O RESGATE DA AUTENTICIDADE DO PLANTÃO PSICOLÓGICO NA CLÍNICA-ESCOLA

Ana Cristina Cesar Zamberlan
anazamb@yahoo.com.br

Campinas
2016

O Plantão Psicológico como disciplina oferecida aos alunos do nono e décimo semestres da Universidade Paulista – UNIP, campus Campinas, teve seu início em 2000. Desde que começou a ser oferecido não deixou de ter alunos interessados em praticá-lo. O objetivo da disciplina acompanhava a crescente demanda por uma prática psicológica que oferecesse escuta e acolhida imediata à comunidade. Assim foi exercido em modelos que pareciam se distanciar do proposto inicialmente em 1969 por Raquel Rosenberg e Oswaldo de Barros Santos. Seguiam os imprevistos que acompanham as instituições de ensino: as burocracias inevitáveis de definições de horários, as disponibilidades de professores, o cumprimento de regras e leis que regem as diretrizes de ensino.

Mahfoud (2013, p.35) aponta este movimento como um desafio “fundamental e perene dessa modalidade de atendimento: chegar a uma estrutura que esteja em função do movimento da pessoa em ato, ao invés de solicitar a adequação do cliente à estrutura de trabalho.”

Ainda em Mahfoud (2013, p. 35) encontro a direção do resgate que proponho neste artigo. Diz o autor:

Trata-se de um contínuo desafio, porque a experiência mostra que a tendência a tornar o Plantão Psicológico uma estrutura fixa e normatizada de processos definidos de antemão como sendo de poucos atendimentos é algo recorrente e que precisa ser sempre novamente enfrentado com coragem para continuar a dar credibilidade ao movimento dos clientes – razão de ser do Plantão mesmo.

A direção pensada foi buscar o resgate na vivencia e experiência dos alunos enquanto plantonistas. Não olharia para o estabelecimento de antemão de regras e procedimentos que deveriam ser obedecidos. Talvez caiba aqui uma re-visita a palavra obedecer: de origem latina ob-audire “é a possibilidade de estar disposto a dar ouvidos a alguma coisa” (Pompéia, 2011, p.26). Neste caso buscaria plantonistas dispostos a dar ouvidos primeiro à pessoa que chega buscando escuta e compreensão.

1- INTENÇÃO PRIMEIRA

Este artigo tem uma finalidade: descrever a passagem em direção à autenticidade da prática psicológica que é o Plantão. Mostrar como foi sendo construída no ano de 2015 à medida que alunos, supervisora e clientes apontavam questões e procuravam reflexões. Descrevo em poucas palavras alguns funcionamentos da clínica-escola que poderão nos ajudar a enxergar o caminho que aqui procuro mostrar.

As avaliações das disciplinas nos últimos semestres do curso de Psicologia da UNIP incluem exercícios teóricos dissertativos, relatórios parciais e finais, avaliações subjetivas dos supervisores sobre a conduta dos alunos frente às demandas de cada disciplina e ao exercício ético da profissão. Resolvi incluir algo nesta avaliação: um artigo sobre a prática do Plantão que mostrasse de alguma maneira a experiência pessoal de cada aluno nos atendimentos que realizaria nestes dois semestres.

A ideia primeira era apresentar aos alunos a possibilidade do encontro com o inesperado, emergencial, inédito, trazido pela pessoa que procura o serviço e, com ela, a possibilidade, inerente à primeira, de trazer a percepção daquele vivido inesperado e inédito que nos afeta a cada encontro com o outro.

Amatuzzi (2010, p. 54) escreve:

Mas o que é o vivido? É nossa reação interior imediata àquilo que nos acontece, antes mesmo que tenhamos refletido ou elaborado conceitos. Hesitei ao escrever ‘nossa reação’ ao invés de ‘a reação da pessoa’. Saí do impessoal e escrevi ‘nós’. Nossa reação. Saí da postura objetiva e neutra, e estou evocando a experiência minha e do leitor, a experiência comum, nossa. Todos podemos saber de que estou falando, mesmo que isto seja de difícil definição. Reagimos por dentro àquilo que nos acontece. Isso é vivido, a experiência imediata. É como nós sentimos.

Penso que experenciar este vivido traria outro movimento. Escrevê-lo. Deixá-lo em palavras. Traduzi-lo para que fosse compreendido pelo leitor. Assim acompanhamos novamente Amatuzzi e colocamos a possibilidade de elaborar a Versão de Sentido nos relatórios de atendimento. De suas tentativas de definição, como o autor coloca, penso nesta: “Como produção, uma Versão de Sentido é a fala, o mais autêntico possível, que toma como referência intencional um encontro vivido, pronunciada logo após sua ocorrência” (AMATUZZI, p. 84).

Pensamos e decidimos que escrever a Versão do Sentido após cada dia de atendimentos seria o núcleo principal do artigo que escreveriam. Importante apontar que não houve objeção a mais uma tarefa em um ano exacerbado de obrigações.

No final do primeiro semestre letivo de 2015, recebi quatro artigos expondo as características da prática psicológica e o depoimento de cada um dos quatro autores sobre o semestre que terminavam. No final do segundo semestre do mesmo ano, mais quatro artigos estavam prontos e mostravam as mudanças ocorridas durante todo o ano. Estes artigos estão alinhavando, costurando e, finalmente, dando sentido a esta minha escrita.  Cito cada aluno e deixo as referências aos artigos junto àquelas que norteiam minhas ideias ao final desta comunicação.

2- A HISTÓRIA NO CPA

Após a escolha pela disciplina feita no oitavo semestre do curso era o aluno, no semestre seguinte, colocado em alguns horários distribuídos pela semana para ficar à espera de quem viesse. As segundas, sempre as segundas, as supervisões dos atendimentos aconteciam. Os períodos estabelecidos para o Plantão eram divulgados para a comunidade em pequenos folhetos ou informados verbalmente pelos funcionários do CPA (Centro de Psicologia Aplicada) a quem telefonasse em busca de auxílio psicológico e fosse maior de doze anos. As crianças menores eram encaminhadas diretamente à outra prática psicológica oferecida pela instituição, o psicodiagnóstico. Eram quatro períodos de uma hora e meia durante a semana para os atendimentos e, nestes, os alunos se organizavam para montar uma sequência de plantonistas. Assim que a pessoa chegava, preenchia uma ficha com alguns dados de identificação e resumia, em poucas linhas, o motivo de estar ali. Esta ficha era então levada à sala de alunos para dar seguimento ao atendimento.

Neste ponto, algumas observações são oportunas. Aponta Rosenberg (1987, p.1)

É preciso dizer que um Serviço de Aconselhamento Psicológico é mais que um programa, um local, uma divisão burocrática. Tal como um ser humano, ele tem uma história que imprime em seu semblante, vive experiências que determinam seus caminhos e oculta intrigantes segredos. Decerto qualquer serviço institucional é único, enquanto fruto de conjunturas, personalidades e dinâmicas particulares, mesmo quando segue um modelo. Mas seu desenvolvimento terá sempre algo que poderemos generalizar e algo que reconheceremos, algo que venha a fazer parte do legado comum e da obra coletiva. Isto porque somos uma espécie que recria, na consciência e no verbal, o que lembra.

Recordo ainda a Barros Santos (1982, p. 11) que falando de Rogers diz:

(…) de toda sua obra, porém, se depreende que o aconselhamento é um método de assistência psicológica destinado a restaurar no indivíduo suas condições de crescimento e de atualização, habilitando-o a perceber, sem distorções, a realidade que o cerca e a agir, nessa realidade, de forma a alcançar ampla satisfação pessoal e social. Aplica-se em todos os casos em que o indivíduo se defronta com problemas emocionais, não importando se se trata de doenças ou perturbações não patológicas. O aconselhamento consiste em uma relação permissiva, que oferece ao indivíduo oportunidade de compreender a si mesmo e a tal ponto que o habilita a tomar decisões em face de suas novas perspectivas.

Penso nos livros e textos que descrevem a história da implantação dos serviços de Aconselhamento e Plantão Psicológico e nos caminhos percorridos por estes dois autores e seus alunos e seguidores. O desbravamento e a coragem de assumir o cuidado independentemente dos padrões e exigências da época permite-nos, ainda hoje, enfrentar os desafios e superá-los com mais respaldo. Nossa atuação hoje parece mais fácil, afinal vivemos numa época na qual o cuidado com o outro e a aceitação das diferenças são nomeados e propagandeados como virtudes esperadas. O “parece mais fácil”, escrito acima, fica por conta do meu reconhecimento das dificuldades encontradas no exercício destas virtudes.

No final do ano letivo de 2014 nós, supervisores do Plantão, nos reunimos para avaliar o semestre e conversar sobre o ano seguinte. Pensamos em mudança, desenhamos novos modelos de fichas, rascunhamos orientações para os atendimentos e relatórios. Não mais estabeleceríamos limites de idade, o Plantão estaria aberto a todos. Levamos nossas ideias para a coordenação e professores do CPA na reunião final do semestre. Nesta reunião, decidiu-se que poderíamos alterar alguns procedimentos e outros deveriam ser alinhados com os padrões já existentes no CPA como abertura de prontuários, fechamento deles no final de cada semestre, orientações à secretaria, encaminhamentos possíveis e outras pequenas providências de manutenção do funcionamento da recepção e secretaria.

Alinhamos o que pudemos e nos arriscamos a seguir nas mudanças, propondo-nos fazer outros alinhamentos com a disciplina em movimento.

Assim, caminhamos para um novo começo.

Inicialmente, definimos um único dia para o Plantão, toda segunda-feira. Repartimos os horários da segunda entre três professores: das 8h00 às 11h00, 14h00 às 17h00 e das 17h00 às 20h00. Assim que a pessoa chegasse ao CPA preencheria uma simples ficha com nome, idade e se havia ido ao CPA em alguma situação anterior. Decidimos que teríamos um modelo simples de cadastro que os plantonistas estagiários preencheriam com a pessoa juntamente com a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido padrão da instituição já na sala de atendimento. Enquanto isto, os supervisores estariam na sala para a supervisão após os atendimentos ou para orientações necessárias durante o atendimento. Assim que este terminasse o plantonista preencheria uma pequena descrição do atendimento com suas impressões pessoais e a conduta tomada: qual encaminhamento e para onde, um possível retorno ao serviço ou nenhum encaminhamento. Cada atendimento geraria um relatório posterior com uma descrição mais detalhada do atendimento e uma compreensão fundamentada na bibliografia sugerida pelo plano de aula da disciplina. Esta última, uma exigência do programa pedagógico da instituição como um dos instrumentos de avaliação do desempenho do aluno-estagiário e também para documentar a passagem do cliente pelos serviços da instituição de ensino.

O semestre letivo teve início em fevereiro de 2015 e pouco a pouco, o imaginado tomava corpo e forma. O grupo da manhã foi esticando seu horário e logo tínhamos plantonistas até as 12h00. O grupo da tarde começou a chegar mais cedo e já quase emendava no grupo anterior. Meus plantonistas da noite chegavam bem antes do nosso horário e alguns se dispuseram a cobrir intervalos sem atendimentos. E a segunda-feira cresceu. A segunda-feira como dia do Plantão estava em construção.

3- A HISTÓRIA DO MEU GRUPO

A cada ano que se inicia, tenho uma boa e impactante espera. Não conheço a maioria dos alunos-estagiários que participará do meu grupo de supervisão de Plantão, é sempre uma construção de vários sentidos em várias direções.  Em 2015, não foi diferente, mas foi maior: dezesseis alunos em um só grupo. Destes alunos nem todos viriam da mesma abordagem teórica escolhida em outra disciplina: Atendimentos Clínicos Breves. Esta disciplina disponibiliza a aprendizagem e atendimentos em quatro olhares teóricos: Psicanálise, Cognitivo-Comportamental, Sistêmica e Fenomenólogico-Existencial. Teria alunos com percepções diferentes e isto me fazia pensar: não será impedimento, pode ser uma nova possibilidade de aprendizagem.

Procuro Rogers (1976, p.217) e assim leio:

“Eu arriscaria a hipótese de que, no momento imediato do relacionamento, a teoria específica do terapeuta é pouco importante e, se está na consciência do terapeuta naquele momento é provavelmente nociva à terapia. O que estou dizendo é que o encontro existencial é que é importante, e que no momento imediato do relacionamento terapêutico a consciência da teoria não tem lugar.” (grifo do autor)

Teria, portanto, muitas chances de aprendermos na convivência: dezesseis alunos, todas as pessoas que passariam por nosso horário e eu como supervisora.

E começamos pelas novidades: o grupo, a supervisora, a disciplina, as formalidades, os limites dos horários de início e término, as obrigações, as temidas avaliações subjetivas ao final de cada bimestre. Fomos caminhando entre dúvidas e respostas, entre sugestões e descobrimentos, entre mudanças e impedimentos, entre descobertas e receios.

Seguimos estudando e discutindo textos e livros sobre a disciplina a partir das reflexões e compreensões que surgiam. Marcamos alguns textos como básicos para este início pretendendo pensar a aprendizagem para cada um e para o grupo como um todo. Colocar a aprendizagem não como meta, mas como processo que atinge a todos nela envolvidos. Buscaria apoio em Paulo Freire (2001, p. 259) logo no início de sua Carta aos Professores:

É que não existe ensinar sem aprender e com isto eu quero dizer mais do que diria se dissesse que o ato de ensinar exige a existência de quem ensina e de quem aprende. Quero dizer que ensinar e aprender se vão dando de tal maneira que quem ensina aprende, de um lado, porque reconhece um conhecimento antes aprendido e, de outro, porque, observado a maneira como a curiosidade do aluno aprendiz trabalha para apreender o ensinando-se, sem o que não o aprende, o ensinante se ajuda a descobrir incertezas, acertos, equívocos. (grifo do autor)

Reforçaria minha intenção ao ler Morato (2009) e concordar que o plantonista libertado dos gessos de muitas práticas psicológicas escuta e recolhe narrativas de seus clientes. Esta escuta exige uma compreensão formada ali, naquele momento em que palavras transformam-se em frases inéditas e perfazem um sentido original. O supervisor lá não está.

Procuro outro apoio e o encontro em um livro infantil. No Catador de Pensamentos o senhor Rabuja se encanta com os pensamentos que encontra pelo seu caminho, colhe-os com cuidado, leva-os para casa e deixa que se mostrem para depois descansarem e voltarem a pousar nas pessoas: “Se não existissem catadores de pensamentos, os pensamentos ficariam o tempo todo se repetindo e provavelmente um dia deixariam de existir”. (Feth, M & Boratynski, A., 1996)

Volto a me sustentar em Rogers (1977, p. 143) e procuro não esquecer que daquele encontro poderia fazer

Um lugar para a aprendizagem pela pessoa toda, com seus sentimentos e ideias integradas. Tenho refletido nesta questão de reunir a aprendizagem cognitiva, que foi sempre necessária, com a aprendizagem afetivo-vivencial, tão descurada hoje no ensino.

Apresentei-me, apresentei a disciplina e escutei. Abaixo os relatos de alguns alunos sobre este momento:

Beatriz Nicolo:

No início do ano, perguntei-me se estava pronta para o inesperado. Aquela forma de atendimento breve que antes era um estranho desafio assustava-me. Nos primeiros atendimentos, foi tudo mecanizado eu tinha um roteiro meio que formado na cabeça, mesmo sabendo que nada aconteceria daquela forma, o que me assustava ainda mais.

Eduardo Tedeschi:

Os estágios começaram e eu aflito com os primeiros atendimentos. Encontrei as primeiras dificuldades: escutar as palavras e, além disso, os silêncios das pessoas. Mas lá fui eu para os atendimentos. O primeiro contato; estava ansioso. Atenderia um rapaz. Sua reclamação: agressividade. Sentia-me extremamente solicitado. Tinha que fazer um bom atendimento. Teria uma supervisão após e seria avaliado desde então. Uma longa escuta na qual pouco falei, basicamente o ouvi. Sentia-me mecânico, seguindo as instruções de minha supervisora, mas estava mais seguro naquele terreno e assim fiquei. No final deste atendimento, sentia que algo faltava de mim.

Wagner Honório da Silva:

Antes de atendermos, passamos por uma intensa preparação com leituras, discussões teóricas e vivências em que nós (estagiários e supervisora) interpretávamos papéis, ora de cliente, ora de plantonista. Simulávamos o que poderíamos encontrar, bem como colocávamos nossos temores: E se o cliente não falar? O que digo agora? Não sei o que dizer. Foi nesse período que, por várias vezes, me perguntei: O que estou fazendo aqui? Será que vou dar conta?.

Rafaela Franco:

“De início bateu aquela dúvida. Será mesmo que o melhor para mim é escolher o Plantão Psicológico como opção de estágio? Todos diziam ser muito trabalhoso, muitos atendimentos, vários relatórios com histórias diferentes, tinha que estar pronta para o imprevisível. Mas, como não me preocupar? Eu entraria em uma sala sem hora para terminar o atendimento e sairia de lá com a sensação de dever cumprido ou não. Esse “ou não” me apavorava!”.

Marina Esquisato:

“Quando iniciei o meu primeiro semestre, confesso que me sentia assustada e ansiosa nos primeiros atendimentos. Pensava em como agir diante do cliente, em qual a melhor maneira de acolhê-lo e ajudá-lo, fazendo com que aquele momento se tornasse uma experiência cheia de sentidos para ele. Até que percebi que a melhor maneira acolhê-lo era simplesmente estar ali presente, oferecendo a minha escuta e compreensão de forma única e empática”.

Bruna Spoladore: “O principio básico de meu aprendizado durante as supervisões e os atendimentos em plantão foi o escutar”.

Sisley Sotero:

Fazia-me pensar se (o plantão) era uma boa escolha, pois me traria uma diversidade de casos e, assim, me faria conviver com várias histórias. Por outro lado, essa mesma diversidade, me fazia re-pensar. Como seria lidar com o inesperado? Nas supervisões, enquanto dávamos exemplos de casos, houve momentos em que não sabia para onde ir e o que faria se isso acontecesse de fato, com a pessoa ali, na minha frente, aguardando uma palavra que a acalmasse. E se quem viesse, trouxesse uma questão que eu não soubesse como clarificar?

O questionamento do estagiário-plantonista apontava para o ter que acertar, o ter que se preparar, o ter que ser bem avaliado, ter que dizer algo que “acalmasse” seu cliente. Refleti sobre este também resgate. Resgate ou aprendizagem de uma atitude antinatural frente à pessoa que agora escuta e libertar-se da atitude natural amparada em teorias, pressupostos, diagnósticos e procedimentos amplamente estudados nos quatro anos anteriores de formação.

Algumas atitudes eram novas, inéditas, ainda não pensadas como também eram ainda não conhecidas as pessoas que chegariam. Com elas fomos dando amplitude ao nosso fazer, não antes. Durante, junto.

Procuro solo em Heidegger (1958, 2007, p. 381) quando escreve sobre a Questão da Técnica e leio: “O fazer do camponês não desafia o solo do campo. Ao semear a semente, ele entrega a semeadura às forças do crescimento e protege seu desenvolvimento”.

Não desafiar o solo do campo. Entregar a semeadura às suas forças. Proteger. Desafios do ensino do aprender. Desafios do ensino do ser psicólogo, do ser plantonista. À medida que recebíamos as fichas iniciais pensávamos em algumas condições. O atendimento de crianças no Plantão exigia um olhar mais cuidadoso e conversamos sobre quem afinal estava ali procurando escuta e acolhimento. Nossas reflexões apontaram um caminho que seguimos até os dias atuais: recebemos as crianças para nos apresentarmos, perguntamos se sabem para que estão ali e se sabem quem somos. Cada um, ao longo do ano, descobriu uma maneira de abrir este espaço com a criança e o estendemos aos adolescentes. Este tempo inicial com a criança e adolescente nos dava a oportunidade para apresentações: do plantonista e da prática do Plantão. Em seguida falaríamos com pais e responsáveis e a criança e adolescente, já conhecedora do terreno, escolheria se ficaria ou não nesta conversa. Terminaríamos com quem começou e assim não correríamos o risco de desrespeitar a pessoa que a criança e o adolescente são.

Não desafiar o solo do campo. Entregar a semeadura à suas forças. Proteger? Desafios do ensino mostrando o meu aprender. Conversamos sobre o tempo das sessões e aceitamos que não adotaríamos a formalidade da sessão de cinqüenta minutos ou uma hora. Como determinar a duração de uma fala que imaginamos espontânea? Não caberia nesta prática. No entanto, nas primeiras semanas de atendimentos uma das alunas não retornou à sala de supervisão em duas horas. Conversamos sobre a situação e imaginando que teria uma atitude adequada a interrompi para saber se queria algum auxílio. Está tudo bem, me respondeu. Estamos conversando.

Aprendi. Ir até onde o outro está significou neste momento suspender a certeza de que sei o que acontece e posso evitar o que não pode acontecer. Não sei o que acontece. Neste momento minha incongruência se mostrava a mim. Fiz desta mostração uma possibilidade de reflexão do grupo e me desculpei pela interrupção daquele momento único. Leio Pompéia e Sapienza (2011) e me inspiro para confirmar que ser professor é voltar a condição do não-saber e retomar a alegria pelo conhecimento; neste dia compartilhamos o descobrimento do conhecer, pudemos “ transformar o substantivo conhecimento no verbo conhecer”. (p.73)

Lembro-me aqui de alguns autores mostrando as incertezas de jovens terapeutas. Lembro-me das minhas próprias dúvidas ao lançar-me na busca da compreensão do outro. Procuro não acalmá-los, mas mostrar-lhes a importância de não recorrer às explicações que certamente amparam e, também certamente nos afastam do saber quem é a pessoa que nos fala.

Para marcar esta posição busco apoio em Pompéia & Sapienza (2013, p.159):

Quando o outro nos compreende, vivemos uma experiência extremamente significativa. Quanto mais delicada é a situação e mais pessoal o enunciado, maior é a nossa necessidade de compreensão e mais difícil se torna qualquer tentativa de explicação.

O semestre caminhava para o fim. Tínhamos uma referência institucional para o número de atendimentos por aluno no semestre, mas não alcançá-lo deixou de ser um fator importante na avaliação final. Sabíamos que a comunidade também aprenderia a olhar para as segundas como dia de Plantão da Unip. Esperaríamos o semestre seguinte. Em nova reunião avaliamos as mudanças e novamente ajustamos alguns procedimentos. Acatamos que o preenchimento da ficha de identificação do cliente pelo aluno já na sala de atendimento precisava ser repensado. A secretaria nos avisara que muitas vinham sem preenchimento adequado o que dificultava a localização do cliente se fosse necessária. Avaliamos que este procedimento deveria voltar às mãos da secretaria o que também possibilitaria maior tempo de escuta ao plantonista.

Adequar o serviço de Plantão às exigências institucionais continuava um desafio. Não impeditivo digo novamente, mas ainda facilitador de opções criativas.

O início do segundo semestre nos encontra mais sossegados e dispostos a começar.

Nas palavras dos plantonistas-estagiários:

Wagner Honório da Silva:

No semestre seguinte, mais familiarizado com a prática, meu caminhar foi mais próprio e autêntico e acabou por levar-me ao que almejara no momento da escolha pelo Plantão: o novo, o inesperado e o inóspito. Logo no primeiro atendimento me vi diante do novo: atenderia uma criança. Situação pela qual ainda não passara e que trouxe um estranhamento a princípio. Sabia como proceder formalmente por ouvir a supervisão dos atendimentos dos colegas.

Suzane A. Salvador:

O Plantão Psicológico a princípio era um desafio por exigir escuta atenta ao cliente. Com o passar dos atendimentos, as leituras sobre o que embasa esta prática, percebo o quanto as coisas mudaram e que não há mais aquela insegurança do início do ano. Percebi que era bem possível atentar-me à fala do cliente e esse estar disponível promovia segurança, pra ele e pra mim. No início, o sentimento de estar ansiosa e pensar apenas em resolver os problemas da pessoa que estava na minha frente. Com o tempo passei a entender que precisava ouvir, estar presente para acolher quem viesse criando um ambiente livre de preconceitos.

Sabrina Baptista:

No decorrer do estágio percebi que deveria desenvolver uma nova postura como plantonista. Após muitas leituras e estudos sobre a Abordagem Centrada na Pessoa e a Fenomenológico-Existencial compreendi que minha atitude e meu modo de pensar precisavam ser repensados, não cabiam no Plantão. Repensei.

Juliana Rodrigues da Silva:

Nos atendimentos realizados no segundo semestre sentia-me mais confiante, pensava que atender não seria mais novidade. Mas os ouvir um jovem agressor de si mesmo relatar seu sofrimento e arrependimento por ter agredido uma pessoa desconhecida entendi que nada sei e que minha trajetória apenas está começando.

Continuamos o caminho com os alunos preparando seus depoimentos para completar o artigo escrito no primeiro semestre. Cada segunda-feira vinha apreensiva: teremos quem atender? Daremos conta de atender todos? Devo ler o quê agora?

Já entendiam que as leituras deveriam dar terreno fértil para as atitudes. Não discutimos em momento algum o valor de cada abordagem teórica em Psicologia e nem as comparávamos. Ali, no espaço do Plantão, pensávamos nas atitudes facilitadoras do acolhimento da pessoa que se dispunha a contar sua história a quem jamais tinha visto no momento que escolhera para tal. Suspendíamos o que já estava dado, abríamos espaço para o que se apresentava.

Chegamos ao fim do semestre. Com ele as obrigações institucionais tomavam conta do fazer dos plantonistas e supervisores. Encerraríamos os atendimentos no semestre para retomarmos no ano seguinte com outra turma de alunos. Chegava ao fim não só a disciplina, mas para a maioria terminaria a graduação. Algumas questões fortaleciam minha esperança: e se aparecer alguém querendo ser atendido? Atenderemos, respondia. E imaginava o que passava naquele momento pelos pensamentos destes catadores de pensamentos dos outros.

Ao ler os artigos finais compreendi a extensão e da experiência e da vivência de cada um. Novamente recorro a eles:

Beatriz Nicolo:

Sai com uma bagagem lotada, espero que este campo de estágio tenha maior interesse por parte de outros estagiários que poderão dar continuidade ao que fizemos. Faço propaganda do Plantão, entre todas as disciplinas foi a que mais me deu oportunidade de adquirir experiência, uma escolha que não me arrependo. (NICOLO, 2016)

Eduardo Tedeschi:

A última pessoa que escutei falou sobre sua dependência com relação aos outros. Eu estava em paz nessa conversa. Acho que havia em mim serenidade para acompanhá-la em suas lágrimas e nas incertezas que a vida lhe lançava. Ao terminar meus atendimentos e fechar todos os documentos, sentia-me preenchido de muitas histórias, mas vazio. Ainda cabe muito relato em mim! Agora é um novo momento, um novo capítulo a ser escrito. Este termina. É como ouvi de um cliente no plantão: “Após todo fim, há um recomeço.” (sic)

Wagner Honório da Silva:

Por fim, todos esses encontros foram edificantes e acredito que foi uma experiência intensa e até certo ponto visceral. Ser-com-o-cliente como um facilitador, caminhando junto, em seu ritmo, até onde e quando conseguirmos chegar.

Bianca Caroline:

A experiência do Plantão foi diferente, cheia de aprendizado. Compreendi que o Plantão pode ser feito em muitos lugares. Percebi que a escuta diferenciada e atenta se mostra significativa para que um movimento aconteça rumo ao crescimento de todos.

Jessica Maria dos Santos:

Tenho que agradecer a experiência que vivi no decorrer deste ano, tenho ciência de que em nenhum outro estágio seria possível lidar e ouvir tantas histórias diferentes. Enriqueceu minha vivência como estudante de Psicologia, como pessoa.

Sabrina Baptista:

Hoje me percebo totalmente diferente de quando iniciei o estágio. Me sinto mais empática, segura, consigo respeitar o silêncio do outro o que antes era totalmente difícil. Hoje procuro identificar junto com o cliente as suas impressões pessoais para não ter uma compreensão antecipada e errada de suas experiências. Compartilho minha experiência por meio desta breve narrativa, penso que todos os universitários de Psicologia deveriam vivenciar o Plantao, é uma realidade dinâmica que todos deveriam sentir e conhecer.

Sisley Sotero:

O cuidado com a história de vida do ser humano permitiu um olhar voltado para as pessoas. Cada história apresentada a mim e pensada juntamente com o cliente foi um pedaço do meu crescimento como profissional durante este ultimo ano. Espero que tenha mais visibilidade e interesse por parte de outros estagiários que poderão dar continuidade ao trabalho que realizamos.

Bruna Spoladore: “Encerraram-se as atividades e o que ficará é a certeza de que foi o estágio com a maior riqueza de emoções e aprendizado.”

Marina Azevedo Menossi, Marina Minucci Steiner, Suzane Antonelli Salvador, Vanessa de Oliveira:

A modificação que ocorreu em nosso olhar para com o outro foi quando entendemos que não há uma única verdade. Existe muitas, cada um com a sua. Não devemos buscar por esta verdade única, pois não será possível. E nem deve ser. Quando ouvimos o cliente estamos sendo postos de frente a sua história de vida, aos acontecimentos que viveu e é daí que ele retira a sua forma de compreender o que aconteceu com ele.

Penso no que ficou em mim neste ano de 2015. Vejo a supervisão de estágios como a possibilidade de tornar constante o aprendizado do tornar-me psicóloga. Não entendo a supervisão como oportunidade de apontar o que eu sei e o que o estagiário não conhece. Facilitar o tornar-se psicólogo é não desafiar o solo do campo, mas facilitar a florada.

Penso em mim neste ano de 2015 e na trajetória que todos percorremos. Releio Rogers (1983, p.220) e compreendo ao meu modo suas palavras:

Mas talvez a principal razão que me leva a arriscar seja a descoberta de que, ao fazê-lo, aprendo, quer eu fracasse ou seja bem sucedido. Aprender, e especialmente aprender com a experiência, tem sido um elemento fundamental que faz com que minha vida valha a pena. Tal aprendizado me ajuda a crescer. Por isso, continuo a arriscar.

4- Considerações Finais:

O ano de 2015 terminou superando o que esperávamos em números de atendimentos e produção teórica dos plantonistas. Alguns ajustes ainda devem ser feitos para o ano seguinte. O término de um ano não denuncia o fim de algo nas vivências de um supervisor, mas mostra um desfecho. O que penso sobre desfecho?

Leio Pompéia (2013, p. 52) e reescrevo o que me faz sentido:

É que desfecho ao mesmo tempo em que encerra, fecha, também é abertura. Quando ele ocorre tudo começa ou de novo, ou outra vez. Começar de novo não é o mesmo que começar outra vez. Começar de novo tem o caráter de novidade; uma nova coisa vem se colocar quando o desfecho preenche a primeira situação. Todo desfecho efetiva uma passagem.”

O resgate da autenticidade do Plantão Psicológico des-fechou a passagem para a autenticidade no encontro com aquele que busca escuta e compreensão para os seus mistérios. Acompanhar a trajetória dos plantonistas durante a diversidade dos atendimentos, desde o receio inicial até a disposição plena para receber quem viesse, mostrou-me que estávamos todos encantados com os pensamentos e experiências compartilhadas. Mostrou-nos o significado do encontro verdadeiro entre pessoas dispostas a estar em contato autêntico, genuíno, congruente.

O resgate iniciado em 2015 ainda está em movimento. Não retomaremos os anos 60, não voltaremos aos anos 70. Inauguramos a cada ano um novo olhar: os alunos são outros, eu ando em constantes mudanças, o mundo se apresenta de jeitos diferentes, as pessoas se afetam singularmente à mercê de tudo que se lhe apresenta. Talvez a expressão não seja o resgate da autenticidade, mas o semear e o cuidar do plantio da autenticidade no solo fértil das relações humanas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FETH, M & BORATYNSKI, A. O Catador de Pensamentos. São Paulo, SP: Brinque-Book, 1996.

FREIRE, Paulo. Carta de Paulo Freire aos professores. ESTUDOS AVANÇADOS 15 (42), 2001, Disponível em: http://www.revistas.usp.br/eav/article/view/9805/11377.  Acesso em 02 de outubro de 2016.

HEIDEGGER. M. A Questão da Técnica. Tradução de Marco Aurélio Werle. São Paulo, SP: Revista Scientia Studia, 2007.

MAHFOUD, M. Desafios sempre renovados: Plantão Psicológico. In: TASSINARI, M.A., CORDEIRO, A.P.S., DURANGE,W.T. (org.) Revisitando o Plantão Psicológico Centrado na Pessoa. Curitiba, PR: Editora CRV, 2013.

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