Para além da psicologia clínica: Psicologia e atenção à saúde na comunidade Maria de Nazaré

André de Lima Gomes

Charlene de Oliveira Pereira

Marísia Oliveira da Silva

Tatiana Filizola Dantas Carneiro

Caracterização do Projeto

O projeto Para além da psicologia clínica: Psicologia e atenção à saúde na comunidade Maria de Nazaré vem trabalhando, discutindo, refletindo e dialogando com a referida comunidade desde meados de junho do ano passado, em 2004.

A necessidade de ir “para além da psicologia clínica”, como colocado no título de nosso projeto, se dá porque historicamente o referencial da psicologia clínica, que é o hegemônico em nossa sociedade, se constrói fundamentado e comprometido com os valores e as necessidades das classes dominantes. Nesse sentido, esta psicologia hegemônica está distanciada da realidade concreta das classes populares, maioria da população brasileira, e de suas diversas formas de expressão, produção de sentido, linguagem, emoções e sofrimentos. Dentro desta ótica, a psicologia além de ter negado as demandas das classes populares, quando tem a boa intenção de trabalhar com elas, corre o risco de não oferecer uma assistência efetiva e condizente com as suas necessidades (AMATUZZI, 2001; MORATO, 1999)

Dentro deste cenário, este projeto surge da necessidade de dar este passo para além da clínica e atuar onde estão as pessoas das classes populares. No nosso caso, escolhemos atuar no lugar de moradia das pessoas, na Comunidade Maria de Nazaré.

Nessa caminhada, buscando contribuir com uma construção de atenção à saúde mais integral, contamos com o olhar das várias disciplinas do projeto Educação Popular em Atenção à Saúde da Família, coordenado pelo professor Eymard Mourão Vasconcelos, que está articulado com o nosso projeto. As ações dos dois projetos se integram nas visitas domiciliares semanais de acompanhamento às famílias no processo saúde/doença, realizadas pelas equipes inter e transdisciplinares.

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1 Graduando do curso de Psicologia da UFPB.

2 Graduanda do curso de Psicologia da UFPB.

3 Professora Assistente do Departamento de Psicologia da UFPB. Mestre em Educação Popular.

4 Graduanda do curso de Psicologia da UFPB.

Objetivos

• Acompanhar as famílias da Comunidade Maria de Nazaré através de uma escuta terapêutica, buscando melhor assisti-las no processo de atenção à saúde;

• Construir, junto com a comunidade e de forma articulada com os movimentos sociais, práticas promotoras de saúde, fortalecendo suas formas de enfrentamento e contribuindo com a conquista de autonomia individual e coletiva;

• Contribuir para a formação acadêmica dos estudantes do curso de psicologia da UFPB, proporcionando a interdisciplinaridade através da interação com alunos de diferentes cursos, além de possibilitar aos extensionistas o aprendizado de novas formas de atuação junto às classes populares.

Metodologia e estratégia de ação

A comunidade Maria de Nazaré, localizada na periferia de João Pessoa, nos Funcionários II, é uma comunidade de baixa renda, que se fixou naquele lugar por meio de uma ocupação organizada pelo movimento dos sem-teto. Lá existe uma escola de ensino fundamental, que foi trazida pela articulação da associação comunitária com a Ação Integrada da igreja católica, movimento composto por várias pastorais que atuam de acordo com a Teologia da Libertação. Existe, ainda, uma rádio, que também foi conseguida via associação. Na realidade, a Ação Integrada tem uma história muito forte na comunidade, visto que foi também através dela que se organizou a associação comunitária. No que se refere a serviços de saúde, a comunidade é atendida por um posto do Programa de Saúde da Família.

Para intervir nesta realidade, temos como orientação metodológica a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), a Educação Popular e a Psicologia Comunitária.

Da ACP, trabalhamos com a escuta psicológica de cunho fenomenológico e existencial, que se baseia num dialógo genuíno de pessoa a pessoa, o que favorece o crescimento pessoal e o resgate do bem-estar desses sujeitos (BUBER, 1979).

Esta perspectiva dialógica da ACP converge com a abordagem dialógica proposta pela Educação Popular. Dialogamos com a comunidade respeitando seu ritmo, seus saberes e sua produção de sentidos, sem perder de vista o nosso horizonte de transformação social. Dessa forma, problematizamos questões que nos são colocadas como naturais ou divinas com o intuito de que os sujeitos se apropriem de sua realidade social para assim poder transformá-la.

Assim, procuramos ter uma Ação-Participante, metodologia própria da Psicologia Comunitária, que segundo Góis (1993) é a ação realizada em conjunto com os moradores a partir de suas necessidades e objetivos.

Partimos destes pressupostos para pôr em prática as seguintes estratégias de ação:

• Visitas domiciliares: todos os sábados, em duplas, acompanhando de forma inter e transdisciplinar o processo saúde/ doença vivenciado por estas famílias;

• Formação de grupos: sempre de acordo com a demanda da comunidade, temos a proposta de formar grupos operativos ou de apoio com os/ as adolescentes, idosos, pessoas com depressão, mulheres;

• Rádio comunitária: elaboramos, conjuntamente com os estudantes dos outros cursos que atuam no projeto Educação popular e atenção à saúde da família e com os moradores da comunidade, programas de rádio com temas relacionados às questões da comunidade.

Ações em desenvolvimento

• Visitas domiciliares

As visitas às famílias são realizadas conjuntamente com os estudantes do projeto Educação popular e atenção à saúde da família. Assim, as famílias são acompanhadas uma vez por semana, todos os sábados, por duplas, sendo que cada estudante dessa dupla é de um curso diferente. Isto porque acreditamos que há uma necessidade de diálogo entre as diversas disciplinas que atuam na atenção à saúde, para a construção de um olhar mais integral sobre o processo saúde/doença. Cada dupla acompanha, em média, três famílias.

• Rádio comunitária

Na rádio também temos uma atuação conjunta com o projeto Educação popular e atenção à saúde da família, produzindo programas que dizem respeito às questões mais gerais da comunidade e também de questões mais relacionadas ao âmbito da psicologia, como depressão, depressão infantil, adolescência, drogas etc.

• Grupos operativos e/ou de apoio

Em relação à formação de grupos, estamos vivenciando um momento delicado, porque há duas demandas na comunidade. Uma é a formação de um grupo de adolescentes do sexo feminino e outra é a formação de um grupo de apoio às pessoas com depressão, que são muitas. Neste momento, estamos avaliando qual dessas duas demandas é a mais urgente, porque não temos condições de “dar conta” dos dois grupos. Também estamos lutando por um espaço adequado ao trabalho com grupos na comunidade.

• Participação nas reuniões organizadas por grupos da comunidade

É fundamental a interlocução deste projeto com os grupos organizados da comunidade, no sentido de colaborar com as suas iniciativas. Já participamos enquanto projeto da campanha do lixo, da caminhada pela paz e das discussões e mobilizações em torno da questão da moradia.

• Oficina de escuta com os integrantes do projeto Educação popular e atenção à saúde da família

Esta oficina ainda está sendo planejada. A necessidade de fazê-la vem da dificuldade colocada pelos integrantes do projeto supracitado de ter uma escuta mais profunda nas visitas domiciliares. A oficina terá três momentos: o primeiro será a leitura de um texto sobre a escuta, o segundo será a vivência da escuta, através de simulações, e o terceiro será o momento de refletir e avaliar como está a escuta do referido projeto em relação às visitas domiciliares.

Conclusões

De uma forma geral, pouco a pouco, estamos alcançando nossos objetivos propostos. No entanto, muitas ações estão por ser feitas. Como estamos num processo de (re)invenção de práticas, cada passo é refletido, avaliado e vivenciado profundamente. Além dessa questão, compreendemos que a construção dessas ações tem que respeitar o ritmo da comunidade Maria de Nazaré. Gostaríamos de registrar que o encontro deste projeto com a referida comunidade é transformador para ambos. É difícil colocar objetivamente que transformações são estas; o que sabemos é que aconteceram a partir da relação estabelecida com a comunidade. Algumas destas transformações seriam aumento da auto-estima das pessoas visitadas, empoderamento dos grupos de adolescentes, sensibilização e criticidade diante da realidade brasileira, tanto para os estudantes quanto para os moradores da comunidade. Por fim, algumas questões que necessitam ser pensadas mais cuidadosamente dizem respeito à participação sistemática da comunidade no planejamento deste projeto, e a possibilidade de trabalhar de forma mais articulada com os movimentos sociais e de forma mais integrada com o Sistema Único de Saúde.

Bibliografia

AMATUZZI, Mauro Martins. O resgate da fala autêntica. Campinas: Papirus, 1989.

BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: 1979.

______. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.

GÓIS, Cezar Wagner Lima. Noções de Psicologia Comunitária. Fortaleza: Edições UFC, 1993.

KAHHALE, Edna. Psicologia na saúde: em busca de uma leitura crítica e de uma atuação compromissada. In: A Perspectiva Sócio-Histórica na Formação em Psicologia. Petrópolis: Vozes, 2003.

MORATO, Henriette. Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. Novos desafios. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.

ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

1 Graduando do curso de Psicologia da UFPB.

2 Graduanda do curso de Psicologia da UFPB.

3 Professora Assistente do Departamento de Psicologia da UFPB. Mestre em Educação Popular.

4 Graduanda do curso de Psicologia da UFPB.

Apresentado no VI Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa – Canela RS – 9 a 15/10/2005