O PSICÓLOGO CENTRADO NA PESSOA E A INSTITUIÇÃO HOSPITALAR

Tatiana de Lucena Torres

APRESENTAÇÃO

Este artigo tem o intuito de contextualizar o papel do psicólogo numa Instituição Hospitalar, partindo de uma compreensão funcional do psicólogo junto ao paciente, seus familiares e a equipe multiprofissional de saúde.

Além disso, também serão abordados o posicionamento e o sentimento do profissional de psicologia diante do paciente denominado crônico e “terminal”, além da importância do estabelecimento de uma Relação Humana para a amenização do sofrimento do paciente, acrescentando-se à isto, a visão da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), seguindo de uma explanação de um caso clínico, que demonstrará uma experiência de atuação terapêutica em uma Instituição Hospitalar, a partir de um referencial teórico baseado na ACP e uma aplicação técnica da Psicoterapia Breve.

Os aspectos psicológicos que se referem ao processo de hospitalização acarretam um sofrimento emocional que assume grande importância no contexto vital do paciente. Envolvendo não apenas a doença responsável por sua internação, mas a mudança em todas as áreas de sua vida. O processo de hospitalização implica em uma modificação de todos os hábitos rotineiros do paciente (alimentação, higiene, horários, etc.), além de interferir na dinâmica familiar estabelecida por ele.

A hospitalização mobiliza a auto-estima, ansiedade e o medo, tanto do paciente, quanto de sua família. O indivíduo interno no hospital, vive a experiência da dependência da equipe multiprofissional, um grande sentimento de incapacidade, além do medo da morte, aspecto sempre presente.

O psicólogo hospitalar procura identificar, compreender e trabalhar com o paciente, todas as dificuldades decorrentes da hospitalização e da doença, que desencadeiam sentimentos diferenciados, conforme a individualidade de cada paciente.

O profissional de psicologia hospitalar deve buscar a pessoa que está doente com toda sua experiência anterior e não a doença por si só, procurando evitar o desencadeamento do processo de “despersonalização”, evitando enxergar apenas a sintomatologia e tentando encontrar o sentimento, tornando principalmente o paciente cada vez mais consciente de sua condição de “pessoa”.

O ser humano é uma globalidade de fatores dinâmicos que interagem e não dissociam-se. O psíquico, o físico e a afetividade estão embricados de tal forma, que todas atuam contentemente movendo o indivíduo durante toda a sua vida. Não existe nada que seja apenas psíquico ou algo que seja exclusivamente somático. O homem é um todo, sendo assim, o que é psíquico é também somático, da mesma forma, o inverso também é verdadeiro.

Em um Hospital Geral o psicólogo atua nos mais diversos setores. Este oferece apoio aos pacientes durante o pré, peri e pós-operatório, na UTI, nas Enfermarias, Urgências, pronto-socorro, Ambulatório e sempre que solicitado. Também é papel do psicólogo a assistência à família do paciente, pois a mesma além de ser submetida à uma ameaça constante de perda de uma pessoa querida, gerando momentos de angústia, ainda sofre a ausência daquele membro e procura aliviar sua ansiedade através das solicitações de informação médica, muitas vezes técnica e restritamente descritiva.

“A dinâmica hospitalar não inclui o atendimento adequado à familiares. Algumas vezes o psicólogo é solicitado pelo médico de forma indevida apenas para dar notícia de morte ou notificar a evolução clínica do paciente, suprindo assim, uma deficiência institucional. Como fato isolado esse não é o papel do psicólogo. Porém, em algumas situações específicas, ele pode estar junto ao médico no trato com a família, como também auxiliá-lo a encontrar a forma mais conveniente de se expressar, informar e se relacionar com ela..”( BIROLONI, 1997,p.13 )
Além de todos os aspectos citados acima, o psicólogo deve ainda realizar o papel de educador, de um agente “conscientizador”, trabalhando com a Equipe Médica, a Enfermagem, o Serviço Social; buscando oferecer uma melhor qualidade de vida ao paciente e sua família, de forma a diminuir possíveis reincidências.

A principal luta do psicólogo no Hospital relaciona-se à humanização, o paciente tem o direito de ser visto com dignidade, de ser ouvido e considerado, pois ele apesar de estar acometido por uma doença, quão grave ela seja, precisa sentir que é pessoa, que tem condições de superar sua enfermidade, precisa crer que possui o apoio de sua família e da equipe de saúde, precisa da esperança.

A rotina de um hospital fatalmente está ligada às doenças consideradas crônicas e à morte. Como já foi mencionado anteriormente, algumas vezes a equipe de saúde compreende distorcidamente o papel o papel do Psicólogo na instituição hospitalar, vinculando-o aos momentos críticos dos pacientes, esperando que este profissional seja o responsável pelas notícias de óbito à família e que consiga acalmar tanto os pacientes quanto os familiares que venham a apresentar um comportamento incômodo no Hospital.

O Psicólogo Hospitalar ao trabalhar em situações agravantes, de risco de vida iminente do paciente, deve oferecer-lhe a compreensão de que necessita, dar-lhe dignidade e qualidade de vida dentro das possibilidades hospitalares, além de permitir o crescimento pessoal e o auto-conhecimento do paciente, de forma a favorecer a conscientização de seu estado, para que a partir desse momento, essa pessoa possa viver melhor, respeitando seus limites sem no entanto estagnar suas potencialidades.

Algumas vezes, a doença crônica é encarada tanto pelo paciente quanto pelos familiares e até por alguns profissionais, como algo terrível, do qual não se pode escapar, de esperança improvável, uma situação desesperadora. Nesse momento o Psicólogo com o apoio da Equipe Médica, pode auxiliar o paciente e sua família no conhecimento, possíveis tratamentos e possibilidades de cura, desmistificando a doença.

Para realizar um trabalho digno e responsável, o psicólogo precisa conhecer seus preconceitos, julgamentos e medos, elaborando-os e transformando-os em experiências.

Seja qual for a doença e seu prognóstico, não se pode castrar a esperança do paciente, em nenhum momento deve-se desistir de lutar pela vida, muito pelo contrário, o Psicólogo trabalha justamente com a esperança, consciente é claro, pois é ela que oferece forças para o paciente lutar por sua recuperação. Mesmo no momento da morte é ela que tranqüiliza, quando transforma-se em um caminho para o fim da dor e do sofrimento.

Algumas vezes, a função do psicólogo também consiste em desfazer rótulos que são construídos pelos profissionais e pela própria sociedade. Neste caso pode-se citar como exemplo a doença terminal, pois depois do paciente ter sido percebido apenas enquanto doença, agora é visto como condenado a morte, como se em nada pudesse contribuir para sua recuperação. Não existe paciente “terminal”, não se pode prever quando alguém virá a falecer. Muito da recuperação do doente, depende dele mesmo; não se pode mensurar a vontade e o desejo de estar vivo. Da mesma forma que não se pode exigir do paciente uma atitude de luta e vontade de viver, se este não sente-se confortável e desejoso de tal coisa. É extremamente importante que o psicólogo compreenda o paciente, a sua dor e a sua postura diante de sua doença, sobretudo respeitando-o.

O atendimento psicológico em uma instituição hospitalar possui características próprias, que em parte diferem do atendimento na clínica.

No Hospital existe uma grande rotatividade de pacientes, onde os mesmos geralmente permanecem por um curto período de tempo. Além disso o atendimento psicoterápico assume certo direcionamento às ansiedades, medos, sofrimento e dores desencadeadas pelo processo de hospitalização e pela doença propriamente dita.

Sendo assim o apoio e o atendimento psicológico, assume um embasamento técnico da psicoterapia breve, que ajusta-se de forma mais coerente à realidade hospitalar. Entretanto, algumas abordagens teóricas podem reforçar a atuação do psicólogo hospitalar, mesmo que esta ocorra de forma breve.

No caso da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) em uma atuação hospitalar, a própria concepção de paciente, como um ser passivo e manipulável, passa a ser revista, muito embora não possa ser substituída por cliente, forma utilizada pela Abordagem ao perceber o paciente como um ser de trocas. Verdadeiramente, a denominação de paciente que existe na dimensão hospitalar não pode ser substituída, seria uma utopia querer modificar esta terminologia tão pertencente ao âmbito do Hospital. No entanto, mais importante que a terminologia, seria a compreensão e a consideração do paciente, não como ser passivo, mas como uma pessoa que possui um potencial ao crescimento que deve ser resgatado e que sobretudo merece ser respeitado.

No Hospital o paciente sofre por seu afastamento da família, pela mudança de hábitos ao qual foi submetido, pela doença à que foi acometido. Ele tem medo. Medo da doença, do tratamento, da cirurgia, dos profissionais, de seus sentimentos; tem medo de ter medo .

Diante dessa realidade, o Psicólogo Hospitalar Centrado na Pessoa atua na tentativa de atingir e resgatar a pessoa do paciente, compreendendo-o e aceitando-o incondicionalmente, buscando “junto” com o outro alcançar uma responsabilidade que somente a pessoa tem consigo mesma, construindo através da sua autenticidade, um caminho à ser percorrido em direção a auto-compreensão do paciente, no intuito que este aceite-se enquanto indivíduo, crescendo, aprendendo e reconhecendo cada vez mais sua experiência de vida. Estabelecer esse processo, e principalmente chegar à essa perspectiva de congruência realmente não é fácil, ainda mais quando se trata de pacientes internos em Hospital, onde a escolha e a vontade são tão limitadas. Entretanto diante de uma situação de relação empática entre Psicólogo-Paciente (Terapeuta-Cliente), mesmo que por um momento, o paciente poderá dividir sua dor com alguém, tendo a oportunidade de perceber-se por inteiro e de conhecer-se melhor. A Psicoterapia no Hospital é breve, mas pode ser o início de uma mudança e uma oportunidade do Paciente, e porque não do Terapeuta, de crescer.

ROGERS ao atender um paciente esquizofrênico, deixou claro a importância de compreender a dor e o sofrimento além do diagnóstico da doença, buscando principalmente atingir a pessoa existente no paciente, seja qual for sua doença e quão crônica ela se apresente.

“Penso num homem com quem passei muitas horas, grande parte delas em silêncio. Houve longos períodos em que não tive jeito de ser saber se o relacionamento tinha ou não algum sentido para ele. O paciente não se comunicava, estava aparentemente indiferente, retraído, incapaz de se exprimir. Lembro de uma hora em que se sentiu completamente inútil, desesperado, com impulsos para o suicídio. Queria fugir, acabar consigo, pois, como murmurava com desespero flagrante: ‘Não me importa’. Respondi: ’Sei que você não se importa consigo, não importa de todo, mas só quero que você saiba que eu me importo.’ E então, depois de uma longa pausa, veio uma violenta torrente de soluços profundos, destruidores, arquejantes, que continuaram por quase meia hora. Ele absorvera o sentido de meu sentimento por ele. Era uma prova dramática de que todos nós aprendemos, atrás das cortinas de silêncio e alucinação de uma fala estranha, hostilidade e indiferença, em cada caso existe uma pessoa…”( ROGERS & STEVENS,1976, p.197)
Baseando-se em tudo que foi explanado anteriormente, buscou-se caracterizar e descrever um caso de suicídio atendido no Instituto Hospitalar General Edson Ramalho, hospital da rede pública situado na cidade de João Pessoa-PB, no intuito de melhor compreender a dinâmica de um atendimento psicoterápico hospitalar percebido pelo prisma teórico da ACP e enriquecido com um relato de experiência do profissional, que vivenciou a relação terapêutica estabelecida entre o mesmo e a paciente ao qual o caso refere-se.

Comumente o ato suicida não é compreendido, sendo muitas vezes repugnado pela família, pela equipe de saúde, enfim pela sociedade.

CAMON(1992)ao relatar uma experiência de atendimento à casos de tentativa de suicídio nos prontos-socorros de São Paulo, afirma que:

“ A sedimentação teórico-prática sobre a questão do suicídio deve direcionar a ótica dos profissionais da saúde para o fato de que o suicídio ao contrário do que afirma alguns sofismas, não é ato de coragem, nem tampouco de covardia. Ao contrário, trata-se de um ato de desespero que sempre, mesmo naqueles atos onde a morte é fulminante e à princípio sem sinais evidentes de dor física, é revestido de muita violência ”.( p.63 )
Tratar um sobrevivente de um ato suicida, implica não apenas restabelecer sua condição física, algumas vezes permanentemente deteriorada, mas principalmente trabalhar a auto-estima, a dor e o sofrimento que agora são acrescidos à uma situação de hospitalização.

Logo que o paciente mostre condições clínicas de atendimento, dar-se início ao acompanhamento psicológico tentando estabelecer um sustentáculo emocional que proporcione ao paciente, a descoberta de alternativas para sua vida, dando-lhe ainda, condições de aceitação e compreensão, que possam favorecer um trabalho de maior profundidade sobre os conflitos emocionais que o levou de encontro ao desespero.

Durante o período de março à julho deste ano aproximadamente, a paciente Kátia ( nome fictício utilizado para preservar a identidade da paciente ) de 20 anos, foi hospitalizada por duas vezes ( 1ºadmissão: 08/03 com 1ºalta: 16/05; 2ºadmissão: 30/06 com 2ºalta: 29/07) no Instituto Hospitalar General Edson Ramalho (IHGER), primeiramente com internação referente ao diagnóstico de queimadura de 3ºGrau e posteriormente com internação por motivo cirúrgico( enxerto de pele).

Kátia era solteira, trabalhava no lar e residia na capital. Nos primeiros atendimentos com a estagiária de Psicologia, afirmou que o ocorrido se tratava de um acidente. Disse que estava limpando alguns objetos, quando o álcool caiu, derramando por cima de sua roupa, e como a mesma estava fumando, o fogo começou a se alastrar, queimando-a.

Depois de cinco atendimentos, a paciente persistia em um diálogo praticamente idêntico, sempre evitando confrontar-se com a situação do acidente, relatando que sentia muita dor física, fugindo do estabelecimento de um diálogo mais profundo e de um relacionamento mais verdadeiro com a estagiária de psicologia, procurava manipular todos os profissionais de saúde, queria que as outras pessoas sentissem pena dela e quando isto acontecia, chorava, gritava, mas nunca expunha seus sentimentos. Vale ressaltar que embora a paciente buscasse sempre fugir de uma conscientização de seu estado, afirmava sentir um bem estar com a presença da estagiária em seu leito e de como mostrava-se interessada em lhe ouvir. Buscando manipular também a estagiária de Psicologia, na tentativa de que esta viesse a sentir pena de seu estado, a paciente foge de um confronto consigo mesma através de uma possível conscientização e passa a pedir favores para a estagiária sempre que a mesma iniciava o atendimento. Esses favores consistiam em pedidos de copos d’água, auxílio para locomover-se, entre vários outros, de forma que a paciente nunca se permitia falar sobre seus sentimentos, muito embora não abdicasse da presença da estagiária.

No sexto atendimento, a estagiária de Psicologia procura modificar sua postura diante da paciente, tornando claro para a mesma que seu papel na Instituição era ouvi-la, tentando compreende-la sempre, qualquer que fosse o seu problema, sem julgamentos ou questionamentos, desde que estivesse disposta e permitisse isso. Afirmou para a paciente que ela tinha todo o direito de não querer falar, que a respeitava, mas que não podia continuar realizando tarefas que não lhe cabia fazer. Nesse momento a paciente começou a chorar e pediu para a estagiária que não saísse, pediu-lhe que ficasse pois tinha muito a dizer. Afirmou que as queimaduras não eram provenientes de um acidente mas sim de uma tentativa de suicídio, dizia sentir-se abandonada, pois seu namorado queria deixá-la e isto ela não suportaria. A partir daí, a relação terapêutica começou a progredir; a medida que Kátia sentiu-se aceita e percebeu a presença da estagiária como uma profissional, pôde então fazer sua escolha e decidir iniciar verdadeiramente seu processo psicoterapêutico.

A paciente permaneceu interna na clínica cirúrgica feminina por cerca de 5 meses, revelando sentimentos de revolta, angústia e tristeza.

Sentia-se solitária e incapacitada pela imobilização de seus braços, pois não podia pegar sua filha ou vestir-se, sentia que a família estava distante e que não compreendia sua dor.

O relação psicoterápica auxiliou Kátia a expor seus sentimentos com mais naturalidade, ofereceu suporte emocional para as dificuldades que atravessava, através de uma relação empática estabelecida entre a paciente e a estagiária conseguiu perceber-se um pouco melhor, aceitando seus limites e compreendendo suas potencialidades, aspecto que auxiliou o restabelecimento de sua auto-estima e consequentemente de sua saúde.

Visto a brevidade e diferenciação, de certo modo, dos objetivos e possibilidades da Psicoterapia Breve utilizada no Hospital, indicou-se a paciente para um atendimento psicoterápico individual, depois de sua alta.

A Psicoterapia Breve com base teórica na ACP, visa a amenização do sofrimento do paciente através do estabelecimento de uma relação interpessoal de fundo psicoterápico, onde busca-se compreender e aceitar incondicionalmente o paciente como pessoa, na tentativa de oferecer-lhe momentos de congruência, de forma que este aceite e reconheça sua experiência, seu momento.

Pode-se concluir que mais do que uma função, seja de que abordagem for, o Psicólogo como um profissional que lida essencialmente com relações humanas, tem o compromisso de procurar oferecer condições onde o paciente possa elaborar seu sofrimento através da compreensão, respeito e dignidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BALINT, M. ( 1988 ) O médico, seu paciente e a doença. Tr.: Roberto Musachio. Rio de Janeiro: Atheneu.

2. BIROLINI, D.(1997 ) Cirurgia de emergência . Porto Alegre: Artes Médicas.

3. CAMON, V.A.A.; CHIATTONE, H.B. de C. & NICOLETTI, E. A.( 1992) O doente, a psicologia e o hospital/ Org.: Valdemar Augusto Angerami-Camon. 2ª ed. São Paulo: Pioneira.

4. ROGERS, C. R. ( 1997 ) Tornar-se pessoa. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes.

5. ROGERS, C.R. & STEVENS, B. (1976) De pessoa para pessoa: o problema de ser humano. São Paulo: Pioneira.

Trabalho apresentado no III Fórum Brasileiro da A.C.P. realizado entre os dias 10 a 16 de outubro de 1999, em Ouro Preto, Minas Gerais