O adolescente e a família: um par que da certo.

Sandra Cecília de Sousa Rocha Guimarães[1]

O adolescer é novo que rompe repleto de vida.

Resumo: O objetivo deste trabalho é propiciar uma breve reflexão sobre a participação da família na construção do self e dos referenciais de escolhas do jovem, destacando a qualidade da comunicação neste processo.

Unitermos: adolescente, comunicação, família, self.

Introdução

Rogers pouco escreveu, especificamente, sobre o trabalho terapêutico da família e do adolescente. Encontramos em alguns livros poucas menções sobre a família, mas, nada de mais detalhado sobre este [2] complexo sistema nuclear. Sua teoria tem como ponto fundamental a crença constante no crescimento do ser humano, em um contexto estritamente relacional, o que possibilitou a integração de seus referenciais teóricos em diversas áreas, inclusive o grupo familiar. Assim, a partir de um estudo teórico mais detido nesta área, bem como, através da experiência clínica em estágios e no desempenho profissional, proponho este trabalho na tentativa de que possa ser utilizado, nesta difícil tarefa, que é ajudar as famílias nas suas diversas relações, principalmente, com os filhos adolescentes.

O presente trabalho tem por finalidade apresentar uma contribuição da abordagem humanista, no que tange a relação da família com o adolescente. A partir da prática de um estágio supervisionado intitulado “O adolescente e suas vivencias intra e inter-relacionais”, em uma escola particular, pretendo problematizar qual a relação entre o processo de comunicação que ocorre na família e os referenciais elaborados pelo adolescente para a realização de suas escolhas.

Partindo de uma perspectiva da abordagem centrada na pessoa (ACP) e alguns referenciais teóricos da Terapia Sistêmica de Família, que possibilitam articulações entre estes saberes, buscarei demonstrar, por meio da apresentação de alguns fragmentos vivenciais duas contribuições fundamentais desta articulação: a urgência de se criar condições para a tendência auto-atualizadora do jovem e a importância da comunicação autêntica como uma das expressões máxima no sistema familiar.

Outro aspecto importante a ser pontuado é sobre a questão da transdisciplinaridade[3] . A essência do postulado humanista permite um transitar teórico-ético entre diversos saberes, o que propicia a pesquisa constante no atendimento das demandas que surgem na contemporaneidade.

Condições propícias para adolescer

Uma das características marcantes da abordagem humanista é a crença de que a natureza humana é basicamente positiva, com características próprias de um ser positivo, progressista, construtivo, realista e principalmente, merecedor de confiança.

Poderíamos sugerir que a noção de homem no pensamento de Rogers seria correspondente a seguinte definição: um ser concreto, situado historicamente, criador e transformador da natureza e de si mesmo, através das relações que estabelece com os outros. (GOBBI, 1998, p.85).

Os seres humanos estão essencialmente, orientados para o crescimento, (tendência atualizante) movimentando-se para frente e preocupados com suas escolhas existenciais. São basicamente dignos de confiança, capazes de avaliar uma situação externa e interna, compreendendo a si mesmo no seu contexto, fazendo opções construtivas para sua vida.

Segundo Rogers (1961), o indivíduo possui vasto recurso para auto-compreensão transformando seu auto-conceito, atitudes e comportamentos. Contudo, para que este processo ocorra é necessário viabilizar um determinado clima de atitudes psicológicas facilitadoras. Ele descreve um clima, no qual não haja ameaças à auto-imagem e que se preserve a integridade pessoal, para que, esta pessoa, possa retomar o caminho de forma integrada, com opções livres entre alternativas reais. Esta certeza nas inclinações construtivas como forças dominantes, reforça a confiabilidade em um indivíduo integral – raciocínio, afeto e corpo – que pode admitir e expor seus sentimentos verdadeiros, a princípio podendo parece tenebrosos, indignos e assustadores, que o levem a sofrer, mas, não a recuar. É neste seguimento da relação interpessoal facilitadora que o crescimento pode advir, liberando não apenas aquilo que foi reprimido com o também possibilitando o desabrochar das potencialidades criadoras do ser.

Neste tipo de inter-relação as capacidades de transformação emergem, possibilitando um crescimento pessoal autêntico, rico em possibilidades de ser sendo. O processo inter-relacional exige das pessoas uma veracidade no seu modo de ser, o que proporciona inúmeros benefícios intersubjetivos. É indispensável ser genuíno para expressar sentimentos e atitudes, assumindo uma postura real própria, pois, só assim a outra pessoa irá procurar esta realidade em si com êxito. Outra característica básica, nesta forma de relação, é a aceitação incondicional do outro sem formação de juízo de valores ou interpretações prévias. É considerá-lo, afetuosamente, independentemente da condição, comportamento ou sentimentos, propiciando a segurança de ser querido e apreciado tal como é. Neste relacionamento é preciso existir um desejo contínuo de compreender os sentimentos e pensamentos, por mais terríveis que sejam. É preciso vê-los com os olhos que o outro vê através do estabelecimento de uma relação empática.

Quando essas condições são alcançadas, torno-me uma companhia para o meu cliente, acompanhando-o nessa busca assustadora de si mesmo, onde ele agora se sente livre para ingressar. (ROGERS, 2001, p.39).

É nesta relação transparente, nos quais os sentimentos verdadeiros se permitem mostrarem, em função de uma aceitação incondicional e de uma profunda compreensão empática, que se possibilita vislumbrar o mundo particular do outro, estabelecendo um verdadeiro encontro humano de iguais, que, objetiva a busca de si mesmo.

Construir e reconstruir o Self

A experiência, na abordagem humanista, é um pressuposto fundamental, pois, é através destas que as pessoas se constituem.

Todo indivíduo possui um campo de experiência único ou “campo fenomenal”. Este contém tudo que se passa no organismo estando, a qualquer momento, disponível a consciência. Os vários eventos, percepções, sensações e impactos dos quais a pessoa não têm consciência, mas poderia ter, fazem parte deste campo experiencial, podendo ou não, corresponder a realidade objetiva. No interior desta zona vivencial esta o self.

Comecei o meu trabalho com noção estabelecida de que o self era um termo vago, ambíguo, sem significado. Consequentemente, custei a reconhecer que quando clientes tinham a oportunidade de expressar seus problemas e suas atitudes usando seus próprios termos tendiam a conversar em termos de si mesmo: “Sinto que não estou sendo eu mesmo” ou “Sinto-me bem em me soltar e ser eu mesmo aqui.” Parecia claro, com base nessas expressões, que o Self era um elemento importante na experiência do cliente e que, em algum sentido estranho, seu alvo era tornar-se “verdadeiro eu.(ROGERS, 1959,p.200-201)

Segundo Rogers (1961), a idéia do eu não parece ser um acrescimento de inumeráveis aprendizagens e condicionamentos efetuados na mesma direção. Demonstra ser uma configuração detentora de significação, com possibilidades de mudanças em função de alguma alteração em seus elementos. Partindo destas premissas, o conceito de self pode ser entendido como uma forma organizadora e consistente, num processo constante de formar-se e reformar-se em função das diversas vivenciais que o indivíduo experiencia. É um contínuo processo de reconhecimento, no qual, a pessoa elabora um auto-conhecimento, ou seja, como ela se vê a si própria, tendo como base suas experiências passadas, estimulações presentes e expectativas futuras.

Ainda Rogers (1967), define o self ideal como um conjunto de características que o indivíduo gostaria de poder reivindicar como descritivas de si mesma. Contudo, a insatisfação para a pessoa situa-se, precisamente, na diferença da extensão entre o self ideal e o self, apontando para as dificuldades neuróticas. Por isso, a saúde mental encontra-se na aceitação de como se é na realidade e não de como se quer ser. Para ele, uma forma de prever o comportamento futuro de uma pessoa é saber como ela se vê. Acompanhado deste auto-conceito realista vai uma percepção realista sobre a realidade externa e a situação em que o indivíduo se encontra. O ser humano luta para manter as percepções de suas experiências consistentes com a auto-imagem. Ele permanece aberto a situações em harmonia com o auto-conceito. Contudo, se a experiência viola sua auto-imagem, é provável que bloqueie ou distorça isso. Desta forma, gradativamente, ocorre uma perda, pois, a direção central das pessoas é para a realização de potenciais construtivos. Ao negar ou distorcer qualidades importantes ocorre um prejuízo por que se constroem auto-imagens irreais e incompletas. Qualquer experiência que entre em conflito com este falso auto-conceito, irá ameaçar a pessoa, fazendo com que ela construa defesas rígidas, na tentativa de isolar seus conflitos.

Partindo destas pontuações pode-se considerar a relação familiar, como um processo de educação, no qual a criança ou o adolescente convive com o outro e ao conviver se transforma de maneira que, seu conviver se torna mais congruente com o outro no espaço da convivência. O educar é, portanto, recíproco e ocorre o tempo todo. As pessoas aprendem a viver e conviver da maneira pela qual sua comunidade vive. A família pode ser aqui considerada, como um núcleo educacional no quais os filhos confirmam em seu viver, o mundo que viveu em sua educação. Os pais, por sua vez, confirmam o mundo que viveu ao serem educados. É neste contexto inter-relacional que o self vai se fazendo e refazendo, elaborando um self ideal ou não, em função da autenticidade que permea estas relações familiares. Contudo, o que observamos, atualmente, é um adolescente portador de uma grande insatisfação, pois, a diferença entre o que realmente é e o que queria ser é cada vez mais extensa, sendo fomentada das mais sutis e diversas formas.

De acordo com Rogers (1967), uma forma de prever o comportamento futuro de uma pessoa é saber como ela se vê. Acompanhado deste auto-conceito realista vai uma percepção realista sobre a realidade externa e a situação em que o indivíduo se encontra. O ser humano luta para manter as percepções de suas experiências consistentes com a auto-imagem. Ele permanece aberto a situações em harmonia com o auto-conceito. Contudo, se a experiência viola sua auto-imagem, é provável que bloqueie ou distorça isso. Desta forma, gradativamente ocorre uma perda, pois, a direção central das pessoas é para realização de potenciais construtivos. Ao negar ou distorcer qualidades importantes ocorre um prejuízo, pois, constroem-se auto-imagens irreais e incompletas. Qualquer experiência que entre em conflito com este falso auto-conceito, irá ameaçar a pessoa, fazendo com que ela construa defesas rígidas, na tentativa de isolar seus conflitos.

Assim, retomo o questionamento inicial propondo pensar a luz dos conceitos da abordagem centrada na pessoa e de alguns da Terapia Sistêmica de Família, como está à comunicação entre o adolescente e a família e consequentemente, qual o reflexo deste processo na elaboração dos referenciais de escolha do jovem.

A adolescência

A adolescência é marcada pela passagem de uma identidade conflituosa, em crise[4] para uma identidade reconhecida e assumida. Na infância, embora o indivíduo esteja consciente de seu “estar no mundo”, sua posição é mais dada que apropriada. O adolescente tem a tarefa de conquistar e atribuir-se um novo lugar, a partir do qual poderá desenvolver-se como pessoa. Esse novo lugar deve ser descoberto e apropriado pelo próprio jovem, implicando em estar consciente de si mesmo como indivíduo de sua atividade e fonte da qual flui o que lhe é próprio. O “si mesmo” é o centro das iniciativas, e não apenas um lugar atribuído ou de impacto dos estímulos sociais.

A grande pergunta que o jovem faz “Quem sou?” é formulada em um momento de crise, em um momento de possibilidades, de elaboração de sua identidade. A vida emocional mais ampla e rica é uma tentativa inexorável de auto-definição, buscando responder ao seu questionamento.

A formação da identidade na adolescência realiza-se a partir das vivenciais anteriores, infantis, que se integram a outras. As identificações com os pais mantêm seu significado, embora sejam acrescentadas a elas identificações com outras figuras significativas, idéias, com amigos, companheiros e até mesmo com inimigos.

Segundo Griffa (2001), a formação da identidade implica não só em estabelecer identificações com as pessoas, mas também com grupos, e é exatamente na adolescência que estas últimas adquirem significado. Assim, as identidades como outros grupos de pertencimento religiosos ou políticos, com determinada classe social ou subcultura, entre outras, somam-se à identificação com a família como unidade com suas normas e costumes.

A família pode ser compreendida como um sistema dinâmico que está inserido em um contexto social mais amplo, estabelecendo constantes interações com ele. Mantêm diferentes gerações em uma convivência diuturna, na qual ocorrem trocas afetivas intensas e onde se forja a identidade.

Nobre (1987) propõe uma definição com relação ao delineamento familiar extremamente pertinente.

… um sistema aberto em permanente interação com seu meio ambiente interno/e ou externo, organizado de maneira estável, não rígida, em função de suas características básicas e de um modus peculiar e compartilhado de ler e ordenar a realidade, construindo uma história e tecendo um conjunto de códigos (normas de convivência, regras ou acordos relacionais, crenças ou mitos familiares) que lhe dão singularidade. (NOBRE, 1987, p.118 -119)

Nesta matriz básica das relações, emoções e motivos humanos onde se concentram as condições materiais e a socialização dos filhos (as), ocorrerá a internalização de normas culturais e valores ético-morais. É um espaço no qual se constitui a personalidade, sobretudo em função da qualidade dos vínculos, da necessidade de pertencimento e da compreensão da liberdade.

O indivíduo constrói sua identidade no processo de socialização, em um primeiro momento através da família (socialização primária) e posteriormente por sua inserção nos demais grupos sociais (socialização secundária). É na família que o adolescente afirma sua identidade e o seu Self, sofrendo influências desta em seu processo de desenvolvimento. O jovem se revê à medida que se afirma como pessoa. Esta desidealização (self ideal) caracteriza o surgimento de uma independência própria, uma afirmação da sua auto-imagem autêntica.

A inserção do adolescente aos grupos pode criar condições para que ele faça uma análise dos referenciais transmitidos pela família, pela sociedade e, ao mesmo tempo reflita e crie novos modos de viver. O grupo pode ser um espaço de grande experimentação. Assim, o primeiro passo do adolescente rumo a sua independência pessoal será dado em direção ao grupo. É, portanto, de suma importância, a vivencia no grupo para a construção da identidade do adolescente, principalmente porque, é neste momento, que irá preponderar, no jovem, o self ou o self ideal, fornecendo sustentação a sua capacidade de pensar e escolher. Concomitantemente refletirão aí os padrões de interações desenvolvidos no núcleo familiar, no qual ele irá buscar ou não, o suporte emocional para as suas definições. Quando as interações familiares são saudáveis, na qual a comunicação prioriza a autenticidade e a intersubjetividade, o adolescente será mais confiante e seguro ao fazer suas opções.

A relação emerge como expressão caracterizadora do sistema familiar, ao qual estão subjacentes os processos de comunicação. Para Rogers (1985), uma boa comunicação é sempre terapêutica, pois, leva o indivíduo a torna-se mais pleno, de uma maneira profunda. Ele próprio se conduz igualmente à descoberta de uma maior satisfação nas relações familiares reais que perseguem o mesmo fim: facilitar em cada membro da família o processo de descobrir-se e de vir a ser ele mesmo.

Na construção da personalidade juvenil a afetividade e sua relação com a dimensão interpessoal são pontos extremamente importantes. A visão de mundo que o jovem possui é fruto de sua inserção no sistema social que exerce um poder condicionante e modelador. Neste complexo sistema emergem uma rede de relações intersubjetivas que o adolescente estabelece através de um contato de maior proximidade.

Segundo Romero (2002), os sentimentos são adquiridos através do contato interpessoal, diferenciando-se das emoções que fazem parte do patrimônio genético da espécie. São eles que revelam o caráter e a qualidade de nossos relacionamentos interpessoais, como também dizem das diferentes formas do ser humano se relacionar com os objetos, com os outros e consigo mesmo. Neste sentido, pode-se enfatizar a importância da congruência e autenticidade na família como alicerce primordial para a fase do adolescer, pois, é neste momento que os sentimentos orientados pela simpatia e valorização do outro tomarão corpo na personalidade do jovem, preponderando no seu ser e no seu existir. É na intersubjetividade vivenciada que ocorre o encontro do Eu Tu e Nós, resultando em interações subjetivas que priorizam o E e não o Ou, culminando em uma lógica integradora que conduz à interdependência e não a uma dependência de alguém para com outro alguém.

É neste processo que irá constituir-se a arquitetura interior do adolescente, que uma vez consolidada na estrutura da sensibilidade, passam a formar parte da personalidade do indivíduo como predisposição vivencial e comportamental. Os sentimentos se expressam em atitudes e comportamentos, revelando o significado subjetivo que outorgamos aos objetos e às pessoas de nossas relações. São liames invisíveis de valor positivo ou negativo que estabelecemos com as diversas realidades que constituem o mundo pessoal.

O contexto familiar pode representar um papel estabilizador, potencializando interações verdadeiramente afetivas e efetivas, que viabilizem ao jovem mecanismo para pensar, agir e sentir, descobrindo o sentido da vida, construindo sua auto-estima.

Lembro-me de um jovem, de 14 anos, que chamarei de L. Ele foi integrante de um grupo de adolescente, em uma escola particular, na qual desenvolvi uma atividade curricular para formação em Psicologia. Foi uma vivencia extremamente rica, que me proporcionou refletir mais, sobre a questão das relações interpessoais do adolescente e sua família. L. era participativo e comunicativo, mas pouco espontâneo em suas comunicações, demonstrava ser muito educado, em suas colocações observava-se uma grande responsabilidade e maturidade para um jovem. Contudo, pode-se percebe que em suas conversas e colocações havia certa dose de raiva, rancor e revolta, principalmente, com sua mãe. Foram vários encontros nos quais ele falou, falou, falou muito sobre tudo e todos, a sua vida escolar, seus relacionamentos com amigos, namorada, irmão, pai e mãe. Em sua fala sobre a mãe expressava um misto de amor e raiva, obediência e pena. Porque uma mãe tão autoritária e carinhosa, que domina tudo, escolhe suas roupas, as suas atividades, seus horários, esta sempre cobrando tudo e, quando não é atendida, fica triste, calada, chora, acabando assim, por conseguir tudo o quer deste filho, que se sente culpado pelo estado depressivo que a mãe apresenta.

L. “Minha mãe já desistiu do meu irmão mais velho. Este faz tudo o que quer. Ela não consegue mais nada com ele! Ele é assim, meio doidão, não ta nem aí pra nada do que ela diz! Ele sai, faz faculdade, namora, tem tatuagem, piercing, toca em uma banda, adora ouvir música alta e ela já não fala mais nada, já desistiu dele mesmo!”.

E.P.: Ah, então você esta me dizendo que sua mãe desistiu do seu irmão mais velho, ela não o controla mais.

L.: “É ele é diferente de mim. Sempre foi mais largado, dono do próprio nariz. Mas ele é gente boa. Nós conversamos sobre tudo. Ele faz tudo isto, mas é muito responsável com as coisas dele!”.

E.P.: Ele é responsável e faz tudo o que gosta. (ocorrer um silêncio)

L.: “É, acho que preciso começar a fazer algumas coisas que gosto.”

Este pequeno fragmento ilustra a insegurança, de um jovem, com relação aos seus valores e sentimentos. Contemporaneamente, o adolescente vivencia situações contraditórias e divergentes. Rogers (1967) pontua a mudança na perspectiva dos valores, que ocorre na infância para á vida adulta. Muitas vezes, na tentativa de receber e conservar o amor, aprovação e consideração, a criança como o jovem, abrem mão do que realmente valoriza, colocando outras formas de avaliação sobre seus sentimentos. Assim, sempre desconfia do seu próprio comportamento, pois, acredita não ter experiência básica para este. Adota valores e atitudes de outros, mesmo que estes, muitas vezes, sejam totalmente discordantes do que esta sentindo. Entrega ao outro o seu centro de valorização perdendo o contato com seu potencial e confiança própria, sentindo-se inseguro e ameaçado.

Na adolescência acontece uma espécie de acareação entre os conceitos valorativos e as experiências. Neste ponto, muitas vezes, o que o adolescente reconhece é uma enorme contradição entre um e outro, culminando em um verdadeiro divórcio do próprio ser. É nesta discrepância entre conceitos e sentimentos, entre a estrutura intelectual de valores e o processo de avaliação irreconhecível no seu íntimo, que se produz a verdadeira alienação da pessoa diante de si mesmo.

Processo de Comunicação

O processo de comunicação é uma ação, intencional, utilizada pelos membros de uma família para constituírem suas relações uns com os outros.

Rogers (1985), sempre se dedicou no trabalho de resolução de conflitos, quer sejam individual ou em grupos, alicerçado na facilitação do processo de comunicação entre as pessoas. Considerava que as circunstâncias externas podem exacerbar e confrontar o indivíduo, contudo, seu trabalho propõe voltar-se para as necessidades internas da pessoa viabilizando um funcionamento diferente dos demais. Consequentemente, as relações familiares funcionariam de maneira diferenciada em função das atitudes mais abertas e satisfatórias, pois, seriam reflexo de mudança do indivíduo no contexto familiar.

Todo processo de interação familiar é permeado pelo mecanismo de comunicação, pela intersubjetividade, que permite aos seus elementos partilhar o que têm em comum, reduzindo desta forma a incerteza e a ambigüidade, mas também evidenciando as diferenças que os caracterizam. E tanto as semelhanças quanto às diferenças constituem o meio ambiente a partir do qual os indivíduos encontrarão as suas finalidades para se auto-orgnizarem pessoal e socialmente.

A comunicação é um fator determinante da relação familiar. No interior da família, os indivíduos procuram relacionar-se utilizando as diversas formas de comunicação. Esta, enquanto processo, tem a capacidade de gerar transformações nos elementos que dela participam.

O processo de comunicação é uma ferramenta indispensável e essencial fornecendo suporte a tudo e qualquer coisa que possa vir a acontecer entre duas ou mais pessoas. É uma relação de inteligência, reciprocidade, afetividade e objetividade nas significações. A não comunicação caracteriza a ausência do outro. O ideal é que acha uma interação dos elementos envolvidos, uma vez que os protagonistas participam de um processo comum.

Neste sentido, a família desempenha um papel estabilizador através do processo de socialização, proporcionando aos indivíduos mecanismos para pensar, sentir e agir, que viabiliza suas inserções em outros contextos sociais, bem como, possibilita a estes condições para prosseguir por seus próprios fins.

Como estes fins só são possíveis de atingir mediante processos de comunicação, a relação familiar acaba por constituir parte da natureza da pessoa, pois o ser humano constrói-se também, naquilo que o campo inter-relacional lhe proporciona. Construindo-se na relação comunicativa, o indivíduo torna-se um ser relacional e comunicacional, ou, parafraseando com Rogers (1985) o indivíduo torna-se pessoa.

Segundo Dias (1991), a família é a primeira instituição a facultar ao ser humano a sua auto-organização no seio da relação que a expressa, o modo como nela se desenvolvem os processos de comunicação determinará o maior ou menor sucesso do seu desenvolvimento pessoal ou social e, por conseqüência, da sua integração na sociedade.

Para Rogers (1979), as relações humanas devem ser baseadas na atitude de autenticidade entre as pessoas e num modelo de comunicação facilitador e de compreensão empática. Ele propõe três atitudes comunicacionais básicas. A primeira diz respeito à necessidade de os pais serem coerentes e congruentes nas relações com os filhos, ou seja, serem eles mesmos, autênticos, transparentes, procurando estar abertos, sem defesas no que concerne aos seus próprios sentimentos. A segunda refere-se à imperiosidade de aceitação positiva incondicional dos filhos, o que significa aceitar as suas manifestações sem julgamentos prévios. A terceira reporta-se a compreensão empática, do ponto de vista interno dos filhos, ou seja, perceber o seu quadro de referencia interno com a exatidão possível, o que inclui também os aspectos emocionais e as significações as eles atribuídos, como se os pais fossem os filhos, sem, no entanto deixarem de ser eles próprios. Desta forma, a adoção destas atitudes pela família poderá contribuir para um maior desenvolvimento pessoal e social dos seus membros, para relações mais equilibradas e para uma sociedade menos punitiva e mais solidária.

A cultura do adolescente deve ser um meio para a busca de sentido e elaboração pessoal, uma ponte entre o mundo infantil e o adulto que facilite a separação dos pais e permita a inserção com êxito na comunidade. O jovem deve elaborar seu plano de vida que significa construir a partir do que já é (situação particular atual) para poder atingir o que quer ser (amadurecimento), o que faz supor que ele busque caminhos para formar-se e aperfeiçoar-se, caminhos estes que em última instância são os resultados de interações e valores interiorizados pelo jovem no decorrer da sua socialização.

Conclusão

Todo ser humano necessita ser reconhecido pessoalmente. Este processo é resultado das inúmeras interações relacionais deste a infância até a idade adulta. A personalidade do ser humano é “forjada” em suas experiências inter-relacionais e intersubjetivas, a partir do momento em que, enquanto criança, sinta-se percebida e apreciada. O reconhecimento dado e obtido civiliza, cria o interesse e a percepção considerando os outros. Inspira o desenvolvimento de um adolescente repleto de percepção integrada, encorajando-o a estabelecer seus próprios valores baseados simplesmente em quem é.

Acredito que, atualmente, nossos jovens são frutos de um processo de aprovação, no qual a comunicação pressionou o jovem a dividir-se entre o que é e o que deveria ser. Há uma escolha a ser feita entre ser e ser algo, ou entre o self e o self ideal. É diante desta escolha que o adolescente encontra-se: encarar o todo ou sacrificar uma parte deste todo e criar uma face social aceitável ao invés de encarar a perspectiva da aniquilação psicológica.

Diante destas pontuações é pertinente ressaltarmos a força positiva da vida que constrõe o ser humano. Nas experiências vivenciais de cada um estão todos os recursos necessários. É preciso reconhecê-los e aproveitar convenientemente cada um para que se possa alcançar a própria realização. É imprescindível ser o que realmente se é, aceitar-se aqui e agora, viabilizando assim transformações em uma direção construtiva.

Tornar-se imprescindível vislumbrar as interfaces entre o processo de comunicação e abordagem humanista. Quando as relações no sistema familiar estiverem alicerçadas nas atitudes propostas por Rogers à aceitação positiva incondicional, a congruência e a compreensão empática maiores possibilidades haverá para um desenvolvimento pessoal e um verdadeiro encontro harmônico, refletindo verdadeiras relações familiares, consequentemente, processos sociais equilibrados.

Referências Bibliográficas

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GOBBI, M. Cristina. Teoria da comunicação: antropologia de pesquisa brasileira. 1ª ed. São Paulo; Sulima, 1998.

GRIFFA, Maria Cristina; MORENO, José Eduardo. Chaves para a psicologia do desenvolvimento. São Paulo: Paulinas, 2001, Cap. VI. P. 9-70.

MAY, Rollo. O homem à procura de si mesmo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2002. Cap. II. P. 113.

NOBRE, L. F. Terapia familiar: uma visão sistêmica. In Py, L. A. et all. Grupo sobre grupo. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. p. 31- 44.

ROGERS, Carls. Tornar-se Pessoa (1961). Tradução de Manuel José do Carmo Ferreira e Alvamar Lamparelli. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997, Cap. VI. P. 381-390.

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ROMERO, Emílio. As dimensões da vida humana. 3ª ed. São Paulo: Novos Horizontes, 2002. Cap. III. P.87-90.

_________. As formas da Sensibilidade. 2ª ed. São Paulo: Della Bídia Editora, 2002.

1. Acadêmica em graduação do 9º período do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.
2 Sistemas sociais que obedecem ao princípio da auto-regulação e auto-organização em função das suas finalidades, proporcionadas pelo meio.

3. Nova forma de abordar o saber científico propondo um diálogo constante, entre a parte e o todo, buscando encontrar os princípios convergentes entre todos os saberes, transcendo a um olhar meramente disciplinar, encorajando a busca de uma nova visão integradora embasada na compreensão e no respeito mútuo as diferenças entre os seres.

4. Na perspectiva humanista crise é possibilidade de transformação/mudança.

Apresentado no VI Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa – Canela RS – 9 a 15/10/2005