Grupos Autogeridos: Possibilidade ou Utopia?

Maria Dinah de Andrade Meirelles

A Idéia de “pensar” sobre Grupos Autogeridos surgiu de duas fontes: dos comentários que tecemos no GRUMPSIH(**) sobre o recente Encontro de Maragogi, reportando a outros anteriores, bem como de uma das propostas sugeridas para o I ENCONTRO BRASILEIRO DA ACP.

Não pretendo, neste modesto artigo, dissecar esta questão no sentido de re-conceituar ou sugerir algo diferente. Aliás, retomando a Bibliografia existente, da qual faremos uso mais adiante, tais aspectos têm sido bem colocados por seus autores, pelo menos no que tange às pesquisas feitas até então. A minha intenção é, do confronto das nossas questões com as propostas dos autores e com as vivências experimentadas, tecer considerações que poderão levantar “fagulhas”.

De um trabalho inicialmente mais individual Rogers passa, aos poucos, a se interessar pelos grupos que ele considerava um “organismo coletivo”, com força suficiente para provocar mudanças em atitudes e comportamentos. Tomou-se assim, como pensamento de Kurt Lewin e a Psicologia da Gestalt, um do pioneiros dos Grupos de Encontro. A partir daí, o interesse pela experiência intensiva de grupos se expandiu, novas modalidades foram surgindo Essa difusão, rápida na observação de Rogers, se deveu não a promoção de qualquer origem, mas à busca espontânea por parte de pessoas que estavam à procura de qualquer coisa, necessidade esta gerada por:

“ primeiro a crescente desumanização de nossa cultura onde a pessoa não conta – apenas o seu cartão IBM ou o número do seu seguro oficial; segundo, … … … uma fome de qualquer coisa que a pessoa não encontra no seu ambiente de trabalho, na sua Igreja, e com certeza, também não em sua escola ou universidade; nem mesmo, infelizmente, na moderna vida de família. É uma fome de relações próximas e verdadeiras. … …” (1)

Recordemos agora que os Grupos de Encontro

consistem, habitualmente, num pequeno grupo de pessoas em que, com um facilitador ou líder, num clima de liberdade de expressão, cada participante é encorajado a deixar cair as suas defesas e fachadas e a relacionar-se mais aberta é diretamente com os outros …(2) Grupo de Encontro pretende acentuar o crescimento pessoal e o desenvolvimento. e aperfeiçoamento da comunicação e relações interpessoais, através de um processo experiencial.” (3)

Na década de quarenta já existiam grupos de terapia Centrados na pessoa. Nos anos sessenta evolui a terapia de grupo centrada na pessoa (oito a doze participantes). É na década de setenta que surge a experiência

“as comunidades de aprendizagem – cem a duzentas e cinqüenta pessoas (posteriormente até oitocentas !) vivendo juntas por duas semanas, decidindo seu, próprio curso de atividades juntas, para. uma aprendizagem experiencial direta do eu e da sociedade.” (4)

Ao descreverem tais grupos, que se instalam a partir de uma equipe organizadora, os autores citam a presença de lideres ou facilitadores, em geral membros daquela equipe; e, embora falem da existência de grupos sem líder também, estas citações são mais raras.

Nesses grupos, a única atividade “oficial” é “encontrar-se num grande grupo”. É um processo confuso e muito complexo daí que o organizador desse tipo de eventos deve abrir mão da dependência de conversas controláveis, de informação falada e começar a acreditar em faculdades intuitivas; “sentir” o grupo, digerir o significado de expressões mais globais …. é chamado a abrir mão da certeza da lógica racional, teorias, princípios de processo de grupo … … … (5)

Para esses grupos, não há regras quanto à seleção dos participantes, quanto ao número, freqüência, materiais… Acreditando na tendência formativa do universo – a SINTROPIA (‘), “é um ‘deixar acontecer’ de possibilidades para abrir caminho à emergência de Impossibilidades”(5). A direção do grupo se faz pelo próprio grupo, cabendo ao “facilitador” a criação deste clima; e também – ajudar a focalizar a atenção da comunidade toda no que reàlmente está acontecendo, à medida em que acontece; ouvir as grandes e as pequenas vozes; opiniões diversas, sentimentos; atentar para cada pessoa, para si próprio para o grupo querer viver, ele mesmo, a sua sensibilidade e a sua sensitividade, … enfim, não avaliar, mas experienciar seu organismo total – corpo, emoções, raciocínio e intuição, e assim deixar-se guiar através de uma consciência aumentada. Criando então esse clima as pessoas acabam formulando, por si, implícita ou explicitamente, as regras do encontro. Observa-se gradativamente, uma redução de defesas e aumento da liberdade de expressão: ouve-se e aprende-se um com o outro; novas idéias, conceitos, direções começam a surgir. Há um tempo para que isso ocorra, pois, inicialmente o que se manifesta é surpresa, irritação, ansiedade, sobre tudo pela ‘falta de estrutura’. Rogers então nos descreve (6) condutas que se observam, em geral, nos momentos iniciais, intermediário e final desse processo em que um grupo está começando a usar sua própria força:

“- Necessidade de liderança, de alguém que assuma o comando.

– Desejo de obter conhecimento “empacotado’, auxílio, conselhos,

– Pedido de estrutura, esquema, ordem imposta. Não, obtendo, ocorre a raiva, a frustração, o desapontamento.

– Desejo de se fazer alguma coisa, qualquer coisa, para suportar o desconhecido, a ansiedade.

– Desejo de soluções rápidas.

– Desejo de participar, de contribuir, de iniciar.

– Início de um compartilhar de experiências.

– Reconhecimento de que a “solução das situações depende do poder do grupo.”

Na fase intermediária (sem delimitação precisa), dá-se o trabalho propriamente dito: expressam-se sentimentos com relação a si e ao grupo, problemas, interesses pessoais. Presta-se atenção, ouve-se, há trocas. É um preparo para o espírito comunitário que está se construindo e que se nota ao final, quando a necessidade de alguém é atendida pelo grupo como um todo: sentimento de “ESTAMOS JUNTOS”. Caem as máscaras, as fachadas e surgem, às vezes ainda com cuidado, sentimentos verdadeiros e verdadeiras pessoas; uma comunicação mais autêntica. Manifestam-se planos de como agir no retorno ao lar, no trabalho etc. Experimenta-se a própria força.

Isto não significa ausência de pessoas céticas ou mesmo do contra, aos acontecimentos. Mas as pesquisas apontam para resultados mais de sucesso do que Insucesso. Rogers(7) não deixa de advertir contudo, para aspectos negativos que podem ocorrer – fracassos e riscos.

Nos momentos em que ele descreve suas experiências em grupo pontua – “as aprendizagens pessoais e sociais (de cada participante) como decorrentes, não de recursos intelectuais ou mesmo de insight, mas sim de experiências “viscerais”, um “sentir na pele”. E sintetiza a política da situação como “um grupo – cada um manda e ninguém manda”.(8)

Resta recordar aqui neste apanhado teórico, a crença de Rogers nesses Grupos de Encontro, com a oportunidade e o recurso para o desenvolvimento de urna “sabedoria de grupo”, um curso de ação auto- conetivo, que levará o homem a se transfigurar, bem como a seus motivos e valores a fim de sobreviver. Mudanças de paradigma exigem mudanças de princípios, dos quais ele realça três pontos (9)

– As bases dos valores encontram-se mm mais dentro das pessoas do que fora, no mundo material. Um nível de consciência mais elevado favorecerá a criação de uma vida plena;

– o impulso participatório é outra chave para a sobrevivência;

– o desenvolvimento de um maior senso de cooperação, de comunidade, de trabalho conjunto em prol do bem comum e não apenas pessoal.

Na realização desses encontros que acabaram de acontecer em várias partes do mundo, uma de suas declarações sobre a função da equipe diz que “Embora a equipe não exercesse um controle autoritário do processo, mesmo assim nós estávamos trazendo uma contribuição de uma maneira consistente e precisa” (10)

Pois bem. Tendo revisado, de maneira sintética, o tema dos Grupos de Encontro, vamos confrontá-lo agora com as situações discutidas entre. Houve experiências tanto em grupos autogeridos, com presença de facilitadores, como em grupos sem facilitadores. O que observamos foi que, tanto, nos primeiros, como nos segundos, à dinâmica acaba acontecendo similarmente (o padrão de desenvolvimento do grupo). Entretanto, o tempo de evolução daqueles se dá multo mais rapidamente, isto é, atinge-se o momento intermediário e o final com mais facilidade, o que proporciona maior aproveitamento, quero crer. Sobretudo com relação a pessoas que ali vão pela primeira vez: sua ansiedade, sua angústia mesmo, ante o “desconhecido, e não estruturado”, pedindo, suplicando uma mão salvadora … e esta mão custando a aparecer.. .. ..

Tenho me perguntado: precisa-se sofrer tanto para aprender, para crescer? Se eu posso estar ao lado para acudir a criança que aprende a andar, porque deixá-la sozinha sujeita a uma queda com dano severo? Vejo a presença do faciltador como esta pessoa que anda ao lado. Considerando que a responsabilidade do grupo seja mantida nele – sabe-se que é capaz – nada impede que haja(m) facilitador(es) que coordene(m) essa dinâmica “andando ao lado”…

Sabemos, nós psicólogos, como só a presença da mãe (ou substituta), depois a de um adulto qualquer já basta como PORTO SEGURO para o serzinho amedrontado, ameaçado. Vejo grupo da mesma forma. A presença concreta – ainda que muitas vezes silenciosa – do líder/facilitador, garante um PORTO SEGURO para o participante angustiado.

É aqui que, entre nós do GRUMPSIH levantamos a questão: Isto é democracia? ou é abolição da função? Não estaríamos nós da ACP, apoiados na crença da capacidade “total” do grupo nos omitindo?

Ao falarmos dos encontros vivenciados, angustiados. Não foi em vão que, posteriormente e já no final do encontro, surgiu uma sessão em que o tema desembocou em “novatos e veteranos”. E nessa o grupo, embora não completo, trabalhou bastante…

Ao falarmos dos encontros vivenciados percebi, da minha parte, quanto me senti incomodada em situação como aquela de Maragogi (para citar vivência mais recente) em que, após pedidos incessantes de companheiros novatos, Jesus (México) e eu tentamos ajudar-los através de metáforas. Não sei se conseguimos, Mas tentamos. Não que isso pudesse ser feito por nós. Mas continuo achando que, se tivéssemos ali facilitadores, a situação teria se resolvido mais satisfatoriamente, sem tanto sofrimento por parte dos angustiados. Não foi em vão que, posteriormente e já no final do encontro, surgiu uma sessão em que o tema desembocou em “novatos e veteranos”. E nessa o grupo, embora não completo, trabalhou bastante..

Ora, aí está o que eu pretendia abordar. Repetindo com a Família Humanista da ACP as nossas. preocupações, espero ter acendido “fagulhas’ para juntes verificarmos se elas deverão ser “atiçadas ou apagadas”. Afinal, nos trabalhos publicados, embora se fale de grupos sem líder (11) as experiências descritas se referem apenas àqueles em que aquela presença – a presença não autoritária mas que contribuía de forma consistente e precisa – estava presente: a EQUIPE FACILITADORA.

Bibliografia

1.Rogers, C. Grupos de Encontros. São Paulo: Martins Fontes, 1979.

2.Rogers, C. Sobre o Poder Pessoal. São Paulo: Martins Fontes, 1977.

3.Rogers. C. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.

4.Rogers. C. e outros. Em busca da vida. São Paulo: Summus Ed., 1983.

5.Evans, R.I. Carl Rogers: o homem e suas idéias. São Paulo: Martins Fontes, 1979.

(**) Grupo Mineiro de Psicologia Humanista

OBS: (Referências Bibliográficas)

(1) Rogers, C., 1, p. 20-21

(2) Ibidem, in: Nota à Edição em Língua portuguesa de Joaquim L Proença.

(3) Ibidem, p, 14

(4) Wood, J. in Rogers, C e outros., 4, p.54

(5) Ibidem, p.60

(*) Tendência sempre atuante em direção a uma ordem crescente e uma complexidade interrrelacionad, visível tanto no nível inorgânico como no orgânico, O Universo está em constante construção e criação, assim como em deterioração (entropia) Rogers, C., 3, p.60

(6) Rogers, C., 3, 110-111

(7) Rogers, C., 1, p. 46-50

(8) Ibidem, 2, p. 168-169

(9) Rogers, C., 3, p. 117-118

(10) Ibidem, 3, p.112

(11) Rogers, C., 1, p.18

Maria Dinah de Andrade Meirelles

Graduada em Psicologia; Mestre em Filosofia;Especializada em Psicologia Clínica – ACP e em Psicomotricidade; Aperfeiçoamento em Terapia Familiar Sistêmica; Professora do Curso de Psicologia da UFMG; Membro do INFA – Instituto da Família de BH; Membro fundador e Presidente do GRUMPSIH – Grupo Mineiro de Psicologia Humanista.

Publicado no Jornal da Abordagem Centrada na Pessoa – Associação Rogeriana de Psicologia – Rio de Janeiro: junho-1995. p. 6 (e correção feita na p.8 do no. 2)