O Poder da Abordagem Centrada na Pessoa: um relato pessoal de aprendizagem, deslumbramento e perplexidade

Elcio Oliveira da Silva

Escola Agrotécnica Federal de Concórdia

RESUMO

Minha descoberta da Abordagem Centrada na Pessoa deu-se como conseqüência de uma trajetória pessoal na busca do auto-conhecimento. Desde então, a ACP incorporou-se à minha vida, como um dos principais recursos de que disponho, hoje, para aprofundar esse auto-conhecimento e contribuir de uma forma mais significativa para as mudanças sociais que estão ao alcance de minha própria influência. Neste artigo, descrevo como isso ocorreu, a partir da narração das minhas iniciativas na formação de grupos centrados na pessoa e dos desenvolvimentos que elas permitiram. Valho-me dessa descrição para elaborar uma reflexão em torno do potencial de mudança social inerente à ACP e manifestar minha perplexidade diante do fato do relativo desconhecimento do público em geral quanto à Abordagem e suas possibilidades de influência social. Aponto, também, para a necessidade de uma reflexão e uma pesquisa mais abrangentes nessa direção, para que se possa identificar e explorar os espaços existentes, na atualidade, para uma inserção mais significante e decisiva da ACP no seio da sociedade contemporânea.

Descobrindo a ACP

Meu primeiro contato com a Abordagem Centrada na Pessoa deu-se em fevereiro de 2004, quando me encontrava em férias. Na ocasião eu lia o livro de Alan Watts, Psicoterapia Oriental e Ocidental, no qual, a certa altura, o autor se refere à abordagem terapêutica “não-diretiva” de Carl Rogers. O que era dito ali não traduzia muito claramente do que se tratava, mas chamou-me imediatamente a atenção a aparente simplicidade teórica do que Rogers propunha. Impressionou-me, especialmente, a idéia de que a terapia pudesse estar orientada, quase exclusivamente, para a intenção de permitir que a pessoa se expresse da forma mais espontânea e autêntica que lhe seja possível e de que essa seja uma condição capaz de possibilitar uma mudança terapêutica. Acredito, ainda hoje, que essa característica da ACP seja o que mais surpreenda as pessoas, dada a impressão simplista que essa idéia transmite à maioria delas.

Essa concepção de “permitir”, de facilitar a emergência do Ser, como o elemento terapêutico fundamental, mostrou-se a mim como um princípio muito semelhante a algo que eu já havia encontrado na filosofia Zen, à qual eu vinha me dedicando há um bom tempo, tanto teoricamente quanto através da prática cotidiana da meditação formal (zazen). Na verdade, conhecer a ACP foi como lançar uma ponte entre uma caminhada solitária de auto-conhecimento – desenvolvida através da prática do Zen – e a possibilidade de ampliá-la numa direção mais compartilhada e socialmente engajada, já que a ACP veio a descortinar, para mim, um amplo horizonte de alternativas de atuação pessoal e profissional, como descreverei mais adiante, neste texto.

Assim, a Abordagem Centrada na Pessoa representou para mim um verdadeiro “achado”, o de que havia uma maneira de, por meio de um processo aparentemente diferente da meditação formal, baseado na expressão e na comunicação interpessoal, atingir resultados que eu considerava muito semelhantes aos que esperava alcançar com a meditação, no estágio de auto-conhecimento em que me encontrava.

O impacto que me foi causado por essa descoberta pode ser avaliado em função de alguns fatos, que ocorreram como um desdobramento, desde a leitura do livro de Watts: até o final daquele mês eu já havia lido Tornar-se pessoa, de Rogers, e muitos outros textos que pude acessar através dos diversos sites da internet que se relacionam à ACP. Entre esses textos, chamou-me especialmente a atenção a dissertação de mestrado de Elias Boainaim (posteriormente transformada em tese de doutoramento e também livro[1] ), por ela trazer à tona a discussão da relação entre a ACP e as abordagens psicoterápicas transpessoais (dentre as quais podemos incluir as tradições espirituais do Oriente, como o Taoísmo e o budismo Zen).

Até maio daquele ano eu já havia lido cinco dos principais livros de Rogers e buscava, então, contato com alguém que me permitisse vivenciar diretamente a prática da ACP. Durante todo esse tempo, minhas reflexões e vivências a respeito da relação entre ACP e Zen e do seu significado para meu desenvolvimento pessoal iam se aprofundando. Foi quando tomei conhecimento, através da internet, da possibilidade de participar de um grupo de encontro (denominado “imersão”), que era promovido pelo Instituto Delphos de Psicologia Humanista[2] , de Porto Alegre (RS). Em julho de 2004 participei de um desses encontros, o que foi para mim uma experiência muito enriquecedora, particularmente devido ao fato de ter podido assimilar aspectos psicológicos relacionados ao meu passado com uma intensidade e clareza que não experimentava há muito tempo. A experiência vivida naquela imersão entusiasmou-me a participar de outra, em novembro de 2004, tão significativa quanto a primeira.

Desde o primeiro contato com o grupo de Porto Alegre adquiri maior confiança para tornar minha experiência com a ACP algo que pudesse auxiliar, de modo concreto, as pessoas que se relacionam mais diretamente comigo. Foi como se eu tivesse incorporado em mim mesmo uma habilidade de utilizar meu “poder pessoal” para ajudar as pessoas a encontrarem também o seu. Eu via – e vejo, ainda e cada vez mais – na ACP uma ferramenta de mobilização das pessoas nesse sentido, como jamais havia encontrado algo semelhante em outra abordagem do comportamento humano.

Tal era a minha motivação com relação a isso que, ao retornar da primeira imersão iniciei, no meu local de trabalho, uma mobilização para formar um grupo de encontro (o qual, atualmente, conta com a participação de mais de 20 pessoas). Obtivemos autorização da administração escolar – pois sou professor – para a realização desses encontros no horário de expediente, com freqüência semanal. O grupo, apesar dos percalços que surgem, às vezes como conseqüência de nossa própria falta de experiência na área, persiste até hoje e nos tem permitido evidenciar a importância de se criar e desenvolver, no espaço institucional, uma abordagem como a ACP.

Como desenvolvo também atividades ligadas à educação ambiental, fora do contexto escolar, surgiu a oportunidade de empregar a Abordagem num trabalho ligado à problemática da poluição ambiental pela atividade suinícola, na região do Alto Uruguai Catarinense, o que me tem oportunizado refletir a respeito das implicações e possibilidades do uso da ACP também nesse contexto, onde os resultados vêm se mostrando muito animadores.

Adiante descreverei mais detalhadamente o que considero serem as repercussões de meu desenvolvimento pessoal na minha atividade profissional, pois a partir delas se evidenciou, de uma maneira bem clara para mim, a ligação que existe entre a evolução pessoal e o desenvolvimento social, ou seja, entre o auto-conhecimento e o desenvolvimento da sociedade como um todo, algo que, ao meu ver, se apresenta como a certeza de que auto-conhecimento é um investimento que vale a pena.

No estágio em que me encontro, ao refletir sobre tudo isso percebo que a ACP incorporou-se – ao que parece, definitivamente – à minha trajetória pessoal como algo que, efetivamente, representa uma espécie de “casamento” feliz com o Zen. A metáfora que elegi para interpretar o que ocorreu comigo (a qual, talvez, não represente uma simples metáfora) foi a de um encontro entre duas dimensões da minha vida, a transpessoal e a pessoal. Entretanto, minhas reflexões quanto a esta questão encontram-se ainda em estágio inicial, o que não me permite aprofundar a análise a respeito neste artigo.

Ainda hoje sinto-me perplexo ao rever o desdobramento dos fatos que ocorreram em minha vida e em seu entorno representados, principalmente, pela disseminação da ACP através da criação e desenvolvimento de diferentes grupos, inspirados nos princípios rogerianos, todos esses fatos direta ou indiretamente relacionados ao crescimento pessoal que me foi oportunizado pela Abordagem Centrada na Pessoa. Esse me parece um período relativamente curto, se me detiver a refletir sobre a riqueza das realizações que me foi permitido alcançar, muito mais que em outros tempos. Para alguns desses acontecimentos ainda não encontro explicação, a partir de minha própria compreensão e vivência da ACP (o que, certamente, integra o meu aprendizado a seu respeito). Entretanto, tomando para refletir apenas os dados crus da experiência, posso atestar a existência de um imenso potencial transformador da realidade que o emprego da Abordagem representa. É precisamente a constatação desse potencial, em sua utilização cotidiana pela pessoa comum, comparado, por outro lado, ao grande desconhecimento da população em geral a respeito da Abordagem e mesmo sua fraca penetração no meio acadêmico, que me deixam perplexo.

No que se refere, especificamente, a mim posso testemunhar que o nível de conscientização que me foi propiciado, ao poder integrar a Abordagem à minha própria busca de realização pessoal inspirou-me o suficiente para reunir coragem e “testá-la” em, pelo menos, dois contextos que faziam parte da minha atividade profissional cotidiana. A partir do que pude refletir, em torno das experiências oportunizadas por essa iniciativa, tentarei evidenciar a amplitude do “impacto” – ao qual já me referi – da ACP em minha atuação pessoal e em relação àquelas pessoas que compartilham do meu convívio.

ACP na escola

O grupo de ACP de minha escola foi criado no mês de agosto de 2004, a partir do contato que fiz com algumas pessoas que, na minha perspectiva, poderiam estar interessadas em participar de algo do gênero. O que pude perceber foi que a criação de um espaço desse tipo era algo do qual pelo menos parte da comunidade escolar sentia necessidade, em maior ou menor grau. As relações sociais que se desenvolvem na escola “deixam a desejar”, em diferentes sentidos, seja a nível interpessoal, em sentido estrito, seja a nível organizacional. Assim, em acordo com a coordenação pedagógica decidimos que as reuniões do grupo teriam periodicidade semanal e que deveriam estar inseridas no expediente normal de trabalho. Isso as credenciaria como parte da proposta pedagógica da própria escola e não como uma iniciativa “clandestina”, que pudesse ser atribuída a um suposto grupo de “descontentes” com a ordem estabelecida. O grupo contou, inicialmente, com um pequeno número de participantes, em torno de meia dúzia, apenas, dentre professores e funcionários técnico-administrativos.

Penso ser importante dizer algo, a esta altura, a respeito da ausência da figura do aluno nessa iniciativa de ACP. De fato, para mim, que venho tentando desenvolver a Abordagem também na minha atuação como professor, em situações de sala de aula, esta parece ser uma empreitada bem mais difícil do que desenvolver um grupo de ACP em outra situação, não sujeita às mesmas regras que orientam o funcionamento de uma classe de ensino. Ali, dada uma tradição consolidada nas escolas – as quais, em elevado grau, “engessam” o relacionamento professor/aluno em padrões autoritários -, inovar na direção de algo tão flexível quanto a ACP termina sendo uma tarefa bastante árdua e, até certo ponto, frustrante. E essa perspectiva parece estender-se, indevidamente, para todas as situações que envolvam alunos, no interior da escola, para além da sala de aula. Assim, estrategicamente – como irei detalhar mais à frente -, a inserção do aluno nos desenvolvimentos centrados na pessoa vem se dando por outros meios, dentre eles a discussão do Projeto Político-pedagógico escolar[3] .

Na verdade, assegurar a manutenção do grupo representou para mim o primeiro teste, no meu exercício pessoal como “facilitador leigo”. Ao longo desse exercício – que continua até hoje – procurei sempre assegurar que os princípios fundamentais da ACP fossem respeitados. Convidadas para as reuniões – nunca persuadidas -, as pessoas apareciam (às vezes, não) e persistiam (às vezes, não).

Centrar-me nas pessoas e ajustar-me às suas próprias demandas – e não às minhas, como suposto “coordenador” das reuniões – não é algo que eu possa afirmar ter aprendido facilmente. No início do processo, que se estendeu por um período relativamente longo, houve reuniões em que, durante muito tempo, tive que fazer companhia a mim mesmo, enquanto aguardava (torcendo para que aparecessem) a chegada das pessoas. Havia momentos em que elas chegavam quase que uma a uma e, então, perguntávamos uns aos outros (os primeiros a chegar) se faríamos a reunião assim mesmo, com aquele número reduzido de participantes, ou não. A posição adotada naquela ocasião foi a de que “se houvesse duas pessoas para conversar, aquela seria uma reunião de ACP”.

O argumento normalmente utilizado pelas pessoas para justificar seus atrasos, ausências ou mesmo retiradas antecipadas era a “correria” do dia-a-dia, que “não as deixava” assumir como uma prioridade sua as reuniões do grupo. Naquela época isso me angustiava muito, pois para mim o grupo já representava uma prioridade, algo marcado na agenda de trabalho como um compromisso assumido. Somente com o tempo pude perceber que essa angústia faria parte do meu próprio desenvolvimento como facilitador, que era parte do “exercício” da Abordagem, enfim, algo que teria que ser superado em mim mesmo. Pois, se com o tempo as pessoas não se convencessem de que valia a pena assumir o compromisso, se não o vissem como uma necessidade para si mesmas, isso poderia significar que minha própria capacidade de ser facilitador em relação a elas não estaria suficientemente desenvolvida ou, então, que a ACP não fazia sentido, algo em relação ao qual eu mesmo já havia me convencido não ser verdade.

Essa foi, então, uma prova de persistência em algo que se acredita. Quanto a mim, estou convencido de que a confiança que adquiri na Abordagem e no potencial de mudança das pessoas que ela representa, mantém uma relação direta com minha vivência anterior no Zen. De alguma forma, que para mim se torna difícil descrever, a atitude facilitadora – em relação à minha própria pessoa – que a meditação permitiu encontrou na ACP a ponte que faltava para estender, de forma concreta, essa mesma atitude às outras pessoas. Creio que tenha sido esse o elemento de confiança que me permitiu persistir no objetivo de disseminar a Abordagem, apesar dos percalços encontrados (os quais, afinal, não foram tantos).

O passar do tempo e o trabalho desenvolvido pelo grupo vieram comprovar que valeu a pena persistir. Hoje, como já disse, o grupo envolve muito mais gente e se encontra num estágio de amadurecimento que considero muito satisfatório, em relação às nossas próprias expectativas. O ritmo das novas “aquisições” – novos membros – também vem sendo incrementado e há, no momento, uma tendência forte na direção de um envolvimento da comunidade escolar como um todo numa proposta de trabalho que utilizará a Abordagem Centrada na Pessoa como seu “pano de fundo”. Trata-se da reformulação do Projeto Político-pedagógico (PPP) da escola.

O envolvimento das pessoas com a ACP, no grupo de encontro, foi o fator determinante para que ela tenha passado a representar, no momento, a principal alternativa de mobilização da comunidade escolar em torno de objetivos comuns. Foi um dos participantes do grupo que, numa reunião pedagógica, propôs que adotássemos a ACP como forma de comunicação entre as pessoas, nas atividades de discussão do novo PPP, das quais participariam os três segmentos representativos da escola (alunos, professores e funcionários técnico-administrativos) e, quem sabe, os pais de alunos.

A estratégia adotada para esse trabalho foi a de formar um grupo articulador constituído pelos segmentos já citados (algo em torno de 20 pessoas), que atuando em conformidade com os princípios da Abordagem Centrada na Pessoa, terá a incumbência de gerar estratégias facilitadoras para o desenvolvimento de uma ampla discussão e aprofundamento das principais questões ligadas ao desenvolvimento da escola, no compasso das demandas sociais contemporâneas. Esse grupo foi constituído e vem desenvolvendo seu trabalho nos moldes de um grupo de ACP permanente (neste caso, centrado também na tarefa de desenvolver o PPP), que vem somar esforços àqueles já desenvolvidos pelo grupo semanal (este, um grupo sem temática pré-definida).

O próprio grupo articulador decidiu que a primeira iniciativa deveria ser a de “treinar-se” como facilitador dos futuros encontros, com outros grupos da escola. Escolhemos fazer isso sob a forma de “mini-imersões” – uma referência às imersões do Delphos, já mencionadas -, que duram por meio expediente de trabalho, seja tarde ou manhã. As mini-imersões têm sido realizadas semanalmente e os resultados parecem satisfatórios – embora ainda seja cedo para uma análise conclusiva -, principalmente pela boa inserção que os alunos participantes têm tido nas reuniões, expressando-se de uma forma bem mais livre e igualitária (em relação aos componentes de outros segmentos) do que se verifica no cotidiano escolar.

As pessoas que já participavam do grupo semanal foram solicitadas a integrarem o grupo articulador por representarem, supostamente, uma equipe mais experiente de facilitadores. Na medida em que me tem sido possível avaliar os resultados dessa estratégia, posso atestar que essa característica “disseminável” da ACP (como algo que se “espalha” e “contamina”, a partir de um pequeno núcleo concentrador de energia) parece ajustar-se bem ao tipo de trabalho que pretendemos desenvolver.

ACP na educação ambiental e mais além

Em outubro de 2004, pouco depois da criação do grupo de ACP da escola, surgiu a oportunidade de utilizar a Abordagem em outro contexto, também ligado à educação, desta vez uma iniciativa associada à problemática ambientalista na Região Oeste de Santa Catarina. Como conseqüência do desenvolvimento da suinocultura na região, vivemos hoje graves problemas ambientais, principalmente em relação à poluição dos mananciais hídricos pelos dejetos dos animais. Através do Consórcio Lambari[4] , uma entidade regional voltada às questões ambientais, foi criado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), para a regularização e licenciamento ambientais – em conformidade com a legislação pertinente – das propriedades rurais que mantêm atividade suinícola. O TAC foi elaborado e aplicado com a participação de diferentes instituições da região da AMAUC (Associação dos Municípios do Alto Uruguai Catarinense), sendo instalado um comitê coordenador, que passou a contar com duas câmaras, uma para o tratamento dos aspectos puramente técnicos da implementação do termo e outra, para o desenvolvimento de um processo educativo (educação ambiental) no contexto envolvido.

Foi no seio dessa comissão de educação ambiental que se oportunizou o desenvolvimento de uma proposta de emprego da Abordagem Centrada na Pessoa, como metodologia “de fundo”, para a discussão e o desenvolvimento de uma educação ambiental que pudesse, ao mesmo tempo, não se limitar a um enfoque fragmentário da degradação ambiental provocada pela suinocultura, situando-a e articulando-a ao contexto mais amplo da problemática a nível nacional e global, mas também envolver as pessoas, grupos e instituições ligados ao tema, de maneira que todas as “vozes” pudessem ser ouvidas e valorizadas, sem privilégios que pudessem ser postos a serviço – de forma exclusiva – de qualquer dos segmentos envolvidos e respeitando-se os interesses diversos e os nuances micro-culturais que caracterizam as instâncias sociais participantes.

Tomando por base esses pressupostos, a certa altura das discussões levadas a cabo pela comissão pareceu-me conveniente propor a ACP como estratégia para o encaminhamento da educação ambiental no contexto do TAC. Aceita a proposta pela comissão e inspirado pela experiência que havia tido com as imersões promovidas pelo Instituto Delphos – às quais já me referi – e também pelo trabalho que já vinha desenvolvendo com o grupo semanal de minha escola, sugeri que realizássemos uma “mini-imersão” (com duração que envolvesse manhã e tarde de um mesmo dia), como estratégia de “treinamento” dos integrantes como facilitadores de grupos de encontro.

Ao final daquele exercício semi-intensivo num grupo de ACP, a maioria dos participantes estava convencida de que se tratava de uma forma diferente e interessante de relacionamento humano, a qual poderia adequar-se aos nossos propósitos. A partir de então seguiram-se, naquele ano, muitas reuniões de planejamento da comissão, nas quais se discutiu, além da estratégia geral de abordagem pretendida, também as questões filosóficas correspondentes.

O fato de que essas reuniões se desenvolveram, todo o tempo, pautadas pela Abordagem Centrada na Pessoa, deve ter sido o principal fator determinante da união que se estabeleceu no grupo, através do estreitamento dos laços de companheirismo. Como foi possível constatar, mais adiante, esse aspecto contribuiu para que pudéssemos, a partir dessa consciência de um grupo que se manteve firme em sua proposta metodológica, superar algumas “crises” que surgiram ao longo do caminho.

A partir dali organizamos diversas reuniões – que passamos a denominar Encontros de educação ambiental -, primeiramente com pessoal técnico ligado às instituições envolvidas no TAC e, depois, diretamente com os produtores rurais que se dedicam à suinocultura, dirigindo-nos a cada um dos municípios associados. Esses encontros sempre envolveram um número relativamente grande de pessoas. Os encontros com os núcleos de suinocultores, em especial, somaram um número de participantes que consideramos elevado, visto as supostas dificuldades de se trabalhar sob a perspectiva da ACP em grupos “grandes”, principalmente os promovidos por facilitadores leigos, como nós: no primeiro encontro, 60 suinocultores estavam presentes e nos seguintes, pelo menos em alguns casos, mais de 100 suinocultores! A essa altura, a média de participantes representa algo em torno de 70 pessoas.

Nós, da comissão, havíamos determinado um critério de decisão, dada a possibilidade de nos depararmos, nos encontros, com grupos mais numerosos que o esperado: se o número de participantes – excluídos os membros da comissão, que atuariam como facilitadores – ultrapassasse 40 pessoas, o grupo seria dividido e os membros da comissão iriam distribuir-se nesses sub-grupos, assegurando-se uma proporcionalidade adequada entre número de facilitadores e demais participantes. Entretanto, a confiança que a atuação segundo os princípios da ACP trouxe para os membros da comissão fez com que esse critério bem cedo fôsse reelaborado, logo que nos deparamos com um grupo considerado “grande”. A essa altura, a idéia de que a ACP é um permanente “experimento” em relacionamento humano, associada à coesão da comissão e à nossa condição de contarmos com um número relativamente elevado de facilitadores, fez com que nos propuséssemos, confiantes, a trabalhar sempre com a totalidade dos participantes, num mesmo tempo e espaço.

Foi, provavelmente, esse tipo de experiência um dos elementos que mais contribuiu para o desenvolvimento da habilidade dos membros da comissão em atuar como facilitadores nos encontros. Para mim, que durante todo o tempo atuei em ambos os grupos (o da escola e o do TAC), o exercício da habilidade de facilitador foi especialmente favorecido, dada a variedade de experiências – com uma infinidade de nuances que não é possível especificar neste texto – das quais pude participar. Parte da confiança que adquiri nesse processo e a descoberta de um certo “poder pessoal” de acessar e mobilizar os outros – que nada tem a ver com projeção egocêntrica – foram alguns dos frutos que pude colher, ao longo dessa breve caminhada.

Ganhando confiança para “semear” a Abordagem

Essa confiança na Abordagem continuou – e continua – se desenvolvendo em mim, sob diferentes formas. Por exemplo, cada vez mais consigo “relaxar” em meu papel de facilitador e, simplesmente, manter-me disponível para o que emerja de cada encontro grupal. Isso, creio, representa o desenvolvimento de uma atitude de “suspensão do ego”, que a cada nova experiência se consolida como “um jeito de ser” pessoal, próprio – talvez – de quem assimilou a ACP como um estilo de vida.

Tenho motivos para crer que algo semelhante a esse tipo de desenvolvimento venha ocorrendo com os demais facilitadores dos grupos, em maior ou menor grau, dependendo da personalidade de cada um. Comparando esse modo de estar num grupo com nosso comportamento nos primeiros encontros do TAC, logo após o “treinamento” inicial, posso constatar a aprendizagem que se verificou entre os facilitadores. Lembro-me de que, no primeiro encontro, estávamos tão inseguros frente à expectativa do que poderia ocorrer ali, que resolvi elaborar um texto (na verdade, uma espécie de bilhete), que entreguei aos companheiros minutos antes de iniciarmos o trabalho e no qual eu tentava tranquilizá-los, argumentando que, na verdade, o “fazer” de um facilitador se assemelhava mais a um “não atrapalhar” o que quer que surgisse como manifestação do grupo, do que agir de alguma forma específica, no sentido de induzir alguma manifestação que não fôsse espontânea.

Pessolmente, estou cada vez mais propenso a compreender o “agir” do facilitador de grupos como uma espécie de “judô” do relacionamento interpessoal, algo que, paradoxalmente, “emerge” do grupo – e não do facilitador, especificamente -, logo que cada um possa ter, de certa forma, “renunciado” à sua possibilidade pessoal de assumir qualquer tipo de liderança destacável em relação ao próprio grupo[5] .

Esse desenvolvimento do grupo de facilitadores parece ser o principal fator determinante dos bons resultados que temos alcançado, principalmente nesse grupo do TAC, ao estabelecer encontros nos quais a convivência democrática e a comunicação desobstruída têm sido a tônica. Isto tem surpreendido os participantes, principalmente os agricultores, que não estão familiarizados com esse tipo de contato humano, em sua relação com as instituições a eles associadas (governamentais, ou não) e com os técnicos que dão assistência às suas propriedades, no desenvolvimento da atividade agrícola. Essa convivência, normalmente, é bastante unidirecional, caracterizando-se por um modo de relação no qual o produtor agrícola se torna um mero instrumento do desenvolvimento econômico ditado por outros, um receptor de “pacotes” informativos a respeito do que ele deve desempenhar, destituindo-lhe dos seus direitos de participação direta no desenvolvimento social e na configuração de seu próprio destino. E, ainda que isso se dê de uma forma muito incipiente, embrionária mesmo, os grupos de ACP têm possibilitado que o produtor rural ao menos se dê conta de suas reais possibilidades de intervenção no contexto sócio-político-econômico onde está inserido. Em alguns dos encontros, inclusive, certas iniciativas de reestruturação organizacional coletiva dos agricultores têm sido oportunizadas, provavelmente como consequência do próprio clima de confiança, abertura ao diálogo e espírito comunitário que os grupos de encontro têm oportunizado.

Outro aspecto que me impressionou, desde o início desse processo, foi a relativa facilidade com que a Abordagem é assimilada pelas pessoas, num contexto de grupo de encontro. Pessoas que jamais haviam sequer ouvido falar da ACP, até mesmo com certa desenvoltura incorporam-na como um modo de estar e agir no grupo, facilitando o processo e desenvolvendo a auto-regulação grupal de uma forma que considero essencialmente harmoniosa: elas ouvem umas às outras, mesmo que às vezes discordando em seus pontos de vista e o diálogo mantém-se num nível de compreensão mútua, no qual o clima gerado caracteriza-se por um mínimo de tensão de qualquer tipo.

É importante destacar que, com exceção de algumas trocas de informação entre participantes dos grupos que se interessam por algum aprofundamento teórico da Abordagem, o procedimento que adotamos em todos os encontros reserva sempre um tempo minimamente suficiente (cerca de uns 10 minutos, no máximo) para esclarecer as pessoas a respeito do que se trata (logo em seguida, damos início à “sessão de ACP” propriamente dita). Nessa pequena introdução, descrevo para o grupo as condições facilitadoras estabelecidas por Rogers (1997) (aceitação incondicional, congruência e empatia) e o papel do facilitador no grupo (argumentando que, em condições ideais de desenvolvimento grupal, todos nos tornamos facilitadores). Sugiro, a partir daí, a possibilidade de auto-regulação grupal, num novo modo de relacionamento, no qual o poder sobre o grupo se encontraria igualmente distribuído entre seus membros[6] .

Dada essa ênfase à prática em si, o padrão adotado para os encontros foi o de utilizar a maior parte da manhã e também da tarde. O pressuposto no qual nos baseamos foi o de que certos desenvolvimentos que se dão nos grupos são algo dependentes de um tempo mais amplo para se consolidarem. Isso parece correto, como temos constatado: percebo que, na maioria dos encontros, parece haver um padrão no qual as sínteses mais esclarecedoras e as resoluções de qualquer tipo mais relevantes para a regulação grupal, como um todo, se configuram no último terço da reunião e dependem do decorrer prévio de um período relativamente longo de maturação e “digestão” de aspectos emergentes fragmentários e aparentemente desconexos. Se os encontros se dessem em apenas um período do dia (manhã ou tarde, por exemplo), talvez não atingíssemos esses estágios.

Apesar disso, nós, facilitadores, temos nos surpreendido com alguns desenvolvimentos – que poderíamos denominar “insights” – que se dão em lapsos de tempo muito curtos nos grupos. Isso já aconteceu quando, por algum motivo, o início de encontro sofreu atraso e, simultaneamente, o período da tarde foi restringido, devido à necessidade de se encerrar mais cedo as atividades (no caso dos agricultores isso é comum, pois sua saída da propriedade, para participar de eventos como esses, é dificultada pela própria natureza da atividade, que requer dedicação diária e em período integral). A impressão que tenho é de que algum mecanismo (inconsciente?…) de auto-regulação parece “avisar” o grupo de que o tempo que se tem é curto e que, sendo assim, é possível encontrar “atalhos” (perceptivos, cognitivos, pessoais e interpessoais, etc.) para se alcançar a eficiência no tempo previsto.

Por outro lado, a partir de algumas avaliações que fizemos do processo de encontro, em ambos os grupos, o que se destaca é que as pessoas, de certa forma, “estranham” esse modo de se reunirem, o qual, de maneira diversa à que estão acostumadas, não cansa, nem “estressa”; ao contrário, referem-se a ele como uma forma “relaxante” de se estar junto a outros. Esse “estado” das pessoas nos grupos de ACP pode assumir, em alguns casos – como verificamos -, até mesmo uma expressão de “gratidão” dos envolvidos, pela oportunidade de vivenciar essa forma de relacionamento humano. Num dos encontros do TAC, isso se fez sentir de forma bem marcante, quando os depoimentos dos agricultores, dirigidos à comissão de educação ambiental, traduziram o seu agradecimento por adotarmos aquela “forma de educação” diferente.

Foi esse clima revigorante das reuniões que animou-me a expandir as possibilidades da Abordagem para além dos dois grupos que haviam se estabelecido. Percebendo a receptividade das pessoas, traduzida por mim como uma necessidade de melhor se conhecerem, através do relacionamento interpessoal e de poderem experimentar esse modo “diferente” de compartilhar a companhia de outras pessoas, propus aos participantes que nos reuníssemos em horários e espaços externos ao nosso contexto de trabalho. Dessa iniciativa surgiram outros encontros, realizados em finais de semana (até o momento, sempre aos sábados) e dos quais participam pessoas de ambos os grupos já citados. Além disso, os participantes são estimulados a convidarem outros, de seu círculo de amizade e que não conheçam a ACP, por não participarem daqueles grupos. De forma semelhante ao que já ocorria com os outros grupos, neste o clima vem sendo o mais estimulante possível.

Um dos participantes do grupo do TAC, especialmente motivado por suas vivências nos encontros, tomou a iniciativa de criar um grupo em seu próprio local de trabalho. Foi programada uma primeira reunião com algumas pessoas interessadas, da qual participei como convidado. O que pude notar, na ocasião, foi uma certa ansiedade das pessoas em relação aos prováveis “resultados” de um enfoque do gênero. A impressão que tenho a respeito é a de que o caráter de imprevisibilidade, típico da ACP, aliado à responsabilização do próprio grupo a ser formado em relação a esses resultados e à falta de confiança inicial entre as pessoas determina esse comportamento. Fizeram-me muitas perguntas nesse sentido e a todas respondi, tentando não atestar alguma “teoria da eficácia” da Abordagem, senão procurando dar o testemunho da experiência vivida nos outros grupos.

Se um fato como esse houvesse ocorrido em outros tempos, estou certo de que estaria muitíssimo inseguro em estar assim, num grupo estranho, tratando desse tipo de coisa. Porém, sinto que minha confiança na ACP cresce a cada encontro e atribuo essa sensação, dentre outros motivos, à possibilidade de compartilhar com os outros a responsabilidade pelo destino do grupo: o fato de os “resultados” dependerem, não apenas de mim, mas do grupo como um todo, de certa forma alivia o “peso” da responsabilidade, deixando-me descontraído o suficiente para assumir, com a maior plenitude possível, meu papel de facilitador, contrariamente ao que alguns, talvez, esperassem, a afirmação pessoal de alguém que se dissesse um “especialista” na área.

Dessa forma, a “rede” de ACP vem se ampliando e conta, até o momento, com algo em torno de 50 pessoas, dentre participantes assíduos e esporádicos (não estão sendo computadas aqui as pessoas que – como acontece nos encontros de educação ambiental – participaram somente em algum momento específico do grupo de encontro. Feita essa inclusão, o grupo se estende para um número significativamente maior, representativo do alcance da Abordagem no âmbito de ação dos grupos estabelecidos).

Entre o entusiasmo e a perplexidade: uma percepção do potencial social da ACP

O que conseguimos – eu e as pessoas do meu círculo de relacionamentos – realizar através da ACP, durante esse período que mal completa um ano, a mim se apresenta como algo que me deixa, a um só tempo, entusiasmado e perplexo. Ambos, entusiasmo e perplexidade, vêm da constatação da forma como, num lapso de tempo que considero pequeno, foi possível mobilizar tantas pessoas e motivá-las para algo que, aparentemente, não lhes promete nada mais que melhorar sua forma de relacionar-se com as outras pessoas e conhecerem melhor a si mesmas. Embora isso possa ser considerado uma realização significativa para um bom número de pessoas, não me parece que sejam esses os valores mais perseguidos na sociedade contemporânea.

Por outro lado, numa sociedade como a nossa, “produtos” desse tipo (aquilo que se pode atingir através da prática da ACP) não representam, necessariamente, o tipo de “mercadoria” que a maioria das pessoas esteja buscando, já que auto-conhecimento e desenvolvimento interpessoal – ao menos, no sentido atribuído a eles pela Abordagem Centrada na Pessoa – são o tipo de coisa que não se presta a uma categorização como mercadoria, já que são as próprias pessoas que têm que se reestruturar para alcançá-los. E parece-me que bem poucos estão dispostos a “pagar o preço” dessa empreitada. Esse “preço” inclui, por exemplo, a reelaboração de algumas culpas, o reconhecimento de alguns “fracassos” pessoais/interpessoais e a consequente necessidade de desenvolver um esforço de reorganização dos próprios pontos de vista e da vida pessoal como um todo, aspectos estes que são destacados, todo o tempo, por aqueles que se envolveram nesse trabalho, por meio dos nossos grupos de encontro. Por isso, o fato de as pessoas terem se motivado a cultivar, de forma disciplinada e persistente, a prática da ACP, como aqui a descrevo, não deixa de ser um fato admirável, face à relativa raridade desse tipo de iniciativa no atual contexto social.

Minha perplexidade diante disso tem a ver também com algo em relação ao qual não alcancei, ainda, um esclarecimento apropriado. Diz respeito a um certo efeito “catalisador” da ACP, algo que a faz disseminar-se de uma forma pouco comum a outras estratégias de mobilização das pessoas. Como já disse, isso não se define de maneira muito clara para mim e, sendo assim, refiro-me a essa percepção unicamente a partir das impressões que me vêm da experiência vivida nos grupos.

O fato é que o envolvimento das pessoas – que termina por evidenciar-se na formação de novos grupos, dentre outras maneiras – parece se dar de uma forma na qual não fica aparente algum esforço nesse sentido, ou seja, vai-se “ganhando” as pessoas de uma forma não-persuasiva, praticamente sem a força de algum argumento favorável à defesa da ACP como algo que “faria bem” a elas. Assim, as pessoas não são convencidas a envolver-se com a Abordagem – no sentido de que alguém lhes esteja estimulando a fazê-lo -, embora, a certa altura, apercebam-se fazendo isso de maneira, muitas vezes, entusiasmada. Alguns dos membros mais experientes dos grupos por vezes se referem a isso, dizendo que é quase como se a gente se “viciasse” em ACP. Numa ocasião em que essa fala se manifestou, num dos encontros, eu mesmo complementei, argumentando que os viciados, em muitos casos, também tornam-se “traficantes”, passando a disseminar a Abordagem no seu meio de atuação. Depoimentos semelhantes fazem referência à ACP como uma espécie de “alimento”, do qual as pessoas passam a necessitar, após experimentarem esse modo de estar e conviver peculiar aos grupos centrados na pessoa.

De forma correspondente, um novo grupo surge como “num passe de mágica”, sem uma causa à qual se possa relacionar, diretamente, aquele efeito. Foi o que ocorreu quando, como já me referi, numa reunião pedagógica ocorrida em minha escola, uma professora que participava do grupo do TAC (mas, não do grupo da escola) sugeriu que encaminhássemos a discussão do Projeto Político-pedagógico sob a orientação da ACP, proposta que foi prontamente acolhida pelos presentes e que se encontra em implementação. O fato surpreendeu-me, pois, como já disse, em função do Projeto toda a comunidade escolar será envolvida nas discussões, o que representa, potencialmente, uma disseminação da ACP e de seus princípios humanizadores num âmbito muito mais amplo do que imaginávamos, ao iniciar o trabalho com a Abordagem no pequeno grupo que se reúne semanalmente na escola.

Esse modo de disseminação da Abordagem se mostra para mim como algo, ainda, um tanto “indecifrável”, no sentido de não conseguir discernir-lhe os mecanismos. Atribuo à ACP, numa tentativa provisória de elucidá-los, um certo estilo não-invasivo – e, por isso, não-agressivo – de alcançar as pessoas. A Abordagem lhes é, simplesmente, apresentada, explicitada em seus princípios (teoricamente, simplíssimos) e submetida à validação pela experimentação nos grupos. E o que tenho verificado é que, uma vez assumido esse caráter eminentemente experimental da ACP é quase inevitável que o desfecho seja a ocorrência de alguma forma de crescimento pessoal e grupal (interpessoal), já que o que se propõe é justamente o aprender com o processo. E aprender é algo sempre possível, independentemente de qual seja o resultado obtido no experimento.

Quanto a esse aspecto, o que tenho observado nos grupos é que esse caráter pacificador da Abordagem, atestado pela tendência manifesta nos últimos trabalhos desenvolvidos pelo próprio Rogers (2001) – no enfrentamento de conflitos étnicos, por exemplo – deixa sempre a sua marca, de forma inconfundível. Um certo grau de informalidade dos encontros, aliado ao investimento no “bem estar” das pessoas são, frequentemente, por elas reconhecidos como fatores que configuram uma forma de relacionamento humano essencialmente harmoniosa[7] , que possibilita às pessoas expressarem-se o mais plenamente possível e de uma maneira significativamente mais criativa.

Num grupo como o do TAC, que é, de certa forma, centrado numa tarefa – ao contrário dos grupos da escola e o dos finais de semana, que são grupos sem temática pré-definida – a tendência criativa se evidencia de uma maneira mais facilmente perceptível. Algumas idéias inovadoras que, provavelmente, irão auxiliar na resolução de algumas questões relativas ao Termo surgiram dos encontros de educação ambiental, desenvolvidos dentro do espírito da ACP. Dentre essas idéias, por exemplo, uma se refere à possibilidade de se estabelecer uma nova forma de contrato de integração, socialmente mais justa, entre os produtores suinícolas e as agroindústrias. Isso significa que aqueles objetivos normalmente atribuídos aos encontros de ACP (auto-conhecimento e desenvolvimento interpessoal), na prática dos grupos são potencializados, reelaborados e ampliados, estendendo-se para além dos indivíduos e dos próprios grupos, até as instâncias sociais mais abrangentes das quais eles fazem parte. Residem aí, no meu entender, as implicaçõe políticas da Abordagem, em relação ao alcance das quais estou plenamente convencido, a partir da minha experiência com os grupos de encontro.

Assim, vejo os grupos como autênticos laboratórios de aprendizagem social, nos quais a Abordagem Centrada na Pessoa permite a liberação da tendência formativa do ser humano, conforme descrita por Rogers (1997), em sua elaboração teórica da ACP. Essa é uma percepção que a mim se apresenta de forma bastante clara e evidente, a partir do que tenho verificado ocorrer nos mais de 40 encontros que realizamos neste curto período.

Creio que mesmo se considerássemos somente a dimensão quantitativa, essa já representaria uma realização significativa. Porém, se levamos em conta o que pudemos construir, em termos de mudança de atitude das pessoas e o incremento da significância de sua experiência pessoal e grupal, certamente eu avaliaria a experiência como surpreendente, pelo menos para mim. Ainda hoje causa-me estranheza a progressão dos acontecimentos que se deram desde aquele meu primeiro contato com a Abordagem, da forma como já descrevi neste artigo.

O fato de podermos disseminar a ACP dessa maneira intriga-me, especialmente, por constatar a pequena penetração que ela tem na sociedade atual, refletida no desconhecimento generalizado do público em relação à perspectiva rogeriana do ser humano e, conseqüentemente, da própria experiência da ACP. Recordo-me de que, ao cursar a licenciatura, em nenhuma das disciplinas de caráter pedagógico ouvir sequer falar em Rogers e em sua teoria de ensino, menos ainda em Abordagem Centrada na Pessoa. Na região em que resido, mesmo os cursos universitários de Psicologia dedicam um espaço bastante restrito aos enfoques humanistas. Rogers, em especial, é quase um “ilustre desconhecido”, melhor dizendo, um “ilustre esquecido”. Não houve uma só pessoa – com exceção de alguns psicólogos, com os quais mantive contato durante esse período – que soubesse do que se tratava quando eu lhes apresentava a ACP. Não pretendo recorrer, aqui, a dados bibliográficos para atestar o que verifico a partir de minha própria experiência, mas posso constatar que também a produção acadêmica dedica um espaço reduzido à perspectiva rogeriana da educação, da psicologia e da sociologia. Ao se referirem aos marcos conceituais dessas áreas, poucos autores reconhecem a contribuição de Rogers.

Apesar disso tudo, minha experiência com a Abordagem mostrou-me a ampla possibilidade de sua publicização – para não dizer, popularização. O fato de ser eu um professor, e não um psicólogo profissional, demonstra-o de forma marcante, pois a ACP se apresenta a mim como um modelo comunicativo que põe em cheque a tênue fronteira existente entre a educação e a terapia, permitindo uma abertura capaz de possibilitar uma comunicação muito frutífera entre esses campos. Essa possibilidade se amplia muito quando se percebe a viabilidade da Abordagem como mobilizadora do potencial humano, na organização dos grupos sociais, no sentido de seu “empoderamento”, ou seja, na revelação de seu verdadeiro poder de mudança, com amplas implicações nos campos da sociologia, da educação e mais além[8] .

Intriga-me ainda mais saber que o próprio Rogers (2001) não atribuía à sua abordagem nenhum estatuto de “prática de especialistas”, admitindo a possibilidade de que ela seja desenvolvida a partir da habilitação da pessoa comum (leiga) como facilitadora de grupos. Se é assim, por que, então, ainda não se pode verificar uma difusão mais ampla da ACP no seio da sociedade contemporânea?

Por tudo isso, este relato representa também um tributo a Carl Rogers, para mim um ícone da consciência humana, alguém que enxergou muito além do seu tempo e a quem dedico toda minha gratidão por nos legar essa possibilidade de também irmos muito além daquilo a que, comodamente, nos propomos.

Espero que as reflexões que serão desenvolvidas neste Fórum Brasileiro da ACP, em Canela (2005), me auxiliem a encontrar alguma resposta a esses questionamentos e a outros que trago para discussão. Entretanto, a evolução pessoal – e o conseqüente impacto sobre meu relacionamento social -, que me foram possíveis neste curto espaço de tempo em que trouxe a ACP para a minha vida convenceram-me de que algo deve ser feito, na direção de torná-la mais acessível à maioria das pessoas, permitindo que exerça plenamente o seu papel de concepção revolucionária da convivência humana.

Referências bibliográficas

Beck, Charlotte Joko. Nada de especial: vivendo zen. São Paulo: Saraiva, 1994.

Boainain Jr., Elias. Tornar-se transpessoal: transcendência e espiritualidade na obra de Carl Rogers. São Paulo: Summus, 1999.

Krishnamurti, J. A rede do pensamento. Trad. Sônia Régis. São Paulo: Cultrix, 1982.

Powel, R. Zen e Realidade: uma abordagem não-sectária da saúde e da felicidade. São Paulo: Pensamento, 1977.

Rogers, Carl R. Sobre o poder pessoal. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

___. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

Segrera, Alberto S. Asociación de psicoterapeutas “Laureano Cuesta”. Madrid. El enfoque centrado en la persona en el centenario de su fundador. Disponível em: . Acesso em 3 jul. 2005.

Watts, Alan W. Psicoterapia Oriental & Ocidental. Rio de Janeiro: Record, 1961.

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1. Ver Referências bibliográficas.

2. A homepage do Delphos pode ser acessada através do endereço http://www.institutodelphos.com.br (acesso em 26-6-2005).

3. Essa forma de influência indireta sobre a relação didática (“de sala de aula”), no sentido de torná-la mais centrada na pessoa parece, efetivamente, ocorrer, ainda que também pareça desenvolver-se de forma mais lenta do que seria desejável. Tenho testemunhado uma série de depoimentos dos participantes dos grupos (sejam professores, ou não) que ilustram uma tendência nessa direção e que poderiam ser sintetizados num padrão como este: a gente vê este nosso modo de relacionamento acontecer aqui no grupo e fica pensando: por que isso não poderia ser assim também com os alunos, na sala de aula?…

4. O Consórcio Lambari é uma entidade que congrega os municípios da AMAUC (Associação dos Municípios do Alto Uruguai Catarinense) e que emprega a metodologia do Planejamento Ambiental Participativo, no tratamento das questões ligadas ao equilíbrio ambiental na região citada. No sentido de cumprir uma de suas metas, a de contribuir para a minimização dos danos ambientais relacionados à suinocultura, o Lambari, em conjunto com o Ministério Público do Estado de Santa Catarina, instituiu o Termo de Ajustamento de Condutas (TAC), como forma de adequar as propriedades agrícolas às exigências legais para o licenciamento ambiental e continuidade dessa atividade econômica na região.

5. Esse é um aspecto que refletiria, de forma bem ilustrativa, a proximidade entre Zen e ACP. É do Taoísmo, onde encontramos parte das raízes do Zen, que surge essa noção do “não-agir” – wu-wei – (Powel, 1977), um estado de consciência “não-discriminativo”, que tudo acolhe, na verdade um estado de supressão da consciência egocentrada que permitiria, nas palavras de Krishnamurti (1982), a eliminação da distância entre o observador e a coisa observada, entre sujeito e objeto. No meu entender, a plena concretização das condições facilitadoras da ACP pode favorecer um estado de consciência que se aproximaria desse “não-agir” taoísta, o qual, paradoxalmente, representaria o “agir” do facilitador, quando atuante em sua plena forma.

6. Na verdade, essa explicação inicial é uma adaptação, feita por mim, da ACP às condições nas quais promovemos esses grupos e que são distintas, por exemplo, daquelas dos grupos de imersão do Delphos (às quais já me referi aqui), onde a maioria das pessoas são psicólogos (as), ou formandos na área. Nessa adaptação, alguns termos são substituídos por outros análogos como, por exemplo, autenticidade, no lugar de congruência e acolhimento, ao invés de aceitação, sendo esta uma tentativa de ajustar os termos ao contexto cultural no qual atuamos. De forma correspondente, a idéia de auto-regulação grupal é sugerida, como uma maneira de minimizar os ajustes na comunicação, que por vezes se fazem necessários quando a distribuição do poder institucionalizado, nos grupos, não é homogênea e a noção de um grupo “sem hierarquia” não é prontamente assimilada pelos participantes. Neste aspecto, em particular, procuro ressaltar a idéia de que não existe a figura de um coordenador da reunião e peço às pessoas que não esperem do facilitador – nem de outro participante qualquer – o comportamento “burocrático” de estabelecer a sequência das falas, tomando para si a função de “inscrever”, para falar, aqueles que desejem se manifestar.

7. Tenho percebido que esse aspecto merece ser cuidadosamente tratado nos grupos, pois integra a própria formação dos facilitadores, no sentido de que alguns de nós tende a incorporar essa percepção da ACP e fixar-se nela, descuidando o fato de que as relações emergentes nos grupos nem sempre são harmônicas. Se essa fixação ocorre, pode se estabelecer um comportamento do facilitador – e, eventualmente, do grupo em sua totalidade – tendente a assegurar que “reine a paz” no grupo, evitando-se confrontos entre os participantes. Isto, por sua vez, pode vir a representar um obstáculo à manifestação de conflitos que permanecem latentes, não se tornando objeto de reflexão e superação.

8. O quadro geral dessa projeção de possibilidades da ACP tem sido objeto de reflexão por alguns teóricos a ela ligados. Consulte-se, por exemplo, o interessante artigo de Segrera (2005), no qual é descrita essa projeção e, em certa medida, apontadas as principais necessidades neste sentido.

Apresentado no VI Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa – Canela RS – 9 a 15/10/2005