NASCE: Uma prática em Psicologia Social

Juliana Lopes

APRESENTAÇÃO

O NASCE – Núcleo Assistencial Criança Esperança, foi criado em 1995, através do Departamento da Infância e Adolescência, da Sociedade Espírita Amor e Caridade (SEAC), funcionando à Rua Padre Viegas, 210 – bairro Jardim Industrial – Contagem/MG. O Projeto NASCE é fruto de um sonho da sua coordenadora que constatava, através de seus trabalhos junto a comunidade, a real necessidade de se oferecer um espaço de acolhimento e formação às crianças e adolescentes da região, que se encontravam em extrema carência e situação de risco pelas ruas.

Estas crianças foram selecionadas, de acordo com o nível de carência e risco, através de visitas às casas e entrevistas com responsáveis. O NASCE é mantido por doações e venda de livros, sendo gratuito para seus usuários. Inicia-se com 15 crianças em idade escolar que, devidamente matriculadas na escola regular, permanecem no NASCE nas outras 4 horas de seu dia. Lá recebem alimentação, apoio educacional através de auxilio ao “Para Casa”, orientações quanto a higiene e saúde, introdução a “moral cristã”, além de atendimentos odontológicos.

COMO A PSICOLOGIA SE INSERE NESTE CONTEXTO

Desde o início do Projeto a Coordenadora do NASCE, então estudante de Psicologia, verifica a necessidade de atendimentos psicológicos às crianças. Durante seu 2o ano de funcionamento, teve início uma primeira experiência de serviços de Psicologia, na qual alguns Psicólogos amigos e estudantes voluntários, se dispuseram a atender as crianças. Os atendimentos funcionaram durante cerca de um ano e meio. Como não havia vínculo maior com a instituição, os estagiários e psicólogos foram se desligando. Posteriormente avaliamos que a motivação caiu devido a falta de supervisão dos trabalhos, falta de espaço para compartilhar frustrações e dúvidas, falta de retorno profissional e financeiro.

No ano de 1998, de 60 crianças matriculadas, apenas uma era atendida. Tal situação era insuficiente, diante da demanda. Meus planos de elaborar uma proposta de trabalho mais amplo junto a instituição vieram de encontro a necessidade explicitada pela Coordenadora no final de 98. Esta trouxe-me um pedido das Educadoras: Queremos um tempo para conversar sobre os diversos problemas que estão ocorrendo no NASCE. Particularmente a coordenadora queixava-se estar muito sobrecarregada e angustiada, devido a dependência coordenação-educadoras. Estas sentiam-se inseguras diante dos problemas e a qualquer situação recorriam a ela “futura psicóloga” para solucioná-los.

UMA PROPOSTA DE INTERVENÇÃO

De acordo com Gregório Baremblit[1] , o primeiro passo para uma intervenção institucional, é fazer a análise da produção da demanda visto que, “não existe demanda expontânea, toda demanda é produzida, gerada[2] ”. Verifica-se que o NASCE, em seus primeiros anos de vida, atende às necessidades básicas daquelas crianças: alimentação, proteção, saúde. Surgem então novas necessidades que, quando não são atendidas, acabam gerando demandas. Ainda citando Baremblit, observa-se no NASCE alguns analisadores naturais: “Fenômenos que surgem como resultante de todo um conjunto de forças contraditórias que se articulam”[3] . As crianças questionavam os conceitos de moral e ideologia passados pelas professoras, as famílias não participavam e quando o faziam não pareciam introjetar o que lhes era passado. A sexualidade se exacerbou ainda mais após trabalharem o assunto.

As primeiras hipóteses do trabalho começam a surgir, dando origem a um diagnóstico provisório da Organização. Verifica-se um atravessamento da Instituição religiosa com a Instituição educacional, o que causava confusão de objetivos. O caráter assistencial perpassava todo o projeto provocando uma relação de dependência. Isso interferia em todos os níveis de relação: SEAC-NASCE, Coordenação-Educadoras, NASCE-Família, Educadoras-crianças. O saber estava nas mãos do Outro. As Educadoras não confiavam no seu próprio saber. Procuravam-me como a um “Expert” que lhes diria o que fazer e como fazer.

Atender-lhes a demanda explícita de trabalhar conteúdos de forma didática e informativa seria repetir o mesmo tipo de vínculo, manter a relação de dependência. Ainda dentro do movimento institucionalista meu trabalho visava a auto análise, na qual “as comunidades mesmas como protagonistas de seus problemas e necessidades possam enunciar e compreender acerca de sua vida[4] ”. Caminho que leva a autogestão.

Os primeiros encontros, se estruturaram buscando esta compreensão. Trabalhou-se objetivos pessoais e da equipe, suas relações e obstáculos encontrados. Após primeiro momento, o grupo definiu temas a serem trabalhados: agressividade, sexualidade, limites, aprendizagem, família, questões sociais.

A forma de abordagem dos temas também visava propiciar a evolução do grupo. Em cada tema tratado eram resgatadas e valorizadas a experiência e saber de cada uma. O conhecimento científico vinha como suporte, agregando ao saber do grupo e reconstruindo a prática.

A condução baseava-se na convicção de que somente o reconhecimento do saber, a crença no potencial humano de cada uma, possibilitaria que também reconhecessem as crianças como pessoas de um saber e potencial próprio. O tema família foi trabalhado visando a compreensão daquele universo cultural singular, diferente do delas, mas nem por isso inferior e sem nada a contribuir. O NASCE começava a deixar de ser aquele que sabia tudo e ensinava a ser.

De acordo com a Abordagem Centrada na Pessoa, quando se dá ao outro um espaço de aceitação incondicional, compreensão empática e valorização, este começa a entrar em contato com seus sentimentos, e reconhecer seu próprio potencial para a solução de problemas. Durante os encontros, as educadoras vão experimentando um espaço de permissividade, onde podem ser elas mesmas, questionar, se colocar. As insatisfações aparecem, passam a exercitar de forma mais tranqüila sua autonomia. Somente após acreditarem nelas mesmas e apropriarem-se de seus saber começam a repensar sua prática, combinando-a com as informações recebidas.

A evolução da equipe de um estado de dependência para um caminhar constante rumo a autonomia é o que fica de mais significativa da contribuição da psicologia. A liderança transita. No final do primeiro ano, cada uma elabora um Projeto dentro do NASCE: Projeto Família, Projeto Adolescente, Projeto Pedagógico, Projeto de Psicologia. Apresentam modificações na relação com os meninos, e familiares. Dão-lhes espaço para se colocar, trazer suas contribuições, agregar e trocar valores.

O NASCE – ANO 2000

Atualmente, dentro do Projeto de Psicologia estruturou-se, a pedido da equipe, os atendimentos individuais às crianças. Desta fez de forma mais sistemática através de estagiários que são supervisionados e acompanhados por mim. O objetivo é oferecer-lhes formação teórica em troca de seu trabalho voluntário, tirando deste seu caráter assistencial e pouco profissional. Estamos com projetos de ampliar o trabalho para alguns encontros com grupos, como uma segunda etapa da formação dos psicólogos voluntários.

A equipe começa a caminhar com as próprias pernas. Mas, como a criança que aprende a andar, ainda cambaleiam e sentem necessidades de um apoio. O trabalho com as educadoras continua em encontros mensais e agora, mais maduras profissional e pessoalmente, podem tocar em temas mais delicados da Instituição e fazer planos de ampliar a atuação, abrindo espaço talvez para a “tão sonhada creche” e para a emancipação do NASCE.

NASCE: NÚCLEO ASSISTENCIAL CRIANÇA ESPERANÇA

Rua Padre Viegas, 210 – Jd Industrial – CONTAGEM – MG

FONE: (031) 362 – 4672

Juliana Lopes

1. BAREMBLIT, Gregório – Compêndio de Análise Institucional e Outras Correntes
2. Idem

3. Idem

4. Idem,

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002