INTERVENÇÃO RELACIONAL EM INSTITUIÇÕES DE SEMILIBERDADE , JUNTO À ADOLESCENTES INFRATORES – Relato de uma experiência [1]

Juliana dos Santos Lopes[2]

Contribuições teóricas e Supervisão: Nilda Maria Ribeiro[3]

SEMILIBERDADE: 12 HORAS NO AR

Chegam calados, zangados, assustados…

Olhos vermelhos… maconha?

Ou encharcados de lágrimas de sofrimento…

Olhos esbugalhados, tensos, vidrados… crack?

Ou medo do que há entorno…

Olhos frios, duros… maldade?

Ou tentativa de proteção do que virá…

Não sei… pois são olhos que não sabem nos olhar nos olhos…

Vão se instalando, confiando, experimentando, testando…

Ficam “folgados”, “Cê tá me tirando grandão!!!”.

Querem o poder, uma liderança negativa…que poder?

Por não conhecerem o próprio poder transformador.

Desafiam-me de todas as formas:

– Não faço!!!

– Sou Art. 157 sabia?!

– Fumo mesmo e daí!!!

– Arrombo qualquer casa que quiser!!!

– Este sou eu !!! Um infrator!!!

– Eu faço!!!

– “Mas não pode!!!”

– Eu Faço!!!

– “Mas não pode!!!”

UFA!!!! Não volto mais, vou desistir!!!

De que adianta? De que vale meu esforço?

De que vale “educá-los”? Mostrar-lhes perspectivas… esperanças…

Que esperança?

Saem daqui pro morro, saem daqui pro tráfico, pra morte… de que vale?!

E aí a peteca! O futebol! O totó…

E eles jogam e riem e discutem e se acertam e fazem acordos e regras …

(ADOLESCENTES)

E descobrem maravilhados C com A = CA, S com A = SA

“Olha aqui!!! Eu já sei ler!!! CASA! Não me perco mais ao vir pra cá!!!”

(QUASE CRIANÇAS)

Como não enxergar o brilho nos seus olhos quando são amados?

Como deixá-los sem a chance de um toque? Um afeto?

E quem mais, senão cada um de nós, que é tocado pelo sofrimento

e pelo amor , poderia lhes dar essa chance, mesmo que por curto tempo

de simplesmente se saberem pessoas!

“Quando sair, vou procurar a mulher que me denunciou,

vou olhar no olho dela assim, e ela vai Ter medo, e depois olharei assim…

e lhe direi: – Não quero mais me vingar de você, descobri o valor da vida”

Estive lá, e afirmo! VALE A PENA!!!

Juliana Lopes

APRESENTAÇÃO

A INSTITUIÇÃO

Semiliberdade é uma medida socioeducativa prevista no artigo 112, inciso V e regulamentada no artigo 120 do Estatuto Nacional da Criança e do Adolescente – ECA. De acordo com o artigo 120: “O regime de semiliberdade pode ser determinado desde o início, ou como forma de transição para o meio aberto, possibilitada a realização de atividades externas, independentemente de autorização judicial. Parágrafo 1º “É obrigatória a escolarização e profissionalização, devendo sempre que possível, ser utilizados os recursos existentes na comunidade”. Parágrafo 2 “A medida não comporta prazo determinado, aplicando-se, no que couber, as disposições relativas à internação”. A legislação em vigor, não especifica detalhadamente o funcionamento de uma unidade de Semiliberdade, cabendo às instituições que a administra estabelecer critérios e regras de funcionamento.

As duas Unidades de Semiliberdade existentes em Belo Horizonte no ano de 2000/2001, são resultado de uma parceria entre a Inspetoria São João Bosco e a SAREMI ( Superintendência de Atendimento e Reeducação do Menor Infrator ) e possui uma proposta de atuação e organização baseada na Pedagogia Salesiana. As Unidades estão instalada em casas com capacidade para até 12 adolescentes a faixa etária é de 14 a 19 anos.

OS ATORES

Cada Unidade é composta: De 02 coordenadores (esquema plantão 12/36), 5 agentes penitenciários (denominados e com a função de educadores) , 01 auxiliar de serviços (denominada e com a função de presença materna). Atendem nas duas casas uma equipe técnica composta de Assistente Social, Psicóloga e Pedagoga. Há uma diretoria formada por três membros: Uma diretora administrativa (Psicóloga) , um diretor pedagógico (Irmão Salesiano) e um diretor geral (Padre Salesiano – denominado Delegado de Obra ) esses dois últimos, representantes da Inspetoria São JoãoBosco e da Pedagogia Salesiana. Há freqüentes contatos externos com o Juizado da Infância e da Juventude de BH e Contagem, outras Instituições de Internação, Postos de saúde, Polícia Militar, Escolas e ONG’s que oferecem cursos e atividades à crianças e adolescentes em situação de risco.

Os adolescentes são, em geral, moradores de favelas, muitas vezes envolvidos com o tráfico de drogas, usuários, com precárias condições de vida familiar e social. Cometeram algum(s) ato(s) infracional(s) ( roubo, assalto, tráfico, homicídio). Já tendo passagem por outras instituições de internação ( CIA – Centro de Internação do Adolescente, CEIP- Centro Educacional de Internação Provisória, Abrigos – Casa Dom Bosco), ou seja, já têm uma história institucional. Trazem uma visão do tráfico, infração e internação, construída a partir de suas experiências, que definem valores, desejos, crenças. Uma cultura própria.

METODOLOGIA DE TRABALHO VIGENTE

Durante o tempo em que permanecem na casa, os adolescentes participam de atividades pedagógicas e oficinas profissionalizantes. Alguns poucos conseguem emprego, a maioria é inserida em escola pública, particular conforme o caso (Colégio Salesiano) ou projetos de suplência. Durante a semana passam o dia e noite na Unidade, quando não se encontram em atividade externa. Os adolescentes são avaliados mensalmente, na sua adaptação às normas, crescimento pessoal e relações sociais. A Unidade funciona sobre as regras de um Regimento Interno, que foi elaborado pela equipe da Semiliberdade e aprovado pelo Juizado da Infância e da Juventude de Belo Horizonte.[4] O Regimento Interno estabelece direitos e deveres do adolescente em cumprimento de medida, normas da casa, regras de convivência, sanções advindas da transgressão às normas. Estabelece também critérios para a liberação do adolescente nos finais de semana.

São realizadas discussões de caso na Unidade e junto aos Juizados da Infância e da Juventude. Bimestralmente lhes é enviado um relatório sobre a convivência do adolescente na Unidade. Com base nas discussões e no Relatório o Juiz decidirá: 1) Pela manutenção da medida: continuar na casa. 2) Por uma progressão de medida : Liberdade Assistida ou Liberação 3) Por uma regressão de medida: Internação. Além disso em situações consideradas “transgressões graves” de acordo com o Regimento Interno, é enviado um Relatório Circunstanciado ao Juizado, muitas vezes solicitando algum tipo de advertência ou intervenção.

A filosofia de trabalho vigente é baseada no Sistema Preventivo de Dom Bosco com fundamentação na Pedagogia Salesiana.

JUSTIFICATIVA

(Minha inserção neste contexto)

Ao iniciar o trabalho como Coordenadora da Unidade Flamengo[5] , tinha em mente um objetivo: Proporcionar condições favoráveis, que possibilitassem o processo de reeducação e inserção social do adolescente em cumprimento de medida. Logo no início verifica-se que precisavam de muito mais do que isso: De um espaço de construção de sua Identidade, ou mesmo de sua existência enquanto “Ser Humano”. Era preciso levar em conta toda a rede de relações vigentes na instituição e os atravessamentos de outras instituições. Considera-se que cada relação mantida com o adolescente, direta ou indiretamente, tem um reflexo na sua existência.

Em um processo de desenvolvimento “saudável”, a valorização da existência do ser é um dos requisitos básicos para a vivência do sentir-se humano, ser único, essencial para a construção da Identidade. Acreditamos que, para ser capaz de considerar o outro, valorizá-lo, é preciso se sentir considerado, valorizado. Portanto, a auto imagem e auto estima da equipe de educadores, precisava ser verificada e trabalhada. Era importante cuidar da Identidade da Unidade Flamengo.

Entendemos que, para os educadores promoverem autonomia, (Protagonismo Juvenil conforme a Pedagogia Salesiana), é preciso que desenvolvam a sua própria autonomia e que recebam informação e formação necessárias para tanto. Oferecer ao “Agente Penitenciário” uma formação intensiva dentro da proposta de trabalho vigente, sem desrespeitar ou desconsiderar sua experiência e prática com aquele público é fundamental para se esperar (e cobrar) dele uma postura de “educador” no sentido amplo do termo. Para propiciar autonomia, é preciso que o educador tenha clareza de sua função, recebendo informações necessárias sobre até onde vai sua atuação, sobre o que se espera dele. Ë preciso também que tenha claro as funções e até onde vai a atuação dos demais membros da equipe, para que possa haver uma linha de intervenção coerente, segura e integrada.

Quando as funções e papéis encontram-se confusos ou indefinidos, parece gerar uma sensação de insegurança na equipe quanto a própria atuação. Assim, se estabelece uma relação na qual a ação dos educadores depende da coordenação e essa da diretoria. Ou seja, uma relação de dependência que, consequentemente reflete na relação com os adolescentes. Estes tornam-se dependentes de afetos e limites externos (heteronomia).

Consideramos ser fundamental estabelecer com o adolescente uma relação de confiança, propícia a expressão autêntica e percepção de si mais congruente. Se importantes decisões sobre sua vida e seu cumprimento de medida estão diretamente ligadas a atuação da equipe técnica junto ao Juizado, é fundamental que a equipe tenha coerência interna inspirando confiança e respeito junto aos demais órgãos (Juizados, Promotoria etc). Era necessários verificar e trabalhar a imagem, integração e coerência dessa equipe. Bem como buscar parcerias nos Juizados.

A colocação do limite faz parte do processo de formação do adolescente. Quando o limite é consistente, coerente e tem uma conseqüência direta com a ação, terá efeito organizador e educativo. Ë importante também que a comunicação passada na colocação do limite seja a do afeto, das referências, não da punição. Os limites colocados dependem de outras instituições externas que atravessam a instituição Semiliberdade. Era preciso compreender relações com Juizado, Polícia e intervir no sentido de conseguir uma complementaridade do trabalho realizado.

Diante de tantas interferências, foi necessário buscar manter uma coerência interna em minha atuação. Pautar ações em uma concepção teórica e compreensão do Ser Humano, das relações institucionais e seus atravessamentos, o que interfere diretamente no objetivo da Instituição.

Percebia-se a urgência em se questionar tais interferências e provocar mudanças das quais, muitas vezes, dependia literalmente a vida do adolescente. Entretanto, sabemos que algo instituído precisa de tempo para se mover. Era necessário esperar o lento e delicado processo de abertura, auto crítica e reformulação da instituição que podia ocorrer num tempo diferente da urgente demanda.

Assim, explicitar verbalmente tais percepções e referências era ir de encontro à resitências e correr o risco de inviabilizar qualquer atuação. Por isso, muitas vezes buscamos explicitar através de ações e intervenções na prática, como se segue:

PRIMEIRAS PERCEPÇÕES

A Unidade Flamengo vinha de um processo de constantes mudanças em sua direção. Sendo a primeira Unidade de Semiliberdade criada em Belo Horizonte, já havia sido administrada por outras Instituições antes de chegar às mãos da Inspetoria São João Bosco. Uma vez sobre essa direção, a equipe ainda passou por cerca de 5 coordenadores em curto espaço de tempo. Foi construído neste meio tempo a Unidade Ouro Preto, que buscou iniciar sua prática já nos moldes da Pedagogia Salesiana. Tornando-se ponto de referência.

A imagem da Unidade Flamengo, tanto interna quanto externamente, era bastante negativa. Vista como a Unidade que não dava certo, onde não paravam coordenadores, nem adolescentes. Devido a tal histórico, a comparação entre as duas Unidades era inevitável. Situação que gerava sentimentos de menos valia, abandono, ressentimentos e rivalidades, o que era prejudicial a integração das ações entre as duas Unidades. Parecia-me que esta imagem colaborava para uma baixa auto estima da equipe do Flamengo. Os educadores não reconheciam e nem se sentiam reconhecidos em seu potencial, tendendo a manter sua referência na comparação com a outra Unidade. Com isso, não parecia haver uma identidade formada na Unidade Flamengo, no sentido de uma autopercepção que desse referências a própria prática.

Além disso, nos foi relatado uma sisão na coordenação anterior. Faltava-lhes integração de ações, objetivos e sintonia, um dos motivos pelos quais não continuaram. Esse tipo de relação parecia gerar uma referência partida e contraditória na equipe. Havia dúvidas e insegurança quanto a linha de atuação a seguir. Refletia-se nos adolescentes as duplas mensagens vindas das referências de autoridade o que dava margem à manipulações. Percebia-se também reflexo junto aos órgãos externos.

Com a saída dos coordenadores anteriores, fica exercendo temporariamente a função, a Diretora Administrativa e a Assistente Social. Os dois cargos estavam vagos. Assumo um deles e o outro é assumido por um amigo e colega de profissão. Fomos questionados se teríamos problemas em trabalharmos juntos na coordenação devido ao laço afetivo já existente. Ponderamos e respondemos que não, acreditávamos que o fato de termos uma relação de amizade e certa afinidade profissional só poderia ajudar a realizar o trabalho.

De fato, buscamos uma comunicação intensa entre nós. Discutíamos razões de atitudes tomadas em cada plantão via telefone, esclarecíamos informações colocadas em relatórios. Percebíamos questões pessoais interferindo em várias atuações, falávamos sobre os sentimentos e insatisfações gerados entre ambos. Além disso o risco de se deixar manipular pelo grupo era grande, principalmente por não nos encontrarmos na Unidade[6] . Logo nas primeiras semanas percebemos uma grande mistura na instituição, entre questões pessoais e profissionais, relações da equipe com adolescentes e consigo mesma, corríamos o risco de perder nossa referência. Diante disso, decidimos buscar uma supervisão[7] juntos. O objetivo principal era possibilitar o olhar de um terceiro, que estivesse fora das relações vividas na Instituição, podendo ajudar-nos a perceber questões pessoais e de nossa relação, que interferissem no trabalho, bem como as diversas interferências externas.

Buscávamos manter uma visão mais geral, percebendo os efeitos de nossas atuações no restante do grupo. Foi a forma encontrada para garantir a unidade da atuação na função de coordenadores e clareza do que seria ou não pertinente no papel de coordenadores da Unidade. Era um exercício diário de aprendizado, de lidar com a complementaridade das diferenças.

1. INTERVENÇÕES NA QUESTÃO DA IMAGEM DO FLAMENGO

Buscamos definir um espaço de tempo para reuniões com a equipe de educadores. O objetivo era voltar o olhar da equipe para si mesma, mudando o foco de referência e buscando construir ou resgatar sua própria identidade. Solicitamos à direção e equipe técnica que evitassem as comparações e referências pejorativas da Unidade Flamengo. Nas primeiras reuniões buscamos escutar e valorizar os sentimentos do grupo. Fizemos levantamento de objetivos pessoais e da instituição. Nas reuniões seguintes buscamos valorizar aspectos positivos das intervenções de cada educador, construindo um “educador ideal”. Posteriormente tentamos discutir a colocação de limites, as transgressões e restrições e a função do “não” para cada educador e seu efeito no processo educativo.

No dia a dia, valorizávamos intervenções de educadores e buscávamos sua experiência. Aprendíamos com eles o movimento do grupo, suas particularidades. Descobrimos que precisávamos esperar um pouco antes de intervir como “a autoridade da casa” junto aos adolescentes, para permitir fluir o poder de atuação do educador. Assim, aguardávamos algumas vezes a solicitação do educador antes realizar uma intervenção. Tentávamos dar respaldo aos limites colocados por eles, em que começavam a sentir segurança para fazer. Acreditamos que assim, auxiliávamos os educadores na descoberta do poder próprio e da forma própria de atuar.

Aprendíamos também o meio de acesso aos adolescentes, as diferentes formas de comunicação, principalmente a comunicação não verbal. Gírias, códigos da linguagem das internações. Descobrimos os bate papos “informais” nas varandas, pátio, hora de almoço, momentos fundamentais de atuação.

2. INTERVENÇÃO JUNTO A DIREÇÃO

Na relação com a direção, buscávamos delimitar e diferenciar um pouco os papéis. Fazíamos solicitações diferentes a cada membro. Questões burocráticas e de articulação à Diretora Administrativa; orientações quanto à Pedagogia Salesiana e solicitação de modelos de intervenção junto ao Dir. Pedagógico e Pe. Salesiano. Questões mais gerais e amplas com o Pe. Salesiano. Precisamos também a todo momento marcar nosso espaço enquanto coordenadores e representantes da autoridade da casa, junto a equipe de educadores, técnicos e adolescentes, o que foi um longo construir.

Externamente íamos marcando o espaço da Unidade Flamengo. Participando de reuniões externas, levando casos a serem discutidos, solicitando intervenções do Juizado. Tentávamos também estabelecer uma relação de parceria.. Principalmente com o Juizado de Contagem, do qual recebíamos o maior número de adolescentes.

3. INTERVENÇÃO JUNTO A EQUIPE TÉCNICA

Logo que chegamos, buscamos conhecer a postura da equipe técnica e pedimos uma reunião. Nossas primeiras impressões foram que: Na área da Psicologia não parecia haver ainda uma proposta de atuação bem definida. Não víamos até então intervenções Psicológicas significativas. Mais tarde verificamos certa descredibilidade e resistência ao trabalho, já instalado em ambas as Unidades. Havia também uma preocupação da equipe com sua segurança da Psicóloga, já que na relação direta com o adolescente, parecia temer

e demonstrava dificuldade em lidar com situações de tensão.

Na Área Pedagógica ressaltou-se as dificuldades de aceitação e compreensão da equipe de educadores, quanto às propostas apresentadas. Havia certo desânimo quanto a implantar uma metodologia de trabalho no Flamengo, devido ao contexto no qual se encontrava a casa. Mais tarde verificamos que a relação dos adolescentes e educadores com a profissional da área era afetiva e que a mesma buscava e precisava adquirir mais respaldo e segurança no exercício de sua função dentro da própria equipe.

Na Área da Assistência Social, verificava-se a necessidade de se retomar a atuação junto às famílias e profissionalização. Tal campo havia ficado um pouco prejudicado devido ao acumulo de cargo da profissional (assumindo as funções de Coordenadora interinamente) e também devido ao contexto anterior da Unidade.

Como a equipe técnica atendia às duas Unidades e devido a situação anterior do Flamengo, seus horários na unidade não eram claros e as vezes não aconteciam. Buscamos colocar isso em pauta e garantir que a atuação da equipe ocorresse com mais freqüência no Flamengo. Para isso, agendamos e sistematizamos as reuniões para discussão de caso. Era preciso trabalhar também a afinidade para com o Flamengo.

A equipe técnica como um todo demonstrava descrença na relação com o Juizado e apontava para uma certa desconsideração da palavra da equipe e de seus relatórios junto as técnicas do Juizado, o que mais tarde percebemos ser também uma queixa de outras equipes de diferentes instituições.

Tínhamos a impressão que as funções não estavam bem definidas e assim a equipe encontrava-se também sem identidade o que refletia em uma dificuldade de se posicionar junto ao Juizado. A equipe do juizado em contrapartida era vista como fiscalizadora, hostil e não como parceira. Nas discussões no Juizado a figura do coordenador surge como representante da Semiliberdade, ocupando lugares que seriam da equipe técnica.

Como Intervenções buscamos:

• Conversas individuais com a Psicóloga quanto a sua prática, tentativa de orientação, acompanhamento. Entretanto, inúmeras situações em ambas as unidades, acabaram por comprovar a inviabilidade de seu trabalho. Buscamos então uma postura da direção quanto ao risco de se manter tal forma de atuação. Após algum tempo foi substituída.

• Valorizar a proposta pedagógica (atividades) durante a semana junto a educadores. Insistência com educadores para que a casa mantivesse uma rotina. Orientação no sentido de envolver os educadores na proposta apresentada.

• Levantamento do projeto de ação de cada técnica. Sistematização e condução da discussão de casos no Flamengo. Busca de um denominador comum na equipe.

• Participação das discussões de caso no juizado para verificação da relação e busca de alternativas.

• Tentativa de discutir fundamentação e embasamento dos relatórios.

REPERCUSSÕES DAS INTEVENSÕES

A cada intervenção, percebíamos efeitos positivos e negativos que nos mostravam o terreno onde estávamos pisando e sinalizavam sobre as próximas estratégias de intervenção. Muitas dessas e outras intervenções propiciaram crescimento do Flamengo, resgate da sua auto estima. Outras nos faziam repensar nossa prática, e questionar o caminho em que seguíamos e até mesmo a viabilidade do trabalho.

Mesmo diante de muitos entraves institucionais, conseguimos nos primeiros três meses de atuação uma certa organização da casa a nível de atividades, de relações com os adolescentes, sistematização de práticas. No âmbito externo, começamos a conquistar credibilidade junto aos órgãos parceiros. Relatórios melhor elaborados, diminuição da freqüência na ocorrência de situações graves e evasões. Constante melhoria no clima da Unidade. “Está mais gostoso trabalhar aqui”, relatavam alguns. As poucos a identidade da Unidade começava a se desenhar e seu trabalho a se destacar. É claro que tais mudanças trouxeram conseqüências no que era instituído. Mudanças de perspectivas, críticas, boicotes e resistências ao movimento que arrisco chamar, instituinte, que vinha acontecendo. A Unidade Flamengo começava a deixar de ser “aquela que não dá certo” para se tornar “aquela que apresentava frutos”.

Houveram então, inúmeras situações durante o período de um ano em que atuamos na casa. Entretanto, acredito que tão importante quanto esta história são as reflexões sobre a prática, sobre a nossa proposta de atuação, que espero servirem como alguma referência à outras práticas junto ao adolescente em conflito com a lei.

A INSTITUIÇÃO E A PSICOLOGIA

A reflexão que tecemos é acerca das propostas de atendimentos aos adolescentes e como a psicologia poderá contribuir para uma real (re)educação, num curto espaço de tempo e numa condição complexa própria da instituição.

Haviam duas formas de inserção do Psicólogo neste contexto: Na própria Unidade, onde a atuação da “técnica” Psicóloga se dava através da escuta e intervenções nas atividades “pedagógicas”, disponibilidade para conversas individuais e intervenções no “pátio” em momentos de descontração ou de conflito. Levantamento de informações e diagnóstico e discussão de casos. A outra forma era através da CAMT ( Clínica de Atendimento Multidisciplinar a Toxicomania)[8] , que atendia especificamente à adolescentes usuários de droga, trabalhando dentro da proposta da redução de danos.

A intervenção da psicologia encontrava-se em construção e discussão constantes. As características específicas dos adolescentes em conflito com a lei colocavam constantemente em cheque formas tradicionais de atuação. Só o fato de serem encaminhados para o atendimento por determinação Judicial já é suficiente para interferir na relação terapêutica de forma significativa. Muitas vezes, o adolescente transfere para o psicólogo a mesma relação que mantêm com o juiz, representa um papel do que não é, demorando bastante a estabelecer uma relação de confiança.

1. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DO ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI

Estamos falando de adolescentes com uma realidade própria, dura e bem diferente daquela vivida pelo adolescente em geral. Enquanto o “esperado” é que o adolescentes esteja elaborando uma série de mudanças corporais, sociais, familiares, dedicando energia a tais conflitos, verificamos que “nossos adolescentes” precisavam suspender ou mesmo negar sua própria realidade de adolescente, para lidar com situações outras. Vivências complexas como: matar ou morrer, se proteger, questões advindas de estrutura familiar precária (ou inexistente), questões econômico-sociais, culturais, que os levam à uma busca de identidade, recebendo um “papel” no meio da “guerra do tráfico”. Estes são, muitas vezes, os únicos lugares em que recebem um reconhecimento, um valor, bem como uma Lei. Neste sentido, é imprescindível que todos os trabalhadores se coloquem numa posição de escuta, para não rotular, não usar de preconceitos e não repetirem a negação do adolescente como ser humano.

A história desses adolescentes é marcada por índices elevados de agressividade e violência, aos quais são submetidos muito antes de devolverem isso a sociedade. Acreditamos que, para intervir junto a eles, buscando modificações e novas marcas, é preciso explicitar os conceitos como: agressividade, assertividade e autoridade, afetividade, junto a toda equipe. Isso ajudará na compreensão da proposta relacional.

Alguns desses conceitos serão tocados no decorrer deste relato. Outros merecem ser clareados e outros ainda precisam de mais aprofundamento para melhor compreensão. Arrisco-me a colocar alguns conceitos que referendavam minha prática. Referencial Teórico utilizado na proposta relacional.

2. PROPOSTA RELACIONAL – COMO INTERVENSÃO

Propomos uma outra possibilidade. A RELAÇÃO TERAPÊUTICA. O reconstruir, ou mesmo construir novas vivências relacionais, novas “marcas” psíquicas que possibilitem ao adolescente poder escolher. Se ele não vivenciou outro tipo de relação, como pode optar por uma nova ordem que não a que se encontra (a guerra do tráfico)? Se nunca foi considerado como Pessoa, ou amado (aceito) verdadeiramente pelo que é, como pode considerar o outro como Pessoa? A pessoa que está por traz do art. 157, 121, pode estar encoberta por várias capas de proteção. Mas está lá. É preciso enxergá-la. Tocá-la para que esta consiga enxergar a pessoa do outro.

Numa proposta relacional, focamos a importância do uso das relações para promover a evolução das pessoas envolvidas. Acreditamos que é possível, dentro da “casa”, atender simbolicamente, através da relação adulto – adolescente, as necessidades afetivo-emocionais possibilitando uma melhor estruturação e organização interna e até uma maior autonomia. Sabemos que o Ser humano mantém em si o pensamento analógico. Se considerarmos que o processo de formação da identidade é nitidamente relacional, podemos nos valer das necessidades emocionais da criança, para analogicamente, compreendermos as necessidades do indivíduo. Assim verificando que na comunicação prevalece o aspecto não verbal do que é dito, reafirmamos a necessidade de uma relação autêntica. Por exemplo: uma autoridade feminina que o reconheça, poderá satisfazer, algum tanto, sua necessidade de reconhecimento com a primeira autoridade feminina: a mãe, deixando inscritos registros de vivência positiva em relação à autoridade feminina, viabilizando mudanças em seus conceitos e novas formas relacionais.

Estamos falando da disponibilidade afetiva emocional em se perceber em relação com o outro. Consideramos que a educação e formação dessas pessoas está acontecendo às 24:00h por dia, através da relação mantida com cada um dos membros da equipe (educadores, coordenadores, técnicos).

E o que seria relacionar? Estar em relação… “com-viver” 12 horas /dia. Experimentar, de forma empática, a angústia do adolescente viciado em tinner, que se depara com um ambiente onde possa finalmente “ser” e é impelido a pular o muro, pois a força do cheiro de tinner é maior que sua força interna de poder escolher.

Compreender que a relação pelo viés da agressividade (verbal, ou por comportamentos de enfrentamento e oposição). É talvez a única modalidade de relação, forma de contato conhecida por ele. Repeti-la ou simplesmente puni-la é não possibilitar outro caminho para a construção de uma outra modalidade relacional mais afetiva e aceita. Aqui cabe contar um dia de tensão e aprendizado na Semiliberdade:

J.S. (18 a) se relacionava com um tipo de agressividade a qual podemos chamar “agressividade de oposição”[9] . O “não” e o “não quero” são sistemáticos. Para se afirmar era preciso ir contra o outro, mesmo que não atenda a si próprio é preciso recusar o poder do outro sobre si, só assim poderá encontrar o próprio poder. J.S. via em mim uma figura de autoridade feminina, (acredito que por analogia representava a autoridade materna, que lhe era confusa: mãe/avó). Ainda por cima, eu era aquela que colocava limites, diante dos quais se sentia impotente. Ele precisava destruir esta autoridade de forma simbólica: “farei abaixo assinado para lhe tirar daqui”, “vou falar com o defensor público”. Se me mantenho tão “poderosa” neste lugar de autoridade, a tentativa continuaria, podendo chegar a nível do Real? Quem sabe… J.S. faz durante o dia várias tentativas para que eu “compre uma briga”. Está claro sua busca de limites mas qual seria a forma? Não bastaria lhe aplicar uma sanção por seu comportamento. Ele agride verbalmente, provoca. Minha relação anterior com ele era realmente carinhosa e afetiva. No momento de forte agressão verbal mostro meu limite enquanto pessoa. “Você conseguiu atingir-me e me desrespeitar como nunca fiz com você. Estou profundamente magoada”. Choro, sinto-me fragilizada, não oculto essa emoção dele. Simbolicamente perco o poder ( ainda que ele saiba que continuo sendo coordenadora). Ao me destituir desse poder, J.S. sente-se liberado como vencedor, encontra-se com seu poder e pode apropriar-se dele.

Mas esta “liberdade” o angustia. Não pode desfrutá-la devido a forma como a conquistou. Ainda precisa da referência do adulto. Sente-se perdido diante de minha reação, que vivencia como uma retirada de afeto. Seria manter o poder recém conquistado, mas perder o vínculo afetivo mantido comigo. Então ele tenta retomar o vínculo, me procura com os olhos, passa por mim. Aos poucos se aproxima e é aceito com meus olhos e expressão. Ao perceber minha aceitação ele arrisca e me pede para conversar. A aceitação de sua busca por contato, permite-lhe reassegurar dos laços e perceber-se aceito também em seus conflitos, reintegrar-se. Pronto… ao final de 12 horas, lá estava J.S. mostrando-me seu jeitinho de dançar forró: ombro encolhido, mão no coração como quem abraça alguém. Imagem gravada em minha memória. Aprendizado que só se consegue em relação autêntica.

COORDENAÇÃO E AUTORIDADE

Entendemos que a autoridade não está no seu poder institucionalizado pelo cargo que se ocupa, nem pelo saber que se detém ou pelo o que se impõe ao adolescente. Tal visão representa muito mais um escudo para se defender da relação. A autoridade será uma aquisição junto ao outro. A partir de uma relação de pessoa para pessoa, com a figura do adulto, na qual o adolescente, podendo ser reconhecido na sua própria autoridade, torna-se capaz de reconhecer a autoridade do adulto.

Para melhor ilustrar e esclarecer esta concepção, citemos mais uma situação vivida na Semiliberdade: LM, adolescente de 16 anos, apresentava grande dificuldade em lidar com as regras, principalmente quando estas iam de encontro ao seu “Ser e Poder” era afetivo como um menino mas com pouquíssimos limites de Realidade. Parecia lidar com a “guerra” do tráfico como uma brincadeira de “bang bang”. Em uma determinada situação agride um colega. Minha relação com ele era de carinho e respeito a suas necessidades ( era o caçula da casa ‘LM baby’), LM já havia sofrido bastante nas mãos da polícia, tendo um abscesso na orelha resultado de “intervenção” policial. Nesta situação específica, chamar a polícia e fazer um BO (Boletim de Ocorrência) era o que constava no Regimento Interno e minha função enquanto Coordenadora fazê-lo. Um limite a ser colocado pela autoridade da casa. Ele se desespera, ameaça fugir, olha-me com raiva e ameaça pelo que fiz. Quando a polícia chega ele se veste de sua armadura “LM o terror”, capa tão fina que mal conseguia disfarçar o seu medo. Mas que por um efeito qualquer, conseguia apavorar os policiais que pensavam levá-lo algemado. LM me pede que não permita levá-lo (seu lado pessoa: menino assustado e sem limites). Por um momento a encruzilhada manter o limite, voltar atrás… Converso com ele considerando e respeitando seu medo “Eu não tô com medo! Sou homem!” mas ainda assim se alivia. Explicito a necessidade de assumir as conseqüências do que fez, e tento garantir junto aos policiais quais eram aquelas conseqüências. Valorizo o “ser homem”, com medo, enfrentando-as. Ele se acalma e ergue a cabeça. ‘Eu vou!! Não precisa me prender não! Não vou fugir!” Olha pra mim a espera que eu vá junto. O policial diz: “Melhor ele ir com ela na viatura. Parece que ele respeita mais ela” (AUTORIDADE pelo afeto x AUTORIDADE pelo medo). E lá vamos “nós todos juntos no carro da polícia”. E voltemos a semiliberdade com uma “boa bronca” do Delegado para LM, e uma ocorrência policial, o que parece Ter funcionado como um limite de realidade.

Acreditamos na importância de se cuidar deste aspecto – AUTORIDADE PELA RELAÇÃO AFETIVA – para o cumprimento do objetivo da instituição junto ao Adolescente.

Consideramos que a coordenação deve ser referência de autoridade. Para isso, o coordenador precisa reconhecer a autoridade do educador e do próprio adolescente bem como a sua. É importante que essa referência dê sentido ao Regimento Interno, enquanto lei que regula e rege as relações na casa, a qual também se submete. Isso é bem diferente de agir baseado em uma lei própria, “bom senso”, variável de acordo com a conveniência dele ou da instituição. É necessário manter uma unidade de atuação estável e coerente, no caso de dois coordenadores,. Isso propicia uma estrutura que permite ao adolescente e mesmo o educador se deparar e lidar com seu processo pessoal. Entende-se aqui por unidade, não igualdade na forma de atuar ou relacionar-se, mas sintonia que, no caso privilegiado de se ter nesta função um homem e uma mulher, deve funcionar como complementaridade na atuação onde uma dá suporte e reassegura a autoridade do outro. Tal sintonia só é possível quando há comunicação verdadeira DE PESSOA PARA PESSOA em todos os sentidos entre ambos, quando há confiança e a relação é transparente, quando ambos têm um projeto em comum de trabalho e objetivos voltados para o objetivo geral da instituição não havendo lugar para promoções pessoais e individuais. Acredito que tal sintonia foi possível até os últimos dias de trabalho com meu primeiro parceiro e amigo.

LIMITES – A QUESTÃO DA ESTRUTURA

Entendemos que garantir uma estrutura segura, efetiva facilitará uma organização interna das pessoas envolvidas. O Regimento Interno funciona como um instrumento de estruturação que norteia as relações naquela “micro sociedade” – a Semiliberdade. Se um dos objetivos da Instituição é ajudar o adolescente a lidar com a lei e com a sociedade, a lei que a rege precisará ter sentido e conseqüências reais e bem definidas. É importante também, para a promoção da autonomia, que tenha espaço para a colocação e crítica das pessoas envolvidas, desde que suas alterações façam parte de um amplo processo e não de forma aleatória ou dependendo da situação

Acreditamos que uma estrutura confiável, onde o adolescente sinta que conhece as regras do jogo e que é respeitado em sua individualidade, favorecerá um processo coerente, efetivo e afetivo . O adolescente assume um papel dentro do grupo, a previsibilidade do cumprimento da normas, facilitará uma evolução na sua auto percepção, na forma de relacionar-se, devido às respostas recebidas dentro de uma estrutura “estável”, possibilitando novas experimentações e daí novos conceitos de si, do ser humano, dos direitos e deveres.

O respeito ao Regimento Interno, o respeito à individualidade, ao objetivo primeiro da instituição: educar ( que não se limita ao ensinar) e uma estrutura institucional segura, irá ajudá-los a reconhecerem-se nas suas atitudes, valores, objetivando uma formação mais humanizada e uma relação entre seres humanos. Um dos objetivos da instituição é o de que eles desenvolvam uma autonomia, com melhores condições de escolher e assumir a responsabilidade, criando a possibilidade de viver em nossa sociedade, conquistando nela um espaço digno para produzir e construir um projeto de vida.

Consideramos ser importante para que um limite seja realmente introjetado que as conseqüências de determinado ato (transgressão), estejam claras e que realmente ocorram. Uma restrição, conseqüência, que não estiver intimamente relacionada à transgressão, deixa de ter o efeito constitutivo do Limite, para se tornar uma punição (esquema behaviorista). Ao ser colocado desta forma, o Limite sempre está centrado naquele que o coloca e não no que ele é por si. Se aplico uma sanção por que “não gostei disso” e não porque tal ato, tenha tal conseqüência, repete-se a relação de dependência vivida entre o adolescente e o juizado, ou a polícia, na qual o que acontecerá com ele dependerá da pessoa que o está julgando e nem sempre da conseqüência real de seu ato.

Minha hipótese é de que a relação do adolescente com a lei que rege o mundo do crime lhe serve muito mais como referencia de limite consistente , na medida que as leis do crime são firmes e bem definidas. Parece-me também que o adolescente entra em conflito com a Lei, dentre outros fatores, por não encontrar no Judiciário os limites claros e bem definidos de que necessita. As conseqüências de seu ato infracional são ambíguas: variam de acordo com o Juiz, as circunstâncias e até mesmo (o que é pior) com questões políticas como o número de vagas por exemplo.

Em nossa atuação, buscávamos uma unidade nas conseqüências (restrições) de atos e comportamentos dos adolescentes. Tentávamos clarear as conseqüências antes mesmo que o ato ocorresse. Demonstrar qual atitude estávamos tomando e o que poderia acontecer diante dela. Basear as intervenções no Regimento para que a lei pudesse fazer parte da consciência deles e assim se responsabilizassem por ela. Também repensamos nossa postura na relação direta com o adolescente. Nossa forma de colocar o limite e dar afeto. Repensamos nossa relação com a autoridade funcional e pessoal.

Refletimos sobre aspectos pessoais da relação tanto minha quanto do outro coordenador. Buscou-se diferenciar o tipo de limite “feminino” do limite “masculino”: Em dado momento precisamos trabalhar intervenções menos impositivas minhas e maior firmeza nas intervenção do outro coordenador.

Realizamos também Reuniões com os Juizados, na tentativa de buscar complementaridade nas ações junto aos adolescentes. Apresentamos o Regimento e buscando delimitar uma unidade nas ações do Juizado no caso de ocorrências com drogas, pedidos de regressão ou progressão de medida etc. Houve também a tentativa de promover coerência dos limites colocados pela direção, coordenação e educadores, o que nem sempre foi possível.

Cabe aqui mais um episódio no dia a dia da Semiliberdade. WR tem 16 anos e é um adolescente de classe média baixa. Quando WR chega à Unidade já chama atenção pelo seu espírito questionador. Chega fazendo “barulho” por ter sido apreendido, alegando que já havia cumprido sua medida e que o juiz errou. Percebo que WR, com sua “algazarra” buscava de certa forma intimidar a equipe e se impor. Enquanto coordenadora, recebo WR com tranqüilidade e considerando sua insatisfação em estar ali “Você está indignado por estar aqui, sente-se injustiçado. Compreendo sua indignação, mas a ordem é judicial. Assim como você, também preciso me submeter a ela. Vou lhe receber e fazer sua admissão. Você pode escolher entre ficar, experimentar o que está aqui com a possibilidade de encontrar pessoas diferentes ou pular o muro e ir embora, perdendo talvez a chance de retornar, ou indo parar em uma internação”. WR. se acalma e me olha de frente. Estranha a possibilidade de decidir sobre sua vida. Decide ficar e experimentar o que seja isso (exercício da autonomia)

WR me intriga e encanta-me. Nos trabalhos em grupo ele senta-se meio de lado, quase saindo. Recusa-se a dar o que há de si, a participar. Mas quando lhe falo da sua importância e da falta que sinto dele à mesa (verdadeira e não apenas como reforço), ele se permite participar. E se coloca e questiona. Aprendi muito com WR. em seus questionamentos em seus confrontos e desafios, em sua imensa necessidade de aceitação incondicional .

Quando estava prestes a ser liberado WR traz da rua uma “bucha de maconha” (transgressão grave que resulta em Relatório ao Juizado). Tal fato poderia colocar em risco sua liberação. Mas WR estava relativamente em condições de ser liberado. Já havia crescido tanto… Sou eu que descubro e o chamo para colocar-lhe a situação. WR se desespera e ameaça fugir. A possibilidade de enfrentar o juiz, assumindo esta transgressão o faz pensar em colocar tudo a perder evadindo-se. “Você me diz para assumir a responsabilidade, mas não sabe o que é cabeça de Juiz! Ele vai me mandar para internação! Prefiro fugir! Não confio na justiça!”. “Você não é só isso, um adolescente que trouxe maconha pra casa, você é muito mais além disso. É você por inteiro que chegará até o juiz em relatório e também em minha fala. Será que consegue confiar em mim?” Ele pensa, sai da sala, caminha… eu espero. Enquanto isso, consulto o resto da equipe sobre a decisão a tomar. Ele volta e propõe decidirmos juntos a situação pede para dar descarga na bucha de maconha e assumir diante do Juiz tê-la trazido. Não abrimos mão do Relatório que é enviado. Ele decide enfrentar o que vier. Algumas semanas depois WR é liberado.

A liberação de WR é um marco pra mim… uma vitória da Semiliberdade Flamengo. Tendo em vista seu crescimento e as inúmeras vezes que quase o perdemos. Em sua despedida não consegui lhe dizer nada. Apenas chorar, lhe abraçar e desejar-lhe coragem, força e muita sorte lá fora. WR e os outros se espantaram com minha emoção. Mais uma vez me viram como pessoa e cada um lidou com isso a seu modo.

AGRESSIVIDADE:

Acreditamos ser importante distinguir agressividade do ato agressivo, da violência e da raiva. Partimos de algumas concepções de agressividade: “Forma de procura de relação, de instaurar a comunicação verbal ou não-verbal, uma modalidade do indivíduo de saída do próprio espaço vital para entrar no espaço alheio.” (Gonzales )

Uma forma de expressão do desejo de mover-se, conhecer e aprender. Assim um indicador de amadurecimento psicológico. “Expressão de um mal estar interior. Sintoma por não atendimento ás necessidades básicas (materiais e afetivas), expressão de conflitos e incômodos.”

“Impulso destrutivo, constitutivo da vida psíquica, de todo ser humano, com as quais todos nascemos. A função da cultura é controlar e canalizar este impulso.” (Gonzales)

A agressividade pode surgir:

• Pelo próprio processo de desenvolvimento do ser humano.

• Por reação à frustrações consigo e com outros.

• Reação ligada à experiências relacionais insatisfatórias: Carência afetiva, super proteção, excesso de diretividade, excesso de liberdade, culpabilização contínua, invasão do próprio espaço ( físico ou psicológico), em defesa à relações afetivas.

• Por imaturidade psicológica ( não aceitação de si mesmo – não se sente em condições de responder às expectativas, próprias e as do outro); não assume a própria responsabilidade e projeta, descarregando as tensões conflituais em outras pessoas; teme ser dominado e procura dominar antes. Nestes casos freqüentemente não há consciência contra quem se dirigem estes comportamentos, o que está fazendo!

Faz-se necessário darmos respostas educativas diante da agressividade. Compreendermos a real demanda do adolescente. Assim como, ajudá-los a aprender sobre o que sente e o que faz , reconhecendo seus reais sentimentos, desejos e necessidades, pensar e projetar, para depois agir. Promovendo, assim, o seu amadurecimento . Parece-me os casos de J.S. , W.R (pag. 10 e pag 13)., e tantos outras situações vivenciados.

Infelizmente, não foi possível trabalhar esse importante conceito com toda a equipe. Devido aos diversos fatores institucionais que algumas vezes barravam o desenvolvimento do trabalho. O que conseguimos foi buscar agir de acordo com estes princípios e tentar , no dia a dia, discutir situações com os educadores, inserindo estas concepções teóricas a partir da prática.

ASSERTIVIDADE:

Seria a combatividade como sendo a canalização positiva da agressividade. Afirmação de si.. Numa sociedade injusta como a nossa, o sistema, para se manter, busca fazer com que as pessoas sejam pouco críticas, apáticas, ocupadas com a sobrevivência e para isso é preciso dificultar as expressões assertivas e sexuadas. A conseqüência é que nas escolas e nas famílias encontramos um temor frente à afirmação e à combatividade nas pessoas. Esse temor passa pela falta de auto conhecimento, de informações e crítica da realidade.

Assim vamos gerando jovens inseguros que, diante dos obstáculos ficam tímidos, caem fora, entregam barato, ou então partem para o autoritarismo e querem resolver tudo rápido e na marra.

M.A F. (18 anos) é um adolescente tímido. A relação mantida com a “mãe” é de superproteção. Sente-se em constante dívida com ela (que na verdade é sua madrinha, pois a mãe faleceu). M.A.F. carrega nas costas a culpa de uma infração grave, fruto de uma explosão interna. Seu perfil difere um pouco dos outros, por não ser usuário de drogas nem morador de favelas. A relação “materna” o mantém dependente . Submete-se a tudo que vem da “mãe”, consequentemente na Semiliberdade se submete a tudo. Sendo considerado o exemplo de adequação às normas! Por outro lado o percebo distante de seus sentimentos, emoções, com pouco contato ou aceitação de sua vida interna, tal distanciamento me parece ser seu grande risco. Sua Pessoa não pode vir a ser neste contexto. Então, surge de forma manipulativa, jogando com sua fragilidade, ou mesmo explosiva e dissociada . Busquei não repetir a postura protetora que ele despertava nas relações. De certa forma o fazia confrontar-se com seu próprio querer, diferenciando do meu em pequenas coisas. O permitia fazer escolhas dentro do possível: “Qual curso você prefere. Este ou aquele?” “Qualquer um, você quem sabe, o que quiser pra mim tá bom”. “Bem, não sei o que está ai dentro de você e não posso escolher por você … não sou eu que farei o curso”. E ele escolhia um.

Certo dia MAF me trouxe uma “pérola”, comprovando que encontrava caminho para sua livre expressão através da assertividade. Tinha que participar de uma atividade pedagógica muito aquém de sua capacidade intelectual, (fazia parte dos deveres participar das atividade da casa). MAF critica a atividade com muita propriedade! “As vezes vocês acham que somos crianças com estas atividades!” e sugere o que poderia mudar. Sendo escutado em sua crítica, ele tece considerações sobre os pontos positivos e negativos da semiliberdade e de certa forma é, neste momento, porta voz das insatisfações do grupo de adolescentes. Logo depois ele se assusta com sua “ousadia” e me diz. “Nossa! O que você deve estar pensando de mim em! O MAF está sendo influenciado pelos outros! Ficando agressivo..” e eu lhe respondo com muita emoção e alegria. “Estou pensando que este é o MAF por inteiro e como sua contestação, sua crítica nos ajuda a crescer. Como é brilhante essa pessoa que está aí!”

OUTROS ASPECTOS RELEVANTES DA PROPOSTA RELACIONAL.

Ser bem vindo, por ser um Ser Humano. Um acolhimento afetivo e alegre será importante para o adolescente sentir-se “ em casa”. Cuidar e dar, de forma satisfatória, informações, orientações, presença favorecedora de um bem estar, disponibilidade de escuta. (Recebê-lo e ambientá-lo primeiro. Trabalhar idéias errôneas estabelecidas em outras instituições. Mostrar as regras do jogo).

Conhecer e interessar-se pela pessoa. Sua história de vida, medos, alegrias, a forma de viver seus sentimentos, estabelecer relações, o lugar que busca ocupar no grupo, forma de relacionar com autoridade, enfim conhecer a pessoa para então, reconhece-lo na sua forma, no seu ritmo, no seu poder e autoridade pessoais, nas habilidades e limitações. (São fundamentais os estudos de casos constantes e mais sistemáticos. Contribuição e impressões dos educadores a respeito).

Acreditamos ser possível inferir, a partir dos comportamentos, as faltas afetivas que poderão ser satisfeitas simbolicamente nas relações dentro da “casa”. Assim, os adultos que o atendem poderão ser facilitadores do processo de auto conhecimento, melhorando sua auto estima e daí a confiança no que lhe é possível realizar, pode surgir o desejo de ter um projeto de vida próprio. Daí a importância da orientação e formação pessoal dos educadores no sentido de lidarem com a relação estabelecida pelos adolescentes com eles. Muitos tornam-se referências para o adolescente e é fundamental aproveitar este vínculo no processo de reconstrução da identidade.

Ainda pode-se contar com a família, em geral a mãe, que assim sendo recebida, acolhida e informada, poderá modificar aspectos de sua relação com o adolescente, contribuindo para sua melhora. Como por exemplo, um trabalho realizado com a mãe de WR: buscamos não ser mais uma instituição a lhe cobrar e sim a lhe escutar em seu sofrimento e desesperança com relação ao filho, ela se sente compreendida e acolhida. Isso posteriormente possibilitou uma mudança de seu olhar para o filho uma aceitação evolução na relação de ambos.

CONSIDERAÇÕES (quase) FINAIS

Ainda há muito a se dizer, pensar, teorizar… Deixo claro que muito não foi possível realizar. Os motivos eram vários: desde interferências institucionais e pessoais até o tempo de atuação na Instituição. Percebo limites e dificuldades pessoais em me colocar e referendar minhas atitudes. Muitas vezes era difícil esperar o movimento e compreensão da equipe. Cheguei a duvidar de minhas convicções em muitos momentos, mas os resultados diretos com os adolescentes me mostravam que precisava continuar a acreditar nelas.

Questões com o poder ( e a disputa de poder vigente na instituição), com o instituído, resistência ao novo ou diferente foram pouco tocadas aqui. Nem mesmo os efeitos da outra Unidade na construção da Identidade da Semiliberdade Flamengo o que é de fundamental importância. O restante da história inclui também, demissões na equipe de educadores gerando insegurança. Atitudes pouco éticas de alguns educadores e membros da equipe. A saída de meu companheiro e parceiro da função de coordenador, após 6 meses de trabalho apenas, por suas questões pessoais. Culminando com a entrada de outra pessoa com atitudes e objetivos bastante distintas repetindo-se o que era fatal para o trabalho: Uma dissociação na atuação da coordenação .

A questão da droga e todas as limitações que sua interferência causa nas nossas atuações.

Também não foi falado sobre movimentos no grupo de adolescentes que demorávamos a compreender e precisávamos esperar. Como o que passei a chamar de “a poeira” quando todos começavam a se exaltar, falar ao mesmo tempo e ocupar nossa atenção de forma confusa ou as vezes agressiva. Geralmente acontecia um uso de maconha ou outra ocorrência ocultados pela “poeira”. Aprendi, juntamente com os educadores a lidar com ela, não intervir, manter a atenção flutuante e esperar a “poeira” baixar. Depois que passava, chegava a ser cômico.

Falta também falar da equipe de educadores, de como eu aprendi com a experiência de vida e contato com os adolescentes, que eles tinham. Como precisei repensar e modificar minha forma de ser (crescer), para lidar com aquele grupo. Como aprendi a ser autoridade, mulher e ser respeitada por um grupo de nove homens sem contar os adolescentes. Mas também como sofri com movimentos contra mudanças e sabotagens advindos de alguns. Tudo foi fator de crescimento.

Ainda assim, continuo com uma convicção que para mim é fundamental. Qualquer proposta de reinserção social, educativa ou reeducativa, baseada apenas em organização de atividades pedagógicas, adequação a regras, restrições, reforços positivos, punições, atendimento a necessidades básicas (alimento, moradia), não se basta em seu objetivo. É preciso priorizar o humano, a disponibilidade para crescimento a partir da relação com o outro. É preciso se considerar o tempo todo a pessoa que alí está . Que muitas vezes não se sabe pessoa. Mas alí está, a espera de ser vista, escutada e acolhida.

Às pessoas me perguntam se há recuperação para um Adolescente infrator. Respondo com toda certeza de minha vivência por 1 ano com eles. Há saída sim!!! Talvez ainda precisemos caminhar muito. Muitas mudanças sociais, políticas, instituicionais e culturais precisam ocorrer. Mas não tenho dúvidas que há saída!

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1. – Relato de experiência apresentado no XI Encontro Latino-Americano da Abordagem Centrada na Pessoa – Socorro (SP), 13 a 19 de outubro de 2002.
2. – Psicóloga -PUC/MG (1995), Psicoterapeuta Humanista, em formação em Psicomotricidade Relacional.

3. – Psicóloga – UFMG, Psicomotricista Relacional pelo Ins. Italiano de Psicologia della Relazione , especializada em terapias corporais pelo CICLO- CEAP

4. O Regimento Interno encontrava-se em processo de reformulação, quando iniciei o trabalho. Posteriormente seria alterado para se adequar às necessidades da casa.

5. Flamengo é o nome de uma das Unidades de Semiliberdade. Refere-se ao bairro com este nome, no qual se localiza, em Contagem/MG, região metropolitana de Belo Horizonte.

6. – Posteriormente, sugerimos uma reorganização na carga horária dos Coordenadores que viabilizasse o encontro dos dois na casa pelo menos uma vez por semana, bem como encontros externos para discussão, o que foi aceito.

7. – Encontros semanais entre os dois coordenadores da casa sob a Supervisão de Nilda Maria Ribeiro. Sobre um enfoque humanista e dentro da proposta relacional.

8. A CAMT é uma clínica escola mantida pelo Unicentro Newton Paiva , onde estagiários de psicologia realizam atendimentos sobre supervisão, utilizando estratégias de atendimentos em grupos e individuais. Conta também com a participação de outros profissionais, num trabalho multidisciplinar; Nutricionista, Psiquiatra, Farmácia.

9. – GONZALEZ, Marta – L’aggressivita’ e il gioco ludico aggressivo presenti nella dinamica psicomotoria

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002