O CAVALO COMO AGENTE LIBERTADOR DO FLUXO AO DESENVOLVIMENTO COMPLETO DOS INDIVÍDUOS

Kether Van Prehn Arruda

“Existe em todo organismo, em qualquer nível, um fluxo subjacente de movimento para uma realização construtiva de suas possibilidades intrínsecas…. Há no homem uma tendência natural para o desenvolvimento completo, que é a tendência a realização presente em todos os seres vivos…. A tendência de realização pode ser impedida mas não pode ser destruída sem primeiro destruir o indivíduo.”
( Carl R. Rogers )

AUTOR: ARRUDA, Kether Van Prehn.
Psicólogo, Domador de cavalos, Equitador e Equoterapeuta formado pela Equoliber. Fundou em 2001, o Centro de Equoterapia Qualivida em Itatiba, onde atuou como Psicólogo e Equitador até março de 2004. Atualmente é colaborador do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Equoterapia de Bragança Paulista (CPDE), filiado a ANDE-Brasil onde atua como psicólogo responsável.

INTRODUÇÃO

Os benefícios e aspectos físicos que a Equoterapia proporciona ao praticante são concretos e mensuráveis, porém os aspectos e benefícios psicológicos provenientes desta prática, apesar de serem tidos como muito importantes e presentes, ainda não foram mensurados em sua totalidade. Acreditamos importante, para a sociedade como um todo, que sejam realizados trabalhos e pesquisas nesta área que, até então, foi pouco estudada no Brasil.

A Psicologia diante da Equoterapia tem sido citada como uma disciplina indispensável na equipe interdisciplinar. Entretanto, não existem muitos trabalhos para justificar esta afirmação, o que exige de nós, profissionais interessados no desenvolvimento desta área, uma produção científica para fundamentar essa prática e compreender melhor o por quê dos seus benefícios. Com isso, conquistamos também uma maior credibilidade para a prática equoterapêutica e a otimização dos benefícios aos praticantes.

O presente trabalho busca, através do relato de um tratamento bem sucedido, mediado por um Psicólogo que trabalhou de maneira interdisciplinar, fundamentar os benefícios verificados na personalidade e na vida da praticante, relacionando-os e justificando-os segundo a teoria de Carl Rogers sobre o desenvolvimento humano e sua tendência direcional ao crescimento.
Através da relação entre Equoterapia e a teoria de Rogers, que embasa a Abordagem Centrada na Pessoa, cujo Autor segue na prática profissional, justifica-se o bom desenvolvimento de uma praticante com bloqueios psicológicos e conflitos emocionais acentuados que levaram a um déficit na sua capacidade de aprendizagem.

Em seus atendimentos Rogers abstraiu e escreveu sobre as características mínimas e suficientes para facilitar um processo terapêutico em grupo e individual. A Equoterapia, deste modo, pode ser considerada uma terapia de grupo, uma vez que as sessões práticas envolvem no mínimo três participantes: praticante, cavalo e terapeuta. De fato, a experiência que o Autor tem nesta área comprova que o cavalo é um agente facilitador inigualável, pois atua naturalmente preenchendo muitas, senão todas, as características necessárias e suficientes para o desenvolvimento do processo terapêutico e seu sucesso.

O CAVALO COMO INSTRUMENTO TERAPÊUTICO

O cavalo, por ser uma espécie absolutamente distinta do ser humano, propicia ao praticante uma melhor diferenciação entre o seu eu (self) e o outro, funcionando assim como um objeto intermediário de contato com a realidade. Também por tratar-se de outro ser animal, com vontade própria, esta relação propicia um vínculo entre os dois animais. Eu não quero de maneira nenhuma ofender o leitor ao chamar o praticante de animal, mas sim apenas lembra-lo de que apesar de todas as diferenças, trata-se de uma relação entre dois animais. Segundo Silva (1999), esta relação estimula e promove a auto-estima, autoconfiança, a orientação espacial, a comunicação, a lateralidade além de favorecer a percepção do esquema corporal.

O cavalo, apesar de ter vontade própria e também muita força, estabelece vínculo facilmente. Este animal, que se dispõe a levar um homem em seu dorso, tem a temperatura superior a sua em um a dois graus, bem como uma pelagem macia, o que traz a sensação de conforto e aconchego em seu contato. É símbolo universal de força, virilidade, velocidade, beleza, e no momento da terapia todos esses símbolos se encontram totalmente a disposição do praticante. Esta relação se dá na medida em que o praticante começa a se vincular com o animal, o que propicia a sensação de superação e, por conseqüência, um aumento na sua auto-estima .

O vínculo é formado através das relações e, no caso citado, esta relação não está apenas no âmbito mental, mas físico também. Os dois, cavalo e praticante, através dos estímulos que um propicia ao outro, vão tentando se adaptar. O praticante precisa se equilibrar e acompanhar os movimentos do cavalo e o cavalo, por sua vez, está atento às ordens do praticante. Pouco a pouco essa inter-relação vai se ajustando e trazendo para o mesmo a sensação de ser compreendido, o que segundo Rogers (1978), é uma das condições facilitadoras e necessárias no processo psicoterapêutico.

A ABORDAGEM E A EQUOTERAPIA

Quem foi Carl Ransom Rogers(1902-1987)?

Talvez tenha sido o mais importante Psicólogo de seu tempo; desenvolveu uma terapia puramente humanista; em 1947 foi eleito presidente da Associação Americana de Psicologia, quando conseguiu reconhecer como prática do psicólogo a psicoterapia, até então permitida apenas aos psiquiatras. Em 1956, foi também o primeiro presidente da Associação Americana de Psicoterapeutas. Em 1964, fundou o Center for Studies of the Person na Califórnia; escreveu mais de 250 artigos e publicou em torno de 20 livros, todos baseados em sua prática clínica. Foram feitos 12 filmes sobre seus trabalhos. Rogers diz que a Abordagem não é uma linha como a Comportamental ou a Psicanálise, não é uma teoria, uma tradição, não é uma filosofia, é meramente uma Abordagem; nada mais, nada menos: é um “jeito de ser” que facilita o desenvolvimento das pessoas (ROGERS apud WOOD 1997).

Rogers (1978) relata que em sua infância, sua família guardava suprimento de batatas em uma lata para o inverno. A lata era guardada em um porão a quase um metro de uma pequena janela, por onde passavam tímidos raios de luz. Mesmo nessas condições adversas, as batatas brotavam e seus brotos pálidos e fracos alcançavam de 60 a 90 centímetros. Nunca se tornariam uma planta, mas nunca desistiriam de seu desenvolvimento. A esse fenômeno, o autor chamou de “tendência direcional dos seres vivos”.

Segundo Rogers, as características de um facilitador do processo terapêutico são:
Congruência: o terapeuta deve ser unificado, integrado, congruente, ser na relação exatamente aquilo que é, nunca uma fachada ou um papel. Ser e estar franco e verdadeiro na relação.
Consideração positiva incondicional: trata-se de uma aceitação total dos sentimentos e expressões sinceras do cliente, sem julgamentos ou preconceitos.

Compreensão empática: captar o mundo interior do cliente como se fosse o seu próprio, mas não confundi-lo como tal.

Transmissão: Que o cliente perceba minimamente a congruência, a aceitação e a compreensão empática do terapeuta.

O cavalo preenche todas as condições citadas acima: primeiro, o comportamento do cavalo é naturalmente verdadeiro, real, direto e sincero. Segundo, o cavalo corresponde aos estímulos de um praticante sem julgamentos ou preconceitos em relação às suas dificuldades e exige também respostas adequadas independentes de quem estiver lidando com ele; por sua natureza grupal, busca adequar seu comportamento às ordens do seu líder, que passa a ser o praticante e assim, inicia-se uma relação muito franca de adaptação mútua entre os comandos do praticante e as respostas do cavalo, reforçando o estímulo com o comportamento esperado ou não respondendo adequadamente aos comandos errados ou insuficientes do praticante.

Seguindo para a terceira característica, é muito comum ouvir alguém dizer que o bom cavalo é aquele que, com uma criança em cima, é muito calmo e cuidadoso, e esse mesmo cavalo, quando montado por um cavaleiro experiente e exigente, mostra-se fogoso e veloz. Outro exemplo aparece quando a pessoa que monta não está muito bem, automaticamente o cavalo muda também o seu comportamento. Estas observações são feitas por pessoas que lidam diariamente com cavalos. O cavalo muitas vezes esta lento e sem ânimo, isso pode indicar que o praticante também está da mesma forma. Ou seja, o cavalo capta o mundo interior do praticante de maneira muito clara e instantânea, porém existem os intempéries do animal, dias em que este também reage diferente, forçando assim o praticante a perceber que o cavalo não é uma extensão sua, mas sim, um parceiro que trabalha em sintonia com ele naquele momento, que pode “ser suas pernas” naquele momento e que pode lhe ceder todo o seu vigor e energia naquele momento.

E, finalmente, a medida em que a relação com o animal vai se aprofundando, o praticante percebe que os seus comandos são percebidos e obedecidos pelo animal, acreditamos, assim, que as demais condições foram percebidas pelo praticante, uma vez que para comandar o cavalo em sintonia é preciso conhecê-lo ao ponto de vivenciar as suas características facilitadoras.

O papel do terapeuta na Equoterapia é de trazer à consciência do praticante tal processo, otimizando seus benefícios e estendendo-os a outros âmbitos da sua vida.

Além disso, outros aspectos congruentes com a Abordagem Centrada na Pessoa podem ser observados a partir da nomenclatura usada: tanto numa quanto na outra, não se atende o paciente, atende-se o cliente ou a pessoa, pois o que se busca é a participação do sujeito e não que este seja um paciente do terapeuta ou do processo, alguém que espera receber passivamente algo externo e salvador capaz de melhorá-lo, como se este não tivesse recursos que pudessem ajudá-lo a evoluir. Também, na Equoterapia como na Abordagem, o tratamento é centrado na pessoa e em suas necessidades; não segue um protocolo preestabelecido para todas as patologias e que pode ser usado em todos os casos, considerando que a pessoa deve, sempre que possível, ser e estar presente no seu processo. Desta forma, o planejamento terapêutico, incluindo as atividades propostas, deve ser elaborado de maneira que o praticante se envolva com e se interesse pelo seu tratamento.
Enfim, o estar com o praticante é mais importante do que as afirmações ou o comportamento do terapeuta, o que dispensa a comunicação verbal, valorizando a não verbal, geralmente mais autêntica e espontânea, sem distorções conseqüentes da interpretação das palavras. O movimento atual (agora) é priorizado, permitindo o aprendizado que pode ser modificado segundo a consciência, escolha, persistência e confiança do praticante que lida com a situação real e imediata. O movimento e o contato físico são comprovadamente eficazes no desenvolvimento global, e, partindo da relação cavalo-praticante, podem ser mais espontâneos, verdadeiros e apropriados. Além disso, o animal propicia uma confrontação e feedback vivenciais e sem camuflagens, pois responde aos estímulos sem disfarces, permitindo que o outro (o praticante) re-avalie sua conduta para melhorá-la.

METODOLOGIA

Sujeito – A praticante J. C. S. é uma criança do sexo feminino que iniciou o tratamento equoterápico aos 8 anos de idade, enquanto freqüentava a segunda série do Ensino Fundamental. J.C.S. perdeu o pai aos 2 anos de idade e sua mãe, analfabeta e desempregada, não teve condições materiais e psicológicas para mantê-la nesse período; a menina foi, então, retirada da família aos 3 anos de idade e encaminhada para uma instituição em Itatiba, SP, que cuida de menores abandonados ou vítimas de maus tratos.

Foi adotada aos quatro anos, porém teve problemas de relacionamento com a família adotiva, que ao invés de solucioná-los ou devolvê-la à instituição, deixou a menina com uma parenta. Tão logo o abrigo tomou consciência do ocorrido, requisitou junto ao Conselho Tutelar que a menina fosse levada de volta à instituição. A pedido da mãe, que estava trabalhando nessa ocasião, J. fora encaminhada novamente para a sua família de origem, onde passou a morar com sua mãe, uma irmã mais velha e dois irmãos mais novos; sendo monitorados pelo Conselho Tutelar de seu município. Ingressou à vida acadêmica quando se deu o prazo final para que a mãe a colocasse na escola.

A praticante chegou ao Centro de Equoterapia encaminhada pela diretora da instituição que a abrigara. Em entrevista com a mãe, esta relatou que J. iria ser reprovada na escola, pois não sabia ler ou escrever.

Procedimento

Os dados foram coletados dos relatórios diários de atendimentos realizados no período de outubro de 2002 a março de 2004, totalizando 17 meses de tratamento, bem como das avaliações dos profissionais envolvidos, relatórios semestrais de evolução, Anamnese com a mãe, e entrevista com a professora da praticante.

Iniciado o tratamento, após avaliação dos profissionais envolvidos, psicólogo e fonoaudióloga, constatou-se que J. realmente não sabia ler nem escrever; evidenciava conflitos emocionais; demonstrava uma clara dificuldade em se relacionar afetivamente com as pessoas, tanto na formação quanto na quebra de vínculos, apresentando comportamento agressivo em casa e também na escola. Possuía déficit na atenção dirigida/sustentada; dificuldade de memorização; dificuldade em diferenciar letras de números (classificação); atraso no desenvolvimento fonológico, pronúncia errada de palavras, frases pouco elaboradas para a idade. Quanto ao desenvolvimento psicomotor, J. apresentou lateralidade não definida e demais características psicomotoras e do desenvolvimento global se apresentavam coerentes para a idade.

Do ponto de vista emocional, apresentava uma recusa muito grande em se relacionar afetivamente com o terapeuta e com os cavalos, o que é previsto e observado em boa parte das crianças institucionalizadas. Essa recusa é movida por uma grande sensação de abandono, medo de formar novos vínculos e ser novamente abandonada, crença de que ninguém a quer, que resulta numa baixa auto-estima, auto-imagem negativa, insegurança e, no caso citado, conseqüente “bloqueio do fluxo subjacente ao desenvolvimento” (ROGERS,1978).

Por não apresentar traços sindrômicos ou psicopatológicos severos, foi trabalhado com a hipótese diagnóstica de déficit de aprendizagem decorrente de conflitos emocionais, iniciando, portanto, o tratamento pela abordagem dos conteúdos psico-emocionais.

No Haras onde trabalhávamos tínhamos à nossa disposição duas éguas: Drisca, puro sangue Árabe, de 6 anos e Alabama, égua Inglesa, ambas muito dóceis e prontas para o trabalho. Porém, não foi nem uma nem outra que iniciou a aproximação de J. Nas primeiras duas sessões, a praticante não compreendia a presença do cavalo, ele parecia ser um estranho que não se enquadrava ao contexto terapêutico, entendendo que este estava lá para afastá-la dos terapeutas, por isso relutava em se aproximar dos animais.

Diante da equipe, seu comportamento não era muito diferente; J. não olhava nos olhos dos terapeutas, não sorria e apresentava constante desmotivação. A afirmação mais constante era: “- Não consigo aprender, sou burra mesmo”.

Primeira Etapa: Aproximação e Vínculo

A estratégia adotada foi aproximá-la de um animal jovem, como ela, extremamente afetuoso, com uma história de abandono. Porém, diferentemente da praticante, que agisse com congruência, comportamento diretamente ligado aos desejos e necessidades.

A inclusão de uma potra Árabe de oito meses, recém apartada de sua mãe, chamada “Pequena”, foi essencial para que se instalasse uma relação genuína, real, franca e de aceitação incondicional, possibilitando a formação de um vínculo empático e, por conseqüência, abrindo uma via de acesso para os sentimentos da praticante.

Como trabalho de solo, iniciamos o contato com a Pequena, devido ao seu jeito muito dócil, carinhoso e visivelmente carente, como a própria praticante mostrava-se. Todas as sessões foram iniciadas com 15 minutos de escovação e alimentação; este contato gerou uma relação bastante sincera entre ambas e o Terapeuta que a mediou. Como resultado da estratégia inicial, a praticante também passou a se relacionar positivamente com a égua Drisca, que reforçava essa relação, indo atrás de J. depois de solta no piquete, para receber carinho.

J. perguntava sobre a potra: “- Ela não tem saudades da mãe?” e afirmava também: “- Ela gosta mesmo de mim”, notando a sinceridade da potra. Nestes momentos, J. sempre trazia conteúdos próprios e dava exemplos de vivências que a incomodavam.

Segunda Etapa: Envolvimento da Praticante com o Processo

Centrando o atendimento nas necessidades da praticante, a fim de desenvolver uma boa auto-imagem, aumentar sua auto-estima e, conseqüentemente, a confiança em si mesma e nos outros, decidimos partir do nível pré-esportivo, para salientar as habilidades de J. e não suas dificuldades. Foi despertado assim, o seu interesse e disponibilidade para o tratamento.

Ao trabalhar equitação, o cavalo sempre responde aos estímulos e comandos do praticante numa tentativa de demonstrar compreendê-lo, realizando o que ele ordena. O cavalo dá uma resposta compreensiva, construindo assim um aprendizado no próprio praticante, que desenvolve maior consciência de si. Rogers (1978) observou em sua experiência clínica, que pode-se ajudar a pessoa a liberar a sua tendência atualizante, dando-lhe respostas compreensivas, o que o cavalo faz em um nível bastante simplificado, porém muito genuíno e autêntico; não verbal, porém não menos comunicativo.
Na equitação J. superou limites com facilidade aumentando assim a sua auto-estima, segurança e crença em seu potencial de aprendizagem, como objetivado anteriormente.

Terceira Etapa: Educação / Reeducação

Com a praticante interessada e motivada a superar desafios, gradativamente incluímos nas terapias aulas de alfabetização, unidas às necessidades fonológicas, conceitos matemáticos e geometria. Tudo sempre inserido ludicamente ao ensino da equitação e trato do cavalo. As outras dificuldades continuaram a ser trabalhadas, como, por exemplo, atenção sustentada, lateralidade e as citadas acima.

Quarta Etapa: Separações e Vínculos

A mudança do Centro para um novo Haras propiciou uma nova experiência de quebra de vínculo. O desafio foi conhecer novos amigos-cavalos, sem precisar esquecer os velhos. J. demonstrou grande dificuldade para superar esse momento.

Os novos cavalos foram: Papito, 15 anos, SRD, ex-carroceiro, muito dócil e lento, insensível a estímulos externos, exceto comida e Ônix, 17 anos, BH, campeão de salto aposentado, passo, trote e galope com muita classe..

Iniciamos os trabalhos no Papito; após a terceira semana, a praticante ainda apresentava desânimo total, conseqüência de suas más experiências diante de processos de separação.

Para superarmos essa dificuldade, visitamos os antigos animais; resultando numa acentuada melhora na motivação, na abertura para o vínculo com o Papito e estreitamento definitivo de vínculo com o Terapeuta.

O Terapeuta passou a mediar a terapia montado em outro cavalo.

Papito já não atendia às solicitações da praticante, pois esta precisava de um cavalo mais técnico; mudamos então para o Ônix. Mais uma vez apareceu a questão da dificuldade de J. em quebrar vínculos. Ao montar Ônix, J. dizia que Papito tinha ciúmes; o Terapeuta sugeriu que fosse ao Papito agradá-lo e dizer o que sentia. Nesta mesma terapia, J. falou sobre gostar ou não de pessoas, dizia que “pessoas não são como doce para alguém gostar”. O Terapeuta deu um depoimento pessoal, congruente com a situação e que lhe servia de exemplo de atitude espontânea e empática, dizendo-lhe que, embora ela não fosse um doce, ele gostava dela mesmo assim.

Quinta Etapa: Consolidação dos Benefícios da Equoterapia

O que pode ser considerada uma etapa final do trabalho com J. foi a apresentação do Centro para TV Itatiba, pais e patrocinadores. J. apareceria demonstrando o módulo pré-esportivo, conduzindo o cavalo nas três andaduras: passo, trote e galope .

Os objetivos desta atividade com J. era de mostrar a segurança e a nova auto-imagem da praticante além do contexto das sessões e das pessoas envolvidas. Fazer com que a P. soubesse que é aceita e admirada por outras pessoas além dos terapeutas, melhorando ainda mais a sua auto-estima e segurança de suas potencialidades.

A professora de J. refere que esta atualmente acompanha o aprendizado escolar, porém ainda apresenta alguns problemas de relacionamento.

RESULTADOS

Comprovamos que ao final destes meses de tratamento, a praticante aprendeu a ler e escrever; teve uma melhora na sua auto-estima, auto-afirmação e segurança; obteve grande desenvolvimento no raciocínio lógico matemático; alcançou vínculos fortes e genuínos com os animais e com os terapeutas. A praticante evoluiu de um desprezo inicial ao cavalo e total insegurança à uma apresentação, onde apresentou o nível pré-esportivo, marcando o passo, trote e galope do animal, dizendo ao final que amava os cavalos e os terapeutas.

Acima de tudo, acreditamos na tendência atualizante da praticante e ela passou a acreditar também, demonstrado pelo seu desenvolvimento cognitivo, e emocional.

Os cavalos foram excelentes facilitadores neste processo, já que a abertura para a formação de vínculos foi iniciada pela potra; nas sucessivas mudanças de cavalos e espaço, trabalhou as perdas e aprendeu a lidar com isso, se vinculando novamente. Na montaria dos cavalos, a praticante pode vivenciar a superação de seus limites e, com isso, recuperar a crença na sua capacidade de aprendizagem, o que possibilitou e facilitou sua alfabetização.

CONCLUSÃO

Concluímos que o cavalo é um facilitador eficaz, pois favorece a percepção do praticante quanto à sua tendência direcional ao desenvolvimento, passando a evoluir com todo o seu potencial.
Comparando o praticante a uma planta, diríamos que esta necessita de condições propícias para crescer e dar frutos, como terra boa, sol e umidade. Se as condições forem favoráveis, ela se desenvolverá plenamente. O ser humano pode ser mais complexo que uma planta, porém, da mesma maneira, depende de um ambiente favorável para liberar sua tendência atualizante, ou seja, seu potencial de desenvolvimento.

O contato com o cavalo, mediado por um equoterapeuta, torna-se um agente facilitador e otimizador das atualizações do indivíduo, libertando o seu fluxo ao desenvolvimento completo.
O terapeuta, contudo, deve conhecer muito os animais de que dispõe, pois além das diferentes andaduras, temos as diferentes “personalidades” animais, que do ponto de vista psicológico são muito mais importantes do que o próprio passo do cavalo.

Acreditamos que com este trabalho conseguimos caminhar mais em direção à compreensão do desenvolvimento humano, dos aspectos psicológicos que envolvem a Equoterapia e a enxergar mais nitidamente o cavalo como facilitador.

Comprovamos que o cavalo preenche muitas das condições facilitadoras citadas por Rogers e seus sucessores, com isso explicamos e entendemos um pouco mais das variáveis que corroboram para o bom desenvolvimento evolutivo dos praticantes de Equoterapia..

A ESSÊNCIA DA TERAPIA CENTRADA NO CLIENTE
“Eu não sei o que você vai fazer ou se tornar
Neste momento ou depois
Eu não sei o que farei exceto ficar com você
Neste momento
E ser mãe, pai, irmã, irmão,amigo, criança e amante
Neste momento;
Eu existo para você e com você
Neste momento;
Eu te dou tudo de mim
Neste momento;
Eu sou você neste momento;
Leve-me e use-me
Neste momento
Para ser o que você puder tornar-se
Neste momento e depois.”
(Jerold D. Bozarth)

BIBLIOGRAFIA

ARRUDA, K. P. Benefícios Psicológicos da Equoterapia. Monografia defendida e aprovada na UAACJHS em novembro de 2002

ROGERS, C. R. Sobre o Poder Pessoal / Tradução de Wilma Millan Alves Penteado; revisão de Estela dos Santos Abreu.- São Paulo: Martins Fontes, 1978.

SILVA, H. S. Os Efeitos Psicológicos da Equoterapia para Cegos. Anais do Congresso Nacional de Equoterapia, 69 pg, Brasília DF, 1999.

TAMBARA, N. et. al. Terapia Centrada no Cliente: teoria e prática: um caminho sem volta…/ – Porto Alegre, Editora Delphos, 1999.

WOOD, J. K. et al. (org.) Abordagem Centrada na Pessoa / Tradução de John Keith Wood…et. al.; – Espirito Santo, Editora Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1997 – 3 ed..

Publicado neste site em 11/09/06, por autorização do ator conforme seu e-mail nesta data,