MEMÓRIAS DE UM TEMPO JUNTO A CRIANÇAS – COM- CÂNCER: Reflexões sobre o processo de aprendizagem no enfrentamento da doença

CAMACHO, Maria do Rosário

[resumo de dissertação de Mestrado em Educação]

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO PEDAGÓGICO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

ORIENTAÇÃO: DOXSEY, Jaime Roy

Trata do processo de aprendizagem frente a doença câncer infantil. Pesquisa, existencialmente, oitenta e três crianças portadoras de câncer infantil no Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória (HINSG), público e de grande porte, situado em Vitória, Espírito Santo, Brasil. Estuda este conceito através do método fenomenológico (com)vivendo, no Hospital, no período de agosto a dezembro de 2001 com crianças, profissionais e familiares. Utiliza-se de Diário de Campo, Versão de Sentido (VS) e procura revelar unidades de sentido (VS), descrevendo as dimensões do processo de aprendizagem efetivado neste contexto denominando-as polos fronteiriços: Informação-Experiência; Identidade-Deformação; Aceitação-Negação; Projetos-Morte. Destaca a importância do sentido do vivido para o processo educativo, no enfrentamento da doença, contribuindo cientificamente na área da educação não-escolar.

OBJETIVO: Compreender o processo de aprendizagem no contexto hospital-doença câncer.

O PERCURSO METODOLÓGICO:

COLETA DE DADOS:

Escolhi intencionalmente o Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória e, no período de agosto a dezembro de 2001, estive envolvida neste ambiente nas situações que se apresentaram no cotidiano hospitalar. Delimitei um tempo cronológico de dez horas semanais que foram cumpridas em espaços variados compreendendo as manhãs em seu início e findar; as tardes em seu início e findar e o anoitecer. Propus-me escutar a criança onde quer que a encontrasse: nas dependências do ambulatório de oncologia, na enfermaria, na classe hospitalar, sentada no pátio, caminhando pelos corredores, subindo a ladeira do hospital; em situações como submetendo-se a procedimentos médicos, aguardando consultas e exames, em atividades lúdicas, no pós-cirúrgico, recebendo alta hospitalar ou as primeiras informações sobre a doença. Duas outras situações que se apresentaram foram as reuniões de mães-pais-responsáveis ocorridas na sala da psicóloga e as comemorações do Dia das Crianças (12/10) e do Natal (25/12) que se fizeram num ambiente fora do hospital (casa de festas).

ANÁLISE DOS DADOS:

As narrativas do diario de campo foram transcritas e, então destacado, do diario, quatorze personagens aos quais nomeei com um titulo-imagem. Das quatorze narrativas, através do (con)versar emergiram unidades de sentido. Estas unidades de sentido revelaram-se como pólos, dentro dos quais se processa a aprendizagem neste contexo. Os pólos são: INFORMAÇÃO-EXPÊRIENCIA, IDENTIDADE-DEFORMAÇÃO, NEGAÇÃO-ACEITAÇÃO, PROJETOS-MORTE.

Apresentando uma narrativa:

PERSONAGEM 1 (destacado do diário de campo): OLHANDO PELO CORREDOR (titulo-imagem que visa preservar o caráter vivencial do acontecimento):

E1 (Encontro 1): Numa cama da ala direita está Diva. Ela emite sons altos e inumanos. São grunhidos – vêem de um lugar distante em seu corpo (barriga?). Diva está inchada em excesso. Sua barriga parece que vai estourar. A mãe chora ao lado. Diva deve ter uns três anos; é moreninha e está com os olhos fechados. As enfermeiras tentam passar uma sonda (penso: tomara que a alivie!). Não vejo o ato se concretizar. Por volta das dezesseis horas Diva silencia. Há movimentação na ala direita e, daqui, bem em frente a ala direita, posso ver (eu vejo e todos os outros também). A médica chama a mãe; esta chora. Minutos depois chega o pai; ele chora. Chegam dois rapazes com jalecos cinza – cores estranhas aqui. Diva é levada com um balão na face – ouço: ciruigia. A mãe senta-se na cadeira que, devido à movimentação, veio parar no corredor; ela aperta um travesseiro e se curva. O pai se coloca fora da enfermaria; ao sair eu o vejo, enconstado na parede junto à porta. Moreno e jovem (ela o puxou!) ele limpa, despistadamente, suas lágrimas.

RESULTADOS PARCIAIS:

A aprendizagem neste contexto pesquisado se dá como criação de sentido. O ato de criar sentidos é visto como aprendizagem significativa. Os pólos acima citados, são abordados como processo e, a aprendizagem, neste contexto, como criação de sentidos construída ao longo desse continuo (entre-polos). O ser que aprende frente à morte – percepção de sua finitude – caracteriza-se pelo contato com a angústia num movimento de (des)velar-se e, assim, liberar sentidos na rede ser-criança-no-mundo-vivido-da-doença-câncer.

OS POLOS DO PROCESSO:

1: INFORMAÇÃO-EXPERIÊNCIA: Informar é comunicar um fato ou acontecimento. Permite dominar o dialeto hospitalar e promove segurança quando sugere “saber o que se passa consigo mesmo e, por isso, controlar estes eventos”. Este alivio se reflete na capacidade em suportar o sofrimento, no entanto, há uma tensão constante entre informação-experiência movendo o aprender na direção dor/desamparo.

LUGARES ONDE SE PODE VER ESTE POLO:

– Diva produz sons altos e inumanos e é levada por dois homens de jalecos cinza. Os pais choram e (é informado) Diva morreu (P1);

– Quero saber de onde esta vindo a febre (P14);

– Coloquei cateter e serve para eu tomar todos os medicamentos; não vai furar mais (P10).

2: IDENTIDADE-DEFORMAÇÃO: Construir e destruir são movimentos no processo de aprendizagem.. Percebo este polo como danoso, impedindo o processo do fazer-se e/ou impondo uma direção deformada à construção, trazendo depressão e baixa-estima como consequência.

LUGARES ONDE SE PODE VER ESTE POLO:

– Alice mostra fotos de sua familia; segura firme seu álbum (P2);

– Cabelos ralos e andar encurvado; parece uma “velhinha em miniatura” (P8):

– João é otimista (P7).

3: NEGAÇÃO-ACEITAÇÃO: Podemos dizer que a negação é um recurso utilizado em nossos aprendizados permitindo um afastamento temporário frente ao conteúdo ameaçador. O aceitar se faz no contexto relacional, isto é, aceitar-se doente-com-câncer e ser aceito como doente-com-câncer. Movimento dificil junto a dor e factualidade da vida (morte), especialmente para os que vivem este tempo.

LUGARES ONDE SE PODE VER ESTE POLO:

– Não chama mais a mãe; aceita minha mão (e morre) (P2);

– Não aguento mais, você (mãe) não me deixa morrer (P7);

– Não adianta dizer que ele está melhor agora (morreu) (P11).

4: PROJETOS-MORTE: Exercendo a liberdade de escolher constroem-se projetos: ser médica, ser violeiro, ir para o pré-escolar, ser engenheiro e viver para realizar os projetos escolhidos. O tempo que se tem é fator importante a ser considerado nestes projetos elaborados face à morte.

LUGARES ONDE SE PODE VER ESTE POLO:

– Ela não raspou ou cortou seus cabelos (suporta-os caindo) (P8);

– Ele está preso à bombinha ( quimioterapia) (P8);

– Ele (ainda) quer ir para a escola aprender a ler (P10).

REFLEXÕES – SUGERINDO POSSIBILIDADES:

O aprender no contexto pesquisado apresenta características próprias: a tríade doença, hospital, morte coloca a criança diante de um aprender singular. Vivendo este espaço-tempo desejará significá-lo como representativo de sua real (sobre)vivência. O processo de aprendizagem que aqui se desenrola será, então, a criação de sentido para cada ação realizada ou acontecimento vivido.

A mediação deste aprender “por entre-polos” remete a um investimento na formação do educador que aí se encontra. O aprender/educar é um processo não terminado após uma aula ou ciclo pedagógico. Este educador deverá educar-se, também, pela via do sentido: compreender sua própria aprendizagem dentro deste contexto. Este educador, o que escolhe estar junto à crinça-com-câncer, também sofre junto-com, por ser-no-mundo do hospital e ser humano.

E-mail: mrosarioc@ig.com.br

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002