O Problema da Imagem

Marlene Shayer

Pertinente ao artigo da Profa. Myriam Vilarinho sobre os Problemas Éticos na utilização de Vídeo dentro da ACP e mobilizada por minhas experiências na utilização deste instrumento com grupos, voltei minhas preocupações a tentar compreender melhor nas pessoas e em mim mesma, os possíveis motivos que tem levado permissão ou não deste recurso em trabalhos grupais de car&ter vivencial.

Trabalhando na ACP desde 1981, em 1985 vim a utilizar este recurso reforçada, principalmente, pelo programa de televisão gravado “ao vivo” pela TV Cultura em São Paulo, em março de 1977, por ocasião da visita de Carl Rogers e sua equipe ao Brasil. Neste programa, onde participaram Rogers, sua equipe norte-americana, a Prof Raquel Léa Rosenberg e um grupo de convidados, a proposta foi a realização de um “Grupo de Encontro”. Quase ao final da experiência Rogers se refere que, no passado e, mas uma vez sendo reforçado naquela ocasião, a presença de “câmeras” de televisão tenderam, no transcorrer da vivência, a não “incomodar” ou inibir as pessoas.

Por outro lado, entrando em contato com o livro “Videoterapia” de Ira Heilveil, publicado pela Ed. Summus em 1984, encontrei na introdução de Milton M. Berger, a seguinte referência: “…Este livro oferece uma apresentação abrangente e estimulante na maioria das aplicações criativas do vídeo no trabalho diário dos profissionais de ajuda. Expõe maneiras realistas de promover a saúde e as habilidades no viver diário enquanto enfraquece a resistência a mudanças. Recomendo-o veementemente a todos os profissionais de ajuda.

Em minhas experiências com grupos, trocando idéias e colhendo dados, pude reunir algum material que me levou a refletir sobre o “problema da imagem” e que gostaria de expor como colaboração na utilização ou não deste recurso dentro da ACP.

Ao tomar cuidados éticos na minha experiência, no sentido de obter permissão ou não dos participantes, dentro de nossos objetivos e metas pude começar a compreender e concluir que o “problema da imagem” parece diretamente ligado às questões de julgamento e disputa de poder no convívio entre as pessoas.

Aquelas para as quais a proposta pareceu desconfortável e gerou dúvidas sobre a utilização, relataram que em seus momentos a preservação da imagem era muito importante.

A imagem seria, para elas, o que aparece de si para os outros e até para si mesmas, não se tendo a garantia de como vai estar sendo interpretado e o que os outros poderão fazer com estas interpretações. O medo da crítica e, muitas vezes da autocrítica, impossibilitava estas pessoas, naquele momento, de se abrirem a experiência: “quando não se tem garantias, o que o outro pode estar fazendo com minha imagem torna-se assustador. . .“.

Muitas vezes pareceu-me que este modo também se referia as pessoas com elas mesmas: estaria sendo assustador se verem… O não ter garantias parecia trazer sentimentos de insegurança, medo e, no convívio grupal ficou explicitado o clima de desconfiança entre os membros. Este “poder” colocado “fora de si” através do “não sei o que os outros podem fazer comigo demonstrou-me o momento de descentro das pessoas de si mesmas, ainda no podendo confiar em seus próprios recursos ou potencialidades, camada esta a ser atingida em um nível um pouco mais profundo que o da imagem. Não era o momento.

Dentre as pessoas para as quais a proposta pareceu entusiasmante, encontrei algumas que, apesar do medo estavam curiosas em arriscar . Elas se disseram mais abertas a experiência na expectativa de poder proporcionar melhor aclaramento de si mesmas e do convívio. Disseram-se um pouco menos preocupadas com a imagem, no sentido dela representar simplesmente o que aparentamos a esta aparência não ser necessariamente tudo o que somos. Além disto, estarem muito atentas a opinião e julgamento dos outros poderia representar uma distância cada vez maior de si mesmas, de suas vontades e necessidades. Poderia representar uma ausência do “eu” mais verdadeiro, no sentido de viver as expectativas dos outros ou estar sempre exercendo controle sobre as pessoas. Elas me pareceram naquele momento, um pouco mais confiantes em si mesmas e no grupo; um pouco mais centradas, almejando relações mais próximas, autênticas e “de igual para igual”, como disseram.

Outras não mostraram a mínima resistência. Foram raras. Disseram estar procurando simplesmente a si mesmas e aos outros, livres de qualquer rótuio ou preconceito. A colocação: “… cada um é como é, vive como quer, trilha seu próprio caminho, e o que é melhor para si cada um é quem deve saber” — proporcionou total abertura experiência naquele momento. O “… não temos regras para ninguém e estamos querendo ser livres” trouxe de volta para meus ouvidos os pressupostos anarquistas do autogoverno. Confesso que gostei muito de ouvir estas colocações. Para estas pessoas pareceu-me que o autoconhecimento era algo simples e aceitador; estavam distantes da idéia que “tinham que se consertar”, como ocorre com alguns na procura de terapia.

Todas estas deduções, apesar de ligadas aos momentos das pessoas e, não, de caráter generalizativo, fizeram-me refletir que a utilização do vídeo está diretamente ligada ao clima de facilitação que se instala; fizeram-me refletir sobre minhas qualificações como profissional na ACP.

Em princípio, um grupo inicia trazendo uma reprodução social. Este medo dos julgamentos, esta atribuição de poder “fora de nós”, esta preocupação com a imagem, aparecem em todos nós. Estes estados representam a sociedade que construímos e os meios facilitadores que não encontramos e dos quais não temos frutos. Perceber o convívio humano como dificultador e descentrado representa o primeiro passo para que possamos com preencher e refletir o inicio de um grupo. Mas, à medida que as condições mudam e os propósitos da ACP se instalam, o problema da imagem começa a perder o sentido. Procuramos juntos outro tipo de convívio, dentro de nós e com os outros.

Para mim tem sido altamente significante quando um grupo apresenta resistência e, posteriormente, a aceitação do recurso se instala. Este estado se traduz num feedback que estamos conseguindo ser facilitadores uns dos outros; que consegui, até alí, ajudar de alguma forma.

Passei então a perceber que os cuidados éticos são necessários todas as vezes que nos faltam garantias ou confiança do que está sendo feito ou buscado. A Ética tem representado os cuidados que devemos tomar na sociedade que construímos e na facilitação que não encontramos.

Publicado no Boletim Paulista da ACP – São Paulo – No. 3 — 1988 Abri1-Maio-Junho