Panorâmica do mal-estar do trabalhador na contemporaneidade

KÁTIA CRISTINA DE OLIVEIRA

No período atual, especificamente, a partir de 1968 vários elementos convergem no sentido de considerar o trabalho “como fonte nociva para vida mental” do trabalhador. (Dejours. 1988. p.25)

Procurando divulgar aquilo que coloca em perigo a vida mental do trabalhador, Dejours (op. cit.) faz um levantamento histórico da saúde dos trabalhadores, através do “movimento operário e da correlação de forças entre trabalhadores, patrões e Estado”.(op. cit. p.13) Nessa reconstrução histórica, o autor narra a evolução das condições de vida e de trabalho associando-a com as lutas e reivindicações operárias, isso porque “as melhorias dessas condições de trabalho e de saúde foram raramente oferecidas graciosamente pelos parceiros sociais”.(op. cit. p.13)

No primeiro período, durante o século XIX, o desenvolvimento do capitalismo caracterizou-se pelo aumento da produção, êxodo rural e concentração da população nas áreas urbanas. Ocasionou, também e paradoxalmente, condições de vida completamente precárias, com alta duração das jornadas de trabalho, chegando até 16 horas por dia, emprego indiscriminado de crianças, salários muito baixos, insuficientes para dar conta da sobrevivência dos trabalhadores e suas famílias, onde as moradias se reduziam a locais velhos e em ruínas. Agravam-se assim, as condições de higiene, subalimentação, promiscuidade, acidentes no trabalho e alta mortalidade. Por isso, esta época, é marcada pela luta pela sobrevivência, pelo direito à vida e a “construção do instrumento necessário à sua conquista: a liberdade de organização” (Dejours. 1988. p.17).

O segundo período compreende o início do século XX até 1968. Através da organização dos trabalhadores conquistou-se o direito de viver, surgindo a partir daí reivindicações cada vez mais diversificadas; dentre estas, de forma mais específica predominavam as preocupações com a saúde do corpo: à luta pela melhoria das condições de trabalho, segurança, higiene e prevenção de doenças, com garantias de tratamento e cuidados específicos aos trabalhadores.

O período a partir de 1968, vem sendo marcado pelo sofrimento mental do trabalhador e este é um território quase desconhecido, isto porque os especialistas do homem no trabalho se dedicam em “definir métodos de seleção psicológica.” (op. cit. p.22) Apesar disso, “a luta pela saúde mental está hoje iniciada, mesmo se sua elaboração continua balbuciante”.(op. cit. p.23) Esse fenômeno tem várias razões, se destacando o “esgotamento do sistema Taylor[1] ”, tanto a nível econômico, onde a rotatividade, sabotagem, absenteísmo, greves, etc, faz as organizações procurarem novas soluções para essa problemática; no nível do controle social, “onde este sistema organizacional não garante mais sua superioridade” (op. cit. p.23); e a nível ideológico, onde o sistema Taylor é considerado desumano.

O que leva o homem se sujeitar a uma organização de trabalho que lhe causa mal-estar, mesmo com todo um legado de sofrimento no trabalho?

2. A CULTURA COMO DISPOSITIVO CONSTITUINTE DE SUBJETIVAÇÃO

Para que a questão anterior possa ser entendida é necessário fazer algumas considerações sobre o que leva os indivíduos se sujeitem, mesmo a sistemas que os fazem sofrer.

Luis C. Figueiredo, em seu livro Revisitando as Psicologias (1996), traz a ética como um “dispositivo ‘ensinante’ de subjetivação”, isto porque ela através de seus costumes e normas sociais, não só ensinam, como “ orientam, modelam e exigem a conversão dos homens em sujeitos historicamente determinados”.(Op. Cit. P.44).

A cultura e a ética sofrem mudanças ao longo do tempo, sendo assim, variam os “padrões implícitos e os códigos explícitos que prescrevem ou proíbem determinadas condutas”, ou seja, sua ética.(Op. Cit. P. 42) Mudam também a forma de sujeição dos indivíduos a esses éthos[2] , no sentido de alcançar o que historicamente lhe é exigido.

O autor considera ainda, que mesmo com toda diversidade que as éticas se apresentam, elas têm algo em comum, que é o habitar o mundo como morada.(op. cit.) A própria condição do homem é ser de coexistência (ser-no-mundo), o que lhe imprime um caráter de abertura e incompletude; abertura porque o homem “existe no sentido preciso de ser para fora de si mesmo” (Op. Cit. P.44), de ser com os outros, por isso dependente e incompleto.

Para limitar os perigos dos “encontros destrutivos e traumáticos”(Op. Cit. P.44), o homem precisa também de momentos de reduzida abertura, onde ele possa se afastar, se recolher e se proteger. São esses momentos de recolhimento que Figueiredo considera como uma morada, onde o homem pode não só se perceber, mas também pode constituir sua alteridade. A partir dessas considerações o autor assevera que “uma ética, na verdade, institui uma troca regulada de afetos e obrigações recíprocas entre os indivíduos”.(Op. Cit. P.49) Afirma ainda, “é somente a partir de um primordial sentir-se em casa que se criam às condições para as experiências de encontro da alteridade e para os conseqüentes acontecimentos desalojadores”.(Op. Cit. P.48) Sendo assim, é o éthos de uma cultura que sujeita os indivíduos, constituindo assim, suas subjetividades e moradas.

Para entender como foi constituídas a subjetividade e morada do trabalhador, inclusive no que lhe causa mal-estar, será necessário uma compreensão da configuração histórica – cultural das relações que os homens estabeleceram entre si e consigo.

3. ALGUMAS FORMAS QUE CONSTITUÍRAM AS SUBJETIVIDADES E AS MORADAS AO LONGO DO TEMPO

Descreveremos sucintamente algumas formas que caracterizaram a relação do homem consigo e com o outro inclusive acompanhado a classificação de Figueiredo (1996).

A primeira é a ética coesiva, caracterizada por papéis e status pré-estabelecidos, a partir da posição da família ou do clã na comunidade. Havia nessa ética limitado espaço onde pudesse se desenvolver uma individualização singularizada. Transgredir essa tradição era o caos; o medo e o pavor eram por deixar de pertencer a uma morada segura e confiável e; só se deixava de pertencer a essa morada, quem se tornasse indivíduo, separando-se de sua comunidade.

Mas esse “éthos coesivo começa a ceder diante do avanço de tendências diferenciadoras e individualizantes” (Op. Cit. P.51). O que levou a abertura de espaços para a razão prática, surgindo então, reflexões e “tentativas de sistematização dos modos desejáveis e legítimos de conduta interativa”.(Op. Cit. P.51).

A segunda é a ética da excelência “, nesse momento histórico, o coletivo ainda impõe as responsabilidades, obrigações e punições, só que aos indivíduos particularizados; os quais eram intimados a exercer sua capacidade de autodominação, auto-superação, ou seja, conduzir suas vidas com perfeição, levando-os ao caminho da excelência.

Ao passo que as individualidades se desenvolviam, também erodiam as formas de identidades tradicionais, no que tange as relações conjugais e vida política. Intensificando o cuidado de si próprio, onde cada um teria que construir sua morada, tornando-se cada vez mais individualizantes.

Na ética da excelência o foco era no desempenho perfeito do trabalho, o qual levava a uma superioridade social. O que muda com a cultura da prática ou cuidado de si não é apenas o domínio de si, mas esse como condição para a independência em relação aos outros.

Com o passar do tempo, a prática mais acentuada do cuidar de si, não apenas garantiu a permissão como também a permanência nas sociedades, enfatizando a sistematização de metas, como lidimais da ação. Perde-se então, “toda objetividade que antes lhes era assegurada no plano de um consenso e de uma tradição”.(Op. Cit. P.55).

Mas mesmo em sociedades completamente individualizadas, não se vive só. Foi necessária, a construção de uma morada coletiva, que garantisse uma universalidade (objetividade) de ação. Necessidade que levou ao surgimento de dois campos éticos: o éthos da vida privada e familiar e o éthos da vida pública. Na ética da vida privada e familiar continuou a imperar a ética coesiva, com papéis e status pré-determinados pelo nascimento, idade, sexo e filiação. Já na ética da vida pública, é construída uma nova ética, a da excelência, que segundo Luis C. Figueiredo (Op. Cit. P.56) “há uma tendência, às vezes latente, mas freqüentemente manifesta, de pensar a conduta segundo o modelo da técnica, mas precisamente, da técnica de controle dos fenômenos naturais. É como se a escolha ética dependesse cada vez mais de uma opção pelo que ‘dá certo’”.

Na modernidade essa ética pública, caracterizou-se por uma intensificação das técnicas de controle, seja na prescrição como na proibição de hábitos, costumas e condutas moral.

A quarta é a ética liberal caracterizada pelo direito a liberdade e a propriedade; essa ética legitima dois campos éticos, o da vida privada e da pública. Na ética da vida privada e doméstica é concedido ao homem ‘adulto’ gerir tanto sua família como seus negócios; essa condição de ser ‘adulto’, na vida pública, lhe garante o exercício das atividades comerciais e políticas.

A morada privada proporcionada pela ética da excelência, que oferecia certo acolhimento; cede lugar diante das novas técnicas de controle. Isso porque, só na teoria, a morada pública da ética liberal garantia abrigo e proteção, porque na realidade não impedia os fracassos como miséria, desemprego, etc; tornando-se, mas uma ficção que um habitar sereno e seguro.

A quinta é a ética disciplinar, que surgiu com a necessidade de ordenar a vida pública e garantir algum tipo de segurança para os indivíduos. A intervenção do poder público ao campo individual intensificou ainda mais, as técnicas de controle, erodindo assim, os valores e atitudes liberais, enfatizando a economia, a obediência, a eficácia, etc.

Como respostas às pressões exercidas pela ética disciplinar, se fortalecem “versões nostálgicas ou revolucionárias, mas sempre de índole restauradora” (Op. Cit. P. 61) caracterizando a sexta ética, a romântica.

O autor afirma que ainda hoje tanto a ética romântica, disciplinar como a liberal está funcionando como estruturadoras da subjetividade contemporânea, ou seja, continuam “fornecendo padrões de condutas, valores, normas e ideais” que legitimam a relação do indivíduo consigo e com os outros.(Op. Cit. P.61).

Mas que ética é essa que estamos vivendo, principalmente no âmbito do trabalho, que como foi introduzido, caracteriza-se pelo sofrimento mental do trabalhador? Que morada é essa?

4. A ÉTICA NA CONTEMPORANEIDADE

Para Guatarri e Rolnik (1993) a cultura hoje funciona em três sentidos – cultura-valor (onde se julga o valor que uma cultura possui), cultura-alma (civilização), cultura-mercadoria (produzir e difundir mercadorias culturais) – complementares. O que se observa na contemporaneidade é a dominância da cultura mercadoria, que se faz numa dupla produção de subjetividade, através dos meios de comunicação de massa. Primeiro, porque a ordem capitalista cria uma cultura homogênea – cultura de vocação universal. Segundo, porque também encoraja culturas particulares, para que as pessoas não se sintam perdidas e sim pertencentes a algum território.

“Esse duplo modo de produção de subjetividade, essa industrialização de cultura coletiva e de cultura mercadoria não renunciou ao sistema de valorização da cultura valor, através dessa falsa democracia da cultura continuam a se instalar os mesmos sistemas de segregação a partir de uma categoria geral da cultura”.(Guattari e Rolnik. 1993. p.20)

Dessa forma, a cultura não funciona apenas como transmissora de informações culturais ou como sistemas de modelização, mas é a forma como a ordem capitalista expõe seu “mercado geral de poder”. Poder não só na manipulação ou criação dos objetos culturais, mas, principalmente, de si apropriar dos objetos culturais com significados diferentes na relação social com os outros. (op.cit.).

Da mesma forma que o capital é um dos modos de semiotização que permite ter um equivalente geral para as produções econômicas e sociais, a cultura é o equivalente geral para as produções de poder. A dupla mais-valia econômica, através do dinheiro e a mais-valia de poder, através da cultura-valor, associada ao poder e sobre a conversão de energias umas nas outras, são os três pilares do Capitalismo Mundial Integrado (CMI). É neste contexto que a cultura atual se configura. (op. cit.).

O modo, a forma e o sentido com que se trabalha, também são produzidos por esta ordem capitalista, ou seja, essa subjetividade fabrica não só a relação do homem com o mundo, mas com o trabalho e consigo mesmo.

Tudo o que é produzido pela subjetivação capitalista são sistemas de conexão direta entre: a grandes máquinas produtivas, as grandes máquinas de controle social e instâncias psíquicas que definem a maneira de perceber o mundo. (op. cit.).

“A produção de subjetividade constitui a matéria prima de toda e qualquer produção”.(op. cit. p.28) Produção esta que não se faz apenas no nível macropolítico – pois não depende exclusivamente de estruturas pesadas de produção das relações sociais. Mas se produz também, na micropolítica, nas minorias, que “juntas, constituem a maioria da população do planeta” (op. cit. p.26), formando um agente coletivo de enunciação.

Mas que homem é esse que a cultura atual produz?

A falência da tradição e a emergência de uma nova ética levaram o homem a tornar-se desenraizado, sem morada, sem acolhimento, sem abrigo, ao contrário, levou-o a cultuar a si próprio, a procurar a autogratificação, a viver num mundo de incertezas e de problemas.(Lach, 1986).

O resultado que essa configuração cultural impõe é a ética do sobrevivente, do mínimo eu, onde os indivíduos encontram-se sem morada, sem o habitar sereno e confiando. Isto porque como vimos o eixo disciplinar, através da ordem capitalista, da tecnologia, exerce sua soberania de forma quase que disfarçada, através dos meios de comunicação, principalmente da mídia, formando assim, uma cultura de massa.

O mal-estar do homem na contemporaneidade, sua insatisfação, sua ansiedade, sua procura, são frutos não só do controle, mas da modelização que a cultura de mercadoria, a cultura de consumo, a cultura de massa impõe, afirmando a passividade, a dependência, em detrimento da autoconfiança, da iniciativa e independência.

Foi citado acima que a ética liberal ainda e também, junto com a romântica e disciplinar, estrutura a subjetividade na contemporaneidade, de um lado ela exige do homem sua independência, do outro uma disciplinar que tolhe a iniciativa e confiança e ainda outra, que exige a pertinência e coerência do indivíduo em sua comunidade. (Figueiredo, 1996) Mas como tornar essas exigências possíveis, se cada uma se sustenta exatamente na sua contradição? E, mas, como não sofrer o mal-estar que essa contradição causa?

E mais, “se hoje a principal fonte de injustiça e de sofrimento na sociedade francesa é o desemprego, o grande palco de sofrimento é certamente o do trabalho, tanto para os que deles se acham excluídos quanto para os que nele permanece (Dejours. 2001. p. 37)”. E no Brasil, onde o desemprego é mais do que uma banalização da injustiça social é um aprisionamento que o poder disciplinar impõe para garantir ‘servos obedientes’ (grifo nosso). Qual a situação do psicólogo nesse contexto? Inclusive o Psicólogo Clínico, que historicamente, ganhou o papel de ouvidor do excluído (Figueiredo, 1996). Mas excluído que o trabalhador? Tanto aquele que se sente ameaçado de desemprego, que seria o potencial desempregado, como aquele que já está desempregado. Nesse contexto, como escutar o excluído do excluído?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DEJOURS, C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez – Oboré, 1988.

____________. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2001.

FIGUEIREDO, L.C. Revisitando as Psicologias: da epistemologia à ética das práticas e discursos psicológicos. São Paulo/ Petrópolis: EDUC/ Vozes, 1996.

____________. Matrizes do pensamento psicológico. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.

GUATARRI, F. / ROLNIK, S. Micropolítica: cartografia do desejo. Petrópolis: Vozes, 1993.

LACH, C. O mínimo eu: sobrevivência psíquica em tempos difíceis. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.

notas de rodapé, convertidas em notas de fim de texto

1.Segundo Ana Magnólia Mendes, profa. dra. da Universidade de Brasília (anamag@unb.br) o Sistema Taylor é uma concepção racional do homem no trabalho, surgiu na época da industrialização e sua principal característica é a adaptação do homem ao trabalho através da padronização, mecanização.
2. FIGUEIREDO, L.C.(1996) Revisitando as Psicologias. “No plano etimológico éthos – o objeto da ética tomada como reflexão ou ‘teoria’ – se refere tanto aos costumes e hábitos como morada”. (p.44)

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002