma ou de outra, e aí reside a riqueza e possibilidade de atualização que o grupo oferece, e o seu poder.

3. INTENÇÕES E INTERESSES QUE NOS MOBILIZAM

“E é sempre melhor o impreciso que

embala do que o certo que basta,

Porque o que basta acaba onde basta,

e onde acaba não basta

E nada que se pareça com isto

devia ser o sentido da vida…”

(Álvaro de Campos, Obras Completas de

Fernando Pessoa)

Nosso interesse maior com esses grupos, interesse ao qual os demais estão subordinados, é contribuir para que os participantes descubram caminhos para realizar em suas vidas as possibilidades que vão construíndo, e a critério de sua decisão consciente, de forma a expandir sua humanidade. Interessa-nos que os participantes possam fortalecer, resgatar ou desenvolver a liberdade de fazer escolhas e de assumir, significar e resignificar o seu vivido, avaliando e criando ou recriando seu projeto de vida a partir do experienciado, do vivido. Para tal, é importante que possam perceber o que experienciam como valioso e sentir que podem conjugá-lo com os sentimentos que surgem associados ao que está sendo experienciado, resgatando a congruência e inteireza que, momentâneamente, possam ter ficado impossibilitadas pela cristalização dos sentidos atribuídos.

No mundo pós moderno, as relações sociais têm sido colocadas a serviço da utilidade, da produção, em detrimento do encontro, da expansão e desenvolvimento humanos, de forma que a convivência intensiva entre os participantes de um grupo de encontro, com toda sua pluralidade, abre a possibilidade da retomada ou ampliação de um modo de se relacionar onde o utilitarismo dos relacionamentos esteja ausente e em que o participante se sinta aceito e considerado pelo que é, na sua genuinidade e singularidade, e não pelo que tem ou pode ser útil para o outro. Um modo de se relacionar em que valores e crenças possam ser compartilhados, na prática, na interação entre os participantes. Em que a mútua dependência seja experimentada e reconhecida como importante para a manutenção de relacionamentos propiciadores de crescimento.

Esse tipo de convivência que privilegia a multiplicidade do coletivo grupal, proposta por nós para esses grupos, e por outros grupos de encontro da Abordagem Centrada na Pessoa, pode contribuir para a descoberta e resgate de relacionamentos significativos e amplia a possibilidade de uma atualização existencial que interesse aos participantes.

Estar em interação com o diferente, descobrir o outro, é uma oportunidade para que o participante possa objetivar algo que é seu também, é um caminho que lhe possibilita a vivência de um processo de ampliação da liberdade pela descoberta da possibilidade de significar e ressignificar infinitamente o que é experienciado. É na relação com os semelhantes que o homem constrói a sua vida e desenvolve sua humanidade, e é também nessa relação que está a possibilidade da sua riqueza e ampliação permanente do seu ser.

Estar em grupo com abertura para dar-se conta do que está sendo experienciado no momento, atribuindo significados a esse vivido e sendo confirmado pelo outro, é algo para muitos muito novo e que é vivenciado como a descoberta de uma fonte de vida. Encontrar é sentir, refletir e descobrir juntos, é compartilhar com os outros a atualidade existencial, e implica em abertura para as diferenças e para a multiplicidade de si e dos outros. E é esse tipo de convivência com os parceiros de relação que vai criando as necessidades nas pessoas, inclusive dessa relação, com a conseqüente ampliação da consciência e da vida.

Há ainda um outro fator que nos interessa e que tem merecido nosso cuidado. Entendendo que a pós-modernidade levou as pessoas a mudarem sua relação com o tempo, e que muitas delas não conseguem mais encontrar tempo para cuidarem de si, e considerando também as dificuldades financeiras de muitos dos potenciais participantes dos grupos que oferecemos, um dos nossos interesses tem sido identificar e introduzir condições que possibilitem o melhor aproveitamento possível do tempo passado no grupo e dos recursos financeiros, muitas vezes escassos, investidos no auto-desenvolvimento.

4. O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA PROPOSTA OU PREPARATIVOS PARA A VIAGEM

“A louca agitação das vésperas da partida!

Com a algazarra das crianças atrapalhando tudo

E a gente esquecendo o que devia trazer,

Trazendo coisas que deviam ficar…

Mas é que as coisas também querem partir,

As coisas também querem chegar

A qualquer parte! – desde que não seja

Este eterno mesmo lugar…”

(Mário Quintana , do poema Viagem)

Nos preparativos para a viagem, medos, atrapalhações e exigências se fazem presentes. E para a viagem com os grupos a tudo isso junta-se o desejo de que eles sejam uma experiência enriquecedora para todos os participantes, e que nós, enquanto facilitadoras, possamos estar agregando algo diferente e igualmente enriquecedor para a nossa prática profissional e crescimento pessoal.

4.1. Revisão do projeto de vida das facilitadoras:

Só podendo esvaziar-me das minhas verdades,

posso encantar-me com as suas.

Só podendo viver minhas dores,

posso abrir-me para ouvir as suas.

Dores que me ferem a alma,

do mesmo jeito que ferem a sua.

(Ivana Rizvi, Do Mesmo Barro Feitos)

No início havia dificuldades que nos pareciam consideráveis. Como viabilizaríamos um projeto genuinamente comum com a distância geográfica que nos separava? Por onde começar a construir essa proposta?

No decorrer de muitas horas de conversa fomos descobrindo que a viabilidade de nossa proposta passava pela viabilidade de fazermos uma revisão conjunta do nosso próprio projeto de vida. Esse nos parecia um bom “teste” para avaliarmos a nossa real disponibilidade, grau de abertura, expressividade e confiança, ao nosso ver indispensáveis para que pudéssemos compartilhar a facilitação de um grupo. Nosso propósito era e é, a cada novo grupo, estarmos inteiras e disponíveis para sermos instrumentos genuínos de facilitação, e isso implicava em irmos com todas as “nossas coisas na bagagem”, significava avançarmos nas nossas possibilidades de expansão da vida, mas também em podermos tocar nas incongruências que pudessem estar permeando nosso viver. Significava que teríamos que estar transparentes e desprovidas de defesas, também entre nós.

Embarcamos na proposta de vivenciar, criar e recriar um modo de relação que acreditamos possível mas não muito freqüente no cotidiano das pessoas. Uma relação onde estejamos desprovidas de preconceitos, papéis, racionalizações teóricas, tentativas de uso unilateral do poder – na revisão do nosso próprio projeto – e/ou, quando presentes esses fatores, que possamos reconhecê-los, falar abertamente sobre eles e ressignificá-los em nossas vidas. Um modo de relação que, em alguns momentos, parece estar além dos nossos próprios limites e que, na medida em que vai sendo construída, nos permite estar mais disponíveis para o grupo. Para isso, buscamos oportunidade para nos encontrar antes e depois de cada grupo, e experimentar criar entre nós aquelas condições que queremos facilitar para outros e que nos possibilitem atualizar-nos, ampliando nossa consciência e humanidade.

Esses encontros têm sido momentos extremamente ricos, nos quais, como diz o poema, muitas vezes “esquecíamos de coisas que queríamos levar e trazíamos coisas que deviam ficar, porque as coisas também queriam chegar”. E as deixávamos/deixamos chegar, nos permitindo tocá-las de perto e escutar os recados que trazem. Nessas oportunidades, procuramos estar abertas para descartar o que identificamos já não ser necessário, procuramos estar abertas para enriquecer a nossa bagagem com o que podemos aprender, sabendo que nesse processo há mortes que são necessárias. Dores, alegrias, conquistas, perdas, escolhas, têm permeado nosso processo. Essa caminhada tem nos deixado vivencialmente muito perto do que acreditamos. Que nossas dúvidas, contradições, dificuldades, sentimentos e nosso processo de ampliação da consciência não são diferentes do que ocorre com cada uma das pessoas que participam do grupo, apesar das singularidades e diferenças existentes em cada um de nós.

O crescimento que temos experienciado a cada encontro nosso contribui para reafirmar nossa crença nas enormes possibilidades de ampliação da vida, existentes no ato de compartilhar.

Durante o processo de construção da proposta, fomos descobrindo que a distância física não é impeditiva quando estamos disponíveis para o encontro com o outro. Fomos construindo a proposta e continuando a revisão do nosso projeto de vida utilizando os recursos disponíveis, particularmente Internet e telefone. E assim fazemos a cada preparação para um novo grupo.

Os momentos de construção e revisão do folder distribuído e do exercício preliminar foram vividos por nós como extremamente importantes para uma ampliação de nossa flexibilidade e respeito para com as nossas diferenças. Entendíamos e entendemos que cada uma de nós precisava “assinar embaixo” de tudo que fosse construído, o que demandava muita conversa sobre pontos em que não havia uma concordância inicial. Em algumas situações, o “teste” final para a permanência ou não das questões do exercício preliminar passou pelo que identificávamos na nossa própria experiência de vida como importante de ser assumido para possibilitar uma ressignificação construtiva.

Enfim, os momentos de construção dos Grupos de Encontro Projeto de Vida têm se configurado para nós como momentos para ampliação da consciência, para nos entregarmos a uma viagem interior e revisão das nossas ambivalências, perplexidades, dilemas, contradições, de modo a, estando em contato mais profundo com nosso ser, melhor facilitarmos a viagem dos participantes do grupo pelo seu próprio mundo e exploração de possibilidades.

4.2. Composição dos grupos:

Entendemos que um grupo de encontro pode ser enriquecido pela presença de homens e mulheres, de participantes de diferentes faixas etárias e condições sócio-econômicas. A heterogeneidade entre os participantes oferece ao grupo múltiplas e criativas perspectivas para ampliação da consciência e revisão do projeto de vida de cada um. É essa relação com o diferente que nos permite criar-nos privilegiando toda a nossa multiplicidade. A única exigência que fazemos é a de que o participante seja maior de idade.

4.3. Infra-estrutura para os Grupos:

A partir da nossa avaliação da vivência ou facilitação de grupos de encontro e imersões, parece-nos ser de maior proveito/rendimento para o grupo que todos os participantes permaneçam no local durante todo o encontro. Observamos que as saídas individuais geravam dispersões e, portanto, perda na intensidade e aprofundamento das relações e do contato do participante consigo mesmo e com os outros. O fato do participante poder priorizar o encontro resulta como um ponto importante para a entrega à vivência do processo grupal. Contudo, temos interesse em experimentar a realização de grupos em regime não residencial, o que possibilita a redução dos custos, e, possivelmente, a participação de pessoas para quem as limitações financeiras são impeditivas.

Um ambiente aconchegante e com possibilidade de estar perto da natureza tem sido também um elemento facilitador do contato das pessoas consigo mesmas e com os demais participantes, e parece configurar-se como um fator interessante para o processo criativo do grupo.

Apesar de sabermos que para o desenvolvimento de um grupo como o que propomos não é necessário outro recurso além da nossa própria presença e disponibilidade para interagir com o grupo de modo genuíno, expressando os sentimentos que emergem a partir do vivido na relação com o grupo, percebemos que nem todas as pessoas encontram na palavra falada a sua melhor possibilidade de expressão. Por isso, nos grupos que facilitamos queremos privilegiar a forma de expressão que emergir como mais facilitadora para o participante ou grupo num dado momento e situação. Para tanto, deixamos à disposição, na sala onde o grupo se reúne, recursos que possibilitem outras formas de se expressar.

4.4. Recursos Utilizados:

Concebemos o Grupo de Encontro Projeto de Vida como um espaço que os participantes podem usar da maneira que decidirem, apesar da proposição “a priori”, no folder, de um objetivo inicial em torno do qual os participantes possam se agregar ao decidirem se inscrever. Não há nada pré estabelecido quanto ao funcionamento do grupo. Oferecemos ao participante no momento em que o convidamos com o folder, e no momento da inscrição com a proposição do exercício preliminar, um estímulo, um tema para reflexão, embora esse tema seja totalmente amplo, chegando a confundir-se com a própria vida das pessoas. E a vida de cada participante e tudo o que a ela está relacionado e é significativo para a atualidade existencial de cada um, parece ser o tema implícito de qualquer grupo de encontro. O participante tem total liberdade para usar ou não o estímulo proposto, e quando o faz, decide como fazê-lo. Da mesma forma cabe a ele escolher os modos de se expressar que o atualizem. O grupo é soberano em suas decisões e funcionamento. Nosso papel é concebê-lo e criar as condições para que ocorra, mas no momento em que nasce, nos tornamos parte dele e compartilhamos a responsabilidade pelo caminho que vai ser trilhado.

Folder

Nosso objetivo com o folder é estimular as pessoas que o recebem a refletirem sobre o tema projeto de vida, para que assim possam decidir se têm interesse em se aprofundar sobre ele. Por isso o iniciamos com algumas considerações sobre a importância de ter um projeto de vida:

Construímos nossa vida ao mesmo tempo em que vamos experimentando os caminhos para construí-la. Quanto mais clareza temos do nosso Projeto de Vida, melhor poderemos escolher os caminhos que contribuam para a sua realização e mais ricos, abastecedores e felizes, para nós e para os outros, poderemos tornar nossa vida e nosso caminhar. Somos dotados de amplas possibilidades que podem ser identificadas e desenvolvidas para que redirecionemos nossas ações no sentido de atingirmos nossos objetivos.

E continuamos levantando algumas questões:

• E você? Está em dia com suas possibilidades e objetivos?

• Sua vida está no caminho que você deseja?

• Você tem um projeto de vida que dá o rumo para as suas ações?

• Você conhece os recursos de que dispõe para atingir seus objetivos?

• O que tem feito para identificar esses recursos, desenvolver e realizar suas potencialidades?

Informamos, então, com o texto abaixo, que o trabalho proposto pode ser um momento para refletir sobre essas questões:

Este Grupo de Encontro pode ser uma oportunidade para que você mergulhe e se avalie sobre estas e outras questões importantes, e descubra novas perspectivas de ação que possam tornar sua vida mais feliz.

Estamos nos oferecendo para facilitar um ambiente onde você possa viver de forma criativa e onde suas necessidades, singularidades e ritmo sejam respeitados e as diferenças entre os participantes sejam vistas como recurso para aprendizagem de todos”.

Consta do folder atual o item “Aspectos abordados no decorrer do encontro”, que não havia naqueles distribuídos para os primeiros grupos. Acrescentamos esse item porque ao mostrarmos anteriormente o folder a algumas pessoas com a solicitação de que opinassem, recebíamos feed-backs de que as informações não possibilitavam aos interessados a compreensão quanto ao “conteúdo” básico do trabalho, e que isso dificultava a decisão quanto à participação. Isso nos preocupava mas não tínhamos idéia de como escrever alguma coisa, considerando que não podíamos prever o que aconteceria nos grupos e que não estávamos nos propondo a facilitar um trabalho estruturado e com etapas definidas, ou a oferecer um treinamento. Conversando sobre o assunto e revendo o processo de três grupos realizados, nos demos conta de que em todos eles havia um processo que era bastante semelhante.

Por caminhos variados, os participantes dos grupos falavam de acontecimentos significativos na sua vida e dos sentimentos associados, de suas realizações. Na interação com o grupo iam surgindo as diferenças e semelhanças entre a fala e a ação, e o impacto do modo de estar no mundo sobre a vida. Desejos, habilidades, características pessoais apareciam nesses relatos de situações significadas como de sucesso ou fracasso e apareciam também durante a construção do processo do grupo, assim como ameaças e oportunidades que iam sendo identificadas a partir da rica interação.

Aos poucos os participantes passavam a falar de seus objetivos e explorar possíveis caminhos a tomar que contribuíssem com o projeto de uma vida mais abastecedora.

Traduzimos esse rico processo, no folder, com os tópicos a seguir:

• Revisitando a sua História de Vida:

Acontecimentos significativos X sentimentos associados

Principais realizações

Semelhanças e diferenças entre discurso e prática e seu impacto sobre o Projeto de Vida

Mudanças significativas vividas e aprendizagens obtidas

• Resgatando suas Possibilidades:

Recursos internos disponíveis e que podem ser desenvolvidos ( desejos, habilidades, conhecimentos, outras características pessoais)

Oportunidades e ameaças ( aspectos impulsionadores e bloqueadores ) do ambiente: pessoas, recursos, etc.

• Planejando o seu Renascimento:

Objetivos

Caminhos

O que fazer (a curto, médio e longo prazos)

Estes tópicos apresentados não são, portanto, um conteúdo a ser seguido por nossa orientação, mas um conteúdo que expressa, com variações, o processo dos grupos.

Um outro motivo pelo qual consideramos importante colocá-lo no folder, é que as ofertas de grupos no mercado estão bastante diversificadas, o que leva os potenciais participantes a exigirem mais clareza quanto à proposta. Por outro lado, isso pode lhes oferecer maior segurança no momento de escolher por qual proposta optar, investindo seu tempo, energia e recursos financeiros.

Como buscamos ampliar nosso campo de atuação tendo nos grupos pessoas que não nos conhecem previamente, e que, portanto, não têm nossa referência pessoal/profissional como ponto de partida para a decisão de participar, mas o “produto” explicitado no folder, esperamos que essa explicitação possa oferecer aos interessados informações que facilitem a escolha.

Um outro item do folder refere-se ao que compreendemos que o participante pode acrescentar à bagagem participando desse trabalho. Vale dizer que aqui não existe nenhuma promessa nem garantia, mas um desejo de que as pessoas consigam agregar à sua bagagem algo de significativo quando voltam para casa. No nosso trabalho com grupos, constatamos que a maioria das pessoas, em proporções diferentes, sente ter vivido uma experiência de expansão.

Compreensão de alguns aspectos do comportamento pessoal que antes não eram claros, maior abertura para novos pontos de vista, identificação de ações que precisam ser implementadas, experiência de ter vivido momentos abastecedores de profundo encontro consigo mesmo e com o outro.

No final do folder atual incluímos trechos de depoimentos de participantes de grupos anteriores e que foram escritos mais ou menos um mês após o grupo, por considerarmos que os participantes explicitam uma diversidade de sentidos que atribuíram à sua participação, o que pode ser de interesse para os potenciais participantes do novo grupo.

“ Pude perceber o que me impedia de colocar a minha vida no caminho que eu quero, que vai me fazer feliz”

“Aos poucos fui deixando de lado os medos naturais de enfrentar o desafio de simplesmente ‘ser’. Para sermos é preciso estarmos livres… encarar-me de frente significa abrir mão de máscaras e armaduras. E como a gente se sente leve, sem essa parafernália”

“ O grupo me ajudou a ver que eu posso fazer muito mais do que acreditava. E, imagine, eu achava que com tantas coisas ruins que já me aconteceram eu não tinha mais chance de reconstruir uma nova vida! ”

“Eu achava que tudo de errado que acontecia comigo era porque os outros não queriam me ajudar, agora eu sei que eu é que não me ajudava”. “… descobri e posso fazer alguma coisa por mim”.

Arrumando as malas

“Tenho o passo marcado

O rumo traçado sem discussão

Tenho um encontro marcado

Com a solidão

Tenho uma pressa danada

Não moro do lado

Não me chamo João

Não gosto nem digo que não

É inútil

………………………………………..

Tira a pedra do caminho…

………………………………………..

Vou correndo, vou-me embora

Faço um bota fora

Pega o lenço agita e chora

Cumpre o seu dever

Bota força nessa coisa

Que se a coisa para

A gente fica cara a cara

Cara a cara a cara

Com o que não quer ver”.

(Chico Buarque de Hollanda, Cara a Cara)

“Alma, vai além de tudo

O que o nosso mundo ousa perceber

Casa cheia de coragem, vida

Tira a mancha que há no meu ser

Te quero ver

Te quero ser

Alma”

(José Renato – Milton Nascimento, Anima)

O modo como o homem se individua plasma sua identidade, seu projeto de vida, daí a importância de que cada um se aproprie da sua história, pelo menos de partes dessa história que impactam hoje a sua vida.

Considerando a influência do processo de individuação sobre a vida e sobre o modo como cada homem se objetiva no mundo, entendemos que o exercício preliminar deva facilitar uma re-visita a esse processo, à história construída por cada um.

Apesar do grupo de encontro privilegiar o “aqui e agora”, entendemos que essa vivência acontece sempre permeada pela historicidade de cada um dos participantes. Com a proposta do exercício preliminar, buscamos convidar/estimular o participante a refletir sobre alguns aspectos que podem ser importantes de serem pesquisados para que se aproprie da sua história e possa ressignificá-la, se assim quiser. Informamos que se ele optar por usá-lo esse pode ser um recurso facilitador para ampliar a comunicação consigo mesmo.

Temos observado que facilitando o processo de comunicação do potencial participante consigo mesmo e a criação de uma maior mobilização, fica aumentada a possibilidade de que, durante a interação com os demais participantes do grupo, ele se dê conta do sentido que suas vivências estão tendo na sua vida e dos possíveis desdobramentos desses sentidos, sentidos esses que apenas ele produz e detém. O exercício preliminar facilita, ao nosso ver, o processo de reflexão, o aceleramento das conexões entre vivências e sentimentos a elas associados, e possibilita o resgate da inteireza dos significados que foram atribuídos a essas vivências e uma possível ressignificação e revisão do seu projeto de vida, o que pode ter início durante o grupo de encontro.

O exercício, em anexo, está na forma que utilizamos para o último grupo, após uma reformatação completa do exercício anterior. Nossa decisão é de mantê-lo como está, pelo menos até que identifiquemos necessidade de revisá-lo. Nele, propomos uma revisita à(s):

• origens e valores familiares

• circunstâncias da concepção e nascimento

• vida familiar, relacionamentos, sentimentos e fatos marcantes da infância e adolescência

• vida escolar, aprendizagens, atividades preferidas e sentimentos associados

• vida afetiva

• escolha profissional e circunstâncias

• valores e escolhas da vida adulta

• vida familiar, profissional, social e afetiva na adultidade

• processo de lidar com dificuldades e escolhas

Acreditamos que cabe a cada participante dar sentido às suas vivências, selecionar o que delas lhe interessa e pode selecionar no momento, e usar o que foi selecionado para rever sua vida e apropriar-se de sua história. Cabe a ele identificar na sua história os significados atribuídos que contribuem para seu projeto de vida e os que não contribuem, mas que em algum momento lhe foram “impostos” e por ele assumidos como se lhe interessasse. Cabe a ele identificar se seu projeto de vida está compatível com os caminhos que o fazem respeitar seus sentimentos, que o fazem sentir-se feliz, com os caminhos que abastecem a sua alma e expandem sua vida e humanidade. Disso ele comunicará ao grupo o que quiser, se quiser, quando e como quiser.

Ao facilitar sua (re)visita à experiência, interessa-nos contribuir para facilitar uma possível ressignificação que lhe interesse, o atualize e lhe possibilite criar ou recriar seu projeto de vida. Como facilitadoras, nos submetemos à avaliação pelo participante da pertinência da nossa proposição e à sua concordância ou não com ela. Ele pode, se preferir e sempre a seu critério, optar por participar do grupo sem fazer o exercício preliminar.

Não nos interessa substituir o participante na sua atividade estruturante, e a experiência tem nos mostrado que, mesmo com a sugestão desse exercício, não o fazemos. Com o exercício é o próprio participante que se informa sobre sua experiência, naqueles aspectos que lhe interessam e dos quais quer e pode se aproximar. Oferecemos um meio para que ele, querendo, possa informar-se sobre si mesmo. Tampouco nos parece que esse exercício preliminar possa ser estruturante do grupo, até porque quando o exercício é entregue ainda não há um grupo constituído, mas uma possibilidade de vir a se constituir. No momento em que o grupo se constitui como tal, é soberano sobre o seu processo e cada participante é autônomo para fazer uso ou não do estímulo oferecido.

Primeiro contato com os viajantes

Decidimos convidar os inscritos para o grupo para um contato preliminar com uma das facilitadoras, por algumas razões: primeiramente por nos parecer que a entrevista pode contribuir para que sejamos mais cuidadosas com cada participante, oferecendo-lhes uma oportunidade para conhecerem melhor a proposta para o grupo de encontro. Tendo essa oportunidade para questionar e falar das suas dúvidas, a pessoa pode ter expectativas mais realistas e se empenhar mais ativamente na construção do grupo e na busca do atendimento às suas necessidades. Agrega subsídios para melhor decidir, a partir desse contato se quer ou não participar do grupo.

Outra razão é que, por morarmos em regiões muito distantes, facilitamos grupos em que participam algumas pessoas com fortes vínculos com apenas uma das facilitadoras (alunos, clientes, colegas, amigos). O contato inicial, nesses casos, é feito pela facilitadora “desconhecida” e ajuda a aproximar o participante dessa facilitadora. Parece-nos que esse tem sido um momento que contribui para que ele tenha mais clareza sobre o diferente papel que a facilitadora conhecida desempenha no grupo e o quanto podem contar com a “desconhecida” também, e com o grupo como um todo.

A maioria das entrevistas têm sido realizadas nos dois dias que antecedem ao início do grupo e têm durado em média de 30 a 40 minutos. Iniciamos a entrevista expressando nosso interesse em saber o que o motivou a participar do grupo, como se sentiu em relação ao exercício preliminar e qual a sua avaliação sobre a utilidade desse exercício. Colocamo-nos à disposição para que a pessoa possa perguntar sobre as suas dúvidas ou solicitar outras informações das quais sinta necessidade.

Alguns participantes dizem não ter feito o exercício por escrito, mas tê-lo realizado de outra forma, refletindo sobre os temas listados. A avaliação da quase totalidade é de que o exercício os ajuda a se voltarem para si mesmos. Na nossa avaliação, apenas a leitura do exercício, mesmo quando ele não é realizado, tem contribuído para que retomem ou ampliem o contato com suas vivências. Temos percebido que parte dos inscritos para participar do grupo de encontro chegam para esse contato bastante mobilizados e motivados para compartilhar, referindo-se ao exercício como contribuindo para essa mobilização. Algumas pessoas chegam a dizer que gostariam que o grupo já estivesse começando. Outros falam do seu receio em se expor além do que gostariam. Quando isso ocorre, expressamos nossa confiança em que saberão se dizer da melhor forma como também que saberão estabelecer os limites de exposição desejados, sem, contudo, deixarem de avançar naquilo que for importante, e as convidamos a experimentarem o grupo sem posturas pré- concebidas.

5. A VIAGEM

“Viajar nessa procura toda

de me lapidar

Neste momento agora de me recriar

De me gratificar

Te busco, alma eu sei

Casa aberta

Onde mora o mestre, o mago da luz

Onde se encontra o templo que inventa a cor

Animará o amor

Onde se esquece a paz”

(José Renato – Milton Nascimento, ANIMA)

5.1. Processo do grupo

Ao iniciar o grupo, lá estamos nós como facilitadoras, os participantes e todas as pessoas significativas da nossa história e que hoje ainda são presentes na nossa vida, mesmo que, muitas vezes, disso não tenhamos consciência.

Começamos o grupo dizendo do nosso interesse em que cada um dos participantes possa, nesse tempo, “fazer os gestos que considere necessários” para sua atualização existencial, que cabe ao grupo escolher como quer construir o tempo que passaremos juntos e que estamos disponíveis e interessadas em estar com eles e facilitar essa caminhada.

Buscamos estar abertas para expressar nossos sentimentos e idéias quando sentimos necessidade, disponíveis para interagir genuinamente com os participantes e com o grupo, e atentas para os fenômenos que se apresentam e para o processo que vai sendo construído.

Para alguns, os silêncios, a falta de estruturação, nenhum guia para dizer o que fazer, tornam inevitável a emergência da ansiedade que geralmente desencadeia a interação entre eles, muitas vezes com sugestões de dinâmicas de apresentação ‘importadas’ de outras experiências que viveram anteriormente. Uns aceitam, outros protestam, alguns se calam, e as sugestões, em geral, não se concretizam. Alguém pergunta se era necessário trazer o exercício (apesar de já terem sido informados que não), outros dizem que não o fizeram por escrito mas pensaram sobre sua vida, outros ainda que só leram. Parecem buscar meios para romper o silêncio que inquieta. Outros mais, perguntam se não vamos começar o grupo ou falam da sua curiosidade em saber como esse tipo de grupo funciona. Há ainda os que expressam sua incredulidade sobre o funcionamento de “um grupo assim, sem um coordenador nem nada”. No entanto lá estão, como que querendo (com)provar se isso é possível. Alguns participantes, numa visível e intensa mobilização interna, de pronto começam a dizer o que os trouxe até ali: uns falam sobre limites e dificuldades que estão vivendo, da falta de esperança, da falta de um projeto de vida ou da existência de um projeto que não anda porque outros atrapalham; outros desejam encontrar pessoas, se desenvolver ou repensar o modo como estão se colocando no mundo.

Cada participante apresenta-se de uma forma: uns acham-se sem condições de atuar sobre a própria vida, outros dizem se esforçar e fazer tudo que é possível mas não estarem conseguindo avançar no que gostariam, pela postura contrária ou não colaborativa de outras pessoas. Cobram de outros, sentem-se injustiçados e imobilizados pelas condições externas. Alguns identificam aspectos da vida que não julgam estar bem e percebem sua causalidade nos acontecimentos. Há ainda os que estão vivendo momentos de muitas mudanças e dizem precisar se fortalecer para continuar andando, e os que se sentem bem e buscam o grupo visando ampliar o caminho.

O início do grupo parece inquietante para a maioria. Aos poucos aparecem os confrontos de percepções e valores, a expressão de sentimentos, e sem dar-se conta, o grupo começa a andar, muitas vezes achando que ainda não está andando. Fruto da reunião de várias e diferentes singularidades, da expressão das múltiplas perspectivas para a construção da vida, e do compartilhamento das histórias de cada um, vai sendo desenhado o processo grupal. Ao mesmo tempo em que os participantes vão construindo o grupo, vão aprendendo com ele.

Alguns participantes, ao se referirem à sua história e aos sentimentos a ela associados, consideram as circunstâncias das suas vidas como definitivas e apresentam pouca motivação para plasmar o mundo e a si mesmos. Para muitos, o projeto de vida apresenta-se como algo acidental, e sua fala revela que querem a vida livre de conflitos e sentir-se bem no mundo sem que seja necessária sua interferência para transformá-lo. Parece prevalecer uma certa impotência diante dos significados atribuídos a vivências passadas e a vivências cotidianas, como se qualquer processo de crescimento ficasse dificultado, senão impossibilitado, pela cristalização do passado e pelo ambiente em que vivem. Como em outros grupos de encontro, com freqüência o grupo inicia com alguns participantes querendo mudar o ambiente, as pessoas com quem convivem, como se mudando o que os circunda fossem removidos todos os obstáculos para viverem uma vida plena e prazerosa. Não conseguem ainda perceber que grande parte dos obstáculos foram ou estão sendo criados pela maneira como se posicionam frente ao mundo e aos acontecimentos da sua vida. Não conseguem ainda dar-se conta de que o ambiente pode facilitar ou dificultar seu processo de crescimento, mas não impedi-lo, e que, se se apegam a velhos e conhecidos valores que estruturam o cotidiano, cristalizados nas formas de funcionamento e relações, dificultam momentos de crescimento e de expansão da vida.

O clima compreensivo, de escuta e aceitação que aos poucos se estabelece no grupo, a partir da atitude das facilitadoras e de outros participantes, favorece a que cada um possa começar a mostrar-se como realmente é – tocando todas as suas possibilidades ou limitações, com suas conquistas e seus sentimentos de derrota, medos e alegrias, dúvidas ou certezas e outros sentimentos que lhe assaltarem naquele momento – ou, ao menos, sentir que pode sê-lo se puder permitir-se. Aos poucos o participante sente que pode tocar nas ‘feridas’ com a confiança de que irá tão somente até onde desejar ou puder suportar a dor deste toque. O grupo vai aprendendo a respeitar a diversidade e o tempo de cada um e isso possibilita o (re)conhecimento e uma maior aceitação de si, e, a partir daí, a (re)significação de aspectos marcantes da sua vida, elegendo tanto as prioridades como as perdas necessárias.

A partir da experiência de serem ouvidos pelo grupo em seus sentimentos e polaridades, e de ouvirem outros participantes falarem da suas vivências, alguns participantes passam a se incluir como parte ativa do contexto que os oprime e dão-se conta das implicações do seu jeito de ser e estar no ambiente em que vivem, e de que não são apenas os outros que são inflexíveis, mas que eles também estão atrelados a fórmulas rígidas e com dificuldade de identificar a própria causalidade nas dificuldades que relatam. Nesse processo, um clima em que o participante se sinta aceito e respeitado pelo grupo, e no qual as diferentes perspectivas não sejam negadas, mas, ao contrário, valorizadas, tem sido fundamental para que aprendam a valorizar o que está sendo experienciado e aprendam a confiar no seu organismo, no seu próprio processo de avaliação. O sentimento de solidariedade que vai surgindo no compartilhamento das expressões de dor e de alegria, medo e covardia, fraqueza e força, projetos e dificuldades, habilidades e inabilidades, também é vivido por muitos no grupo como fonte de aprendizagem.

Durante o grupo, os sentidos que vão sendo atribuídos no momento a partir das interações múltiplas e recíprocas vão mudando, em especial para aqueles que vão se abrindo ou estão abertos e confiantes para se deixar tocar pelo que está sendo experienciando. Nessa rica interação de polaridades alguns dão-se conta, quase como que descobrindo as forças que estavam aparentemente escondidas, de que sair do papel de expectador talvez seja o primeiro passo para reinventar a vida, colocando-se como ator na cena cotidiana, sofrendo interferências e interferindo no drama da vida, envolvendo-se no/com o processo de sua criação.

À medida em que o participante vai, a partir dos sentidos que atribui às próprias vivências, deixando de aceitar as circunstâncias como algo definitivo e encarando-as como passíveis de sua ação sobre elas, começa a abrir-se para ressignificar a vida. Essa possibilidade de dar novo sentido ao vivido cresce na medida em que ele consegue, no grupo, respeitar-se, desenvolver sua autonomia e preservar sua condição de sujeito dos seus desejos e atitudes. Nas vivências no grupo, como na vida, preservar a condição de sujeito não representa um fechamento ou super valorização em/de si, pelo contrário, o abrir-se para si parece possibilitar uma maior abertura e flexibilidade na relação com o outro. Tornar-se sujeito parece ampliar as possibilidades de envolvimento com o outro e da aprendizagem que isso pode propiciar.

Aos poucos os participantes ficam mais receptivos no/com grupo, e na medida em que se abrem para receber feedback podem transformar esses momentos em aprendizado para a própria vida. Alguns, além de uma expectativa, vislumbram que poderão se sentir e funcionar no cotidiano de suas vidas de um jeito pelo menos próximo do que estão se sentindo e de como estão funcionando no grupo.

Muitos participantes dão-se conta de que é uma luta inglória querer mudar o mundo sem mudar a si mesmos, que o primeiro passo está em descobrir novas perspectivas para olhar o que vem do mundo, e em ter novos olhares que possibilitem ressignificar as próprias vivências. A partir daí, quem sabe, talvez seja possível melhorar o mundo. Alguns dão-se conta da forma como estão se posicionando em seus contextos, às vezes desconfortáveis, e do quanto não estão conseguindo buscar uma posição melhor para si por conta de ficarem esperando que algo alheio a eles aconteça. Por exemplo, vão-se dando conta da distância, às vezes considerável, entre suas intenções e fala e sua ação concreta, e de como isso pode estar impactando a vida. Dão-se conta de que querem sentir-se bem no seu ambiente e no mundo, implicam-se neste desejo e exploram no grupo alternativas para melhorá-lo, com a clareza de que isso é um processo, muitas vezes lento. Contudo, encontrar alternativas no/com o grupo ainda não é garantia de que ao chegarem em casa suas vidas estarão mudadas. Sentem que precisarão respeitar seu próprio ritmo e tempo.

Alguns saem com esperança e propósito de não gastar energia de vida com disfarces. Parecem “prontos” para enfrentar o mundo como ele se apresenta, sem ter que encobrir as dificuldades e durezas que encontrarão, sem ter que camuflar o que sentem.

Entretanto, nem todos os participantes conseguem, nesse período, revisitar sua vida, dar-se conta da sua implicação nela e (re)projetar-se para o futuro. Há pessoas que aprofundam sua caminhada no sentido do auto-conhecimento, percebem a necessidade de avançar, de mudar, e ainda assim, se sentem frágeis para agir. Apesar disso, até o momento, a vivência nos grupos parece ter sido, em algum grau, enriquecedora para todos, tendo possibilitado que visualizem a necessidade de reorganizar seu auto-conceito de modo a torná-lo mais adequado à e próximo da sua experiência.

Em intensidades e proporções diferentes, o grupo parece acontecer na vida dos participantes como um espaço que possibilita experiências genuínas, comunicações e aprendizagem significativas e encontros ímpares, consigo mesmos e com os outros. Além do que, os participantes parecem chegar ao final do encontro com uma noção bem realista de que o grupo é apenas um pequeno recorte do mundo, e que o vivido nesse espaço/tempo/contexto não pode ser transportado para a vida tal como foi experienciado no grupo. O grupo tem sido vivido como um espaço organizador, na medida em que é uma experiência que marca significativamente a vida das pessoas como uma possibilidade de fazer/viver suas coisas de um jeito diferente do que vinham fazendo/vivendo anteriormente, possibilitando o abandono das antigas fórmulas e abrindo espaço para se recriarem de um jeito mais livre. É como se as pessoas fossem atravessadas, fecundadas em suas vidas pelas vidas das outras pessoas, pelas trocas possíveis nesse espaço. Como que desenhando e potencializando, na relação com os semelhantes, suas possibilidades.

5.2. Processo das facilitadoras no grupo:

Uma das razões da nossa paixão pelo trabalho com grupos talvez seja a forma como nos sentimos afetadas pelo processo grupal. Crescemos a cada novo encontro e no contato com cada participante. As dores ou alegrias de cada um estão, muitas vezes, próximas das nossas dores ou alegrias, apesar de serem vividas de modos e intensidade singulares. Sentimo-nos facilitadas na revisão de nossos projetos de vida, de uma maneira ou de outra, por cada fala, cada gesto, cada lágrima ou sorriso dos que compartilham conosco suas ‘coisas’, seus projetos, suas vidas.

Em alguns momentos, como dissemos, o processo do grupo e a solidão de alguns participantes nos põem frente à nossa própria solidão, aos nossos medos, tocam nas nossas dores. Quando isso acontece, conversarmos entre nós nos intervalos das reuniões do grupo tem nos ajudado a chegar mais perto da nossa vivência, experimentando-a nas suas várias facetas, assumindo-a e buscando oferecer-lhe novos sentidos. Sentimos que essa nossa forma de atuar e nos relacionar durante o grupo de encontro tem sido facilitada pelo nosso processo de preparação do/para o grupo, e tem contribuído para podermos estar disponíveis quando o grupo está acontecendo, como instrumentos vivos de facilitação (ao grupo e a nós mesmas).

Em algumas situações em que nos sentimos, ou sentimos o grupo, “emperrado”, sem conseguir andar, ou em que algum participante está vivenciando algo muito forte e querendo compartilhar com o grupo, sem, contudo, conseguir expressar-se, temos tido, entre nós facilitadoras, a abertura para ajudá-lo a sair do isolamento, inclusive oferecendo-lhe a possibilidade de algum exercício, se é isso o que surge da nossa interação com ele como o que melhor podemos disponibilizar de nós naquele momento.

Entretanto, também essa abertura foi construída passo a passo. A primeira vez em que isso aconteceu gerou certa inquietação na facilitadora que propôs o exercício, por ser este um aspecto que marcava, até então, uma diferença nos nossos estilos de facilitação – a abertura maior de uma do que da outra para o uso de outras formas de expressão que não fosse a linguagem falada. Não temos a menor dúvida sobre a riqueza daquele momento para o participante, para o grupo e para a construção do nosso estilo de facilitação. Apesar da preservação das nossas singularidades, construímos um estilo de facilitar em conjunto, a partir da nossa interação, que nos deixa hoje absolutamente à vontade ao partilharmos a facilitação de um grupo. Uma construção feita não sem inquietações, mas com plena confiança uma na outra, além, da nossa igualmente plena confiança no grupo.

Vivemos situações em que organismicamente sabíamos o que estava acontecendo e como gostaríamos de nos colocar, mas nos sentimos assustadas e com receio de que a nossa expressão pudesse dirigir o processo do grupo por não encontrarmos, naquele momento, uma explicação “racional” para a alternativa que surgia. Como a alternativa permanecia presente durante alguns minutos, a opção foi compartilhá-la, e esse compartilhamento e sugestão revelou-se de muita contribuição para que o participante rompesse o isolamento.

A preocupação com a liberdade e autonomia do grupo sobre o seu próprio processo, tem sido um aspecto importante na nossa construção conjunta. Não darmos a direção, tampouco nos omitirmos ou nos fecharmos para o que possa emergir rica e criativamente dessa interação, e que possa facilitar para que a direção seja encontrada pelo grupo ou participante, tem sido um desafio muito enriquecedor a cada encontro. Enriquecedor também foi o momento em que, numa das reuniões de um grupo, uma das facilitadoras sentiu-se fortemente impactada e meio imobilizada por vivências trazidas por um dos participantes. A afinidade e confiança construídas entre nós permitiu que a outra facilitadora percebesse e “assumisse” a facilitação do grupo naquele momento. Esses foram momentos importantes e eram, a cada intervalo, discutidos – a partir do que estava sendo experienciado por nós – juntamente com o processo do grupo e a nossa atuação enquanto facilitadoras, e o confronto dos nossos sentimentos e percepções sobre a nossa participação no grupo e a contribuição que estamos oferecendo ou que, por alguma razão, não pudemos oferecer.

6. AVALIAÇÃO PÓS ENCONTRO

“De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”.

Fernando Sabino

Entendemos que o processo e as aprendizagens vividos nesses grupos por cada participante são de uma intensidade que varia bastante de acordo com os esquemas perceptuais de cada um, da sua auto-imagem, da abertura e flexibilidade emocional e cognitiva que tenham para receber e integrar feedback, e da sua possibilidade de integrar o que está sendo experienciado no grupo.

Há ainda alguns outros aspectos do processo de construção desse trabalho e da organização dos grupos que parecem contribuir para deixar os participantes mais abertos para o que estão experienciando e/ou que, de alguma forma, afetam o processo do grupo tornando-o mais fluido e contribuindo para que o grupo e seus participantes, ultrapassada a fase do caos e das lamentações pelas perdas e impossibilidades, encontrem caminhos criativos para significar o que estão vivendo e identificar possibilidades de se posicionarem no que estão vivendo naquele momento e no mundo de forma flexível, no sentido de diminuírem as restrições para o resgate da autonomia e da liberdade que, por um tempo, podem ter sido sentidas como restritas ou impossíveis.

Um primeiro aspecto, explicitado por alguns participantes, é, na sua percepção, a sintonia entre as facilitadoras durante o processo de facilitação. Essa percepção encontra respaldo no que temos experienciado facilitando juntas. É como se o processo de nos prepararmos para facilitar os grupos, revisando em conjunto os nossos projetos de vida, juntas experimentando novas idéias e sentimentos e buscando, nesse processo, respeitar as nossas diferenças e a individualidade de cada uma, com abertura para feedbacks francos e uma conseqüente ampliação do cuidado e da confiança entre nós, tivesse nos possibilitado, a partir da ampliação da nossa consciência, estarmos mais preparadas para facilitar no grupo a experienciação de processo semelhante, e para participar dos grupos confiantes, abertas e valorizando o modo de facilitar bastante diferente de cada uma de nós, contribuindo assim para ampliar, aos olhos dos participantes, a valorização da diversidade.

Acreditarmos na filosofia de facilitação de grupos da ACP, e estarmos confiantes no e abertas para o que estamos experienciando, em especial nas situações tensionantes que ocorrem, possibilita-nos aceitar as expressões de desconfiança de alguns participantes, especialmente no início dos grupos, sem nos sentirmos ameaçadas. Dessa forma, podemos facilitar efetivamente que o processo do grupo flua sem sermos tentadas a direcioná-lo.

Na nossa avaliação e na avaliação de parte dos participantes, a oportunidade de refletir sobre aspectos da vida, a partir do estímulo do exercício preliminar, tem sido um outro aspecto facilitador que tem contribuído para um “esquentamento” antes do início do grupo, deixando-os mais disponíveis para viverem o processo, que parece fluir num tempo bem mais curto em relação a outros grupos que facilitamos. No que observamos, não faz diferença para a vivência dos participantes realizarem ou não o exercício por escrito, sendo suficiente a revisita à experiência.

Observamos ainda que o fato dos participantes terem tido um contato inicial com uma das facilitadoras os leva a se sentirem mais à vontade e, parece, mais confiantes, quando chegam para o início do grupo. O aumento do tempo de duração do encontro também parece ser um elemento facilitador para um aprofundamento maior do contato dos participantes consigo mesmos e com os demais, e da possibilidade de aprender. É como se as pessoas se sentissem mais confortáveis por terem mais tempo para revisitar, rever e reescrever seus projetos, apropriando-se de suas descobertas nesse espaço/contexto facilitador. Em um dos grupos, iniciado na sexta-feira às 18:00hs e terminado segunda-feira as 17:00hs, que foi o de mais longa duração que facilitamos juntas, isso apresentou-se de um modo muito forte. Os participantes se permitiram um profundo contato com seu mundo interno, com as desarrumações necessárias e quase inevitáveis que isso implica, podendo tocar nas dores, dificuldades, forças e alegrias que emergiam, e puderam se reorganizar a partir do reconhecimento, aceitação e integração disso como parte da suas vidas e do seu processo de crescimento. Vivências anteriores puderam ser ressignificadas e incorporadas de modo construtivo aos seus projetos de vida.

O regime residencial também parece facilitar o processo do grupo. O fato de permanecermos no mesmo local durante todo o tempo permite múltiplas formas de interação, aumentando as possibilidades de aprendizagem, que vão para além das sessões de grupo. Os intervalos com jogos, brincadeiras, música, a refeição conjunta, dividir um dormitório com alguém até então estranho, uma caminhada pelo bosque abrindo novas trilhas e ultrapassando riachos e outros obstáculos, tudo isso vivido com abertura para os sentimentos emergentes, o que muitas vezes não é experimentado no cotidiano, parece indicar para a possibilidade de descoberta de novas formas de estar no mundo, que transcende o que está sendo experienciado no momento. Nessas situações, qualquer gesto pode ser facilitador, permitindo um maior compartilhamento das privacidades e um conseqüente aumento da intimidade e troca entre os participantes.

O nosso prazer em estar com o grupo é outro ponto que sentimos exercer algum impacto construtivo sobre o seu processo. Se escolhemos e gostamos do que fazemos, podemos mais facilmente estar inteiras em nossa proposta. Isto também, acreditamos, parece facilitar o reconhecimento da nossa disponibilidade por parte do grupo.

7. OS SIGNIFICADOS PESSOAIS DESSA CAMINHADA

7.1

“Caminhante, tuas pegadas

são o caminho, nada mais.

Caminhante, não há caminhos:

faz-se o caminho ao andar.”

(A. Machado)

Nossa primeira facilitação conjunta foi aqui no Rio Grande do Sul e isso foi muito significativo para mim. Descobri ao andar, que certas viagens são inevitáveis, necessárias e não têm volta e que esta era uma delas, já que minha proposição era aventurar-me por caminhos novos e de maior crescimento pessoal e profissional. Era ir ou ir, e fui.

Gostaria de falar sobre o que tem significado esta experiência para mim com as palavras do momento vivido, num relato feito pouco depois do primeiro grupo de encontro que eu e I. facilitamos juntas e o primeiro grupo que eu organizei de forma autônoma. Vale dizer que o “eu organizei” tem a cada momento a participação virtual de I.

“Sinto-me ainda assustada com o que me propus e com o que conseguimos. Para mim o grupo foi medo e entrega. Medo de que não houvesse, como se eu pudesse antecipar o quanto perderia se ele não acontecesse. Apesar de estar certa de que, mesmo que ele, de última hora não ocorresse, eu já teria ganhado muito. Na verdade foi todo o processo, a forma como tudo aconteceu – desde a provocação para realizá-lo e a “concretude” da avalanche de sentimentos que me inundaram naquele momento até a sua realização – o que favoreceu para que resultasse numa experiência tão rica para mim/nós.

Embora facilitar grupos não fosse uma coisa nova para mim, esta foi minha primeira iniciativa particular e justamente com alguém de tão longe, alguém que não pertencia ao meu grupo de formação, não era meu mestre, tampouco qualquer dos meus colegas gaúchos. Alguém de tão longe mas que estava tão perto.

Poder trabalhar com outra pessoa de forma tão íntegra, com tantos escancaramentos, com tantas quebras de limites, com tantas diferenças e tantas semelhanças, foi uma experiência profundamente enriquecedora, ao mesmo tempo que assustadora. Sim, superar meus limites ainda me assusta. E nesse caso não foram poucos. Desde a aceitação da provocação para que facilitássemos um grupo juntas – passando pela nossa aceitação conjunta, nossos preparativos passo a passo rumo à objetivação da proposta, nossos encontros existenciais e solidões compartilhadas entre o pôr-do-sol catarinense e o gaúcho, entre poemas esboçados e poemas tornados públicos com a segurança de quem sabe o que diz, apesar do medo da transparência escancarada no papel – até o prazer de ver o que era só projeto tornar-se realidade na plenitude do possível para aquele momento. Num misto de magia e realidade que parece que só os grupos de encontro possibilitam, dei o melhor de mim e recebi igualmente o melhor – tanto na parceria com I. quanto na troca com o grupo – confirmando a minha crença de que a abertura e a disponibilidade são fundamentais no jeito de estarmos com o outro.

Possibilidade! É o que vejo quando olho para o que nos propusemos fazer. É o que tenho buscado e para onde têm convergido os meus investimentos pessoais e profissionais. Todos os esforços por caminhos, nem sempre fáceis, têm indicado esta direção – Ser possível e tornar possíveis meus projetos. Talvez eu tenha podido me apropriar desse sentimento de forma mais ampla vivendo esta experiência de organizar e facilitar este grupo, da forma que pudemos vivê-la – intensa e completamente cada etapa – compartilhando sentimentos e conhecimentos, semelhanças e diferenças, apreensões e possibilidades. Medos, receios, inquietações que não deixaram de existir mas já não paralisam; pelo contrário, desafiam, provocam, impulsionam. Parece que já não preciso das velhas expectativas sobre o que poderei ser ou sentir. Sou o que estou podendo ser neste momento. Que bom! Já não tenho mais que ter um rumo pré estabelecido, dá para fazer o caminho ao andar.

Por outro lado, haja pernas porque o caminho é longo, sinto que ainda há muito que andar. Novas possibilidades se apresentam a cada momento pedindo objetivação, novos medos, mas também novas realizações, novas formas de estar com o outro, outros modos de valer-me do que escolhi fazer – facilitar processos/projetos”.

A organização deste encontro representou para mim esta aventura, uma maior abertura para o novo, com todos os riscos que isto implica. Tocar nos medos, suportá-los e superá-los para reaparecerem na possibilidade de um novo grupo e novamente serem superados. O importante parece ser não que os medos, obstáculos, dificuldades não existam, mas que possam ser vividos, que possam fazer parte da minha/nossa humanidade e contribuir para a minha/nossa humanização. Este tem sido o sentido maior da realização desta proposta para mim – ressignificar e potencializar minhas possibilidades.

A construção deste trabalho, absolutamente conjunto, de uma forma que jamais imaginei possível antes que ele fosse acontecendo, parece ter coroado a harmonia da nossa inter/ação, não sem diferenças mas com a soma propiciada pela aceitação das mesmas. Houve um momento em que ele mais parecia o arco-íris que colore o céu depois da chuva, tal era a quantidade de cores que pintavam a telinha do computador, a partir do que cada uma ia agregando ao texto que ia e vinha virtualmente em incontáveis versões.

7.2

Confesso que não foi fácil decidir o que escrever dos significados pessoais dessa caminhada. Havia muitos caminhos pelos quais optar, e terminei por escolher (não sem receio) um que não havia imaginado e que descobri casualmente fazendo uma limpeza nos meus arquivos. Acredito que os recortes abaixo, até o momento 11 retirados de reflexões que fui fazendo ao longo da construção do primeiro grupo e de sua facilitação, numa linguagem muito informal porque naqueles momentos não pretendia compartilhá-los, dizem vivamente de como vivi e vivo o processo e do que esse trabalho significou e tem significado para mim.

(Momento 1)

A minha decisão de facilitar um grupo com E. está fora de todos os padrões que até agora tenho praticado. Acho que compartilhar a facilitação de grupo é uma coisa muito séria e, por isso mesmo, só gosto de fazê-lo com pessoas com as quais, além de ter afinidade pessoal tenho uma sólida concordância teórica e de referências da prática profissional. Estranhamente, apesar de conhecê-la muito pouco profissionalmente, sinto-me confiante a partir do que temos experienciado e conversado nas nossas interações. É como se, optando por caminhos diferentes daqueles que usualmente pratico para esse tipo de decisão, eu soubesse que é possível dar certo.

(Momento 2)

Temos discutido a proposta original com a qual eu vinha trabalhando, não temos concordância em todos os pontos. Sinto que, para trabalharmos em conjunto, precisamos ambas nos sentirmos confortáveis, autoras de tudo que propusermos. Hoje, enquanto conversávamos, senti-me ameaçada por abrir mão de alguns pontos do exercício que, na minha experiência sozinha, vem dando certo. Passado o primeiro momento procurei ficar aberta na nossa conversa e evoluímos. Senti que as colocações de E. eram consistentes, faziam sentido para mim… Não é fácil, é cansativo, às vezes doloroso, preciso buscar os referenciais para minhas concordâncias e discordâncias nas minha vivências. Mas pode ser um processo rico (re)construírmos “pedra por pedra”. Ainda andamos como se estivéssemos nos experimentando nos nossos graus de abertura e confiança.

(Momento 3)

Preocupa-nos a consistência e seriedade do que estamos construindo. Queremos que nossa preparação possa contribuir para facilitar o processo do grupo. …Às vezes discordamos, e sinto que ambas valorizamos a divergência e temos aprendido com isso. A cada dia estamos mais abertas para falar claramente sobre as nossas diferenças que são muitas, ao lado de nossas também muitas semelhanças. Convergimos nos valores e crenças que são para nós importantes e isso tem nos ajudado a caminhar mais rápido, apesar dos nossos vários “vai-e-vem”, às vezes em aparentes minúcias. Temos lidado com leveza, inclusive com nossas dificuldades. Às vezes as levamos a sério, às vezes rimos muito delas. Eu me sinto muito bem, estou aprendendo horrores, em especial sobre como criar e ampliar relações verdadeiras e genuínas. Tá valendo, e muito!

(Momento 4)

Decidimos nos encontrar antes de facilitarmos o primeiro grupo, queremos sentir mais de perto como estamos entre nós para assumir essa tarefa. Acho que será interessante nos aprofundarmos mais na discussão dos nossos projetos de vida. Mas estar perto aponta para a possibilidade de ampliar o grau de confiança e abertura, e isso me anima e amedronta. Ah!, mas sempre me amedronta o risco de romper com meus limites. …É ir ou ir, I., “não dá para sair na chuva sem se molhar”, né, ladinho medroso?

(Momento 5)

Fico muito feliz quando me permito vencer os medos, ousar e arriscar-me na relação com o outro. Isso aconteceu nessa viagem de muito crescimento, expansão da consciência, expansão da vida. Vivemos uma experiência de troca permeada de muita vida (que redundância!) Pudemos, entre caminhadas à beira-mar e algumas taças de vinho, tocar de perto e compartilhar mais profundamente alguns de nossos medos, limites, contradições e ambigüidades. Pudemos nos orgulhar das e nos alegrar com nossas lutas. Pudemos nos regozijar dos limites que quebramos, das barreiras que vencemos, dos caminhos que andamos. Pudemos compartilhar sonhos, esperanças e encontros existenciais, numa tal intensidade que eu só soube expressar desta forma:

ENCONTRO

Presença intensa,

de repente, no silêncio,

pelo avesso tudo está dito,

comunhão profunda

em segundos de eternidade,

fugaz, se vai,

e deixa a alma tatuada de vida.

…sinto que ampliamos muito a confiança recíproca, reconhecemos e estamos abertas e nos aceitando incondicionalmente nas nossas diferenças. Sinto-me abastecida e cheia de energia. A minha sensação é de que já nos conhecemos há décadas. Mas isso não é garantia de que na facilitação funcionaremos bem, é só esperança. Ui!, dá frio no estômago!

(Momento 6)

Acho que estou mesmo muito mudada, muito relaxada. Vai lá que eu acostumo, heim? Pela primeira vez sinto-me tranqüila e confortável sem me envolver nas providências concretas para a organização de um Grupo de Encontro, apesar de saber do trabalhão que E. está tendo sozinha. Estou ansiosa para que chegue o dia, às vezes temo que não aconteça. Nunca é mesmo fácil enfrentar a reta final!

(Momento 7)

Estou triste, pode ser que o grupo não aconteça. Não está fácil fechar o número mínimo. Será que não soubemos “vender” o grupo? Afinal não somos mesmo boas de venda, concordamos com isto. Mas o que é “vender” o grupo? Arrr… se é vender “happy end” então não vai acontecer nunca. Nisto não acreditamos nem “venderemos”. Ponto! Mas sem fábula da raposa e das uvas verdes por perto, quero profundamente que o grupo aconteça. Estou segura de que poderemos fazer um bom trabalho e contribuir com algo em que acreditamos pra valer.

(Momento 8)

…estou super feliz, acredito que vamos colocar em prática o que cuidamos com tanto carinho. YES!!!

(Momento 9)

Estou me sentindo super acolhida, a apresentação que E. fez de mim na palestra mexeu com minha alma, conheci algumas pessoas que vão participar do grupo, senti-me bem receptiva para com elas. Os participantes do grupo que já entrevistei parecem estar acreditando nesse grupo tanto quanto nós. Sinto-me tranqüila quanto ao grupo e à vontade aqui na casa de E., o que não é muito usual em mim. Estou adorando este relaxamento.

(Momento 10)

É muito gostosa a sensação de estar fluindo, de sentir o grupo fluindo, de sentir que nossa facilitação conjunta flui sem que precisemos “fazer” quase nada. O grupo tem sido extremamente facilitador, alcochoa a explicitação de diferentes perspectivas de vida, múltiplos olhares, confronto de polaridades. Facilitação que tem nascido da vida de cada um.

(Momento 11)

Sinto uma sensação de plenitude, de paz, e a certeza de ter oferecido o melhor de mim, de ter-me entregue numa inteireza nem sempre possível em outros momentos, de ter ousado caminhar com seriedade na facilitação por caminhos que acredito serem de expansão, apesar de ter a consciência de que esta proposta pode ser avaliada como “uma heresia” por colegas que são significativos na minha vida e cujas opiniões quero considerar. Sinto-me feliz por ter crescido, por estar mais cheia de vida, por ter facilitado a expressão da vida em muitas de suas várias formas, por estar inundada pelas expressões de vida que “pipocavam” a cada instante, e por ter tido a oportunidade de contribuir para isso. Senti-me facilitada por esse grupo na revisão de algumas questões pessoais que passam, especialmente, pela valorização da minha avaliação organísmica nas experiências profissionais e decisões na vida. Da mesma forma, muitas vezes senti-me facilitada durante as conversas com E., quando da construção da proposta e nos intervalos dos grupos. A intensa convivência de mais de uma semana fez aumentar o afeto entre nós e ampliar a minha admiração e respeito pela sua inteireza humana e seriedade profissional.

O próximo passo é: continuar este projeto e criar outros. Após o merecido descanso, claro!”

(Momento 12)

Estou feliz por sentir que todo o nosso esforço e riscos assumidos estão sendo plenamente recompensados pela aprendizagem dos grupos e nossa como facilitadoras. Experimentamo-nos como parceiras de facilitação e deu certo. Experimentamos escrever sobre a nossa experiência e deu certo. Nesses momentos tenho podido viver e experimentar intensamente expandir os meus limites respeitando os limites do outro, exercitar o confronto das nossas diferenças e singularidades sem negá-las, e sentir que o melhor do que estamos realizando é fruto da complementaridade do que é de mais singular em cada uma de nós. Avalio que isto só está sendo possível por haver reciprocidade, e por ambas estarmos, a cada momento, decidindo usar o poder que temos para facilitar a expressão do poder da outra.

Relembrar meus medos iniciais faz-me ter vontade de rir, mas não tê-los negado foi fundamental para que eu me sinta como agora estou e para que tenhamos feito este percurso. Que venham os medos, mas que eu não os negue e não fique paralisada por eles.

Valeu, Lú, a provocação que, aceita, permitiu-me experimentar novas possibilidades de expansão de vida, humanidade, respeito pelo outro, humildade para com o poder regenerador da vida e ampliação profissional. Você acreditou que “daria certo” antes mesmo que nós nos dispuséssemos a encarar sua provocação com seriedade. É seu o “pecado original” do que estamos vivendo, mas eu o assumi e o estou assumindo repetidamente.

(ANEXO)

PREPARAÇÃO PARA O ENCONTRO

Dentro de alguns dias estaremos juntos no nosso Grupo de Encontro – PROJETO DE VIDA. Antes de começarmos, estamos sugerindo que você faça este exercício por acreditarmos que ele o ajudará a beneficiar-se mais intensamente desses dias que passaremos juntos.

Ele pode ajudá-lo (a) a fazer uma viagem por momentos significativos da sua vida (sua história passada e sua vida atual) , e pode contribuir para que você, estando mais próximo do seu mundo, possa identificar aspectos do seu jeito de viver que são mais permanentes e que têm/ e como têm contribuído ou não com o seu Projeto de Vida. Ele aborda temas com os quais nem sempre estamos acostumados a lidar no nosso dia-a-dia, mas que têm grande impacto nas nossas vidas.

A sugestão é que, para respondê-lo, você faça uma auto-análise com a maior abertura possível. As questões abaixo podem servir como um roteiro, como uma “trilha”, mas, é claro, você poderá encontrar outras “trilhas” que tornem mais rico esse passeio pela sua hisória.

Escrever as respostas (o que você pode fazer em folhas de papel em branco) à medida em que for fazendo sua auto-análise, apesar de exigir um esforço adicional, é um recurso que você pode utilizar para ficar mais concentrado, além de poder ser útil para que você dê uma lida no seu conjunto de respostas após concluir o exercício. O que você escrever será apenas para seu uso, não sendo necessário mostrar a ninguém se você não quiser.

ORIENTAÇÃO PARA RESPONDER O EXERCÍCIO

Use mais ou menos uma hora de reflexão por dia, durante o número de dias que for necessário, num local onde você se sinta confortável e possa ficar sozinho (a), dedicando-se exclusivamente a esta tarefa. Colocar uma música suave pode ajudar.

Deixe suas lembranças aflorarem junto com os sentimentos que estão associados a elas, não importa quais sejam. Eles fazem parte de sua experiência e, portanto, merecem ser valorizados. Dê-lhes boas vindas!

Aquelas questões que dependam de informações objetivas para serem respondidas, caso você não as tenha e considere importante, procure conversar com pessoas que possam lhe dizer alguma coisa.

ORIGENS FAMILIARES:

O que sua família (avós, pais, tios, etc) pensavam sobre os papéis masculino e feminino, sexo, trabalho, dinheiro, sentimentos, religião, sucesso, fracasso?

O que, para eles, era mais importante na vida e o que era certo e errado?

O que levou seus pais a ficarem juntos, como eles se relacionavam o como avaliavam a vida que levavam?

Como seus pais reagiram à sua concepção? O que você sabe sobre a sua gravidez?

Desejando, acrescente outras reflexões que lhe ocorrerem sobre este tema.

NASCIMENTO, INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA:

Em que circunstâncias se deu seu nascimento? Como sua família reagiu?

Como foram sua infância e adolescência? Tranqüilas ou com muitas mudanças e perturbações?

Existia algum segredo familiar ou assunto sobre o qual ninguém podia falar?

Como foi, nesse período, sua relação com sua família (pais, irmãos e outras pessoas com as quais convivia)?

Você se sentia amado por eles?

Havia algum comportamento dos seus pais/ adultos que conviviam com você que lhe perturbava?

Você tinha amigos nessa época? Você fazia amigos com facilidade?

Quais eram suas brincadeiras na infância? Quais as brincadeiras e atividades preferidas?

Você era repreendido ou elogiado pelos seus atos? Como? Por quem?

Que comportamentos eram considerados bons ou maus?

Como você se sentiu indo pela primeira vez à escola?

Você aprendia com facilidade?

Seus pais lhe encorajavam?

Quem eram seus heróis?

Como era seu relacionamento com colegas e professores?

Como você se julgava e se sentia comparando-se a seus colegas?

Quais eram suas diversões, passatempos e interesses na adolescência?

Você tinha algum amigo(a) ou um(a) melhor amigo(a) com quem podia compartilhar seus segredos durante a infância e adolescência?

Você recebia a atenção que desejava (na família, escola, grupo de amigos)?

O que fazia para conseguir essa atenção?

Você tinha namorado(a)?

Como você se sentia em relação à sua sexualidade e a das outras pessoas?

Como se sentiu em suas primeiras experiências sexuais?

Como foi sua primeira experiência de declarar seu amor por alguém?

Você gostava da sua vida?

Sentia ter o controle de sua vida ou ela estava fora do seu controle?

Você tinha atividades extra escolares e uma vida social ativa? De que forma?

Sua família mudou de cidade alguma vez? Como você sentiu essa(s) mudança(s)?

Você era elogiado(a) e criticado(a) na adolescência? Como e por quem?

Você passava por momentos em que precisava ficar só ou sempre estava acompanhado(a)?

Qual o seu maior sucesso? E fracasso?

Você já se sentiu traído por alguém? Como foi essa experiência? Você compartilhou com alguém?

Você se envolvia em infrações e protestos de qualquer natureza? Como se sentia?

Se envolvia em situações de risco? Como e quando?

Qual o maior desafio que você enfrentou? Como se saiu?

Quais os seus sonhos mais acalentados?

O que determinou sua escolha profissional? Essa escolha lhe satisfez?

Quais eram as pessoas mais importantes nesse período da sua vida?

Olhando para esse período do passado, em que você está diferente e em que não mudou? O jeito como você se vê lhe agrada?

IDADE ADULTA:

Quais as coisas mais valorizadas por você e que lhe agradam, e o que lhe deixa mais desconfortável?

Qual o seu projeto mais importante? Você o está realizando?

Suas escolhas lhe possibilitaram crescimento e andar em direção ao seu projeto ou lhe fazem sentir-se aprisionado(a)?

Você já desistiu de alguma escolha para buscar algo que lhe satisfizesse mais?

Como as pessoas mais próximas de você se posicionaram em relação a isso?

O que mais facilita o seu projeto? O que mais atrapalha?

Quais as pessoas que apoiam os seus projetos e escolhas? Como é sua relação afetiva com elas?

Você se sente respeitado (a) na sua autonomia por essas pessoas?

Você tem facilidade de fazer amigos? Qual o papel de seus amigos na sua vida?

Você teve ou tem algum parceiro(a) afetivo estável?

O que, nessa relação, lhe complementa? O que não lhe agrada?

Você tem filhos? Como é sua relação com eles? Como eles sentem a relação com você?

Sua vida familiar lhe agrada?

Você tem facilidade em expressar seu afeto? O que as pessoas que ama dizem sobre isto?

Como você se sente na sua vida profissional?

O que na sua vida lhe abastece, lhe faz feliz?

O que lhe desgosta, lhe faz sofrer?

Existe atualmente alguma coisa sobre você que ninguém saiba ou possa saber?

Você já refletiu sobre a necessidade da permanência desse segredo?

Como, ao longo de sua vida, você tem lidado com as dificuldades que surgem?

Dê uma paradinha e responda para você mesmo(a): sua vida está como você gostaria? Há alguma mudança que você queira fazer? Se há, quais?

DESENHANDO O MAPA DA SUA VIDA

Agora que você fez uma viagem pela sua vida, desenhe um mapa da forma que quiser (Por exemplo, um gráfico em que você destaque os pontos altos e os pontos baixos, ou uma espécie de estrada onde você vai marcando os acontecimentos mais importantes como se fosse a quilometragem andada, ou ainda qualquer representação gráfica com a qual você sinta estar se expressando de um jeito que lhe satisfaça), incluindo nele:

– os acontecimentos que você considera positivos(pontos altos) e seus sentimentos a eles associados, bem como a duração;

– os acontecimentos que você considera negativos (pontos baixos) e seus sentimentos a eles associados, bem como a duração;

Caso você ache melhor, utilize uma folha de papel em branco

Trabalho apresentado no III Fórum Brasileiro da A.C.P. realizado entre os dias 10 a 16 de outubro de 1999, em Ouro Preto, Minas Gerais